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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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“O tempo só

anda de ida”

(Manoel de Barros)

José Domingues de Godoi Filho* 

 

“Toda sociedade humana precisa justificar suas desigualdades: tem de encontrar motivos para a sua existência ou o edifício político e social como um todo corre o risco de desabar. Desse modo, toda época produz um conjunto de discursos e ideologias contraditórios que visam legitimar a desigualdade tal como ela existe ou deveria existir e descrever as regras econômicas, sociais, políticas que permitem estruturar o todo. Desse confronto, a um só tempo intelectual, institucional e político, costumam emergir uma ou várias narrativas dominantes nas quais os regimes desigualitários vigentes se apoiam”. (1)

 

Com a explicitação da guerra energética mundial, da disputa selvagem por recursos naturais e do controle avassalador sobre a disponibilidade dos resultados dos avanços em ciência, tecnologia e desenvolvimento, no início dos anos 1970, levou a direita chegar ao poder, na década seguinte, com Ronald Reagan (EUA) e Margareth Thatcher (Reino Unido). Com eles teve início a globalização (prefiro a definição de Chesnais (2) - mundialização do capital) e a imposição do neoliberalismo privilegiando, dentre outras, políticas monetárias e fiscais, que com “a desregulamentação e os cortes tributários liberariam e incentivariam a economia ao aumentar a oferta de mercadorias e serviços, e, consequentemente, a renda dos indivíduos”. (3)

 

Em meio a uma das maiores pandemias enfrentadas pela espécie humana e, quarenta anos depois, do modelo não ter funcionado, nem para Reagan -Thatcher, nem para qualquer outro país que o tenha adotado; por aqui, a tropa de choque, saída de Chicago e espalhada por diferentes países (especialmente os situados abaixo do Equador), com o apoio e conivência do Banco Mundial -FMI(Fundo Monetário Internacional – OMC(Organização Mundial do Comércio) e da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), como crupies do cassino global, insistem na manutenção do modelo, não aceitam qualquer discussão e o impõe como “pensamento único”, combinando com o discurso do “livre mercado”.

 

Mesmo em nossas universidades, nos cursos ditos de “economia”, é flagrante a disseminação de tal pensamento, não havendo espaços para as discussões e formulações que indiquem outros caminhos e opções. Predominam as narrativas proprietarista, empreendedorista e meritocrática. Como apontado por Piketty (1), “a desigualdade moderna é justa, uma vez que decorre de um processo livremente escolhido, em que todos têm as mesmas oportunidades de acender ao mercado e à propriedade e em que todos se beneficiam naturalmente da acumulação dos mais ricos, os quais são também os mais empreendedores, os mais merecedores e os mais úteis. Estaríamos, assim, nos antípodas da desigualdade das sociedades antigas, fundamentadas em disparidades estatutárias e muitas vezes despóticas”. Nada mais hipócrita, avesso à verdade, à ciência, ao conhecimento e ao fortalecimento da democracia. Qualquer tentativa de discussão e alteração do modelo é desqualificada, recusada e censurada. Nesse sentido é exemplar o ocorrido, em 2011, com o livro “Hay alternativas. Propuestas para crear empleo y bienestar social em España”, de V. Navarro, J. Torres e A. Garzón, prefaciado por Noam Chomsky. A Editorial Aguilar depois de mostrar seu interesse por publicá-lo e de ter iniciado a divulgação e promoção do lançamento, informou aos autores que haveria atraso na publicação, tendo em vista o período pré-eleitoral espanhol.  Os autores procuraram outra editora, que com a colaboração do ATTAC (Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos), publicaram rapidamente o livro, além de liberarem uma versão gratuita, em formato pdf, via redes sociais, para divulgar ideias alternativas ao pensamento único.

 

Como “todo ordenamento das questões humanas também se materializa em um ordenamento de espaço” e, onde,  “cada nova era e cada nova época na coexistência dos povos e nas formações de poder de todos os tipos são fundadas em novas divisões espaciais, novos cerceamentos e novas ordens espaciais da Terra”(4),essa narrativa “proprietarista e meritocrática” tem se mostrado frágil e, “conduzido a contradições, que decerto assumem formas muito diferentes na Europa e nos Estados Unidos, na Índia e no Brasil, na China e na África do Sul, na Venezuela e no Oriente Médio. Todavia, ocorre que essas trajetórias distintas, nascidas de histórias específicas e, em parte, conectadas entre si, estão ligadas de forma cada vez mais estreita neste início de século XXI. Somente uma perspectiva transnacional permite compreender melhor tais fragilidades e considerar a reconstrução de narrativas alternativas”. (1)

 

O PLANO BIDEN 100 DIAS DEPOIS DA POSSE.

 

Uma semana depois da realização da Cúpula dos Líderes do Clima, cujas conclusões iniciais apontam para um aumento brutal na distância tecnológica que separa os países desenvolvidos dos demais, no que se refere a adoção de políticas de baixo carbono, o presidente Biden, anunciou, em seu discurso para a Nação: - aumento de US$ 2,3 bilhões nos gastos públicos com infraestrutura; aumento de US$ 1,8 bilhão de  gastos públicos com programas sociais; aumento de impostos para grandes empresas; aumento de impostos para o 1% mais rico dos Estados Unidos; imposto internacional sobre os lucros de empresas multinacionais; lei para proteger o direito de organização; aumento do salário mínimo para US$ 15/hora; lei sobre igualdade salarial entre mulheres e homens; impedir que volte  ocorrer o que aconteceu na pandemia, isto é, quando 600 bilionários aumentaram sua riqueza em  US$ 1 trilhão, enquanto 20 milhões de trabalhadores perderam seus empregos; preços mais baixos dos medicamentos; lei de saúde de baixo custo para expandir a cobertura do Medicare ( programa de Previdência Social para maiores de 65 anos e jovens e outras pessoas com deficiência); ajuda para evitar que os imigrantes tenham que deixar seus países fugindo da pobreza e os nascidos nos Estados Unidos como imigrantes sem documentos.

 

Mesmo com todo ceticismo que o momento impõe, a proposta do presidente Biden, que também está sendo reproduzida por organizações como FMI e OECD, caso se materialize, guardam semelhanças importantes com muitos dos argumentos dos contrários ao pensamento único que tem sido imposto. O FMI, em seus relatórios de abril 2021(5,6), deixa claro que a pandemia explicitou e catalisou uma crise profunda, cuja recuperação levará tempo e exigirá novas alternativas.

 

Plinio Jr. (7), em seu artigo “Biden não é Roosevelt”, registra com precisão que “o capitalismo do século XXI não é o do século XX. Sem colocar em xeque a causa do problema – a livre circulação do capital em escala transnacional – é impossível evitar seus efeitos deletérios. Globalização dos negócios, instabilidade econômica, rebaixamento do nível tradicional de vida dos trabalhadores, desigualdade social, crise da democracia liberal, recrudescimento das rivalidades nacionais, acirramento da luta de classes e depredação do meio ambiente são processos inerentes ao capitalismo de nosso tempo”.

 

Antonio Guterres (8), Secretário Geral da ONU, tem demonstrado sua preocupação com o panorama sombrio produzido pela crise sanitária mundial, o que o levou afirmar que “é necessário uma mudança de paradigma que permita alinhar o setor privado com metas globais para enfrentar os desafios futuros da humanidade, incluindo os causados pela COVID-19”.

 

Guterrez alertou, ainda que, devido a evolução rápida e agressiva da pandemia, a recuperação será lenta e num futuro distante. Para o futuro propôs duas questões para o debate: - 1) aplicação de um imposto solidário, ou sobre o patrimônio daqueles que foram beneficiados excessivamente durante a pandemia, com o objetivo de reduzir as desigualdades extremas; 2) Com relação à dívida, incentiva a sua suspensão e alívio, bem como a concessão de liquidez aos países que necessitem. Ressaltou, que é necessário reforçar a “arquitetura da dívida para acabar com os ciclos mortais de ondas de dívida, crises de dívida global e décadas perdidas”

 

Dada a real ameaça que a atual crise impõe ao multilateralismo, propõe novos andaimes internacionais e um novo contrato social baseado na solidariedade e no investimento na educação, empregos decentes e verdes, proteção social e sistemas de saúde, todos os quais juntos, formariam a base para o desenvolvimento sustentável e inclusivo.

 

O BRASIL NA CONTRAMÃO SENDO DESMANCHADO.

 

O negacionismo oficial no país atingiu níveis impensáveis, a ponto de até se esquecer que sempre existiram e continuarão existindo alternativas para qualquer modelo desenvolvimento. Não há motivos para se sujeitar ao pensamento único que tem sido imposto. O avanço do conhecimento humano, especialmente do saber científico-tecnológico, ampliou as opções e as possibilidades de escolhas de caminhos sócio-políticos e de estilos de desenvolvimento que melhor atendam as demandas da população brasileira. Contudo, para melhor entender e desfrutar das benesses do conhecimento é fundamental deixar para trás o negacionismo, porque a opção escolhida, qualquer que seja, não se restringirá ao aspecto exclusivamente técnico, mas também representará uma opção por uma série de itens relacionados a padrão de consumo, força de trabalho, níveis de investimento e sobretudo sobre a exploração dos recursos naturais e energéticos, a estruturação do sistema educacional e da pesquisa, com reflexos inevitáveis na identidade cultural.

 

As nações evoluem ao atingirem níveis de vida elevados, sendo necessário para tanto que se tenha claro que o aumento da produtividade humana se dá pela ampliação de sua capacidade de conhecimento. Os avanços na capacidade de conhecimento exigem investimentos constantes em educação pública e nas fundações de pesquisa de direito público que devem ser responsáveis pela pesquisa básica financiada pelo Estado. Como discutido por Stiglitz (3), “as nações se tornam mais ricas como resultado da sua organização, que permita que as pessoas interajam, negociem e façam suas escolhas. O projeto de uma boa organização social é fruto de décadas de raciocínio e deliberação, além de observações empíricas sobre o que funciona ou não. Elas levaram a visões sobre a importância das democracias com estado de direito, devido processo legal, freios e contrapesos e uma miríade de instituições envolvidas na descoberta, avaliação e divulgação da verdade.”

 

Como vem sendo questionado desde o início, há necessidade de se enfrentar a imposição e adoção de um pensamento único vigente desde os anos 1970 – o capitalismo de estilo americano – “que está modelando nossas identidades individuais e nacionais de maneira desagradável. O que emerge está em conflito com os nossos valores mais elevados; a ganância, o egoísmo, a torpeza moral, a disposição de explorar os outros e a desonestidade que a Grande Recessão expôs no setor financeiro estão evidentes em outros lugares e não somente nos Estados Unidos. As normas, aquilo que vemos como comportamento aceitável ou não, estão mudando de maneiras que minam a coesão social, a confiança e até mesmo o desempenho econômico”. (3)

A pandemia teve, pelo menos, a virtude de mostrar que as mudanças que eram necessárias, tornaram-se urgentes e inevitáveis. Pequenos ajustes no sistema político e econômico não são serão suficientes para as transformações à frente. “Precisamos de mudanças drásticas[...], Mas nenhuma dessas mudanças econômicas será possível sem uma forte democracia para compensar o poder político da riqueza concentrada. Antes da reforma econômica, será necessária uma reforma política”. (3)

 

(1)    Piketty, T. Capital e ideologia; Tradução Dorothée de Bruchard, Rio de Janeiro: Intrínseca,2020.

