FÉ E POLÍTICA OU FÉ E CIDADANIA - Juacy da Silva
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
Quando falamos de fé, sempre é bom mencionar que existem, pelo menos, dois tipos de fé (religiosa): de um lado, a chamada fé engajada e libertadora e, de outro, a fé “intimista”, subjetiva, alienada e alienadora.
Uma fé libertadora é uma vivência religiosa engajada, comprometida com mudanças sociotransformadoras que, baseada na reflexão e no amor verdadeiro ao próximo, principalmente aos excluídos e pobres, promove, por meio da mobilização profética, de forma coletiva, a emancipação das opressões internas (medo, insegurança, abandono, pecado) e externas (violência, exclusão, preconceitos, exploração, enfim, injustiça social).
Enquanto isso, uma fé alienada, alienadora, intimista e subjetiva é caracterizada por uma crença religiosa ou espiritual que desconecta o indivíduo da realidade social, crítica e prática, gerando passividade, falta de pensamento próprio e, muitas vezes, indiferença diante do sofrimento alheio. É uma fé que foca apenas no ritualismo e no “outro mundo”, na dimensão transcendental, ignorando o compromisso com o próximo; pode também gerar fanatismo e formas nefastas de exploração e até “escravidão” de seus adeptos, sujeitos inclusive à lavagem cerebral, como inúmeros exemplos que podem ser identificados ao longo da história (vide, por exemplo, os casos de Jim Jones, na Guiana, e de David Koresh, no Texas, e tantos outros mundo afora, inclusive no Brasil).
Existe uma grande polêmica permeando as discussões sobre fé e política e/ou fé e cidadania, diante da qual precisamos aprofundar nossas reflexões, principalmente em um ano eleitoral como este de 2026, quando, em outubro/novembro próximo, iremos eleger deputados estaduais, federais, dois terços dos senadores, governadores e o Presidente da República.
Muita gente condena que, nas Igrejas (tanto cristãs quanto não cristãs), as questões políticas sejam objeto de reflexão, de discussões e debates, principalmente por ocasião dos períodos eleitorais. Todavia, é importante lembrar que, independentemente de nossas crenças, nossas religiões e nossas “filosofias” e ideologias, somos cidadãos e cidadãs e, acima de tudo, contribuintes e, como tais, precisamos dialogar profundamente sobre a importância da política e o significado das eleições livres, soberanas e democráticas, relembrando que o “voto de cabresto” faz parte de um passado histórico muito triste em nosso país (vide a obra Coronelismo, enxada e voto, de autoria de Victor Nunes Leal, publicada em 1948).
Como cidadãos, cidadãs e contribuintes, podemos e devemos nos preocupar com os rumos que a política e a gestão pública podem tomar, às vezes — e muitas vezes — para bem longe do bem comum, da ética, da moralidade, do cuidado com quem vive na exclusão, sem desfrutar da dignidade que todas as pessoas devem ter, pelo simples fato de que todos e todas somos criaturas, filhos e filhas de um mesmo Deus, pouco importam nossas crenças.
Daí a importância de refletirmos, tanto individual quanto, principalmente, coletivamente e, neste caso (coletivamente), essas reflexões devem ser feitas em todos os espaços em que as pessoas se agregam, inclusive nas Igrejas, nos sindicatos, nas comunidades, nos bairros e assim por diante.
O exercício da política como ações voltadas para o bem comum exige que, ao exercer cargos e funções públicas, todos os representantes eleitos ou “nomeados” prestem contas de suas ações a quem lhes delegou o mandato, lembrando que a Constituição Federal de 1988 estabelece de forma clara que “todo o poder emana do povo...” e é a este povo, que elege e paga impostos, que os políticos e gestores públicos devem prestar contas de seus mandatos e do exercício de seus cargos e funções. A transparência, a moralidade, a ética, a eficiência, a eficácia e a efetividade não são favor, mas mandamento constitucional e legal, como se diz, “ponto final”.
Os políticos e gestores públicos, em última instância, são “procuradores” do povo, ou seja, empregados do povo (muito bem pagos, não precisando roubar dinheiro público via corrupção), nem buscar um ou mais mandatos para se locupletarem, mas enriquecerem pessoalmente ou por meio de seus familiares e “amigos/amigas” (os asseclas) mais chegados, que, em alguns momentos, se tornam os famosos “laranjas”, em nome de quem os políticos corruptos escondem o produto de seus roubos.
Por isso é que não podemos considerar o voto como uma mercadoria sujeita à compra e venda; mas, sim, como uma arma do povo, um instrumento da cidadania, que tem como compromisso maior não apenas a escolha de futuros mandatários, mas, sobretudo, o fundamento mais importante da democracia, de um Estado Democrático de Direito.
O voto vendido, mesmo que possa beneficiar imediata e diretamente o eleitor corrupto e alienado, a longo prazo favorece o surgimento e a perpetuação do político velhaco e corrupto, que favorece o “orçamento secreto”, as emendas “pix”, a familiocracia e tantos outros esquemas que os veículos de comunicação e os órgãos de controle denunciam diuturnamente, mas que, lamentavelmente, acabam sob o manto da impunidade.
Assim, quando falamos de Estado Democrático de Direito, não estamos falando do “Estado mínimo” para os pobres e excluídos, alheio às necessidades e aspirações dos pobres, mas, sendo mínimo para os pobres, este é o “Estado máximo” para os ricos e para os poderosos, e que contribui para a acumulação de renda, riqueza, propriedade e privilégios em poucas mãos, via políticas públicas de renúncia fiscal e subsídios para os grandes grupos econômicos, de complacência com os grandes sonegadores (contumazes e protegidos), enquanto “faltam recursos” para as políticas públicas destinadas a reduzir as desigualdades sociais, regionais e econômicas, e para promover condições que representem qualidade de vida para a população como um todo, principalmente para as camadas pobres e excluídas.
Recentemente, dando continuidade às reflexões iniciadas pelo Papa Francisco antes de seu falecimento, o Papa Leão XIV, ao publicar sua primeira Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), sobre a questão dos pobres e da pobreza, enfatizou, na forma de um apelo, sugerindo “um empenho que não se limite apenas a aliviar momentaneamente a pobreza, mas que busque eliminar suas causas. Por isso, nos passos do Papa Francisco, ele convida a delinear uma política com os pobres e para os pobres, que seja concebida a partir deles; com realismo, ele observa que isso requer uma escuta real das pessoas que conhecem a precariedade por parte dos políticos e dos profissionais da assistência social — e das instituições eclesiais. ‘Se políticos e profissionais não os ouvirem (os pobres), a democracia se atrofia, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade e vai se desencantando de seu destino’”.
É nesse sentido e contexto que as reflexões sobre Fé e Política, Fé e Cidadania precisam ser exercitadas diuturnamente e não apenas às vésperas das eleições. Isso só pode ser feito por meio de uma fé engajada que promova a dignidade e a libertação do povo, muitas vezes escravizado por uma economia da morte (nas palavras do Papa Francisco), pela exploração dos trabalhadores, pela institucionalização de todas as formas de violência, pela mentira, pelas “fake news”, pelo ódio de um radicalismo sem limites, de muita demagogia, da manipulação da pobreza e dos pobres por meio de políticas públicas ancoradas no paternalismo e no assistencialismo, que apenas perpetuam a pobreza e exploram os pobres.
Gostaria de finalizar esta reflexão transcrevendo um parágrafo do artigo “O amor aos pobres: caminho de compaixão e libertação”, de autoria de Marcos Aurélio, assessor da Escola Fé e Política Padre Sabino e membro do CEBI-RN, publicado no site do CEBI em 31/12/2020, mas que guarda uma atualidade incrível nos dias atuais, quando ele diz: “Hoje não é diferente. Assim como no tempo de Jesus, os pobres vivem debaixo de múltiplas opressões. Sofrem com os baixos salários, desemprego, doenças, preconceito e exclusões, por muitas vezes apenas pelo fato de serem pobres, sobretudo os marginalizados que vivem nas regiões periféricas dos centros urbanos ou nas regiões rurais e ribeirinhas. Os pobres vivem um outro mundo; a sociedade dominante os empurrou para um lugar onde não fossem capazes de se misturar com os que se denominam uma ‘classe superior’. Por isso, os pobres construíram um mundo paralelo com outra cultura, diferente, nos lugares baixos, onde, com poucos recursos, lutam diariamente para sobreviver em meio às maléficas investidas do capitalismo que gera injustiças e desigualdades. As famílias periféricas vivem a luta diária pela sobrevivência, com arranjos para moradia e esforços gigantescos para comprar comida, remédio, como também para suprir outras necessidades básicas”.
Em minha opinião, este é o retrato da falta de dignidade humana, a começar pelo drama da falta e precariedade das moradias populares na atualidade brasileira e que é, novamente, objeto da Campanha da Fraternidade da CNBB — Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — em 2026: Fraternidade e Moradia, cujo lema é “Ele (Cristo) veio morar entre nós”, demonstrando que os desafios sociotransformadores, de natureza política, precisam ser iluminados pela luz do Evangelho, onde se conectam Fé e Política e Fé e Cidadania.
Esta deve ser a tônica quando falamos em Fé e Política ou Fé e Cidadania em nossas Igrejas cristãs e não cristãs também.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
FRATERNIDADE E MORADIA POPULAR DIGNA - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
“Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres”, Papa Francisco, Laudato si’, 2015.
Ao longo de seu relativamente curto pontificado, o Papa Francisco tentou dar um “novo rumo” à Igreja (Católica), apontando algumas direções que nós, cristãos católicos, da mesma forma que os cristãos evangélicos e também os não cristãos, precisamos ter: um olhar mais profundo para os pobres (lembrando que a Igreja faz a OPÇÃO PREFERENCIAL pelos pobres), não no sentido de assistencialismo manipulador, paternalismo que transforma o pobre em objeto; mas sim, indo às raízes estruturais que geram a pobreza, a exclusão, as injustiças, a fome, a miséria e todas as formas de violência que tanto sofrimento produzem nas sociedades e nações.
Além desse olhar fraterno para os pobres, como nossos irmãos e irmãs, o Papa Francisco dedicou uma grande ênfase à ação pastoral sociotransformadora, incluindo sua verdadeira “dedicação” à ecologia integral, sua exortação para que a Igreja na América do Sul tenha também uma cara amazônica e seja, além de uma Igreja sinodal, também uma Igreja profética.
Foi assim que, no Encontro Mundial com os Movimentos Sociais, Francisco enfatizou que “Terra, Teto e Trabalho”, seus três famosos “Ts”, são, antes de tudo, “DIREITOS SAGRADOS”, ou seja, são direitos humanos fundamentais e também constitucionais e legais em inúmeros países, mas que, lamentavelmente, como acontece no Brasil, são “letras mortas”, ou como se diz, “para inglês ver”; isso se considerarmos que, desde 1948, a ONU, quando da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e no Brasil, desde 1988, a Constituição também coloca a moradia digna como um direito fundamental.
Em 1993, pouco depois da promulgação da Constituição de 1988, que era chamada por Ulysses Guimarães de Constituição Cidadã, e que abriu caminho para a implantação de um Estado Democrático de Direito, depois de mais de duas décadas de governos militares autoritários, a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil escolheu como tema da Campanha da Fraternidade daquele ano “Fraternidade e Moradia”.
Nada menos do que 33 anos depois, novamente, em 2026, a MORADIA POPULAR DIGNA volta a ser tema da Campanha da Fraternidade, relembrando que aproximadamente 66,2 milhões de pessoas e famílias vivem em situação de pobreza e insegurança que não oferece condições de dignidade humana em nosso país; além disso, mais de 110 milhões de pessoas não têm esgoto tratado; mais de 30 milhões de pessoas vivem em favelas e mais de 50 milhões carecem de regularização fundiária urbana e rural. Essas condições, além de outras, impedem que milhões de pessoas e famílias tenham MORADIA POPULAR DIGNA em nosso país.
