*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DA CONVERSÃO ECOLÓGICA AOS TRÊS “TS” - Juacy da Silva
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“A educação ambiental ampliou seus objetivos. Enquanto no início estava centrada principalmente na informação científica, na conscientização e na prevenção de riscos ambientais, hoje ela tende a incluir uma crítica aos “mitos” de uma modernidade fundamentada em uma mentalidade utilitária (individualismo, progresso ilimitado, competição, consumismo, mercado desregulado). Busca também restaurar os diversos níveis de equilíbrio ecológico, estabelecendo a harmonia dentro de nós mesmos, com os outros, com a natureza e outros seres vivos, e com Deus. A educação ambiental deve facilitar o salto em direção ao transcendente, que confere à ética ecológica o seu significado mais profundo. Ela precisa de educadores capazes de desenvolver uma ética da ecologia integral e de ajudar as pessoas, por meio de uma pedagogia da liberdade eficaz, a crescer em solidariedade, responsabilidade e cuidado compassivo." Papa Francisco, Laudato Si, 2015.
Hoje, 03 de junho, Dia Nacional da Educação Ambiental, não celebramos apenas uma data do calendário ecológico, mas, sim, celebramos os chamados de nosso saudoso Papa Francisco, que nos alertou na Laudato Si' §217 quando disse, textualmente: "Não bastam as normas, sem uma conversão do coração".
Da mesma forma, o Papa Leão XIV, seguindo na mesma direção, insiste que “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário.” Pronunciamento na abertura da Conferência “Espalhando a Esperança”, ressaltando a necessidade de uma conversão ecológica do coração e dos estilos de vida, para atender à urgência das ações diante da crise climática que tanto fustiga o planeta e a humanidade, por ocasião das celebrações dos dez anos da Laudato Si, em 01/10/2025, em Castel Gandolfo.
Neste sentido, a Educação Ambiental é um caminho a ser seguido, um instrumento fundamental na transformação de nossos hábitos de consumo e consumismo, de desperdício, de geração de lixo e tantas outras mazelas que contribuem para a degradação e a poluição do ar, dos solos e das águas e a destruição do planeta.
No Brasil, a Educação Ambiental foi tratada na Lei nº 9.795/99, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental. Conforme seu Art. 1º, entendem-se por educação ambiental (EA) os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e à sua sustentabilidade.
O Art. 2º define que “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal”.
Todavia, a educação ambiental direciona-se também para outros públicos, como gestores e trabalhadores dos setores público e privado, para as empresas, para os movimentos sociais, sindicais, comunitários e, também, para os fiéis de todas as Igrejas e religiões.
Cabe enfatizar também que a Educação Ambiental precisa ter uma dimensão crítica, libertadora, indo também às estruturas políticas, sociais, culturais e econômicas, a partir das quais novos paradigmas devem definir as relações de trabalho e de produção, incluindo, é claro, como os sistemas econômicos se relacionam com a natureza, com o consumo e com o mundo do trabalho, principalmente em vista das profundas transformações científicas e tecnológicas, como, por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) e seus impactos na ecologia integral e no mundo do trabalho.
Voltando à questão dos valores, é importante indagarmos que valores são esses que são o cerne da educação ambiental?
A Política Nacional de Educação Ambiental insiste, também, que “Art. 3º Como parte do processo educativo mais amplo, todos têm direito à educação ambiental” e, ao definir os princípios que devem moldar a educação ambiental, estabelece, na verdade, os valores que a fundamentam.
Vejamos então: Art. 4º São princípios básicos da educação ambiental: I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II - a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III - o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV - a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V - a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI - a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII - a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; VIII - o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural”.
Ao definir os objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental, a dimensão crítica está explicitamente estabelecida. Vejamos os três primeiros desses objetivos: “Art. 5º São objetivos fundamentais da educação ambiental: I - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II - a garantia de democratização das informações ambientais; III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social”.
De forma semelhante, a Igreja, através das Encíclicas e das Exortações de diferentes Papas, tem contribuído para uma melhor compreensão da educação ambiental, no contexto da Ecologia Integral, para a solidificação de valores referentes às relações da humanidade com a natureza (as obras da criação) e também das relações humanas, sociais, econômicas e políticas, insistindo, por exemplo, “que não existem duas crises separadas, de um lado uma crise ambiental e de outro uma crise socioeconômica e política; mas apenas uma única e complexa crise socioambiental”, conforme consta da Laudato Si. A solução passa, necessariamente, pelo cuidado com a natureza, mas também pelo cuidado com os pobres e excluídos, as maiores vítimas deste processo que culmina na crise climática e suas consequências. Neste sentido, não podemos nos referir à educação ambiental sem considerar as dimensões da justiça social, da justiça climática e da justiça intergeracional.