 

(2)    Chesnais, F. A mundialização do capital; Tradução Silvana Finzi Foá, São Paulo: Xamã, 1996.

 

(3)    Stiglitz, J.E. Povo, poder e lucro: capitalismo progressista para uma era de descontentamento; Tradução Alessandra Bonrruquer, Rio de Janeiro: Record, 2020

 

       4)  Smoke, A. The social question in a transnational context. LEQS Paper nº 39/2011 – Disponível em :  https://www.lse.ac.uk/european-institute/Assets/Documents/LEQS-Discussion-

        Papers/LEQSPaper39.pdf Acesso em 14/05/2021

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International Monetary Fund. 2021. World Economic Outlook: Managing Divergent Recoveries. Washington, DC, April

 

      (6) International Monetary Fund. 2021.Finance & Development: The Post-Covid World, Washington, DC, March

 

     (7) Sampaio Jr, P.A. Biden não é Roosevelt. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/biden-nao-e-roosevelt/ - Acesso em 18/05/2021.

 

    (8) Guterres, A. Contra la desigualdade, Guterres propone “un impuesto solidário” a quienes se han beneficiado de la pandemia. Disponível em: https://news.un.org/es/story/2021/04/1490732 - Acesso em     18/05/2021.

 

    *José Domingues de Godoi Filho – Professor da UFMT/Faculdade de Geociências.

 

 

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*Valfredo da Mota Menezes

 

Grande parte da população judaica, principalmente os mais religiosos, incorporou a moralidade mosaica e apresenta comportamentos diferentes no tratamento com diferentes povos. Assim, a lei de Moisés só é aplicada entre eles. Dessa maneira, o mandamento “não matar” significa não matar outro judeu, mas não é pecado se o morto for de outra população ou etnia.

 

Provavelmente essa tese já foi levantada por alguém. Acho que li em algum artigo ou livro, cuja referência está perdida em algum canto da memória.

 

A história mostra que essa prática de matar ou eliminar outros povos não é nenhuma novidade. Não ocorre apenas na Palestina. A primeira narrativa histórica mostra um verdadeiro holocausto liderado pelo próprio Moisés. Durante a travessia do Egito à Terra Prometida, Moisés formou um exercito com 12 mil soldados e deu ordem para que eles matassem todos os homens, de qualquer idade e também “todas as mulheres que conheceram homens, deitando-se com ele”. Ordenou, ainda, que “todas as mulheres que não conheceram homens, deitando-se com ele, deixai-as vivas para vós”. Pelos registros, ficaram vivas apenas as mulheres virgens, isto é, 32 mil meninas. Por esse número já dá para deduzir quantos e quantas foram assassinadas.

 

Depois do massacre, Moisés fez a divisão do espólio do povo eliminado: “675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil jumentos, além de artigos de ouro, braceletes, pulseiras, anéis, brincos e colares”. Além disso, “todo o ouro dado pelos líderes de milhares e pelos líderes de centenas, que Moisés e Eleazar apresentaram como contribuição ao Senhor, pesou duzentos quilos”. Nessa “guerra” nenhum soldado de Israel foi morto. A descrição detalhada dessa chacina não foi feita por nenhum jornal de oposição. Por nenhum panfleto palestino. Esse registro foi feito pelos próprios seguidores de Moisés. Essa denúncia e os motivos racistas do genocídio dos Midianitas estão na Bíblia (Números: 31:1 a 54).

 

Esse tipo de atitude, sobre o povo palestino (Sabra e Shatila), já foi repetido por mais de uma vez no século passado e, embora os massacres atuais não tenham a mesma magnitude bíblica, vêm ocorrendo de forma sistemática e de uma maneira tão cíclica que todos os comentários escritos há alguns anos (como os meus próprios) podem ser repetidos agora, pois a situação nunca muda. Com a repetição, todos nós acabamos, de alguma maneira, incorporando o fato. Passa a ser o normal..., já não nos causa revolta..., é o nosso Eldorado do Carajás, é o nosso Jacarezinho cotidiano...

 

Esses ciclos de massacres e agressões vêm transformando a região em um amontoado de pessoas sem direitos à educação, à saúde ou qualquer direito básico, principalmente o de continuar viva. Desde o tempo em que a Palestina era um “protetorado” inglês e, principalmente, após a criação do Estado de Israel, a população palestina vem sendo expulsa de suas terras e casas e de toda a área territorial prevista para ser o Estado Palestino, principalmente a Faixa de Gaza, hoje considerada uma “grande prisão sem teto”.

 

Grande parte da mídia ainda trata os palestinos como “radicais” ou como “terroristas”. Repetem o mesmo mantra de que Israel está “se defendendo dos ataques dos terroristas”. Chama a agressão, a invasão, a destruição das casas, dos hospitais ou escolas, de “guerra”. Guerra de um só exército, que como na “outra”, só morre gente de um dos lados.

 

As decisões da ONU de nada valem. Qualquer tentativa do Conselho de Segurança esbarra no veto americano. Assim, uma ação contra essas atitudes racistas em relação ao povo palestino ou a qualquer povo, deve ser tomada por todas as pessoas com alguma sensibilidade, com algum sentimento de revolta. Deve ser tomada por todas as pessoas que defendem a paz e a solidariedade entre todos os povos, inclusive por aqueles judeus que não concordam com a política do massacre desenvolvida, atualmente, pelo carrasco Netanyahu. Até quando pessoas sensíveis e moralmente justas continuarão assistindo e apenas dizendo: “Oh, como tudo isso é injusto”...?

 

Governos nacionais deveriam, no mínimo, retirar seus embaixadores. Deveriam fazer um boicote, principalmente económico, contra Israel, para forçar uma negociação de paz definitiva. Vamos exigir uma manifestação formal de repúdio ao massacre pelo nosso Congresso Nacional. O Brasil é um exemplo mundial de que os dois povos podem viver juntos e em paz. Sem o apoio internacional nunca teremos a consolidação do Estado de Israel e a população da Palestina nunca terá um Estado Palestino.

 

*Médico; Doutor em Medicina Interna e Terapêutica; Professor Associado-Medicina/UFMT (aposentado)

 

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Publicamos, a pedido do professor José Domingues de Godoi Filho, o artigo de autoria da professora aposentada Zenilde Moreira Borges de Morais (UFRPE/Biologia), com título "O ADEUS SEM FESTA DA ELETROBRÁS".

 
 

 

 Hoje é um dia triste para o povo brasileiro. Enquanto nos distraímos coma CPI da Covid-19 que não vai dar em nada, a Câmara dos Deputados nas caladas da madrugada, aprova a MP que Privatiza a Eletrobrás. Entregaram enquanto dormíamos, o nosso futuro aos estrangeiros. Entregaram nas mãos de   estrangeiros a nossa Segurança Nacional, a nossa Soberania, a nossa possibilidade de desenvolvimento futuro.

A Eletrobrás respondepor 30% da geração de energia do país e 70% da distribuição dessa energia. A Eletrobrás concentra desde a Usina de Itaipu,Chesf, Furnas(entre outras), Usinas Eólicas e até a Usina Nuclear. Entregar esse patrimônio, que levou 70 anos para ser construído pelos brasileiros nas mãos de estrangeiros, é renunciar à nossa Soberania e desenvolvimento. Nenhum país desenvolvido do mundo tem a sua geração e distribuição de energia privatizadas.

O Canadá, USA, Inglaterra, China e Rússia são alguns exemplos da importância desse setor sob o controle do Estado. Alguém pode estar pensando só na conta de luz que vai ficar mais cara para o consumidor na ponta. Sim, isto vai acontecer. Mas não é só isto que está em jogo. Quando a iniciativa privada investe num setor, está pensando em lucros a curto, médio e longo prazos. Primeiro que o Brasil é o maior produtor de energia limpa do mundo, e isto abre mercado para a exportação de energia. Segundo porque dentro dessa mesma lógica, teremos como tendência mundial num futuro próximo,veículos automotores rodando com energia elétrica e não mais dependentes de combustível fóssil. Daí a guerra silenciosa pelo lítio da Bolívia para a fabricação das baterias de carros movidos   a eletricidade, e no Brasil pela apropriação dessa energia limpa.

Com isto, o Governo Federal e Congresso Nacional acabam de colocar uma cunha no nosso desenvolvimento futuro. Quanto a Segurança Nacional, só precisará de um apagão para dominar toda uma Nação. Não dá para imaginar um Exército Nacional atirando no escuro no inimigo que chega por terra, mar e ar. Não dá para imaginar um Exército tendo que recarregar suas armas obsoletas sob o facho de uma lanterna.

Com a apropriação das usinasnucleares geradoras de energia no Brasil, corremos dois riscos:  o Projeto de Construção(já concluído) do Submarino Nuclear para proteger nossas fronteiras, foi enterrado; e o risco que corremos de nos tornar um grande depósito de lixo atômico das potências nucleares capitalistas. Visto que esse tem sido um dos maiores problemas dos países cuja energia elétrica é obtida através de Usinas Nucleares.

A   preocupação com o Meio Ambiente é uma farsa capitalista a olhos vistos. Toda a preocupação do Capital Financeiro e de Propriedade é com os lucros, custe o que custar. Diante dessa dura realidade que se impõe aos brasileiros, resta saber qual a posição do Exército Brasileiro, a princípio guardião da Segurança Nacional e, que hoje, compõe mais de 30% dos cargos no governo atual. Incluindo o Presidente (que nunca se despiu da farda) e o Vice-Presidente. É muito triste a situação do nosso país. Nosso povo está anestesiado, impotente, doente e intubado.  Intubado não com oxigênio devido a asfixia provocada pela covid-19, porque este também está faltando. Mas intubado pela ignorância política e intelectual que retira do nosso povo as armas de luta. Finalizando meu desabafo, hoje foi mais uma noite de insônia desde que um genocida assumiu o poder no meu país. Não consegui dormir.

Depois do cansaço de assistir o longo e vergonhoso depoimento do General Pazuello ex - Ministro da Saúde, com direito a chilique no final, ainda tive que acompanhar a entrega da Eletrobrás, na Câmara dos Deputados, em altas horas da madrugada. Tô cansada! Exausta! Desculpem o desabafo e o texto bruto, sem nenhuma revisão.
 