Este é um desafio diante do qual não podemos nos omitir, lembrando que, perante a doutrina católica e cristã, a OMISSÃO é um PECADO, principalmente um PECADO SOCIAL, ECONÔMICO E PECADO ECOLÓGICO.
Sempre é bom recordar as palavras do Papa Francisco quando ele aborda a questão do TETO para quem precisa morar com dignidade, como uma dimensão não meramente individual, mas sim como uma dimensão comunitária, coletiva. Por isso, ele enfatiza e nos exorta dizendo: “Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: é o bairro, e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos”.
Por isso, a CNBB, na Campanha da Fraternidade de 2026, estabeleceu como objetivo geral PROMOVER, a partir da Boa Nova do Reino de Deus e, em espírito de conversão quaresmal, a MORADIA POPULAR DIGNA COMO PRIORIDADE E DIREITO, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população.
E como objetivos específicos, seis aspectos fundamentais da luta por moradia digna no Brasil, a partir de cada território, realidade concreta, nas Arquidioceses, Dioceses, Prelazias, Paróquias e Comunidades Eclesiais onde vivem as pessoas, inclusive e/ou principalmente os pobres e excluídos, aqueles a quem falta moradia digna, apesar de o Brasil estar entre os dez países mais ricos e com os maiores PIBs – Produto Interno Bruto – do mundo.
Vejamos quais são os objetivos específicos da Campanha da Fraternidade de 2026:
a) analisar a realidade da moradia precária em nosso país;
b) identificar as omissões do poder público e da sociedade civil frente ao não cumprimento do direito constitucional à moradia e à cidade;
c) conscientizar, à luz do Evangelho, a população em geral e os pobres e excluídos em particular sobre o direito sagrado ao teto para quem precisa morar com dignidade, à terra para quem precisa trabalhar e ao trabalho em condições dignas e salário justo a quem precisa trabalhar;
d) enfatizar que moradia não é apenas uma mera mercadoria sob a ótica do mercado, principalmente diante da voracidade da especulação imobiliária e da espoliação financeira reinante, nefasta;
e) fortalecer a presença da Igreja e o compromisso sociotransformador junto aos pobres e excluídos, em parceria e luta conjunta com os movimentos e organizações populares e, na Igreja, entre todas as pastorais, movimentos e organismos, uma verdadeira pastoral de conjunto;
f) empenhar-se na MOBILIZAÇÃO PROFÉTICA para efetivar políticas públicas de moradia em um contexto amplo, onde estejam incluídos planos, programas e ações voltadas para as necessidades da população de rua; para a regularização fundiária; para a universalização do saneamento básico, limpeza urbana, água, transporte coletivo de qualidade, mobilidade, arborização urbana, equipamentos de esporte e lazer, educação pública de qualidade e socialmente referenciada e saúde de qualidade para toda a população.
A Igreja, em praticamente todas as suas ações há quase um século, utiliza uma metodologia intitulada VER, JULGAR/ILUMINAR e AGIR, formulada nos anos quarenta do século passado pelo sacerdote Joseph Cardijn, metodologia esta bem detalhada na publicação O Método Ver, Julgar e Agir, de autoria de Agenor Brighenti, publicada pela Editora Vozes em 2022, que vale a pena ler e refletir.
Segundo esse método, o primeiro passo é conhecer a realidade, no caso, a questão da moradia popular em cada território; o segundo passo é refletir, à luz do Evangelho, das Encíclicas e do magistério social da Igreja; e o terceiro passo são as nossas ações, visando à transformação conjuntural e estrutural da realidade que empurra para uma vida sem dignidade dezenas ou centenas de milhões de pessoas vivendo na pobreza, passando fome, “morando” nas ruas, embaixo de viadutos, em casebres sem as mínimas condições e qualidade de vida, em localidades sem infraestrutura, em áreas de risco, sem segurança social, econômica ou jurídica e, às vezes, a cada ano aumentando, em áreas onde o Estado/Poderes Públicos estão ausentes, abrindo espaço e caminho para o domínio do crime organizado, do narcotráfico e das milícias, tornando milhões de famílias prisioneiras da violência generalizada, onde a dignidade humana está totalmente ausente.
Como podemos ler no texto-base da Campanha da Fraternidade de 2026, na parte voltada para o AGIR, esse agir pode e deve ser:
a) agir pessoal educativo;
b) agir comunitário (coletivo) sociopolítico/transformador;
c) agir profético, lutando ao lado e com os pobres e excluídos na perspectiva da moradia digna.
O agir comunitário só pode ser feito por meio de um diálogo permanente com e entre os pobres e excluídos, fortalecendo os saberes e as formas organizacionais das comunidades, buscando um despertar da consciência crítica e libertadora e da importância da caminhada e das lutas coletivas, combatendo o individualismo que enfraquece as lutas coletivas e reforçando a necessidade do fortalecimento das organizações e movimentos populares e também das pastorais sociotransformadoras da Igreja, forma única de dar continuidade ao despertar que ocorre ao longo das Campanhas da Fraternidade durante uma parte do ano.
Paralelamente ao agir comunitário, é fundamental, importante e imprescindível também o Agir Eclesial, onde, conforme o texto-base da Campanha da Fraternidade, são sugeridas 15 formas/tipos de ação eclesial, abrindo caminho e perspectiva para o engajamento da hierarquia da Igreja – arcebispos, bispos, vigários, párocos, religiosos, religiosas, escolas católicas – para contribuir tanto na organização quanto no fortalecimento das pastorais, movimentos e organismos da Igreja e também dos fiéis leigos e leigas engajados/engajadas; lembrando que as ações pastorais estão inseridas em uma dimensão tríplice: espiritualidade engajada e libertadora; ações sociotransformadoras propriamente ditas; e muita MOBILIZAÇÃO PROFÉTICA, também engajada e libertadora. Este deve ser o rosto da Igreja, coerente com o exemplo do Cristo ressuscitado ao longo de sua vida terrena.
Destaca-se também o Agir Educativo, com dez sugestões que podem e devem ser feitas a partir das paróquias, por meio das pastorais, movimentos e organismos sociotransformadores, em parceria com outros movimentos populares, visando ao despertar da consciência de cidadania, dos direitos fundamentais das pessoas e da dimensão política da fé engajada. É nesse contexto que a questão da MORADIA DIGNA está ou deve estar inserida, como luta e conquista, jamais como dádiva dos poderosos aos pobres e excluídos, lembrando que MORADIA DIGNA precisa ser uma política pública, inserida nos orçamentos públicos (Planos Plurianuais; LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias; e LOA – Lei Orçamentária Anual), e que cabe aos governantes, poderes Executivo e Legislativo, definirem as prioridades das ações governamentais, entre as quais a moradia popular digna deve ou precisa ser inserida.
Cabe também enfatizar a importância da ação sociopolítica, tanto no âmbito das políticas públicas de habitação, seja do Governo Federal, dos governos estaduais e dos governos municipais, para que os recursos necessários sejam incluídos nas diversas “peças” orçamentárias, quanto das demais políticas sociais e econômicas.
É fundamental enfatizar também que o agir deve estar presente no âmbito da “construção do direito à cidade”, como preceitua claramente o Estatuto das Cidades desde 2001, a legislação do parcelamento e uso do solo urbano, da função social da propriedade e da legislação ambiental, principalmente tendo em vista que as mudanças climáticas e os desastres ecológicos afetam de forma muito mais drástica os pobres e excluídos que não desfrutam do direito a uma moradia digna nem do direito à cidade, na concepção abrangente como já foi enfatizado ao longo desta reflexão. Na verdade, boa parte, ou talvez a maior parte, das cidades brasileiras confina os pobres e excluídos em verdadeiros “guetos”, com uma cidade dos e para os pobres e outra cidade dos e para os ricos e classe média, configurando-se um verdadeiro “apartheid social”.
Finalmente, precisamos enfatizar ainda o agir “no âmbito das comunidades e assentamentos populares” e no “âmbito do apoio à autogestão e ao cooperativismo habitacional”, no contexto da economia solidária, da luta coletiva, como sugerido na Economia de Francisco e Clara, a Economia da Vida, em substituição à economia da morte, como também sempre enfatizado pelo Papa Francisco.
Para concluir, gostaria de transcrever duas formas de agir, sugeridas na Campanha da Fraternidade, na luta por moradia digna, que se inserem no Agir Eclesial, exortando tanto os fiéis quanto a hierarquia eclesial de que a omissão não pode estar presente no agir de uma Igreja sinodal e profética.
Vejamos o item 173, 3.2 – Ação Eclesial, letra f): “Incentivar e promover a PASTORAL DA MORADIA E FAVELA em todas as (Arq)Dioceses e Prelazias (onde estão incluídas as paróquias e comunidades eclesiais), como compromisso profético e evangelizador junto aos pobres, os mais fragilizados no direito à moradia digna e no direito à cidade”; e letra g): “Fortalecer as pastorais sociais com atuações diretas junto às pessoas e às realidades das PERIFERIAS, em vista da superação da exclusão..., articulando-se com a PASTORAL DA MORADIA E FAVELA”.
Para o Papa Leão XIV, em continuidade com Leão XIII, de quem toma o nome e a inspiração pela Justiça Social/Doutrina Social da Igreja (vide Rerum Novarum) e pelas preocupações do Papa Francisco com a Ecologia Integral e com os pobres, “moradia digna e condições de vida justas são essenciais para a dignidade humana e refletem o próprio Evangelho, exigindo ação concreta e não apenas caridade superficial”, inserindo-se no contexto de sociedades e nações justas, sustentáveis e fraternas/solidárias.
Este é o caminho que tanto a Igreja Católica quanto as Igrejas Evangélicas e também as demais religiões devem tomar para que a dignidade humana seja, de fato, a base quando falamos de “um novo céu e uma nova terra”, das sociedades do bem viver, do bem querer ou da “terra sem males”.
A luta por MORADIA POPULAR DIGNA é o centro do despertar da cidadania, da justiça social, da sustentabilidade e das transformações sociais, econômicas e políticas que fazem parte do Brasil que queremos e merecemos!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
PAPA LEÃO XIV E OS NOVOS RUMOS DA IGREJA - Prof. Juacy da Silva
ESPAÇO ABERTO
Debate de ideias – Informativo da Associação dos Docentes da UFMT - ADUFMAT - nº 62/2025.
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PAPA LEÃO XIV E OS NOVOS RUMOS DA IGREJA
Juacy da Silva
Oxalá que o novo ano (2026) que se aproxima seja um tempo de paz, de sustentabilidade, de Justiça Social, muita sinodalidade e profetismo por parte da Igreja, não apenas enquanto uma Instituição terrena, com suas estruturas e dimensões de poder; mas, fundamentalmente, uma Igreja na dimensão espiritual e humana representada por todas as pessoas batizadas, unidas por uma mesma fé e esperança, o verdadeiro Corpo de Cristo, que somos nós leigos, leigas, religiosos, religiosas e aqueles que integram a hierarquia eclesiástica também.
Nunca é demais relembrar a importância do papel e da autoridade do Papa para os fiéis católicos, enquanto sucessor de São Pedro, no contexto da Unidade da Igreja e importância do Magistério de sucessivos Papas, seja em seus pronunciamentos públicos, suas homilias e, principalmente, em suas Exortações Apostólicas e Encíclicas.
A Unidade da Igreja só existe quando nós, como fiéis, seguimos não apenas a Doutrina Católica, emanada das Sagradas Escrituras, mas também seguindo e praticando o que em cada momento o Santo Padre, Bispo de Roma nos orienta e nos aponta como caminho a seguir. Ignorar as mensagens e as diversas dimensões do magistério papal reduz a dimensão de Unidade da Igreja.
Por exemplo, o Papa Francisco com seus ensinamentos e seu magistério voltados para os desafios da Ecologia Integral (Vide Laudato Si, Laudate Deum, Querida Amazônia e o pronunciamento sobre os tres “Ts”: Terra, Teto e Trabalho; o sentido de sermos uma Igreja que faz a Opção preferencial pelos pobres, e, por isso, cultivarmos tanto a Sinodalidade quanto a Amizade Social (vide Fratelli Tutti) e a criação do Dia Mundial dos Pobres.
