Segunda, 31 Agosto 2015 12:34

O outro dia

 

Nessa terceira monstruosa mobilização do povo na rua, não houve um foco de reivindicação para tamanha indignação e, muito menos, um líder. 

O que fazer com essa massa de descontentes com a situação atual de crise econômico-financeira, moral e ética que atinge todo o território nacional? 
O staff político do Planalto está de plantão permanente com a sua elite (?) de entendidos sociais para decifrar o que fazer para desarmar esta bomba de efeito retardado que poderá destruir ou retardar o crescimento da nossa nação. 
Preocupações da desvalida classe média são totalmente sem importância para o jogo do poder. 
Os manifestantes sem líder querem apenas mais ética na política, com os ladrões dos cofres públicos na cadeia, o fortalecimento do trabalho do Juiz Sérgio Moro e colaboradores do Ministério Público e Polícia Federal e um país mais digno e justo para se viver. 
Estamos falando desses representantes que aparecem nas manifestações de rua. 
Enquanto o povão não se fizer representar por livre e espontânea vontade, nada acontecerá. Somente as massas têm algum poder de mudança. 
Tudo parece um grande sonho, pois os órgãos superiores responsáveis por esta nação dão sinais de um gigantesco acordo para que tudo continue como dantes. 
Inflação fora do controle, ajuste fiscal remendado, aumento do desemprego e subemprego, greves nos setores básicos ao nosso desenvolvimento, queda da arrecadação, aumento de impostos e maior número de brasileiros sem condições de se manterem em suas mínimas necessidades – tudo continuará assim. 
Enquanto isso, a economia americana nem se recorda mais da bolha imobiliária de 2008, e os preços estão caindo, como no caso da gasolina e dos impostos. 
Até a Grécia apresenta sinais de recuperação na sua economia! A Europa ressuscitou da sua má fase. Não vejo a hora em que seremos ultrapassados por Cuba.  
Ficaremos em companhia da Venezuela, Haiti, Nicarágua e Bolívia. 
E a nossa gente, mais esclarecida, indignada, permanece em casa, pois não temos líderes. 
Assim como importamos médicos para resolver o problema da nossa saúde pública, chegou o momento de importamos líderes. 
É o que enxergamos no horizonte conturbado do nosso futuro.

Gabriel Novis Neves
18-08-2015

Quarta, 26 Agosto 2015 13:50

SIGLAS EM XEQUE

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Neste artigo, trato de algumas caras siglas político-ideológicas que aos poucos, infelizmente, vão virando pó: MST, PT, CUT, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Exceto a última legenda, que nasceu em 1916, e a penúltima, que surgiu em 48, as demais foram gestadas durante a ditadura de 64. O compromisso social sempre foi algo caro a essas siglas.

O MST – “herdeiro ideológico dos movimentos de base social camponesa ocorridos desde a chegada dos portugueses ao Brasil” –surgiu, no final dos anos 70, opondo-se ao modelo de reforma agrária dos milicos. O Movimento buscava a redistribuição das terras improdutivas. Consolidou-se na década dos 80.

Por sua vez, o PT nasceu exatamente em 80, pelas mãos de dirigentes sindicais, intelectuais de esquerda (muitos da USP) e católicos da Teologia da Libertação, que punham em prática ensinamentos cristãos no excludente cotidiano de nosso povo.

Logo depois, o PT – “rejeitando tanto as tradicionais lideranças do sindicalismo oficial, como procurando colocar em prática nova forma de socialismo democrático” – tornou-se o berço da CUT, nascida em 83.

A origem da CUT, bem como as siglas anteriores, foi nobilíssima. A entidade surgiu pregando a autonomia sindical; opunha-se aos sindicatos atrelados ao Estado, monstros criados por Getúlio.

Tributo histórico feito, resta-nos ver os rumos que essas siglas tomaram após a chegada do PT à presidência.