 

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Paulo Wescley Maia Pinheiro
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Professor da UFMT

 

            Era dezembro de 2016, numa casa de veraneio no litoral paulista, um grupo de familiares e seus amigos paulistanos se reuniam para celebrar o natal e o réveillon. Após o êxodo das estradas lotadas, do encontro com àqueles que vinham de outros lugares e o início das tertúlias habituais de fim de ano, uma das mulheres que morava em outra região do país contava as novidades para os amigos dos parentes, entre as notícias, disse que estava namorando um cearense, que seu nome era Wescley, que conheceu no trabalho. 
            O deboche foi imediato: alguns olhares e risos e a pergunta nada desconhecida: “Wescley? Cearense? Meu Deus, tem ao menos segundo grau completo?".
            Alguns minutos de constrangimento, falas trocadas entre aprovações e reprovações do chiste preconceituoso, o conhecimento de que, apesar do “nome de pobre”, se tratava de um professor universitário, foi suficiente para os aspirantes empreendedores e bem intencionados paulistanos diminuirem o ego inflado e suas falas discriminatórias.
            A meritocracia da capa da revista Veja SP é uma forma de amortecimento das posições explícitas via reprodução da mesma lógica. O mérito individual do sujeito com nome, corpo, certidão de nascimento, sotaque e família impostas às condições de precariedade nos espaços de vida e trabalho têm na vitória individual uma camada de silenciamento da cultura aristocrática espalhada por todas as classes.
            Fosse um Wescley analfabeto a piada não voltaria apenas para a mente e permaneceria na expressão jocosa e reveladora. O desavergonhamento do preconceito contra alguns e a contenção, pelos argumentos liberais, de outros, descortina a desculpa esfarrapada do elogio das capacidades singulares frente à omissão coletiva e reprodução estrutural das desigualdades. Para essa lógica há trabalhadores dignos de respeito e outros dignos de humilhação.
            Em 2019, no auge da rivalidade entre Flamengo e Grêmio nas disputas da Libertadores da América, circulou nas redes sociais uma foto de um presidiário, em uma dessas correntes virtuais conhecidas e muito repassadas sem critério.
            O rapaz da foto era apresentado ironicamente como o jogador Everton Cebolinha, cearense, na época jogador do Grêmio e da seleção brasileira. A carta do “Cebolinha preso” tinha como piada o poder de, ao ser compartilhada, prendê-lo na marcação do Flamengo.
            As únicas semelhanças entre o jogador e o homem da imagem eram a cor da pele e o corte de cabelo que acentuava um formato da cabeça pejorativamente imputada aos cearenses/nordestinos.
            A semelhança atribuída pelos dois sujeitos veio daquilo que se construiu historicamente quando questões fisiológicas foram usadas para práticas criminalizadoras e patologizantes de negros/as e nordestinos/as, numa perspectiva higienista e elitista.
            A cultura que estereotipa como perigoso, corajoso ou preguiçoso persiste no presente. Da frenologia à teoria do criminoso nato de Lombroso, chega até hoje a persistência do preconceito mascarado de même que impõe a determinados sujeitos os lugares sociais do lumpemproletariado e, para esses, o Estado Penal e policial.
            A discriminação que se reproduz e chega à sujeitos que estão no não-lugar das altas taxas de aprovação nos concursos públicos nacionais ou em um artista ou atleta milionário é somente uma ínfima manifestação do incômodo gerado com os corpos e os sotaques que, para a hegemonia do capital, só existem para servir.
            Eu, Wescley Pinheiro, assim como Everton Cebolinha, somos cearenses. Nossas cabeças são tidas como grandes e chatas, nossos conterrâneos carregam a imagem de bons comediantes e, de fato, somos um povo que se orgulha da gaiatice como patrimônio cultural.
            É público o orgulho cearense de ter vaiado o sol, nos anos 1940, em plena Praça do Ferreira em Fortaleza. A vaia rasgada, rebelde, sarcástica, reverbera o riso como resistência, mas não queremos que riam de nós, no máximo, conosco. Um outro cearense lembrou que “a felicidade é uma arma quente”, mas o orgulho cultural não permite ufanismos, dramatizações e bairrismos que suavizam antagonismos regionais, nacionais e internacionais.
            No Nordeste há construções internas, desigualdades, luta de classes, reprodução e expressões da unidade exploração-opressão, mas os estudos críticos hegemônicos continuam a universalizar a lógica do eixo econômico brasileiro quando vai falar de racismo, machismo e lgbtfobia, enquanto realizam reducionismos sobre as elites nordestinas e escondem a classe trabalhadora da região e em outros estados, escondendo também as particularidades dos negros, das mulheres e dos LGBTs do Nordeste e a forma diferente de expressões das formas de desigualdade.
            Para mudar a realidade em sua raiz precisamos nos conhecer como um todo e em nossas diferenças. A análise da questão por uma perspectiva de totalidade precisa absorver dimensões particulares dentro de uma síntese mais ampla. A luz lançada sobre a questão da classe trabalhadora nordestina não é mais um específicismo pós-moderno, reivindicando fragmentações. É, na realidade, a necessidade de afirmar a possibilidade de protagonismo nas lutas pelos sujeitos que vivem os diversos aspectos particulares da unidade exploração-opressão sem cair no rebaixamento irracionalista e individualista da guerra entre os oprimidos e na disputa mercadológica por quem sofre mais e merece a redenção do capital.
            Não é só aquilo que nos afeta na experiência imediatamente dada que pode ser tomada como aspecto de verdade e forma de resistência. O ser humano, como um ser da práxis, tem capacidade de conhecer as determinações da realidade e enfrentar questões para além daquilo que o atinge, criando consciência e identidade para a superação de uma lógica complexa de desumanização. Se não o fazemos, ou se a realizamos em frações e reproduzindo a lógica individualista, é porque persistimos naturalizando os interesses fenomênicos em detrimento da emancipação humana.
            A classe explorada em geral tem condições, potencialidade e dever de desvendar, conhecer, reconhecer e lutar contra todas as formas de opressão, mesmo aqueles sujeitos que não sofram diretamente uma forma específica de desumanização, respeitando os protagonismo internos vigentes e buscando novas práxis.
            As parcelas da classe trabalhadora sudestina que expressam repulsa aos nordestinos o fazem pela reprodução alienada de sua própria coisificação. 
            No campo imediato as expressões da questão social vão tomando o cotidiano de todos os sujeitos explorados e oprimidos. Quando não há direção e sentido emancipatório coletivamente organizado, os indivíduos olham a pobreza, o desemprego, a violência, a falta de moradia digna, a luta diária por uma vaga no transporte público, a vida e a morte, olha o todo e enxergam “o outro” como empecilho.
            O ser humano que não se reconhece no que faz, em como vive e no que produz, que não se reconhece naqueles que comungam da mesma condição e que não tem como se reconhecer em quem o explora repulsa as manifestações imediatas da alienação sob formas alienadas como a discriminação e o preconceito. A lógica de consolidação da desigualdade e sufocamento da diversidade é própria da sociabilidade capitalista e é ela que direciona a marginalização de tudo que representa o Nordeste.
            Numa sociabilidade desumanizada os sentimentos desumanizados são a hegemonia. Numa sociabilidade de classes o ódio é essencialmente de classe. Não necessariamente ele tem teleologia, é direcionado, organizado e aponta para a essência do que produz a desumanização.
            Pelo contrário, quando os processos privilegiam a naturalização é no cotidiano que o ódio se destila. O ódio ao próximo, ao outro, ao diferente e a si mesmo, a sua forma de existir no mundo, à forma do mundo existir sobre si. O ódio destilado e fermentado pelos exploradores se espalha por todos nós, pelos nossos sotaques, valores e identidades.
            Na falta de um projeto profundo, de uma política por outra hegemonia que se enraíze na vida concreta das pessoas, na ausência de sentido e de demonstração das possibilidades de uma vida radicalmente diferente do que vivemos, o Deus Mercado prevalece com seus mitos e seus postos, desde o cotidiano, passando pela presidência da república, pelos ministérios, pelos programas de tv, pelas as músicas e pelas redes sociais.
            Como nossa indignação não é direcionada para quem efetivamente produz nossa tragédia, acabamos por caminhar sobre um chão movediço de um país quebrado, não economicamente, mas em pedaços de potencialidade coletiva, um todo desumano, em frangalhos, partes que sufocam sua diversidade com a monocultura do capitalismo dependente.
            O brasileiro olha no espelho e odeia seu reflexo. Quer destruir a desigualdade sem saber onde ela começa, onde se estrutura, onde se amplia e onde se manifesta e, por isso, aceita quem aponta o dedo para a imediaticidade. O desespero e a desesperança viram o combustível moralista, individualista, segregatório e elitista entre setores explorados.
            Desvendar o processo de constituição da exploração e opressão das pessoas do Nordeste é aprofundar a complexidade da formação e manutenção do capitalismo brasileiro. O ser hegemônico burguês, que é branco, cis, hétero, adulto, europeu, judáico-cristão, defensor da razão formal-abstrata e, na particularidade brasileira, sul-sudestino, reverbera sua lógica para além de quem tem essas características e transforma diversidade em desigualdade, absorve desigualdades culturais dentro da estrutura econômica e finca a alienação como natural. Ela não é e pode ser superada. E será
 

28 de janeiro de 2021, Jaguaretama, Ceará.

 
Adendo -  NORDESTINENSE (2018)
 

Onde já se viu
Assinar poesia com Wescley
Tendo um Paulo
Maia Pinheiro
Para assim o fazer
Pense num cabra
Astucioso
Que nome mais horroroso!
 
É W, é Y,
É puro vira-latismo?
É capacho e despacho
Do imperialismo?
É letra pra todo lado
É coisa de sertanejo ignorante
E ignorado?
Wescley, poeta?
Mas essa hora?
Mas ora essa!
A arte é uma coisa nobre
Poesia se faz com classe
Não suporta nome de pobre
Que nome mais indiscreto
Wescley, cearense?
Tem segundo grau completo?
 
Tem,
Mas poderia não ter
És porteiro?
Não,
Mas poderia ser
Como tantos outros
Nordestinamente
Sobrevivendo
Carregando nas costas
E no sotaque
As estrofes e as catástrofes
Da língua portuguesa
E da íngua geográfica
Luso-brasileira
 
Com W, com Y
Ultrajando com o árido verso
O poema límpido
Do mapa do Brasil
Rompendo cercas
Desafiando a seca
Patativamente
Vaiando o sol
Amolecando-se
Ataiando as dores
Mangando dos opressores
 
Sou W e Y
Sou mar e rio
Reza e cachaça
Mandacaru e jangada
Misturo nome de pai e mãe
Serra e sertão
Sanfona e alfaia
Mato minha sede
De sangue, suor e água
 
Não faço piada
Eu faço rir
Não derramo lágrimas
Eu faço rima
Poesia se faz com a Classe
Paulo Pinheiro, para quê?
Se mais que poeta nordestino
Quero ser nordestino-poeta
Como tantos outros
Que faz arte com a vida
E da vida a arte
De resistir
 

Ass. Wescley. (2018)
 

Parte 4 (de 4 seções) do "Ensaio sobre o Nordeste e o preconceito regional como expressão do ódio de classe no Brasil". A primeira seção  está no Espaço Aberto 034/2021, de 29 Abril de 2021.
https://www.adufmat.org.br/portal/index.php/component/k2/item/5070-ensaio-sobre-o-nordeste-e-o-preconceito-regional-como-expressao-do-odio-de-classe-no-brasil-parte-1-de-4-secoes-paulo-wescley-pinheiro
 
