*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).
Docentes argentinos paralisam novamente as atividades contra as políticas de Milei
Nessa segunda-feira (3), sindicatos de docentes da educação superior e básica da Argentina realizaram uma paralisação nacional de 24 horas, acompanhada de mobilizações em todo o país. O protesto aconteceu no reinício das aulas, após o recesso de inverno, e denunciou o desfinanciamento da educação pública, o descumprimento da Lei de Financiamento Universitário e a política de arrocho salarial imposta pelo governo de Javier Milei.
A paralisação contou com a adesão da Confederação de Trabalhadores da Educação (CTERA), da Federação Nacional de Docentes Universitários (Conadu) e da Conadu Histórica, além de diversas outras organizações sindicais. As professoras e os professores exigem a recomposição dos salários — fortemente corroídos pela inflação — e a restituição do Fundo Nacional de Incentivo Docente (Fonid), um aporte estatal que compunha parte essencial dos vencimentos e foi eliminado pela atual gestão federal.
Para o movimento docente, a situação é agravada pelo que classificam como "lawfare educativo": uma ofensiva sistemática que utiliza ameaças legais e administrativas para punir sindicatos e desestimular a participação em greves legítimas. O governo federal tem tentado impor a "essencialidade" do serviço educativo para limitar o direito de greve, prevendo inclusive multas milionárias e a perda da personalidade jurídica para as entidades que não garantirem uma prestação mínima de 75% das atividades durante os protestos.
As entidades sindicais reforçaram, durante a manifestação, que "não há educação pública de qualidade sem liberdade sindical". O clima de hostilidade aos sindicatos levou a Argentina a figurar, pela primeira vez, entre os dez piores países do mundo para os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, segundo o Índice Global de Direitos da Confederação Sindical Internacional (CSI).
"Com uma contundente Greve Nacional, docentes de todo o país marchamos rumo ao Ministério da Economia para exigir o cumprimento da Lei de Financiamento Universitário, salários dignos e condições de trabalho condizentes com a importância da universidade pública", destacou a Conadu Histórica, em rede social.
Segundo a entidade, o governo descumpre a lei, aprofunda o ajuste e tenta avançar contra o direito de greve, uma conquista histórica das trabalhadoras e dos trabalhadores. Frente ao ajuste e à perseguição, a categoria docente responde com unidade, organização e luta.
"O governo mente e não cumpre decisões da Suprema Corte de Justiça em relação à Lei de Financiamento Universitário (...) Este governo vai descumprir expressamente todos os processos democráticos previstos em nossa Constituição”, afirmou Oscar Vallejos, secretário-adjunto da Conadu Histórica.
Crise diplomática com o Brasil
A tensão política na Argentina transborda as fronteiras e atinge as relações com o principal parceiro comercial da região. Recentemente, o governo brasileiro retirou o seu embaixador em Buenos Aires e rebaixou o nível da relação diplomática com o país vizinho. A medida foi uma resposta direta às ofensas proferidas por Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aprofundando o isolamento regional da administração argentina.
Violência de gênero e desproteção social
Além dos cortes na educação e ataques aos demais direitos sociais, o país enfrenta uma crise social alarmante. Organizações de direitos humanos denunciam um cenário de desproteção que estimula o aumento da violência contra a mulher.
Em 2026, a Argentina já registra 150 casos de feminicídio, com crimes ocorrendo a cada 35 horas. O aumento nas estatísticas é atribuído pelas entidades ao esvaziamento de programas públicos, ao corte de recursos para prevenção e ao discurso oficial que nega a existência da violência de gênero.
Fonte: Andes-SN (com informações da TeleSur e Agência Brasil)
ANDES-SN participa da instalação de GT do MEC sobre democratização das IFE
O ANDES-SN participou, na manhã da última sexta-feira (31), da reunião de instalação do Grupo de Trabalho (GT) para aprimoramento dos mecanismos de participação e gestão democrática nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFE). A atividade ocorreu presencialmente, na sede do Ministério da Educação (MEC), em Brasília (DF), no âmbito da Mesa Setorial de Negociação Permanente e contou com a participação de outras entidades ligadas à Educação.
Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
Instituído pela Portaria 549, de 15 de junho de 2026, o GT tem como objetivo elaborar subsídios e propostas para fortalecer os mecanismos de participação e gestão democrática nas IFE. A Portaria 614, de 14 de julho deste ano, formalizou a composição dos membros titulares e suplentes do grupo.
O ANDES-SN foi representado pela secretária-geral do Sindicato Nacional, Fernanda Maria Vieira, e pela 1ª vice-presidenta da Regional Planalto, Lívia Santos.
A reunião se iniciou com a apresentação oficial das e dos integrantes do GT, da metodologia de trabalho e do cronograma de atividades, que será desenvolvido ao longo de 90 dias. A previsão é de que o relatório final seja entregue em 20 de outubro e sirva de base para a construção de novos marcos regulatórios voltados à democratização das instituições federais de ensino superior.
Segundo Fernanda Maria Vieira, o encontro teve caráter organizativo e definiu as próximas etapas dos trabalhos. "A reunião do GT Democratização foi muito objetiva e operativa. Ela debateu a metodologia das reuniões e o seu calendário. Por isso, inclusive, foi uma reunião célere, por conta do papel que ela estava desempenhando", informou.
A secretária-geral do ANDES-SN destacou que as duas primeiras reuniões, previstas para os dias 13 e 27 de agosto, ocorrerão de forma virtual e serão dedicadas à apresentação, pelas entidades participantes, de diagnósticos sobre a situação da gestão democrática nas instituições e sobre a forma como vêm sendo realizados os processos eleitorais.
Na sequência, serão realizadas três reuniões presenciais, em setembro e outubro, destinadas ao debate de propostas e à elaboração de novos marcos regulatórios voltados ao fortalecimento da gestão democrática nas instituições federais de ensino.
Para a diretora do ANDES-SN, é fundamental que o cronograma seja cumprido, uma vez que diversas universidades já iniciaram a organização de seus processos eleitorais ainda sob as regras estabelecidas pela Lei 9.192/1995, que mantém a composição desigual dos colegiados responsáveis pela escolha de dirigentes, ao estabelecer o mínimo de 70% de representantes do corpo docente.
“O ANDES-SN defende que esse calendário seja cumprido, principalmente porque uma série de universidades já está organizando as suas eleições ainda sob a égide da Lei 9.192, de 1995. A divulgação deste relatório poderá subsidiar essas universidades a já ingressarem em novas regras, garantindo uma maior democratização das nossas instituições", ressaltou.
Fernanda também avaliou como positiva a iniciativa do MEC em constituir o GT e reconhecer sua importância na formulação de uma nova regulamentação para o tema. A docente acrescentou que a construção coletiva das propostas poderá contribuir para superar aspectos autoritários ainda presentes na legislação vigente.
"O governo compreendeu que essa produção dialógica, a partir do GT, de discussão sobre o que é uma real e concreta democracia, vai nos permitir superar muitas das permanências autoritárias presentes na Lei 9.192/95. Embora ela tenha representado um avanço em relação ao marco normativo da ditadura empresarial-militar, manteve uma leitura autoritária ao reduzir a importância da participação de estudantes e de técnico-administrativos na vida política das nossas universidades", afirmou.
Próximas reuniões
O cronograma aprovado pelo GT prevê encontros quinzenais até a conclusão dos trabalhos:
13 de agosto – reunião virtual: apresentação dos diagnósticos das entidades;
27 de agosto – reunião virtual: continuidade dos diagnósticos;
10 de setembro – reunião presencial no MEC: debate das propostas;
24 de setembro – reunião presencial no MEC: debate;
8 de outubro – reunião presencial no MEC: debate;
20 de outubro – reunião presencial no MEC: apresentação e entrega do relatório final.