O Papa Francisco resumiu em Roma, em 2014, falando aos Movimentos Populares, que "Terra, teto e trabalho" (frequentemente chamados de "os três Ts") formam um tripé de direitos sagrados e fundamentais para garantir a dignidade humana. Esse conceito tem forte raiz na Doutrina Social da Igreja Católica, tendo sido difundido de forma marcante pelo Papa Francisco e reafirmado por seu sucessor, como em diversos pronunciamentos recentes do Papa Leão XIV em encontros com movimentos populares.
Esta trilogia dos três “Ts” não é slogan de partidos ou movimentos de esquerda ou de movimento sindical. É parte integrante da Ecologia Integral e da Doutrina Social da Igreja e deve ser tratada também como base para uma educação ambiental crítica e libertadora dentro e fora da Igreja.
Por isso, neste dia dedicado à Educação Ambiental no Brasil, a pergunta que nos move é uma só: sobre qual Educação Ambiental estamos falando? A que enfeita relatórios de ESG ou advoga apenas uma maquiagem, como na chamada “economia verde”, ou a que muda hábitos, estilo de vida, estruturas sociais, econômicas e políticas que geram degradação ecológica, exclui os pobres, alimenta a pobreza e estimula o consumismo e o desperdício?
A educação ambiental crítica estimula atitudes que reduzem o consumismo e o desperdício, que estimulam a partilha, a economia solidária, a agroecologia e o respeito aos limites da natureza e aos direitos das gerações futuras. E, neste sentido, seu foco passa do individualismo para a dimensão comunitária, coletiva.
Precisamos refletir que este é um convite para a Igreja, para a escola, para o poder público, para os empresários e para o chão da fábrica, para os camponeses, para os povos indígenas, para passarmos da mera reflexão para ações sociotransformadoras, como recentemente se manifestou o Papa Leão XIV ao dizer, em sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, que o conhecimento deve servir ao bem comum. O saber precisa ser democratizado e usado para "desarmar" as estruturas de desigualdade e exclusão, em vez de se tornar um monopólio de poucos.
Esta exortação do Papa Leão XIV está em perfeita sintonia com a proposta de Francisco, na Laudato Si, ao vincular educação ambiental com espiritualidade ecológica e com o propósito da EA, no contexto de uma proposta mais ampla, que é o Pacto Global pela Educação, ao escrever no Capítulo 6 ("Educação e Espiritualidade Ecológica") sobre a educação ambiental, definindo-a não apenas como conscientização científica, voltada apenas para o intelecto, mas como uma verdadeira mudança de paradigma que deve moldar um estilo de vida sustentável.
Por esta razão, insistimos que a Educação Ambiental deve ser também e, principalmente, objeto das ações evangelizadoras da Igreja, dos cristãos, enfim, dos fiéis de todas as religiões, na dimensão sociotransformadora de nossas relações com a natureza e também de nossas relações econômicas, sociais e políticas em todos os países, inclusive no Brasil.
Como a Igreja no Brasil trabalha as questões socioambientais? A resposta pode ser encontrada nos diversos documentos, como as Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, Magnifica Humanitas e as Exortações Apostólicas Laudate Deum, Querida Amazônia, Dilexi Te, além de diversos documentos, como os de Aparecida e outros mais do CELAM.
Mas é importante também mencionar o Diretório da Pastoral Social da CNBB, Doc. 85, 2007; o "manual" que orienta toda a ação social da Igreja no Brasil, onde aparece a Educação Ambiental, no Cap. III, nº 89-92 - "Dimensão ecológica da caridade". A CNBB afirma: "A caridade cristã, hoje, inclui necessariamente o cuidado com a casa comum. A Educação Ambiental é instrumento privilegiado da evangelização social, pois forma sujeitos capazes de novos hábitos e de transformação das estruturas".
Se a educação ambiental é caridade, a mesma não pode ser considerada apenas uma dimensão assistencialista, como muitas pessoas imaginam. Por exemplo, como conjugar distribuição de cesta básica para famílias que não têm moradia digna e moram ao lado de esgoto e de lixões, sem a mínima dignidade? Será que, neste contexto, educação ambiental, no sentido de mudar hábitos, funciona?
A Igreja reconhece na EA uma dimensão pedagógica da fé e que deve integrar a formação do cristão e a evangelização. Formar novos hábitos e estilos de vida, como preceitua a Encíclica Laudato Si, faz parte das ações pastorais da Igreja e passa a ser um tema transversal que une ciência e religião, fé engajada e caridade libertadora, teologia, sociologia e antropologia.