Em minha opinião, todas afrouxaram princípios; amordaçaram-se diante da proximidade com o poder. A autonomia em relação ao Estado e ao governo ficou comprometida.

E o que dizer especificamente sobre a SBPC, que surgiu querendo unir o pensamento científico brasileiro, motivado pela chegada de cientistas europeus, trazidos ao país para ajudarem na implementação de nossas universidades, em particular a USP, criada em 34?

Antes de tudo, é mister saber que a SPBC nasceu exigindo dos governos investimentos na ciência e na cultura. Também se colocou em defesa dos profissionais que eram afastados das universidades por perseguições políticas. Logo, sua origem foi nobre.

No entanto, a SBPC também parece ter feito opção político-ideológica em prol do governo petista, que se igualou às siglas de direita até mesmo na corrupção. Exemplo recente: a SBPC acabou de quebrar o silêncio diante da greve das federais. Junto com a ABC, assinou desastroso manifesto intitulado “Em defesa das Universidades Públicas”.

No tal documento, só o título e uma ou outra frase solta é que se salvam. As duas entidades chegam ao cúmulo de solicitarem que o governo não atenda às principais demandas de nossa pauta de greve, com ênfase à carreira docente.

Como se fossem entidades detentoras de suprema sapiência, as signatárias do manifesto apresentam uma absurda lista de sugestão daquilo que o governo deveria fazer.

Em dado momento, chegam à esparrela da leitura política, imputando aos docentes das federais a responsabilidade “pelo sucesso ou fracasso da instituição” em que trabalham. Mais: apostam na universidade colada aos interesses do mercado; logo, colocam em plano inferior o caráter socialmente referenciado das instituições federais.

O referido “manifesto” parece coisa encomendada. A sociedade não merecia isso.

Diante de tudo, mais do que nunca, precisamos reforçar a luta pela universidade pública, gratuita, laica e socialmente referenciada. Se as siglas acima referidas vierem conosco, ótimo. Se não, que paguem o preço que a história deverá lhes cobrar.

Quinta, 20 Agosto 2015 18:17

O caminho da renúncia

 

Renúncia - uma palavra enaltecida pelos poetas e escritores como um ato de grandeza e de amor. 

Na vida real, nem sempre o discurso e a prática caminham na mesma direção. 
Cresce no país as correntes que sinalizam que o grave momento de crise econômico-financeira que vivemos seria resolvido apenas com a renúncia da nossa presidente da República. 
A figura em questão foi uma militante de movimentos revolucionários lá dos idos anos 60, 64, mas nunca foi um ser político. 
Naquela época ela ocupava o cargo de guarda livros do movimento, ou seja, meramente burocrático. 
Nunca foi questionado o seu aspecto de liderança.
Líder, o movimento sempre teve na figura do sindicalista de maior visibilidade do país. 
Sabemos que mandar é totalmente diferente de liderar. 
Temos na presidência alguém que manda pesado, mas sem habilidade política para liderar. 
Aí reside o grande sangramento do partido do poder que, desmascarado nas figuras de seus maiores líderes pela operação “Lava Jato”, vinculados a suspeições de irregularidades financeiras, já não consegue fazer as alianças necessárias para um mínimo de governabilidade.  
Alguns mais intelectualizados do poder, leitores contumazes da teoria marxista, acreditaram que organizando um plano através da distribuição de cargos de chefia por todo o Estado, teriam a tranquilidade necessária para fazer as mudanças sociais apregoadas como salvadoras. 
Eles esqueceram que o ser humano, na sua sede de poder, enlouquece diante das mordomias e dos prazeres mundanos. 
O enriquecimento pessoal vira a meta prioritária, e logo fica estabelecido o “salve-se quem puder”. 
A história nos mostra que isso já aconteceu em outros países, em outras épocas. 
O perfil psicológico da nossa gestora não combina com a possibilidade de uma renúncia ao cargo para o qual foi democraticamente eleita, ainda que isso se apresentasse como uma saída honrosa para o país. 
Não vemos em nenhuma das correntes de poder alguém que, no momento, possa, realmente, representar os anseios populares.  
O quadro geral é de pessoas totalmente desvinculadas das funções para as quais foram eleitas, numa busca insana de benesses pessoais como absoluta prioridade. 
O mais grave, a meu ver, é que o partido mais forte que apoia a presidente, e que detém a vice-presidência, vem se encantando muito rapidamente com o rumo caótico dos acontecimentos e, quem sabe, vislumbrando possibilidades próximas de uma nova liderança. 
Todos os grandes cientistas políticos aventam para a gravidade extrema da situação. 
Nessa oportunidade, seria configurada uma renúncia, não como ato de grandeza, mas simplesmente por absoluta falta de governabilidade. 
Num regime democrático impõe-se absoluta harmonia entre os três poderes, e isto não vem acontecendo. 
Essa é a grande gravidade da situação política brasileira! A população, atônita, assiste inerte ao desmoronamento de um dos países mais ricos do mundo. 
Resta-nos torcer para que os que detêm o poder abdiquem das suas vaidades e passem a agir com um pouco mais de patriotismo, evitando uma ainda mais grave crise institucional.