Fonte: Andes-SN
PRODUTIVISMO, AVALIAÇÃO DA PESQUISA E A REALIDADE DAS DIFERENTES ÁREAS DO CONHECIMENTO - Danilo de Souza
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Por Danilo de Souza*
Li com atenção o texto "Pesquisa Científica versus Esteira de Produção: vassalagem acadêmica ao gerencialismo empresarial?", publicado no Espaço Aberto da ADUFMAT. Antes de qualquer consideração, considero importante registrar que o Espaço Aberto desempenha um papel relevante na universidade ao possibilitar a manifestação de diferentes posições sobre os mais variados temas da vida acadêmica. Embora a intensa rotina universitária muitas vezes não permita acompanhar todos os textos ali publicados, este chamou minha atenção tanto pelo tema quanto, por sua autoria.
A autora do texto supracitado é uma pesquisadora cuja trajetória acompanho há muitos anos. Frequentemente leio seus textos e relatos de participação em eventos e tenho por ela profundo respeito e admiração profissional. Justamente por isso, escrevo estas reflexões com o máximo respeito, entendendo que a universidade se fortalece no debate das ideias, com rigor técnico e fundamentação crítica, como caminho para a superação das contradições e para a construção de um conhecimento emancipador.
De um lado, compartilho algumas das preocupações apresentadas no texto. O adoecimento docente constitui uma expressão concreta da alienação e da exploração do trabalho intelectual, evidenciando as contradições inerentes à realidade da educação. A crescente burocratização da atividade acadêmica expressa a submissão do trabalho intelectual às exigências da racionalidade instrumental e da lógica de produtividade impostas neste momento. Os sistemas nacionais de avaliação da pesquisa influenciam o comportamento institucional das universidades. Por isso, faz-se necessária uma discussão contínua e fundamentada sobre seus efeitos, desvelando as contradições da forma avaliativa vigente e de sua função social.
De outro lado, discordo das ideias apresentadas nas conclusões quando essas críticas são direcionadas ao Edital nº 03/2026 da PROPESQ e, principalmente, quando determinadas comparações quantitativas são utilizadas para demonstrar uma suposta ausência de razoabilidade nos critérios de avaliação.
Tal divergência se deve ao fato de ter acompanhado os editais da PROPESQ nos últimos anos e, inclusive, ter participado do processo como orientador candidato. Conheço a forma como são conduzidas as avaliações, os critérios adotados, a participação de pareceristas convidados e a transparência do processo. Como qualquer edital público, certamente pode e deve ser aperfeiçoado. Nenhum sistema de avaliação é perfeito. Contudo, daí concluir que se trata de um processo desprovido de razoabilidade ou comprometido com uma lógica puramente produtivista parece-me uma inferência que não encontra sustentação na realidade material.
Um dos exemplos apresentados no texto merece atenção especial. A autora questiona, por que, em determinadas áreas do conhecimento, uma patente licenciada recebe pontuação significativamente superior à da organização de eventos científicos, à da produção de material didático ou à de outras atividades acadêmicas. A comparação, à primeira vista, pode parecer intuitivamente convincente. Entretanto, é desconsiderado um aspecto fundamental: o trabalho de obtenção de cada um desses resultados, que não pode ser compreendido de forma abstrata, mas deve ser analisado à luz das condições materiais e históricas que estruturam a produção do conhecimento em cada campo.
Quem atua nas áreas das ciências exatas e das engenharias sabe que uma patente licenciada é um dos resultados mais raros e complexos da formalização do conhecimento produzido. Entre o desenvolvimento da pesquisa, o depósito do pedido de patente, a análise e concessão da proteção intelectual e, finalmente, sua efetiva licença para exploração econômica, transcorrem muitos anos de trabalho. Apenas entre o início da pesquisa e a concessão da patente, são comuns prazos médios de sete a doze anos, podendo esse período ser significativamente maior em função da complexidade tecnológica, das etapas de exame e do processo de transferência da tecnologia para a aplicação.
Sou professor da área das engenharias. Toda a minha formação foi construída nesse campo do conhecimento: curso técnico, graduação, especializações, mestrado e doutorado. Apesar disso, não possuo nenhuma patente licenciada e, sendo absolutamente realista, muito provavelmente eu, assim como a maioria absoluta dos meus colegas, dificilmente terei uma patente licenciada ao longo de toda a minha carreira como pesquisador.
A própria Universidade Federal de Mato Grosso possui um Escritório de Inovação Tecnológica que realiza um trabalho altamente qualificado no apoio à propriedade intelectual e à transferência de tecnologia. Ainda assim, ao longo de sua história, o número de patentes efetivamente licenciadas permanece reduzido. Não por deficiência institucional, mas porque conduzir uma pesquisa que avance rumo a uma patente não é um processo rápido nem trivial.
Comparar diretamente essas duas atividades apenas pelo valor numérico atribuído no edital equivale a desconsiderar completamente a probabilidade real de ocorrência de cada uma e o tempo dedicado pelo trabalhador a essa tarefa.
Eu próprio ilustro bem essa situação. Sendo pesquisador na área e tendo toda a minha produção científica nas engenharias, não obtenho pontuação no Bloco 1 do referido Edital - específico de Engenharias. Isso não decorre da ausência de produção científica, pois estamos obtendo bolsas de IC para os orientandos, mas sim do fato de que os itens previstos nesse bloco correspondem a resultados extremamente específicos e de difícil obtenção.
Por outro lado, se eu fosse avaliado pelos critérios do Bloco 1 das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, alcançaria aproximadamente 48 pontos somente no primeiro dos quatro itens do bloco – “Organização de eventos técnico-científicos”, no período considerado pelo edital. Desta forma, seria muito vantajoso para um pesquisador das engenharias ser avaliado pelo Bloco 1 das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.
Nesse contexto, também merece reflexão a observação feita no texto acerca dos pesquisadores bolsistas de produtividade do CNPq, que podem orientar um número maior de estudantes bolsistas de IC. Esse aspecto, entretanto, decorre de um processo prévio de avaliação realizado pela própria comunidade científica de cada área. Tome-se, por exemplo, uma pesquisadora cuja atuação se desenvolva na Grande Área de Ciências Humanas, na Área de Ciência Política, com pesquisas voltadas a temas como Estado, governo, democracia e partidos políticos. Caso essa pesquisadora solicite uma Bolsa de Produtividade do CNPq, sua produção científica não será submetida à avaliação por pesquisadores de engenharia, medicina ou física, mas sim por especialistas da própria comunidade científica em Ciência Política, atuantes exatamente na subárea de sua pesquisa. São, portanto, seus pares, investigadores que dominam os métodos, os tempos de maturação das investigações, as formas específicas de produção do conhecimento, a regionalidade da preponente e os critérios de excelência próprios desse campo, que, ademais, levam em conta as adversidades materiais e institucionais que marcam a produção científica no território brasileiro. O mesmo ocorre com os programas de pós-graduação, cuja avaliação também é conduzida por comissões compostas por especialistas das respectivas áreas. Evidentemente, nenhum sistema de avaliação é isento de limitações ou críticas, e seu aperfeiçoamento deve ser contínuo.
Façamos um exercício de raciocínio levado ao extremo: poderíamos criar uma rubrica denominada "Prêmio Nobel" e atribuir-lhe 10.000 pontos, nos blocos das áreas em que exista a referida premiação. A existência desse item tornaria o edital injusto em relação às eventuais áreas nas quais o prêmio não está previsto pela Academia Sueca? Evidentemente não. O fato de um resultado excepcional apresentar pontuação elevada não significa que, na prática, esse resultado determine a classificação dos candidatos como um todo. A pontuação precisa ser interpretada à luz da probabilidade material de se obter aquele resultado e do tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção.