Outro exemplo: o texto-base da Campanha da Fraternidade de 2025, cujo tema foi a Ecologia Integral, esclarece que a “conversão ecológica (o caminho para mudanças de hábitos e de estilos de vida) deve refletir-se no âmbito comunitário, por meio da promoção da educação ambiental”.
O artigo 13-A da Política Nacional de Educação Ambiental instituiu o Junho Verde, vinculando-o à educação ambiental não formal, ou seja, de difusão ampla e geral, com o objetivo de atingir o público em geral e despertar ou estimular a consciência ecológica/ambiental.
Vejamos: “Art. 13-A. Fica instituída a Campanha Junho Verde, a ser celebrada anualmente como parte das atividades da educação ambiental não formal” - § 1º O objetivo da Campanha Junho Verde é desenvolver o entendimento da população acerca da importância da conservação dos ecossistemas naturais e de todos os seres vivos e do controle da poluição e da degradação dos recursos naturais, para as presentes e futuras gerações. (incluído pela Lei 14.393/2022); § 2º A Campanha Junho Verde será promovida pelo poder público federal, estadual, distrital e municipal em parceria com escolas, universidades, empresas públicas e privadas, igrejas, comércio, entidades da sociedade civil, comunidades tradicionais e populações indígenas, e incluirá ações direcionadas para diversos setores, agentes e assuntos.
Diante dos desafios socioambientais que se agravam a cada dia, desprezar a Educação Ambiental Crítica é reduzir sua importância enquanto instrumento do despertar da consciência ecológica e, ao mesmo tempo, um mecanismo de transformação de hábitos e de estilos de vida, aspectos fundamentais para reduzirmos esta marcha irracional rumo a uma degradação ambiental e destruição dos biomas e ecossistemas.
Como sempre tem dito o Secretário-Geral da ONU, a janela para impedirmos as catástrofes ambientais está se fechando e o tempo para agirmos está ficando mais curto. A hora de agir é agora, e a educação ambiental é fundamental neste processo.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
Em sua obra O Capital, Marx trata do “tempo livre” como um direito da classe trabalhadora, argumentando que a verdadeira liberdade começa quando cessa o trabalho determinado pelas necessidades da sobrevivência, possibilitando ou permitindo que o trabalhador possa ter tempo para seu desenvolvimento pessoal, convivência com a família, atividades de lazer ou simplesmente o descanso pessoal.
O trecho central que sintetiza essa ideia é bem claro: "O reino da liberdade, na verdade, só começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela adequação a finalidades externas; situa-se, portanto, por sua própria natureza, além da esfera da produção material propriamente dita."
Para Marx, no sistema capitalista, o trabalhador é alienado de seu tempo, ou seja, não é dono de seu tempo, que deve ser “vendido” ao dono do capital, apenas vende sua força de trabalho para garantir sua própria sobrevivência e de sua família. Assim, as jornadas excessivas, com 12 ou até 18 horas de trabalho por dia, às vezes sete dias por semana, acabam roubando-lhe o tempo necessário para estar com sua família, para o descanso físico, para seu desenvolvimento social e político. Daí surgem as condições que alimentam a alienação como condição subalterna em relação aos proprietários do sistema de produção.
Assim, o trabalhador transforma-se em um elo da engrenagem do sistema produtivo capitalista em troca de salários aviltados que, a cada dia, têm um poder de compra reduzido e de condições sub-humanas.
É neste contexto que surge o conceito de “mais-valia”, segundo o qual: “O tempo que o trabalhador passa na fábrica é dividido entre o trabalho necessário (para pagar seu próprio custo, a sua sobrevivência) e o trabalho excedente (que gera o lucro do patrão). Reduzir a jornada é limitar essa apropriação do tempo de vida”.
Quanto maior for a jornada de trabalho e quanto menor for o salário, maior será a “mais-valia” e o lucro dos donos do capital; este é o mecanismo da alienação e exploração dos trabalhadores.
Vejamos como este debate tem acontecido há séculos, enfatizando a exploração dos trabalhadores em geral, em todos os países, inclusive no Brasil, sob o sistema econômico desumano, denominado pelo Papa Francisco como a Economia da Morte, a “economia que mata”, estando diretamente relacionado também com o aviltamento do poder de compra do salário do trabalhador em geral e do salário mínimo, em particular.