Gabriel Novis Neves
10-08-2015

Segunda, 17 Agosto 2015 11:31

Acabou o dinheiro

 

Quem fez essa declaração foi o ministro da Fazenda Joaquim Levy. 

Disse que o Brasil vive uma fase de desconforto, com crescimento do desemprego e da inflação. 
Nenhuma novidade para qualquer um de nós que sentimos no bolso os efeitos de tanto imbróglio. 
Para nosso alívio, o ministro afirmou que a situação é transitória e que a inflação está começando a convergir para a meta nos próximos anos. 
Para quem está com a corda no pescoço, esperar por dois anos de possíveis melhoras, só em prognósticos otimistas de médicos em doenças terminais. 
Nossa gente não suporta mais tanto arrocho, especialmente os assalariados do poder executivo e aposentados do INPS.  
Para aquela gente bacana que compõem a tropa de funcionários especiais do Legislativo, Judiciário e Tribunais de Contas, esse “fenômeno”, tão bem descrito pelo competente Ministro da Fazenda, não existe. 
É bom saber que os sobreviventes terão melhores condições que os brasileiros de hoje, vítimas de políticas públicas equivocadas e de uma corrupção desenfreada. 
No Brasil os resultados têm que ser imediatos, pois a espera de dois anos para a possibilidade de o quadro político econômico melhorar é insuportável. 
Nossos equipamentos sociais estão sucateados, assim como as necessárias obras de infraestrutura, na sua quase totalidade, paralisadas. 
A grande locomotiva do desenvolvimento, que é a educação de qualidade, de sonho foi transformada em pesadelo. 
Não temos mais estoque de tempo de espera como pede o nosso Ministro da Fazenda. Até lá teremos um país fragilizado, propício ao grande capital estrangeiro de implantar por aqui um neocolonialismo. 
Desconfio que estejamos voltando à época do Brasil colônia. 
E o dinheiro acabou! Apesar da Lei da Responsabilidade Fiscal - que não foi cumprida.

Gabriel Novis Neves
27-07-2015

Quarta, 12 Agosto 2015 12:18

A fala do Ministro

 

Se o objetivo do Ministro da Fazenda era acalmar o trepidante mercado financeiro e, principalmente, a população brasileira, o tiro saiu pela culatra. 