Parte 2 
https://www.adufmat.org.br/portal/index.php/comunicacao/espaco-aberto/item/5075-estereotipos-e-discriminacao-contra-o-povo-nordestino-afirmacao-da-desigualdade-negacao-da-diversidade-paulo-wescley-pinheiro
 
Parte3 https://www.adufmat.org.br/portal/index.php/comunicacao/espaco-aberto/item/5080-nordestino-a-o-capital-de-sao-paulo-a-unidade-exploracao-opressao-desenvolvimentismo-e-a-essencia-do-preconceito-paulo-wescley-pinheiro
 
Integralmente publicado em ENSAIO SOBRE O NORDESTE E O PRECONCEITO REGIONAL COMO EXPRESSÃO DO ÓDIO DE CLASSE NO BRASIL | by Wescley Pinheiro | Medium
 
REFERÊNCIAS 
 
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de.Nordestino: uma invenção do falo - uma história do gênero masculino (Nordeste 1920/1940) Maceió: Edições Catavento, 2003. 256 p.
ANDRADE, João Batista de. O HOMEM Que Virou Suco (1981) (95 min). Obra audiovisual. São Paulo -SP
FERNANDES. A revolução burguesa no Brasil. 5a edição. São Paulo: Globo, 2006.
FONTES, V. O BRASIL E O CAPITAL-IMPERIALISMO: Teoria e história. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010.
GONZALEZ, L. Cultura, etnicidade e trabalho. In: __________. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. São Paulo: Diáspora Africana, 2018
IANNI, O. A questão social. In A ideia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense. 1996. p. 87-112. 
MARINI, Ruy Mauro. A Dialética da Dependência. Editora Era, México, 1990, 10a edição (1a edição, 1973). O post-scriptum conforme: Revista Latinoamericana de Ciências Sociales, Flacso, (Santiago de Chile), n° 5, junho 1973. Tradução: Marcelo Carcanholo, Universidade Federal de Uberlândia — MG. 
MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo, Editora Brasiliense. 1984
PINHEIRO, W. Nordestinense, Blog Nofiapo. 2018. Http://www.blogspot.com.br/Nofiapo. Acesso em 22/01/2021
SANTOS, Josiane Soares. “Questão social”: particularidades no Brasil. São Paulo: Cortez, 2012
VEJA SP. A nova força nordestina: os migrantes do século 21 que transformam São Paulo. Publicado em 21 jan 2021. https://vejasp.abril.com.br/cidades/capa-migrantes-nordestinos-sao-paulo/
 
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*Atenciosamente,*
*Paulo Wescley Maia Pinheiro*
*Professor do Departamento de Serviço Social da UFMT - Universidade Federal
de Mato Grosso.*
*Doutorando em Política Social - UnB

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Paulo Wescley Maia Pinheiro
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Professor da UFMT
 

                    A construção da lógica da exploração passa pela irremediável necessidade de ampliação das taxas de lucro fazendo com que a materialidade da vida dos sujeitos que vendem a força de trabalho expresse no seu cotidiano e em seus valores, o projeto de modernização burguesa que significa o aumento de composição orgânica do capital.
                    O desenvolvimentismo que vai afogando todos os espaços, em suma, realiza a lógica proletarizada dos territórios, propagando o progresso como sinônimo do que é urbanizado e ele como um elemento próprio de desigualdades necessárias. A ideologia imputa às formas de existências distintas como um atraso, afinal, o espaço urbano ou rural precisa ser urbanizado, ou melhor, capitalizado e, isto, requer também serem humanos com corpos, identidades e práticas especializadas. A lógica do capital é a lógica da capital e, numa dimensão mais ampla, é a lógica do centro, daquilo que acumula e apaga todo o resto ao redor, inclusive, no mapa de um país.
                    No dia 21 de janeiro de 2021 uma revista semanal de grande circulação nacional, em sua versão (ainda mais) voltada para a classe média paulista, realizou uma capa especial destacando o protagonismo dos nordestinos na megalópole paulistana. Como não poderia deixar de ser “São Paulo: a capital do Nordeste” suscitou críticas e defesas acaloradas nas redes sociais e expressou a latência desse fenômeno e a necessidade de aprofundarmos as suas provocações.
                    Capital é a pena máxima; é a cabeça; é o centro administrativo, político, financeiro e histórico de uma unidade federativa; é riqueza acumulada e investida. 
                    Capital é um termo com muitos significados e o principal deles é aquele que nomeia a forma de sociabilidade dos últimos séculos da humanidade, onde centramos nossa capacidade coletiva de produção na exploração da maioria das pessoas para a riqueza de uma ínfima parcela de indivíduos que detém os meios de produção. 
                    Assim, diante de tantas linhas no dicionário, é fundamental sempre desvendar que o que cria riqueza, portanto, o que cria capital, assim como o poder de uma capital, é o trabalho.
                    Entre as caricaturas apresentadas na capa da Veja SP, entre o foco na minoria nordestina “empreendedora” e o desfoco na maioria intensamente explorada na capital paulistana, a intensidade do debate surge num tempo histórico onde se explicita as tensões sociais de um país marcado por cisões. Vivemos uma crise marcada pela ampliação da desigualdade, pelo crescimento da explicitação do preconceito e da discriminação, inclusive contra o povo nordestino, que, como já demonstramos, não raramente é percebido como a parcela de sujeitos miseráveis, preguiçosos, analfabetos políticos que atrasam o desenvolvimento do país.
                    A capital do estado de São Paulo fez 467 anos, presenteando o país com seu protagonismo histórico, amassando quase treze milhões de habitantes na sua imensa capacidade cosmopolita de produzir riqueza e concentrar desigualdade. Se ela não é o centro do Brasil, é verdade que ela é um retrato do que resultou o capitalismo brasileiro.
                    Essa capital atravessa sua história afirmando os velhos mitos que encobrem a complexidade de sua formação e de sua manutenção, entre eles de que essa é a “cidade que carrega o Brasil nas costas” quando, na verdade, ela foi construída, em seus defeitos e qualidades, nas costas daquilo que alguns intelectuais do eixo RIO-SP gostam de chamar de Brasil Profundo.
                    A ideia de que uma região, em especial a megalópole paulistana, seja responsável por carregar o país esconde o fato de que seu apogeu econômico foi construído sobre as costas do povo negro escravizado, centro da objetificação radical de seres humanos oriundos do continente africano e, posteriormente, jogados para às margens do Brasil moderno; do povo nordestino migrante e imposto ao subtrabalho e o não-migrante imbuído à uma vida sob a sorte da ausência de políticas estruturantes do Estado nacional, preocupado apenas na manutenção da ordem e no desenvolvimento econômico sudestino; e, por último, completando as costas proletárias, o acolhimento de parte sobrante do exército industrial de reserva europeu, paulatinamente chegando no final do século XIX e progressivamente aumentando nas duas grandes guerras do século XX.
                    O poderio econômico de São Paulo é lido como uma grande meritocracia histórica de sua coletividade quando nada mais é que um produto da lógica de uma burguesia dependente. Os grandes centros urbanos brasileiros crescem como mercadoria por cima da mercadoria ser humano, esta, tida como descartável, invisível, suja e, principalmente, funcional. 
                    A cidade é construída por trabalhadores e trabalhadoras que não possuem aquilo que realizam. Alienados de suas potencialidades e impulsionados aos seus limites, quem ergue prédios e faz as calçadas têm direito à rua da amargura. A cidade não é somente concreto e asfalto, mas as pessoas, os sujeitos individuais e coletivos com suas vivências, experiências, valores, limites e possibilidades. 
                    O espaço urbano que toma seu apogeu e maturidade a partir da modernidade e sua centralidade na exploração do trabalho e circulação de mercadorias, expressa aos olhos de todos as contradições de uma sociabilidade essencialmente desigual, ao passo que também naturaliza essas desigualdades. 
                    A cidade nos aparece como um corpo vivo e descontrolado aos indivíduos que a habitam. É como se eles vivessem nela, mas ela vivesse independente deles. Os muros visíveis ou invisíveis que demarcam a cidade dos ricos e a dos pobres são as cortinas do ódio de classe em concreto.
                    Os territórios e suas cisões por condomínios, as câmeras de segurança, os sinais de trânsito, suas grandes ausências de seres humanos reais nos espaços, preenchidos por seus automóveis devidamente engarrafados, um completo caos que vai cumprindo diversas funções: seja de moradia para os sujeitos explorados, de habitação das mercadorias para realização do consumo, seja os próprios códigos mercadológicos envoltos à sociabilidade dentro do grande território. A lógica desenvolvimentista do capital é capitalocêntrica e, por isso, a contradição e sobreposição urbana “capital x interior” impera em todo o país e traduz o desenvolvimento regional desigual mais amplo.
                    A urbanidade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou mesmo em qualquer capital do Nordeste sendo o ápice da lógica de desenvolvimento capitalista é também em sua expressão ideológica tida como o anti-nordeste, o arquétipo do arcaico. É a oposição ao que é considerado atraso, ao mesmo tempo que é a naturalização das desigualdades, o aplauso às estruturas que afastam os desiguais, o apelo ao consumo, ao fetiche, ao amortecimento dos encontros, das relações e o pico das dimensões comerciais.
                    No belo (e já clássico) filme O Homem que Virou Suco (1981), o “operário modelo” e o “poeta popular” são sujeitos idênticos e estranhos, nordestinos espremidos até o bagaço pela selva de pedra que transforma corpos de pele escura, corpos femininos e corpos vindos de outras partes dos territórios do país como mercadorias baratas, descartáveis e facilmente substituíveis. Deraldo, o poeta confundido com Severino, o operário, são homens que têm a mesma cara, que têm a mesma sorte, que são reduzidos às suas condições de vida e de morte severina.
                    Mais uma vez, não por acaso, a discriminação contra o povo nordestino é a síntese do ódio de classe que consubstancia elementos do racismo estrutural, da xenofobia internacional, da cultura da burguesia brasileira e sua essência dependente e autoritária. A repulsa às pessoas trabalhadoras do Nordeste, sua cultura e sua forma de ser é a recusa do Brasil, sendo, inclusive, a possibilidade de jogar para debaixo do tapete a permanência e intensidade da exploração agrária e todo o seu processo destrutivo.
A produção da escassez do Nordeste é a produção da opulência para parte do Sudeste. É preciso, pois, antes de falar da Capital e do Capital, falar do trabalho e demonstrar como o preconceito regional e todo o ódio ao povo nordestino, ora direto nas piadas sobre a cultura nordestina em sua diversidade, ou na violência social cotidiana, ora travestida de condescendência pela admiração mitológica e instrumentalizada das realizações do povo do Nordeste, são elementos de um conjunto complexo de naturalização do ódio de classe, de criminalização da pobreza e de moralismo pequeno-burguês.
 
                    Parte 3 (de 4 seções) do "Ensaio sobre o Nordeste e o preconceito regional como expressão do ódio de classe no Brasil". A primeira seção  está no Espaço Aberto 034/2021, de 29 Abril de 2021.
 