Aliás, esse exemplo leva a uma conclusão distinta daquela apresentada no texto. Se há algum aspecto do edital que mereça aperfeiçoamento, ele me parece caminhar justamente no sentido oposto. Atividades relevantes para a vida universitária, como a organização de eventos técnico-científicos, poderiam ser reconhecidas em todas as áreas do conhecimento, e não apenas em algumas. Essa me parece uma discussão consistente, que pode contribuir para o aperfeiçoamento futuro dos editais, mas certamente posso apresentá-la como sugestão ou mesmo durante o prazo de impugnação do edital.
Também é importante destacar que a política institucional de iniciação científica da UFMT está longe de se limitar a um processo de classificação baseado exclusivamente na pontuação do currículo dos orientadores. Além do edital geral (PIBIC), a Universidade mantém editais e modalidades específicas voltados à promoção da inclusão. Os editais de IC preveem reserva de vagas para jovens pesquisadores e para estudantes mães de crianças na primeira infância. Paralelamente, existe a modalidade PIBIC-Af, destinada exclusivamente a estudantes ingressantes por ações afirmativas, contemplando, entre outros grupos, estudantes indígenas (PROIND), quilombolas (PROINQ), pretos, pardos e indígenas, estudantes quilombolas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, estudantes com deficiência pertencentes a esses grupos, bem como candidatos contemplados tanto por critérios de renda quanto por modalidades de ingresso independentes da renda. Soma-se a isso o recente Edital Temático "Mulheres na Iniciação Científica", criado para ampliar a participação feminina na orientação de bolsistas, com medidas específicas para a redução das assimetrias de gênero, a reserva de vagas para orientadoras negras (pretas e pardas), procedimentos de heteroidentificação e mecanismos próprios de implementação das políticas de equidade.
Também considero importante dirigir algumas palavras aos colegas pesquisadores da UFMT que, diariamente, conciliam ensino, pesquisa, extensão, orientação de estudantes, atividades administrativas e responsabilidades familiares.
Não se deixem desmotivar por generalizações que, ainda que formuladas com legítima preocupação, podem transmitir à comunidade universitária a impressão de que produzir ciência de elevada qualidade equivale a submeter-se a uma lógica de "vassalagem acadêmica". Pontuações elevadas, de maneira nenhuma, constituem evidência de produtivismo vazio. Tal percepção, embora compreensível diante das pressões objetivas do sistema de avaliação, tende a abstrair as contradições reais que atravessam a produção do conhecimento. Em muitos casos, refletem trajetórias acadêmicas consolidadas, construídas ao longo de décadas de dedicação exclusiva à UFMT. Do mesmo modo, não considero justo que pesquisadores com trajetórias reconhecidas tenham seu trabalho reduzido à ideia de que seriam meros produtos de uma lógica produtivista. Essa interpretação pode homogeneizar as experiências concretas do trabalho intelectual.
Conheço inúmeros pesquisadores da UFMT que trabalham à noite, aos finais de semana, nos feriados e durante as férias para orientar estudantes, escrever projetos, revisar artigos, captar recursos e desenvolver pesquisas que projetam o nome da universidade nacional e internacionalmente.
Da mesma forma, considero importante registrar meu reconhecimento aos servidores da PROPESQ, que têm realizado um excelente trabalho. Nenhum edital agradará integralmente a todas as áreas do conhecimento, a todas as pessoas que produzem pesquisas, e a todas as concepções de universidade; eu mesmo observo que a área da engenharia está prejudicada pelo argumento já apresentado. Mas críticas somente produzem avanços quando dialogam com a realidade concreta e histórica dos diferentes campos científicos e com as peculiaridades, de cada modalidade de produção acadêmica.
O debate sobre o produtivismo acadêmico é necessário, assim como a discussão sobre os critérios utilizados para avaliar a pesquisa. Nas bases de dados científicas é possível encontrar pesquisadores que publicam mais de duas centenas de artigos em um único ano. Entretanto, essa realidade está muito distante do cenário retratado nos resultados do referido edital em discussão.
Essa discussão torna-se ainda mais importante em uma universidade pública, onde os recursos destinados à pesquisa são inevitavelmente limitados pela própria estrutura de financiamento do Estado em um contexto de restrição orçamentária e de prioridades definidas por uma “lógica de mercado”. Não dispomos de orçamento infinito e, por essa razão, toda política de fomento exige escolhas sobre onde investir recursos humanos, bolsas e financiamento.
PESQUISA CIENTÍFICA versus ESTEIRA DE PRODUÇÃO: vassalagem acadêmica ao gerencialismo empresarial? - Alair Silveira
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Alair Silveira
Professora e Pesquisadora do SOCIP e do PPGPS
Pós-doutoranda Universidad de Buenos Aires (UBA)
Membro do Grupo de Pesquisa MERQO/CNPq e do GTPFS/ADUFMAT-ANDES/SN
Miembro del Grupo de Trabajo Derechas Contemporaneas/CLACSO
"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. / E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. / Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. / E já não podemos dizer nada."
Eduardo Alves da Costa
Há muitos anos alguns colegas denunciam a cultura empresarial que tem avançado por dentro das instituições acadêmicas, transformando radicalmente a atividade docente e o desenvolvimento de pesquisas científicas. Portanto, não se trata de um problema novo. O que realmente impacta são as assustadoras proporções que o gerencialismo empresarial tomou dentro das universidades, vassalando a autonomia universitária e a capacidade crítica de parte muito significativa de professores e pesquisadores. Seja por adesão ideológica ou necessidade de sobrevivência acadêmica, docentes-pesquisadores foram sendo – progressivamente – submetidos à lógica quantitativa das “entregas”, ou seja, da quantidade de produtos que, ao final de cada período, têm que disponibilizar em ‘prateleiras’ que atendem por muitos nomes: Lattes, CAPES, CNPq, PROPESQ, Sucupira, Stella, QUALIS... Não por acaso, uma das frases mais comuns aos professores e pesquisadores é: ‘não tenho tempo’. Também não é por coincidência que os percentuais de adoecimento, ansiedade e/ou depressão têm alcançado números expressivos na categoria docente.
Porém, impõe-se reconhecer que a lógica gerencialista-produtivista não se impôs sem, antes, conquistar muitos corações e mentes dentro dos ambientes acadêmicos. Como o poema de Eduardo A. Costa[1] (em destaque), o processo de transformação da pesquisa acadêmica-científica em esteira de produção fordista não se consolidou sem a adesão e/ou resignação pessoal e institucional. Em sintonia com o modus operandi de organismos internacionais como o Banco Mundial e o FMI[2], o “convencimento” quanto às soluções gerenciais para aferir o desempenho e a produtividade acadêmica foi sendo construído sobre a dupla face do condicionamento da aprovação dos recursos à métrica dos números. Avaliados conforme o estoque quantitativo de produção em tempos estabelecidos, o trabalho docente e a pesquisa reduziram-se ao produto, desconsiderando-se todo o processo de coleta, sistematização e maturação empírica que antecede à elaboração intelectual.
A vassalagem à lógica gerencial-produtivista produziu uma multiplicidade de tipos que oscila entre indignados, resignados, indiferentes, desistentes, aderentes, ostentadores e multiplicadores. Mas, produziu também, estratégias de sobrevivência acadêmica: registrar toda e qualquer atividade, exposição, produção; limitar a elaboração intelectual a um número cada vez menor de páginas; ‘esquartejar’ dissertações e teses para multiplicar o número final de artigos e Papers; assinar vários artigos com outros autores para pontuar; moldar-se às classificações de rankings, nos quais livros pontuam menos do que artigos; hiperespecialização em determinados assuntos, a partir da qual é possível produzir múltiplos artigos sobre o mesmo tema etc. etc. etc. Seja qual for o recurso utilizado para projetar-se neste universo gerencial-produtivista, é a métrica da quantidade que se impõe.
Junto ao modus operandi dos organismos financeiros internacionais supracitados, a hegemonia da cultura pós-moderna dentro dos espaços universitários firmou o terreno fértil para a captura de mentes e corações acadêmicos. Sob o império das subjetividades descoladas das metateorias, do relativo, do fragmento e da bricolagem, do imagético e do volátil, o papel e a responsabilidade social da universidade pública, da autonomia da pesquisa científica e da proeminência dos critérios qualitativos foram sendo secundarizados pela naturalização da irrazoabilidade.
