Sexta, 06 Novembro 2026 13:50

10ª JORNADA MUNDIAL DOS POBRES 2026 - Juacy da Silva

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

 

“A pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas; à medida que isso acontece, todos somos chamados a criar novos sinais de esperança que testemunhem a caridade cristã... As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através de uma mudança de mentalidade, mas também com a ajuda da ciência... Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação. O compromisso contra a pobreza é uma questão de justiça, antes de ser caridade... Essa pobreza que exclui milhões de pessoas não é vontade de Deus. Ela é resultado de escolhas econômicas, políticas e sociais que priorizam o lucro em detrimento da vida... Perdoa-nos por acumular em vez de partilhar, por usar os bens como poder e não como serviço.” Papa Leão XIV

Por isso, lutar contra as estruturas socioeconômicas, ambientais, culturais, religiosas e políticas que promovem concentração de renda, riqueza, propriedades, desigualdade e geram pobreza é a forma mais efetiva de defender a dignidade e os direitos humanos dos pobres e excluídos, em lugar de mero assistencialismo, às vezes extremamente manipulador.

No dia 17 de outubro de 1987, mais de cem mil pessoas, a convite e por iniciativa do Padre Joseph Wresinski, reuniram-se na Praça dos Direitos Humanos e das Liberdades, em Paris, uma multidão reunida para homenagear as vítimas da fome, da extrema pobreza e da violência ao redor do mundo.

Em 22 de dezembro de 1922, a Assembleia Geral da ONU oficializou, através da Resolução 47/196, dando origem ao Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, com o objetivo de despertar a consciência e a mobilização mundial contra a pobreza, a ser celebrado anualmente em 17 de outubro, cujo tema em 2026 foi Moradia segura e digna para todos.

Posteriormente, em 2015, quando da aprovação dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, foram aprovados os seguintes ODS: 1 — Erradicação da Pobreza: Acabar com a pobreza em todas as suas formas; ODS 2 — Fome Zero: Acabar com a fome e promover a agricultura sustentável, e mais 15 objetivos e 1.677 metas a serem inseridos como referências para o desenvolvimento integrado e sustentável, como metas a serem alcançadas até 2030, demonstrando a importância e o compromisso de mais de 190 países e territórios em combater realmente as causas estruturais da pobreza.

A luta contra a pobreza e as estruturas que a geram já faz parte da caminhada da Igreja (Católica), principalmente a partir de 1891, quando o Papa Leão XIII publicou a Encíclica Rerum Novarum, em defesa dos direitos dos trabalhadores, principalmente para combater a situação de pobreza em que viviam em decorrência da superexploração a que eram submetidos pelo capitalismo selvagem de então e quase da mesma forma ainda nos dias de hoje, no contexto do capitalismo neoliberal.

Após a publicação da Encíclica Laudato Si', em maio de 2015, onde é enfatizado que “o grito da terra é também o grito do pobre e excluído”, o Papa Francisco, no dia 20 de novembro de 2016, criou o Dia Mundial dos Pobres.

A data foi anunciada no encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, por meio da carta apostólica Misericordia et Misera, tendo ficado estabelecido que seria comemorado anualmente no XXXIII Domingo do Tempo Comum, o domingo anterior à Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.

A ideia de criar um dia dedicado aos mais necessitados também teve forte influência de movimentos e de figuras como o jovem francês Etienne Villemain (idealizador da Associação Lázaro), que sugeriu a criação de um momento focado em aproximar a Igreja dos moradores de rua e marginalizados.

A primeira celebração do Dia Mundial dos Pobres ocorreu em 19 de novembro de 2017, tendo como lema "Não amemos com palavras, mas com obras".

E assim, ao longo desses dez anos, o Dia Mundial dos Pobres vem sendo celebrado ao destacar, a cada ano, um lema/tema relacionado às condições de pobreza em que ainda vivem (sem dignidade humana) em torno de 1,2 bilhão de pessoas, das quais 850 milhões na pobreza absoluta.

A fome e a desnutrição, sem falar na falta de água potável, esgotamento sanitário e na precariedade e falta de moradia digna, repito, a fome e a desnutrição, uma das faces mais cruéis da pobreza, são responsáveis diretas por 12 milhões de mortes anualmente, sendo que a desnutrição crônica e a desnutrição aguda grave causam cerca de 3 milhões de mortes de crianças menores de 5 anos por ano. A fome e a pobreza representam a maior tragédia humana ao longo de séculos, mas isto parece não incomodar nem as elites dominantes e muito menos governantes e os donos do poder.

O objetivo ou a motivação que levou o Papa Francisco a criar o Dia Mundial dos Pobres foi a necessidade de despertar a consciência dos cristãos (católicos, ortodoxos e evangélicos) e também fiéis de outras religiões para que não encarem a pobreza apenas como uma estatística ou alvo de esporádicas esmolas e outras formas de assistencialismo paternalista, mas como um convite à proximidade, à escuta e a uma conversão pastoral, social, econômica e política profunda, incluindo a luta contra as estruturas geradoras da pobreza, do sofrimento e da morte dos pobres, excluídos e injustiçados.