Após longa aula de erudição em macroeconomia pública, o nosso competente ministro finalizou seu discurso dizendo que tivemos alguns anos de progresso, agora este ciclo chegou ao seu final. 
Precisamos hoje reinventar uma nova economia - cuja fórmula ainda não foi encontrada - para fazer o Brasil voltar a crescer. 
As medidas emergenciais tomadas no primeiro semestre do ano, como o ajuste fiscal, arrocho salarial, cortes nas despesas, no orçamento e seu contingenciamento, não surtiram o resultado esperado. 
As receitas diminuíram e, em curto prazo, poderemos ter mais desempregos, diminuição da carga horária para os trabalhadores com diminuição dos salários e investimentos mínimos. 
Tudo isso para não deixar a situação piorar. 
Calcula o competente ministro que a retomada do crescimento com todas essas medidas de austeridade e a diminuição da corrupção, só será possível após quatro ou cinco anos de muito sacrifício para todos. 
As castas estão esperneando, negociando mais benefícios para os seus. 
Segundo recentes estatísticas nacionais, os que mais padecem com essa criminosa desarrumação das nossas contas públicas, inclusive atropelando a moralizadora Lei da Responsabilidade Fiscal, são os pobres e miseráveis. 
A classe média está com os seus gastos emagrecidos para sobreviver à crise econômica e, para complicar, também política. 
Pelo menos o Ministro da Fazenda foi transparente e claro na demonstração da real situação do país. 
Nada de maquiagem como em outros tempos. 
A população revoltada e impaciente com a falta de criatividade dos nossos políticos em apresentar propostas viáveis para minorar nosso sofrimento de falta de expectativa para um futuro promissor, já alertou que vai sair às ruas em protesto contra esse estado de coisas. 
As greves estão pipocando em todos os segmentos sociais e as investigações sobre a corrupção produzindo resultados cada vez mais alarmantes. 
O quadro é sombrio.

Gabriel Novis Neves
26-07-2015

Segunda, 10 Agosto 2015 19:19

Papa Francisco

 

Em sua peregrinação pelo Equador, Bolívia e Paraguai o Papa Francisco mais uma vez surpreendeu o mundo ao discursar no “Encontro dos Movimentos Sociais”. 

Com a sua franqueza habitual, sabedoria e muita diplomacia, deixou o seu recado em uma importante reunião de líderes e dirigentes sociais latino-americanos.  
A impressionante ressonância mundial foi imediata. Vozes discordantes apareceram advertindo que suas palavras não deviam ser levadas a sério. 
Tudo isso porque o Papa disse que “o capitalismo é um sistema esgotado, que já não se sustenta, que os ajustes sempre são feitos à custa dos pobres, que não existe tal coisa como o derrame da riqueza das taças dos ricos, que destrói a casa do comum e condena a Mãe Terra”. 
O Papa revolucionário também condenou os monopólios como uma grande desgraça, disse que o capital é o “estrume do dinheiro”, que se deve cuidar do futuro da Pátria Grande e estar em guarda frente às novas formas de colonialismo. 
Com suas palavras, Francisco abriu um espaço enorme para avançar no sentido de neutralizar a ideologia dominante, que difunde que o capitalismo é a única forma sensata – e possível – de organização econômica e social. 
O histórico discurso do Papa na Bolívia instalou no imaginário público a ideia de que “o capitalismo é um sistema desumano, injusto, predatório, que deve ser superado mediante uma mudança estrutural”. 
Graças às suas palavras estamos em melhores condições para vencer a batalha de ideias de forma a convencer todas as classes oprimidas, as principais vítimas do sistema, de que é preciso acabar com o capitalismo, antes que esse infame sistema acabe com a humanidade e com o planeta, no dizer do sociólogo argentino Atílio Boron. 
O Papa Francisco tem como prioridade a defesa dos três T: Terra, Teto e Trabalho. 
Com relação ao problema grego, ele alerta ao mundo para as novas formas de neocolonialismo que recrudescem no mundo. 
Mais do que o representante máximo da religião católica, Francisco vem se tornando um dos maiores símbolos, não de religião, mas de algo muito mais difícil de ser praticada, a religiosidade.

