Em ano eleitoral, extrema direita amplia ataques às universidades públicas
As universidades públicas brasileiras estão no centro de uma ofensiva que combina violência política, intimidação, campanhas de desinformação e ataques à legitimidade da ciência e do pensamento crítico. Em ano eleitoral, os episódios registrados em diversas instituições mostram que a disputa não se limita às redes sociais. Grupos e políticos de extrema direita têm ocupado espaços universitários, provocado confrontos e transformado os episódios em conteúdo de repercussão política. A ofensiva também alcança a autonomia, o financiamento e a definição das pesquisas realizadas nas instituições públicas.
Acervo UFU. Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN
Na avaliação de Roberto Leher, professor e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trata-se de uma estratégia da chamada guerra cultural. “As ações performáticas da extrema direita não têm qualquer relação com o debate de ideias”, afirma. Para ele, os ataques têm como foco a legitimidade das universidades, justamente em um momento de transformação do perfil socioeconômico e racial de suas comunidades e de ampliação de pesquisas sobre temas como imperialismo, racismo, plataformização do trabalho, sexualidade, clima e vacinas.
Segundo o professor, a ofensiva combina a atuação da extrema direita com a austeridade neoliberal, em um processo de desqualificação das instituições públicas e de pressão para que elas se submetam a interesses externos. “As pesquisas de opinião que hoje registram desconfiança em relação às universidades não medem a realidade das salas de aula: medem o êxito dessa campanha. Umberto Eco advertiu que a recusa da racionalidade e do pensamento crítico é a essência do fascismo, que usa o debate apenas como tática”, disse.
Para Leher, a intolerância não vem da esquerda, mas sim das think tanks, que são aparelhos ideológicos privados (Atlas Network, FIRE, Heterodox Academy, Instituto Manhattan), que buscam a hegemonia neoliberal e a desestruturação do Estado de bem-estar social por meio de seus aparelhos locais (Instituto Sivis, MBL, Brasil Paralelo, editoriais dos grandes grupos de imprensa), que, conforme ele, “forjam uma imagem negativa para, a seguir, tentar silenciá-la por meio da neutralidade institucional, em detrimento de sua autonomia”.
Ataques
Nas últimas décadas, a educação se tornou um dos principais alvos da extrema direita, que passou a associar escolas e universidades a ideias como “esquerdismo”, “ideologização” e “antipatriotismo”. Com raízes em movimentos como o ‘Escola sem Partido’, essa ofensiva ganhou força a partir de 2013 e se intensificou durante o ciclo bolsonarista, atingindo especialmente as ciências humanas e a liberdade de cátedra. Desde então, docentes e instituições públicas de ensino passaram a ser apresentados como inimigos políticos, enquanto as redes sociais ampliaram a circulação de acusações contra a educação e a ciência.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) analisaram invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e identificaram uma dinâmica de “performances políticas e simbólicas”, nas quais ações presenciais são registradas e posteriormente convertidas em conteúdo para as redes. De acordo com o artigo publicado este ano, o conflito ultrapassa o espaço físico do campus e passa a alimentar narrativas que apresentam a universidade como território de uma suposta disputa ideológica.
Ciência, pesquisa e autonomia
A ofensiva, porém, não se limita à imagem das instituições. Ela envolve também a disputa sobre financiamento, autonomia e finalidade da produção científica. “As universidades públicas brasileiras são responsáveis por mais de 90% do conhecimento produzido e registrado no campo da ciência e da tecnologia”, segundo o docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Rodrigo Pereira. Para ele, essa capacidade está diretamente relacionada à autonomia da comunidade universitária para definir objetos de pesquisa e produzir conhecimento socialmente referenciado. “O volume desse conhecimento advém exatamente da autonomia que os professores e a comunidade universitária têm de produzir conhecimentos que interessem à sociedade”, afirma.
Segundo Pereira, propostas que alteram a autonomia, a gestão e o financiamento das universidades podem significar uma tentativa de tutelar o conhecimento produzido em seu interior. O contingenciamento de recursos públicos acrescenta uma dimensão material ao problema. Em junho, o ANDES-SN denunciou o bloqueio de cerca de R$ 300 milhões do orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), de um total de R$ 23,6 bilhões do Orçamento da União. Também foram bloqueados R$ 1,6 bilhão do Ministério da Educação e R$ 490,1 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Apesar do descontingenciamento de R$ 5,7 bilhões no fim do mês, cerca de R$ 17,9 bilhões permanecem bloqueados no Orçamento Federal de 2026.
É nesse terreno que aparecem propostas de alteração do papel das universidades, como a do candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), que prevê retirar as universidades federais da estrutura do MEC e transferi-las para o MCTI. O documento também defende que as agências de fomento priorizem pesquisas com impacto produtivo e maior aproximação com as demandas das empresas.
