Terça, 24 Março 2026 10:52

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato

para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.

Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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Juacy da Silva* 

 

“Conhecereis a verdade e ela (a verdade) vos libertará”. Evangelho de São João 8:32.
“Recordemos sempre: a espiritualidade precisa desse olhar para o qual o estudo da teologia, da filosofia e de outras disciplinas contribui de modo especial. Tornamo-nos hoje especialistas em detalhes infinitesimais da realidade, mas incapazes de alcançar uma visão de conjunto, uma visão que una as coisas por meio de um significado maior e mais profundo. A experiência cristã, ao contrário, quer nos ensinar a olhar a vida e a realidade com um olhar integrador, capaz de abarcar tudo e rejeitar qualquer lógica parcial”. Papa Leão XIV, Encontro com Alunos e Dirigentes de Universidades Católicas, Vaticano, 28/10/2025.

 

O Papa Leão XIV enfatiza também o papel central dos leigos e leigas, fundamentado no "sacerdócio batismal", destacando a importância da sua formação e conhecimento para a missão da Igreja. Ele incentiva a qualificação dos fiéis, especialmente na liturgia, e o engajamento na doutrina social da Igreja e na transformação do mundo.

 

Pontos-chave sobre o conhecimento para leigos segundo Leão XIV:

 

Sacerdócio Batismal: Todos os batizados têm um papel ativo na Igreja, não sendo apenas espectadores, mas continuadores da missão e da doutrina social da Igreja.

 

Formação Litúrgica: Leão XIV encorajou institutos, como o Pontifício Instituto Litúrgico, a qualificar ministros e fiéis, pois a liturgia forma o coração da Igreja.

 

Conscientização Social: O conhecimento deve ser voltado para a ação, incluindo o cuidado com a criação, desenvolvimento sustentável (ecologia integral) e a justiça social.

 

Diálogo e Missão: O Papa incentiva os leigos a serem construtores de pontes por meio do diálogo e da vivência da fé no cotidiano.

 

A ênfase de Leão XIV está em uma Igreja sinodal, profética, onde a formação dos leigos é essencial para a evangelização e a presença ativa na sociedade.

 

O conhecimento é muito importante em todas as atividades humanas e não é diferente quando se trata da formação de agentes de todas as pastorais, movimentos e organismos da Igreja, leigos e leigas engajados em uma caminhada sociotransformadora.

 

O papel do laicato na Igreja, principalmente a partir do Concílio Vaticano II, tem sido cada vez mais importante, principalmente na dimensão sociotransformadora, capacitando os e as agentes de pastoral nas três dimensões fundamentais de todas as ações pastorais: a espiritualidade libertadora; as ações sociotransformadoras, propriamente ditas; e a mobilização profética, tendo em vista que, além de sermos cristãos, católicos ou de outras religiões, também somos cidadãos e cidadãs e contribuintes e, como tais, temos o direito e o dever de propugnarmos por políticas públicas voltadas para um melhor cuidado da Casa Comum, a ecologia integral e também os princípios da dignidade humana e da justiça social.

 

Diante disso, elaboramos, pela segunda vez, uma relação de sugestões de leitura, enfim, uma bibliografia, para que sirva como fundamento de nossas ações e também no aprofundamento individual e coletivo, facilitando, assim, a caminhada da Pastoral da Ecologia Integral, tanto em nossa Arquidiocese de Cuiabá quanto em outras dioceses, tanto onde a PEI – Pastoral da Ecologia Integral esteja organizada quanto em outras arquidioceses, dioceses, prelazias e paróquias onde a nossa pastoral ainda não esteja presente, mas que, imaginamos, deva também inserir-se na dinâmica da vida da Igreja.

 

Finalizando, gostaria de relembrar as palavras do nosso saudoso Papa Francisco quando disse: “A Igreja precisa dos leigos e leigas, por isso é importante formar leigos para que eles desempenhem seu papel com seriedade e competência na Igreja, além de também promoverem ações pastorais”. Assembleia Plenária do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Vaticano, 08/02/2024.

 

Atenciosamente, um grande e afetuoso abraço,
Cuiabá, 24 de março de 2026

 

Prof. Juacy da Silva, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. e WhatsApp: 65 9 9272-0052.

 

Bibliografia sugerida para uma melhor formação dos agentes da Pastoral da Ecologia Integral – PEI e de outras pastorais sociais, movimentos e organismos da Igreja.

 

Segue-se o elenco das referências bibliográficas sugeridas:

 

  1. Encíclica Laudato Si, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2015.
  2. Exortação Apostólica Querida Amazônia, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
  3. Exortação Apostólica Laudate Deum, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2023.
  4. Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral – Instrumentum Laboris, Edições Paulinas, 2019.
  5. Ecologia Integral: o sagrado e o bem viver dos povos, Caderno 5 – 6ª Semana Social Brasileira, CNBB.
  6. Mutirão por Terra, Teto e Trabalho: Território, direitos sociais e cidadania, Caderno 4 – 6ª Semana Social Brasileira – CNBB.
  7. Todos somos discípulos e missionários – Papa Francisco e o Laicato, Edições Paulinas, 2017.
  8. Ecologia: Vida ou morte?, J. B. Libanio, Paulus Editora, 2010.
  9. Cuidar da Casa Comum – Chaves de leitura teológicas e pastorais Laudato Si, Afonso Murad e Sinivaldo Silva Tavares (org.), Edições Paulinas, 2016.
  10. Ecologia e Decolonialidade: implicações mútuas – Senivaldo Tavares, Edições Paulinas, 2022.
  11. Evangelização nas Cidades: Raízes na Teologia do povo, Dom Edson Oriolo, Paulus Editora, 2019.
  12. O Solo Urbano e a urgência da Paz, Doc. 109, Estudos da CNBB, 2016.
  13. Doutrina Social da Igreja: Economia, trabalho e política – Teologia do Papa Francisco, Elio Estanislau Gasda, Edições Paulinas, 2018.
  14. O Evangelho Social – Manual Básico da Doutrina Social da Igreja, Elvis Rezende Messias e Dom Pedro Cunha Cruz, Paulus Editora, 2020.
  15. Doutrina Social da Igreja – Outro Mundo possível, Altierez dos Santos, Luiz Alexandre Solano Rossi, Paulus Editora, 2024.
  16. Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação e Missão. Papa Francisco, XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Edições Paulinas e Paulus Editora, 2025.
  17. Direitos Humanos e Doutrina Social da Igreja – Da Globalização da indiferença à Globalização da Solidariedade, Rosana Manzini e Ronaldo Zacharias (orgs.), Paulus Editora, 2022.
  18. Doutrina Social da Igreja – Um Guia Prático para Estudo, Pe. Antonio Aparecido Alves, Editora Vozes, 2014.
  19. Magistério e Doutrina Social da Igreja – Continuidade e desafios, Ronaldo Zacharias e Rosana Manzini, Edições Paulinas, 2016.
  20. Catequese e Ecologia – Espiritualidade ecológica e catequese responsável, Luiz Alexandre Solano Rossi e Érica Daiane Mauri, Paulus Editora, 2019.
  21. Catequese Socioambiental – Itinerário de formação com catequistas para a consciência do cuidado com a Casa Comum, Ivanilde Sampaio et al., Paulus Editora, 2025.
  22. Laudato Si no pensamento social da Igreja: da ecologia ambiental à ecologia integral, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2018.
  23. Casa Comum ou globalização da indiferença? Ensaios sobre ecologia integral, fraternidade, política e paz, Paulo César Nodari, Paulus Editora, 2022.
  24. Ecologia e Democracia – Múltiplos olhares, Afonso Murad et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
  25. Pensamento Ecológico – Reflexões críticas sobre meio ambiente, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, Vilmar S. Demamam Berna, Edições Paulinas, 2005.
  26. Ecos Ecológicos – Uma jornada em defesa do meio ambiente, Luizinho Bastos, Edições Paulinas, 2007.
  27. Sustentar a Vida, Renato Ribeiro, Edições Paulinas, 2011.
  28. Nosso Planeta, Nossa Vida – Ecologia e Teologia, Luiz Carlos Susin e Joe Marçal G. dos Santos (orgs.), Edições Paulinas, 2011.
  29. Realmar a Economia – A economia de Francisco e Clara, Eduardo Brasileiro (org.), Paulus Editora, 2023.
  30. O Método Ver–Julgar–Agir: Da ação católica à Teologia da Libertação, Agenor Brighenti, Editora Vozes, 2022.
  31. A Igreja em transformação: razões atuais e perspectivas futuras, Mario de França Miranda, Edições Paulinas, 2019.
  32. Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas, Cesar Kuzma et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
  33. Igreja dos Pobres – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2018.
  34. Igreja Sinodal – Teologia do Papa Francisco, Mário de França Miranda, Edições Paulinas, 2018.
  35. Igreja em Diálogo – Teologia do Papa Francisco, Elias Wolff, Edições Paulinas, 2018.
  36. Pobres para os Pobres: A missão da Igreja, Gerhard Ludwig Muller, Edições Paulinas, 2014.
  37. Ao Lado dos Pobres – Teologia da Libertação, Gerhard Ludwig Muller e Gustavo Gutiérrez, Edições Paulinas, 2014.
  38. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo, César Kuzma, Paulus Editora, 2009.
  39. Organizações populares – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2009.
  40. Encíclica Dilexit Nos, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2025.
  41. Exortação Apostólica Dilexi Te, Papa Leão XIV, Paulus Editora, 2025.
  42. Utopias do Vaticano II: Que sociedade queremos?, União Marista do Brasil, Edições Paulinas, 2013.
  43. Em que o Vaticano II mudou na Igreja, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2016.
  44. Revisitar o Concílio Vaticano II, Dom Demétrio Valentin, Edições Paulinas, 2011.
  45. O Laicato na Igreja e no mundo: um gigante adormecido e domesticado, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2019.
  46. Laicato: Vocação e Missão, Dom Orlando Brandes, Paulus Editora, 2018.
  47. Encíclica Fratelli Tutti, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
  48. IV Encontro da Igreja na Amazônia Legal – 50 anos do Encontro de Santarém (1972–2022), Edições CNBB, 2022.
  49. A desafiante proposta de Aparecida, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2008.
  50. Pastoral da Ecologia Integral: Por uma Igreja sustentável, comprometida com a defesa da vida e da Casa Comum, Pe. José Carlos Pereira e Rodrigo Cerqueira do Nascimento Borba, Edições CNBB, 2016.