Gabriel Novis Neves
17-07-2015

 
Olá Pessoal!
Um artigo importante para ser lido que mostra que o avanço da direita e sua pregação contra os deveres do Estado não é ficção, muito menos teoria da conspiração. Despudoradamente pregam a transferência dos deveres do Estado (como a Educação e Saúde) para o setor privado. Endeusa o individualismo, o empreendedorismo e, com o apoio da mídia, ocupam os programas televisivos e publicam seus livros. O embate está claro e nos cabe ampliar o movimento em defesa da autonomia da universidade pública, democrática e de qualidade. E mais, precisamos reagir e rebater os argumentos da "direita que saiu do armário" e que atua contra e "longe das universidades." O artigo (em anexo) “A DIREITA BRASILEIRA QUE SAIU DO ARMÁRIO NÃO PARA DE VENDER LIVROS, publicado no jornal "El País", merece ser analisado com frieza e atenção, para fortalecermos nossos princípios e reivindicações nesse grave momento político-econômico que estamos vivendo no Brasil.
Boa leitura e reflexões.
Prof. José Domingues
 
Terça, 28 Julho 2015 11:57

Novos ataques à laicidade

Frederico Lopes - Dep. Matemática/ICET- O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Corre na Câmara, sob os auspícios do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um projeto de lei que pretende tornar mais difusa a laicidade do Estado brasileiro, quando não eliminá-la em termos práticos. É o Estatuto da Liberdade Religiosa (goo.gl/wpOQ7O), de autoria do deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), que há cerca de um mês foi oficialmente proposto à mesa da Câmara. O projeto foi elaborado com a ajuda da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), e abonado por dezenas de entidades religiosas. Dada a legenda partidária do deputado, não deve nos espantar que o projeto tenha também o aval do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e do vice-presidente Michel Temer.

Leis dessa natureza costumam se apresentar como lobo em pele de cordeiro. A redação, que se pretende clara, é na verdade capciosa e sutil em muitos pontos, e não deixa entrever as interpretações preconceituosas e limitadoras que os sábios juristas da Anajure certamente já divisaram, e com as quais pretendem prover à direita religiosa um instrumento de coação e silenciamento de manifestações contrárias à condição laica do estado e à liberdade de expressão.

O estatuto é composto de 50 artigos, dos quais destaco alguns exemplos. O artigo 4 pode legitimar a realização de Pai Nosso coletivo em instituições públicas, em especial nas sessões da Câmara, como já aconteceu: "É livre a expressão e manifestação da religiosidade, individual ou coletivamente, por todos os meios constitucionais e legais permitidos, inclusive por qualquer tipo de mídia, sendo garantida, na forma da Lei, a proteção a qualquer espécie de obra para difusão de suas ideias e pensamentos." Observemos ainda outra sutileza nas primeiras palavras do artigo: quando um membro da comunidade LGBT for discriminado com palavras e atos, o discriminador poderá dizer que foi "livre manifestação da religiosidade", se sua religião mantém, naquele seu livro sagrado, a condenação da homofobia.

Ainda, o artigo 17 cria privilégios trabalhistas regidos por preceitos religiosos, em detrimento da legislação civil laica: "Os trabalhadores em regime de contrato de trabalho têm o direito de, a seu pedido, suspender o trabalho no dia de descanso semanal, nos dias das festividades e nos períodos horários que lhes sejam prescritos pela confissão que professam, na forma dos artigos 5º, inciso VIII, e 15 da Constituição, nas seguintes condições: I - trabalharem em regime de flexibilidade de horário; II - comprovarem serem membros de igreja ou comunidade religiosa; III - haver compensação integral do respectivo período de trabalho. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se a servidores e agentes do Estado e demais entidades públicas."

Especialmente terrível é o artigo 27, que tira das comunidades indígenas o direito de reagir às novas missões de evangelização que se instalam em suas terras: "É vedado ao Estado e seus poderes públicos imporem limitações quanto ao exercício da liberdade religiosa das comunidades indígenas, mesmo que sob a justificativa de manutenção das tradições locais, sob pena de responsabilização administrativa, cível e penal do servidor ou agente político que der causa a tal violação, na forma da Lei."