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*Atenciosamente,*
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Paulo Wescley Maia Pinheiro
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Professor da UFMT

 


            É próprio do individualismo burguês promover a concorrência, o estranhamento da própria vida e de suas capacidades, além da coisificação do outro e, ainda assim, cultivar a crença formal da possibilidade de superação individual dos seus problemas pela ascensão de classe. Os valores tradicionais das elites arcaicas, da burguesia nacional subsumida ao capital-imperialismo e das camadas médias antenadas com a lógica neoliberal consubstanciam o mundo míope que não enxerga humanidade nem em si e nem no outro.
            A modernização conservadora do Brasil foi um projeto de “unidade de contrários” entre a burguesia subimperialista e as elites reacionárias buscando sufocar os setores explorados e oprimidos.
            A eugenia, a “higiene social”, o moralismo judáico-cristão e o autoritarismo caminharam por décadas buscando a "europeização", num processo à brasileira, sem realização de reformas estruturais do liberalismo romântico, mas adequando a manutenção das raízes coloniais para a economia de mercado, mantendo o patrimonialismo, o racismo e o machismo sempre no centro das possibilidade de manutenção e ampliação da exploração.
            Não por acaso o preconceito regional vem sempre reproduzindo elementos de racismo e não raramente também revela a ideação das camadas médias e até de setores pauperizados de uma autoafirmação pequeno burguesa pela proximidade territorial dos setores estratégicos do sistema produtivo e das possibilidades mais amplas de acesso aos bens de consumo.
            O ethos do povo trabalhador nordestino, do povo preto, das mulheres e da população lgbt da classe trabalhadora foi patologizado, moralizado, criminalizado, existindo um processo de higienização discriminatória por décadas, que se traduziu nas periferias, nos manicômios, nas penitenciárias.
            Assim, a normalização, a normatização e o protagonismo sudestino vai pautando uma importância autocentrada e narcísica de suas questões enquanto produz reducionismos sobre o que é aparentemente alheio a si.
            E é também por isso que o Sudeste olha no espelho e tenta, em vão, enxergar todo o país. Enquanto isso, traça rascunhos e garranchos mistificando as particularidades tão diversas dos outros territórios, implicando em limites de princípios para possibilidade de um projeto de nação que propicie desenvolvimento socialmente referenciado, igualdade substantiva, autodeterminação e soberania nacional.
            Por isso, vai se produzindo a lógica de protagonismo que direciona o monólogo que sufoca a diversidade brasileira e permite também não enxergar as contradições dos seus próprios processos. Nesses reducionismos, as formas políticas e as oligarquias arcaicas são sempre aquelas distantes e nunca os conchavos dos poucos sobrenomes que batem bola na política paulista, fluminense e/ou mineira.
            As revoltas populares dos outros lugares são sempre realizadas por famintos desesperados, sob liderança espontaneísta dos fanáticos religiosos, muito diferente da forma civilizada, moderna e urbana de reivindicar. O protesto pacífico é sempre atrapalhado pela “ralé”, pelos “bárbaros”, o não-civilizado, aquele que vem de fora da cultura de cidadania macula a limpeza tão bem estabelecida pelas estruturas vigentes.
            A monocultura grita. Existe a mídia nacional — leia-se sudestina — e as mídias regionais; existe a Música Popular Brasileira — leia-se, aquela abençoada pelo Sudeste — e a música regional; existe o sotaque esquisito, o sotaque “do outro” e a forma “normal” de falar. O regionalismo é sempre do outro.
            O caldo cultural desse processo que se espalha por todas as classes fundamenta estereótipos conhecidos:

  • O/a Nordestino/a exótico/a”: estranho, pois é tido como antagônico ao padrão de civilização, rude, viril, anacrônico, mas funcional;
  • O/a “Nordestino/a batalhador/a”: que possui a bravura inata, que desculpa o resto do país da falta de acesso aos seus direitos, uma fortaleza essencial feita para carregar todo tipo de peso;
  • O/a “Nordestino/a engraçado/a e prestativo/a”: aquele/a que aceita a servidão como condição e tem seu dom natural assimilado sempre com sorriso no rosto;
  • O/a “Nordestino/a preguiçoso/a”: com a malandragem natural e a inaptidão para as regras do “trabalho moderno”, a esperteza imoral diante do contrato social iluminista.

            A deformação das representações ideologicamente estruturadas atinge as mulheres nordestinas de modo especial. Para elas essa força essencial que é atribuída vem com ideia de masculinização que, para os exploradores, as qualifica para serviços braçais, ao mesmo tempo que referenda a sobrecarga imposta entre trabalho produtivo e improdutivo no interior da classe explorada, convivendo ainda com materialização das diversas formas de violência de gênero/sexo nas relações familiares.
            A resiliência da mulher nordestina não promove espaço de ascensão social. Da feminização da miséria até a reprodução das "viúvas de maridos vivos", a reprodução da força de trabalho do campo, o trabalho doméstico e a estrutura familiar centrada na esperança imputada pela busca dos migrantes, são elementos que reproduzem o heteropatriarcado de forma peculiar.
            Um retrato mal desenhado da estrutura familiar que circunda a ultrarresponsabilização feminina frente a imigração dos homens para os centros urbanos caracteriza um falso matriarcado, existente apenas nos procedimentos cotidianos de administração e práticas familiares enquanto permanece à expectativa do protagonismo patriarcal.
            A mulher ousada, “mal educada”, atrevida é a mulher inadequada, ignorante e ignorada para o padrão familiar centrado no moralismo burguês e para a convivência urbana. A misoginia se manifesta imbricada no elitismo cultural e se fantasia no machismo naturalizado. A áurea do exótico colocada sob o povo nordestino marca mulheres no não-lugar do feminino: nem homens para o centro do poder, nem delicadas e frágeis para o lugar de invisibilidade coadjuvante que o machismo mais protocolar espera.
            A autoimagem — do “cabra macho” e da “paraíba masculina” — também reproduzida por parcelas dos/das nordestinos/as como parte de sua identidade é produto disso e é, em essência, autofágica, pois o orgulho historicamente construído pelas elites do Brasil Colônia com sua estrutura escravocrata e patriarcal é mascarada de suposta cultura identitária de rusticidade, de centralidade fálica e que referendou opressões ao longo dos tempos.
            O nordestino, antes de tudo um forte, é expressão contraditória de quem precisou e precisa ser forte para continuar existindo e resistindo, a mística que vai sendo mascarada e se mascarando de uma fortaleza forjada sobre seus ombros, no seu sangue e no suor.
            O "nordestino caboclo" é a classificação que esconde e revela, que sufoca e aprofunda a ideia de subcategoria de trabalhadores brasileiros, invisível para os estudos dos preconceitos e opressões, mas vívidos nas formas mais concretas de expressões discriminatórias. A classe trabalhadora nordestina passa a ser diferente demais para assumir as classificações existentes nas formulações sobre desigualdade, enquanto é desigual demais para não ser entendida em suas diferenças.
            O não-lugar do nordestino também faz parte do não-lugar do pardo no país e do falseamento racista, próprio do mito da democracia racial, que reverbera a fantasia de que em algumas partes da região Nordeste não existem negros, questão renovada e ideologicamente reforçada nas análises sobre racismo protagonizadas pelo sudestocêntrismo. 
            O silenciamento das contradições na unidade exploração-opressão torna a diversidade do Brasil uma abstração que se soma ao apagamento da influência da cultura indígena existente cotidiano da classe trabalhadora, além da negação de sua dimensão de ancestralidade, formando uma equação de não-reconhecimento de desigualdades vividas dentro e fora do Nordeste.
            Enquanto o racismo estrutural impõe a desigualdade sobre os negros no Nordeste, o (des)colorismo instrumentalizado vai reproduzindo uma caricatura que se centra na realidade urbana do Sudeste e desconsidera as particularidades das outras regiões e suas formas de manifestações de racismo. Na realidade, muitos dos negros nordestinos estão marginalizados nos espaços, invisibilizados na ideia tortuosa da miscigenação brasileira, naturalizando profundamente o preconceito e a discriminação.
            Os clichês retroalimentados do exótico e do arcaico caminham de mãos dadas. O Nordeste mistificado se transforma no não-lugar, no território paradisíaco onde sujeitos passarão férias, acessarão para serem servidos, podendo gozar do seu tempo livre. O Nordeste mistificado se transforma no não-lugar árido, um espaço inóspito, animalizado, sem lei, um deserto habitado por famintos onde se pode descer do pedestal desenvolvido e fazer caridade.
            A política que promove o Nordeste como um setor de serviço turístico no litoral é a mesma que solidificou a indústria da seca, que naturalizou desigualdades e que reduziu possibilidades dos “sobrantes úteis”, sendo acompanhada pela hegemonia cultural que condiciona a moral e os costumes. 
            O Brasil Oficial que amarra o que chama de Brasil Profundo é resultado da miscelânea das elites que passaram pela Colônia, pelo Império, pela República Café-com-leite, pelo Estado Novo, por JK, pela Ditadura civil-militar de 1964 e se perpetua até hoje calando a diversidade ou a reduzindo a mercadorias.
            O reducionismo de um estereótipo não é de responsabilidade do sujeito estereotipado. O rebaixamento da complexidade cultural advém não de uma cristalização de uma narrativa endógena, mas do não aprofundamento das diversas medições, valores, disputas e construções que permanecem vivas no interior da cultura dos sujeitos subalternizados. A identidade popular é contraditória, mas a prevalência de uma antítese rebelde, com expressão de potencialidade emancipatória no interior das relações dos sujeitos explorados e oprimidos, inclusive, em seus símbolos apropriados pelo mercado, são elementos reduzidos, sufocados, enquadrados e moralizados.  Todo esse processo tem base material. 
            O simplismo estereotipado vai jogando o Nordeste, em sua diversidade e complexidade, em suas contradições e potencialidades, em seus mitos construídos e resistência coletiva, como uma abstração rasa. A discriminação regional é potencializada na conjuntura atual pela xenofobia reproduzida mundialmente e aponta dentro do capitalismo brasileiro para o “tipo ideal” de trabalhador precarizado.
 