O Papa Leão XIII, por exemplo, diante da exploração perpetrada pelo capitalismo “nascente”, também denunciado por Marx, ao publicar a Encíclica Rerum Novarum, em 15 de maio de 1891, considerou as exaustivas jornadas de trabalho, às vezes com mais de 18 horas de duração, incluindo até mesmo crianças e adolescentes, desde a época da Revolução Industrial até o final do século XIX, como desumanas.
Ele (o Papa Leão XIII) criticou duramente a exploração do trabalhador, comparando a situação dos operários a uma condição de quase escravidão, ou, como eufemisticamente a nossa legislação considera, como “condições análogas à escravidão”, ainda existentes no Brasil, exigindo que o tempo de trabalho fosse rigorosamente limitado e adequado ao descanso.
Os principais pontos abordados pelo Papa Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum, sobre as jornadas de trabalho incluem: a) limites de horas - o Papa defendeu que o tempo e a duração do trabalho diário não deveriam exceder a capacidade e as forças do trabalhador, garantindo pausas e períodos de repouso proporcionais ao desgaste físico; b) proibição do trabalho excessivo, enfatizando que a jornada de trabalho não poderia ser "tão longa e tão dura" a ponto de esgotar as energias do corpo e da mente, o que impedia os trabalhadores de terem vida familiar e social; c) proteção à família, Leão XIII argumentou que a jornada exaustiva e a falta de descanso roubavam o tempo de convívio familiar, sendo necessário resguardar o tempo para o exercício da moral e da religião; d) condições especiais, destacando que o descanso precisava ser redobrado para certas categorias, como a situação das mulheres, crianças e adolescentes nas fábricas e minas, principalmente de carvão, em condições inadequadas, desumanas, por não respeitarem a fragilidade física de cada pessoa.
A Rerum Novarum, além de fornecer as bases teológicas, antropológicas e sociológicas para o surgimento da Doutrina Social da Igreja, considerando a Justiça Social como parâmetro fundamental, tendo o bem comum e a dignidade dos trabalhadores como apanágios, também influenciou o surgimento de uma legislação trabalhista e humanista em diversos países, inclusive no Brasil, tanto no final do século XIX quanto ao longo do século passado.
Ainda hoje, a Doutrina Social da Igreja (DSI) continua inspirando os debates e sugestões em torno das condições e das relações de trabalho e produção, incluindo jornada de trabalho, salário e outros direitos dos trabalhadores, ao exigir que o Estado intervenha para proteger os direitos humanos básicos dos trabalhadores, considerados o “elo” mais fraco do sistema produtivo e das relações de trabalho, diante dos abusos do capitalismo, do neocapitalismo ou de outros sistemas que não respeitam a dignidade dos trabalhadores.
Além da questão da duração da jornada de trabalho semanal, também não podemos fugir de um debate complementar que é a questão do valor do salário mínimo, aspecto fundamental para entendermos os níveis de exploração do fator trabalho e o processo de acumulação nos países capitalistas ou assemelhados.
Conforme dados recentes do IBGE, de 2025, em torno de 35,3% dos trabalhadores do setor privado recebiam no máximo um salário mínimo mensal, sujeitos a vários descontos, o que reduz o valor real recebido a menos de R$ 1.500,00 mensais a preços de 2026. De forma semelhante, em 2025, aproximadamente 28,5 milhões de aposentados e pensionistas do INSS recebiam no máximo um salário mínimo mensal.
Conforme dados do DIEESE, o valor do salário mínimo em 2026, para ter o mesmo poder de compra de quando foi estabelecido em 1943, deveria ser de R$ 7.435,00 e não os R$ 1.621,00 que estão em vigor.
Resumindo, o poder de compra do valor do salário mínimo em 2026 é de apenas 21,8% do que era em 1940, ou seja, ao longo de mais de 85 anos, o trabalhador que recebe salário mínimo foi “roubado” e continua sendo “roubado” pelo capital em nada menos do que 78,2% e ainda continua trabalhando 44 horas semanais.
Durante os dois primeiros governos de Lula, o governo Dilma e, novamente, nesta terceira gestão de Lula, o salário mínimo tem sido reajustado minimamente acima da inflação, no máximo em torno de 4% em média anual. Assim, para corrigir esta defasagem atual do salário mínimo, continuando este “reajuste” de 4% acima da inflação anual, somente por volta de 2050 os trabalhadores brasileiros teriam o poder de compra do salário mínimo equivalente ao poder de compra de 1940, ou seja, mais de um século de espoliação da força de trabalho.