Assim, ao longo de pouco mais de uma década o Papa Francisco estimulou a Igreja e apontou-nos o caminho a seguir. na sinodalidade e no profetismo. Todavia, boa parte da Igreja, tanto da Hierarquia (clero, religiosos e religiosas) simplesmente ignorou essas mensagens , enfim, o Magistério de Francisco.
Agora temos um novo Papa, que, ao ser eleito sucessor de Pedro e Bispo de Roma, escolheu, simbolicamente, o nome de Leão XIV, demonstrando que pretende seguir o Magistério de Leão XIII, voltado para a justiça social em relação ao fator trabalho e a situação em que viviam os trabalhadores do mundo inteiro, principalmente na Europa, em condições de extrema pobreza e exploração e, em meio a um grande debate e conflito ideológico, entre o “capitalismo selvagem” de um lado e o marxismo/comunismo de outro.
Coube a Leão XIII demonstrar que a Igreja oferecia e ainda oferece, uma outra opção que era o cooperativismo, a economia solidária, baseados em uma justa distribuição dos frutos do trabalho e no conceito de justiça restaurativa, de equidade e na busca da construção de uma Igreja Samaritana e solidária, tendo como exemplo, as primeiras comunidades cristãs, onde tudo era compartilhado entre aquelas pessoas que comungavam uma mesma fé e uma mesma esperança.
Pois bem, o Papa Leão XIV, não apenas resgata o Magistério de Leão XIII, mas dá continuidade ao aprofundamento feito pelo Papa Francisco ao incorporar as preocupações e compromissos dos cristãos em geral e católicos em particular com a ecologia integral no corpo da Doutrina Social da Igreja (DSI).
Além disso, Leão XIV tem voltado seu magistério para construir uma cultura da paz desarmada, condenando todas as formas de guerras, de conflitos armados e todas as formas de violência em particular, onde, a Autoridade Moral da Igreja deve estar e fazer-se presente sempre, jamais compactuando com tais distorções nas relações humanas e nas relações geopolíticas globais.
Com bastante frequência Leão XIV tem insistido que cabe a Igreja, tanto no que concerne sua hierarquia eclesiástica quando Igreja enquanto fiéis, o Corpo de Cristo; seguir esses ensinamentos, mas também aprofundar tais compromissos através de ações concretas, sempre lembrando que a caminhada da Igreja se faz ancorada em tres grandes fundamentos: Espiritualidade (não epans de forma subjetiva, mas engajada); Ações sociotransformadoras e também Mobilização profética.
Isto significa, em meu entendimento, que preicamos rezar/orar sempre; mas só isso não basta. Precisamos enquanto Igreja também agirmos para transformar as estruturas políticas, econômicas, sociais e culturais que geram pobreza, miséria, fome, exclusão, violência, conflitos e guerras, ou seja, irmos `as causas e combatermos tais causas que geram a degradação moral, socioambiental e a exclusão social, política e econômica e todos esses desafios que tanto nos agustiam.
Todavia, como não cabe `a Igreja substituir o que cabe aos poderes públicos, `as instâncias governamentais realizarem, é fundamental que esta mesma Igreja que faz a opção preferencial pelos pobres, também esteja ao lado dos pobres e excluidos e lute junto deles na superação dessas iniquidades, verdadeiros pecados tanto ecológicos qunto sociais.
Neste particular é que “entra”, surge a dimensão profética, incluindo a mobilização profética e o estímulo para as ações coletivas que possam pressionar os governantes, os donos do poder e os donos do capital, donos da economia a pautarem suas ações através de políticas públicas voltadas para atender as necessidades, sonhos e esperanças dos pobres e oprimidos e também para que os empresários não mirem apenas o lucro imediato, mas vejam na economia e na propriedade privada dos meios de produção uma dimensão de justiça social, voltadas para o bem comum, algo fundamental e importante para a caminhada da Igreja.
Justiça social neste contexto é sinônimo, MORADIA DIGNA, de trabalho digno, salário digno e justo, uma maior e melhor distribuição de renda, riquezas e oportunidades , respeito `a natureza, `a ecologia integral, justiça intergeracional, e um combate a todas as formas de exploração, discriminação, inclusive de gênero, raça e cor, no desenvolvimento da cultura da paz, desarmada e desarmente.
Só assim, podemos falar em uma Igreja que caminha ao lado do Povo de Deus e na construção de Novo Céu e Nova Terra, em busca da TERRA SEM MALES e do BEM VIVER!
A seguir, sugiro a leitura da primeira Exortação Apostólica de Leão XIV “DILEXI TE” (EU TE AMEI), bem como tres mensagens mais recentes.
1) “Papa denuncia a injusta concentração de riqueza: a esperança gera, não rouba” Bianca Fraccalvieri - Vatican News 20 Dezembro 2025.
2) “Papa: acumular riquezas não dá sentido à vida, nosso tesouro está no coração” Vatican News, Audiância Geral, 17 Dezembro 2025.
3 “O trabalho justo coloca a pessoa acima do lucro”. Vatican News, Ao receber em audiência os representantes da Ordem dos Consultores do Trabalho, o Papa destacou que toda atividade trabalhista deve ter como centro a dignidade da pessoa humana e da família, e não o lucro ou as leis do mercado econômico.
Em relação `as suas ênfases quanto `a importância e a responsabilidade dos Católicos com um melhor cuidado com a Ecologia Integral, Nossa Casa Comum, é importante ler, refletir e promovermos ações concretas sugeridas em diversos de seus pronunciamentos desde que assumiu e deu início ao seu Magistério Papal.
Lamentavelmente, como tem acontecido com todos os Papas que os antecederam, as diversas Encíclicas, Exortações Apostólicas e Homilias que foram publicadas ou transmitidas`a Igreja Universal e `as Igrejas Locais, boa parte das mesmas tem feito “ouvidos moucos”, como se os Papas estivessem “pregando no deserto”, simplesmente “temos” ignorado o Método da Igreja que nos orienta em seus tres passos fundamentais: VER, JULGAR/ILUMINAR e AGIR.
A Igreja, ou melhor, nós fazemos, razoavelmente bem, os dois primeiros passos mas nos omitimos bastante em realção ao terceiro passo que é o AGIR. Resta-nos relembrar que para que haja mudanças sociotransformadoras, que alterem as estruturas sociais, políticas e econômicas injustas, precisamos de agir, não apenas individual, mas, de preferência, COLETIVAMENTE, principalmente ao lado e com os pobres, excluidos e oprimidos, este é o AGIR de uma IGREJA PROFÉTICA.
É isto que Leão XIV está nos apontando como os novos rumos que a Igreja deve seguir, um verdadeiro resgate nas decissões tomadas (e ainda em vigor) pelo CONCÍLIO VATICANO II, que em 08 de Dezembro último (2025), completou 60 anos, mas que, praticamente esta data foi ignorada pela Igreja tanto no Brasil quanto em diversos países.
Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mesttre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Instagram @profjuacy Whats app 65 9 9272 0052
FERROVIA ATÉ CUIABÁ E REGIÃO OESTE DE MATO GROSSO - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
Diante dos desafios socioambientais, principalmente da crise climática, não tem mais sentido o Brasil continuar incentivando o rodoviarismo, o uso de combustíveis fósseis (petróleo e derivados, gás natural e carvão), responsáveis por mais de 75% das emissões de gases de efeito estufa, que degradam o meio ambiente, poluem o ar, afetam a saúde humana, oneram os custos do transporte e logísticos, tanto de cargas quanto de passageiros, tornando a economia nacional e regional menos competitiva em relação ao restante do mundo, que há muito tempo tem substituído o modal rodoviário, obsoleto e antieconômico, por outros modais mais modernos, sustentáveis e mais eficientes, onde as ferrovias e veículos urbanos sobre trilhos, elétricos, estão cada vez mais presentes no mundo inteiro, contribuindo para uma justa transição energética.
Pouca gente em Cuiabá, na Baixada Cuiabana e Região Oeste do Estado, sabe que a tão sonhada Ferrovia Senador Vuolo, como estão nos planos e ações da concessionária e de boa parte das lideranças políticas, econômicas e sociais de Mato Grosso, não chegará a Cuiabá e Região Oeste de nosso Estado, a não ser que a população lute pela mesma.
Os interesses tanto da Concessionária quanto de muitos líderes políticos, sociais e econômicos são outros e não contemplam o desenvolvimento e a pujança de nossa Capital e das regiões mencionadas anteriormente. O sonho dessas lideranças é fortalecer as regiões Norte e Leste do Estado, visando à divisão de Mato Grosso futuramente. Por isso, da mesma forma que aconteceu com Mato Grosso do Sul, a construção de uma base sólida de infraestrutura faz parte deste jogo estratégico.
Estranho, no caso dos políticos, é que inúmeros dos mesmos têm recebido votação significativa, tanto em Cuiabá quanto em Várzea Grande, Baixada Cuiabana e Região Oeste de Mato Grosso, o maior colégio eleitoral do Estado, e o fato de que essas “figuras ilustres”, da mesma forma que o empresariado cuiabano e regional, também não têm se empenhado para que a Ferrovia chegue a Cuiabá e também a Cáceres e a toda a Região Oeste do Estado.
Se isto acontecer, estaremos fadados a fazer parte de mais um “vale dos esquecidos” em Mato Grosso, como já acontece com alguns municípios e regiões do Estado, onde a pobreza e a falta de dinamismo econômico são a característica marcante.
Interessante é que o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico de Cuiabá, aprovado pela Câmara Municipal e sancionado pelo então Prefeito Wilson Santos (hoje deputado estadual - PSD), do qual fui Coordenador Geral à época, transformado na Lei Complementar 150, de 29 de janeiro de 2007, prestes a completar 19 anos, ainda em vigor, elaborado de forma participativa e democrática, procurou colocar Cuiabá no contexto de sua influência micro e macroregional (estadual), como capital do Estado e sede dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Estado, e também como sede de todos os organismos federais existentes em Mato Grosso e de um empresariado pujante.
Além disso, destacava na época a importância econômica tanto do maior aglomerado urbano constituído por Cuiabá e Várzea Grande e, posteriormente, a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, ao incluir, além da Capital e de Várzea Grande, também os Municípios de Jangada, Nossa Sra. do Livramento e Santo Antônio do Leverger, o que aumenta a importância econômica, política e social desta região, não como mais um “vale dos esquecidos”, como querem alguns, mas sim como uma macrorregião de importância estratégica tanto para o desenvolvimento de Mato Grosso quanto do ponto de vista estratégico nacional, seja em relação aos Biomas PANTANAL e CERRADO, e também quanto à Integração Sul-Americana, com o Norte da Argentina, o Paraguai e a Bolívia, e mais uma alternativa de “saída” para o Pacífico, onde estão as economias mais dinâmicas da atualidade mundial e com quem o Brasil mantém um importante comércio internacional.
O Artigo 6º do citado Plano Diretor estabelece que “A estratégia de valorização de Cuiabá como polo regional de desenvolvimento tem como objetivo geral orientar as ações do governo e dos diferentes agentes da sociedade para a promoção do DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL e INTEGRADO DA REGIÃO”.
Dentro desta perspectiva e dimensão estratégica, o artigo 9º da Lei do Plano Diretor de Cuiabá inclui diversas diretrizes gerais e inúmeras diretrizes setoriais ou específicas e, inclusive, cria o Sistema Municipal de Planejamento, para que as ações do governo municipal estejam integradas e articuladas com as ações dos Governos Estadual e Federal, bem como da iniciativa privada, em todos os setores: econômico, social, ambiental/ecológico e político, racionalizando e maximizando a aplicação dos recursos, principalmente dos recursos orçamentários (públicos), e também ser a bússola que orienta os investimentos e as ações dos diversos setores, principalmente do empresariado e também da sociedade civil organizada.
