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Sexta, 20 Março 2026 18:25

MATRIZ ENERGÉTICA RENOVÁVEL DE BAIXO CUSTO: UM DESAFIO TÉCNICO, ECONÔMICO E SISTÊMICO - Danilo de Souza

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind. 

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Danilo de Souza* 

  

A transição energética costuma ser apresentada como uma trajetória linear rumo a um futuro inevitavelmente mais limpo e, supostamente, mais barato. No entanto, quando deslocamos o debate do plano ambiental para o plano econômico, surge uma pergunta incômoda: existem hoje exemplos consolidados de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam, ao mesmo tempo, estruturalmente baratas? Se formos rigorosos, a resposta é desconfortável. Não há, entre as grandes economias do G20, um modelo inequívoco que combine alta penetração de fontes de baixo carbono com tarifas sistematicamente baixas ao consumidor final.

O gráfico que relaciona a participação de eólica e solar nos países do G20 com o preço médio da eletricidade em 2023 demonstra uma relação que não pode ser ignorada: países com maior participação dessas fontes variáveis atualmente apresentam preços mais elevados. Alemanha, Espanha e Holanda aparecem com alta penetração de eólica e solar e, simultaneamente, tarifas significativamente superiores à média. A correlação não prova causalidade, mas levanta uma hipótese estrutural: à medida que cresce a participação de fontes intermitentes, cresce também a complexidade, e o custo, do sistema elétrico.

 

 

É fundamental compreender que o custo de uma matriz de baixo carbono não se resume ao custo de geração por megawatt-hora. Eólica e solar, isoladamente, podem apresentar custos competitivos em leilões. Contudo, quando sua participação no sistema se amplia, surgem exigências adicionais: reforço de redes, expansão de transmissão, sistemas avançados de controle, serviços ancilares, reserva de capacidade, armazenamento e usinas de respaldo. Não se trata apenas do painel ou do aerogerador, mas de toda a infraestrutura que permite que essas fontes operem com segurança e estabilidade.

Há também um fator material e industrial relevante. A expansão maciça de renováveis variáveis exige grande volume de aço, cobre, silício, terras raras, semicondutores de potência e, principalmente, baterias quando se busca maior firmeza energética. A densidade energética dessas fontes é menor do que a dos combustíveis fósseis, o que implica maior ocupação territorial e maior quantidade de equipamentos por unidade de energia efetivamente firme. O investimento por megawatt confiável tende a aumentar quando se internaliza a necessidade de armazenamento.

Essa realidade ajuda a explicar por que ainda não temos exemplos claros de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam estruturalmente baratas sem subsídios relevantes ou mecanismos regulatórios de compensação. Em muitos países europeus, parte do custo da transição foi absorvida por tarifas mais elevadas ou por políticas públicas de incentivo financiadas pela sociedade.

O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição peculiar nesse debate. Diferentemente da maioria dos países do G20, cuja base elétrica é fortemente térmica, a matriz brasileira é predominantemente hidrelétrica. Historicamente, a presença de grandes reservatórios conferiu ao sistema elétrico brasileiro uma vantagem estrutural: a capacidade de armazenamento natural. A água acumulada funciona como mecanismo de modulação, permitindo compensar a variabilidade da geração eólica e solar.

Essa característica reduz, em tese, a necessidade imediata de grandes bancos de baterias ou de expansão térmica para equilíbrio sistêmico. A complementariedade entre hidrelétricas, eólica e solar coloca o Brasil em posição diferenciada na construção de uma matriz de baixo carbono.

No entanto, essa vantagem não se traduziu automaticamente em tarifas baixas. Quando observamos o G20, o custo médio da eletricidade no Brasil é significativamente elevado, mesmo sendo um dos países com maior participação de fontes renováveis e com forte base hidráulica. Esse dado desafia simplificações.

