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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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JUACY DA SILVA*

“As periferias existenciais estão repletas de solidão. Elas estão frequentemente cheias de solidão, tristeza, feridas interiores e perda do gosto pela vida. Na sociedade, vocês podem se sentir isolados, rejeitados e sofrer exclusão, mas não desistam, não se desanimem. Sigam em frente, cultivando no coração a esperança da alegria contagiante do amor de Deus e da fraternidade humana.” Papa Francisco, Vaticano, 14 de outubro de 2021.
O Papa Leão XIV pontua a relação entre pobreza, carências materiais e também os dramas existenciais. Na Exortação Dilexi Te – Sobre o Amor para com os Pobres, ele destaca que “A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, SOBRETUDO, A IGREJA”.
Hoje recebi uma mensagem de uma pessoa amiga, de nome Dulce, que mora bem distante fisicamente, com quem costumo “trocar” ideias e reflexões virtuais, cujo teor transcrevo neste espaço, a partir da qual resolvi também escrever esta reflexão sobre a vida e a morte e a trajetória entre essas duas realidades. A mensagem dizia: "Esses dias eu li uma frase que dizia assim: Alguém, em algum lugar, ainda se lembra de você, porque você foi gentil quando ninguém mais foi."
E aí encerrava a mensagem dizendo: “Que sejamos sempre gentis. A gente nunca sabe o que o outro enfrenta.” Bom diaaaa.
Agradeci a mensagem e aproveitei para escrever esta reflexão, enviada à pessoa amiga e, posteriormente, a ser publicada, dizendo que aquela singela mensagem era, na verdade, uma linda reflexão sobre a vida humana, com duas dimensões: uma, como na mensagem, de que sempre haverá alguém que se lembra da gente, e a outra é que também, diante do envelhecimento populacional no mundo todo, inclusive no Brasil, ao lado da virtualidade e do mundo digital, a cada dia mais pessoas vivem isoladas, “curtindo” solidão, remoendo seus dramas pessoais, familiares ou sociais e políticos.
Esta última parece ser a realidade cada vez mais presente na vida das pessoas idosas ou de quem, mesmo não sendo idoso ou idosa, vive na solidão, relembrando a jornada percorrida, plena de momentos felizes e, quase sempre, de dramas existenciais ou materiais.
Nas periferias geográficas, nas favelas, palafitas, moradias que não oferecem dignidade humana aos pobres, excluídos e injustiçados, vítimas de todos os tipos de violência, podemos observar, com facilidade, suas carências materiais, ausência dos poderes públicos e de cidadania.
Mas o que também existe e quase sempre a gente não consegue ver “a olho nu”, e que está muito presente tanto nas periferias geográficas e em todos os demais territórios e até mesmo em lares abastados, é a periferia existencial, razão pela qual a saúde mental e emocional das pessoas está exigindo um olhar mais atento, com o espírito de fraternidade, de justiça, de amor, perdão, compreensão. Às vezes, apenas uma visita, uma palavra ou um abraço ajudam no resgate de quem está à beira de uma crise existencial.
Estamos terminando este mês de setembro amarelo, dedicado à prevenção do suicídio, situação e drama que têm afetado pessoas de diferentes idades e situações sociais e econômicas, cujo drama pessoal quase sempre está interligado com depressão, angústia, solidão física ou interior e que, às vezes, poucas pessoas em volta percebem. Muitas vezes, o comportamento dessas pessoas é uma mensagem pedindo socorro que a gente não entende e não escuta.
A cada ano, mais de 700 mil pessoas cometem suicídio no mundo, número maior do que o total das mortes em decorrência do HIV, malária, feminicídios, câncer de mama ou ainda de guerras e homicídios.
Voltando à mensagem de minha amiga, eu disse a ela: “É bem assim, principalmente quando a gente vai envelhecendo, o isolamento, a solidão, a falta de contatos, os amigos e amigas morrem ou simplesmente desaparecem da vida da gente, vem a aposentadoria e aí nossa rotina diária se transforma radicalmente, não precisamos ir mais ao trabalho e nossos amigos se esquecem que existimos”.
Mas, vez por outra, alguém que trabalhava ao nosso lado, por décadas, ou que sentava no banco da Igreja ao nosso lado, se lembra de nós, exatamente como nesta reflexão: alguém, por incrível que possa parecer, ainda se lembra da gente, mas isto não é a ‘regra geral’, talvez apenas uma exceção.
Aí vem uma mensagem, uma chamada de WhatsApp, Instagram ou outro meio eletrônico ou até mesmo uma mensagem de áudio, um encontro ocasional ou uma visita inesperada e aí percebemos, pela imagem, que tanto nós quanto nosso amigo ou nossa amiga mudamos muito, pelo menos fisicamente, estamos envelhecidos, com a pele enrugada, dificuldade de locomoção, a memória falhando, confundindo o calendário, o semblante cansado, demonstrando às vezes tristeza, e o diálogo gira em torno das experiências passadas ou dos dramas atuais: doença, morte de amigos/amigas comuns, falta de dinheiro, dramas familiares, violência doméstica, demonstrando que estamos em um outro ‘universo’, bem distante dos tempos agitados quando ainda éramos jovens ou adultos em plena correria pela vida.