 

 

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. 
E- mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

 

 

Terça, 24 Março 2026 09:16

 *Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial

 

Mato Grosso é, lamentavelmente, um dos estados mais agressivos contra as mulheres no Brasil. Nesse cenário de vulnerabilidade extrema, a comunicação deveria atuar como rede de proteção, mas o pensamento conservador característico da região junto a precarização do trabalho jornalístico — alimentada pela não obrigatoriedade de formação específica aprovada em 2009 — tem permitido que, para além das redes sociais, já sem nenhum tipo de regulamentação, outros veículos se transformem em extensões de discursos que agravam o quadro de violências contra as vítimas.

 

A flexibilização da exigência de formação específica em jornalismo não é um detalhe técnico. Ela impacta diretamente a qualidade da informação e contribui para legitimar narrativas que colocam mulheres como suspeitas, exageradas ou manipuladoras — bases típicas de discursos como os difundidos por comunidades “Red Pill”.

 

Mato Grosso tem vivido essa degradação. Todos os dias algum novo veículo, que não possui sequer expediente para identificar sua equipe, espalha narrativas que desvirtuam o papel de informar e evidenciam o de defender interesses particulares. No jornalismo profissional, o expediente é o mínimo que um site sério deve informar. Ele permite saber quem escreve, quem responde, quem edita. Sem isso, não há compromisso verificável com qualquer verdade.

 

Não é nenhuma novidade que o dinheiro aliado à comunicação presta desserviço em nome da disputa retórica, mas isso tem se agravado e, como temos visto, atingido diretamente a vida de milhares de mulheres. Do contrário, os casos teriam diminuído e não aumentado. Cinquenta e três mulheres que eram mães, filhas, amigas, primas, sobrinhas, companheiras foram assassinadas no estado em 2025 - mais de uma por semana, para quem considera que o mais importante nisso tudo é o número. Segundo o Observatório Caliandra (mantido pelo Ministério Público), foi o maior registro dos últimos 5 anos. Em apenas três meses de 2026, ao menos oito mulheres já foram apartadas daqueles que realmente amam, pelas mãos de homens que se sentem no direito de levantar primeiro a voz, depois a mão, e por fim a arma para uma pessoa que simplesmente não é obrigada a conviver com ninguém, caso não queira.     

 

É preciso pensar e lutar pela Comunicação

 

A falta de formação jornalística e o viés ideológico resultam em matérias que, quando não explicitam, induzem o público a diversos erros. Por exemplo, recentemente, um portal de notícias de Mato Grosso, destes, sem expediente e até mesmo com editorias ainda em construção em outro idioma, publicou uma matéria, em tom de vitória, afirmando que um processo contra um agressor - já denunciado por mais de uma vítima - teria sido "anulado". Contudo, os documentos revelam uma realidade estritamente processual: o Tribunal de Justiça de Mato Grosso reconheceu apenas a nulidade da citação por edital.

 

Isso significa que a decisão ocorreu porque o juízo tentou intimar o réu em endereço e telefone errados, sem esgotar as buscas nos sistemas disponíveis. Ou seja, o processo não foi encerrado por inocência do acusado, mas deve recomeçar do ponto da intimação válida. Ao vender uma "anulação" inexistente, o site fortalece a sensação de impunidade em um estado já marcado pelo feminicídio.

 

Em outro site, também sem muitas informações sobre responsáveis, uma notícia sobre agressão em Rondonópolis expõe detalhes sobre a vítima, facilitando sua identificação: onde mora, qual a dinâmica da relação com o agressor, rotina, quais palavrões eram usados para agredir a mulher, entre outras informações de cunho pessoal, quando deveria problematizar o contexto da relação de violência e informar quais são os recursos de proteção e denúncia. Esse tipo de relato transforma violência doméstica em narrativa de ocorrência, sem cuidado com proteção da vítima, tornando-a novamente vítima.

 

Estes são apenas dois casos diante de outros, que costumam utilizar estratégias como narrativas de "Retaliação Emocional", aquelas cujas publicações tentam emplacar a ideia de que mulheres utilizam a Lei Maria da Penha para se vingar de ex-parceiros, classificando denúncias graves como meros ressentimentos pessoais; vazamento de conversas privadas, quando o portal utiliza capturas de tela de conversas íntimas e fotos das vítimas — muitas vezes extraídas de processos que deveriam ser resguardados por sigilo — para expô-las publicamente e gerar constrangimento social; e ataques à própria Lei Maria da Penha, quando o conteúdo frequentemente dá voz a acusados que se dizem "vítimas do sistema", questionando a constitucionalidade e a aplicação da proteção legal feminina.

 

Esse jornalismo "justiceiro" e enviesado ignora que a exposição indevida da imagem e da vida privada de uma mulher em situação de violência é, por si só, uma forma de violência psicológica. Em Mato Grosso, onde o risco de feminicídio é real e constante, a comunicação que escolhe o lado do agressor sob o manto de uma falsa liberdade de expressão torna-se cúmplice do silenciamento das vítimas.

 

A professora Lélica Lacerda, integrante do Grupo de Trabalho Política de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind) destaca, ainda, outras estratégias. “Em geral, se constrói uma narrativa em que o sujeito da frase nunca é o homem. Geralmente, no título, colocam a mulher como sujeito e o motivo pelo qual ela morreu. Nunca é: ‘fulano mata esposa’, é sempre alguma coisa do tipo ‘após ser flagrada com amante, mulher é morta de tal forma’. Outra questão é a exploração das imagens. Em vez de aparecer a imagem dos homens sendo presos, o que tem sido veiculado são imagens das mulheres sendo agredidas. Então, você está no seu cotidiano, comendo, andando e vendo mulher sendo violentada... isso vai dessensibilizando. Nós estamos num momento de hiper exposição de situações de violência e a gente está naturalizando essas violências. Por exemplo, cobertura de guerra: todos os dias a gente vê crianças palestinas sendo bombardeadas, mas não relaciona ao fato de que outros países, Israel e EUA, estão fazendo isso... e isso vai dessensibilizando, desumanizando os palestinos”.    

 

Disciplina é liberdade

 

A história do Jornalismo no Brasil é a seguinte: os próprios trabalhadores da Imprensa defenderam a formação específica para atuar na área no início do século XX. Nem existia curso de jornalismo ainda – o primeiro foi da Casper Líbero, na década de 1940. Isso porque pessoas sem compromisso com o interesse público, empenhadas apenas em obter vantagens pessoais, utilizavam a profissão para isso.

 

Esse comprometimento com o interesse coletivo se chama ética profissional, e é a primeira prerrogativa a qual um trabalhador da Imprensa deve se atentar. Desse modo, até por uma questão de coerência, o Jornalismo não poderia atuar como promotor ou facilitador de discursos de ódio, como o “Red Pill”.

 

Como diz a música: “disciplina é liberdade”. Ninguém pode ser livre no caos. É preciso lutar para retomar a exigência de formação específica para o exercício do Jornalismo, regulamentar as redes e os meios de comunicação e instituir políticas de observação e fiscalização dos veículos.

 

A imprensa só será livre se tiver métodos. Não é liberdade quando é mentira, quando prejudica, quando presta desserviço público.

 

 

Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Segunda, 23 Março 2026 10:21

 

A Câmara dos Deputados aprovou, na última quarta-feira (18), o Projeto de Lei 6.894/2013, que inclui bolsistas de pós-graduação como contribuintes individuais da Previdência Social. A proposta, que segue agora para o Senado, permite que o período de formação científica passe a contar como tempo de contribuição, garantindo acesso a benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e licença-maternidade.

A medida abrange estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado que recebem bolsas de pesquisa vinculadas a agências como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), podendo beneficiar milhares de pesquisadoras e pesquisadores no país.