Vejamos o que estabelece o Artigo 9º do Plano Diretor de Cuiabá: “Constituem diretrizes gerais do desenvolvimento estratégico do Município, cabendo à Prefeitura Municipal de Cuiabá: I... II... VII ‘promover ações que garantam o suprimento energético necessário ao incremento dos parques industriais, o aproveitamento hidroviário da Bacia do Rio Cuiabá, a construção da ferrovia até Cuiabá e a prestação dos serviços e dos domicílios do Município’”.
Ao todo são 31 Diretrizes Gerais e mais de 200 Diretrizes Específicas para servirem de base tanto para sucessivos PPAs (Plano Plurianual), LDOs (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e LOAs (Lei Orçamentária Anual), que já foram “elaboradas” ao longo desses quase 20 anos, desde que o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico foi aprovado, sancionado, transformado em uma Lei Complementar, mas, lamentavelmente, pouco ou quase nada foi seguido e observado por sucessivas gestões municipais, que sempre fazem da improvisação, do imediatismo, do voluntarismo e da descontinuidade de ações governamentais, e da total falta de integração de ações entre as diferentes instâncias governamentais e, destas, com a iniciativa privada e as organizações não governamentais.
Diante disso, podemos concluir, sem sombra de dúvida, que, ao “deixarem de lado” a racionalidade do planejamento como instrumento fundamental na definição e implementação de políticas públicas de médio e longo prazos, nossos governantes são responsáveis, direta ou indiretamente, pelos problemas, enfim, pelo caos em que Cuiabá e toda a região de seu entorno, a Baixada Cuiabana, têm enfrentado e continuam enfrentando, em todas as dimensões e setores.
Em boa hora coube à Universidade Federal de Mato Grosso, nossa UFMT, criar um Grupo de Trabalho integrado por docentes de diferentes áreas para colaborar com esta luta e elaborar um estudo técnico bem fundamentado, que deverá servir de base para que esta obra vital e estratégica, tanto para Cuiabá, para a Baixada Cuiabana, para o Pantanal, para Cáceres e Região Oeste de Mato Grosso, e também para o Brasil, em sua estratégia de integração Sul-Americana, seja incluída no PAC e demais programas do Governo Federal e possa, assim, corrigir esta distorção e evitar que um verdadeiro crime seja cometido contra o verdadeiro polo dinâmico de nosso Estado.
Esta região do Estado, que não pode ser marginalizada e “esquecida”, como desejam algumas pessoas e grupos econômicos que buscam uma hegemonia política e econômica do Estado, precisa de muita mobilização para que a Ferrovia chegue a Cuiabá, Cáceres e toda a Região Oeste de nosso Estado.
Oxalá nossos representantes na Assembleia Legislativa, nas Câmaras Municipais e prefeituras dessa região, bem como do Executivo Estadual, empresariado e lideranças em geral nesta região, acordem desta letargia, omissão, e participem da luta em prol da Ferrovia e de um grande programa de desenvolvimento regional, que será um divisor de águas tanto em relação ao transporte de cargas quanto de passageiros no âmbito regional, principalmente.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjua
BOLSONARO INELEGÍVEL, CONDENADO E PRESO - Juacy da Silva
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“Quero dizer aos canalhas que nunca serei preso”. Bolsonaro, em discurso inflamado nas comemorações de 07 de Setembro de 2021, na Avenida Paulista/SP.
“A minha palavra ao tirano Alexandre de Moraes: põe a mão em Jair Bolsonaro. Põe a mão nele. Põe a mão nele e tenta a sorte. O azar você já tem”. O senador Magno Malta (PL-ES) provocou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e criticou medidas impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que está usando tornozeleira eletrônica. Fonte: Correio Braziliense, 27/01/2025
À medida que o tempo passa vamos nos aproximando de um momento histórico que, com certeza, irá marcar o futuro do Brasil, quando o povo brasileiro, os eleitores, irão escolher, em 2026, democrática e livremente, através do voto depositado nas URNAS ELETRÔNICAS, o Presidente da República, dois terços dos Senadores, a totalidade dos Deputados Federais, estaduais e todos os Governadores Estaduais.
Uma nova configuração política e institucional poderá sair dessas eleições, marcando um novo tempo na história brasileira.
Desde pouco antes das eleições gerais de 2018, acentuando-se mais ainda nas eleições de 2022, o Brasil vive um clima de radicalismo, de intolerância, de acirramento político, eleitoral e ideológico.
Nas eleições de 2018, com Lula preso, o embate entre a direita, mais especificamente a extrema direita (o bolsonarismo), contra a esquerda e o chamado “centro democrático”, não golpista, foi bem acirrado, favorecendo a chegada de um deputado até então apagado, pertencente ao chamado “baixo clero” no Congresso, Jair Bolsonaro, à Presidência da República.
Ao longo de seus vários mandatos como deputado federal, este novo líder da extrema direita raivosa era identificado por palavras e discursos radicais de cunho extremista, machista, preconceituoso, defensor de torturadores e por pronunciamentos inflamados indicando que tinha uma agenda radical de extrema direita, com DNA bem próximo do nazi-fascismo, em todos os setores, como na economia, na gestão pública, nos costumes e em outros aspectos, principalmente no desmonte das políticas públicas voltadas aos pobres e excluídos, em vigor no Brasil há várias décadas.
Ao longo de seu mandato radicalizou ainda mais o discurso, assacando contra a chamada “classe política”, contra o “sistema”, como se do mesmo não fizesse parte; com frequência atacava as urnas eletrônicas, tentando desmoralizá-las como instrumento tecnológico seguro; mas seu alvo principal aos poucos foi sendo a esquerda e o Poder Judiciário, principalmente alguns de seus ministros, preferencialmente o ministro Alexandre de Moraes.
Na metodologia da construção de cenários prospectivos há um elemento crucial que é denominado de “fato ou fatores portador/portadores de futuro”, ou seja, um fato ou fatos que, aparentemente, não estão no radar dos observadores políticos e que têm o poder de modificar o futuro, mas que, de um momento para outro, surgem inesperadamente e aí têm o poder de modificar as tendências e de mudar o rumo da situação, algo que as “pesquisas” de opinião eleitorais não previram, mas que podem transformar completamente quando as urnas forem abertas.
Pois bem, mesmo que o período entre as duas eleições gerais, de 2018 e de 2022, tenha sido marcado por um fato inesperado que foi a pandemia da COVID-19, quando o mundo todo entrou em um período de “hibernação”, o governo Bolsonaro acabou sendo afetado profundamente, principalmente pelo negacionismo que o marcou, tornando-se responsável direta ou indiretamente por mais de 700 mil mortes, a grande maioria evitáveis, diga-se de passagem, caso o mesmo tivesse tido outra postura diante daquele desafio, que não o negacionismo e a omissão.
Mas o “fato portador de futuro” que poucos ou quase ninguém imaginava e que não era identificado pelos “radares” dos partidos políticos e muito menos pelos institutos de pesquisa foi a reviravolta que aconteceu com a Operação Lava Jato, livrando Lula da cadeia em que esteve por 580 dias, em uma sala especial na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, quase igual à que Bolsonaro iniciou recentemente para cumprir sua pena de 27 anos e poucos meses e alguns dias, inicialmente em regime fechado, em Brasília, depois de uns meses em prisão domiciliar, vigiado e usando tornozeleira eletrônica, até que tentou destruí-la, motivando sua prisão preventiva e, logo a seguir, o início do cumprimento da pena à qual foi condenado.
Enquanto Lula, impedido de concorrer a um terceiro mandato em 2018, preso, aguentou com altivez, sem sucumbir e jamais aceitando a acusação de que teria cometido crimes de colarinho branco, diferente de Lula, Bolsonaro parece não ter a mesma força interior, apesar de sua “religiosidade”, e com frequência tem dado sinais de fraqueza, com problemas psicológicos e de saúde física, situação que irá piorar à medida que for esquecido pelos seus “aliados”, como já está acontecendo.
Outro paralelo: enquanto esteve preso, Lula sempre teve apoio popular, partidário e de vários setores da sociedade brasileira; Bolsonaro parece que aos poucos está sendo abandonado, rifado por antigos aliados, simpatizantes e seguidores, principalmente por lideranças políticas às quais ele apoiou enquanto Presidente, figuras apagadas, ajudando as mesmas a se projetarem no cenário político nacional, como governadores, senadores e deputados federais, que aos poucos parecem dispostos a colocar os pés em outras canoas, deixando o “capitão”, o “mito” a ver navios e a purgar seus crimes no isolamento de uma cela prisional.
Aqui cabe um parêntese. A prova cabal deste abandono de Bolsonaro foi a sua escolha para que seu filho, senador Flávio Bolsonaro, em fim de mandato, ao invés de concorrer à reeleição, seja o herdeiro do bolsonarismo, o que não agradou outros partidos de direita, como Republicanos, União Brasil, Progressistas (PP) e Novo, que estão pulando fora do barco e decidiram “lançar” candidatos próprios. Isto pode favorecer a vitória de Lula ainda no primeiro turno, como diversas pesquisas eleitorais estão indicando.
Conforme nota no “Site” do Supremo Tribunal Federal – STF, a mais alta Corte do Sistema Judicial brasileiro, foi julgada uma ação que beneficiou Lula e, ao mesmo tempo, devolveu seus direitos políticos, condição necessária para que se tornasse novamente elegível e pudesse concorrer em 2022 como candidato a Presidente da República e emplacasse um terceiro mandato, fato histórico na vida republicana do Brasil.
Vejamos o que dizia a referida nota em seu primeiro parágrafo, datada de 15 de abril de 2021: “O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, nesta quinta-feira (14), a decisão do ministro Edson Fachin que, ao declarar a incompetência da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba (PR), anulou as ações penais contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por não se enquadrarem no contexto da Operação Lava Jato. Por 8 votos a 3, o colegiado rejeitou recurso (agravo regimental) da Procuradoria-Geral da República (PGR) no Habeas Corpus (HC) 193726”.
Naquele dia tinha início o fim do governo Bolsonaro e do bolsonarismo, que veio culminar com seu julgamento e condenação por vários crimes cometidos ao longo de um bom tempo, incluindo a tentativa de golpe de Estado em 08 de janeiro de 2023, contra um Presidente e Vice-Presidente eleitos democraticamente e já empossados, atentados contra a democracia e o Estado Democrático de Direito, e liderar organização criminosa armada.
Existe um provérbio que diz: “a história dá muitas voltas” e, mais ainda, “hoje você está por cima, se cuide, amanhã poderá estar por baixo”, afinal, a vida é como uma grande roda-gigante, ora as pessoas estão na volta de cima, ora estão na volta de baixo.
De acordo com matéria da CNN Brasil: “Em setembro de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indeferiu, por seis votos a um, o registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT e a frente de esquerda) para disputar as eleições à Presidência da República naquele ano. O relator do pedido na Corte, ministro Luís Roberto Barroso, declarou a inelegibilidade de Lula com base na Lei da Ficha Limpa”.
Esta decisão alijou Lula, que era franco favorito, das eleições gerais de 2018, obrigando uma reformulação de estratégia política eleitoral e a escolha de outro candidato, que foi o ex-ministro da Educação e ex-Prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que acabou sendo derrotado por Bolsonaro.
Mesmo derrotado, Haddad e os partidos da frente de esquerda aceitaram os resultados das urnas, e Bolsonaro, presidente eleito, tomou posse e governou durante quatro anos, sem ameaças de golpe ou outras formas não democráticas do exercício da cidadania política e eleitoral.
Diante da manipulação e da teatralização da Operação Lava Jato e das condenações de Lula, com apoio da maior parte dos chamados grandes grupos econômicos, financeiros e da “mídia” tradicional, não foi difícil a “desconstrução” da imagem de Lula e, neste vácuo de poder, facilitar o avanço do radicalismo das hostes bolsonaristas de extrema direita, com o apoio oportunístico de sempre do Centrão e dos partidos de direita tradicional, favorecendo a construção da imagem de mito, ungido de Deus e o “messias” que poderia “consertar” o Brasil, livrar o país do perigo comunista (que jamais aconteceu, diga-se de passagem).