Afinal, sobre quais elementos da razão científica a produção intelectual rigorosa e qualificada eliminou o tempo de maturação dos dados, da confrontação com as hipóteses, dos desafios teóricos que muitas vezes se revelam no cruzamento dos dados? Sobre quais evidências qualitativas se hiper compactou o tempo de elaboração e revisão das boas análises? Mais ainda: em quais fundamentos razoáveis o trabalho intelectual foi subtraído de suas especificidades para se igualar ao trabalho mecânico dos processos embrutecedores da produção em massa e em série que marcaram o modelo fordista/taylorista? Ironicamente, enquanto os operários que operavam estas máquinas rebelaram-se contra este modelo de organização do trabalho e da produção, nós, trabalhadores intelectuais, não apenas aderimos às esteiras de produção científicas, mas, elaboramos rankings para premiar os mais ‘produtivos’, capazes de conquistar as ‘metas’ gerenciais da produtividade.
Sob estas condições, e considerando-se os termos do Edital n. 03/2026 da PROPESQ/UFMT, assim como a relação dos projetos habilitados para disputar as bolsas de iniciação científica para estudantes de graduação da Universidade, alguns aspectos evidenciam o atropelo à razoabilidade e à isonomia. De acordo com o Edital supracitado, a habilitação de orientadores/estudantes é extraída da quantificação de pontos atribuídos a cada uma das atividades (as quais, por sua vez, também estão submetidas ao ranking das quantidades de acesso e outros critérios hierárquicos de pontuação). Não bastasse a subordinação integral à métrica do desempenho gerenciado dos números, entre as áreas de conhecimento também foram estabelecidas pontuações completamente perversas para com as áreas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas[3]. No Edital (Bloco 2 do Anexo) é possível identificar rubricas de pontuação dirigidas a áreas específicas, cuja contabilização agrega à lógica quantitativa mais um elemento de discriminação por área.Enquanto para docentes-pesquisadores de Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências Exatas e da Terra, Ciências da Saúde e Engenharias, as pontuações vão de 10 a 30 pontos, para a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, as pontuações oscilam entre 2 e 3 pontos. Inclusive para aqueles que atuam na área de Linguística, Letras e Artes, a pontuação é um pouco mais elevada que aos pesquisadores que atuam na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: oscila entre 3 e 5.
Para além do desprestígio implícito à área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e do comprometimento da isonomia, há que observar que também no quesito da arrancada no ranking de pontuação, os chamados pesquisadores de ‘produtividade’ (CNPq) já desfrutam de condição privilegiada em relação aos demais. Ao fim e ao cabo, tem-se que aqueles que já estão consolidados mantêm-se no topo do ranking quantitativo, cabendo aos demais as sobras das bolsas de IC.
Entretanto, mesmo com todas estas condições desiguais e combinadas que evidenciam que a igualdade de oportunidade entre docentes-pesquisadores de áreas de conhecimento distintas não ultrapassa os limites de uma carta de intenções, a apresentação da Lista Geral de Ampla Concorrência (publicada em 23/06/2026) causa uma mescla de incredulidade e indignação.
Da análise da Lista de Ampla Concorrência é possível extrair que a pesquisa na UFMT é constituída de raríssimas excelências individuais, alguns poucos pesquisadores qualificados, alguns outros capazes de evoluir conforme a métrica qualitativa e muitos ‘aspirantes’ sem chances de ‘competir’. Para além da perversidade desta Lista que mensura número e não produção científica de acordo com a realidade das distintas áreas e a razoabilidade lógica, ela é ainda mais cruel com docentes que somam ‘zero’ ou que são classificados como ‘currículo não compatível’.
Diante disso, do que exatamente estamos falando? Com que tipo de Universidade e Pesquisa a UFMT está comprometida? Estamos, realmente, afirmando que alguns colegas não têm currículo compatível com a pesquisa? Baseado em quais pressupostos científicos-acadêmicos? Como a UFMT pretende estimular a pesquisa e a iniciação científica se reproduz uma lógica que, desde o Edital até a publicização, estabelece regras que vão ao encontro do produtivismo-gerencial? Qual a razoabilidade científica entre professores que totalizam quase 1.300 pontos enquanto outros somam zero ou são classificados como ‘incompatíveis’? Qual a média razoável de produção científica por ano, respeitando-se princípios como originalidade e tempo de coleta e maturação dos dados, rigor científico e elaboração teórica? Isto sem contar o processo de submissão às revistas especializadas e o tempo para avaliação e publicação.
Por fim, com tranquilidade, como pesquisadora da área de Ciências Humanas e Sociais, posso dizer que a pesquisa empírica, a sistematização de dados, a maturação, a análise e a elaboração permitiriam, no máximo, três artigos anuais. E isto sendo otimista, isto é, contando com a inexistência de obstáculos na pesquisa de campo, ainda mais para quem faz pesquisa na área de Ciência Política em MT, cujas dificuldades de acesso a dados oficiais nem sempre é tarefa fácil. Não por acaso, minha pontuação alcançou os surpreendentes 71 pontos! Em síntese, faço parte do grupo dos ‘aspirantes’ que não alcançou sequer 10% da pontuação dos pesquisadores considerados ‘qualificados’. Ironicamente, trata-se de um estimulante processo de produção científica docente e, especialmente, de fomento à pesquisa para aqueles estudantes que, todo semestre, nos procuram para a Iniciação Científica.
Em tempo: esclareço que este não é um artigo ressentido, mas, sim, revoltado! Sinceramente, espero que esta revolta e inconformidade não seja somente minha.
[1] Erroneamente, durante muitos anos, este poema foi atribuído ao poeta russo Maiakóvski.
[2] O livro de José Márcio M. Pereira, intitulado O Banco Mundial como ator político, intelectual e financeiro 1944-2008 [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010], nos permite dimensionar suas consequências, estabelecendo uma analogia com o processo por dentro das universidades.
[3] Registre-se que o ataque à área de Ciências Humanas e Sociais não é recente, gratuita ou despretensiosa. Não somente as disciplinas da área, no ensino médio, foram substituídas durante a ditadura militar, senão que no processo de redemocratização brasileiro, a reestruturação curricular da esmagadora maioria dos cursos universitários de outras áreas de conhecimento foi feita com a redução e/ou extinção destas disciplinas de seus currículos, como se cursos da área de exatas, tecnologia, saúde etc. fossem factíveis à revelia da dinâmica das relações societárias.
ANDES-SN reforça luta contra sorteio de vagas para cotas em concursos públicos
O ANDES-SN intensificou a luta pela revogação da Instrução Normativa (IN) Conjunta MGI/MIR/MPI nº 261/2025, especialmente o artigo 46, que trata do sorteio das vagas para cotas étnico-raciais em concurso público, o que configura um retrocesso histórico do movimento negro e das ações afirmativas.

Na Circular nº 267/2026, dessa terça-feira (7), o Sindicato Nacional reforça o pedido para que as seções sindicais, via os grupos de trabalho de Carreira, de Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual e de Política Educacional locais, constituam comissão para elaboração de propostas junto às Pró-reitorias de Gestão de Pessoas, aos setores responsáveis pelos concursos públicos e aos conselhos universitários, com o objetivo de evitar o fracionamento de vagas e outros mecanismos de burla, tendo em vista a efetividade da Lei de Cotas 15.142/2025.
A entidade solicita ainda que as seções sindicais enviem informações sobre a criação dessas comissões envolvendo os GTs, comuniquem se houve diálogo com as Pró-Reitorias de Gestão de Pessoas e quais ações vêm sendo desenvolvidas para combater os mecanismos de fraude à Lei nº 15.142/2025. As informações devem ser encaminhadas por meio do formulário Circular nº 267/2026 - Levantamento de Ações das Seções Sindicais sobre a IN nº 261/2025 e a Lei nº 15.142/2025, até o dia 27 de agosto de 2026.