Para Lívia dos Santos, 1ª vice-presidenta da Regional Planalto e integrante da coordenação do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA) do ANDES-SN, a medida representa um avanço importante, ainda que limitado no reconhecimento da pesquisa como trabalho. “Essa é, sem dúvida, uma conquista e um avanço, mas ainda muito incipiente no que diz respeito à compreensão da pesquisa como trabalho e, principalmente, do reconhecimento do pesquisador como trabalhador.”

Segundo o texto aprovado, a contribuição será de 11% sobre um salário mínimo (R$ 1.621). Com essa alíquota, o acesso à aposentadoria será apenas por idade — atualmente 62 anos para mulheres e 65 para homens. Caso a e o bolsista deseje aposentadoria por tempo de contribuição ou utilizar esse período em regime próprio de servidoras e servidores públicos, será necessário complementar a contribuição com mais 9%, totalizando 20% de recolhimento. As bolsas permanecem isentas de Imposto de Renda.

“Na prática, representa um desconto significativo diante dos valores atuais das bolsas — R$ 2,1 mil no mestrado e R$ 3,1 mil no doutorado, o que pode impactar diretamente a permanência de estudantes na pós-graduação”, alertou Santos.

Segundo a diretora do Sindicato Nacional, a política científica brasileira ainda apresenta contradições. Embora o país tenha ultrapassado 350 mil estudantes matriculados na pós-graduação stricto senso em 2024, no mesmo ano, a Capes (responsável por cerca de 75% das bolsas no Brasil), ofereceu pouco mais de 105.600 bolsas. 

“Isso significa que menos da metade dos alunos de pós-graduação são bolsistas. Além disso, os valores pagos seguem baixos e, ao invés de se considerar um reajuste, a saída encontrada foi autorizar a realização de trabalhos simultâneos – desde 2023, o CNPq autoriza vínculos como CLT concomitante ao recebimento da bolsa -, o que tende a ampliar a precarização do trabalhador e pode comprometer a sua formação e as possibilidades de avanço de algumas das pesquisas”, criticou.

Outro ponto destacado pela docente é a baixa atratividade da carreira científica no Brasil, especialmente fora das universidades públicas. “Afora as universidades públicas, são poucos os espaços de atuação profissional, principalmente para áreas como as ciências humanas”, disse. 

Para a coordenadora do GTSSA, embora a inclusão previdenciária represente uma conquista histórica, ela não resolve problemas estruturais da política de ciência e tecnologia no país, como o baixo número de bolsas, os valores defasados e a ausência de direitos trabalhistas plenos para pesquisadoras e pesquisadores.

Proposta de Lei

A proposta é de autoria do ex-deputado Gonzaga Patriota (PE) e foi aprovada na forma de substitutivo do relator, o deputado Ricardo Galvão (Rede-SP). A cobrança das contribuições dependerá de regulamentação do Poder Executivo e deverá respeitar o prazo legal de 90 dias para entrar em vigor.



Fonte:
Andes-SN (com informações da Agência Câmara de Notícias)

Segunda, 23 Março 2026 09:01

 

 

Reunidas(os) na cidade de Salvador, terra de ancestralidade, das muitas cores, saberes e sabores, capital das resistências, das revoltas dos búzios e dos Malês”! docentes de todo o Brasil realizaram, entre os dias 2 e 6 de março de 2026, o 44º CONGRESSO do ANDES-SN, tendo como tema central: NA CAPITAL DA RESISTÊNCIA, DAS REVOLTAS DOS BÚZIOS E DOS MALÊS: ANDES-SN nas lutas e nas ruas, pela democracia e educação pública, contra as opressões e a extrema direita!”

O 44º CONGRESSO contou com a presença de 462 delegadas(os) de seções sindicais, mais o nosso Presidente, 145 observadoras(es) e 14 convidadas(os) que representaram 93 seções sindicais de todo o país, além de 34 diretoras(es).

Nosso Congresso iniciou com a força dos Orixás, com os alabês do terreiro Oxumaré fazendo um toque para Exú abrir os nossos caminhos, tão necessário diante de um ano que começa com um dos ataques mais agressivos do imperialismo americano na Améfrica Ladina, conceito cunhado por Lélia Gonzalez que expressa o necessário processo de conhecimento e ação contra estruturas de poder marcadas pela colonialidade que sangrou, exterminou e escravizou povos indígenas e africanos. Maior potência termos o canto aos encantados de Thiago Tupinambá, em conjunto com o grupo de ogans da Casa de Oxumarê, em nossa abertura reafirmando nossa ancestralidade e nossa herança de resistência!

Após 22 anos do último Congresso ocorrido na UFBA, em 2004, e no ano em que o ANDES-SN comemora seus 45 anos, realizamos sob o som e embalo dos atabaques, da força dos orixás, um Congresso marcado de resistências, de zelos, de espaços para atuação das nossas crianças, e para o resgate histórico das nossas lutadoras e lutadores como a merecida homenagem à professora Celi Taffarel!

Organizado pela primeira vez por um Coletivo de Oposição - Democracia e Luta, que nos demonstra como a força da organização e a disposição para a luta, nas ruas e nas redes, é capaz de mobilizar, avançar nas conquistas e que não há judiciários que nos impeçam, que nos imponham limites, porque é a luta que muda a vida! Grandioso papel do Coletivo em realizar um potente Congresso e reafirmando que só o ANDES-SN nos representa! Por isso mesmo, o lançamento do Caderno 29 – Memórias e lutas recuperando as trajetórias de coletivos que gestaram o GT de Política de Organização Sindical das Oposições (GTO) foi um marco potente em nosso Congresso.

Também pela 1ª vez, nosso Congresso teve como mestra de cerimônias, a Drag Lola, e a apresentação cultural de Drag Dandara, um ANDES-SN que se desafia, se questiona, se transforma, se reflete, repensa, muda suas posições no debate político entre múltiplas forças e correntes é o demonstrativo de que nosso Sindicato Nacional mantém suas práticas democráticas sem se engessar, sem perder de vista o importante papel nas lutas em defesa da emancipação da classe trabalhadora, da democracia, da educação pública e da vida com dignidade de trabalhadoras e trabalhadores no decorrer dos seus 45 anos.

Nossos debates foram marcados pela indignação e repúdio ao sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da deputada Cilia Flores, um ataque à soberania do povo venezuelano é um demonstrativo de que para o governo Trump nós, latino-americanos, somos extensão da sua propriedade, e a ameaça paira sobre todas(os), daí a importância dos nossos TRs aprovados de apoio à Cuba e ao povo cubano e a participação do ANDES-SN no 1º de Maio em Cuba!

O congresso se instaurou com um novo TR que não constava no Caderno de Textos, mas cujo tema é de relevância para nosso Sindicato Nacional. A proposta de texto trazia como tema "PAREM DE NOS MATAR! A LUTA CONTRA O FEMINICÍDIO É URGENTE E PRECISA DE AÇÕES CONCRETAS”. Diante dos altos índices de feminicídio, casos que se multiplicam no plano nacional, incluindo nas instituições da educação, o ANDES-SN debater o necessário papel a ser efetuado na desconstrução da lógica patriarcal, absorvida pelo capitalismo, que transforma nossos corpos em mercadoria a serem apropriadas, lógica cuja permanência se revela nos altos índices da violência contra mulheres, em especial, mulheres negras.

O debate de Conjuntura se deu na análise do cenário de crise e de barbarização da vida que o capitalismo impõe em múltiplos planos: da crise socioambiental, por um modo de produção que ameaça a vida, no cenário de guerras permanentes, nos processos de precarização das condições de vida de trabalhadoras e trabalhadores, diante de um momento de expansão das políticas de extermínio de parcelas da população negra, jovem e pobre das nossas periferias, tão brilhantemente retratadas na apresentação cultural de Nego Fugido de Acupe no quarto dia de nosso Congresso, demonstrando um passado que possui suas permanências no presente e que a luta pela libertação retratada pelo grupo cultural quilombola se faz necessária, e o ANDES-SN, ao aprovar a luta pela federalização dos crimes de chacina da juventude negra cometidos pelo estado, mantém sua história de solidariedade a todas(os) as(os) oprimidas(os) e reconhece como o Rappa que “Todo camburão tem um que de navio negreiro”!

Nas análises de conjuntura houve o reconhecimento do avanço do fascismo em escala global, e os ataques à educação pública, democrática e socialmente referenciada são expressões desse avanço conservador no tecido social, e reafirmamos a necessidade de unidade de ação para lutarmos na defesa da nossa carreira e na cobrança do nosso acordo de greve, bem como, em ações conjuntas com a categoria do funcionalismo público, em especial do setor de educação, contra a PEC 38/2025 e os retrocessos das minirreformas infraconstitucionais já efetuadas pelo governo federal.

É nesse cenário que nosso plano de lutas dos setores das Federais, Estaduais, Municipais e Distrital reafirma a importância da luta por mais orçamento para a educação, mais concursos para se impedir jornadas extensas de trabalho e a garantia dos direitos das(os) trabalhadoras e trabalhadores da educação.