Diante desses números bem claros, constata-se que, para minorar a penúria, a miséria, a pobreza e a exclusão em que vive mais da metade da classe trabalhadora no Brasil, o “sistema” utiliza as estruturas do Estado/Governo para “complementar” a renda desta parcela “surrupiada”, em que vivem os trabalhadores excluídos e em estado de miserabilidade.
Este é o mecanismo como as elites dominantes, que detêm o capital e também dominam as estruturas do poder, criam políticas públicas de cunho eminentemente assistencialista, mantendo uma grande parcela dos trabalhadores, da ativa e também aposentados ou pensionistas, acorrentados, para manterem esta parcela da população manipulada política, social, ideológica, eleitoral e institucionalmente, gerando também a corrupção, que é outra marca registrada dos donos do poder.
Assim, esta luta pelo fim da escala 6 x 1 e a redução da jornada semanal de trabalho para no máximo 40 horas faz justiça, reduzindo a carga de trabalho, aumentando o tempo livre para que o trabalhador possa estar com sua família, ter mais tempo para lazer, para descansar, mas, na verdade, a grande maioria que ganha apenas salário mínimo vai fazer alguma outra atividade, algum “bico”, para complementar a renda familiar, já que o seu salário é insuficiente para atender suas necessidades pessoais e de sua família, como estabelece a Constituição.
Para as elites e os donos do poder, e determinados setores da classe trabalhadora, a jornada 6 x 1 já foi abolida há muito tempo; para os marajás da República, como a chamada “classe política”, a jornada real de trabalho semanal não passa de 3 x 4, ou seja, três dias de “trabalho” e quatro “visitando as bases”; convenhamos, deve ser um trabalho muito árduo quando comparado com a “vida mansa” dos trabalhadores de “chão de fábrica”, nos andaimes da construção civil ou no meio rural.
Ao receber em audiência os representantes da Ordem dos Consultores do Trabalho em 18 de dezembro de 2025, Leão XIV, que tem se comprometido a lutar contra as guerras, pela defesa da ecologia, da vida e da dignidade humana, destacou que o trabalho deve ter como centro a dignidade da pessoa humana e da família, e não o lucro ou as leis do mercado econômico, enfatizando que o trabalho não é apenas um meio de subsistência, mas um caminho de realização humana: “Trabalhando, nos tornamos mais pessoa, a nossa humanidade floresce”. Neste aspecto, Leão XIV dá continuidade aos três “Ts” do Papa Francisco: TERRA, TETO e TRABALHO.
Vejamos, agora, o que estabelece a nossa Constituição Federal de 1988, no artigo sobre os Direitos dos Trabalhadores: “Dos Direitos Sociais - Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social.... IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim”.
A duração da jornada semanal de trabalho é estabelecida no artigo 7º, inciso XIII, e inclui, entre os direitos dos trabalhadores, que a “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”.
Convenhamos, esta é uma luta que já dura 135 anos, desde quando Leão XIII publicou a Rerum Novarum em 1891 e que atualmente também o Papa Leão XIV retoma com muita coragem e determinação.
Oxalá o Senado Federal não seja um obstáculo para a aprovação da Emenda Constitucional amplamente aprovada neste final de maio de 2026 na Câmara Federal. Não podemos permitir, e nem é justo, que o crescimento do PIB, os lucros exorbitantes do setor empresarial e a acumulação de capital, renda, patrimônio e riquezas nas mãos de uma minoria, como tem acontecido no Brasil, sejam fruto da exploração do trabalhador brasileiro, muitas vezes em condições de extrema pobreza e ainda assemelhadas ao trabalho escravo.
Este é o sentido e significado da luta contra a escala 6 x 1 e que precisa ser continuada pelo resgate do poder de compra do salário mínimo; esta é uma luta permanente dos trabalhadores brasileiros.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
“Os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger as suas economias – estão a sabotá-las. A transição para a energia limpa é o presente que continua a dar. Vai purificar o ar, satisfazer a procura crescente e ajudar a garantir o acesso à eletricidade para todos, ao mesmo tempo que salva o nosso planeta." António Guterres, Secretário-Geral da ONU, 26/01/2024, por ocasião do Dia Internacional da Energia Limpa, na Indonésia.
A ONU, em sua Assembleia Geral realizada em 23 de agosto de 2023, aprovou a criação do DIA MUNDIAL DA ENERGIA, a ser celebrado anualmente em 29 de maio, sendo que a primeira celebração ocorreu em 2024.
O tema oficial do Dia Mundial da Energia em 2026 é "Energia: Resistir à Pressão". O mote foi escolhido para o seminário principal organizado pela Associação Portuguesa de Energia (APE) em Lisboa, focando nos desafios atuais do setor.