“A tarefa-mãe das universidades é a produção e a socialização desse conhecimento. E isso se faz com financiamento robusto, que advém da vinculação constitucional de, no mínimo, 18% do que é arrecadado da cesta de impostos no Brasil para a educação pública. Nesse sentido, é fundamental a luta em defesa não só da manutenção do financiamento das universidades vinculadas ao MEC, como também a luta pela ampliação dos investimentos em educação, como diz o PNE, de, no mínimo, 10% do PIB para a educação”, ressaltou Rodrigo.
O docente também chamou atenção para mecanismos que já influenciam a definição das agendas de pesquisa. Segundo ele, projetos submetidos ao CNPq e à Capes precisam, em determinadas chamadas, estabelecer relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que contém 17 metas da ONU.
Na avaliação de Pereira, esse tipo de direcionamento, assim como a vinculação crescente das pesquisas aos interesses da iniciativa privada, pode reduzir o espaço para a pesquisa básica e para áreas como as ciências humanas. “O direcionamento das pesquisas representa uma ameaça, não só para a pesquisa básica, para a educação, para as ciências humanas, como para a própria concepção da função social da educação pública no nosso país”, afirma.
Leia aqui a matéria completa do InformANDES-SN de Setembro/2026
Fonte: Andes-SN
JUACY DA SILVA*
O “episódio” da agressão verbal, verdadeiro machismo e misoginia contra a ministra Marina Silva, há poucos dias, quando de seu comparecimento à Comissão de Infraestrutura do Senado Federal, transmitido ao vivo por diversas emissoras de TV e outros meios de comunicação de massa, foi uma demonstração de que a direita e extrema direita estão mais unidas do que nunca, com um propósito claro e transparente: emparedar o governo Lula e enfraquecer o PT e demais partidos de esquerda, visando às eleições gerais de 2026.
De pouco ou quase nada tem surtido efeito o fato da engenharia política de Lula, oferecendo ministérios e inúmeros cargos e favores para partidos de centro, centro-direita, direita e também parte da extrema direita, como é o caso do Republicanos.
Em diversas votações importantes, tanto na Câmara Federal quanto no Senado, como no caso do Marco Temporal, do teto de gastos, do Orçamento Anual do Governo Federal, nas propostas ainda em tramitação no Congresso, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000,00 (cinco mil reais), o caso do PIX e agora o decreto do IOF, além da pressão por uma CPI na Câmara ou uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) no Congresso Nacional sobre a roubalheira dos consignados do INSS, inúmeros parlamentares de partidos que têm ministros e supostamente fazem parte da base do governo Lula, como integrantes do MDB, PSD, PP, Republicanos, União Brasil, votaram e votam contra os interesses do governo, numa clara demonstração de que estão jogando pesado, como se diz, “jogo bruto” contra o governo.
No momento, este emparedamento, capitaneado pelo presidente da Câmara e, em menor grau, pelo presidente do Senado, ambos de partidos que integram o governo Lula, respectivamente, Republicanos e União Brasil, faz um verdadeiro cabo de guerra sobre a questão do aumento do IOF, forçando o governo Lula a voltar atrás e encontrar novas alternativas, provocando mais um desgaste do mesmo perante a opinião pública.
De forma explícita, diversos líderes do União Brasil já afirmaram claramente que não estarão com Lula em 2026, e o mesmo é de se esperar em relação ao PP, ao PSD e a boa parte do MDB.
As estratégias tanto da extrema direita quanto da direita (eufemisticamente denominada de centro-direita, que de centro tem pouco), na hora “h”, acabam pendendo para a direita e extrema direita, são claras.
Existe uma tentativa, principalmente da extrema direita nacional, de promover um descrédito de algumas instituições nacionais, principalmente o Poder Judiciário, mais especificamente o STF, e o sistema eleitoral — no caso, as urnas eletrônicas — tanto dentro do país quanto no contexto internacional. Isso pode afetar o país como um todo, desacreditando, inclusive, diversas autoridades em suas atribuições constitucionais e legais.
A estratégia política, partidária e eleitoral também está a cada dia mais clara, aparentando um certo “racha” onde os incautos imaginam que seria uma “briga” entre a extrema direita, capitaneada por Bolsonaro e seus seguidores, independentemente de o mesmo ser julgado, condenado e preso, colocando “uma pá de cal” em sua pretensão de retornar aos Palácios da Alvorada (e seu cercadinho) e ao Planalto, facilitando o surgimento de alguém que represente seus seguidores, que poderá ser o governador de SP ou até mesmo um de seus filhos ou, talvez, sua esposa.
Para iludir os eleitores, alguns outros governadores, como o de Goiás, ou o do Rio Grande do Sul, do Paraná, Minas Gerais ou outro estado qualquer, deverão se fantasiar de “direita”, mas sem cutucar muito o bolsonarismo, e juntas, essas duas forças — extrema direita e “centro-direita” ou direita propriamente dita — vão abiscoitar boa parte dos votos, talvez uns 35% ou pouco mais.