No setor das IEES, IMES e IDES reafirmamos a importante Semana de Lutas do Setor que ocorrerá em maio, bem como o XXII Encontro do Setor das IEES, IMES e IDES, que tem previsão de ocorrer no segundo semestre deste ano e potencializará a cobrança para que governos estaduais e municipais e distrital cumpram com as determinações de financiamento da educação pública, por isso reafirmamos a necessária continuidade da Campanha: “Universidades Estaduais, Municipais e Distrital: quem conhece defende”, bem como a luta pela implementação da Lei 15.142/2025 - que reserva às pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas o percentual de 30% (trinta por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos, incluindo também a defesa de cotas para docentes Trans/Travesti.

No setor das IFES o debate se deu na necessária construção de um calendário unificado de lutas, incluindo paralisações, em conjunto com as entidades da Educação Federal - Sinasefe e Fasubra; ações de pressão para o cumprimento do Acordo de Greve nº 10/2024, em especial com relação à exigência da publicação imediata da alteração do Decreto nº 1.590/1995 e do substitutivo da Portaria MEC nº 750/2024, garantindo a igualdade de direitos às(aos) nossas(os) docentes EBTTs das(os) docentes do Magistério Superior, e a retomada de Grupo de Trabalho para o reenquadramento de aposentadas(os), dentre outros pontos não cumpridos.

O congresso também aprovou que reivindiquemos do Ministério da Educação a criação de um Banco Nacional de Redistribuição Docente, que interligue os Bancos de Interesse por Redistribuição (Bires) das Instituições Federais de Ensino Superior.

O 44º CONGRESSO foi marcado pelas intervenções do Coletivo de Negras e Negros do ANDES-SN que denunciam o descumprimento da Lei 12.990/14, alertando o impacto do racismo estrutural “porque o racismo é repetitivo (...) nos editais, nas bancas; nos cargos de poder; nas violências cotidianas; no adoecimento silencioso”!

No mesmo sentido, o Coletivo LGBTI+ do ANDES-SN nos lembra que os ataques fascistas da extrema direita se direcionam com mais ódio (às)aos corpas(os) LGBTI+, e a importância do combate à LGBTfobia, e o reconhecimento da transversalidade desse tema nos nossos debates sobre nossa carreira docente, nas condições de trabalho e que, “sem enfrentarmos a LGBTfobia”, não haverá “democracia plena, nem projeto emancipatório consistente” em nosso sindicato.

Um congresso tão atento às especificidades e diversidades de nossa categoria gestou o lançamento da cartilha “Docência sem Barreiras: uma cartilha anticapacitista do ANDES-SN”, uma construção do Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS).

Aprovamos importantes deliberações sobre a política de formação sindical, incluindo várias resoluções sobre a política internacional; prosseguimos com a aprovação de que o ANDES-SN avance no debate sobre sua participação no Fórum Nacional de Educação, bem como aprovamos importantes resoluções sobre os direitos e as necessidades de professoras e professores surdas(os), assim como na política de reparação e avanço da organização de negras e negros.

São muitas tarefas que o ano de 2026 nos imporá e rumaremos ao próximo congresso fortalecidas(os), ainda embaladas(os) pelo hino da independência da Bahia tocado ao som do violino pelo instrumentista Mário Soares, que afirma com o mesmo vigor do ontem, como hoje:

“Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações”

Reafirmamos nossa luta contra o fascismo, sem anistia para golpistas, em defesa da democracia, da educação pública, do serviço público, e do fortalecimento de um sindicato que esteja nas lutas porque SOU DOCENTE, SOU RADICAL, EU SOU DO ANDES, SINDICATO NACIONAL!’

 

Salvador, Bahia, 6 de março de 2026.


 

Obs: documento oficial disponível para download no Arquivo Anexo abaixo

Sexta, 20 Março 2026 18:35

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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 Juacy da Silva* 

 

Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.

Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então, em 21 de março, com o objetivo de despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem-estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.

Sem florestas, os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores, como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.

As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que são produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.

Com a destruição das florestas, seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeito estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” embaixo das florestas são liberados, contribuindo ainda mais para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.

Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e, mais ainda, a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.

No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas. Demorou e ainda está demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário, percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão, têm um impacto profundo não apenas na economia, mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.

De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso país até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não têm mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.

Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas pode ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.

O desmatamento, queimadas, áreas degradadas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que têm florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.

Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de hectares de florestas nativas.

Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, a destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.

O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas, como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrâneas, como os aquíferos, são afetadas drasticamente, contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil, que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.

De forma semelhante, a questão da água ou das águas tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.

Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra, é que, por resolução da ONU, foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então, a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.

Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação à questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.

Tendo em vista tanto o desmatamento quanto as queimadas e a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água, que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação da qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.

Quando refletimos sobre a questão da água, não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.

Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso à água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 agosto 2025).

Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.

Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes têm considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas às leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.

Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.

Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural, o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.

Em relação à água tratada, potável e de qualidade, a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais de 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos, que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.

A falta de acesso à água potável, tratada, tem causado a morte de 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de COVID-19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.

De forma semelhante, também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.

Em 2024, no Brasil, por exemplo, mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados à falta de saneamento, à falta de água tratada, causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.

Tanto em relação ao desmatamento quanto às queimadas, à destruição das nascentes, à erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área, o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Paris.

Em relação às questões da água e do saneamento básico, a situação também não é nada animadora. Alguns estudos indicam que, se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas forem mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Até lá, centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos, vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.

Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, como sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. 
E- mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

 

 

Sexta, 20 Março 2026 18:25

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind. 

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Danilo de Souza* 

  

A transição energética costuma ser apresentada como uma trajetória linear rumo a um futuro inevitavelmente mais limpo e, supostamente, mais barato. No entanto, quando deslocamos o debate do plano ambiental para o plano econômico, surge uma pergunta incômoda: existem hoje exemplos consolidados de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam, ao mesmo tempo, estruturalmente baratas? Se formos rigorosos, a resposta é desconfortável. Não há, entre as grandes economias do G20, um modelo inequívoco que combine alta penetração de fontes de baixo carbono com tarifas sistematicamente baixas ao consumidor final.

O gráfico que relaciona a participação de eólica e solar nos países do G20 com o preço médio da eletricidade em 2023 demonstra uma relação que não pode ser ignorada: países com maior participação dessas fontes variáveis atualmente apresentam preços mais elevados. Alemanha, Espanha e Holanda aparecem com alta penetração de eólica e solar e, simultaneamente, tarifas significativamente superiores à média. A correlação não prova causalidade, mas levanta uma hipótese estrutural: à medida que cresce a participação de fontes intermitentes, cresce também a complexidade, e o custo, do sistema elétrico.

 

 

É fundamental compreender que o custo de uma matriz de baixo carbono não se resume ao custo de geração por megawatt-hora. Eólica e solar, isoladamente, podem apresentar custos competitivos em leilões. Contudo, quando sua participação no sistema se amplia, surgem exigências adicionais: reforço de redes, expansão de transmissão, sistemas avançados de controle, serviços ancilares, reserva de capacidade, armazenamento e usinas de respaldo. Não se trata apenas do painel ou do aerogerador, mas de toda a infraestrutura que permite que essas fontes operem com segurança e estabilidade.

Há também um fator material e industrial relevante. A expansão maciça de renováveis variáveis exige grande volume de aço, cobre, silício, terras raras, semicondutores de potência e, principalmente, baterias quando se busca maior firmeza energética. A densidade energética dessas fontes é menor do que a dos combustíveis fósseis, o que implica maior ocupação territorial e maior quantidade de equipamentos por unidade de energia efetivamente firme. O investimento por megawatt confiável tende a aumentar quando se internaliza a necessidade de armazenamento.

Essa realidade ajuda a explicar por que ainda não temos exemplos claros de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam estruturalmente baratas sem subsídios relevantes ou mecanismos regulatórios de compensação. Em muitos países europeus, parte do custo da transição foi absorvida por tarifas mais elevadas ou por políticas públicas de incentivo financiadas pela sociedade.

O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição peculiar nesse debate. Diferentemente da maioria dos países do G20, cuja base elétrica é fortemente térmica, a matriz brasileira é predominantemente hidrelétrica. Historicamente, a presença de grandes reservatórios conferiu ao sistema elétrico brasileiro uma vantagem estrutural: a capacidade de armazenamento natural. A água acumulada funciona como mecanismo de modulação, permitindo compensar a variabilidade da geração eólica e solar.

Essa característica reduz, em tese, a necessidade imediata de grandes bancos de baterias ou de expansão térmica para equilíbrio sistêmico. A complementariedade entre hidrelétricas, eólica e solar coloca o Brasil em posição diferenciada na construção de uma matriz de baixo carbono.

No entanto, essa vantagem não se traduziu automaticamente em tarifas baixas. Quando observamos o G20, o custo médio da eletricidade no Brasil é significativamente elevado, mesmo sendo um dos países com maior participação de fontes renováveis e com forte base hidráulica. Esse dado desafia simplificações.

Por que isso ocorre? Parte da resposta está fora da geração propriamente dita. Além dos excedentes e das acumulações, a tarifa brasileira incorpora encargos setoriais, subsídios cruzados, políticas públicas embutidas, custos de transmissão em um país de dimensões continentais e ineficiências estruturais acumuladas ao longo do tempo. Ou seja, a matriz pode ser de baixo carbono, mas o sistema como um todo carrega complexidades institucionais e econômicas que pressionam o preço final.