A medida foi aprovada em resolução do 44º Congresso, realizado entre os dias 2 e 6 de março, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Salvador (BA), e destaca que a IN impõe a lógica da aleatoriedade, baseada na sorte, para determinar quem merece ou não o acesso às cotas.
ADPF 1245/2025
Em 3 de setembro de 2025, o ANDES-SN foi admitido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como amicus curiae na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1245/2025, que questiona o sorteio como critério de distribuição de cotas em concursos públicos e processos seletivos da União, de universidades e de outros órgãos e entidades da administração pública federal.
Veja aqui a Circular nº 267/2026.
Confira a IN nº 261/2025 na íntegra.
Fonte: Andes-SN
Democratização das IFE avança com instituição de GT no MEC, incluindo o movimento estudantil
Na manhã de terça-feira (30), o ANDES-SN participou de uma reunião da Mesa Setorial de Negociação Permanente no Ministério da Educação (MEC) para avançar no debate sobre a democratização das Instituições Federais de Ensino (IFE). Esta foi a segunda reunião sobre o tema neste ano.
Foto: Thamires Barreto
A secretária-geral do Sindicato, Fernanda Maria Vieira, informou que o encontro focou na formalização de dois Grupos de Trabalho (GTs): um para tratar do processo de democratização das IFE e outro para aprofundar o debate e pensar ações sobre saúde do trabalhador e da trabalhadora.
A portaria do GT Democratização já foi publicada, sob o número 549/2026. A diretora do ANDES-SN destaca a inclusão do movimento estudantil no debate, uma reivindicação apresentada pelas entidades sindicais na primeira reunião, realizada em abril. “Nós apontamos e o MEC reconheceu que seria impossível fazer o debate sobre democratização das instituições sem a presença dos três segmentos que compõem a comunidade acadêmica: docentes, técnicos e estudantes”, observou.
De acordo com a portaria, este grupo terá 90 dias, prorrogável por igual período, para “definir sua metodologia e cronograma de trabalho; realizar diagnóstico sobre práticas e mecanismos de gestão, participação institucional e transparência nas Ifes, com vistas à identificação de desafios, limitações e oportunidades de melhoria; elaborar propostas voltadas ao aprimoramento das práticas institucionais de gestão, participação e transparência nas Ifes; e elaborar relatório final contendo diagnóstico, conclusões e propostas relacionadas ao objeto do GT”.
Apesar do avanço com o fim da lista tríplice e a criação do GT, a secretária-geral do ANDES-SN ressaltou pontos que ainda preocupam a categoria docente, como a manutenção da ideia de um colegiado para “tirar as regras no respeito à autonomia das instituições". Fernanda Maria criticou duramente a desigualdade imposta pela legislação atual na composição desses colegiados.
Conforme a dirigente, a Lei 9192/95, do governo Fernando Henrique Cardoso, mantém a composição profundamente desigual desses colegiados, com o mínimo de 70% de membros do corpo docente no total de sua composição. "Para efetividade democrática não é possível que você mantenha tamanha desigualdade na participação dos rumos das nossas universidades", alertou. Ela lembrou que o ANDES-SN defende a participação universal ou paritária de todos os segmentos acadêmicos nos processos decisórios.
Outras pautas
Além da democratização, o Sindicato Nacional cobrou ainda o cumprimento de pautas do acordo de greve, especialmente o fim do controle de ponto para docentes da carreira do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT), uma pauta histórica que gera uma profunda desigualdade na categoria docente.
Foto: Thamires Barreto
Sobre este ponto, a secretária-geral do ANDES-SN disse que o MEC sinalizou a publicação de um decreto, pelo governo federal, transferindo ao ministério a competência para decidir sobre a questão. Segundo ela, a Pasta compartilha do entendimento de que "a manutenção desse controle é uma assimetria não aceitável dentro das instituições de ensino federal".
A reunião também serviu para que o ANDES-SN cobrasse a recomposição orçamentária das instituições, em especial para a recuperação do prédio histórico do Colégio de Aplicação João 23, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), visando garantir a segurança e o retorno adequado das atividades escolares após os danos causados pelas chuvas no início do ano.
Também foi pontuada a necessidade de uma reunião urgente entre a Secretaria de Educação Profissional do MEC (Setec) e a direção do Cefet Rio de Janeiro, para discutir a situação de insegurança e a presença de policiais armados no ambiente educacional, após o feminicídio de duas trabalhadoras do colégio, no final de 2025.
”Nós não conseguimos avançar nos outros pontos pendentes do nosso acordo, mas, pelo menos, conseguimos garantir que o registro de ponto para docentes EBTT seja extinto o mais rápido possível”, concluiu Fernanda Maria.
Fonte: Andes-SN
UNIVERSIDADES EM TRANSIÇÃO: NOVAS TECNOLOGIAS, RUPTURA INSTITUCIONAL E A REINVENÇÃO DO ENSINO SUPERIOR - Dirceu Grasel
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Dirceu Grasel
Prof. UFMT
I. Introdução
Antes de entrar na questão central deste artigo de opinião, provavelmente sem nenhuma contribuição original ou inédita, gostaria de esclarecer que reconheço que o tema abordado é complexo, mas também extremamente importante. Destaco ainda que o objetivo deste artigo não é prever o futuro, embora aborde cenários possíveis, mas apresentar uma inquietação crescente diante da passividade institucional sobre o tema, de alguém que acredita que a instituição está reagindo lentamente a mudanças profundas, ou seja, de alguém que gostaria que este artigo de opinião fosse visto como um esforço para provocar um debate produtivo, dentro de uma instituição, que vejo passiva e acomodada. Destaco também que não há intencionalmente nenhuma crítica a instituição ou tentativa de convencimento, mas apenas e somente um esforço em provocar um debate necessário.
II. As universidades contemporâneas: características, limitações e sinais de esgotamento do modelo atual
As universidades modernas foram estruturadas a partir de um paradigma institucional consolidado ao longo do século XX, fortemente baseado na centralidade física do campus, na autoridade epistemológica do professor, na fragmentação disciplinar do conhecimento e na lógica industrial de formação em massa. Esse modelo foi eficiente para atender às demandas da sociedade industrial e da economia baseada em profissões relativamente estáveis, produzindo avanços científicos, tecnológicos e sociais incontestáveis.
Todavia, as transformações aceleradas da sociedade contemporânea têm revelado sinais evidentes de esgotamento desse arranjo institucional. O primeiro grande problema refere-se ao custo estrutural das universidades e ao consequente custo médio de formação. A manutenção de grandes infraestruturas físicas, estruturas administrativas complexas, regimes rígidos de contratação docente e modelos pedagógicos presenciais intensivos tornou o ensino superior progressivamente mais caro e, em muitos casos, economicamente insustentável, especialmente em cursos que formam pouquíssimos alunos.
Paralelamente, emerge uma crescente desconexão entre formação universitária e as dinâmicas contemporâneas do mercado de trabalho. Em diversas áreas, observa-se que os currículos permanecem excessivamente lentos, atrasados, burocráticos e pouco responsivos às transformações tecnológicas e econômicas. O tempo institucional de atualização curricular frequentemente é incompatível com a velocidade de transformação das competências demandadas pela economia digital, por exemplo.
Outro aspecto crítico refere-se à qualidade da formação. Embora as universidades continuem sendo centros fundamentais de produção de conhecimento científico, há questionamentos crescentes acerca da efetividade pedagógica de modelos baseados predominantemente em aulas expositivas, avaliações padronizadas e transmissão verticalizada de conteúdo. A disponibilidade quase ilimitada de informação em ambientes digitais reduz progressivamente o monopólio informacional historicamente exercido pela universidade. Hoje já é possível uma formação igual ou superior, por estes meios digitais, desde que se tenha capacidade de distinguir o que é útil e inútil. Habilidade que também vem se tornando sempre mais importante no modelo atual e, pode ser uma excelente pista para entender a falta de interesse generalizada dos alunos.