Fiz esta breve “resenha” dos acontecimentos políticos dos últimos anos que se seguiram ao “golpe” parlamentar que destituiu a presidente Dilma do cargo de Presidente da República, abrindo caminho para o mandato-tampão de Temer, que, direta e indiretamente, pavimentou a ascensão da extrema direita no Brasil, através da eleição de Bolsonaro.
Só assim podemos entender a realidade que será vivida pelo Brasil e pelos brasileiros em 2026.
Uma coisa é certa: se Lula, depois de ficar preso durante 580 dias, conseguiu pelas vias judiciais anular suas condenações, recuperar seus direitos políticos e voltar a ser eleito, mesmo com Bolsonaro no poder, usando e abusando da “máquina” do governo, das estruturas do poder, imagina o que acontecerá em 2026 com a extrema direita, principalmente Bolsonaro e sua família, em uma “guerra” aberta contra governadores e outras lideranças e partidos do Centrão e da direita “tradicional”. Qual o resultado esperado? Qual o recado que as urnas irão dar a quem tentou destruir a democracia, as instituições, o Poder Judiciário e difamar e tramar contra as urnas eletrônicas?
De acordo com diversos institutos de pesquisas, a tendência que tem sido verificada é o fortalecimento da candidatura de Lula e o enfraquecimento de todas as demais pré-candidaturas de direita e extrema direita.
Em breve iremos nos debruçar sobre dados das recentes pesquisas de opinião pública (pesquisas eleitorais), refletindo sobre a evolução desta corrida eleitoral e as tendências que as mesmas têm indicado ou estão nos indicando.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mesttre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Instagram @profjuacy
O CAMINHO PARA UMA IGREJA PROFÉTICA - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
“A Santa Sé não ficará em silêncio diante das graves desigualdades, injustiças e violações dos direitos humanos fundamentais em nossa comunidade global, cada vez mais fragmentada e propensa a conflitos”. Parte do pronunciamento do Papa Leão XIV, durante evento diante de treze novos Embaixadores acreditados junto à Santa Sé que, na manhã deste sábado, 6 de dezembro de 2025, apresentaram suas cartas credenciais no Vaticano.
Cabe ressaltar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, em Paris, por meio da Resolução 217 A, estabelecendo um padrão comum de direitos fundamentais para todos os povos e nações após os horrores da Segunda Guerra Mundial, sendo hoje o documento mais traduzido do mundo.
Apesar de seus 77 anos de existência, ao longo deste período o mundo assistiu a inúmeras guerras, conflitos armados internos, o uso de armas de destruição em massa, crimes de guerra, verdadeiros genocídios, inúmeras atrocidades e, ainda hoje, vivemos, em todos os países, inclusive no Brasil, em meio a uma enorme violência, tanto no âmbito doméstico, violência de gênero, feminicídios, estupros, abandono e violência física, psicológica e patrimonial contra idosos, crianças, domínio territorial, político e econômico/financeiro do crime organizado, das facções, das milícias, afetando todos os segmentos sociais, mas principalmente os pobres e excluídos que passaram a viver sob o domínio do terror desses grupos.
Em 10 de dezembro de 1950, para celebrar o segundo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a ONU, em sua Assembleia Geral, aprovou que, a partir de então, esta data deveria ser considerada o DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS, com o objetivo de relembrar não apenas os horrores das guerras e conflitos armados, mas também servir para que todos os países, e nestes todas as entidades públicas e não governamentais, envidem esforços para que políticas públicas em todos os campos possam servir de base para ações que coíbam o desrespeito a tais direitos e promovam uma cultura da paz (desarmada, como enfatizou Leão XIV).
Durante seu Pontificado, o Papa Francisco deu uma grande ênfase às questões da ecologia integral, da mesma forma que inúmeras exortações para que a Igreja pautasse a sua caminhada pela SINODALIDADE e, ainda mais, criou o Dia Mundial dos Pobres, publicou as Encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti, que deveriam servir de base para as reflexões e as ações da Igreja em relação ao meio ambiente (ecologia integral), à Justiça Social e à Amizade Social, como demonstração concreta do sentido e significado de a Igreja ter feito, principalmente a partir do Concílio Vaticano II, a opção preferencial pelos pobres e lançado as bases para o surgimento da Teologia da Libertação.
Neste sentido, o compromisso da Igreja tanto em relação aos cuidados com o meio ambiente, nossa Casa Comum, quanto em relação aos direitos humanos, à justiça social (escudada na Doutrina Social da Igreja, agora mais do que nunca resgatada pelo Papa Leão XIV, até mesmo na escolha de seu nome papal), deve transcender as nossas reflexões e nossas orações e se transformar em ações concretas, tendo em vista que apenas as ações transformam a realidade social, econômica, política e existencial. Por isso a insistência de que precisamos passar das palavras para ações concretas, demonstrando nosso compromisso, como Igreja (Instituição) e como corpo de fiéis (também Igreja), em relação aos pobres, excluídos e oprimidos.
Ao longo desses sete meses de sua eleição como Papa (o Cardeal Robert Prevost foi eleito Papa em 08 de maio deste ano de 2025), a escolha do nome Leão XIV já indicou à própria Igreja e também ao mundo a que veio, ou seja, tanto em suas homilias quanto em outros pronunciamentos e mensagens escritas tem apontado o rumo que está imprimindo e deverá imprimir em seu Magistério Papal.
Muitos católicos conservadores, alguns setores simpáticos às ideias totalitárias de direita e extrema direita, que consideravam o Papa Francisco como muito liberal, que “flertava” com o socialismo, imaginavam que Leão XIV poderia alterar o rumo da Igreja, acolhendo um discurso e prática de uma religiosidade mais intimista, subjetiva, favorecendo a dicotomia entre as ações sociotransformadoras e uma religiosidade formal, alienada e alienante, distante de um compromisso mais direto com as questões políticas, econômicas, sociais e ecológicas.
Logo que assumiu a “Cátedra” de São Pedro, o Papa Leão XIV enfatizou que deseja uma paz desarmada; posteriormente, em mensagem enviada aos Reitores das Universidades Católicas que discutiam as questões da ecologia integral, demonstrou seu compromisso com a Laudato Si, a Laudato Deum e os resultados do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia; posteriormente, há poucas semanas, publicou sua primeira Exortação Apostólica “Dilexi te” (Eu te amei), dando continuidade ao que o Papa Francisco havia iniciado antes de falecer, mas que Leão XIV fez questão de concluir e publicar.
A Exortação Apostólica Dilexi Te foi assinada pelo Papa Leão XIV em 04 de outubro e publicada pelo Vaticano no dia 09 do mesmo mês, ou seja, há apenas um mês, e deverá ser o marco de referência para que a Igreja seja não apenas Samaritana, Sinodal, mas fundamentalmente PROFÉTICA, diante de tanta desigualdade, fome, miséria, violência, abandono, ganância, injustiças, degradação ambiental e exclusão de bilhões de pessoas mundo afora e ainda milhões de pobres e miseráveis no Brasil.
Cabe uma referência de que há poucos dias o IBGE publicou o documento Síntese dos Indicadores Sociais no Brasil 2025, uma radiografia da situação econômica e social, com dados estatísticos sobre emprego, salário, renda, educação e gênero atualizados, demonstrando que, apesar dos avanços que ocorreram nos praticamente três últimos anos, quando milhões de pessoas e famílias deixaram a pobreza e a pobreza absoluta, a situação dos pobres e excluídos ainda é extremamente grave em nosso país.
Esses mesmos dados estatísticos demonstram que, entre 40 países relacionados no estudo — as 40 maiores economias do mundo — o Brasil ocupa a 38ª posição em desigualdade social, de renda, patrimonial e de nível de vida.
Por exemplo, o Brasil ocupa a 72ª posição global em equidade de gênero no Global Gender Gap Report 2025 do Fórum Econômico Mundial e está entre os países com maior concentração de renda, portanto, entre os países com os maiores índices de desigualdade econômica e social do mundo em 2025, ao lado ou em situação pior do que nações extremamente pobres da África, da Ásia e da América Latina.
Este é também um desafio que está posto diante da Igreja Católica e também das Igrejas Evangélicas, razão pela qual as ações pastorais sociotransformadoras e socioambientais não são algo opcional na caminhada das Igrejas, mas sim um requisito fundamental de uma fé engajada e transformadora, espiritual e temporal.
Por isso é que, na Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), cabe indicar alguns pontos fundamentais que, direta ou indiretamente, resgatam algumas das conclusões do Concílio Vaticano II, incluindo: “Amor aos Pobres: O documento enfatiza que o amor aos pobres não é caridade superficial, mas um encontro com Cristo, um chamado à justiça e à dignidade humana; Continuidade com Francisco: Assume um rascunho do Papa Francisco, seguindo a linha de seu pontificado e complementando a Encíclica Dilexit Nos (Amou-nos); Denúncia Social: Critica as estruturas econômicas excludentes e a ‘ditadura de uma economia que mata’, chamando a Igreja a ser profética contra a miséria e a exclusão; Temas Abordados: Inclui defesa de mulheres, migrantes, direito à educação e a importância da esmola como justiça restaurada; e Fé e Revelação: Liga o amor aos pobres à própria Revelação, onde o rosto ferido dos pobres reflete o sofrimento de Cristo.”
Fica claro, de forma bem coerente, em todos os pronunciamentos, documentos e exortações que, ao longo de seu Pontificado, o Papa Leão XIV vem apontando quais os caminhos que pretende conduzir a Igreja Católica, tanto internamente quanto em suas relações com as demais religiões, Igrejas, organizações e movimentos não governamentais, como, por exemplo, em sua mensagem sobre os três “Ts” do Papa Francisco (TERRA, TETO e TRABALHO).
Neste sentido e contexto, tem um grande significado a Campanha da Fraternidade coordenada pela CNBB referente a 2026, cujo tema será FRATERNIDADE E MORADIA, quando a Igreja inteira no Brasil, em suas mais de 12 mil paróquias e mais de 400 mil comunidades, irá debruçar-se, a partir do início da Quaresma (18 de fevereiro próximo), sobre este tema e lema, que é um dos maiores e mais graves desafios contemporâneos.
Quando falamos em moradia, não estamos nos referindo apenas a um teto rústico e simples para abrigar as pessoas e famílias, mas de MORADIA DIGNA, inserida em espaços/territórios que contemplem as dimensões da regularização fundiária, do saneamento básico, pavimentação, equipamentos urbanos que garantam mobilidade urbana e serviços públicos de qualidade, como educação, saúde, esporte, lazer, arborização, coleta de lixo, limpeza pública e segurança, ou seja, moradia digna está inserida no contexto dos Direitos Humanos Fundamentais mencionados pelo Papa Leão XIV.
Vale também ressaltar que o direito à MORADIA DIGNA está inserido no contexto dos direitos fundamentais e constitucionais, no caso do Brasil, e também na dimensão do Direito à Cidade, como consta do Estatuto da Cidade e dos respectivos Planos Diretores.
Quando menciona os pobres, o Papa Leão XIV deixa bem claro que precisamos, como cristãos e católicos, ir às causas da pobreza e que não combatemos a pobreza apenas com assistencialismo, medidas paternalistas e manipuladoras, mas sim com mudanças profundas nas estruturas políticas, econômicas e sociais que geram a pobreza, a exclusão, a fome, a miséria e todas as formas de violência.
Neste sentido, Leão XIV dá continuidade às propostas do Papa Francisco quando denunciou a chamada ECONOMIA DA MORTE e que, para promovermos mudanças sociotransformadoras, precisamos substituir os paradigmas que alimentam esta economia da morte — os atuais sistemas macroeconômicos — pela ECONOMIA DA VIDA, uma economia solidária, que respeite a natureza, a ecologia integral, os trabalhadores, os consumidores, tanto as atuais quanto as futuras gerações, apontando a necessidade de um Pacto Global pela Educação, que inclui também uma educação ambiental crítica e libertadora.