Além disso, a expansão recente de eólica e solar no Brasil também exige investimentos crescentes em transmissão e controle sistêmico, especialmente para escoar energia do Nordeste para os principais centros de carga. A interligação regional é um ativo estratégico, mas não é gratuita.

Outro ponto frequentemente negligenciado é que a expansão hidrelétrica encontra limites ambientais, sociais e hidrológicos. Eventos climáticos extremos e períodos prolongados de seca reduzem a confiabilidade plena dos reservatórios. Isso obriga o acionamento térmico ou a importação de energia, elevando custos.

Portanto, mesmo no caso brasileiro, que possui uma das matrizes mais renováveis do mundo, não há evidência automática de que baixo carbono signifique baixo custo. Pelo contrário, o custo da energia se dá além das questões técnicas, pelo grau de organização dos consumidores. De maneira que, uma matriz de baixo carbono estruturalmente barata não é um ponto de partida, é um projeto.

O desafio central é sistêmico. À medida que cresce a participação de fontes variáveis, aumenta a necessidade de redundância e sofisticação operacional. O custo não está só na geração, mas na arquitetura do sistema. Confundir custo marginal momentâneo com custo estrutural médio é um erro recorrente no debate público.

Isso não significa que uma matriz de baixo carbono e baixo custo seja impossível. Significa que ela não surge espontaneamente. Ela exige planejamento energético rigoroso, estabilidade regulatória, modernização tecnológica, coordenação entre expansão de geração e infraestrutura de rede e revisão constante de incentivos econômicos.

Um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre a expansão das fontes renováveis variáveis diz respeito ao papel crescente das redes elétricas na coordenação do sistema. Historicamente, os sistemas elétricos foram estruturados em torno de grandes geradores despacháveis que ajustavam continuamente a oferta de energia às oscilações da demanda. Nesse arranjo, a rede desempenhava sobretudo uma função passiva de transporte de eletricidade. Com o avanço da geração eólica e solar, do armazenamento e de tecnologias de gestão da demanda, essa lógica começa a se transformar. A rede passa a assumir uma função ativa de coordenação entre múltiplos recursos energéticos, garantindo o acoplamento entre produção e consumo em tempo real e permitindo que diferentes fontes, muitas delas intermitentes e dispersas, operem de forma integrada no sistema elétrico.

Essa mudança implica uma revisão conceitual importante. Em vez de ser compreendida apenas como infraestrutura de transporte de eletricidade, a rede passa a atuar como provedora de flexibilidade energética. Em outras palavras, ela viabiliza o direito de dispor de potência quando e onde ela é necessária, articulando geração centralizada, geração distribuída, armazenamento e controle de carga. Nesse contexto, o valor econômico do sistema elétrico não depende apenas do custo marginal de geração, mas também da capacidade institucional, tecnológica e regulatória de coordenar um conjunto cada vez mais diversificado de ativos energéticos.

A transição energética global é desejável do ponto de vista ambiental e estratégico, mas representa uma transformação estrutural profunda, que envolve investimentos elevados, uma crescente complexidade sistêmica. Nesse contexto, a expansão de fontes intermitentes não se limita à substituição de tecnologias de geração, mas também exige maior sofisticação na organização do setor elétrico e na gestão das redes. O Brasil possui vantagens comparativas relevantes, como uma base hidrelétrica flexível, elevado potencial eólico e solar e um sistema interligado nacional, mas converter essas condições em uma matriz simultaneamente de baixo carbono e estruturalmente barata dependerá menos de discursos e mais de engenharia, governança e planejamento energético de longo prazo. Até o momento, alcançar uma matriz que combine descarbonização profunda com baixo custo permanece um desafio aberto no mundo.

 

OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".

 

*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.

 

Sexta, 20 Março 2026 10:15

 

A Diretoria da Adufmat-Ssind, no uso de suas atribuições regimentais, convoca todos os sindicalizados para Assembleia Geral Ordinária PRESENCIAL a ser realizada na sede da Adufmat-Ssind, em Cuiabá, e nas subsedes de Sinop e Araguaia:

 

Data: 25 de março de 2026 (quarta-feira)

Horário: 13h30 (Cuiabá) com a presença mínima de 10% dos sindicalizados e às 14h, em segunda chamada, com os presentes.

Pauta:

1. Informes;
2. Análise de conjuntura; 
3. Informes qualificados do 44º Congresso do Andes-SN; 
4. Estatuinte da UFMT;
5. Ações de solidariedade a Cuba.

 

A Assembleia será presencial e ocorrerá simultaneamente no auditório da sede da Adufmat-Ssind, em Cuiabá, e nas subsedes dos campi de Sinop e Araguaia.

 

 

Cuiabá, 20 de março de 2026

Gestão Adufmat é pra lutar!

Quinta, 19 Março 2026 14:20

 

De 26 a 29 de março, Porto Alegre (RS) sediará a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O encontro reúne mais de 100 organizações e movimentos comprometidos com o enfrentamento ao avanço da extrema direita e à escalada autoritária, que ameaçam direitos sociais, liberdades democráticas e a própria democracia em diferentes países.

A abertura ocorrerá na quinta-feira (26), às 14h, com o Fórum de Autoridades Antifascistas, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Às 18h, será realizada a Marcha de Abertura da Conferência, com concentração no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público.

A programação inclui ainda conferências e painéis temáticos, construídos de forma plural e participativa, que abordarão temas como o avanço da extrema direita no mundo, o enfrentamento ao neoliberalismo e ao imperialismo, a solidariedade entre os povos, além de pautas como feminismo, antirracismo, defesa da educação pública, direito à comunicação e combate ao negacionismo climático.

A conferência contará também com atividades autogestionadas, com o objetivo de fortalecer a articulação entre organizações, movimentos sociais, juventudes e militâncias populares. O ANDES-SN está entre as entidades que irão realizar essas atividades ao longo do encontro.

No sábado (28), na sede da Secretaria Regional RS do Sindicato Nacional, ocorrerão dois debates organizados pelo sindicato. Das 8h30 às 10h30, será realizada a atividade “Feminicídio e Transfeminicídio como resultado do projeto da extrema direita no Brasil e na América Latina”, com a participação das diretoras do ANDES-SN, Letícia Carolina Nascimento e Emanuela Rútila.

Na sequência, das 11h às 13h, ocorrerá o debate “Os ataques imperialistas na Venezuela e os impactos na América Latina”, com Luis Bonilla-Molina, professor visitante da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e integrante da organização Otras Voces en Educación, e Osvaldo Coggiola, diretor do Sindicato Nacional.

Caravana do FNDC

O ANDES-SN também está apoiando a atividade autogestionada do Fórum Nacional pelo Direito à Comunicação (FNDC). A Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação terá sua primeira parada na I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, também no dia 28 de março.

Serão duas atividades autogestionadas, a partir das 14h, na sede do Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul. O primeiro debate “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo”, contará com a participação do Encarregado de Imprensa e Divulgação do Sindicato Nacional, Diego Marques. O diretor do ANDES-SN dividirá a mesa com Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, Letícia Cesarino, professora da UFSC, Federico Pita, editor de Negrx e do jornal Página 12 da Argentina, e Sérgio Amadeu, professor da UFABC.

A segunda atividade, “Propostas para soberania nas comunicações”, ocorrerá a partir das 16h. Estarão na mesa Helena Martins, Ergon Cugler, Admirson Ferro Júnior (Greg), Mateus Azevedo, José Nunes e Walter Lippold. A inscrição para as mesas do FNDC pode ser feita aqui.

Encerramento

A conferência será encerrada no dia 29 de março, com uma Assembleia Geral, que deve aprovar a “Carta de Porto Alegre”. O documento pretende consolidar uma articulação internacionalista em defesa da democracia e da soberania dos povos.

A programação completa pode ser acessada aqui.

 

Fonte: Andes-SN  

Quinta, 19 Março 2026 14:13

 

 

Publicação reforça o compromisso entre a atuação sindical e a produção científica

 

Lançada em 1991, no décimo aniversário de fundação do ANDES Sindicato Nacional, a Revista Universidade e Sociedade nasceu como um instrumento fundamental de ação política e acadêmica. Um de seus maiores marcos históricos ocorreu logo na edição número 1, que trouxe uma entrevista exclusiva com o educador Paulo Freire, discutindo a universidade democrática e a alfabetização como prática de liberdade. A entrevista é reproduzida ao final desta matéria.

 

 

O surgimento da revista ocorreu em uma conjuntura extremamente complexa, alguns anos após o fim da ditadura empresarial-militar, com o objetivo de enfrentar o projeto ditatorial de Universidade e colaborar com o processo de redemocratização do país. Originalmente com periodicidade quadrimestral, a publicação passou a ser semestral a partir da edição 35, em fevereiro de 2005.

Entre as propostas para a criação da revista estavam constituir um fórum de debates de questões que diziam respeito à educação superior brasileira, divulgar trabalhos, pesquisas e comunicações de caráter acadêmico que abordassem e/ou refletissem as questões do ensino, cultura, artes, ciência e tecnologia, permitir troca de experiências, espaço de reflexão e discussão crítica favorecendo a integração dos e das docentes, e, ainda, oferecer espaço à apresentação de experiências de organizações sindicais de outros países, especialmente da América Latina, visando a integração e a conjugação de esforços em prol de uma educação libertadora.