O artigo 32 reveste-se de palavras sedutoras em seu início para destilar logo depois suas verdadeiras intenções, que é a transformação de símbolos e datas religiosas em "expressões culturais", e ainda permitir o uso de dinheiro público para impressão de material religioso: "Nos atos oficiais do Estado serão respeitados os princípios da não-confessionalidade e laicidade, sendo resguardadas as manifestações e expressões culturais e religiosas da nação brasileira. Parágrafo único. Para os efeitos do presente artigo, são consideradas expressões culturais e religiosas da nação brasileira, merecendo proteção e respeito: I - a presença de símbolos religiosos ou livros sagrados em prédios pertencentes à Administração Pública Direta e Indireta; II - a exposição de mensagem de cunho religioso em solenidades oficiais; III - a existência de feriados dedicados a ícones religiosos; IV - a divulgação de materiais, impressos ou mídias com conteúdo religioso por parte de órgãos e entidades públicas."

O pressuposto de base da iniciativa é a consideração da religião como algo especial, superior e destacado das demais manifestações demasiadamente humanas. Também fica claro que "liberdade religiosa" deve ser interpretada não como a possibilidade de exercício pacífico da religião, mas como garantia de que religiosos terão a liberdade de fazer o que bem entenderem.

Em tempo: coincidentemente, alguns minutos antes de terminar a redação deste texto, vim saber que um tal de Thad Cochran, senador americano conservador, pretende passar no senado de lá uma lei de "liberdade religiosa" para proteger as pessoas que ajam de acordo com suas convicções religiosas (goo.gl/WmT6D6). Com essa lei, todo tipo de discriminação baseada na fé será devidamente protegida nos termos da lei. Será o mesmo que pretende o Estatuto homônimo dos deputados do PMDB?

Sexta, 24 Julho 2015 08:19

RECADOS DE MINIONS

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Desde de 2012, além de ministrar uma das disciplinas da literatura brasileira, aceitei mais um desafio: trabalhar também com a literatura destinada especialmente ao público infanto-juvenil.

De lá para cá, busco me atualizar acerca desse universo cultural, quase sempre mais próximo dos interesses comerciais de editoras e produtoras de filmes do que daquilo que chamamos, mais convencionalmente, de arte.

Por conta do exposto, no final de semana, fui assistir ao filme “Minions”, recém lançado no Brasil.

Antes, é bom saber: “Minions” é um filme estadunidense de animação computadorizada. Na verdade, trata-se de um spin-off (obra derivada de uma ou mais obras já existentes) da animação “Meu Malvado Favorito”, de 2010.

Os minions são pequeníssimos e encantadores seres amarelos; são unicelulares e milenares. Desde a morte de um antigo chefe, eles procuram um novo mestre a quem servir.

Três deles (Stuart, Kevin e Bob, interpretados por Pierre Coffin, que também é um dos diretores do filme), vão até uma convenção de vilões; lá se encantam com Scarlet Overkill (dublada por Sandra Bullock), que sonha em ser a primeira mulher a dominar o mundo.

Na versão brasileira, foram mantidas palavras e expressões do inglês, francês, italiano e japonês. Uma riqueza! Nada se perde com isso.

Da longa ficha técnica do filme, ressalto o belo trabalho do compositor brasileiro Heitor Pereira, que assina as faixas originais do empreendimento. Além delas, o músico nos brinda com clássicos do rock mundial, oriundos dos anos 60.

Dessa forma, Aerosmith, The Doors, Smashing Pumpkins, Jimi Hendrix, The Who estão entre os artistas escolhidos para ajudar a contar a história dos minions em busca de um chefão, ou do "malvado favorito".

A partir dessa busca, os recados são dados. O primeiro é a inversão de princípios consolidados nas sociedades cristianizadas, além de cristalizadas pelos contos tradicionais de fada, nos quais o bem sempre vence o mal. Para os minions, o chefe não poderia ser “do bem”.

Com base nessa inversão, a obra perpassa pontualidades do que podemos chamar de processo civilizatório, sempre ridicularizado. O início era nada. Desse nada, surgem os minions em priscas eras.

Desse primórdio, o filme salta à Idade Antiga, representada pelos egípcios. Ali, os mínions fazem cair sobre a cabeça de um faraó uma das sete pirâmides. No filme, é a primeira vez que um poderoso começa a ser destronado. Daí para frente, isso ocorrerá sempre.

A Idade Média, vista como tempo da escuridão/ignorância, é representada por fantasminhas de bruxas esqueléticas.

Rapidamente, os minions atingem a Idade Moderna e voam para a contemporaneidade. De início, os EUA (New York) são escolhidos para essa representação. O ano de 1968 é um marco no filme. Naquele ano, em Orlando, local do mundo encantado da Disney, realiza-se o festival de violões, já referido.

No festival, os minions se encantam com a perversidade de Scarlet, que deseja obter a coroa da rainha da Inglaterra para realizar seu sonho. A visão idealizada do gênero feminino se esvai. Scarlet, cheia de superpoderes advindos de um vestido vermelho (é claro), supera maldades masculinas. No fundo, ela “esmurra” também o “politicamente correto”. 

Por tudo isso, o filme, que se estrutura em inteligentes intertextos, é uma refinada crítica, não só de nobrezas, mas de qualquer tipo de poder.

Saí do cinema feliz com a obra. Ela, corajosa, poética e “humanamente”, destitui o instituído em sociedades hipócritas, que pregam o bem, mas cultivam o mal; sempre.

Quarta, 22 Julho 2015 08:25

SELIC

Artigo enviado pelo Prof. Jose Domingues de Godoi Filho, intitulado SELICpor Silvio Caccia Bava, em anexo. 

Olá, Pessoal.

Uma bela e contundente análise (em anexo) de motivos que se somam às nossas justificativas para a continuidade da greve em busca de nossas reivindicações.São argumentos importantes para não nos curvarmos frente às indecorosas propostas do governo. Resistir nunca foi tão necessário.
Trata-se do Editorial do Le Monde Diplomatique, edição de julho 2015, escrito  por Silvio Cássia Bava com o título de“Selic” :
- “Se tomarmos como referência a taxa Selic de dezembro de 2014, veremos que até junho de 2015 ela subiu de 11,75% para 13,75% ao ano. Esse crescimento de dois pontos percentuais sobre uma dívida pública federal de R$ 2,451 trilhões representa um pagamento extra dos juros da dívida da ordem de R$ 49 bilhões – valor pouco menor do que o ministro Levy se esforça por amealhar com os cortes nos gastos federais.
Como podemos então compreender essa engenharia, segundo a qual o governo corta fortemente as políticas sociais e reduz o orçamento de todos os ministérios para reunir algo como R$ 60 bilhões com vistas a garantir os recursos para pagar os juros da dívida pública federal e, ao mesmo tempo, aumentando a Selic, eleva o gasto público em R$ 49 bilhões?”
Na UFRJ, de acordo com projeção apresentada pela administração central, o déficit da universidade pode bater a casa dos R$ 300 milhões até o final do ano. “Isso contando com o orçamento cheio, sem cortes”, frisou o reitor Roberto Leher. 
E na UFMT, qual é a situação? E nas demais IFE? Fica como sugestão para o CNG e os CLG’s, se for o caso, apurarem.
Não deixem de ver também a didática entrevista de Amir Khair na edição de junho de 2015 do Le Monde Diplomatique Brasil. http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1881.
Abraços e boas reflexões.

Prof. José Domingues

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