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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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Por dois anos consecutivos, recortes da cultura brasileira têm sido vistos por plateias mundo afora. Em 2025, vibramos com a estatueta do Globo de Ouro, conquistada por Fernanda Torres, que interpretou as dores, o luto e a luta de Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Na edição deste ano, já vimos Wagner Moura receber a estatueta de melhor ator/drama e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencer como o melhor filme de língua não-inglesa.
Agora, já no aguardo pelo Oscar, para o qual há quatro indicações, registro que, além de leituras de campos diversos do conhecimento, muito já se falou acerca de tópicos específicos de O Agente Secreto, como, p. ex., de sua direção, elenco, figurino, fotografia, trilha sonora, caracterização de época etc.; todavia, penso que ainda haja elementos para reflexões sobre o seu cerne, afinal, em grandes obras, a obviedade não tem espaço.
Como reflexo estético de época marcada pelo silêncio, irmão do medo, imposto em 1964 por golpistas cívico-militares, o filme diz muito, sem explicitar tanto. A síntese desse clima pode estar na cena em que dona Sebastiana (Tânia Maria), com os dedos deslizando sobre seus lábios, faz o gesto da “boca de siri”, após entregar um pacote a Marcelo (Wagner Moura), que faz gesto semelhante, quando indagado se, de fato, era Marcelo; e, assim, muito de sua narrativa surge por meio de signos e códigos, que pedem pela labor interpretativo do espectador, convidado a imergir na trama para tentar desvelar o que possa estar encoberto por véus (metáforas), ou fria e criminosamente fechado em gavetas de um IML... Enfim, todos precisamos organizar os dados – aparentemente, lançados de forma aleatória – de um intrincado enredo.
Nesse sentido, contribuindo com o diálogo sobre o filme de Mendonça Filho, vou ao que considero central, reflexionando sobre qual seria o seu ponto de partida como narrativa que demandasse, de fato, por algum “agente secreto” em sua trama. Mas, antes, reafirmo a genialidade dessa construção fílmica, disposta em três grandes partes (“O Pesadelo do Menino”; “Institutos de Identificação” e “Transfusão de Sangue”), subdividas pelo que identifico como “signos focalizados”, além de se ancorar em:
1º) códigos cifrados para cidadãos refugiados, em geral, politicamente;
2º) metáforas/signos pictóricos, tais como:
a) fotografias em paredes de repartições públicas, com ênfase à de Ernesto Geisel;
b) placas de automóveis, que marcam espaços geográficos da narrativa, auxiliando nos “signos focalizados” de que falei acima;
c) presença do tubarão, tanto o do filme “Tubarão” (1975), quanto dos que atacam banhistas no litoral pernambucano;
d) brevíssima projeção de um fragmento de “Le Magnifique” (1973), no qual Philippe de Broca satiriza películas de espionagem, ou seja, de agentes secretos;
e) gata com dupla face e dois nomes, assim como o grupo das personagens em refúgio no Edifício Ofir, em Recife; aliás, o nome “Ofir” cai como luva para a interpretação do filme, posto estar referenciado na Bíblia como região ou porto lendário, famoso por sua imensa riqueza, especialmente o seu ouro, de inconteste pureza.
3º) presença de um elemento fantástico (a metonímia da “perna cabeluda”), que – substituindo a integralidade dos corpos de criminosos comuns e de inescrupulosos policiais em “passeios” noturnos pela Praça 13 de Maio, também em Recife – ganha vida própria na trama, servindo como denúncia de violências e assassinatos contra prostituta(o)s e LGBTQIA+, à época (1977), identificados como homossexuais e outros adjetivos nada respeitosos. Detalhe: o nome dessa praça – que também nos ajuda a sentir a densidade do filme – nos remete às pretensões da Lei Áurea, de 1888, possivelmente ainda não alcançada por tantos trabalhadores, inclusive, pelos trabalhadores do sexo.
Isso tudo, somado ao fato de sua narrativa/enredo não se apresentar cronologicamente linear, faz O Agente Secreto ser mesmo um filme de recepção complexa, que não perde a chance de estabelecer críticas a acontecimentos atuais, como a indignação pela morte de Miguel Otávio, filho de Mirtes Souza, que segue na luta por justiça contra sua ex-patroa, Sari Corte Real, todos igualmente de Recife. Essa paráfrase é tão inesperada quanto reveladora, social e cinematograficamente falando.
Diante da complexidade do filme, sinto-me como um dos seus espectadores privilegiados, pois, assim como a personagem Armando (Wagner Moura), fui professor de uma das nossas federais. Concomitantemente à docência, militei no Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, o ANDES-SN – à época, espaço de relevantes debates políticos –, que deu sequência organizacional das antigas associações dos professores universitários. Tais agrupamentos já discutiam, como um dos desafios da categoria docente, a cooptação, em nada secreta, de pesquisadores, em especial das áreas tecnológicas, por parte de representantes do capital (nacional e estrangeiro), quase sempre em conluio com os golpistas/ditadores de 64, que também não eram anônimos ou secretos, ainda que suas práticas fossem realizadas à margem das leis e/ou dos direitos humanos.
Portanto, mais do que identificar que Armando fosse chefe de um Departamento da UFPE, é necessário perceber, no cerne da narrativa em pauta, esse processo de cooptação abrangente e bem-sucedido do capital junto a um departamento inteiro; tarefa corporificada por Ghirotti (Luciano Chirolli), empresário inescrupuloso, mas influente no Conselho da Eletrobras, vinculada ao Ministério das Minas e Energia daquele período.
Na linha do tempo e dos acontecimentos, aqui, é interessante localizar que a cooptação em questão ocorrera em 1974, ou seja, três anos antes daquela cena do posto de gasolina, na abertura do filme, em cujo pátio se encontra um cadáver já em putrefação. Aliás, aquele prólogo, como numa antecipação metafórica do “mau cheiro” reinante no país, é retomado no unhappy end de O Agente Secreto, quando se fica sabendo, via notícia de jornal, do assassinato de Armando, ocorrido em 1977; estendido no chão, sua foto remete à lembrança da cena do cadáver no pátio do posto de gasolina, bem como de todos os demais cidadãos assassinados que “aparecem” no desenvolvimento do texto fílmico.
Do processo de cooptação, vale ressaltar a resistência, inclusive física, de Armando e Fátima (Alice Carvalho), que – além de pesquisadora nordestina e mulher negra, e, por isso, vítima do racismo praticado por Ghirotti e por seu filho, Salvatore Ghirotti (Luciano Graziosi) – era companheira de Armando, com quem tivera o filho Fernando (Wagner Moura). O casal de pesquisadores, adversários frontais daquela intervenção dos dois representantes do capital, põe-se em situação de extrema vulnerabilidade ao defender seus princípios e origens, bem como a força da ciência/conhecimento vivenciado em universidades fora do eixo Rio-São Paulo.
Portanto, aqui está, de forma cíclica, a origem do ponto de partida e do epílogo da narrativa. Sem esse conjunto de acontecimentos não haveria ação/motivação para que surgisse O Agente Secreto como filme de memória, fruto de pesquisa acadêmica de uma instituição particular de ensino superior, que investigava – mas, logo, desistira da empreitada – um pouco dos porões de um tempo deveras sombrio de nosso país.
Todavia, se a instituição interrompera e engavetara seus estudos, a estagiária Flávia (Laura Lufési) não. Ao contrário, é ela quem, ao copiar, clandestina e secretamente, os depoimentos que ajudava a transcrever para a pesquisa institucional, torna-se o sujeito agente que entrega o material num pen drive a Fernando, filho de Armando e Fátima, garantindo, assim, o desvelamento público dos atos ocorridos com seus pais. O restante é despiste, típicos de narrativas tais.
Nesse sentido, como num lance de fina ironia, Marcelo – que, antes, é Armando –, da cabine de projeção do Cine São Luiz, parece se sentir “espelhado” ao assistir a uma breve cena, na qual a personagem Bob Saint-Clar, uma criação de François Merlin, ambos interpretado por Jean-Paul Belmondo, em Le Magnifique, é que sugere ser o tal “agente secreto”; e até pode ser, mas naquele filme francês. No que nos interessa aqui, outra despista: o “nosso” Bob/Bobbi (Gabriel Leone), como jovem que responde a antigas violências vividas na infância, é um agente silencioso e perigoso, mas não secreto, pois não intelectualiza nada; no limite, apenas age friamente para auxiliar na terceirização – uma das dinâmicas do capital – de um matador de aluguel. Os que recebem propinas para “pequenas tarefas” equivalem, p. ex., às mulas do tráfico. São sempre seres sorrateiros, sem nada intelectualizar ou mesmo intuir algo.