Parte 2 (de 4 seções) do "Ensaio sobre o Nordeste e o preconceito regional como expressão do ódio de classe no Brasil". A primeira seção  está no Espaço Aberto 034/2021, de 29 Abril de 2021. https//www.adufmat.org.br/portal/index.php/component/k2/item/5070-ensaio-sobre-o-nordeste-e-o-preconceito-regional-como-expressao-do-odio-de-classe-no-brasil-parte-1-de-4-secoes-paulo-wescley-pinheiro
 
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Professor da UFMT

 
INTRODUZINDO O DEBATE
 

            A reprodução do preconceito regional no Brasil é algo cotidiano e, ao mesmo tempo, uma questão nebulosa do ponto de vista de sua visibilidade política e teórica. Especialmente a região Nordeste, mas também o Norte do país e outros territórios distantes do centro economicamente desenvolvido, tem os seus povos,  identidades, culturas e corpos subjugados, promovendo maior possibilidade de exploração e complexificando as opressões estruturais no país.
            Num país de proporção continental o que acontece na parte de baixo do mapa ainda ganha contorno privilegiado. Às margens disso há a essência: as pessoas que carregam nas costas o campo e a cidade, o centro e a periferia, a capital e o interior, a produção e a reprodução de uma sociedade que serve ao lucro de poucos.
            É por isso que tratar, ainda que panoramicamente, da questão do Nordeste revela dimensões importantes do antagonismo de classes no Brasil. É preciso refletir as expressões da questão social e os mitos construídos sobre o povo nordestino, produzidos dentro da naturalização da ideologia burguesa, que encobrem a complexidade dos processos de exploração e também de resistência que fizeram parte da formação histórica da região, da identidade do seu povo, das contradições em sua auto-imagem e do modo como é retratado pela hegemonia em diversas práxis como a política, a arte, a ciência e o senso comum.
            Para isso é fundamental partir de alguns pressupostos teóricos que não aprofundaremos aqui, mas que são essenciais, em suas diferenças e que tomam a base material da nossa formação sócio-histórica dentro do capitalismo dependente, as raízes coloniais, escravocratas e patriarcais do Brasil, a burguesia brasileira subsumida ao capital-imperialismo, o desenvolvimento desigual e combinado internamente expresso. 
            Por fim, é também central nessa reflexão a categoria alienação, tida não somente como um elemento econômico, mas como um processo de desumanização em todas as esferas da vida dentro da lógica da unidade exploração-opressão. Na esteira dos princípios do materialismo, o processo dialético ancorado nas contradições históricas coloca o ódio ao trabalho e à pessoa que trabalha como um valor universal entremeado em todas as classes, inclusive entre os sujeitos explorados. A transformação da diversidade em desigualdade tem base estrutural e os valores elitistas são um condimento fundamental no processo de objetificação particular de determinadas parcelas de trabalhadores/as.
            O debate sobre as desigualdades do desenvolvimento regional interno no Brasil, suas consequências econômicas, sociais e culturais tem costumeiramente apagado a discriminação regional que articula e expressa a dimensão de classe, raça/etnia e gênero/sexo, expressando condições singulares na exploração de uma parcela de pessoas da classe trabalhadora e reproduzindo elementos específicos em valores preconceituosos com tons análogos à xenofobia imperialista, mas sob expressão interna no território nacional.
            O rebaixamento e obscurecimento da temática reproduz deformações e advém de um conjunto de fatores que processam essa síntese naturalizada sendo composta pela falta de trato da unidade entre questão urbana e rural no Brasil, pelo histórico tratamento da questão de classe de forma abstrata, pelo falta de desenvolvimento de uma tessitura entre classe, raça/etnia e gênero/sexo como unidade e com mediações mais profundas, pelo trato raso sobre o complexo migratório internacional e nacional.
 
Parte 1 - Nordeste, exploração-opressão e resistência no capitalismo brasileiro 
 
            Tradicionalmente os movimentos sociais que pautam as opressões, os partidos de esquerda e as organizações sindicais pouco deram importância para a constituição que determinou a migração interna no País e desenvolveu as possibilidades de exploração intensa da classe trabalhadora nordestina, estruturando a modernização brasileira, se juntando às condições fundantes realizadas pelas raízes escravocratas e patriarcais.
            Da marginalização ao moralismo, do assistencialismo à romantização da pobreza, da invisibilização midiática às caricaturas comumente espalhadas, a classe trabalhadora nordestina teve e tem sua condição de trabalho precarizada, sua cultura mercantilizada e subjugada, a discriminação naturalizada. Assim, não há como entender o Brasil, suas lutas e contradições, sem desvendar a essência do que se expressa fenomenicamente no preconceito contra o povo nordestino.
            Historicamente, a suposta cordialidade brasileira é uma característica laminada pela contradição. Macia na aparência, ela esconde direções tortuosas, sentidos incoerentes e significados diversos que miram seu corte preciso naquilo que nos acostumamos a achar normal em nossa forma de atuar, seja para viver, seja para sobreviver.
            Na esteira do mito cordial o apassivamento confundido com pacifismo e o amortecimento dos conflitos transmutado como suposta tolerância, foram acobertando e reproduzindo o cerne de uma estrutura capitalista calcada no racismo, no patriarcado e na subserviência ao imperialismo.
            A lente sobre o capitalismo dependente e as particularidades da formação do Brasil e da América Latina como pilares para o entendimento das suas expressões cotidianas contribuem para uma perspectiva de totalidade no reconhecimento de uma classe trabalhadora diversa, sem a reprodução de noções abstratas da luta de classes em territórios fora do eixo do capital.
            O modelo colonial promovido no Brasil faz parte de um processo mais amplo de estruturação da acumulação originária do capital internacional que particulariza um movimento fundacional de subsunção ao imperialismo desde de seus primórdios.
            Essa característica vai sendo constituída de diferentes elementos que permitem um processo de desenvolvimento dependente e combinado, com formas rebaixadas aos interesses europeus que, entre tantas questões, fortalece uma estrutura de rebaixamento do valor da força de trabalho quando se hegemoniza uma estrutura de trabalho assalariado nos anos da República.
            Entre diferentes formas de existir no tramitar histórico dos anos de colônia, de império e de modernização conservadora republicana, há um nó do tradicional metamorfoseado que referenda o trabalho não remunerado, a violência nos espaços produtivos e uma cultura de desumanização das pessoas que foi construída e reproduzida no genocídio e etnocídio dos povos indígenas, na instrumentalização forçada via escravidão da população negra, no acobertamento da importância das atividades realizadas pelas mulheres no processo de reprodução social e, em determinado período e particularidade, na naturalização de práticas análogas à servidão em espaços rurais.
            A seiva e o suor da seca produzida e reproduzida como fenômeno social constrói as possibilidades para os setores dominantes se apropriarem das condições da natureza, constituindo relações sociais como verdadeiras cercas para a reverberação de um instrumento fundamental para o Brasil moderno: a exploração intensa da força de trabalho oriunda do Nordeste do país. Essa exploração, no entanto, não é somente material e nem poderia se estabelecer somente no campo da produção, sendo condimentada por fundamentos políticos e culturais que retroalimentaram a naturalização das condições historicamente determinadas sobre o preconceito geográfico brasileiro.
            Passam-se décadas de pauperização e o “paraíba” e o “baiano” são naturalizados no cotidiano das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, vistos como instrumentos, adjetivados de forma preconceituosa, carregando uma história de invisibilidade e imposições.
            Em tempos de crise a barbárie inflama contradições. De repente, pulsa um escândalo aqui ou acolá, revelando as discriminações cotidianas. Exemplos não faltam: a enxurrada de depoimentos reacionários numa eleição presidencial, culpando os “ignorantes e famintos da parte de cima do mapa país” por não optarem majoritariamente por um projeto ultraliberal e protofascista; ou um tuíte mais específico mandando “afogar os nordestinos”; uma provocação de torcedores de futebol chamando nordestinos de miseráveis ou, ainda, uma “brincadeira” de um colega de trabalho fazendo sua “piada diária” com sua “colega paraíba”, mas que foi documentada e viralizou. Tudo isso são pequenos recortes escritos do tratamento comum dado às trabalhadoras domésticas, aos porteiros, aos garçons, aos garis, aos peões, ou seja, aos sujeitos que estão realizando atividades socialmente tidas como trabalhos de nordestinos no Sudeste.
            Enfim, o que parece ser algo muito circunstancial do ódio do presente é, na verdade, manifestação de uma construção histórica que não é somente no campo da cultura, mas que se constitui do elitismo como ódio de classe.
            Assim como a escravização dos povos africanos foi central para a possibilidade de hegemonia burguesa na Europa, a desigualdade interna do Brasil criou as bases para o desenvolvimento sudestino, ofertando possibilidades mais amplas para a exploração.
            A monocultura produtiva dos séculos de colonização estruturou as possibilidades e impossibilidades infraestruturais e as bases culturais que sedimentaram os estereótipos presentes no século XX. O Brasil marginalizou os negros pós-escravidão, absorveu os sobrantes do exército industrial de reserva europeu e sentou em cima da desigualdade interna do país que a República Café-com-leite, a ditadura Vargas e o desenvolvimentismo de JK constituiu na condição das pessoas fora dos ciclos aburguesados e das camadas médias.
            É nesse processo que a ignorância alimenta a compreensão nacional sobre o ser nordestino, reconhecido como um todo abstrato, sem sua diversidade, disputas e contradições. O reacionarismo das elites rurais agrárias do Nordeste foi tomado como a cultura universal do povo nordestino, ao passo que se marginalizou cada vez mais a cultura popular da região. Esse é um processo clássico que vai instrumentalizando valores e formas de vida dos sujeitos explorados enquanto perpetua os valores funcionais para as classes hegemônicas. 
            Fora do reducionismo popularesco e de referências caricaturais reproduzidas pelas hegemonias regionais (e ainda mais rebaixadas no âmbito nacional) há o sufocamento da riqueza cultural da classe trabalhadora nordestina, produto da resistência cotidiana frente ao processo de exploração, opressão, apropriação e dominação. O saber popular, a linguagem, os meios de solidariedade de classe, a inventividade diante da precariedade e da precarização são manifestações marginalizadas pelos setores da monocultura de valores sociais.
            A forma de falar e agir dos centros urbanos e, dentro deles, dos setores exploradores, assumiram cada vez mais o protagonismo do que é correto, saudável e legalmente aceito. Não por acaso há uma linguagem, um sotaque e determinados hábitos tido como normais em detrimento da “cultura marginal” do resto do país. Capital x interior, litoral, x sertão, centro x periferia, sudeste x nordeste são reproduções de uma lógica hegemônica, irremediável e abstrata do estranhamento capital x trabalho.
            O ódio ao povo nordestino e a sua forma de existir no mundo é, na verdade, o ódio ao trabalhador, sua própria desumanização, a expressão da alienação promovida de cima para baixo pela cultura burguesa, pelas raízes aristocráticas do Brasil e também promovida entre os de baixo, no não reconhecimento da diversidade e na tentativa de sobreposição ideológica frente às questões estruturais
 
Texto integralmente publicado em ENSAIO SOBRE O NORDESTE E O PRECONCEITO REGIONAL COMO EXPRESSÃO DO ÓDIO DE CLASSE NO BRASIL | by Wescley Pinheiro | Medium
 
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Atenciosamente,

 

*Paulo Wescley Maia Pinheiro
Professor do Departamento de Serviço Social da UFMT - Universidade Federal
de Mato Grosso.
Doutorando em Política Social - UnB
 

 

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Publicado a pedido do professor Leonardo Almeida
 
 
 
            Os presentes extratos fazem parte do posfácio de Ailton Krenak para o livro “Quiçaças e Agouros” de Leo Almeida (Professor UFMT/Letras), livro de contos contemplado pelo Prêmio Estevão de Medonça de Literatura/MT. Para as (os) interessadas (os) em adquirir um exemplar entrar em contato pelo email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . O livro está 40 reais com o frete incluído.
 