Além disso, observa-se uma crise de legitimidade social do ensino superior. O diploma universitário, outrora símbolo quase automático de mobilidade social, já não garante inserção profissional estável nem diferenciação competitiva significativa em diversos 2 setores. Em consequência, cresce o debate sobre o custo-benefício da educação superior tradicional.
As universidades também enfrentam desafios relacionados à evasão estudantil, dificuldades de internacionalização, baixa integração interdisciplinar, lentidão decisória, resistência institucional à inovação e crescente competição com novos atores educacionais privados, plataformas digitais e sistemas alternativos de certificação profissional.
Nesse contexto, torna-se evidente que o modelo universitário atual ainda existe e resiste, porém seus fundamentos estruturais começam a apresentar sinais de fadiga sistêmica. O problema central talvez não seja apenas tecnológico, mas civilizacional, já que as universidades foram concebidas para um modelo de sociedade que já não existe integralmente.
Portanto, estamos basicamente falando de sobrevivência institucional e da profissão de professor universitário. Neste ponto está a minha angústia crescente, pois não vejo preocupação significativa, nem qualquer atitude para entender a questão e definir uma estratégia para se preparar ao que virá.
Qual questão exatamente? Todos os que possuem bom senso vivem a angústia de saber que o modelo atual apresenta evidências crescentes de esgotamento e que, ao mesmo tempo, ainda não sabemos o que será a universidade do futuro e nem o que será da nossa profissão de professores do ensino superior. Esta angústia é generalizada, dos professores, alunos e da própria sociedade de forma geral. Hoje um professor que se diz fazendo um bom trabalho, ainda não compreendeu a realidade ou se engana a si mesmo.
Precisamos sair desta passividade e tentar responder ou entender essas questões. Diante deste contexto, não seria prudente formar uma comissão de especialistas para realmente entender o problema e se preparar para o que está por vir? Esta comissão poderia ter um tempo determinado para conclusão dos trabalhos, ser composta por membros das áreas envolvidas, com as capacidades acadêmicas necessárias e inquestionáveis para sair da superficialidade e ir na raiz da questão, que sejam capazes de distinguir o que é realidade e alarmismo, atribuindo-se uma carga horária generosa para se debruçar sobre o tema ou, no mínimo coletar as informações disponíveis, organizá-las e coordenar um debate institucional.
Questões que precisam ser respondidas:
1) O que está acontecendo?
2) Quais são as expectativas dos alunos atuais?
3) Qual será o ensino superior no futuro?
4) O que já existe de novo no mundo?
5) Como podemos nos preparar para enfrentar a nova realidade? Afinal, precisamos nos preparar para o que está por vir.
III. As novas tecnologias e seu potencial impacto sobre as universidades
As tecnologias emergentes possuem potencial disruptivo sem precedentes sobre o ensino superior. Inteligência Artificial generativa, computação em nuvem, big data, realidade aumentada, realidade virtual, sistemas adaptativos de aprendizagem, biotecnologia, interfaces homem/máquina e automação cognitiva tendem a alterar profundamente os processos de ensino, pesquisa, gestão universitária e certificação.
A Inteligência Artificial, em particular, representa talvez a transformação mais radical para o ensino superior. Sistemas baseados em modelos avançados de linguagem já conseguem produzir sínteses bibliográficas instantâneas, gerar conteúdos didáticos, criar avaliações, oferecer tutoria personalizada e apoiar atividades de pesquisa em níveis anteriormente inimagináveis. Tudo indica que isto deslocará profundamente o papel tradicional do professor como principal transmissor de informação.
Ao mesmo tempo, algoritmos de aprendizagem adaptativa permitem trajetórias formativas altamente personalizadas, ajustando conteúdos, ritmos e metodologias conforme o perfil cognitivo individual do estudante. Tal transformação desafia diretamente o modelo padronizado de ensino em turmas homogêneas, com vários alunos.
A expansão da educação digital síncrona e assíncrona também rompe a dependência da presencialidade física como elemento central da experiência universitária. Plataformas globais de ensino tornam possível o acesso a especialistas internacionais, laboratórios virtuais e sistemas de aprendizagem distribuídos geograficamente, que facilitarão o ensino/aprendizado e reduzirão drasticamente os custos médios e marginais de formação.
No campo da pesquisa científica, a automação computacional acelera drasticamente análise de dados, revisão sistemática de literatura, modelagem preditiva e experimentação simulada. Consequentemente, a produção científica tende a tornar-se mais rápida, colaborativa e interdisciplinar, mas com sérios riscos, que ainda não entendemos plenamente.
Contudo, talvez o aspecto mais importante não seja a substituição pontual de ferramentas, mas a transição paradigmática em curso. As universidades vivem hoje uma situação peculiar, o modelo tradicional claramente já não responde integralmente às necessidades contemporâneas; mas ainda não existe consenso sobre qual será o novo modelo institucional dominante.
Estamos, portanto, em um período de transição entre um paradigma educacional que perde progressivamente sua eficácia e outro que ainda está em formação. Essa condição produz elevada instabilidade institucional, profissional e essa inquietação mencionada no início. O ensino superior encontra-se em uma espécie de “zona intermediária” entre a universidade industrial do século XX e uma futura universidade, pós-digital, cuja configuração ainda é incerta.
IV. O que provavelmente será a universidade do futuro?
É claro que alguém que nem especialista na área é, somente pode especular ou construir cenários possíveis. É isto que pretendo fazer abaixo, pois é exatamente o que acredito que deve ser feito no estágio atual de incertezas.
A universidade do futuro provavelmente será muito menos definida por espaços físicos e muito mais por estratégias digitais de aprendizagem contínua. Em vez de instituições centradas em cursos longos, rígidos e altamente padronizados, tende a emergir um modelo modular, flexível, interdisciplinar e orientado por competências, definidas pelo próprio aluno ou exigidas pelo mercado.
Os currículos deverão tornar-se dinâmicos e continuamente atualizáveis. A distinção clássica entre graduação, pós-graduação e educação progressiva e continuada tende a perder relevância diante da necessidade permanente de requalificação profissional ao longo da vida.
A formação universitária provavelmente migrará de uma lógica centrada na transmissão de conteúdo para uma lógica baseada em resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, capacidade analítica, colaboração interdisciplinar e integração humanomáquina.
A personalização educacional deverá ampliar-se significativamente. Ambientes inteligentes de aprendizagem poderão construir trajetórias formativas individualizadas, utilizando dados em tempo real sobre desempenho, interesses, dificuldades e competências dos estudantes.
A internacionalização também tende a se intensificar. As universidades mais competitivas provavelmente funcionarão em redes globais de cooperação acadêmica, compartilhamento de disciplinas, mobilidade digital e pesquisa compartilhada e distribuída, já que estes custos deverão ser drasticamente reduzidos.
Por outro lado, o campus físico não necessariamente desaparecerá, entretanto, sua função poderá mudar substancialmente. Em vez de espaço prioritariamente destinado à transmissão de conteúdo, poderá tornar-se um ambiente voltado à convivência intelectual e social, experimentação prática, inovação, interação social, empreendedorismo e desenvolvimento de capacidades socioemocionais.
V. O que provavelmente mudará na profissão dos professores universitários
Lembrando novamente que, também neste tema, o objetivo é somente especular ou construir cenários possíveis e provocar o debate absolutamente necessário e urgente.
A profissão de professor universitário provavelmente sofrerá uma das maiores transformações de sua história. O professor deverá deixar gradualmente de exercer predominantemente o papel de transmissor de conteúdo, para assumir funções mais complexas relacionadas à curadoria do conhecimento, mentoria intelectual, mediação cognitiva, orientação ética e desenvolvimento de competências humanas não automatizáveis.