E, assim, várias ações desonestas vão surgindo, afinal, nos subterrâneos de uma ditadura, ninguém age solo. Há sempre um conjunto de colaboradores do regime, conscientes ou não, trabalhando para algum projeto, via de regras, obscuro. Nos porões, os ratos transitam e se comunicam entre si.
Nessa perspectiva, em “despretensiosa” informação, à lá notas de rodapé, como nos trabalhos acadêmicos, sabe-se que, após a já mencionada dissolução do departamento da UFPE, houve dispersão daquele antigo corpo docente, que aceitou “tomar um banho de indústria”, conforme sugerido por Ghirotti. Por meio de um “sutil destaque”, registra-se que alguém do antigo grupo de docentes teria ido trabalhar justamente onde Ghirotti também tinha seus tentáculos, ou seja, no Metrô de São Paulo; não por coincidência, era a cidade da placa do fusca que, agora, Marcelo – após o assassinato de Fátima, que, ao invés de pneumonia, teve seu corpo atirado na represa Sérgio Motta – dirigia até o Recife, almejando sair do país em companhia de seu filho.
Infelizmente, Armando não conseguiu se “proteger do Brasil”, como havia sido sugerido pela personagem Elza (Maria Fernanda Cândido). Seu assassinado ocorreu pouco antes de seu autoexílio de um país que ainda busca sua consolidação como pátria, sem ameaça da presença asquerosa de nenhum agente do tipo sorrateiro, sem nenhuma “pirraça”, termo inusitado e maravilhosamente bem escolhido para abranger um amplo leque semântico de todo o retrocesso político, social, cultural e econômico que períodos antidemocráticos implacavelmente podem nos trazer: memória é, de fato, também prevenção ao futuro.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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Em 2002, semanas antes de Lula ter sido eleito presidente da República pela primeira vez, defendi uma tese na Eca/USP sobre a campanha eleitoral de 89, quando o ex-operário/ex-sindicalista perdera o pleito para Collor, um empresário da comunicação e declarado representante das elites. Assim que os trabalhos da minha defesa foram encerrados, um dos docentes da banca examinadora, que, por coincidência, era assessor de Lula na campanha eleitoral então em curso, me perguntou se, em caso de vitória petista, minha tese teria a mesma aplicabilidade.
Sim. Respondi.
O professor, doravante, identificado por K, sem se despedir de ninguém, retirou-se da sala, não me deixando sequer explicar que o meu “sim” tinha como lastro e ponto de partida a “Carta ao Povo Brasileiro”, assinada por Lula, em junho/2002, assegurando que, em caso de sua vitória, os contratos nacionais e internacionais seriam respeitados. Leia-se: submissão às cartas dadas pelo capital.
Assim, sem nunca atrapalhar interesses das elites e, como contrapartida, para o povão, oferecer políticas compensatórias, como as cotas, p. ex., que jamais mexerão em estruturas sociais, Lula, com as benções e (a)braços do status quo, foi eleito por mais duas vezes; agora, almeja o quarto mandato. Sendo assim, ao invés da esperança, na verdade, foi aquela assinatura – que continua a ter valor de “palavra empenhada”, bem como ter tido como seu vice um empresário (José Alencar) – o que, de fato, venceu o medo. O resto é material pra jingle de campanha ou para algum novo samba-enredo no porvir.
Mas por que o professor K me fez aquela pergunta, já fora da arguição?
Penso que esperava por uma resposta negativa que o mantivesse crendo no PT e em seu mito mor, prestes a se tornar, como de fato ocorreu, presidente da República.
De minha parte, o que defendi que instigou a curiosidade política de K?
Começo respondendo pelo título de meu trabalho: “A Revista Veja na Campanha Eleitoral de 1989: anúncios publicitários como extensão de textos jornalísticos”.
Para contextualizar, o motivo desse meu trabalho surgiu por conta de um anúncio da Philips, em Veja de 30/04/86, ano do início da Constituinte/88. Ali, apresentava-se a lâmpada a vapor sódio (Son Phillips). Em seu título, à lá fake news de bolhas hodiernas, sem nenhum dado concreto, lia-se: “O prefeito da esquerda gasta mais que o da direita”.
No texto explicativo do “produto lâmpada”, havia indução ao voto a candidatos da direita. Detalhe: em 86, o país elegeu, além de governadores, os senadores e deputados federais que elaboraram nossa atual Constituição; logo, o termo “prefeito” foi o despiste às leis para induzir os (e)leitores a votarem em políticos conservadores.
Em suma, defendi que a mídia brasileira, com destaque à Veja e à Globo, em 89, escolhera Collor de Mello – um falso “caçador de marajás”, envolto ao cinismo moral – para derrotar o lulopetismo. Para isso, esses veículos – com base na recorrente tríade “Deus/Pátria/Família”, essência do conservadorismo, que escalou para o golpismo – serviram como norteadores de ações por parte de praticamente todos da elite.
De sua parte, a publicidade inaugurava nova forma de atuação discursiva, nutrindo-se das pautas jornalísticas para promover primorosas peças, não publicitárias stricto sensu, mas de propaganda eleitoral, e sem que assim fosse identificada; logo, antes, ou mais do que vender um produto, pretendia-se impor uma ideia, um estilo de vida, uma opção político-partidária, um determinado candidato. O jogo foi pesado. Desonesto.
Como exemplo disso, destaco o anúncio/propaganda da Biocolor: “Vamos colorir este país”, numa referência direta a Collor. Neste caso, por conta de enunciado inequivocamente explícito, o TSE impediu sua continuidade. Todavia, outros tantos anúncios continuaram a atuar na mesma agenda conservadora, mas com sutilezas discursivas (verbais e não verbais) que só análises muito cuidadosas poderiam auxiliar o (e)leitor a compreender o complexo processo de indução subjetiva. Em suma, a persuasão passou a ser feita de forma sofisticadíssima; e a sofisticação, por ser sutil, é sempre mais eficaz do que o dito de forma explícita.
E, aqui, “entro” no desfile da Acadêmicos de Niterói, que, ao homenagear Lula, impôs ao país discussões que passariam sem bocas no trombone. Agora, não dá mais, pois, como é materializado num intertexto – à lá Chico Buarque –, já passou “...nessa avenida mais um samba popular”; aliás, este é um dos únicos versos poeticamente bem elaborados no “samba-enredo” daquela escola. Nos demais, salvo uma ou outra alusão pouco mais criativa, tudo se encontra no plano do referencial/denotativo, como nas crônicas históricas, só que tudo disposto em versos, ainda que de rimas tão pobres quanto previsíveis. Claro que para algum “crítico” mais apaixonado, a própria pobreza dos versos e das rimas poderia estar dialogando com a origem do homenageado. De qualquer forma, paradoxalmente, essa fragilidade poética não tirou a beleza da criação do empolgante “samba-enredo”, que, reafirmo, não passa de uma bela e bem elaborada crônica histórica.
Mas essa beleza, sendo predominantemente denotativa, e não conotativa, como deveria ser, pois letras musicais estão no mesmo balaio de poemas propriamente ditos, levou a escola ao explícito em todos os demais quesitos; assim, metáforas visuais cederam lugar a encenações primárias e apelativas, a começar pela segunda parte da Comissão de Frente: artisticamente, um teatro de segunda linha. O rebaixamento era previsível.
Indignada, em sua autodefesa, a Acadêmicos está dizendo que “a arte não é para os covardes”.
Concordo e ainda acrescento: nem para aventureiros, principalmente quando o financiamento tem quinhão do erário. E só para arrematar, não há arte de qualidade que se sustente no plano da denotação, do referencial; e faltou conotação à Acadêmicos; logo, faltou-lhe o essencial: o artístico. E se lhe faltou a essência naquele desfile, ao que, exatamente, assistimos?
Para manter minha coerência, que tento mantê-la em quaisquer circunstâncias, e me lembrando novamente do questionamento do professor K, respondo dizendo que o desfile da Acadêmicos de Niterói está na mesma lógica do anúncio da Biocolor, acima comentado, mas com muito mais abrangência de público atingido. Assim, em algum momento, por meio de alguma medida, por menor que seja, o TSE terá de se posicionar, até para a manutenção de algum verniz às leis eleitorais vigentes, pois, se esteve ausente o predomínio da subjetividade da arte, sobrando manifestações referenciais, algo foi apresentado para além de uma homenagem artístico-cultural a alguém.