Aí vem a esquerda, com os partidos tradicionais e alguns “centristas” e “direitistas” fiéis a Lula, por terem sido contemplados com cargos ministeriais ou de segundo escalão, e ainda o risco de o PDT embarcar no “canto da sereia” de Ciro Gomes, que há tempos tem se bandeado para o lado bolsonarista, podendo retirar um “naco” do eleitorado da esquerda que anda meio triste com Lula.
Mesmo assim, Lula continua com seus “encantos” e pode também abocanhar entre 40% a 45% do eleitorado, e seguir para a disputa no segundo turno. Aí é que a coisa se complica, como dizem, “a porca torce o rabo”.
Dependendo de quem possa chegar ao segundo turno, vindo da direita ou da extrema direita, pode facilitar ou dificultar a vida da esquerda. Mesmo assim, há quem aposte que, novamente, Lula sairia vencedor com uma pequena margem, como aconteceu na última eleição.
A outra linha da estratégia da direita e da extrema direita é ampliar sua representatividade tanto na Câmara Federal, onde já domina amplamente, mas, fundamentalmente, no Senado da República, e aí, dominar totalmente o Congresso.
Se isso acontecer e Lula for reeleito, pior do que na atual gestão, estará “enleado” de forma complicadíssima junto ao Congresso Nacional e enfrentará uma oposição mais aguerrida e virulenta do que nesta legislatura, podendo correr o mesmo risco que abateu Dilma, de um “impeachment” por qualquer motivo que possa se imaginar. Portanto, a escolha do vice na chapa de Lula será importante para evitar o que aconteceu com Dilma.
Outra estratégia também bem clara da direita e extrema direita, aliadas ou “adversárias” na quase totalidade dos estados, mas tendo entre ambas um denominador comum, ou seja, terão sempre como adversário ou quase inimigo o PT e as esquerdas, serão as eleições majoritárias (duas vagas de senador, uma vaga de governador) e centenas de vagas nas Assembleias Legislativas.
Da mesma forma que nas eleições municipais, em que o avanço da direita e da extrema direita quase “varreu” o PT e demais partidos de esquerda em milhares de municípios e estados, como no Rio Grande do Sul, SP, MT etc., também este é o grande objetivo das forças conservadoras.
Assim, a direita e extrema direita poderão “rasgar” a Constituição Federal e as Constituições Estaduais e promover um verdadeiro retrocesso constitucional e legal, tanto em nível nacional quanto em nível estadual, impondo suas pautas conservadoras e que irão desmontar as estruturas e as diversas instituições públicas e alterar profundamente as políticas públicas, principalmente as que “favorecem” os pobres, excluídos, as diversas minorias, as leis ambientais, as leis trabalhistas, a previdência social, os organismos de controle, a militarização da política, das escolas — enfim, algo como já está acontecendo em vários países em que a direita e extrema direita, isoladas ou em alianças políticas e estratégicas, têm apontado nesta direção.
A grande meta das forças conservadoras é o “Estado mínimo” para os pobres e classe média baixa, que se tornaram mais pobres e miseráveis, e o “Estado máximo” para os ricos e os privilegiados.
Março do ano que vem será o momento de conferirmos este cenário e podermos novamente avaliar, com dados da realidade, qual o futuro que nos espera nas urnas em outubro e novembro de 2026. Quem viver, verá!
Aí surge a grande indagação: diante de um quadro/cenário como este, bem claro, qual ou quais as estratégias do PT e das esquerdas? Só existem dois caminhos que se entrelaçam: voltar às bases, voltar a conquistar a confiança dos movimentos populares, ganhar as ruas e avenidas neste país, mobilizar-se nas redes sociais; fortalecer tanto a frente de esquerda quanto uma frente mais ampla que a “esquerda tradicional”, ampliando o chamado “arco de alianças”; tentar “segurar alguns pedaços dos partidos de centro e de direita” contemplados com cargos e outros favores do atual governo (Lula) e, aí sim, o mais importante: construir um Projeto Nacional de Desenvolvimento que fortaleça a soberania nacional, o desenvolvimento científico e tecnológico, sustentável, solidário, justo, que empolgue tanto empresários, a classe média, as grandes massas, os pobres, oprimidos e injustiçados que ainda existem neste país e têm sido “encantados” pelas propostas da direita e extrema direita, como bem tem enfatizado Jessé de Souza quando fala dos “pobres de direita”, principalmente evangélicos e boa parte dos católicos.
Hoje, as igrejas e religiões são mais fortes, política e eleitoralmente, do que as mais de duas ou três dezenas de partidos — e é aí que mora o perigo para qualquer democracia!
Enquanto isso, no STF, tem início mais uma etapa que poderá condenar definitivamente e conduzir à prisão tanto Bolsonaro quanto vários outros réus, como aconteceu com a deputada Carla Zambelli, bolsonarista raiz e agora fugitiva e procurada pela Interpol.
Muita coisa ainda vai acontecer até outubro de 2026, ante as quais precisamos estar alertas!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ; Instagram @profjuacy