Com a crescente disponibilidade de sistemas inteligentes capazes de fornecer informações instantâneas e personalizadas, o diferencial do professor tenderá a deslocar-se para dimensões interpretativas, críticas e relacionais, bem como para a capacidade de selecionar e focar em informações úteis.
Também deverá se tornar cada vez mais necessário que os docentes desenvolvam competências digitais avançadas, compreendam ambientes híbridos de aprendizagem, integrem ferramentas de Inteligência Artificial aos processos pedagógicos e atuem em contextos interdisciplinares.
Ao mesmo tempo, deverá haver crescente pressão institucional por produtividade, inovação pedagógica, internacionalização e adaptação contínua. Isso poderá gerar tensões relevantes relacionadas à precarização do trabalho acadêmico, redefinição de carreiras e necessidade permanente de atualização profissional.
Em muitos aspectos, a docência universitária provavelmente deixará de ser uma atividade relativamente estável para tornar-se uma profissão em constante reinvenção.
VI. A necessidade de as instituições de ensino superior se prepararem para sobreviver
Diante desse cenário, a preparação institucional para o impacto das novas tecnologias deixa de ser uma questão opcional e passa a constituir um imperativo estratégico de sobrevivência.
Instituições que permanecerem excessivamente presas a modelos burocráticos, currículos rígidos, estruturas administrativas lentas e resistência cultural à inovação tendem a perder competitividade acadêmica, relevância social e sustentabilidade financeira, mesmo que sejam públicas.
A transformação digital não deve ser compreendida apenas como aquisição de equipamentos ou adoção superficial de plataformas tecnológicas. Tudo indica que se trata de alterações estruturais da própria lógica institucional universitária.
As universidades precisarão desenvolver capacidades para se adaptar rapidamente aos novos cenários, construir culturas organizacionais orientadas à inovação, ampliar articulações com sistemas tecnológicos e incorporar metodologias mais experimentais de ensino, pesquisa e gestão.
Além disso, será necessário repensar modelos de governança universitária, processos decisórios e estruturas curriculares historicamente marcadas por elevada rigidez institucional, geralmente impostas pelos “donos do saber”, mesmo que esse conteúdo não tenham nenhuma relação com a realidade e na verdade sejam muito mais reserva de domínio, que permita ao professor se manter no conforto.
A velocidade das mudanças tecnológicas sugere que a necessidade de gerar capacidades de adaptação tem prazo definido e não é longo.
Diante deste contexto, do cenário descrito, possível e provável, que sugere mudanças estruturais na UFMT, como questão de sobrevivência, bem como mudanças estruturais de seus colaboradores, além das reiteradas tentativas de mostrar a necessidade deste debate nos ambientes institucionais em que convivo, finalizo este relato com perguntas que, ao meu ver, salvo melhor juízo de especialistas, se tornam sempre mais relevantes:
1) Por que, apesar da inquietação generalizada, ninguém ou quase ninguém, discute a questão?
2) Estamos nos preparando para estas mudanças profundas ou estamos simplesmente supondo que tudo continuará funcionando como sempre?
3) Estamos discutindo seriamente como a IA e outras tecnologias podem transformar a universidade e a profissão docente?
4) Se estamos diante de um cenário que pode até comprometer a existência da instituição, por que este assunto não é eixo central do debate na instituição?
Não sabemos exatamente o que o futuro nos reserva, mas sabemos que nada será igual.
ANDES-SN repudia bloqueio de R$ 1,6 bi no orçamento do MEC e cobra recomposição imediata
Passando por um processo de desfinanciamento desde 2015, o orçamento da educação federal sofreu novo ataque, com o contingenciamento de R$ 1,6 bilhão do Ministério da Educação (MEC). A medida foi anunciada com a publicação do Decreto nº 12.990, de 29 de maio de 2026, e fundamentada no atual arcabouço fiscal, estabelecendo um bloqueio bilionário no orçamento da União para fins de ajuste fiscal.
O impacto do decreto foi imediato nas Instituições Federais de Ensino (IFE). O MEC cancelou o repasse financeiro semanal às IFE já na primeira quinzena de junho. Embora o envio de recursos tenha sido retomado posteriormente, o montante é inferior ao planejado e insuficiente para as demandas cotidianas das universidades, institutos federais e cefets.
Em nota, a Diretoria do ANDES-SN repudiou os cortes orçamentários e destacou que as instituições de ensino não são apenas espaços de excelência acadêmica, mas também "loci de resistência diante das arbitrariedades e do autoritarismo". O documento alerta que o fortalecimento dessas instituições é indissociável da recomposição de seus orçamentos, que sofrem com um processo contínuo de "estrangulamento financeiro".
A nota detalha as consequências práticas da falta de recursos. "Nossas instituições vêm passando por um processo de estrangulamento financeiro que tem levado a um preocupante quadro de sucateamento e precarização das políticas de permanência estudantil, das condições de estudo, ensino e para realização da pesquisa e da extensão, afetando não só a comunidade acadêmica, mas toda a sociedade", afirma a diretoria do Sindicato Nacional.
Os dados históricos reforçam a gravidade da situação. Enquanto o volume destinado a despesas discricionárias era de R$ 16,1 bilhões em 2015, em 2025 esse valor caiu para R$ 7,6 bilhões (valores corrigidos pelo IPCA). Importante ressaltar que houve, neste período, ampliação da rede federal e das vagas oferecidas. O ANDES-SN ressalta, ainda, que o novo bloqueio de R$ 1,6 bilhão aprofunda uma crise que já contava com cortes realizados pelo Congresso Nacional na aprovação da LOA de 2026.
A diretoria do Sindicato Nacional reitera a necessidade de mobilização da categoria para enfrentar o que classifica como uma "situação de penúria". “O ANDES-SN exige o imediato desbloqueio dos recursos contingenciados e a implementação de uma política efetiva de recomposição orçamentária, capaz de reverter as perdas acumuladas desde 2015 de forma a garantir o pleno funcionamento das Universidades, Institutos Federais e Cefets”, conclui a nota. Leia aqui.
Painel Mais Verbas
Para ampliar o debate e fortalecer a luta da categoria docente diante desse cenário de desfinanciamento, o ANDES-SN disponibilizou à categoria e a toda a sociedade o Painel Mais Verbas. Lançada em maio de 2026, a plataforma interativa permite o acompanhamento detalhado dos dados de financiamento das instituições públicas de ensino superior no Brasil.
A ferramenta possibilita a consulta de séries históricas e a visualização de gráficos que apontam tendências de redução de recursos tanto em instituições federais quanto estaduais de ensino superior.
Fonte: Andes-SN
Projeto que transforma Cefets em Universidades Tecnológicas avança no Senado
A Comissão de Educação do Senado (CE) aprovou, nessa terça (26), o projeto que transforma dois centros federais de educação tecnológica, os de Minas Gerais e Rio de Janeiro, em universidades tecnológicas federais. Agora a matéria, que já foi aprovada na Câmara, segue para votação no Plenário do Senado em caráter de urgência.
O projeto (PL 5.102/2023) estabelece que o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) será transformado na Universidade Tecnológica Federal de Minas Gerais (UTFMG), enquanto o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ) vai se tornar a Universidade Tecnológica Federal do Rio de Janeiro (UTFRJ). De acordo com a proposta, ambas deverão ter organização, estrutura e competências próprias de instituições de ensino superior.