Da mesma forma que o tempo não retroage, também constatamos a nossa fragilidade e incapacidade individual de rompermos com este mundo complexo e ‘pesado’ diante de nossa impotência.
É neste momento que despertamos ou acordamos como que de um sono profundo e temos a certeza de que estamos neste mundo iguais a um náufrago na imensidão do oceano, ou como uma nave espacial perdida na imensidão do universo e, dependendo das circunstâncias e de nossos desafios existenciais ou materiais, ainda estamos vivos e podemos ‘furar a bolha do isolamento e da solidão’, não de forma individual, mas, fundamentalmente, de forma comunitária e coletiva. Esta é a nossa “força vital”, que só desaparece quando dermos o último suspiro.
Para tanto, é fundamental o desenvolvimento de ‘políticas públicas’ voltadas tanto para atender às necessidades materiais e existenciais de pessoas que estão envelhecendo ou já envelheceram, mas também de todos os demais grupos sociais e demográficos que padecem dos mesmos problemas (desafios da saúde mental e emocional).
De forma semelhante, outras instituições sociais não governamentais, como Igrejas, Associações de Moradores, sindicatos, clubes de serviços, precisam ter este olhar de amor, de diálogo, de respeito, de compreensão, de cordialidade, de fraternidade, para tornar a vida das pessoas mais feliz e poderem minorar o sofrimento decorrente das carências materiais e afetivas.
Eu tenho investido um pouco de meu tempo e conhecimento refletindo sobre o sentido e o significado da vida, principalmente diante da morte em geral, claro, afinal, a cada dia, não importa a idade, estamos a caminho deste ponto de chegada e, ao mesmo tempo, de partida. Chegada pela finitude da existência humana e partida rumo à transcendência ou mundo espiritual, para as pessoas que assim acreditam.
Por isso precisamos, para usar uma palavra da "moda", ressignificar nossas relações, nossas amizades, nossas rotinas, nossas práticas sociais, políticas, culturais, religiosas e espirituais e, também, refletirmos sobre as demandas materiais que, dependendo das circunstâncias, podem ser bem pesadas, como cuidados com a saúde em geral e cuidados paliativos quando requeridos.
Por isso, chegamos à conclusão de que toda ganância, toda soberba, todo ódio, toda intolerância, toda "pompa e circunstância", luxúria, consumismo, desperdício, toda prepotência, todo poder e "status", com o passar do tempo perdem o brilho, os atrativos diante do que nos espera, bem ali, quando menos esperamos: um desastre, uma bala perdida, um feminicídio, um assalto, um diagnóstico de uma doença grave ou incurável, uma queda, uma hospitalização, enfim, nossas vidas, frágeis, são interrompidas e transformadas radicalmente, podendo, em um segundo, passar desta (vida) para a eternidade e nos transformarmos em meras lembranças ou algumas fotos na parede.
Por isso, devemos cultivar a bondade, a compreensão, a tolerância, o amor ao próximo (sem esperar nada desse próximo, nem retribuição e muito menos gratidão), o desapego às coisas materiais, precisamos cultivar a compreensão, o espírito de justiça, de perdão e solidariedade.
Concluindo esta reflexão, gostaria de transcrever uma referência extraída da mensagem do Papa Francisco, em 24 de julho de 2022, por ocasião do II Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, sobre a qual seria ótimo se todos pudessem ler na íntegra: “Com efeito, a velhice constitui uma estação que não é fácil de entender, mesmo para nós que já a vivemos. Embora chegue depois dum longo caminho, ninguém nos preparou para a enfrentar; parece quase apanhar-nos de surpresa. As sociedades mais desenvolvidas gastam muito para esta idade da vida, mas não ajudam a interpretá-la: proporcionam planos de assistência, mas não projetos de existência”.
E também uma exortação do Papa Leão XIV sobre uma Igreja em saída, rumo às periferias geográficas, sociais e econômicas onde as carências materiais estão imbricadas com os dramas familiares e contribuem para agravar, ainda mais, as periferias existenciais e humanas.
Leão XIV, ao publicar a Exortação Apostólica “Dilexi Te”, em 2025, enfatiza que “Devemos empenhar-nos, cada vez mais, em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que ‘não pode esperar, e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises materiais e existenciais”.
Que Deus ou a divindade na qual você acredita esteja com você e sua família hoje e sempre, onde você pode encontrar a paz interior, sem a qual a jornada perde o sentido e o significado.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy











