Segunda, 06 Abril 2026 14:30

RELATÓRIO POLÍTICO I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA - Alair Silveira

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Alair Silveira

Profa. SOCIP/PPGPS. Pesquisadora MERQO/CNPq.

Membro GTPFS/ADUFMAT/ANDES-SN

 

 

            Entre os dias 26 e 29 de março/2026 foi realizada a I Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre/RS. Em tempos tão assustadoramente sombrios, marcados pelo imperialismo bélico e pelo ascenso de movimentos e governos neofascistas, as guerras tradicionais de destruição e barbárie têm substituído quaisquer aparências de mediação através das relações diplomáticas, geridas pelo direito internacional. Como no estado de natureza hobbesiano, a lei do mais forte tem dominado as relações internacionais. E como lobos cruéis, Donald Trump e Benjamin Netanyahu têm se mostrado os mais eficientes e ignóbeis.

            Assim, se em 2022, os conflitos entre Rússia e Ucrânia-OTAN inaugurou a guerra na Europa, em 2023 ela escalou para genocídio contra o povo palestino e avançou para os ataques sionistas e norte-americanos contra o Irã. Neste processo, o imperialismo estadunidense, capitaneado por Trump, tem atuado sem qualquer parâmetro de legalidade, respeito à autodeterminação dos povos e prurido com relação aos interesses que o move. Como uma avalanche que destrói tudo que encontra pela frente, o imperialismo norte-americano e seus parceiros de destruição (por parceria ou omissão e conivência) agora voltam suas energias bélicas, também, para a América Latina.

Da histórica e inaceitável tentativa de inviabilizar a existência de Cuba (tentativas de assassinato, bloqueio econômico, satanização do comunismo cubano e guerras híbridas/psicológicas), os ataques escalaram para o estrangulamento total da Ilha, o sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro e da sua esposa e deputada Cilia Flores, as intervenções nas eleições hondurenhas, as ameaças ao governo colombiano de Gustavo Petros, os ataques às embarcações no mar do Caribe etc. e ao desenvolvimento da operação nomeada Escudo das Américas que, sob a justificativa de combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas, combate a livre-determinação dos povos ao mesmo tempo em que explicita os interesses econômicos aos quais serve.

Não casualmente, neste esforço para assegurar o pseudo combate ao terrorismo e às drogas, dentre os principais convidados para a reunião dedicada a articular a coalizão militar estavam Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador), Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile) e líderes de países como Paraguai, Bolívia, Costa Rica, Honduras, Guiana e Trinidad e Tobago. Deixados de fora pelo primeiro-mandatário norte-americano, Brasil, Colômbia e México, isto é, países que têm atuado de forma mais independente em relação aos interesses dos EUA.

Se na América Latina e no Oriente Médio o quadro é revelador quanto à política imperial que move os governos dos EUA e de Israel, na Europa a situação também é preocupante, não apenas em virtude da inação da OTAN e da maioria dos governos europeus - excetuando-se as posições do governo espanhol -, mas, também, pelo impressionante crescimento da representação política de reacionários e neofascistas nos Parlamentos.

Neste mapa geral, o neofascismo expande-se como forma reacionária de controle e barbárie, entranhando-se nos poros da vida social e dos poderes institucionalizados, corroendo avanços societários e subtraindo direitos consolidados

Foi sob este conjunto de relatos e experiências históricas que a I Conferência Internacional Antifascista consagrou a resistência mundial e, através de delegações de mais de 40 países, latino-americanos, africanos, europeus, estadunidenses e representantes do Oriente Médio fizeram-se presentes.

Com Mesas formadas pela diversidade internacional, análises que conjugaram a realidade mundial com as especificidades nacionais dos palestrantes convergiram para a gravidade destes tempos, assim como para a necessidade de enfrentamento ao neofascismo, ao neoliberalismo, ao imperialismo e à barbárie. Neste sentido, diversas foram as intervenções que apontaram para o equívoco da priorização dos processos eleitorais e ressaltaram a urgência de resgatar o socialismo como alternativa civilizatória.

De modo geral, também comungaram quanto à importância de assegurar governos popular-democráticos para fazer tais enfrentamentos. Daí a importância destacada por muitos dos palestrantes quanto à eleição de Iván Cepeda, na Colômbia, e de Lula, no Brasil, em 2026.

Por fim, cabe registrar a relevância da iniciativa de Porto Alegre que, tal qual há 25 anos atrás, quando inaugurou o Fórum Mundial Social e tornou-se o berço dos militantes por um ‘outro mundo possível’, agora recepcionou delegações de várias partes do mundo para articular o enfrentamento ao neofascismo. De outra parte, também cabe o registro quanto a algumas ausências sensíveis de análises sobre Bolívia, Equador, El Salvador, Paraguai e Peru. De igual maneira, a quase inexistência de referência à ‘classe trabalhadora’, substituída nas intervenções e agitações políticas por “povo”. Paradoxalmente, apesar das muitas intervenções quanto à contraface do neofascismo - isto é, o capital -, o encerramento da I Conferência Internacional Antifascista foi a conclamação: “Povos do mundo, uni-vos!”, olvidando que os ‘povos’ também compõem a classe trabalhadora.

 

 

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