Mas pasmem!!! Tudo poderia ter sido pior! Não foi porque a direção editorial da Globo, em protocolo especial, solicitou aos profissionais envolvidos na transmissão que evitassem mostrar e/ou comentar qualquer gesto explícito que pudesse ser caracterizado como propaganda política; que os planos abertos, como os de sobrevoos de drones ou da câmera em plongée, prevalecessem sobre os closes e sobre os planos em contra-plongée. Agora, realmente, quem quiser pode dizer: “isso (e também aquilo) a Globo não mostra”.
No caso, não mostrou mesmo, o que, aliás, é condenável em termos de trabalhar com a realidade. Seja como for, sorte de Lula. Sorte do PT. Sorte de todos aqueles, dentre os quais me incluo, que não gostariam de ver de volta à presidência da República alguém que possa representar o extremismo da direita golpista deste país, afinal, como dizem Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, “acabou o nosso carnaval...// E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar...”
DO PALÁCIO À PRISÃO - Roberto Boaventura
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Por Roberto Boaventura*
Com a prisão do inominável ex-presidente da República, ocorrida no último dia 22, cada brasileiro que consegue entender a dimensão disso tem o amplo e irrestrito direito de se manifestar livremente. Assim, muito na esteira do conteúdo de “Vai Passar”, canção de Chico Buarque para os momentos já bem próximo do funeral da ditadura militar, imposta ao Brasil pelos golpistas de 64, vale, sim, extravasar. Para isso, os incontáveis memes, que voam pelas redes sociais, falam muito neste momento de felicidade para a maioria de nossa população.
De minha parte, como não sei fazer memes, resolvi escrever sobre a importância dessa prisão, posto o quão difícil, mas muito significativo, foi ver o país ter conseguido forças para a preservação do seu Estado Democrático de Direito. Por conta dessa preservação, na linha do tempo, foi-nos possível acompanhar seu aguardado indiciamento por diversos e gravíssimos crimes, dentre os quais estava a tentativa de golpe de Estado, assistir, de camarote, a seu digno e incisivo julgamento, e respirar aliviado por sua merecida condenação.
Contudo, longe de pretender abarcar uma ampla avaliação de todos os significados dessa prisão, que não são poucos, circunscrevo-me a uma curiosidade que pode caber em datas e acontecimentos muito simbólicos para a população de qualquer país: o que cada um de nós fazia no dia em que o inominável foi preso, repito, mesmo em caráter preventivo, por ter tentado se desvencilhar de sua tornozeleira e fugir, como já fizeram alguns de sua espécie?
De minha parte, vejam que feliz coincidência: mantive minha programação de sair bem cedo de onde moro atualmente rumo a São Paulo, de onde apenas 80 km me distanciam. Lá, mais no início da noite, me juntaria com um grupo de amantes das artes para mais um dos saraus que são realizados na residência de um excelente compositor, instrumentista e cantor. Detalhe muito importante, mas tão naturalizado em tempos de normalidade democrática: para o encontro desse seleto grupo, o anfitrião do sarau nos convidou por meio mensagem de texto, via whatsapp, o que soa elementar nos dias atuais.
Do detalhe acima exposto, afirmo, de pronto, que o sarau do qual pudemos tranquilamente participar no dia em que o inominável foi preso não teria ocorrido, caso o golpista, hoje, mais um presidiário de nosso país, tivesse tido o sucesso desejado e arquitetado. Motivo óbvio: estaríamos imersos numa ditadura, capitaneada ou por ele ou por algum fardado de sua própria tropa. Sim. Alguém descarta a possibilidade de um golpe dentro do golpe, caso o infortúnio tivesse sido concretizado? Até que ponto golpistas fardados suportariam a subordinação a um ser tão limitado, como o inominável?
Seja como for, aquela mensagem no whatsapp nos convidando para o sarau, ou não viria ou viria toda cifrada, na intenção de despistar “...hipócritas, disfarçados, rondando ao redor”, dos quais Gilberto Gil já nos falara em “Não chores mais”.
Agora, mais um detalhe, qual seja, a coincidência da qual falei acima: a motivação do sarau realizado no dia 22 – mas idealizado bem antes, e sem prejuízo de outras homenagens, como as que poderiam ter sido feitas ao Jards Macalé, o “Anjo Torto”, falecido há poucos dias – era manter vivas a memória e a obra de Lô Borges, morto em 02 de novembro. Cada um dos participantes do sarau ficava encarregado de falar ou cantar algo que reverenciasse o já saudoso mineiro do Clube da Esquina.
De sua vasta obra, eu havia escolhido “Paisagem da Janela”, composta em parceria com Fernando Brant, em 1972, ápice da censura em nosso país. Essencialmente, sua letra retrata a atmosfera pesada e perigosa que a censura dos golpista de 64 nos impunha a todos, mas mais especificamente a quem conseguia raciocinar sobre aquele momento vivido, opondo-se a ele. Assim, nessa canção, os versos “Quando eu falava desses homens sórdidos / Quando eu falava desse temporal” são imagens linguísticas da crueldade de um tempo sombrio, de perseguições, torturas e mortes; tempo que se contrapunha à tranquilidade vivida antes do golpe, representada, na canção, pela “igreja”, “muro branco” e “voo pássaro”.
Enfim, o sarau que nos foi possível realizar no dia 22 teve um sabor ainda mais marcante do valor da democracia. Sem medo algum de ter em nosso meio eventual hipócrita nos “ob-observando”, homenageamos Lô Borges e outras vozes (reais, e não advindas de surtos psicóticos) que sempre souberam do valor e da necessidade de defesa que as democracias, sempre em risco, demandam de nós todos.
Salve(m) a Democracia. Sempre.
PS.: como a prisão de que me refiro aqui é provisória, o mérito das reflexões expostas permanece, mesmo se alguma liminar judicial ou coisa do gênero der ao “ilustre” presidiário algum direito de sair de onde se encontra no momento da escritura deste artigo.
*Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Ciências da Comunicação/USP.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Mesmo ciente de que a última “Semana da Pátria” e seus dias subsequentes tenham tido significado inaugural em nossa história, posto que, pela primeira vez, um ex-presidente da República foi condenado por diversos crimes, como tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado de Direito, eu não planejava escrever sobre isso. Entendia que muito do que eu compartilharia já havia sido dito no calor dos acontecimentos. De repente, mudei de ideia. Motivo: o “bando de pé de chinelo”, lembrado por Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, que confirmou, em evento no dia 13 pp., que a decisão do STF precisa ser respeitada. Elementar. Admitiu ainda que houve planejamento para o golpe de Estado. De novo, elementar; aliás, também por isso, a condenação exemplar; e não apenas ao nosso país!
Na sequência, Valdemar completou:
"O grande problema nosso (da direita e da extrema direita) é que teve aquela bagunça no 8 de janeiro e o Supremo diz que aquilo foi golpe... um bando de pé de chinelo (grifo meu) quebrando lá na frente e eles falam que aquilo é golpe”.
Dos pés de chinelo da extrema direita, lembro que aquela turba ignara – municiada 24 horas por fake news e (des)norteada pelo cínico lema Deus/Pátria/Família – tinha um mentor: um ex-capitão, hoje, usando tornozeleira e preso preventivamente. Em idos tempos, o ex-capitão usara as botinas do Exército; e destas dependia para o golpe pretendido.
Pois bem. Daqui pra diante, mesmo tudo parecendo estar no seu lugar, optei por tratar, agora, de alguns versos de duas composições musicais engajadas, mas não panfletárias, que dialogam com tópicos relevantes de nossa contemporaneidade política. Este meu exercício almeja se somar à necessária e constante prevenção contra novas incursões golpistas.
A primeira das canções é de Jonathan Silva, surgida no clima eleitoral de 2018. Em tom profético, trata-se do cadenciado “Samba da Utopia” (https://www.youtube.com/watch?v=KDXX7m3iBzc). Com alusões ao estilo autoritário de ser e estar na política por parte do então candidato Jair Bolsonaro, na canção, é dito que:
“Se o mundo ficar pesado/ Eu vou pedir emprestado/ A palavra poesia// Se o mundo emburrecer/ Eu vou rezar pra chover/ Palavra sabedoria// Se o mundo andar pra trás/ Vou escrever num cartaz/ A palavra rebeldia// ...Se acontecer afinal/ De entrar em nosso quintal/ A palavra tirania// Pegue o tambor e o ganzá/ Vamos pra rua gritar/ A palavra utopia”.
Desse samba, destaco que, por bem pouco, a “tirania” não entrou pra ficar e arrebentar o “nosso quintal”, pois o golpe cívico-militar foi planejado e tentado.