Uma Igreja profética é uma Igreja que não se cala diante da opressão, da violência, das injustiças, das desigualdades, da intolerância, da disseminação do ódio e da mentira. Igreja profética é a que realmente faz a opção preferencial pelos pobres e caminha ao lado desses em suas lutas e desafios. Igreja profética é também a Igreja dos Mártires do passado e do presente.
Esta é a Igreja que o Papa Leão XIV está nos indicando a construir e reformar, se e onde for necessário: SAMARITANA, SINODAL E, também, PROFÉTICA. Só assim a Igreja como Instituição e nós, cristãos, católicos e evangélicos, como Corpo de Cristo, podemos ser “sal da terra e luz do mundo”.
Em vez de estar de braços dados com os poderosos, uma Igreja profética precisa estar ao lado dos pobres e lutar junto com eles por uma vida digna para todas as pessoas.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
POSICIONAMENTO DA ABRASME - Vanessa Furtado
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Publicamos a pedido da professora Vanessa Furtado.
Posicionamento da ABRASME: Hérick Vargas e Gerson de Melo e a Responsabilidade do Estado A ABRASME vem à público manifestar seu enlutamento, solidariedade e consternação diante das mortes de Hérick Vargas e Gerson de Melo Machado. Os relatos e notícias veiculadas que se seguiram após a divulgação das circunstâncias da morte de Gerson por uma leoa, tem informado um histórico de abandono do Estado de diversas e diferentes formas. A morte de Gerson na Paraíba se liga à de Hérick, no Rio Grande do Sul, jovem que, também em crise de saúde mental, foi brutalmente assassinado a tiros pela polícia após a família chamar o SAMU. Ele estava em sua própria casa, acompanhado de sua família que tentava manejar a crise e, por isso, acionou o serviço de urgência e emergência do município.
O fio que liga ambas as tragédias surge do emaranhado de equívocos que se tem tornado a execução da política de atenção à saúde mental nas mais diversas regiões do país, que expressam explicitamente uma opção por lançar mão do punitivismo como balizador de toda a execução dessa e das demais políticas públicas.
Neste sentido, além da ausência e negligência do Estado, há também uma escolha em se fazer presente a partir da força policial armada para atender, de forma repressiva, situações que vão desde aqueles referentes à segurança pública até às de urgência e emergência em saúde. Logo, expressão de uma política assistencial que não chega para cuidar (e se chega, chega com serviços precarizados e igualmente abandonados) mas chega para punir ou eliminar. O histórico de Gerson, explicita esta realidade, pois é marcado por uma política que não cuida, pune. Pune sua mãe por seu sofrimento psíquico e retira dela o direito à assistência à saúde, assistência social e suporte para criação de seus filhos. Pune Gerson e seus irmãos pelo histórico de sua mãe e os estigmas sociais que ainda são construídos sobre “a loucura”. Pune Gerson por ser criança que demonstra comportamentos considerados “inadequados” como reação por, tão pequeno, ter sido submetido a institucionalização e a violência a policial e de Estado. E segue o punindo e o condenando a institucionalização até depois de sua morte.
As falas que chamam de cuidado a necessidade de trancar alguém para tratamento, que por vezes, adotam tons pinelianos (melhor dentro de um hospício do que na rua), escondem, na verdade, posições punitivistas e higienistas. Entendem que a solução para o caso de uma criança que cresceu institucionalizado é: mais institucionalização!O Brasil ainda vive sob a força da lógica do autoritarismo militar, naquilo que se refere à garantia da ordem pública nos moldes do controle da classe trabalhadora e da exclusão, apagamento, trancamento e morte dos que fogem à regra da ordem imposta. Não por acaso, é sempre a polícia a quem se recorre para representar o Estado nas mais diversas situações em que a atuação das políticas públicas é exigida: seja na educação com a militarização de escolas pública, sob a máscara da garantia; da disciplina, mas que dissemina valores e ideias de uma sociedade racista, xenofóbica e educada a repudiar as representações da pobreza que ela mesmo produz; seja na assistência social por meio de políticas que pune as famílias por não terem acesso e garantia de direitos básicos para sua sobrevivência; seja na saúde quando se militariza os serviços de urgência e emergência, quando se cria protocolos de acompanhamento da força policial para atenção à crise em saúde mental, alimentando os estereótipos de periculosidade e da loucura.
As políticas públicas não devem ser executadas como política de controle e repressão, nem pesar mais a truculência e violência para a população preta, LGBTQIAPN +, indígena, quilombola, periférica. Assim, as pessoas que hoje, diante das tragédias acima citadas, bradam pelo retorno dos manicômios, da institucionalização das diferentes formas de manifestações humanas que fogem ao escopo dos valores moralistas de uma sociedade essencialmente eugenista, reforçam o coro punitivista. Ao dizerem estar defendendo o direito ao tratamento à saúde mental, o que defendem é o cerceamento da diversidade e a perda do direito ao “cuidado em liberdade”
A política de Atenção Psicossocial Brasileira
O modelo de atenção em saúde mental brasileiro é exemplo para todo o mundo, de uma política construída efetivamente sobre as bases do cuidado, não repressiva e, principalmente, a partir de evidências científicas de sua eficácia no que tange à garantia de qualidade de vida, liberdade, direito à cidade, cidadania e dignidade para as pessoas em sofrimento psíquico. A política de atenção psicossocial é, fundamentalmente, fruto da luta coletiva de pessoas vítimas dos manicômios e seus familiares, junto à de trabalhadoras e trabalhadores da saúde mental. Trata-se de um coletivo que ousou se opor às formas desumanas a que eram submetidas todas as pessoas levadas ao manicômio (com ou sem diagnóstico). Não foi uma conquista “ideológica”, mas foi um “BASTA!”, uma construção que partiu das vivências(ou sobrevivências) de pessoas que foram submetidas à violência de todas as ordens, como torturas físicas e sexuais dentro dos manicômios. Foi a partir do reconhecimento de que esses cenários existiam escondido atrás de muitos muros espalhados pelo país, que se exigiu formas de efetivo cuidado e atenção psicossocial. A desassistência que levou a tragédias como a de Hérick e Gerson é de responsabilidade do Estado pelo desmonte que este tem promovido na assistência à saúde como um todo, com o avanço da privatização dos serviços. No campo da saúde mental vemos isso:
• na falta de investimento do orçamento público na instalação dos diversos equipamentos que compõem a Rede de Atenção Psicossocial - RAPS garantir o cumprimento daquilo que preconiza a portaria 3.088/2011;
• na opção pela manutenção das comunidades terapêuticas na RAPS cuja base da lógica de “cuidado” é o aprisionamento e uso da repressão como instrumento disciplinarizador e que têm sido alvo de diversas denúncias de violações de direitos humanos e trabalhistas, comprovadas por inspeções realizadas pelo Ministério Público e Conselhos de Classe;
• na escolha por um modelo privatista da política de saúde mental, álcool e outras drogas mantendo e aumentando o investimento público em instituições filantrópicas que administram as comunidades terapêuticas, deixando às minguas outros equipamentos de suporte e atenção em saúde mental;
• ao optar por uma política de controle e anestesia via medicalização, com investimento na indústria farmacêutica e não em tecnologias de cuidado da atenção psicossocial,
Estes são alguns dos elementos que explicitam a faceta autoritária e punitivista do Estado Brasileiro para com as pessoas em sofrimento psíquico.
Na contramão dessa corrente, a política de saúde mental ancorada na Lei 10.216/2001 e regulamentada pela Portaria RAPS 3.088/2011, é pautada pelo protagonismo das pessoas usuárias e familiares, atenção em liberdade e garantia do direito à cidade, ao trabalho e geração de renda, e acolhimento psicossocial no âmbito do SUS por equipe multiprofissional. Esta proposta visa a autonomia e o desenvolvimento das pessoas atendidas na busca da superação de barreiras que possam advir de suas condições de vida e de eliminar os estigmas e preconceitos que impedem o processo de reabilitação psicossocial.
Na lei 10.216/11 há a previsão de internação, a qualificação das internações e a previsão de tempo de duração desse procedimento, porém, pensado comodispositivo utilizado em último recurso quando todos os outros foram esgotados, deve ser acompanhado pela equipe de referência no atendimento à pessoa internada. Sendo que todas as internações involuntárias devem ser notificadas ao Ministério Público para acompanhamento. Logo, antes da internação em hospital psiquiátrico, há outras formas de manejo como acolhimento. Ou seja, o fundamental é a disposição ao cuidado integral e específico às necessidades de cada pessoa que deve ser prioritária na construção dos dispositivos de atenção à saúde mental.
Apesar de, a partir dos casos aqui citados, vermos um apelo pelo retorno do processo de internação nos modelos de isolamento, é importante destacar que este modelo ainda existe no Brasil. Infelizmente não foi descontinuado e todos os hospitais ou comunidades terapêuticas inspecionadas nos últimos anos apresentaram graves violações de direito, como apontam o Relatório de Inspeção Nacional de Comunidades Terapêuticas/CFP/2017; o Hospitais Psiquiátricos no Brasil: Relatório de Inspeção Nacional de 2018 e o recém publicado Inspeção Nacional em Comunidades Terapêuticas pelo MPF e MPT publicado em novembro/2025. Então, cabe destacar que, baseados em evidências bastante robustas, os modelos de internação vigentes neste país, mesmo com fiscalização, seguem sendo modelos de tortura e punição. Diante do grave acontecimento, no entanto, setores da sociedade com intenções muito bem direcionadas, aproveitam-se da polifonia do entendimento do que seja “cuidado em liberdade” e reivindicam um discurso de autoridade médica para destilar higienismo e eugenia.
O valor indiscutível da política de saúde mental antimanicomial, é a - e não o contrário. Como nos disse Basaglia em 1978: “Talvez os manicômios voltem a ser instituições fechadas, talvez mais fechadas que antes, não sei, mas de qualquer modo, nós demonstramos que se pode assistir o louco em um outro modo e o testemunho disso é fundamental“. O Brasil tem inúmeros exemplos de que é possível “cuidado em liberdade”. Mas, para isso, investimentos e clareza de seus objetivos e continuidade nos serviços. Por isso, EXIGIMOS: que o Orçamento Federal de 2026 aumente os recursos da RAPS e na instalação de seus equipamentos que constituem a rede de desinstitucionalização: menos dinheiro para as CTs, mais dinheiro para os CAPS! Que se efetive o investimento nas pessoas trabalhadoras do SUS constituindo a carreira de Estado do SUS; e que sereconheçam pessoas usuárias e familiares como cidadãs e os territórios como espaços de produção de sujeitos!
No campo social mais amplo, o combate ao estigma social, à exclusão e à violência contra as pessoas em sofrimento mental passa necessariamente por reposicionar o lugar social destes sujeitos, que devem estar prioritariamente nos seus territórios, com garantia de cuidado de qualidade. Há que se retomar formas de cuidado, com o foco na garantia de dignidade das pessoas usuárias e de seus familiares, fomentando seu protagonismo na construção das práticas de cuidado e na construção das políticas públicas.
Diante de tudo isso, a ABRASME vem ratificar a defesa intransigente pelo cuidado ético pautado na não-violência, no respeito à dignidade e aos direitos humanos, pelo fim do modelo asilar que dissemina tortura, maus-tratos e é expressão de uma sociedade que ao invés de acolher, recolhe e isola; ao invés de cuidar: pune! Por uma política de desinstitucionalização: cuidar sim, excluir não!
RELATÓRIO POLÍTICO - Alair Silveira
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Profa. Dra. Alair Silveira
Professora e Pesquisadora do SOCIP e do PPGPS. Membro do MERQO e do GTPFS
Entre os dias 28 e 30 de novembro/2025, foi realizado o Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, promovido pelo GTPFS-ANDES/SN, na cidade de São Paulo/SP.
