Segunda, 29 Setembro 2025 10:44

UM ÚNICO DIA E DUAS CELEBRAÇÕES IMPORTANTES - Juacy da Silva

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
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Juacy da Silva*

“A comida que jogamos no lixo é tirada, injustamente, das mãos de quem não tem e dos que têm direito ao pão de cada dia, em virtude da sua inviolável dignidade humana”. Papa Francisco, mensagem lida na Assembleia da FAO (Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), por Dom Fernando Chica Arellano, Observador Permanente da Santa Sé junto às organizações da FAO, FIDA e PMA, por ocasião do “Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar”, 30 de setembro de 2023.

O Calendário Ecológico neste final de setembro nos convida a refletirmos sobre dois assuntos, temas super importantes tanto para a Ecologia Integral quanto para a vida de milhões, de bilhões de pessoas que são pobres, passam fome, são subalimentadas, desnutridas e também experimentam os rigores das mudanças climáticas e a degradação da natureza, a poluição do ar, dos solos e das águas, em todos os países, inclusive em nosso amado Brasil.

Refiro-me ao DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE A PERDA E DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS, ou o que poderíamos denominar de DESPERDÍCIO ZERO, e também ao DIA MUNDIAL DOS RIOS, ambos a serem celebrados nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2025.

Quando falamos sobre perdas e desperdício de alimentos, o objetivo principal deste despertar da consciência coletiva é sensibilizar as pessoas para que esta realidade possa ser mudada radicalmente, pois tanto as perdas de alimentos, que estão presentes desde a colheita, o transporte, a logística, o armazenamento e, pior ainda, em nossas casas, nos restaurantes, enfim, em todos os locais onde os alimentos estejam presentes, quanto a insensibilidade em relação a quem tem fome é algo que não deveria existir em nossas sociedades e países.

O tema deste Dia Internacional de Conscientização sobre os impactos que as perdas e o desperdício de alimentos, em 2025, provocam é: “Vamos parar com as perdas e o desperdício alimentar, pelas pessoas e pelo planeta.”

O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos foi proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 2019, através da Resolução n.º 74/209, com o objetivo de aumentar a conscientização sobre o desperdício alimentar, promover a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas alimentares. A data escolhida para a celebração foi 29 de setembro, tendo a primeira celebração oficial ocorrido no ano de 2020.

É importante recordar que a ONU, em 2015, quando definiu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, estabeleceu nos ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis e Sustentáveis), sendo que a meta 12.3 é reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita, tanto por parte dos consumidores quanto dos que participam do processo produtivo e de toda a cadeia produtiva de alimentos, como parte da Agenda 2030.

Além disso, ao combater as perdas e o desperdício de alimentos, de forma direta ou indireta, estaremos sensibilizando a população em geral em todos os países e, ao mesmo tempo, promovendo a segurança alimentar e garantindo a sustentabilidade ecológica, tendo em vista que, para produzir alimentos, os sistemas produtivos precisam ocupar áreas, solos, água, energia, mão de obra e outros insumos utilizados na cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.

As perdas acabam se transformando em resíduos sólidos, ou seja, lixo, e também provocam danos ambientais, pois nem sempre essas perdas, este lixo, têm a destinação correta e acabam gerando degradação em diversas localidades, afetando inclusive a saúde humana.

A FAO, uma agência especializada da ONU para assuntos de agricultura e alimentação, estima que aproximadamente um terço de todos os alimentos produzidos no mundo não chegam às mesas de quem precisa e vão parar no lixo.

De acordo com outra agência da ONU, o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente –, em seu relatório de 2024, tendo como base os dados de 2022, naquele ano, e também em anos anteriores, nada menos do que 1,05 bilhão de toneladas métricas de alimentos foram parar no lixo. Isto seria o suficiente para mais de um bilhão de refeições diárias e poderia alimentar mais de um bilhão de pessoas o ano inteiro.

O valor estimado dessas perdas e desperdício no mundo, em 2024, foi de US$ 3,5 trilhões de dólares, ou seja, em torno de R$ 19,5 trilhões de reais (este valor, se fosse o PIB de um país, seria a 6ª maior economia do planeta). O mais grave é que 60% dessas perdas e desperdício ocorrem nas residências e os 40% restantes nos demais elos da cadeia produtiva e distribuidora.

Enquanto isso, ainda de acordo com dados recentes da ONU, divulgados pela imprensa mundial em 28 de julho último, em 2024 estimava-se que 8,2% da população mundial, em torno de 673 milhões de pessoas – a maioria crianças, adolescentes, idosos e idosas – passavam e continuam passando fome, o que é uma enorme contradição em relação a quem não consegue se alimentar com dignidade humana.

No Brasil, país que tanto se orgulha de sua grande, enorme produção de grãos, que todos os anos tem batido recordes de produção e exportação e se vangloria de “alimentar o mundo”, até recentemente figurava no MAPA DA FOME DA ONU e, pela segunda vez, no atual Governo Lula – um presidente obcecado pelo combate à fome, com certeza pela sua origem de pobre e retirante nordestino que já experimentou a fome – conseguimos sair deste triste mapa.