A segunda canção é “Pedrada” (https://www.youtube.com/watch?v=qfWoph8jxz0) de Chico César, constante do álbum “O Amor é um Ato Revolucionário”, de 2024. De maneira enfática, ela dialoga com o fantasma do fascismo, sempre presente na história. Eis alguns de seus versos:
“Cães danados do fascismo/ Babam e arreganham os dentes/ Sai do ovo a serpente/ Fruto podre do cinismo...// Ê, república de parentes, pode crer/ Na nova Babilônia eu e você/ Somos só carne humana pra moer/ E o amor não é pra nós// Mas nós temos a pedrada pra jogar/ A bola incendiária está no ar/ Fogo nos fascistas...”
No início do texto, quase tudo parece literal na tarefa de sintetizar o ser fascista como violentíssimo na produção dos males que produzem às sociedades que subjugam. Autoritário por excelência, esse tipo está sempre a serviço dos seus interesses ou dos de seus clãs; daí, em nosso caso, a expressão “república dos parentes” surgir, na canção, ultrapassando a lógica da já limitada “República das Bananas”. As ações do filho 03 do clã apeado do poder – hoje, incitando os EUA contra o Brasil – são exemplos sínteses e abomináveis, pois, na ânsia de contemplar interesses familiares, se lixam para a totalidade daquilo que chamam Pátria.
Na vida política, tais tipos são sedutores na oratória, mesmo que a essência de seus discursos seja das mais rasas de que se possa ter conhecimento; assim, tais sujeitos, aproveitando-se de uma ignorância coletiva, construída ao longo do tempo, mesclada com a decepção e o ódio ao adversário político mais imediato, não se constrangem de usar e manipular até discursos religiosos para obtenção de seus interesses; assim, o “Deus acima de tudo” não passa de um jargão tão balofo quanto cínico, pois é emitido por despossuídos de humanidade. Como um de tantos exemplos, faço lembrar daquela imitação de pacientes que morriam da Covid, buscando um pouco de ar para respirar. Lembram-se disso? Estarrecedor.
Como resposta a esse tipo desprezível de político, o texto de Chico César sugere as fortes metáforas da pedrada a ser jogada, bem como a do fogo a ser ateado, queimando qualquer resquício de atos fascistas. Na junção dessas metáforas, uma leitura possível desses versos pode ser a do revide nas urnas – eletrônicas, obviamente – em momentos eleitorais.
Em suma, metaforicamente, significa esmagar e transformar em cinzas qualquer pretensão autoritária de poder, pois isso é o maior símbolo do atraso da humanidade que se pensa evoluída pelo simples fato de se encontrar no atual milênio da história. Na essência, a “Pedrada” de Chico César pretende ser um verdadeiro réquiem, tanto às botinas quanto aos pés de chinelo, que adoram lamber botas de golpistas vis.
A INCOERÊNCIA COMO MÉTODO? - Alair Silveira, Aldi Nestor de Souza e Roberto Boaventura
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Aldi Nestor de Souza
Professor do Departamento de Matemática – ICET/UFMT
Alair Silveira
Professora e Pesquisadora do Depto. de Sociologia e Ciência Política e do PPGPS/ICHS/UFMT
Roberto Boaventura de Sá
Professor Aposentado do Departamento de Linguagem – IL/UFMT
De pronto, esclarecemos que este pequeno artigo tem como objetivo refletir sobre a demissão de três trabalhadores da ADUFMAT (dois deles da área de comunicação), ocorridas no último dia de mandato da Diretoria “Lutar e mudar as coisas nos interessa mais” (2023-2025), sob a alegação de que “se trata de uma reestruturação da ADUFMAT, fortemente motivada por questões financeiras”, conforme justificado na Assembleia Geral realizada no dia 12 de agosto/2025.
Marx, em 1845, foi cirúrgico ao asseverar que a prática é o critério da verdade. Assim, se são os fatos (e não suas “narrativas”) que nos permitem averiguar o conteúdo das práticas, há que refletirmos sobre as incoerências entre o discurso e a prática, para além de lamentar a profundidade com que tais incoerências têm se banalizado dentro do nosso sindicato e, consequentemente, se estendido pelas seções sindicais que conformam a base do ANDES-SN.
Particularmente a partir do 35º Congresso Nacional do ANDES-SN, realizado em Curitiba/PR, em 2016, foi se cristalizando nas proposições, nos embates e nas deliberações, um movimento crescente que tem se caracterizado, dentre outras coisas: a) pela redução, nos eventos nacionais, do tempo dedicado à discussão política; b) pela secundarização das reivindicações de classe em relação às demandas identitárias; c) pela pressuposta autossuficiência sindical e sua consequente desarticulação (e desorientação) no campo da unidade organizativa de classe; d) pelas progressivas mudanças estatutárias que, muitas vezes, comprometem a vitalidade da política sindical; e) pela crescente pessoalização dos embates, transformando disputas políticas em hostilidades pessoais; f) pela eleição da cultura punitivista e de exclusão como método de atuação sindical; g) pelo contingenciamento da política direta para liberação da métrica institucional e de neutralização do PROIFES; h) pela ressignificação da democracia de base e do papel das direções.
Este longo, tenso e contraditório processo de transformação do ANDES-SN[1] não implica, absolutamente, ausência de disputas, críticas e enfrentamentos internos. A greve de 2024 evidenciou ainda mais estas transformações: de um lado, a insurgência da base; de outro, o papel das direções.
A ADUFMAT-S. Sind. ANDES-SN, em que pese sua elogiável trajetória de luta e resistência (nacionalmente reconhecida), não passou imune a este processo que, por óbvio, não se desenvolveu à revelia de significativas transformações estruturais e societárias. A questão, contudo, é sob quais compromissos, princípios e propósitos atuamos fora e dentro do sindicato.
Como o critério da verdade é a prática (Marx), há que refletir sobre os últimos acontecimentos envolvendo a ADUFMAT. Primeiramente, porque embora o Sindicato tenha sob a sua responsabilidade trabalhadores, ele não é uma empresa. Não somente pela sua finalidade (entidade de representação de interesses dos trabalhadores), mas porque manuseia recursos financeiros que não provêm da concorrência mercantil. As direções, que são eleitas para mandatos executivos de representação sindical, devem orientar-se pelos Estatuto do Sindicato Nacional (ANDES-SN) assim como pelo Regimento da Seção Sindical.
De acordo com o Estatuto do ANDES-SN, atualizado no 43º Congresso Nacional (2025), a referência à solidariedade e à unidade de classe permanece reafirmada no artigo 5º, VIII. O Regimento da ADUFMAT (2018), por sua vez, no artigo 3º, reitera como objetivos da Seção Sindical “lutar pela valorização da carreira docente, de forma isonômica para ativos e aposentados, e pela garantia dos direitos sociais do conjunto da classe trabalhadora” (II), assim como “promover a integração entre professores, estudantes, servidores técnico-administrativos e trabalhadores da UFMT e, destes com demais categorias da classe trabalhadora” (V).
Não bastassem as determinações estatutária/regimental que norteiam a atuação do Sindicato, importa destacar a assertiva da professora (e duas vezes presidente do ANDES-SN), Marina Barbosa Pinto, sobre a história do Sindicato: [...] a síntese central é a seguinte: a forma organizativa da classe trabalhadora para defender seus direitos, para se apresentar como sujeito social, na realidade, vai estar diretamente determinada pelas relações de capital e trabalho [...] (p. 309). Para se ter um projeto de classe, é preciso estar na classe, ser da classe, se reconhecer como classe, andar com a classe, a gente precisa de movimentos que são objetivos e são subjetivos. Portanto, somos classe, mas isso não é simples. Porque essa compreensão é fundamental para dizer que tipo de organização você possui, que tipo de sindicato se tem, qual sua pauta, o que ele vai fazer e como fará por sua corporação e lutas sociais mais gerais. (CADERNO GTPFS I, 2021, p. 312 – Grifos nossos)
Por que estas citações literais se fazem necessárias? Porque as relações entre trabalhadores e trabalhadores, mesmo que mediadas por relações hierárquicas, não podem obscurecer a condição de classe que os une, tampouco de que o sindicato não é empresa privada, cuja lógica mercantil impõe-se sobre os direitos e a solidariedade de classe. Sob a lógica empresarial, as dificuldades de caixa se resolvem pelo caminho mais fácil: demissões e recontratações por salários mais baixos. Estas são práticas que o Sindicato, historicamente, denuncia e combate. Então, é possível que seja um sindicato de trabalhadores a reproduzi-la quando se trata de relacionar-se com seus próprios trabalhadores?
A condição de trabalhador não implica, necessariamente, que não possam existir problemas com relação ao desempenho do trabalho. Mas, para isto, inclusive a CLT assegura que os trabalhadores sejam advertidos previamente, de maneira a garantir-lhes o direito de serem informados quanto aos problemas apontados e possam, assim (se quiserem), revertê-los. Historicamente, não somente a demissão patronal arbitrária, mas também a forma inesperada como a ruptura do vínculo é informada, sempre foram denunciadas e combatidas pelos sindicatos de trabalhadores.