Organizado a partir de uma pauta bastante instigante, as discussões foram distribuídas conforme os seguintes temas/mesas: 1) Organização da classe trabalhadora e as estratégicas para superar a crise do movimento sindical, com a participação de Cláudio Mendonça (atual presidente do ANDES-SN), Gustavo Seferian (ex-presidente) e Letícia Nascimento (2ª vice-presidente); 2) Federação x Sindicato Nacional: um debate sobre concepção sindical, com Raquel Dias (ex-diretora ANDES-SN) e Diego Marques (2º tesoureiro); 3) Questões Organizativas e Financeiras, com Lays Grazielle Cardoso (Tesoureira da Sesduf-RR), Jennifer Webb (ex-tesoureira ANDES-SN) e Fernanda Maria Vieira (Secretária-Geral); 4) Proporcionalidade e Majoritariedade: um debate sobre democracia e organização sindical, com Sonia Lucio (AdUFF), José Vitório Zago (Unicamp) e Marcos Soares (1º vice-presidente da Regional SP do ANDES-SN); e, 5) Espaços deliberativos e funcionamento do ANDES-SN, com Maria Carlotto (AdUFABC), Antônio Gonçalves (ex-presidente ANDES-SN) e Caroline Lima (1ª vice-presidente).
O evento contou com a presença de 120 pessoas e a participação de 47 seções sindicais, evidenciando a pertinência dos temas, assim como a disposição de atuação sobre esta pauta. Este Seminário teve como pretensão aprofundar reflexões sobre os temas propostos, de maneira a confluir para a discussão no 44º Congresso Nacional, a ser realizado em Salvador-BA, entre os dias 02 e 06 de março de 2026.
Em que pese a relevância da pauta e a disposição manifesta pelo número de participantes, o Seminário acabou por revelar o aprofundamento da intolerância política de alguns colegas e, especialmente, de membros da atual da Direção Nacional, assim como de ex-diretores.
Neste sentido, avançando sobre níveis de intolerância já intoleráveis, prosperaram atitudes explícitas de deboche; palavras de ordem com intuito de constranger pedidos de esclarecimento; ‘enquadramentos’ de sindicalizados através da Comissão de Ética; hostilidades gratuitas; e, se não bastassem, associações ofensivas por parte de membros da direção do Sindicato Nacional.
Em um Seminário dedicado a tratar da ‘crise’ e da reorganização sindical, episódios inimagináveis há alguns anos atrás, evidenciaram a profundidade da crise do ANDES-SN e dos seus rumos desarrazoados. Paradoxalmente, em nome do respeito à diversidade, a divergência política e de método tem decretado o estreitamento cada vez maior da convivência democrática por dentro do Sindicato.
Em graus elevados de violência política inaudita para um Sindicato com a história do ANDES-SN, a 1ª vice-presidente chegou a propor, de forma ofensiva e desrespeitosa, uma campanha sobre as ‘piranhas’ do rio Amazonas, diante do questionamento sobre a infantilização da campanha sindical, com o uso de memes de gatinhos. A intenção explícita: ridicularizar quem questionou e, se possível, constranger ao ponto de silenciá-la.
Não bastassem manifestações indignas da vida sindical e, particularmente, da história do ANDES-SN, o presidente da entidade, associou a filmagem de uma das Mesas, por parte de uma sindicalizada, com práticas ‘fascistas’ e de ‘extrema-direita’.
Sob estas circunstâncias, acrescidas por práticas de intolerância que têm se acumulado ao longo dos últimos 10 anos, o merecido avanço da pauta identitária tem sido promovido - dentro do ANDES-SN – sobre a secundarização da pauta classista e pela interdição do contraditório.
Como evidência da interdição do contraditório e da saga punitivista (com expulsões, constrangimentos e hostilidades, e consequente desfiliação e/ou afastamento de militantes históricos), a campanha de sindicalização simplesmente ‘esqueceu’ a importância da organização sindical para a defesa dos interesses docentes, da Universidade, do Plano de Carreira, da valorização do trabalho etc., concentrando o apelo à sindicalização para o fortalecimento da pauta identitária.
O reconhecimento (por parte da Diretoria) quanto à ausência de referências às lutas específicas da categoria e de unidade de classe diz muito sobre a naturalização do processo de sobreposição da pauta identitária sobre os referentes de classe. Ausência que somente foi reconhecida após questionamento de militante de base.
Desta maneira, o Seminário que teve como propósito o acúmulo de discussões para o 44º Congresso Nacional chegou ao fim com gosto amargo, demonstrando que a ‘crise’ é bem mais profunda do que pensávamos. Isto é, a ‘crise’ do ANDES-SN não reside na forma de composição da Direção (se por sistema majoritário ou proporcional) ou na inquestionável superioridade da estrutura de Sindicato Nacional sobre a federativa. A centralidade dos problemas do nosso Sindicato é que a democracia interna que lhe fez potente tem sido carcomida de maneira sistemática e progressiva. Assim, da interdição da fala, agora - com a atuação ativa da Diretoria Nacional - o ANDES-SN avança para a violência política desmedida, recorrendo a práticas indignas e hostis, de maneira a afastar seus críticos dos ambientes de debate e de disputa política.
Não passarão!
CALENDÁRIO ECOLÓGICO 2026 - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
O final do ano se aproxima, indicando que em breve estaremos em 2026 e, como sempre acontece, precisamos visualizar o que deve acontecer no próximo ano e nos posicionarmos em relação ao futuro que está diante de nós.
Tendo em vista a importância das questões socioambientais, elaboramos um calendário para orientar nossas reflexões e também nossas ações, com o objetivo de enfrentar os principais desafios que estão diante de nós e, assim, cada pessoa, cada instituição pública e privada, incluindo as Igrejas, as Escolas, o empresariado rural e urbano e, também, os meios de comunicação, possam fazer sua parte nesta verdadeira cruzada em defesa de nossa Casa Comum.
Diante da crise climática, que a cada dia está se tornando mais grave, mais frequente e cujas consequências são terríveis, e da degradação dos biomas e ecossistemas, do desmatamento, da destruição das florestas, das queimadas, da poluição em níveis elevadíssimos das águas, dos solos e do ar, da falta de arborização urbana, da fome, da exclusão de bilhões de pessoas pelo mundo afora e milhões no Brasil, é importante, necessário e fundamental que haja um esforço coletivo para enfrentar esses problemas e desafios, antes que todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana, sejam afetadas profundamente.
Os anos de 2015 e 2025 podem ser considerados “anos emblemáticos” em relação aos desafios socioambientais no mundo. Em 24 de maio de 2015, podemos identificar três marcos significativos para o movimento ambientalista mundial. Em maio daquele ano, o Papa Francisco publicou a Encíclica Laudato Si, um marco na história da Igreja, “resumindo tudo” o que a Igreja, ao longo de décadas ou séculos, havia exortado sobre o meio ambiente, a natureza como Obra da Criação, conectando as questões ambientais à Doutrina Social da Igreja e com a Opção Preferencial feita pela Igreja, principalmente no Concílio Vaticano II.
Em 27 de setembro, a ONU homologou e publicou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS, denominados desde então de Agenda 2030, estabelecendo 17 grandes objetivos para ajudar os países a nortearem suas políticas públicas e articularem ações globais, mundiais, para enfrentar os grandes desafios mundiais, inclusive as mudanças climáticas, a destruição da biodiversidade animal e vegetal e as secas e desertificação.
E entre os dias 30 de novembro e 12 de dezembro foi realizada a COP21, tendo como principal resultado e marco o Acordo de Paris, em que a quase totalidade dos países firmou um compromisso internacional no sentido de reduzir e controlar as emissões de gases de efeito estufa (GEE), para que a temperatura média do planeta não exceda 2,0 ºC até o final do século XXI e, se possível, não ultrapasse 1,5 ºC até 2040. O que, diga-se de passagem, já foi ultrapassado em 2024, considerado o ano mais quente em mais de um século e meio.
Pois bem, dez anos depois desses três marcos significativos, o mundo encontra-se em situação socioambiental pior do que em 2015, e foi nesse clima que, há poucas semanas, realizou-se em Belém, Estado do Pará, a COP30, entre muita “pompa e circunstância”, muitos discursos, euforia, discussões, mas que, ao final, trouxe poucos resultados quanto aos principais desafios socioambientais, principalmente quanto ao estabelecimento de um ponto de referência temporal para que o mundo abandone a produção e uso de combustíveis fósseis e promova uma transição energética no contexto da Justiça Climática, da Justiça Social e Intergeracional.
Assim, chegamos ao final de 2025, há apenas cinco anos do marco “final” para que o mundo e todos os países atinjam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, indicando que estamos perdendo a corrida para as catástrofes socioambientais, que a cada ano estão se intensificando e com mais intensidade e impactos ao redor do mundo.
Todavia, os aspectos cruciais que provocam a degradação socioambiental, o aquecimento global, as mudanças climáticas, o aquecimento e elevação dos níveis e da temperatura das águas dos mares e oceanos, aumentando o risco de deslocamento de bilhões de pessoas que moram em áreas costeiras e em milhares de ilhas em todos os continentes — repito, os principais desafios — sistematicamente, por pressão dos grandes poluidores, têm ficado fora dessas discussões e das ações de mitigação ou resolução dos problemas.
O conhecimento já produzido por inúmeros cientistas, estudiosos e relatórios de organismos de estudos e pesquisas, e também por parte do Painel Intergovernamental do Clima – IPCC, da ONU, tem demonstrado sobejamente que 75% da produção e emissão dos gases de efeito estufa – GEE decorrem do uso de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados), gás natural e carvão mineral, e que 80% dessas emissões são produzidas pelos países ricos ou mais desenvolvidos, ou seja, o famoso G20, do qual o Brasil também participa.
Pelo Acordo de Paris, firmado entre mais de 180 países e territórios em 2015, na COP21, os países ricos e os maiores poluidores se comprometeram a aportar recursos para um fundo a ser utilizado pelos países pobres, que menos poluem, mas que sofrem com as consequências da degradação socioambiental produzida pelos maiores poluidores.
Todavia, esse compromisso tem sido sistematicamente descumprido, e esses mesmos países produtores e consumidores de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil, também se recusam a assumir o compromisso de colocar um ponto final, a partir de uma data a ser acordada, no uso desses combustíveis sujos, indicando que a elevação da temperatura média do planeta deverá superar não apenas os 1,5 ºC, mas, certamente, os 2 ºC dentro de poucas décadas, colocando em risco todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
Precisamos de mais ações, de mudanças de estilo de vida, de consumismo, de desperdício, enfim, precisamos de CONVERSÃO ECOLÓGICA e de um pacto global para salvar a ecologia integral, o planeta Terra, nossa CASA COMUM, enquanto é tempo, pois o “ponto do não retorno” já está entre nós.
Além das datas/dias relacionados com eventos ecológicos, cabe registrar que, em 2026, a Campanha da Fraternidade, coordenada pela CNBB e desenvolvida em todas as mais de 12 mil paróquias, em todos os Estados e o DF, terá como tema FRATERNIDADE E MORADIA e, como tal, é um tema umbilicalmente relacionado com a Ecologia Integral, com a pobreza e a exclusão em todas as dimensões.
Existe uma máxima que diz ser importante pensarmos globalmente e agirmos localmente, individual, mas, de preferência, COLETIVAMENTE, cujos resultados terão um maior poder de transformação de estilos de vida e, consequentemente, maiores impactos nas questões socioambientais.
Assim, ao longo do ano de 2026, da mesma forma que em anos anteriores e no futuro, tanto a nível internacional/mundial quanto dos países, inclusive do Brasil, o calendário destaca algumas datas importantes que nos propiciam uma reflexão mais profunda sobre aspectos particulares da ecologia e que devemos aproveitar esses dias ou semanas especiais para celebrarmos, comemorarmos ou inclusive alertarmos a população/opinião pública sobre a importância das diferentes ações que possam estimular mudanças de comportamento, de atitudes e de estilo de vida, que possam contribuir para um melhor cuidado com a Casa Comum, que é o nosso planeta Terra.
Procure saber mais e refletir criticamente, ao longo do próximo ano, sobre esses dias e semanas especiais, voltados para a Ecologia Integral.