Este tema enfatiza a necessidade de garantir a soberania energética diante da dependência externa, da instabilidade geopolítica frente a tantos conflitos e guerras que afetam o suprimento de energia a diversos países e, também, as pressões climáticas, econômicas e do comércio internacional e, ao mesmo tempo, também enfatizando a necessidade de uma transição energética limpa, justa e universal para garantir um futuro sustentável para todos os países e um melhor bem-estar para toda a população, sem discriminação ou exclusão, como atualmente ainda acontece.
Apesar do “progresso” tecnológico e do crescimento do PIB mundial ao longo de mais de 80 anos, o número de pessoas sem acesso à energia elétrica no mundo em 2025 foi de 685 milhões de habitantes, sendo que desses, em torno de 590 milhões estão na África. No Brasil, entre 700 mil e 1,5 milhão de pessoas não têm acesso à eletricidade, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e nas periferias urbanas.
Isto demonstra a importância de refletirmos sobre os desafios e riscos associados não apenas à energia, suas fontes de produção e os impactos que, por exemplo, a energia oriunda dos combustíveis fósseis acarreta para o planeta, principalmente os impactos do aquecimento global, do aumento da temperatura e da crise climática.
Além dos impactos socioambientais, a questão da energia está umbilicalmente ligada a duas outras dimensões, que são a geopolítica, onde as intrincadas relações de poder mundial ocorrem em meio a inúmeros conflitos de interesses econômicos e, também, aos conflitos armados/guerras entre nações, tendo a energia como ponto central.
Assim, a energia também está presente quando refletimos sobre soberania nacional, entendida como a capacidade que um país tem em definir seu próprio destino, seus objetivos nacionais, evitando estar dependente de outros países em diversos aspectos ou áreas de interesse vital.
A partir desta lógica, a soberania nacional tem diversas dimensões, incluindo a energia, mas não apenas esta. Assim, quando se fala em soberania nacional ou na necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento, no mesmo devem estar incluídas diversas dimensões como: soberania energética; soberania científica e tecnológica; soberania econômica; soberania alimentar; soberania territorial e soberania política.
Voltando à reflexão sobre o Dia Mundial da Energia, a ser celebrado, através de reflexões mais aprofundadas, em 29 de maio de cada ano, é importante aprofundar as análises em relação à transição energética, sem combustíveis fósseis, para que os países possam, de fato, cumprir com as diversas cláusulas do Acordo de Paris, firmado na COP 21, em 2015, evitando que a temperatura média do planeta exceda 1,5º C ou, no máximo, 2,0º C, acima dos quais as condições de vida no planeta podem se tornar impossíveis.
Da mesma maneira, não podemos olvidar que a questão energética, como aspecto central das relações geopolíticas, está cada vez mais presente e afeta, de maneiras diferentes, cada país, dependendo de seu peso específico nesta arena mundial do jogo de poder, em que alguns países, principalmente as potências e superpotências, tentam ditar as regras, sempre em favor de seus interesses e objetivos.
Diante disso, energia, geopolítica e soberania nacional podem ser consideradas três dimensões que definem o futuro da humanidade e de cada país ou o que poderíamos chamar de “nosso futuro comum”, título de um relatório produzido em 1987, quando, pela primeira vez, a ONU enfatizou a importância do desenvolvimento sustentável e não predatório, como atualmente ainda acontece.
O relatório “Nosso Futuro Comum”, conhecido como Relatório Brundtland, foi um documento histórico publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU. Coordenado pela ex-primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland, ele popularizou globalmente o conceito de desenvolvimento sustentável.
Desde a realização da 1ª Conferência Mundial sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, realizada em Estocolmo (Suécia), em 1972, coordenada pela ONU, e ao longo das 30 COPs (Conferência da ONU sobre o Clima), o tema da energia ou, mais recentemente, da energia limpa, da transição energética, enfim, a luta pelo fim da exploração e uso de combustíveis fósseis como principal fonte de energia dos diversos países, tem estado presente nos debates realizados.
Neste contexto, o tema energia comporta uma reflexão sobre a soberania energética, ou seja, a capacidade de um país controlar de forma autônoma suas matrizes energética e elétrica, incluindo produção e distribuição de energia. Isso garante o abastecimento nacional sem dependência excessiva de fontes ou fornecedores externos, protegendo a economia e a sociedade contra crises e conflitos globais que ocorrem na arena geopolítica internacional, como aconteceu na crise do petróleo de 1967, em uma, de tantas guerras que têm ocorrido no Oriente Médio, da mesma forma que atualmente acontece em mais uma guerra, cujas repercussões têm afetado diversos países, principalmente aqueles que dependem da importação de petróleo.