Assim, se de parte das direções sindicais existem, muitas vezes, dificuldades em compreender (na condição de administradores), o papel das entidades sindicais; também da parte dos trabalhadores dos sindicatos há, muitas vezes, dificuldades em compreender que não se trata de um emprego, mas de uma relação profissional. Estas dificuldades, entretanto, se resolvem no cotidiano das relações laborais, respeitando-se direitos básicos (como o direito a reclamar direitos) e, principalmente, compreendendo que o direito a ter direitos é uma luta histórica dos trabalhadores.
Desta maneira, os últimos acontecimentos nas relações de trabalho na ADUFMAT precisam ser enfrentados como um problema que não se justifica pela contabilidade, mas pela política. E como questão política precisa ser enfrentado. Afinal, com que autoridade condenamos as práticas patronais se as reproduzimos contra aqueles que, circunstancialmente, a nós estão subordinados? Em que ambiente de confiança política podemos desenvolver política sindical se não respeitamos os trabalhadores do sindicato como legítimos trabalhadores, portadores de direitos que reivindicamos para nós enquanto categoria?
É urgente que revisemos nossas práticas sindicais! É urgente que o pertencimento de classe não se restrinja a uma referência presente nos artigos e discursos, mas uma prática efetiva e cotidiana. E, como tal, se constitua em critério da verdade.
[1] Este processo tem sido objeto de muitas análises publicadas, inclusive, no Espaço Aberto da ADUFMAT. A título de referência, a Coleção de 10 textos sobre Organização e Filiação Sindical (2023) produzida pelo GTPFS/ADUFMAT-ANDES-SN, assim como artigos dedicados a apontar tais transformações, tendo como referência eventos nacionais: Cotas de Intolerância (2019, de Aldi Nestor de Souza); Deltan fez Escola: o powerpoint do ANDES-SN (2022, Alair Silveira); Nas ruas ou nas urnas? (2022, Alair Silveira et al.); Que Sindicato queremos? (2023, Alair Silveira); 2024: Reflexões sobre a greve do ANDES-SN (2024, Alair Silveira).
IMPOSIÇÃO DO VERMELHO - Roberto Boaventura
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Hoje, farei um artigo provocador sobre alguns dos nossos discursos fundadores, quase sempre intocáveis. Antes, peço licença a Carlos Drummond para me apropriar, mais uma vez, de versos de seu “Poema de Sete Faces”:
“Quando nasci, um anjo torto// desses que vivem na sombra// disse: vai, Carlos, ser gauche na vida”.
Claro que meu anjo não deve ter me chamado por Carlos, o que teria sido honroso; aliás, não deve ter me chamado por nada. Só pensado, pois havia, naquele momento, uma disputa familiar entre alguns nomes possíveis. Pobre anjo!
De qualquer forma, na esteira dessa condução “angelical” de uma existência, antes de outras considerações, invoco, agora, José Régio, poeta português do século passado – que diz ter nascido “...do amor que há entre Deus e o Diabo...” – para me ajudar a falar, com força poética, assim como registrou em seu “Cântico Negro”, que se alguém lhe dissesse para vir “por aqui”, não iria; que entre “ironias e cansaços”, só iria por onde seus “próprios passos” os levassem. Régio regeu sua vida!
Dessa forma, ao lado de pouquíssimos compatriotas, contrariando, pois, a quase unanimidade obtida em pesquisa sobre a bendita cor vermelha de um dos uniformes que a Seleção Brasileira de Futebol poderá (ou não) usar em 2026, digo que gostei daquele vermelho brilhante! Cor que, nesse caso, antes de tudo, deveria servir de lição para os lunáticos caçadores de comunistas. Por quê?
Primeiro: mal sabem tais caçadores que os comunistas brasileiros que ainda (r)existem já beiram os 100 anos! Via de regras, são velhinhos verdadeiramente humanos, mas, infelizmente, em extinção. Todos – que já são bem poucos – estão com dias contados. Pior: seus epígonos mais convictos, em termos teóricos e de prática social, talvez não lotem mais do que uma van. Repito: uma van. Portanto, esse é o tipo da caçada em vão; logo, ridícula. Sem lastro.
Segundo: o vermelho do tal uniforme, antes de tudo, é mera tentativa de imposição da Nike – legítima representante do ultracapitalismo seu país de origem, os EUA – à CBF. O resto é devaneio. Aos mais desavisados, os EUA ainda são a locomotiva do capitalismo planetário, e não da forma comunista, ou comunitária, de existência humana, hoje, circunscrita, quiçá, a pouquíssimas sociedades tribais, isentas, pois, da abrangência da globalização, guarda-chuva das transnacionalidades.
Logo, ainda que muita gente, tomada por um sentimento de um nacionalismo tão balofo quanto tosco, queira associar essa imposição do vermelho da Nike a uma ala política nacional, nada de concreto se pode afirmar; só especular, ou “fakear”.
Agora, fato seja dito: essa notícia – vazada por um site inglês, e que não é “fake” – é uma daquelas infelizes coincidências que, pelas circunstâncias, chegam em hora tensa e de intensas divisões políticas; por isso, inapropriada, pois pode acentuar o desvio de nossa atenção dos problemas sociais concretos, que nunca foram poucos. Ademais, sou sempre contrário a qualquer imposição estrangeira em nossas questões domésticas.
Contudo, já que eu mesmo aceitei o desvio de foco das coisas mais sérias para escrever sobre isso, penso que poderíamos aproveitar, de forma embasada, a oportunidade para reavaliar signos pátrios advindos de nossos discursos fundadores como nação. De repente, sem pretender, a Nike pode estar nos dando essa oportunidade ímpar, pois, pela cronologia de nossa história, é exatamente o vermelho, e não outra cor qualquer, que nos fez como nação conhecida na entrada do séc. XVI, já dentro da Idade Moderna.
Pois bem. De saída, adianto que o nome de um país precede à formatação de sua bandeira e de outros signos pátrios. Diante disso, é pertinente lembrar que, em termos oficiais, o primeiro nome que recebemos – conforme registros de Pero Vaz de Caminha, em sua primeira “Carta” ao Rei de Portugal, de 1º de maio de 1500 – foi o de Ilha de Santa Cruz. Depois, Terra de Vera Cruz.
Aqui, vale reforçar que, na fé cristã, a cruz – fosse a Santa, fosse a Vera – é manchada pelo sangue de Cristo crucificado, guia dos portugueses e, hoje, de muitos brasileiros. Depois desses nomes, constatado que a descoberta fora maior do que a encomenda, passamos a ser conhecidos como Brasil, motivado pela abundância da árvore pau-brasil, de cor de brasa, portanto, avermelhada, e não por termos o verde das matas, o amarelo do ouro, o azul do céu, o branco da paz ou outra coisa que se quisesse inventar.
Mais: para reforçar a cor do pau-brasil ainda se pode pôr no mesmo pote de barro, ou em um balaio entrelaçado de bambu, a cor de nossos indígenas, representados pelo vermelho. Portanto, nascemos sob o signo do vermelho, que nada tinha a ver com a futura cor de partidos políticos da esquerda mundial, que eclode sob a égide da Revolução Francesa, nos idos de 1789; tampouco tem a ver com o vermelho do Partido Comunista da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, dos idos de 1917.
Mas para consolidar essas minhas lembranças, que até poderiam servir como sugestão para reflexões e revisões acerca de itens de nossos discursos fundadores, e “já ir” (ops!!!) encerrando meu artigo, convido, com as devidas honras, o senhor Cassiano Ricardo, poeta da ala conservadora de nosso Modernismo, para me ajudar a trazer à tona aquele momento histórico da “descoberta oficial” dos portugueses, mas por meio de seu lindo poema, intitulado “Ladainha”, inserido no livro Martim Cererê, de 1928. Nele, a cor vermelha está por toda parte, com destaque, além do pau-brasil, ao raiar do sol, poetizado como o “fogo da manhã selvagem”, até a cor da “onça ruiva”. Eis o poema:
“Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome/ de Ilha de Vera Cruz./ Ilha cheia de graça/ Ilha cheia de pássaros/ Ilha cheia de luz./ Ilha verde onde havia/ mulheres morenas e nuas/ anhangás a sonhar com histórias de luas/ e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.//
Depois mudaram-lhe o nome/ pra terra de Santa Cruz./ Terra cheia de graça/ Terra cheia de pássaros/ Terra cheia de luz.//
A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.//
Mas como houvesse, em abundância,/ certa madeira cor de sangue cor de brasa/ e como o fogo da manhã selvagem/ fosse um brasido no carvão noturno da paisagem/ e como a Terra fosse de árvores vermelhas/ e se houvesse mostrado assaz gentil/ deram-lhe o nome de Brasil.//
Brasil cheio de graça/ Brasil cheio de pássaros/ Brasil cheio de luz”.