“À medida que o mundo se converte numa tribo, a perspectiva internacionalista se impõe como uma exigência inadiável. Por insignificantes que possam parecer, há tarefas intransferíveis que cabem a nós, trabalhadores do setor da educação e ciência, que batalhamos no Brasil, em relação ao sindicalismo mundial. Omitirmo-nos a assumir nosso papel, será um desserviço à causa universal dos trabalhadores”, afirmou o editorial do primeiro número, assinado por Sadi Dal Rosso, editor do primeiro número e presidente do ANDES-SN entre 1988 e 1990.

Dal Rosso ressaltou ainda que a revista Universidade e Sociedade seria a única, no Brasil, a analisar a educação e a sociedade a partir da ótica da universidade, e a universidade e a educação, mediante as necessidades e as exigências do conjunto da sociedade. “Nesse sentido não poderá se fechar às questões internas da universidade. Estará, antes, constantemente aberta para acompanhar a caminhada do povo brasileiro, para cuja revolução social supõe que anteceda ou acompanha uma verdadeira revolução educacional”, destacou.

Trajetória e destaques editoriais

Ao longo de décadas, a revista registrou as principais lutas do movimento docente. O debate sobre a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), as contrarreformas do Estado, em diferentes governos pós redemocratização, que afetaram a educação, a previdência e os direitos trabalhistas, a expansão desordenada do ensino superior, a privatização e mercantilização da educação e da ciência e tecnologia, a saúde docente e o ensino a distância foram alguns dos tantos assuntos elaborados nos mais de 70 números da revista.

A Universidade e Sociedade também é um espaço de reflexão sobre temas cruciais para a sociedade e ajuda, inclusive, no registro histórico dos diferentes enfrentamentos da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo, ao longo das últimas três décadas.

As publicações trouxeram, por exemplo, denúncias sobre o suicídio de jovens indígenas Guarani, a violência policial contra as populações periféricas e os crimes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Trataram da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra por reforma agrária, das mulheres por mais espaço na política e no movimento sindical, as jornadas de Junho de 2013 e seus impactos, a crise climática e a necessidade de pensar uma outra forma de sociabilidade, entre outros temas de relevância.

Confira alguns destaques abaixo (acesse todas as publicações aqui): 

REVISTA 01 (Fevereiro 1991): Além da entrevista com Paulo Freire, abordou os desafios do movimento docente após dez anos de ANDES, a autonomia coletiva, o papel da universidade pública e trouxe reflexões de Florestan Fernandes e Ignez Navarro de Moraes sobre a "conciliação aberta" na LDB. A revista publicou ainda a Carta do Rio de Janeiro, documento síntese do I Encontro Latinoamericano de Organizações de Docentes de Instituições de Ensino Superior, realizado de 24 a 26 de outubro de 1990.

Revista 05 (Julho 1993): Focou na Revisão Constitucional, na relação entre Educação e Trabalho e apresentou uma entrevista com Dom Pedro Casaldáliga.

Revista 09 (Outubro 1995): Abordou a questão agrária e introduziu, pela primeira vez, o tema da Comunicação, debatendo o monopólio da terra versus o monopólio da comunicação e a necessidade de uma política de comunicação para o Sindicato Nacional.

Revista 12 (Fevereiro 1997): Trouxe um encarte especial sobre a LDB. O material analisou o processo de construção democrática da Lei nº 9.394/96 até sua aprovação, considerada antidemocrática, incluindo uma análise técnica de seus principais pontos.

Revista 13 (Julho 1997): Destacou o ensaio fotográfico "Terondera" ("Sem amanhã"), denunciando o genocídio moderno e o suicídio de jovens indígenas Guaranis no Mato Grosso do Sul devido ao avanço do agronegócio sobre as terras daquele povo.

Revista 15 (Fevereiro 1998): Apresentou uma entrevista histórica com o centenário jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que aos 100 anos defendia o nacionalismo contra o fracasso do governo FHC. A publicação trouxe também um Caderno Especial com a proposta do Plano Nacional de Educação (PNE), elaborada pela sociedade brasileira.

Revista 20 (Set/Dez 1999): Homenageou a resistência de Chiapas e o povo mexicano com a publicação de uma carta do Subcomandante Marcos a José Saramago, prêmio Nobel de literatura. A revista trouxe também a seção "Mulher & Sociedade", que discutiu ações afirmativas de gênero, saúde reprodutiva e estereótipos sexistas no ensino superior.

Revista 23 (Fev 2001): Realizou um resgate dos 20 anos do ANDES-SN, com síntese histórica, conjunto fotográfico e homenagem ao jornal do sindicato, InformANDES, como preservador da memória docente.

Revista 27 (Junho 2002): Debateu o binômio "Mídia e Poder", analisando o capital estrangeiro na mídia brasileira e a disputa de hegemonia pela comunicação sindical.

Revista 28 (Novembro 2002): Inaugurou a editoria "Debates Contemporâneos", tratando das mentiras da guerra no Afeganistão, a luta pela água e os fundamentos do teatro de Brecht.

Revista 29 (Março 2003): Sob o tema "Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil", fez história ao publicar o primeiro artigo de autores e autoras indígenas (Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante), relatando suas experiências de luta e legitimidade das ocupações.

Revista 30 (Junho 2003): Focou na Seguridade Social e na contrarreforma da Previdência do primeiro governo Lula, analisando o valor estratégico da previdência pública e o impacto na categoria docente.

Revista 33 (Junho 2004): Analisou criticamente a contrarreforma universitária em curso no governo Lula.

Revista 37 (Março 2006): Edição especial dos 25 anos do ANDES-SN, com entrevistas sobre a militância política e sindical, além de debater a concepção de "universidade shopping center".

Revista 43 (Janeiro 2009): A publicação teve como tema a nova divisão internacional do trabalho e a América Latina: perspectivas e desafios. Trouxe também o dossiê “A OIT, ações do ANDES-SN e a Liberdade Sindical”, caracterizando as lutas pela organização nas instituições de ensino superior particulares e confessionais e as convenções da Organização Internacional do Trabalho.

Revista 44 (Julho 2009): Além de tratar da crise da economia capitalista e os desafios da universidade pública, incluiu o dossiê “Repressão Institucionalizada”, relatando, no calor dos fatos, os violentos acontecimentos na Universidade de São Paulo (USP), em junho de 2009, quando a administração superior da instituição fez uso da força policial dentro do campus contra docentes e estudantes.

Revista 45 (Janeiro 2010): Abordou a alienação e o estresse no trabalho docente e a reforma na Educação. Incluiu ainda o dossiê “Por um Haiti livre”, denunciando a deterioração da vida sob a ocupação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) e exigindo a retirada das tropas brasileiras.

Revista 46 (Junho 2010): Com tema "Política de Cotas na Universidade: Acesso, Permanência e Democratização", deliberado por decisão congressual,  a publicação reuniu 12 textos defendendo as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas como fundamentais para a coesão social e o combate ao racismo estrutural. A publicação trouxe um ensaio do professor Kabengele Munanga, sobre o papel do multiculturalismo, com relação à diversidade étnica.

Revista 47 (Fevereiro 2011): Número especial do 30º Congresso do ANDES-SN, revisitando as três décadas da entidade e das lutas, derrotas e vitórias da categoria docente.

Revista 51 (Março 2013): Refletiu sobre a crise capitalista e a histórica greve docente de 2012 em diversas universidades estaduais e também nas universidades federais. A paralisação das IFE durou quatro meses e unificou diversas categorias do serviço público federal.

Revista 53 (Fevereiro 2014): Trouxe artigos sobre educação, as Jornadas de Junho e a ordem pública numa era de violência, além de abordar a precarização do trabalho docente e da educação pública. A editoria “Atualidade em Foco”, trouxe um ensaio fotográfico das manifestações de junho de 2013.

Revista 57 (Janeiro 2016): Focou nas lutas sociais contra a agenda do capital e registrou a greve dos docentes federais de 2015 em sua seção de atualidades.

Revista 59 (Janeiro 2017): Discutiu os limites do capital em questões agrárias, urbanas e ambientais, com foco na flexibilização da legislação ambiental e biocombustíveis.

Revista 60 (Julho 2017): Abordou a dívida pública e as contrarreformas. Incluiu o ensaio fotográfico "Ousar lutar, ousar vencer" sobre o movimento #OcupeBrasília, que levou mais de 150 mil pessoas à capital federal contra a reforma da Previdência de Michel Temer e foi duramente reprimido pelas forças armadas.

Revista 62 especial (Junho 2018): Primeira edição especial da revista, abordou os 130 anos da abolição da escravidão, focando na resistência do povo negro, na luta por reparações e denúncias contra o trabalho escravo contemporâneo.

Revista Outubro 2019 (Especial América Latina): Edição bilíngue comemorativa do Dia do Professor e da Professora, analisando o projeto do capital para a educação superior em diversos países latinos e rememorando Paulo Freire.

Revista 66 (Julho 2020): Dedicada ao legado de Paulo Freire frente aos ataques intensificados à educação e ao desastre econômico precipitado pela pandemia de Covid-19, sob o governo do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.