Docente do Cefet-MG e 2º tesoureiro da Regional Leste do ANDES-SN, Adilson Mendes Ricardo reclama que o texto foi construído e votado sem a participação das comunidades acadêmicas envolvidas. “O Sindcefet-MG e a Adcefet-RJ solicitaram reiteradamente, desde a tramitação do PL 5102/2023 na Câmara dos Deputados, a realização de audiência pública para abertura de um debate junto às comunidades acadêmicas envolvidas, uma vez que o conteúdo do texto não havia sido amplamente discutido com as bases institucionais. O objetivo era promover uma discussão aprofundada sobre o projeto, seus riscos, contradições e, principalmente, sobre as possíveis consequências para a Educação Profissional Técnica e Tecnológica de Nível Médio (EPTNM), no contexto do modelo de Universidade Tecnológica (UT). Entretanto, todos os pedidos de audiência pública foram negados, tanto na Câmara quanto no Senado, sem que houvesse espaço efetivo para debate com a comunidade”, lamenta.
Segundo Adilson, as preocupações manifestadas pelas duas Seções Sindicais do ANDES-SN baseiam-se, sobretudo, na experiência da transformação do Cefet-PR em Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em 2005. Conforme o diretor do ANDES-SN, o processo resultou em um significativo esvaziamento da oferta de cursos técnicos da instituição.
“Nesse contexto, seria fundamental o debate sobre a criação de um banco de equivalência específico para a carreira da Educação Básica, Técnica e Tecnológica (EBTT), como forma de assegurar a manutenção da EPTNM. Da maneira como o PL está estruturado atualmente, não há garantia de reposição automática de cargos EBTT por novos cargos EBTT, o que pode levar, em futuras substituições, à recomposição dessas vagas por cargos da carreira de Magistério Superior (MS)”, alerta.
O docente lembra, ainda, que a proposta de debate sobre o banco de equivalência sempre esteve associada à legítima preocupação com a preservação da autonomia universitária. Nesse sentido, um banco de equivalência EBTT poderia funcionar como mecanismo de equilíbrio institucional, considerando que docentes dessa carreira atuam tanto na EPTNM quanto na graduação e na pós-graduação. Por outro lado, como não existe obrigação equivalente para docentes da carreira MS atuarem na educação básica técnica e tecnológica, há o risco de que, a médio prazo, ocorra um esvaziamento gradual da EPTNM.
“A manutenção de um banco de equivalência EBTT preservaria a autonomia universitária para que a própria instituição definisse seus rumos futuros. Em contrapartida, a substituição progressiva de vagas EBTT por vagas MS tenderia a restringir esse poder de decisão, reduzindo gradualmente a capacidade institucional de manutenção da EPTNM”, pondera.
De acordo com a proposta, as novas universidades terão autonomia administrativa, financeira, patrimonial, didática e disciplinar — e serão vinculadas ao Ministério da Educação. O financiamento das universidades incluirá dotações orçamentárias da União, receitas de serviços prestados, convênios e outras fontes previstas na legislação.
Entre suas finalidades estão a oferta de cursos de graduação e pós-graduação, a formação de professores para o ensino técnico e a oferta de educação profissional de nível médio e cursos de formação continuada. Também deverão desenvolver pesquisa aplicada e atividades de extensão voltadas à inovação tecnológica e ao atendimento da sociedade. O diretor do ANDES-SN ressalta que é necessário garantias de que essas finalidades serão cumpridas, para que não se repita a situação da constituição da UFTPR.
“Consideramos, contudo, que o PL 5102/2023 já se encontra praticamente consolidado, tendo sido aprovado por unanimidade em todas as comissões pelas quais tramitou. A votação em plenário tende apenas a confirmar esse encaminhamento. Além disso, a possibilidade de veto presidencial parece pouco provável, considerando a relevância política atribuída à criação de novas universidades federais no contexto atual”, acrescenta Adilson. Ele reforça que as comunidades das duas instituições devem seguir atentas e mobilizadas, para acompanhar o processo de transformação dos Cefets em Universidades.
Transição
O projeto garante a transferência automática de cursos, alunos, unidades e recursos das instituições atuais para as novas universidades, sem prejuízo acadêmico ou administrativo. Também assegura a redistribuição de cargos e funções, mantendo a continuidade das atividades e a estrutura de pessoal.
O texto prevê que a implantação será regulamentada pelo Ministério da Educação (MEC), que deverá adotar as medidas necessárias para a organização das novas instituições.
Fonte: Andes-SN (com informações da Agência Senado)
ANDES-SN participa de reunião no MEC para discutir eleição de dirigentes das IFE
O ANDES-SN participou, na última terça-feira, 28 de abril, da 1ª Reunião Ordinária da Mesa Setorial de Negociação Permanente no âmbito do Ministério da Educação (MSNP/MEC). A entidade foi representada por Fernanda Maria Vieira, secretária-geral, e Lívia Gomes dos Santos, 1ª vice-presidenta da Regional Planalto do Sindicato Nacional.
Fotos: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
O encontro teve como pauta única o debate sobre a Democratização das Instituições Federais de Ensino Superior, considerando o capítulo XXV da Lei nº 15.367/2026, que estabelece critérios para a nomeação de dirigentes de instituições de ensino superior. Sancionada em 30 de março deste ano, a legislação acaba com a lista tríplice nos processos de eleição de reitoras e reitores das universidades federais.
Conforme Lívia Santos, essa mudança na legislação é uma importante conquista para a democratização das Ifes, pois extingue um mecanismo da época da ditadura, que abria espaço para processos de intervenção nas universidades, fenômenos vivenciados recentemente, durante o governo de Jair Bolsonaro. No entanto, lembrou a docente, ainda é necessário que seja regulamentado o processo de escolha de dirigentes.
“Debateu-se a importância de avançarmos na construção democrática e reafirmarmos o papel do corpo social das IES [Instituições de Ensino Superior] na construção do projeto de universidade socialmente referenciada e democrática. Para isso, foi instituído um GT com as entidades da educação para que sejam definidos os critérios e procedimentos. O governo pediu um prazo de 10 dias para apresentar a proposta do GT e a composição, bem como a minuta que será o ponto de partida da discussão dessa regulamentação”, contou a diretora do ANDE-SN.

Ainda segundo a 1ª vice-presidenta da Regional Planalto, o Sindicato Nacional indicou a necessidade de se convidar o movimento estudantil para participar dos debates do GT e construção das regulamentações. “O ANDES-SN defende que o reitor e o vice-reitor sejam escolhidos por meio de eleições diretas e voto secreto, com a participação, universal ou paritária, de todos os docentes, estudantes e técnico-administrativos; defende ainda que o processo se dê sem interferência externa, como uma das formas de garantir a autonomia didático científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial das instituições”, afirmou.
Apesar da reunião ter sido convocada com ponto de pauta único, as entidades presentes na reunião cobraram do governo outros temas, destacando principalmente alguns dos pontos dos acordos firmados como resultado da greve da Educação Federal em 2024 e que ainda não foram cumpridos, principalmente a questão do ponto de docentes do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT).
Controle de ponto do Magistério EBTT
Com a assinatura do Acordo de Greve nº 10/2024, o governo federal garantiu efetuar a revisão do Decreto 1590/95, para revogar o controle de ponto de docentes da carreira EBTT, garantindo isonomia de tratamento entre docentes federais. “Trata-se de uma luta antiga que reconhece na manutenção do controle uma aberração jurídica na medida em que mantem-se critérios distintos do magistério federal”, afirma Lívia.

No entanto, a minuta produzida após conclusão dos trabalhados do grupo de trabalho formulado para isso está parada na Casa Civil, aguardando assinatura. Durante a reunião, foi informado que o Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) produziu uma exposição de motivos, retirando a competência para alteração do Decreto 1590/95 para o Ministro da Educação, o que, conforme informado, possibilita acelerar a mudança.
“A pauta agora está, mais uma vez, com o novo ministro da Casa Civil e se torna imperioso que as categorias do setor da Educação se reúnam e venham a pressionar mais uma vez a Casa Civil para que encaminhe e reconheça com rapidez a competência do MEC para esse tema de pauta, para que possamos reverter uma das políticas mais marcadamente desiguais dentro da carreira do magistério Federal”, destacou a diretora do ANDES-SN.
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Fonte: Andes-SN