E também... cheio de problemas para serem pensados e resolvidos nos dias atuais.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Dias atrás, fui ver de novo o filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, até agora, 38 vezes já premiado. Tentei observar melhor como, neste momento do império das fragmentações, um filme, cuja cronologia da narrativa está respeitada e até datada em seus momentos de avanço temporal, pode ser tão envolvente.
Como resposta, destacarei alguns pontos intrínsecos e outros extrínsecos à obra que podem estar influenciando na aceitação por parte de públicos daqui e do mundo afora.
Intrinsicamente, começo retomando o que já escrevi sobre o filme, assim que o assisti pela primeira vez. Do roteiro, a força dramatúrgica, principalmente de Fernanda Torres, literalmente, “rouba a cena”. Como nos geniais espaços em branco das páginas de “Un Coup de Dés” (Um Lance de Dados), de Mallarmé, nossa atriz atinge um nível de interpretação para a personagem Eunice Paiva em que, em diversos momentos, o silêncio e a força dos olhares falam mais alto e mais forte do que quaisquer palavras. Isso poderá, sim, lhe render o prêmio de melhor atriz.
Aliás, os “vazios” e/ou os “brancos” de sua interpretação também se estendem à sua mãe biológica, Fernanda Montenegro, que, em poucos minutos, já no epílogo, sem pronunciar uma palavra, diz tudo o que a personagem Eunice, já com o alzheimer avançado, poderia expressar: ápice das emoções de um filme emocionante por inteiro.
Mas nem só de “brancos” e “vazios” o filme se consolida. Há cenas que servem como verdadeiros quadros sígnicos, que, literalmente, “gritam” na construção da narrativa, como no interdiscurso com aquele “...Grito Parado no Ar”, peça e música de Gianfrancesco Guarnieri, ambas de 1973. Os gritos de brasileiros torturados no DOI-Codi, no Rio, são de arrepiar, pois acionam imagens de sofrimentos extremos provocados pelos métodos mais cruéis de se torturar alguém.
Igualmente forte em termos sígnicos é a presença da “água”. Agora, num diálogo discursivo com a música “Eu e a Água”, de Caetano Veloso (“...A água lava as mazelas do mundo// E lava a minha alma...”), o banho que Eunice toma após ter ficado presa por doze dias, enquanto era interrogada por agentes da ditadura, também é de uma força monumental na narrativa.
Aquele banho, além de resgatar a higiene corpórea da qual Eunice fora privada, ganha dimensão simbológica, pois “fotografa” o momento de sua tentativa de limpeza das imundícies, das injustiças, das dores, das mortes de pessoas torturadas, das mazelas de um país capturado em corpos e alma por um regime assassino. A personagem esfrega-se com tamanha força, como nunca precisara ter feito antes. Ao mesmo tempo, a água a revitaliza, revigorando-a para a luta incessante que passa a ter em busca de resposta sobre o desaparecimento de seu esposo.
Na verdade, nesse filme, a água tem força de personagem, tanto que, em outro momento, a água lava o sangue de pessoas torturadas nas celas e corredores daquele prédio sombrio que, por si, parece simbolizar uma catacumba. Aquela cena é uma das mais fortes, pois com a água está misturado o sangue de idealizadores de um país melhor, mais humano, inapelavelmente, vistos pelos ditadores como “comunistas”, “subversivos”. Todavia, em outra cena, marcas de sangue ressecado – aliás, de propósito, não lavado – foram deixadas na sala da direção do presídio para auxiliar na tortura psicológica dos interrogatórios, como o de Eunice, que não tinha as informações desejadas pelo regime autoritário.
Vale lembrar que a maioria das companheiras ignoravam muitas das ações de caráter gigantesco de seus companheiros, que, para poupá-las de consequências pavorosas que poderiam sofrer, silenciosamente, eles ajudavam a esconder compatriotas perseguidos pela ditadura. Durante o interrogatório de Eunice, o agente do regime atira seu resto de cigarro ao chão, repito, que está manchado de sangue já ressecado, e o pisa: cena igualmente chocante, carregada de significados no “não-dito”; no subentendido, é dito que, ali, muitos já foram mortos...
Enfim, o filme está repleto de signos não-verbais. A cada música da trilha sonora, p. ex., outros signos vão se superpondo, como em mosaico, cabendo ao espectador acionar seu repertório para ir preenchendo os espaços, propositalmente, deixados em branco. Na essência, essas sutilezas é que enriqueceram, no plano interno da construção fílmica, o desenrolar de “Ainda Estou Aqui”, que, também, poderá nos trazer algum troféu.
Na dimensão externa, que dialoga com o intrínseco das obras, volto a retomar reflexões que já expus em outro artigo. Antes de tudo, é bom lembrar que a arte não nasce do nada; ela tem origem num determinado lugar (espaço) e num tempo. Todavia, e, paradoxalmente, para ser elevada, ela só não pode ficar restrita ao lugar e ao tempo de nascimentos. Se ficar, pode não passar de mera crônica de circunstância ou do cotidiano, geralmente, de menor valor artístico.
Ademais, “Ainda Estou Aqui” é um grito contra o ódio de regimes e/ou políticos autoritários, que, sustentados por fake news e por discursos do ódio, estão pululando em diversos locais do mundo. Além da eleição de Trump, nos EUA, cujos reflexos já estão sendo sentidos em diversas partes, até na Alemanha, quem diria, a “Far-right politic” está, literalmente, mostrando suas garras.
No Brasil, para o desconforto, mesmo que in memoriam, de muitos dos que sustentaram a ditadura, bem como aos apequenados de alma que ainda flertam e se identificam com líderes do ódio, se Eunice, nos últimos anos de vida, perdera a memória por conta do alzheimer, hoje, cada um de nós está podendo recuperar um pouco da memória de um passado tão próximo; passado, a bem da verdade, dolorido, tantas foram as suas crueldades, como a que se abatera à família Paiva, que teve de ver, em janeiro de 1971, Rubens ser retirado de sua casa, por agentes da ditadura militar, para um “simples depoimento”, do qual nunca mais regressou.
Mas se Rubens nunca mais pode voltar da forma como desejava sua família, hoje, ele está de volta; como de regresso está Eunice. E ambos estão – por aqui – tendo um retorno retumbante, até pouco tempo não suposto. Mais: ambos – por toda parte – estão nas telas dos cinemas do mundo inteiro! Quem diria?! Ditadores que se esconderam junto com anistiados políticos estão sendo inapelavelmente desnudos em suas crueldades.
Que tudo isso nos sirva de lição; que este país não mais alimente a insanidade e a perversidade de criaturas, como Bolsonaro e seres ainda menores (!!!), renderem homenagens a tipos desprezíveis, como o condenado judicialmente coronel Brilhante Ustra, um dos mais cruéis torturadores de todos os torturadores do regime de exceção, até porque, repito o que já disse em outro artigo: BRILHANTE, de verdade, é o filme de Walter Salles. BRILHANTE é a oportunidade de ser contemporâneo de famílias BRILHANTES, como a de Eunice e Rubens Paiva, de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que, ao se juntarem no BRILHANTE palco do mundo das artes, estão nos presenteando com o BRILHANTE sentimento de brasilidade, que vai bem além, mas muito além do ato de fixar ou fincar uma bandeira na porta de uma casa, da varanda de um apartamento, no pórtico de um comércio ou na entrada de uma porteira qualquer, de uma estrada qualquer, de uma fazenda qualquer...
Salve a democracia!
Ditadores e golpistas nunca mais.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Nas primeiras séries de vida escolar, tive aquelas clássicas aulas sobre “sinônimos” e “antônimos”. Dos primeiros, aprendi que as palavras tinham o mesmo, ou significados semelhantes, como, p. ex., “carro” e “automóvel”. Os “antônimos”, dessemelhantes, como os binômios “branco/preto” e “amigo/inimigo”.
Hoje, considero que os termos “presidente” e “bispa”, que, dentro da lógica semântica, até poderiam fazer parte dos sinônimos, posto serem substantivos que apontam para tipos de lideranças (no caso, política e religiosa) em diferentes sociedades, também podem ser antônimos! Isso depende apenas do presidente, da bispa e, acima de tudo, do contexto, tão bem estudado por Mikhail Bakhtin e seguidores.