Extratos de “O elogio ao Kuarup”
Ailton Krenak

 
 
            Essa conversa que teremos aqui é sobre os contos de seu livro Quiçaças e Agouros.
            O conto Egitsu[1]ou a humanidade que nos convémé o registro de alguém que viveu a experiência de Kuarupda maneira mais mágica e ética,sem nenhuma pretensão de fazer etnografia como um antropólogo. O Kuarupé uma matéria atraente porque é um rito funerário e os ritos funerários têm um poder de atração incomum. (...)
            (...)
            Eu fiquei assim de cara com esse conto. Ele tem um desenvolvimento muito diferente dos outros contos curtos, com exceção de Cosmos,já que estes dois imprimem uma viagem,digamos,mais corajosa para além do que seria essa rotina do dia-a-dia que nós vivenciamos ao tomar café, aoir à livraria, ao pegar o trem, ao atravessar fronteira, ao ficar ofendido quando alguém acha que a gente é negro ou que a gente é índio ou que a gente é branco ou latino. Todas essas questões são a própria miséria humana.Daí, a rotina se diferencia muito daquela beleza de morrer, daquela beleza de pensar. Essa rotina miserável de discriminar uns aos outros, de sacanear uns aos outros se distingue bruscamente do clima apresentado por esses dois contos (Egitsu e Cosmos).
            (...)
            São interessantes esses personagens que você cria que viajam o mundo inteiro, as várias vozes narrativas que atravessam a questão de gênero de uma maneira que eu acho que vai ser muito importante para os leitores e as leitoras que ainda estão com os olhos chapados de preconceito e não veem as mudanças que estão acontecendo em termo de radical desordem do sentido de sociedade que sustentou o capitalismo até ontem.
            (...)
                                               ***
            Nos dias de hoje, estamos sendo todos jogados diante de uma interrogação enorme sobre esse tal de amanhã.
            As ideias dos movimentos da América Latina são evocadas nos contos do livro. De certa forma, os contos convocam outros continentes, como a África e a Ásia, onde a tal da humanidade também foi sendo totalmente esquadrinhada (...).
            Então, os contos fazem uma viagem num mundo em erosão(...).
            (...)E tomara que esses contos provoquem a curiosidade nas pessoas que estão meio sem noção andando por aí, para saberem um pouco mais sobre o tipo de gente que nós somos no mundo.
                                                            

 


[1]Kuarup e Egitsu são palavras de línguas distintas (Tupi-guarani e Karib) que designam a festa dos mortos dos povos do Alto-Xingu.

 

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Por Roberto de Barros Freire*
 
  

O general Braga Neto na terça feira, dia 20/04/2021, veio ameaçar senadores e a sociedade civil com o velho e antigo golpismo militar, via de regra, alegando falsamente serem guardiões dos valores superiores sobre a pátria, quando o que está em jogo é a velha ganância de manter seu posto e seu status, pois se o presidente for deposto, ele também perderá seu cargo e as mordomias a ele inerente. Desde 1964 os militares usam de mentiras e subterfúgios para justificar suas ações imorais e tirânicas contra a liberdade de todos, e darem seus golpes, querendo impor seu ponto de vista, ou pior ainda, se considerando os arautos do povo, que nunca deu essa autoridade ou poder para eles.


Disse o general imoral que é preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para conduzir os destinos do país. A sociedade, atenta a essas ações, tenha a certeza que suas Forças Armadas estão prontas a servir aos interesses nacionais. Em primeiro lugar, ninguém pediu para as forças armadas conduzir os destinos do país; elas têm antes que ser conduzidas pelas leis civis. Em segundo lugar, o fato de o presidente ter sido eleito não significa que tenha recebido uma carta em branco e possa fazer o que quiser, mais ainda, o povo assim como institui tem também o poder de destituir os presidentes, que só ficam enquanto agradam. E se for destituído, não será o primeiro. Quem faz isso de forma ilegítima são exatamente as forças armadas, quando se alvoram no direito de mandar no destino da nação. Ou quando querem forçar que aceitemos um presidente aloprado e genocida como o nosso.


Ora, foi pela vontade do povo que fizemos a constituição de 1988 onde se pode retirar um presidente eleito através de impeachment. Portanto, não vamos contra a vontade do povo quando destituímos presidentes. Pelo contrário, é um legítimo direito de resistência instituído pelas leis. Além disso, é em nome do povo que se institui uma CPI no Congresso para investigar os malfeitos governamentais. E se os senadores descobrirem (como descobrirão) atitudes nefastas, um negacionismo doentio, uma política completamente equivocada por parte do governo, através do ex-ministro capacho Pazuelo, tem não apenas o direito, mas o dever de buscar a justiça, além de tomar providências para impedir que as atitudes ignorantes e prejudiciais do presidente da república continuem a nos governar, ou melhor a nos matar e destruir.


Contrariamente ao que alega o mal general, quem desestabiliza e dividi o país não é o congresso ou o STF, mas o próprio executivo, atacando governadores e prefeitos, as instituições, a imprensa e a grande maioria da população que não concorda com a presidência; Bolsonaro nunca teve a maioria da população ao seu lado e foi menos da metade dos eleitores que o elegeram.


Se, como diz o famigerado general, que o momento requer um maior esforço de união nacional, com foco no combate à pandemia e no apoio à vacinação, que o país precisa estar unido contra qualquer tipo de iniciativa de desestabilização institucional, que altere o equilíbrio entre os poderes e prejudique a prosperidade do Brasil, então devemos ficar atentos contra as forças armadas que está dando provas quase diárias do seu ímpeto golpista, de apoiar um presidente que divide o país, que age contra a maioria. Até hoje os militares não deram mostra de renegarem o golpe militar, a tortura, a perseguição política e o regime tirânico que impuseram ao país, e todo ano tentam festejar algo que nos envergonha, o golpe militar, a tirania das forças armadas sobre a sociedade civil. Enquanto os militares não apresentarem uma autocrítica dos acontecidos de 1964, serão sempre suspeitos de golpismo, e serão sempre uma ameaça as liberdades democráticas.


O que divide o país não é a divisão dos poderes que promove até um certo conflito entre eles, pois isso faz parte do sistema republicano, de pesos e contrapesos dos poderes, mas um dos poderes querer impor aos demais sua lógica, sua força, sua tirania, como tentam em toda oportunidade os militares intimidando o judiciário e o legislativo. Nos países com tradição republicana e democrática, não se ouve a opinião dos militares, nem ao menos conhecem seus nomes. A missão constitucional das forças armadas é não se intrometer no governo, pois são antes instrumento do Estado, e não podem tomar partido sobre os governantes que são sempre temporários e podem ser destituídos a qualquer momento quando são nefastos. O exército não é uma instituição democrática, mas republicana.


O discurso do general Braga Netto, nosso infeliz ministro da Defesa, na troca de comando do Exército, foi de extrema petulância e intimidador.Contrariamente ao que disse,a sociedade, atenta a estas ações, tem a certeza de que suas Forças Armadas não estão preparadas e prontas a servir aos interesses nacionais, mas antes aos seus interesses privados. Não é função dos militares tutelar as instituições democráticas, mas antes se submeter a elas.Nas democracias civis, as forças militares não permanecem “sempre atentas à conjuntura nacional”, pois sua função profissional e constitucional é incompatível com a interferência na arena política. E o Exército nunca foi decisivo e leal aos anseios do povo brasileiro.


Há com certeza nesse discurso absurdo do general crime de responsabilidade, e deveria ser afastado do cargo, processado, julgado, condenado e preso.
 

*Roberto de Barros Freire
Professor do Departamento de Filosofia/UFMT
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José Domingues de Godoi Filho*

“Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar” …

(Antonio Machado, em Cantares)

 
 

Desde 1972, após a realização da Conferência de Estocolmo/0NU, se engalfinham os interessados num mundo mais igualitário, habitável pelas atuais e futuras gerações e os interesses dos impérios preocupados em garantir acumulação crescente e ilimitada de riquezas, num planeta finito.


A mesma ONU realizou, na cidade do Rio de Janeiro, outras duas conferências mundiais para tratar das questões socioambientais, em 1992 (ECO-92) E 2012 (Rio +20). Os resultados e recomendações pouco acrescentaram à disposição dos impérios, no sentido de alterar os rumos das mudanças climáticas e dos acordos envolvendo a biodiversidade e a propriedade intelectual; inclusive, o representante de um império, durante a ECO-92, defendeu que “a biodiversidade é patrimônio da humanidade e as patentes patrimônio das empresas”–daí, oatual mercantilismopelas vacinas e demais suprimentos contra o Covid-19.


Durante esse tempo, no que se refere às mudanças climáticas, foi praticamente atropelado o Protocolo de Quioto e realizadas 25 Conferências das Partes (COP). A primeira ocorreu em Berlim (março-abril de 1995), com a presença de 117 países, que estabeleceu o “Mandato de Berlim”, cujo ponto central consensuado foi que todos os países deveriam adotar medidas enérgicas, para mitigação do efeito estufa. No momento, está previsto, para ocorrer em Glasgow (Escócia), em novembro-2021, uma nova reunião da Cúpula da ONU, a COP-26.


Em dezembro-2015, aconteceu a COP-21, em Paris, considerada histórica pelo resultado atingido. O documento final consensuado pelos participantes, conhecido como o “Acordo de Paris”, teve como objetivo principal a redução das emissões dos gases de efeito estufa (GEE), para limitar o aumento médio da temperatura global a 2º C, tendo como referência os níveis pré-industriais. Resumidamente incluiu: - “esforços para limitar o aumento de temperatura a 1,5ºC;recomendações quanto à adaptação dos países signatários às mudanças climáticas, em especial para os países menos desenvolvidos, de modo a reduzir a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos;estimular o suporte financeiro e tecnológico por parte dos países desenvolvidos para ampliar as ações que levam ao cumprimento das metas para 2020 dos países menos desenvolvidos;promover o desenvolvimento tecnológico e transferência de tecnologia e capacitação para adaptação às mudanças climáticas;proporcionar a cooperação entre a sociedade civil, o setor privado, instituições financeiras, cidades, comunidades e povos indígenas para ampliar e fortalecer ações de mitigação do aquecimento global”.


Os países participantes, mais de 190, apresentaram suas propostas para a redução de emissões domésticas de GEE, denominadas de “Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada” (NDC, sigla em inglês).


O Brasil, com o documento intitulado “Compromisso do Brasil no Combate às Mudanças Climáticas: Produção e Uso de Energia”, se comprometeu, dentre outras, com as seguintes ações: - “reduzir suas emissões de GEE em 37% até 2025, atingindo 43% em 2030, tendo como referência os níveis emitidos em 2005; aumentar o uso de fontes alternativas de energia; aumentar  a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira para 18% até 2030; utilizar tecnologias limpas nas indústrias; melhorar a infraestrutura dos transportes; diminuir o desmatamento e restaurar e reflorestar até 12 milhões de hectares”.


Em 2017, um ano depois de assinado o Acordo de Paris, o Presidente Donald Trump anunciou que deixaria a participação, para buscar um “melhor acordo”, afirmando que “o tratado penalizava de forma injusta empresas americanas” e que não atendia a sua política de “América Primeiro”. A formalização da saída, junto à ONU, do pacto global no combate às mudanças climáticas, se deu em novembro de 2020.