Revista 67 (Janeiro 2021): Analisou o binômio "Pandemia e Educação", criticando o Ensino Remoto e seus impactos na saúde mental e na destruição da universidade pública.

Revista 68 (Julho 2021): Comemorou os 30 anos da Universidade e Sociedade e os 40 anos do ANDES-SN. Incluiu uma "Página de Silêncio" em homenagem às vítimas da Covid-19, como o funcionário do ANDES-SN Marcos Goulart de Souza.

Revista 70 (Julho 2022): Debateu os desafios do retorno ao ensino e demais atividades presenciais e a resistência necessária para não deixar o governo "passar a boiada" no orçamento destinado ao ensino superior público.

Revista 71 (Fevereiro 2023): Analisou o fenômeno anti-ciência e o negacionismo, o Novo Ensino Médio, os reflexos do trabalho remoto na saúde de docentes universitários. Trouxe a reportagem fotográfica "Derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas", que registrou a luta da categoria docente contra o governo de extrema direita.

Revista 73 (Fevereiro 2024): Resgatou a história do movimento docente no marco dos 60 anos de resistência à ditadura empresarial-militar.

Revista 74 (Julho 2024): Reafirmou a urgência da luta antirracista nas Universidades, Institutos Federais e Cefets.

Revista 75 (Janeiro 2025): Marcou o lançamento da seção Internacional, com textos bilíngues, além de uma análise ética e política da greve das universidades, institutos federais e cefets em 2024.

Revista 77 (Janeiro 2026): Edição lançada no 44º Congresso ,realizado em março deste ano, em Salvador (BA), no marco dos 45 anos do ANDES-SN, celebrados em 19 de fevereiro. A publicação aborda as resistências e desafios da categoria docente em universidades multicampi e em regiões de fronteira.

 


 

ENTREVISTA PAULO FREIRE: A PAIXÃO DE MUDAR, DE REFAZER, DE CRIAR…

*Reproduzida integralmente da Revista Universidade e Sociedade Nº 01, Fevereiro de 1991.

O ANDES - SINDICATO NACIONAL foi a São Paulo conversar com Paulo Freire, o educador brasileiro mais conhecido e premiado mundialmente. Paulo Freire falou de suas idéias sobre a Universidade, a educação em geral e de seu trabalho atual na Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

 

 

 

ANDES-SN: A Universidade não tem sido um tema tratado por você com frequência, pelo menos de modo explícito. Entretanto, a educação como prática da liberdade tem relação com a Universidade democrática. Como você vê esta relação?

PAULO FREIRE: 
De fato, explicitamente, não tenho falado muito da Universidade mas implicitamente sim. Isto não quer dizer que não me preocupe ou não goste da Universidade, aliás eu sou um professor universitário. O problema da Universidade Brasileira é que ela tem sido, em todos estes anos, elitista, autoritária e distanciada da realidade. Veja o problema do analfabetismo. Ela simplesmente o ignora, passa ao largo. É verdade que existem exceções. A Universidade Federal da Paraíba vem se preocupando com o problema, mas é preciso que outras, também, se voltem para estudar, pesquisar o problema da alfabetização de adultos e crianças. Embora o analfabetismo não seja um problema apenas pedagógico, a formação de nossos professores, por exemplo, precisa ser mais cuidada. É preciso que leiam autores como Emília Ferreiro, Vigotsky, Snyders e outros. Mas é importante que os textos sejam contextualizados. É preciso ler o mundo, ler a realidade de modo crítico. É preciso que a leitura da palavra seja precedida da leitura do mundo e, este não é um problema apenas da alfabetização, como possa parecer a alguns. Na Universidade, às vezes, os professores esquecem totalmente esta questão. Veja, quando o aluno trabalha com um texto ele, às vezes sequer contextualiza este texto. É necessário que ele situe o autor no tempo, que compreenda o momento em que o autor escreveu e relacione com o momento atual do leitor. Educador e educando precisam superar a postura ingênua e vivenciar uma prática concreta de construção da história. Em relação à questão da democracia é preciso muito mais, é preciso democratizar a Universidade por dentro e por fora. É preciso que um maior número de trabalhadores tenha acesso à Universidade mas também as relações internas da Universidade precisam ser democratizadas. Não basta eleger os dirigentes. Às vezes, nos apegamos a um certo ritualismo mecânico e não avançamos na democratização das relações entre os diferentes segmentos da Universidade. As relações entre professores e alunos precisam ser, de fato, relações educativas, dialógicas.

ANDES-SN: A alfabetização é um tema sobre o qual você inovou e, assim, se projetou mundialmente. Como você vê o problema no Brasil hoje?

PAULO FREIRE: 
É claro que não podemos achar que o que servia para o Brasil da década de 60, serve hoje. O país mudou, mas o problema do analfabetismo permanece e tem-se feito muito pouco neste sentido. Aqui em São Paulo estamos trabalhando com algumas Universidades, através de convênios com a Secretaria e estamos fazendo um trabalho que acredito seja uma importante contribuição à educação do trabalhador. Estamos desenvolvendo um amplo programa de alfabetização e pós-alfabetização coordenado pelo Moacir Gadotti. É o “MOVA” como é conhecido. Aqui, a educação do trabalhador, (criança, jovem e adulto) vem sendo tratada de modo integrado. Não adianta continuarmos nos preocupando apenas com a alfabetização do adulto quando a escola continua expulsando os alunos que vão engrossar o contingente de adultos analfabetos. É preciso alfabetizar os adultos, mas também criar condições para que a escola não continue produzindo analfabetos. É preciso uma transformação radical que mude a cara da escola. Certamente que a mudança da própria situação sócio-econômica do povo brasileiro é fundamental.

ANDES-SN: Enquanto Secretário de Educação de um Município tão complexo como é São Paulo, você deve estar vivendo uma experiência muito rica. Quer falar sobre ela?

PAULO FREIRE:
 Eu teria muita coisa para contar. Prefiro, porém, dizer uma coisa rápida e sinceramente: não me arrependo de ter aceito o convite de Erundina para fazer com ela e um bando de gente boa, esta caminhada. Não me arrependo. Mas, não é fácil mudar.

ANDES-SN: Você é um dos educadores brasileiros mais premiados no exterior. Recentemente esteve na Europa onde recebeu um prêmio. Em que consistiu esse prêmio?

PAULO FREIRE:
 Na verdade, nestes 16 meses em que sou Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, estive algumas vezes no exterior. Gostaria de dizer que, em nenhuma destas viagens, a administração pública teve de gastar sequer um cruzeiro. Têm sido todas estas viagens financiadas pelos organismos que me convidam e que são ora Universidades, ora administrações municipais, ora órgãos internacionais. No próximo mês de maio, por exemplo, estarei me ausentando de São Paulo para receber o doutoramento honoris causa da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Depois que assumi como secretário este é o terceiro doutoramento que recebo e, nestas ocasiões, de modo geral, falo do que fazemos e do que não podemos fazer à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Tenho uma compreensão diferente, não provinciana das relações que o administrador de um setor de trabalho da municipalidade, sobretudo de uma cidade como São Paulo, deve ter com outras partes do mundo. Não me considero turista. Sou um educador engajado, mesmo que nada tenha contra turistas.

ANDES-SN: O que está mudando na Secretaria de Educação Municipal de São Paulo e em que consiste esta mudança?

PAULO FREIRE:
 A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo compreende uma rede de 653 escolas onde funcionam 18.305 classes regidas por 26.966 professores atendendo a 676.239 alunos. Ao assumir a Secretaria, nos comprometemos a construir uma educação pública, popular e que tenha como marca principal a educação como prática da liberdade. Entende-se a escola como um espaço de educação popular voltado para a formação social crítica e para a sociedade democrática. A escola é aberta para que o povo participe coletivamente da construção de um novo saber que leve em conta suas necessidades e se torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria escola. Nesta perspectiva, a escola é também centro irradiador de cultura popular em permanente recriação e também espaço de organização política das classes populares. O trabalhador deve encontrar nesta escola um lugar de debates de ideias, soluções, reflexões onde sistematizando sua própria experiência encontrará meios de auto-emancipação intelectual independentemente dos valores da classe dominante. Temos quatro grandes prioridades que não são hierárquicas mas concomitantes. As mudanças estão se dando, ao mesmo tempo, nos currículos, entendidos de modo amplo, nas próprias condições físicas da escola, no professor que está realizando um amplo programa de formação permanente e na questão da alfabetização de jovens e adultos que já estavam fora da escola. Está mudando além disso a forma de se processar a mudança que está sendo compartilhada, participativa. Estamos construindo progressivamente uma escola pública, popular, autônoma, criativa, competente, séria e alegre ao mesmo tempo, animada por um novo espírito.

ANDES-SN: No seu livro Medo e Ousadia você diz que os professores deveriam ter nas mãos, através de suas organizações, não só a defesa dos salários, mas o processo de sua formação permanente. Pode falar sobre esta questão?