Foi preciso a maior democracia do planeta realizar suas últimas eleições, e o mundo assistir a um conjunto ritualístico da posse de seu atual presidente, para ser escancarado um antológico antagonismo – portanto, na esteira dos “antônimos” – entre um presidente (Trump) e uma bispa (Mariann Budde). Não que, antes, religiosos já não tivessem tido embates com o “status quo” alhures. Do Brasil mesmo, dentre outros, destaco a coragem do bispo Pedro Casáldaliga, durante a ditadura militar/64. Todavia, o detalhe do momento em pauta esteve no jogo dos olhares que ambos trocaram durante um culto, quando foi pregado um sermão de doer a alma de um cristão (desde que o fosse de fato), transmitido ao vivo e em cores, com destaque à laranja. Hai capito?
Pois bem. De minha parte, avalio que o antagonismo exibido pelos dois sujeitos citados, dia 21 pp., na Catedral de Washington, pode nos servir como uma das imagens mais emblemáticas para a tentativa de compreensão deste turvado tempo, pois elas “fotografam”, num mesmo espaço (por ironia, um templo), a coexistência de dois tipos tão distintos de nossa espécie, politicamente falando: a) os providos de humanidade; b) os desprovidos de humanidade. Sempre partindo dessa oposição, infinitas singularidades nos formatam como indivíduos, desde um certo “princípio” até se sabe lá quando...
Isso posto, realço que a firmeza de Mariann para aquele embate teve de vencer seu confessado medo, até porque Trump não fala apenas por meio de palavras. Vindo de um tipo de circo midiático, onde, de saída, valem dancinhas e requebros com braços e mãos para aprisionar a atenção/audiência de uma massa idiotizada desde tenra idade, ele também se expressa por meio de um amplo gestual corpóreo, inspirado na sombria figura do Tio Sam, aquele ser de olhar amedrontador que sempre está apontando o indicador da mão direita ao seu interlocutor.
Mas, afinal, o que fez a bispa?
Com determinação, mas com o devido respeito, na condição de representante de Deus naqueles lugar e momento, ela pediu misericórdia aos imigrantes ilegais e aos LGBTQIA+, dois dos alvos políticos mais mirados pelo ódio de Trump. Alicerçando-se na Bíblia, aliás, outrora, por coincidência, ostentada pelo próprio presidente, à porta da mesma Igreja, Mariann apelou para o lado cristão de Trump.
Em vão. Assim, Mariann contrariou Mateus, 7:6, que já pedia que não se desse “o que é sagrado aos cães”, nem atirassem “pérolas aos porcos”. Trump, como que se vingando, adiantou o desmonte das políticas de inclusão e acentuou a truculência policial contra imigrantes não-legalizados.
Antes disso, o engano da bispa já se explicitara, durante o transcorrer do culto, pelas caras e bocas do presidente, como fazem crianças e adolescentes mimados, quando contrariados ou invadidos em seus segredos. A propósito, adultos infantilizados me inquietam, pois ofendem as crianças, seres graciosos, pelo menos enquanto são infantes. Pior é ver criaturas assim se elegendo para cargos políticos, pois isso significa conivência “de espelho” (In: “Sampa”/Caetano Veloso) entre eleitor e eleito.
Essa conivência tem significados políticos e sociais gravíssimos, pois o discurso e as ações de ódio têm sido alimentados por avalanches de fake news, recebidas e compartilhadas por pessoas capturadas pelas bolhas de criminosas redes sociais, que alimentam e alavancam lideranças autoritárias. Para isso, a desinformação ganha terreno inimaginável de mensuração social, pondo em risco as democracias. Hoje, já no poder ou na expectativa de tê-lo, esses agentes autoritários estão por diversas lugares, como nos EUA, Coreia do Norte (e até na do Sul!), Belarus, Rússia, Venezuela, Argentina...
No Brasil, também temos um líder assim, embora sem a menor capacidade para o gracejo de outros por aí. Quando tentou ser cômico, zombou a morte de milhares de brasileiros por covid-19, imitando pacientes intubados: desumanidade de um negacionista convicto. Seu ódio é sempre potencializado por sua visão de um mundo acorrentado ao medievo. Até para sorrir, o que lhe é raro, seus dentes estão sempre cerrados.
Enfim, sujeitos tais, da política contemporânea, são invariavelmente agentes dos extremismos, cujos berços mais recentes podem estar no fascismo e/ou no nazismo. Não à toa, Elon Musk, ministro de Trump, afrontando a humanidade, expôs, gestualmente, um dos abomináveis signos nazistas no meio dos festejos ao presidente recém-eleito. Depois, precisou negar.
Tarde demais. Conforme o ICL Notícias (25/01/25), por aqui, pelo menos “Um perfil no Instagram postou vídeo de um grupo de homens de Catanduva (SP) fazendo a mesma saudação nazista ao som de “Amerika”, música do grupo alemão de metal Rammstein”. Já no “Fantástico” (Globo: 26/01/25), foi revelado que vem aumentando o número de bandas brasileiras extremistas (mais de 125 já estão identificadas), que fazem letras para atacar negros, LGBTQIAP+ e judeus.
Na contramão disso, no dia 27 de janeiro pp., o mundo celebrou o 80º aniversário da libertação de Auschwitz. Alguns dos raros sobreviventes daquele campo de concentração, logo, de horrores indescritíveis, estiveram durante as comemorações. Suas lembranças e apelos para a paz, tudo transmitido ao vivo pela BBC/Londres, foram de arrepiar. Diante de tantas atrocidades, só mesmo um ser inominável, absolutamente desumano, pode saudar o nazismo, querendo imitar Hitler; pior: e ser seguido por uma legião de criaturas igualmente abjetas.
Infelizmente, hoje, convivemos com isso, mas isso pode mudar, felizmente. Tudo depende da consciência crítica e da postura de cada um de nós. Daí a importância de compreendermos os diversos cenários políticos, nossos e de outros territórios; para nos auxiliar, mais do que antes, o jornalismo profissional e responsável se faz indispensável em todos os lugares. Daí a importância de leituras responsáveis, de estudos aprofundados, da imersão na cultura comprometida e respeitosa com o seu tempo e seu povo. Precisamos nos livrar das bolhas das redes sociais, manipuladas/monetizadas por extremistas, de direita e/ou de supostas esquerdas, invariavelmente, reinado de desumanidades. Só assim, adubaremos, organicamente, nossa humanidade, como espécie; por consequência, sustentaremos nossas democracias, hoje, ameaçadas, em diversos espaços do planeta.
DE GOLPE E DE CENSURAS - Roberto Boaventura
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Professor de Literatura; aposentado da UFMT
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Embora possa parecer algo novo para muita gente, as tais “disputas de narrativas” sempre fizeram parte de qualquer contexto social. Mikhail Bakhtin, com outras terminologias e reflexões teóricas do real concreto, antes de qualquer acadêmico da pós-modernidade, já tratara isso em seus trabalhos, muitos focados no período medieval.
Portanto, no plano coletivo, como seres sociais que somos, estamos sempre disputando a hegemonia – à lá proposição de Gramsci –para fazer valer a força de nossas construções discursivas. Logo, tudo normal e legítimo em sociedades democráticas. O anormal é abrir mão dessa disputa, ainda mais se se tratar de sujeito político que dispõe de indiscutível projeção social acima de tantos “meros mortais”.
A quem ainda não captou a noção indireta deste meu discurso até aqui, agora, serei direto: o presidente Lula, que gosta de “falar até pelos cotovelos”, a menos que venha a mudar de ideia, preferiu se calar a falar qualquer coisa que fosse sobre o 31 de março de 1964, que é um dos momentos mais trágicos de nossa história recente, pois nos impunha, há 60 anos, um golpe militar, com todo tipo de crueldade (de censuras a torturas) que esse dispositivo militar tão bem sabe fazer alhures contra civis que não lhes lambam as botas.
Conforme foi noticiado pela Folha de São Paulo, setores do governo chegaram a ensaiar pedidos de desculpas por essa tragédia. Todavia, Lula teria vetado (logo, censurado) qualquer tipo de manifestação por parte de quem quer que fosse de seu governo. Em outras palavras, sem palavras. Só o silêncio, onde impera a mordaça, como bem apreciam todos os antidemocratas, dos mais explícitos aos enrustidos, de direita e/ou de esquerda.
De minha parte, que circunstancialmente votei em Lula nas últimas eleições, mas apenas para ajudar a interromper um tipo de aberração política então em curso, afirmo que nenhum motivo do veto desse camaleônico mito de nossa política poderia ser maior do que a necessidade do forte embate discursivo. Infelizmente, o seu silêncio pode dar espaço para que a perigosíssima extrema direita revigore suas forças políticas para, mais uma vez, tratar cinicamente o golpe como ato revolucionário, e mais adiante tentar um retorno à presidência.