De forma semelhante, a invasão da Ucrânia pela Rússia, que desencadeou uma guerra que já dura mais de quatro anos, além da destruição da infraestrutura daquele país, também tem afetado o suprimento de gás para inúmeros países europeus, dependentes desta fonte de energia oriunda da Rússia, que a tem usado como uma arma geopolítica e geoestratégica.
Diante dessas vulnerabilidades, ou seja, dependência de energia importada, principalmente combustíveis fósseis, e, também, pela degradação socioambiental que tais fontes de energia acarretam ao clima e outras dimensões ecológicas, a alternativa mais plausível, mais eficiente e mais limpa têm sido as fontes renováveis e sustentáveis de energia, como energia solar, eólica, das marés e geotérmica, a bioenergia, o hidrogênio verde e, até mesmo, a energia nuclear, com as restrições e conflitos em torno desta última.
Outra não foi a razão pela qual a ONU, ao estabelecer os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), em 2015, mesmo ano da publicação da Encíclica Laudato Si pelo Papa Francisco (que trata da Ecologia Integral) e do Acordo de Paris, estabeleceu o ODS 7: “Energia limpa e acessível: Garantir o acesso a fontes de energia acessíveis, confiáveis, sustentáveis e modernas para todos”.
Cabe ressaltar que o horizonte temporal para que os ODS sejam implementados é o ano de 2030 (Agenda 2030 da ONU), cabendo a cada país transformar tais objetivos em políticas públicas nacionais, o que nem sempre tem acontecido.
Vejamos as cinco metas estabelecidas pela ONU, voltadas para este objetivo: Acesso universal: assegurar o acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis a serviços de energia; Energia renovável: aumentar substancialmente a participação de energias renováveis na matriz energética global; Eficiência energética: dobrar a taxa global de melhoria da eficiência energética; Pesquisa e tecnologia limpa: reforçar a cooperação internacional para facilitar o acesso a pesquisas e tecnologias de energia limpa, incluindo energias renováveis e eficiência energética; Infraestrutura para países em desenvolvimento: expandir a infraestrutura e modernizar a tecnologia para o fornecimento de serviços de energia modernos e sustentáveis, especialmente nos países em desenvolvimento.
Apesar da expansão do uso de fontes sustentáveis de energia, a matriz energética mundial praticamente não tem sido alterada ao longo dos últimos 80 anos. Em 1950, os combustíveis fósseis representavam 85% da disponibilidade energética mundial; em 1990 passou para 85,6%; em 2010 para 83%, o mesmo que em 2015; aumentando para 83,6% em 2020; e, novamente, aumentando para 86% em 2025.
Diante desses números e da recusa dos países “desenvolvidos”, com exceção da União Europeia, em fazer uma transição energética justa, universal e mais acelerada, colocando uma referência temporal para o fim do uso dos combustíveis fósseis, responsáveis por mais de 85% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, podemos concluir que a crise climática e seus impactos estarão bem presentes ou até piores pelas próximas décadas, até que o planeta atinja o chamado “ponto do não retorno”, afetando drasticamente todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana.
Finalmente, quando refletimos sobre energia, não podemos ignorar a questão dos subsídios que diferentes governos concedem, incluindo o Brasil, às fontes de combustíveis fósseis, um incentivo à degradação e destruição do planeta e ao agravamento da crise climática.
Os subsídios globais aos combustíveis fósseis em 2025 atingiram cifras astronômicas, superando a marca de US$ 7,6 trilhões de dólares. Esse montante massivo foi reportado pelo FMI e corresponde a quase 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, englobando tanto os subsídios explícitos diretos quanto os implícitos, custos ambientais e sociais.
Enquanto isso, os “incentivos” e/ou subsídios às fontes renováveis de energia limpa e não poluentes do planeta não têm merecido e nem recebido importância igual ou até mesmo superior, como é de se esperar se realmente os países desejam cumprir o Acordo de Paris e promover uma transição energética justa, limpa e universal.
Embora os investimentos globais na transição energética tenham atingido um recorde histórico na faixa de US$ 2,2 a 2,3 trilhões de dólares em 2025, os subsídios diretos, fiscais, taxas de juros e de consumo focados especificamente em energias limpas e renováveis ficam muito aquém dos subsídios destinados aos combustíveis fósseis ou combustíveis sujos.
Resumindo, parece que os governantes dos mais diversos países desejam incentivar a degradação ambiental e a crise climática ao invés de incentivarem a produção e uso de energia oriunda de fontes renováveis e sustentáveis, energias limpas.