Esta preocupação do Papa Francisco situava-se também no contexto de suas exortações em relação à Igreja Sinodal, Samaritana, em Saída e Profética, como uma Igreja caminhando ao lado e com os pobres, fazendo coro à “opção preferencial pelos pobres”, cuja origem é o magistério de Cristo enquanto esteve na terra e reafirmada pelo Concílio Vaticano II, pelos diversos Papas desde então e pelas Conferências Episcopais de todos os continentes desde então.

Mesmo em seu leito de morte, em seus últimos meses de vida, Francisco ainda tinha ânimo e energia para voltar-se para os pobres e estava escrevendo uma Exortação sobre este olhar.

Como não teve tempo para concluir e publicar a Exortação Apostólica, Leão XIV, que, ao escolher seu nome como Papa, disse pretender dar continuidade e aprofundamento à Doutrina Social da Igreja, cuja origem é a Encíclica Rerum Novarum, tem dado continuidade ao Magistério do Papa Francisco em diversos aspectos.

Assim aconteceu: sua 1ª Exortação Apostólica, Dilexi Te (Eu te amei — Do amor aos pobres), teve origem nos escritos do Papa Francisco, e, desde então, suas mensagens pelo Dia Mundial dos Pobres têm apontado os rumos que a Igreja deve seguir diante deste desafio, tanto para a Igreja quanto para todos os Governos Nacionais, Regionais e locais, bem como todas as organizações não governamentais e demais religiões.

Em sua mensagem referente ao Dia Mundial dos Pobres em 2025, seu primeiro ano de Pontificado, Leão XIV assim enfatizou: “Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança”.

Novamente, em sua mensagem pelo Dia dos Pobres neste ano de 2026, Leão XIV demonstra o lema: “O Senhor é o refúgio do pobre (cf. Sl 14, 6)” e exorta os fiéis a compreenderem a importância que os pobres têm na vida da Igreja, não apenas em orações, mas principalmente em ações e mobilização profética para mudar as estruturas que geram e mantêm a pobreza, entre as quais podemos identificar as estruturas econômicas e de mercado, incluindo precarização do trabalho/uberização, subemprego; concentração de renda, salários aviltantes, concentração da terra e outros bens; sistemas tributários regressivos, onerando mais pesadamente os pobres e a classe média baixa; estruturas sociais como racismo, etarismo, discriminações de todos os tipos, desigualdade de gênero, pobreza intergeracional (cultura da pobreza e descarte), desigualdade generalizada, falta de acesso aos serviços de saúde, educação pública, segregação urbana e falta de infraestrutura nas periferias, onde estão os pobres e excluídos, fragilidade das redes de proteção social, falta de representação e representatividade política institucional; degradação ambiental.

Diante da realidade e do sofrimento dos pobres, Leão XIV diz abertamente em sua mensagem (2026): “O clamor dos pobres por justiça é hoje abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais dissimuladas, a ponto de silenciar todos os seus esforços para fazer ouvir as suas reivindicações. O ambiente digital radicaliza o preconceito contra eles e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas. À obsessão daqueles que acumulam riquezas apenas para si opõe-se a obstinação de Deus que, no testemunho de pessoas de carne e osso, abre o coração e acolhe no seu amor.”

A CNBB expandiu as celebrações do Dia Mundial dos Pobres, transformando-o em uma semana inteira, acolhendo a denominação adotada em diversos países pela Igreja como Jornada Mundial dos Pobres.

Assim, a Jornada Mundial dos Pobres, em 2026, no caso do Brasil, a ser celebrada a partir deste próximo domingo, 08, até o domingo seguinte, 15 de novembro, DIA MUNDIAL DOS POBRES, para que, em vez de um evento isolado, a Jornada compreenda um período de uma semana ou mais de preparação, reflexão, subsídios pastorais, encontros orantes e ações concretas nas paróquias e dioceses, culminando no Dia Mundial dos Pobres.

Este é mais um momento/semana para que as Pastorais Sociais, os movimentos, os organismos e serviços da Igreja possam transformar orações e reflexões em ações sociotransformadoras concretas e também promover mobilização profética com o objetivo de transformar as estruturas que geram pobreza, exclusão e todas as formas de violência, com vistas à cultura da paz e da civilização do amor, como tem sido enfatizado por Leão XIV.

Oxalá possamos ouvir a voz profética da Igreja em todos os territórios eclesiásticos do Brasil, nas Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e comunidades, estimulando ações sociotransformadoras, deixando a pobreza, a fome e a exclusão para um passado que tanto nos envergonha.

Este é o sentido e o significado da 10ª JORNADA MUNDIAL DOS POBRES, que não pode ficar restrita apenas a uma semana ou um dia, mas ao longo do ano e de todos os anos.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 
 

 

 

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