CALENDÁRIO ECOLÓGICO DE 2026
JANEIRO
11 — Dia do Controle dos Agrotóxicos
26 — Dia Mundial da Educação Ambiental (ver também 03 de junho)
26 — Dia Internacional da Energia Limpa
31 — Dia do Engenheiro/Engenheira Ambiental
FEVEREIRO
02 — Dia Mundial de Proteção das Zonas Úmidas
06 — Dia do Agente da Defesa Ambiental
07 — Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas
18 — Quarta-feira de Cinzas – Início da CF 2026 Fraternidade e Moradia
20 — Dia Mundial da Justiça Social
MARÇO
01 — Dia do Turismo Ecológico
03 — Dia Mundial da Vida Selvagem
04 — Dia Mundial da Engenharia para o Desenvolvimento Sustentável
05 — Dia Mundial da Eficiência Energética
13 — Dia do Conservacionismo
14 — Dia Internacional contra as Barragens
16 — Dia Mundial da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas
21 — Dia Mundial das Florestas
22 — Dia Mundial da Água (ver também 19 de setembro)
23 — Dia Mundial da Meteorologia
29 — Dia da Coleta Nacional da Solidariedade – Domingo de Ramos
30 — Dia Internacional do Lixo Zero (ver também 29 de setembro)
ABRIL
03 — Sexta-feira da Paixão
05 — Domingo de Páscoa
15 — Dia Nacional da Conservação do Solo (ver também 05 de dezembro)
17 — Dia da Botânica
19 — Dia dos Povos Indígenas – Brasil (ver também 09 de agosto)
22 — Dia da Terra
28 — Dia Nacional da Caatinga
MAIO
11 — Dia Mundial das Aves Migratórias
12 — Dia Nacional da Sanidade Vegetal
16 — Dia do Gari (cuidado com o lixo/resíduos sólidos)
17 — Dia Internacional da Reciclagem (ver também 05 de junho)
20 — Dia Mundial das Abelhas (ver 03 de outubro)
21 — Dia das Plantas Medicinais
22 — Dia Internacional da Biodiversidade Biológica
16 a 24 de maio — Semana Laudato Si
24 — 11º aniversário da publicação da Encíclica Laudato Si
25 — Dia do Trabalhador Rural
27 — Dia Nacional da Mata Atlântica
29 — Dia Mundial da Energia
JUNHO
01 a 08 — Semana do Meio Ambiente
03 — Dia Nacional da Educação Ambiental (ver também 26 de janeiro)
05 — Dia da Ecologia
05 — Dia Mundial do Meio Ambiente
05 — Dia Nacional da Reciclagem (ver também 17 de maio)
05 — Dia Internacional contra a Pesca Ilegal
07 — Dia Mundial da Segurança dos Alimentos
08 — Dia Mundial dos Oceanos
11 — Dia do Educador Sanitário / Educadora Sanitária
17 — Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca
17 — Dia do Gestor Ambiental
30 — Dia Nacional do Fiscal Agropecuário
JULHO
03 — Dia Internacional Sem Sacos Plásticos
12 — Dia do Engenheiro Florestal
13 — Dia do Engenheiro de Saneamento / Sanitarista
17 — Dia Mundial de Proteção das Florestas (ver também 21 de março e 21 de setembro)
26 — Dia Mundial de Proteção dos Manguezais
AGOSTO
08 — Dia Interamericano da Qualidade do Ar
09 — Dia Internacional dos Povos Indígenas (ver também 19 de abril)
10 — Dia dos Pais
10 — Dia Internacional do Biodiesel
10 — Dia da Solidariedade Cristã
12 — Dia Nacional dos Direitos Humanos
21 — Dia Nacional da Habitação
28 — Dia Nacional do Voluntariado
SETEMBRO
1º de setembro a 4 de outubro — Tempo da Criação
01 — Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação
01 — Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
03 — Dia do Biólogo
05 — Dia da Amazônia
05 — Dia Internacional da Sobrecarga de Plásticos (Dia Internacional do Excesso de Plásticos)
07 — Dia da Independência do Brasil
07 — Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à Poluição do Ar)
11 — Dia Nacional do Cerrado
16 — Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio
19 — Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)
21 — Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)
22 — Dia Nacional em Defesa da Fauna
25 — Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
29 — Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero — ver também 30 de março)
29 — Dia Mundial dos Rios
OUTUBRO
01 — Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas
01 — Dia do Vegetarianismo
03 — Dia Nacional da Agroecologia
03 — Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de maio)
04 — Dia de São Francisco de Assis e encerramento do Tempo da Criação
04 — Dia da Natureza
04 — Dia dos Animais
07 — Dia Mundial do Habitat
12 — Dia do Engenheiro Agrônomo / Engenheira Agrônoma
15 — Dia do Educador Ambiental e Dia do Professor e da Professora
16 — Dia Mundial da Alimentação (fome zero)
17 — Dia da Agricultura
17 — Dia Mundial de Erradicação da Pobreza
31 — Dia Mundial das Cidades
NOVEMBRO
01 — Dia do Veganismo
08 — Dia Mundial do Urbanismo
09 a 16 — Semana Mundial dos Pobres
12 — Dia do Pantanal
16 — Dia Mundial dos Pobres (33º Domingo do Tempo Comum)
20 — Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (feriado nacional)
DEZEMBRO
05 — Dia Mundial do Solo (ver também 15 de abril)
10 — Dia Internacional dos Direitos Humanos (Meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito de todas as pessoas – ênfase no conteúdo do Art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”)
Como podemos perceber, ao longo de 2026 teremos inúmeros momentos (pelo menos 78 dias e algumas semanas especiais para a ecologia integral, que aqui estão destacados) para refletirmos sobre aspectos importantes relacionados com a vida no planeta Terra e a CRISE CLIMÁTICA, que a cada dia e ano são mais constantes, cujos efeitos são cada vez mais catastróficos.
Cabe-nos, a todos nós, população em geral, empresários, governantes, lideranças sociais, políticas e religiosas, aproveitarmos esses dias para estimularmos as pessoas e as instituições governamentais e não governamentais, inclusive as religiosas, clubes de serviços, empresários, escolas etc., a dedicarem um pouco de tempo para refletirmos e encontrarmos caminhos e saídas para esta grave crise climática e desafios socioambientais que tanto nos afetam.
Esta é uma forma, também, de praticarmos a Educação Ambiental, na verdade, a EDUCAÇÃO ECOLÓGICA CRÍTICA E LIBERTADORA!
Finalmente, precisamos transformar nossos discursos, nossos sonhos em realidade. Somente as ações produzem transformações socioambientais, mudanças de costumes, de estilo de vida e de sistemas produtivos. Precisamos ter mais respeito pela natureza, pelas Obras da Criação, combatermos o consumismo, o desperdício e a geração de lixo, resíduos sólidos, da mesma forma que precisamos promover uma transição energética justa e rápida. Se o mundo não abandonar a produção e uso de combustíveis fósseis, a tendência será o aumento das catástrofes, e a humanidade terá que conviver com condições extremamente desfavoráveis a todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, Mestre em Sociologia, Ambientalista, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – PEI – Região Centro Oeste; E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
DO PALÁCIO À PRISÃO - Roberto Boaventura
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Por Roberto Boaventura*
Com a prisão do inominável ex-presidente da República, ocorrida no último dia 22, cada brasileiro que consegue entender a dimensão disso tem o amplo e irrestrito direito de se manifestar livremente. Assim, muito na esteira do conteúdo de “Vai Passar”, canção de Chico Buarque para os momentos já bem próximo do funeral da ditadura militar, imposta ao Brasil pelos golpistas de 64, vale, sim, extravasar. Para isso, os incontáveis memes, que voam pelas redes sociais, falam muito neste momento de felicidade para a maioria de nossa população.
De minha parte, como não sei fazer memes, resolvi escrever sobre a importância dessa prisão, posto o quão difícil, mas muito significativo, foi ver o país ter conseguido forças para a preservação do seu Estado Democrático de Direito. Por conta dessa preservação, na linha do tempo, foi-nos possível acompanhar seu aguardado indiciamento por diversos e gravíssimos crimes, dentre os quais estava a tentativa de golpe de Estado, assistir, de camarote, a seu digno e incisivo julgamento, e respirar aliviado por sua merecida condenação.
Contudo, longe de pretender abarcar uma ampla avaliação de todos os significados dessa prisão, que não são poucos, circunscrevo-me a uma curiosidade que pode caber em datas e acontecimentos muito simbólicos para a população de qualquer país: o que cada um de nós fazia no dia em que o inominável foi preso, repito, mesmo em caráter preventivo, por ter tentado se desvencilhar de sua tornozeleira e fugir, como já fizeram alguns de sua espécie?
De minha parte, vejam que feliz coincidência: mantive minha programação de sair bem cedo de onde moro atualmente rumo a São Paulo, de onde apenas 80 km me distanciam. Lá, mais no início da noite, me juntaria com um grupo de amantes das artes para mais um dos saraus que são realizados na residência de um excelente compositor, instrumentista e cantor. Detalhe muito importante, mas tão naturalizado em tempos de normalidade democrática: para o encontro desse seleto grupo, o anfitrião do sarau nos convidou por meio mensagem de texto, via whatsapp, o que soa elementar nos dias atuais.
Do detalhe acima exposto, afirmo, de pronto, que o sarau do qual pudemos tranquilamente participar no dia em que o inominável foi preso não teria ocorrido, caso o golpista, hoje, mais um presidiário de nosso país, tivesse tido o sucesso desejado e arquitetado. Motivo óbvio: estaríamos imersos numa ditadura, capitaneada ou por ele ou por algum fardado de sua própria tropa. Sim. Alguém descarta a possibilidade de um golpe dentro do golpe, caso o infortúnio tivesse sido concretizado? Até que ponto golpistas fardados suportariam a subordinação a um ser tão limitado, como o inominável?
Seja como for, aquela mensagem no whatsapp nos convidando para o sarau, ou não viria ou viria toda cifrada, na intenção de despistar “...hipócritas, disfarçados, rondando ao redor”, dos quais Gilberto Gil já nos falara em “Não chores mais”.
Agora, mais um detalhe, qual seja, a coincidência da qual falei acima: a motivação do sarau realizado no dia 22 – mas idealizado bem antes, e sem prejuízo de outras homenagens, como as que poderiam ter sido feitas ao Jards Macalé, o “Anjo Torto”, falecido há poucos dias – era manter vivas a memória e a obra de Lô Borges, morto em 02 de novembro. Cada um dos participantes do sarau ficava encarregado de falar ou cantar algo que reverenciasse o já saudoso mineiro do Clube da Esquina.
De sua vasta obra, eu havia escolhido “Paisagem da Janela”, composta em parceria com Fernando Brant, em 1972, ápice da censura em nosso país. Essencialmente, sua letra retrata a atmosfera pesada e perigosa que a censura dos golpista de 64 nos impunha a todos, mas mais especificamente a quem conseguia raciocinar sobre aquele momento vivido, opondo-se a ele. Assim, nessa canção, os versos “Quando eu falava desses homens sórdidos / Quando eu falava desse temporal” são imagens linguísticas da crueldade de um tempo sombrio, de perseguições, torturas e mortes; tempo que se contrapunha à tranquilidade vivida antes do golpe, representada, na canção, pela “igreja”, “muro branco” e “voo pássaro”.
Enfim, o sarau que nos foi possível realizar no dia 22 teve um sabor ainda mais marcante do valor da democracia. Sem medo algum de ter em nosso meio eventual hipócrita nos “ob-observando”, homenageamos Lô Borges e outras vozes (reais, e não advindas de surtos psicóticos) que sempre souberam do valor e da necessidade de defesa que as democracias, sempre em risco, demandam de nós todos.
Salve(m) a Democracia. Sempre.
PS.: como a prisão de que me refiro aqui é provisória, o mérito das reflexões expostas permanece, mesmo se alguma liminar judicial ou coisa do gênero der ao “ilustre” presidiário algum direito de sair de onde se encontra no momento da escritura deste artigo.
*Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Ciências da Comunicação/USP.