Por que isso ocorre? Parte da resposta está fora da geração propriamente dita. Além dos excedentes e das acumulações, a tarifa brasileira incorpora encargos setoriais, subsídios cruzados, políticas públicas embutidas, custos de transmissão em um país de dimensões continentais e ineficiências estruturais acumuladas ao longo do tempo. Ou seja, a matriz pode ser de baixo carbono, mas o sistema como um todo carrega complexidades institucionais e econômicas que pressionam o preço final.

Além disso, a expansão recente de eólica e solar no Brasil também exige investimentos crescentes em transmissão e controle sistêmico, especialmente para escoar energia do Nordeste para os principais centros de carga. A interligação regional é um ativo estratégico, mas não é gratuita.

Outro ponto frequentemente negligenciado é que a expansão hidrelétrica encontra limites ambientais, sociais e hidrológicos. Eventos climáticos extremos e períodos prolongados de seca reduzem a confiabilidade plena dos reservatórios. Isso obriga o acionamento térmico ou a importação de energia, elevando custos.

Portanto, mesmo no caso brasileiro, que possui uma das matrizes mais renováveis do mundo, não há evidência automática de que baixo carbono signifique baixo custo. Pelo contrário, o custo da energia se dá além das questões técnicas, pelo grau de organização dos consumidores. De maneira que, uma matriz de baixo carbono estruturalmente barata não é um ponto de partida, é um projeto.

O desafio central é sistêmico. À medida que cresce a participação de fontes variáveis, aumenta a necessidade de redundância e sofisticação operacional. O custo não está só na geração, mas na arquitetura do sistema. Confundir custo marginal momentâneo com custo estrutural médio é um erro recorrente no debate público.

Isso não significa que uma matriz de baixo carbono e baixo custo seja impossível. Significa que ela não surge espontaneamente. Ela exige planejamento energético rigoroso, estabilidade regulatória, modernização tecnológica, coordenação entre expansão de geração e infraestrutura de rede e revisão constante de incentivos econômicos.

Um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre a expansão das fontes renováveis variáveis diz respeito ao papel crescente das redes elétricas na coordenação do sistema. Historicamente, os sistemas elétricos foram estruturados em torno de grandes geradores despacháveis que ajustavam continuamente a oferta de energia às oscilações da demanda. Nesse arranjo, a rede desempenhava sobretudo uma função passiva de transporte de eletricidade. Com o avanço da geração eólica e solar, do armazenamento e de tecnologias de gestão da demanda, essa lógica começa a se transformar. A rede passa a assumir uma função ativa de coordenação entre múltiplos recursos energéticos, garantindo o acoplamento entre produção e consumo em tempo real e permitindo que diferentes fontes, muitas delas intermitentes e dispersas, operem de forma integrada no sistema elétrico.

Essa mudança implica uma revisão conceitual importante. Em vez de ser compreendida apenas como infraestrutura de transporte de eletricidade, a rede passa a atuar como provedora de flexibilidade energética. Em outras palavras, ela viabiliza o direito de dispor de potência quando e onde ela é necessária, articulando geração centralizada, geração distribuída, armazenamento e controle de carga. Nesse contexto, o valor econômico do sistema elétrico não depende apenas do custo marginal de geração, mas também da capacidade institucional, tecnológica e regulatória de coordenar um conjunto cada vez mais diversificado de ativos energéticos.

A transição energética global é desejável do ponto de vista ambiental e estratégico, mas representa uma transformação estrutural profunda, que envolve investimentos elevados, uma crescente complexidade sistêmica. Nesse contexto, a expansão de fontes intermitentes não se limita à substituição de tecnologias de geração, mas também exige maior sofisticação na organização do setor elétrico e na gestão das redes. O Brasil possui vantagens comparativas relevantes, como uma base hidrelétrica flexível, elevado potencial eólico e solar e um sistema interligado nacional, mas converter essas condições em uma matriz simultaneamente de baixo carbono e estruturalmente barata dependerá menos de discursos e mais de engenharia, governança e planejamento energético de longo prazo. Até o momento, alcançar uma matriz que combine descarbonização profunda com baixo custo permanece um desafio aberto no mundo.

 

OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".

 

*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.

 

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