Em 2019 o Brasil voltou a entrar no Mapa da Fome e, em 2022, no último ano do Governo Bolsonaro, cerca de 33 milhões de brasileiros estavam em situação de fome ou insegurança alimentar, tendo sido reduzida esta triste estatística para 2,5% da população (quase três milhões de pessoas) e saído do referido mapa, conforme relatório da FAO há poucos meses.

Por exemplo, enquanto em Cuiabá, capital do paraíso do agronegócio, havia “a fila dos ossinhos”, o volume do desperdício e das perdas de alimentos no Brasil era de aproximadamente 40 milhões de toneladas por ano de comida que ia e continua indo parar no lixo, uma verdadeira desumanidade em face da fome que ainda está presente e castiga milhões de famílias pobres e excluídas em todos os Estados, capitais e inúmeras cidades neste imenso país.

Todavia, se considerarmos o indicador “insegurança alimentar”, a situação do Brasil ainda é extremamente precária. Conforme dados mais recentes da PNAD Contínua Segurança Alimentar 2023, divulgada em 2024, nas regiões Norte e Nordeste 40% estão vivendo em insegurança alimentar, enquanto na Região Sul é de 17%, no Sudeste de 23% e no Centro-Oeste 25%. Ou seja, a fome e a insegurança alimentar ainda estão bem presentes em nosso país, mesmo que tenhamos saído do Mapa da Fome, enquanto continuamos a observar que também as perdas e desperdício de alimentos fazem parte de nossa realidade.

Em setembro de 2024, o PACTO CONTRA A FOME lançou uma campanha, utilizando diversos meios de comunicação, com o objetivo de sensibilizar a população brasileira e também as autoridades em todos os poderes e níveis de governo, cujo slogan reflete a gravidade deste assunto: “COMIDA BOA É NA BOCA (DAS PESSOAS QUE TÊM FOME) E NÃO NA BOCA DO LIXO”, como acontece no Brasil e praticamente em todos os demais países, inclusive nos “desenvolvidos”, como nos EUA, na Europa, no Japão e em outros lugares onde também existem pobres e gente passando fome.

O enfrentamento da questão da fome e da insegurança alimentar passa, necessariamente, tanto pelo combate às perdas e desperdício de alimentos quanto também pelo fortalecimento das redes de solidariedade e fraternidade, como recentemente a CARITAS BRASILEIRA, cujo presidente é Dom Mário Antônio, Arcebispo de Cuiabá, que está promovendo uma parceria com o Governo Federal para implementar o projeto Cozinhas Solidárias, da mesma forma que inúmeras outras organizações não governamentais, a maioria das quais vinculadas a diversas Igrejas cristãs e de outras religiões.

Todavia, este combate não pode se ater apenas a uma dimensão assistencialista, manipuladora, mas sim a um processo educativo, principalmente estimulando sistemas e projetos de economia solidária, substituindo os paradigmas assistencialistas por outros de uma caridade promocional e libertadora, como tanto tem enfatizado a CARITAS.

Outro aspecto importante é o trabalho educativo e de assistência técnica e estímulo à economia solidária junto aos agricultores familiares, tanto para evitar as perdas e desperdício, quanto para a produção agroecológica, evitando os agrotóxicos tão nocivos ao meio ambiente e à saúde humana.

Para não me alongar demasiadamente, deixo para um outro momento, próximo, a reflexão que gostaria de fazer em torno da situação dos rios, também tão importante, que é o DIA MUNDIAL DOS RIOS, a maioria dos quais, inclusive no Brasil, como o Tietê em São Paulo e o Cuiabá, em Mato Grosso, juntamente com milhares de córregos, já se transformaram em esgotos e lixões a céu aberto, afetando terrivelmente dezenas de milhões de famílias em nosso Brasil.

A perda e o desperdício de alimentos, a fome, a insegurança alimentar, a pobreza, a degradação de nossos rios e córregos, a falta de moradia popular e as “habitações sub-humanas”, a falta de saneamento básico e tantos outros fatores que provocam a exclusão de praticamente 70% da população brasileira são desafios que nossas autoridades e lideranças civis não podem postergar.

Defender a democracia, a soberania popular, a soberania e a independência nacionais não deve ser apenas slogans vazios, mas realidade transformada em políticas públicas nos três níveis de governo – federal, estaduais e municipais – e nos três poderes da República, que enfrentem esses desafios mencionados e outros tantos que nos envergonham muito.

Como sempre dizia o Papa Francisco: “Tudo está interligado”. Nesta Casa Comum, só assim vamos avançar rumo a um país e a uma sociedade em que a justiça, a igualdade/equidade, a inclusão, a solidariedade e o bem comum prevaleçam sempre!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

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