Mas por que a fala de Lula e, por extensão, a fala de todos os cidadãos verdadeiramente democráticos seriam tão importantes?
Porque, mesmo o país estando sob a égide de um momento democrático, censuras ainda se encontram bem presentes. Para dificultar o trânsito social das pessoas realmente críticas, a censura em nosso país tem se manifestado de formas diferentes, e por sujeitos sociais, em tese, também diferentes.
E, aqui, talvez, resida um dos maiores nós sociais que temos para desatar, qual seja, o abraço, ou o encontro mesmo, por meio de práticas antidemocráticas, de supostos esquerdistas com genuínos e assumidos extremistas da direita.
Para ser mais objetivo, tomarei o espaço escolar (em todos os níveis do ensino formal) como exemplo desse dificílimo caminhar social no fio da navalha. Sob a ótica do atual ambiente escolar brasileiro, como um microcosmo social, à lá O Ateneu, de Raul Pompéia, podemos ver como se tornou difícil escapar das censuras que se nos apresentam.
De um lado, extremistas da direita, que sempre vislumbram a ditadura, além de nos censurar com o que equivocadamente chamam de “ideologia de gênero” e seus congêneres, censuram-nos também com um tipo de “queima” de livros, como, por exemplo, o que estão a fazer com o romance O Avesso da Pele de Jeferson Tenório.
Do lado que se pensa ser oposto a isso, as censuras não são menos agressivas. Defensores de determinadas pautas de grupos sociais (principalmente, os afros, os feministas e os LGBTQIAmais...) nos impõem censuras que vão do uso – ou do impedimento do uso – de determinados termos linguísticos, do constrangimento público – que é um tipo de assédio moral –,a ameaças de agressões físicas, como uma pela qual passei em um evento do ANDES-SN (Sindicado Nacional do Docentes), ocorrido há alguns anos em Curitiba. Portanto, do “meu lugar de fala social”, do qual me faço valer neste momento, não estou a falar de coisas abstratas.
Por tudo isso, que realmente não é pouca coisa, o dia 31 de março deste ano, como os subsequentes também, jamais poderia(m) passar (ou ter passado) em branco, sem um discurso contundente do atual presidente da República, que se vende politicamente de mais democrático do que o antecessor, este, explicitamente um golpista, por ora, fracassado.
As memórias dessa fatídica data deveriam nos servir de embasamento para profundas reflexões e autoavaliações necessárias. Este momento, deveria ser (ou ter sido) um momento didático, de muito aprendizado, principalmente para as novas gerações.
Em tempo: assim que dei por concluído o artigo acima, com muita satisfação, li, no Correio Brasiliense, de 29 pp., que o “PT ignora Lula, condena golpe e cobra volta da Comissão de Desaparecidos”. Era o mínimo.
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Professor de Literatura; aposentado da UFMT
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Do carnaval há pouco terminado, um dos episódios marcantes foi ver a cantora/pastora Baby do Brasil, aos berros, pregar o apocalipse em trio elétrico comandado por Ivete Sangalo, em pleno fervo do carnaval de Salvador.
De início, considerei aquilo como mais uma cena teatral deslocada, de tão bizarra e fora da normalidade, pois, disputando o microfone, Baby disse que o “arrebatamento”, ou seja, o fim do mundo, teria tudo para ocorrer entre cinco e dez anos. Cheguei mesmo a sentir uma pontinha de pena, misturada com vergonha alheia, vendo uma artista que carrega um passado tão brilhante e tão cheio de irreverências sociais expor-se numa situação tão inusitada, ainda que sua conversão a uma inscrição evangélica pentecostal tenha sido cantada em versos e muitas prosas, via inúmeras entrevistas.
Do outro lado, perplexa, Sangalo, de início, caiu na armadilha preparada por Baby, pois “Veveta” também fez sua esquisita pregação religiosa em nome do mesmo “Senhor”, e ainda enrolando a língua para pronunciar a palavra “apocalipse”. Na sequência, Ivete conseguiu sair das emaranhadas teias do discurso religioso de Baby, que pediu de forma absolutamente irônica, e, por isso, inteligente, como resposta musical, que Ivete cantasse “Minha Pequena Eva”, ou seja, uma canção que dialoga com o livro do Gênesis da Bíblia Sagrada. Detalhe: essa canção tornou-se famosa na própria voz de Ivete Sangalo, quando fez parte da Banda Eva, no início dos anos 90.
Para a sorte geral dos foliões do carnaval, ou seja, a festa consentida da “carne” –aliás, buscada na Idade Antiga para o medievo católico, que cria, simultaneamente, a quarta-feira de cinzas –, Ivete ignorou o pedido ardiloso de Baby.
Todavia, no calor daquela impertinência discursiva, o máximo que Sangalo conseguiu pensar como resposta, foi o óbvio e oportunista, ou seja, lançar mão de um hit do momento chamado “Macetando”, uma “m...” de música que mistura elementos do funk com o pagode baiano, gravada por ela mesma e por Ludmilla.
Em outras e diretas palavras, algo nada genial; ao contrário, trivial e chulo. Ah! Aqui, se algum relativista cultural se incomodar com essas minhas considerações, vou de Roberto Carlos: “Quero que tudo vá para o inferno”... e, de preferência, bem antes do tal apocalipse da Baby.
Mas qual seria a melhor resposta musical que Ivete poderia ter tido como repertório para um momento como aquele, produzido – de propósito – por Baby?
Muito simples, e até desconcertante para qualquer ser que ainda insiste, em pleno 2024,na pregação desse discurso sem lastro do arrebatamento. Bastava cantar “E o Mundo Não Se Acabou”, de Assis Valente, gravada em 1938 por Carmen Miranda:
“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar/ Até disseram que o sol ia nascer
antes da madrugada:/Por causa disso nesta noite/ lá no morro não se fez batucada// Acreditei nessa conversa mole/ Pensei que o mundo ia se acabar/ E fui tratando de me despedir/ E sem demora fui tratando de aproveitar/ Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maio/ E o tal do mundo não se acabou(...)”
Pois é. Faltou à Ivete a rapidez do raciocínio. Essa canção seria a melhor resposta. Doravante, todos os cantores de festejos precisam ter essa e outras canções guardadas na memória. Muitos poemas também valem como repertório necessário. Motivo: vendo a repercussão que teve isso tudo, tive a feliz oportunidade de encontrar a matéria “Baby do Brasil: a teologia do domínio por trás da cena rocambolesca da cantora/pastora”, publicada pela Fórum, no último dia 12. Ali, o veículo deu voz ao cientista político e sociólogo Joscimar Silva (professor da UnB), que “chama a atenção para o que está de fato em evidência na situação aparentemente amalucada ocorrida em Salvador”.
Para o professor Joscimar, “Baby não é mais a ‘Baby do Brasil’, mas a ‘Baby das Nações’, como disse seu líder apostólico Renê Terra Nova (um Malafaia menos conhecido) há alguns anos. Baby agora é parte de uma coalizão apostólica global”.
Assustador!
Nas palavras do colega da UnB, essa “coalizão apostólica global é um movimento que busca ‘restaurar’ o governo apostólico, considerando todos os outros "chamados" ministeriais (pastor, profeta, mestre, evangelista) subjugados a um/a apóstolo/a... A ‘restauração’ ou criação de rede de apóstolos trata-se de um projeto maior de domínio (...).A “Apóstola Baby das Nações, agora, trabalha no projeto de expandir a cultura gospel para os espaços não alcançados”, conforme já dito por ela mesma.
E continua o pesquisador: “Na perspectiva da Teologia do Domínio, à qual Baby e a coalizão apostólica internacional se filiam, a sociedade é constituída por ‘montes’ sob os quais o conservadorismo cristão deve governar: igreja, educação e ciência, economia e negócios, governo, cultura e entretenimento. O carnaval, sendo a maior festa popular do Brasil, não iria ficar de fora dessa. A Teologia do Domínio diz que as igrejas não devem mais fazer retiros, mas devem ficar e ocupar as cidades lutando contra os deuses carnavalescos...”
No fundo, Baby nos fez um grande favor, pois nos possibilitou conhecer o que de fato está por trás de seu discurso, apenas aparentemente amalucado, como adjetivou o cientista político.
Diante dessa perigosa e autoritária “luta apostólica”, a sociedade deve estar bem preparada em todos os campos possíveis – principalmente, nos espaços de eleições e decisões políticas – para a devida resposta a essa luta. Não há nada pior socialmente do que o retorno ao retrógrado pensamento e práticas do teocentrismo à lá Idade Média.