Não é demais lembrar que os Estados Unidos, ao lado da China, são os maiores emissores de GEE do mundo. A China, em 2020, foi responsável por 28% das emissões de GEE e os EUA, segundo colocado, por 15%. A China e os Estados Unidos juntos, por outro lado, consomem 40% de toda a energia elétrica disponibilizada no mundo, enquanto mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a esse tipo de energia. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), as principais fontes de energia desses países são: carvão (40,8%), gás natural (21,6%),hídrica (16,4%), nuclear (10,6%) óleo (4,3%).


O desgoverno negacionista brasileiro, sem preocupação alguma com as questões socioambientais e com os povos indígenas e quilombolas, se associou às posições do governo Trump, afirmando sua disposição, com a conivência dos entreguistas de sua equipe, civis e militares, da reserva ou não, de explorar os recursos naturais da Amazônia com as empresas dos EUA; além de recusarsediara, então prevista, realização da COP-25. Assumiu o lema de “passar a boiada”, sugerido pelo Ministro do Meio Ambiente e, está desregulamentando a legislação de licenciamento ambiental e desmontando o IBAMA e o ICMBIO; transformando o Brasil de um dos principais protagonistas do mundo, num pária da questão socioambiental.
 
O retorno do EUA
 
O atual presidente dos EUA, Joe Biden, cumprindo promessa de campanha, convidou 40 líderes mundiais para o que está denominando de Cúpula dos Líderes sobre o Clima, dentre os quais, representantes de outros impérios e o presidente negacionista e entreguista do Brasil, Jair Bolsonaro, para uma reunião virtual sobre o clima, a ser realizada nos dias 22 (Dia da Terra) e 23 de abril. Pretende, com isso, marcar o retorno de Washington ao combate às mudanças climáticas, antes da COP-26, prevista para novembro próximo, em Glasgow, Escócia.


Os principais temas anunciados, para a Cúpula dos Líderes sobre o Clima, “enfatiza a urgência e os benefícios econômico de uma ação climática mais enérgica” e espera resultados que auxiliem para as discussões na COP-26, ou seja: - “esforços para sensibilizar e mobilizar as principais economias do mundo a reduzirem as emissões de GEE nesta década, para manter o limite de aquecimento de 1,5ºC; mobilizar o financiamento de setores público e privado para impulsionar a transição para a emissão líquida zero e ajudar os países vulneráveis a lidar com os impactos climáticos; os benefícios econômicos da ação climática, com forte ênfase na criação de empregos, e a importância de garantir que todas as comunidades e trabalhadores se beneficiem da transição para uma nova economia de energia limpa; impulsionar tecnologias de transformação que podem ajudar a reduzir as emissões e na adaptação às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que criam novas oportunidades econômicas e constroem as indústrias do futuro; apresentar atores subnacionais e não estatais comprometidos com a recuperação verde e uma visão equitativa para limitar o aquecimento a 1.5ºC e que estão trabalhando em estreita colaboração com os governos nacionais para promover a ambição e a resiliência; discutir oportunidades para fortalecer a capacidade de proteger vidas e meios de subsistência dos impactos da mudança climática e o papel das soluções baseadas na natureza para atingir as metas de emissões líquidas zero até 2050”.
 
No processo de apropriação dos recursos naturais e energéticos, com um discurso genérico de desenvolvimento sustentável, a reprodução do capital, com verniz verde, tem ultrapassado suas formas primitivas e selvagens; ampliando os mecanismos econômicos de trocas desiguais de recursos naturais dos países emergentes, por produtos tecnológicos do primeiro mundo, ao mesmo tempo que assume uma estratégia de discurso que legitime a apropriação dos recursos naturais e energéticos.


A questão ambiental, como observado por vários pensadores, se converteu num instrumento para ampliar os limites de crescimento, isto é, o ambiente e o aparato tecnológico passam a funcionar como tecnologia de reciclagem; a biotecnologia como um fator para reduzir a vida a uma mera produção de mercadoria e o ordenamento ambiental como um instrumento viabilizador da localização de atividades produtivas, dispersando as forças sociais, aumentando o espaço de produção, circulação e consumo, além de ampliar o território como suporte do crescimento econômico.


O discurso da sustentabilidade foi incorporado às políticas ambientais com os mesmos pressupostos e ditames da economia neoliberal, para solucionar os processos de degradação ambiental e de uso racional dos recursos naturais, ao mesmo tempo, que legitima a economia de mercado, justificando a capitalização da natureza. São convidados para participar todos os sujeitos sociais (governos, empresários, professores, povos indígenas, movimentos sociais) para uma operação de arrumação e participação na qual se integram e não se respeitam diferentes visões, além de mascarar os interesses contrapostos, com uma fantástica engenharia política para privilegiar o acúmulo de capital. Não se permite a discussão e formulação de um projeto futuro comum, debilitando-se as resistências da cultura e da natureza para reconvertê-las na lógica do capital.


Como parte dessa engenharia política, busca-se fazer com que as populações dos mercados emergente, particularmente, os povos indígenas e as populações tradicionais se reconheçam como capital humano e ressignifiquem seu patrimônio de recursos naturais e culturais como um capital cultural; que aceitem uma compensação econômica negociada pela cessão deste patrimônio às empresas, principalmente às multinacionais farmacêuticas e às geradoras de produtos agronômicos, que se tornarão as encarregadas de administrar bens comuns em benefício do equilíbrio ecológico e do bem estar da humanidade atual e futura. Significa uma operação simbólica que funciona como um amálgama nos marcos ideológicos do capital transnacional para legitimar as novas formas de apropriação da natureza. Faz crer que não há alternativas e impõe um pensamento único, ao qual não se pode mais opor os direitos tradicionais pela terra, pelo trabalho e pela cultura. (Godoi Filho(1))
 
Os EUA estão realmente preocupados com a questão socioambiental?
 
As declarações de autoridades americanas colocam em dúvida as reais intenções do império. Afinal, a disputa pelo domínio e controle do que o Fórum Econômico Mundial denominou de Quarta Revolução Industrial é o que tem norteado a guerra comercial China-Estados Unidos, muito mais
que a questão socioambiental. E, numa reunião, como a convocada pelos EUA, são poucas as possibilidades de grandes resultados que se viabilizem na prática;mesmo depois da missão do assessor especial para o clima do governo Biden,John Kerry, na China e de afirmações do tipo “é muito importante tentarmos nos manter distantes de outras pendências, porque o clima é uma questão de vida ou morte em tantas partes diferentes do mundo”.


Não há como esconder, que os EUA e a China disputam o protagonismo nas ações contra as mudanças climáticas e a posição de império mais poderoso do planeta. A China acusa os americanos de “serem responsáveis por atrasar o cumprimento do Acordo de Paris. Deveriam ter vergonha de tê-lo abandonado e não deixar claro como farão para recuperar o tempo perdido”.


O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Le Yucheng, alertou que “a questão climática não deveria ser moeda de troca para a geopolítica ou para barreiras comerciais”. Afirmou, ainda, que “para um grande país com 1,4 bilhão de habitantes, algumas das metas não são facilmente alcançadas. Alguns países estão pedindo à China que faça mais em relação à mudança climática. Talvez isso não seja muito realista”. O governo da China, por seu lado, prometeu em seu plano econômico “continuar aprovando novas usinas de carvão, priorizando a estabilidade social e o desenvolvimento de importantes indústrias nacionais”.


O secretário de Estado Antony Blinken (2) deixou claro, essa semana, que os EUA, por sua vez, decidiram fazer do debate das mudanças climáticas a oportunidade de reorientar a geopolítica mundial, buscando ultrapassar a China e consolidar sua posição de império mais poderoso do planeta. Nesse sentido, admitiu que “os EUA estão atrás na agenda verde e, se não alcançarem os chineses, perderão a chance de moldar o futuro climático do mundo”. Afirmou, que “neste momento, estamos ficando para trás. A China é o maior produtor e exportador de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos. Detém quase um terço das patentes mundiais de energia renovável”. Mesmo com o “objetivo número um da política climática americana ser o de prevenir catástrofes”, os EUA “não deixarão de lado a competitividade e a ânsia de voltar a ditar os rumos do planeta”.
Ressaltou, o secretário Blinken, que “é difícil imaginar os EUA ganhando uma competição estratégica de longo prazo com a China se não liderarem a revolução das energias renováveis”. As mudanças climáticas não devem ser vistas apenas como “uma ameaça”, mas também como “uma oportunidade” para os americanos recuperarem seu protagonismo. “Estamos torcendo para que cada país, empresa e comunidade melhore a redução de emissões e a construção de um sistema de resiliência. Mas isso não significa que não tenhamos interesse em que os EUA desenvolvam essas inovações e as exportem para o mundo.”
Como chefe da chancelaria dos EUA, afirmou que seu trabalho é garantir que a política externa atenda aos interesses dos americanos e que a abordagem da crise climática como forma de transformar a matriz energética do país e criar empregos é a melhor forma de fazer isso. Para convencer o público americano da importância do tema, Blinken argumentou que o mercado de energia renovável global deve chegar a US$ 2,15 trilhões até 2025, 35 vezes o tamanho atual do setor nos EUA. Ele também afirmou que as políticas que serão adotadas por Biden representam novos empregos para os americanos. Vamos acompanhar a reunião e tirar conclusões.
 
E o Brasil?
 
Chegará à guerra dos impérios na condição de “paria” e, certamente, não serão os poucos minutos previstos para o pronunciamento de cada liderança, que recolocarão o Brasil como um dos principais protagonista mundiais na questão socioambiental. A credibilidade do governo Bolsonaro tende a zero, a carta encaminhada ao governo Biden é vista com ceticismo e desconfiança. O governo brasileiro terá que explicar a excessiva e absurda desregulamentação das normas ambientais; o desmonte dos órgãos ambientais e o esvaziamento das instituições oficiais de pesquisas que produzem dados e conhecimento sobre o território como INPE, IBAMA, IBGE, universidades; a intimidação que tem sido feita aos que criticam a política ambiental do atual governo; a militarização esdrúxula da política ambiental; a atual paralisação da fiscalização pelos órgãos responsáveis em função de portarias do Ministério do Meio Ambiente, dentre outras. A favor apenas a postura entreguista para tentar seduzir interesses empresariais.


Temos os direitos sobre os recursos naturais existentes em nosso território e de qualidade de vida em um ambiente saudável; bem como a obrigação de lutar contra a posição subjacente nessa guerra dos impérios e explícita nas posições do governo brasileiro de, como bem questionadopor Forrester (3) – “é preciso merecer viver para ter esse direito? Será útil viver quando não se é lucrativo ao lucro?”

Há saídas, depende de nós. Vamos construir um novo caminho.
 
(!) Godoi Filho, J.D. Desenvolvimento sustentável e a capitalização da natureza. Cuiabá: CEGAM, mimeografado,1994.
(2) Blinken, A. Blinken warns US is falling behind China in race to capitalize on climate opportunities –CNN Politics. Disponível em:https://edition.cnn.com/2021/04/19/politics/blinken-climate-speech/index.html - Acessado em 20/04/2021.

(3) Forrester, V. L’horreur économique. Paris: Fayard, 1996.
 

*José Domingues de Godoi Filho – Professor da UFMT/Faculdade de Geociências.
 

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