PAULO FREIRE:
 Estou convencido, em primeiro lugar e nisto não estou só, de que a luta dos professores e professoras, jamais deixando de lado a reivindicação salarial, deve ir mais além dela. Ir mais além da reivindicação salarial significa lutar por melhores condições de trabalho, que, proporcionando maior conforto às educadoras e educadores, lhes ofereçam caminhos à criatividade. O descaso a que vem sendo relegada a educação entre nós é tal que se torna fácil reconhecer quão difícil é deixarmo-nos tocar pela paixão de mudar, de refazer, de criar, o que nos empurraria a ir mais além da reivindicação salarial. É neste sentido que a clareza política em torno do que fazemos como educadores ou educadoras, em torno de nosso sonho que é político, se impõe a nós como necessidade de nosso fazer. Quanto mais criticamente claros nos tornamos em face de, a favor de que e de quem, contra que e contra, quem somos educadoras e educadores, tanto melhor percebemos que a eficácia de nossa prática exige de nós competência científica, técnica, e política. Jamais uma sem a outra. Jamais clareza política sem saber científico. Jamais este com ares de descomprometido. Na linha destas reflexões é que me parece fundamental o papel político-pedagógico das entidades da categoria. Tudo o que puder ser feito como contribuição à formação permanente de seus quadros, numa prática e numa visão que não dicotomize o político do científico, deve ser feito.

ANDES-SN: Há cerca de dois anos atrás, falando das perspectivas da educação, você apontava como tarefa fundamental deste final de século a tarefa da libertação e apontava a prática educativa como processo de resgate da liberdade. Como se dá esse resgate?

PAULO FREIRE:
 Penso que a liberdade, como gesto necessário, como impulso fundamental, como expressão de vida, como anseio quando castrada, como ódio quando explosão de busca, nos vem acompanhando ao longo da história. Sem ela, ou melhor, sem luta por ela, não é possível criação, invenção, risco, existência humana. O que ameaça a liberdade não é, porém, o limite de que precisa para ser e sem o qual, deixando de ser, vira licença. O que ameaça a liberdade é o arbítrio que, despótico, se faz autoritarismo. Há sempre ameaças rondando a liberdade que, por isso mesmo, precisa estar desperta. A libertação é o processo permanente de busca da liberdade, que não é ponto de chegada, mas sempre de partida. Se hoje faminto e cansado, preciso de pão e repouso, amanhã, alimentado e dormido, descubro que preciso de som, de imagem, de palavra escrita. Ontem, precisado do fundamental para viver, não percebia o significado do ato arbitrário que fez mudar uma estação de rádio ou silenciou um jornal ou proibiu a venda de um livro. A luta pela liberdade implica um mínimo de sentimento e de percepção da falta da liberdade. Esta luta vem dando sentido à minha prática de educador. Lutar pela libertação, como busca permanente, é a forma que encontro neste final de século, para ser autenticamente gente.

 

 

Fonte: Andes-SN 

Terça, 17 Março 2026 09:48

 

 

As e os docentes da Universidade do Distrito Federal (UnDF) entrarão em greve a partir da próxima sexta-feira (20). A decisão foi tomada em assembleia convocada pelo Sindicato de Docentes da UnDF (SindUnDF – Seção Sindical do ANDES-SN), realizada no dia 12 de março.

 

 

A deliberação pelo movimento paredista ocorre após sucessivas tentativas de diálogo com a administração da universidade. De acordo com Louis Blanchet, presidente do SindUnDF SSind., as professoras e os professores estão há mais de um ano em negociação sobre as condições de trabalho na instituição sem obter respostas efetivas. “Todos os grupos de trabalho e mesas de negociação são interrompidos quando os e as docentes não aceitam o que é imposto pela Reitoria”, denunciou o dirigente.

Entre os principais pontos da pauta de reivindicações estão o reajuste de 10% no salário-base, o aumento da gratificação por magistério superior para 60% do salário-base, a instituição do regime de Dedicação Exclusiva, com gratificação correspondente de 50%, e a redução do tempo necessário para alcançar o topo da carreira, passando de 25 para 15 anos. Em outras universidades estaduais esse tempo varia, em média, entre 15 e 20 anos.

Blanchet explica que a carreira do magistério superior no Distrito Federal está entre as mais defasadas do país. Além disso, as gratificações por titulação estão entre as menores do governo do Distrito Federal (GDF), mesmo com um corpo docente composto majoritariamente por docentes com titulação de mestrado e doutorado.

“O Magistério Superior do DF é a carreira com um dos menores salários do ensino superior e ocupa o penúltimo lugar entre as carreiras do GDF. Isso provoca a evasão de servidores qualificados. As atividades administrativas, como coordenações, não possuem gratificações, o que gera acúmulo de funções sem remuneração”, afirmou Blanchet.

Além da lentidão na progressão e da desvalorização da titulação, a categoria aponta a sobrecarga de trabalho como um dos fatores que contribuem para o processo de precarização. As e os docentes da UnDF também denunciam a ausência de limites para a carga de trabalho e uma exigência mínima de regência de aulas superior à prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), o que compromete o equilíbrio entre ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica.

Conselhos da UnDF

Kíssila Mendes, vice-presidenta da SindUnDF. SSind., ressalta que, desde sua criação, a UnDF foi pensada de uma forma muito fisiológica, como órgão do GDF e não como uma universidade pública.  “Foi passado para todos nós como se isso fosse algo transitório. A nossa primeira pauta, que levou à criação do sindicato, foi a gestão democrática. Não existiam, e como não existem ainda, conselhos. Então, todas as deliberações ainda vêm de cima para baixo, todas as decisões, porque não têm deliberações. E isso ainda é uma luta. A gente, inclusive, precisou judicializar a compreensão do que é ser professor. Então esse é o tamanho do nosso problema”, relatou.

A professora ressaltou que, embora a pauta salarial seja importante, a falta de diálogo, que também é resultado da ausência dos Conselhos e de eleição para reitoria, foi o que levou à deliberação da greve. “A gente não tem o reconhecimento de que a nossa carreira é que deve ocupar os espaços de gestão, os cargos que são administrativos e acadêmicos, como reitoria e pró-reitorias. Nenhum desses espaços é ocupado por professores da carreira. Tudo isso cria uma situação trabalhista bastante ruim, bastante complicada. Não é só o salário. É claro que isso é muito ruim, é a nossa principal reivindicação, mas também [reivindicamos] o acesso à administração da universidade”, acrescentou a vice-presidenta da seção sindical do ANDES-SN na UnDF.

Mesmo com decisão favorável da Justiça, a Reitoria pro tempore mantém o edital considerado irregular para composição dos órgãos colegiados da UnDF, sem contemplar os 70% das vagas destinadas a docentes, conforme determina o artigo 56 da LDB. A medida descumpre o acórdão, que determinou a correção da composição, de modo a garantir o percentual mínimo de 70% das vagas para a carreira docente do quadro permanente.

“Esperamos que o GDF avance na direção de instalar os Conselhos com a nomeação de docentes efetivos e pela instalação de uma eleição para reitor que seja democrática. Até o momento, só nos ofereceu intervenções no sentido contrário, estabelecendo a lista tríplice por meio de decreto, já que não estava prevista em Lei, e prorrogando o mandato da atual reitora”, criticou Louis Blanchet, presidente do SindUnDF SSind.

ANDES-SN apoia a greve

Diante do movimento grevista, a diretoria do ANDES-SN divulgou, na última sexta-feira (13), uma nota de apoio e solidariedade às e aos docentes da UnDF, destacando a legitimidade da mobilização e a importância da luta por melhores condições de trabalho e pela consolidação de uma universidade pública forte e socialmente referenciada. Leia aqui.

Segundo Sérgio Barroso, 1º tesoureiro do Sindicato Nacional e da coordenação do Setor das Instituições Estaduais, Municipais e Distrital de Ensino Superior (Iees, Imes e Ides), a categoria docente da UnDF enfrenta dificuldades desde a criação da universidade em 2021. “A UnDF é uma universidade relativamente nova e a comunidade acadêmica enfrenta uma série de dificuldades relacionadas ao autoritarismo do governo do Distrito Federal e à falta de respeito aos processos democráticos. Há pessoas indicadas para cargos de gestão pelo governo que sequer pertencem à carreira da universidade. Além disso, os conselhos superiores têm dificuldade para funcionar e muitas vezes nem chegam a se reunir. Também há problemas de assédio institucional. Docentes em estágio probatório, por exemplo, são pressionados a assumir cargas horárias superiores às permitidas por lei ou a desempenhar funções que não deveriam exercer”, reforçou o diretor do Sindicato Nacional.

Kíssila reforçou que a greve foi a última alternativa da categoria, na expectativa de conseguir algum avanço nas negociações. “A gente aposta na greve como a nossa maior alternativa, talvez a última alternativa enquanto mobilização. E foi muito legal, porque foi a maior assembleia que a gente já teve, foram 60 pessoas. Hoje, a nossa categoria tem em torno de 100 docentes. Então, muita gente esteve presente e foi quase unânime a decisão pela greve. E é mesmo a nossa aposta, pela abertura de diálogo para melhoria das nossas condições de trabalho e para implementação da gestão democrática na universidade. Embora o GDF tenha um histórico de muita violência em resposta às greves, a gente acha que é um momento muito fundamental, com a chegada dos novos professores, de mobilização na nossa categoria”, concluiu a vice-presidenta do SindUnDF SSind.

 

Fonte: Andes-SN