Esta é também uma questão política crucial, no contexto dos desafios socioambientais, que deveria estar presente nos debates, propostas e planos de governo de candidatos, quando alguns países, como o Brasil proximamente, realizam eleições gerais tanto para cargos eletivos federais quanto estaduais.
Lamentavelmente, o debate político e eleitoral gira em torno de ideias medíocres ou pautas que pouco ou nada têm a ver com as necessidades, aspirações e interesses da população, principalmente das camadas pobres e excluídas e, também, com o futuro do país, do planeta e da sustentabilidade ambiental, da soberania nacional e da inserção do país no contexto geopolítico e geoestratégico internacional.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
O Papa Francisco, há onze anos, quando da publicação da Encíclica Laudato Si, já denunciava a poluição pelos plásticos e demais resíduos sólidos ao falar: “o mundo, nosso Planeta, a nossa Casa Comum, está se tornando uma grande lixeira” e, há poucos anos, também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em uma solenidade pelo DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE, alertou o mundo dizendo: “em alguns lugares do planeta os oceanos têm mais plásticos do que peixes”.
De forma semelhante, também o Papa Leão XIV tem insistido quanto à necessidade de melhor cuidarmos do planeta, alertando-nos, exortando-nos sobre os males da poluição do ar, das águas e dos solos, criticando os lucros vertiginosos de empresas poluidoras e visitando, em suas viagens, vítimas de despejo ilegal de lixo tóxico e afetados pelos horrores das guerras.
Em diversas cidades pequenas, médias ou mesmo megalópoles, principalmente na Europa, nos EUA, no Japão e em outros países ou mesmo no Brasil, o uso de sacolas plásticas e embalagens de plástico já foi abolido, em parte pela mudança de hábitos e estilo de vida espontaneamente por parte da população, através de uma intensa campanha de educação ambiental crítica/libertadora e, também, pela aprovação de leis locais, estaduais ou nacionais que proíbam ou restrinjam esta prática maléfica que gera uma imensa degradação ambiental.
A crise global dos resíduos plásticos tem movimentado debates internacionais. A produção de lixo plástico superou, em 2025, a marca de 475 milhões de toneladas anuais. O acúmulo de lixo plástico nos solos atinge cerca de 13 milhões de toneladas, enquanto 23 milhões de toneladas acabam indo parar nos oceanos.
Entre 2000 e 2025, a produção mundial de plástico dobrou, saltando de aproximadamente 234 milhões de toneladas para mais de 490 milhões de toneladas anuais. Esse crescimento da produção de plásticos, de cerca de 115%, superou o crescimento do PIB mundial, que no mesmo período aumentou cerca de 75% em termos reais. Se esta tendência não for barrada com urgência, dentro de poucas décadas, realmente, o mundo vai se transformar em uma grande lixeira planetária, como nos alertou o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si.
É importante esclarecer que o plástico é um subproduto do petróleo, um dos combustíveis fósseis que mais contribui para as emissões de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global e a crise climática.
Assim, o combate ao uso de sacolas plásticas e todas as embalagens plásticas insere-se na luta pelo fim do uso de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão), tema central de um Encontro Internacional realizado recentemente na cidade de Santa Marta, na Colômbia, do qual participaram representantes de diversos países, inclusive do Brasil.
Nosso país é o 4º maior produtor de lixo plástico do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Índia. O Brasil gera mais de 11 milhões de toneladas de lixo plástico por ano, mas a taxa de reciclagem é historicamente muito baixa, girando em torno de 1,2% a 4,5%.
Estima-se que cerca de 40% desse volume de lixo corresponda a plásticos de uso único e descartáveis em poucas horas de uso, como as garrafas PET, as sacolas e embalagens de plástico, perfeitamente abolíveis, substituindo-as por outros materiais reciclados/recicláveis e também pela logística reversa, como já acontece com as embalagens de agrotóxicos.
Um dos problemas mais sérios na atualidade é o LIXO PLÁSTICO que, a cada dia, aumenta e polui a natureza, entope as bocas de lobo e degrada tudo, principalmente os cursos d’água como os córregos, os rios, as lagoas, os lagos, os mares e oceanos.
Diante disso, a PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL, na dimensão de uma Conversão Ecológica, ou seja, mudança de hábitos, costumes e estilo de vida, tem insistido na necessidade de ABOLIRMOS AS SACOLAS, as embalagens e os “utensílios” de plástico em todos os lugares, principalmente nas Igrejas e entidades religiosas, em uma demonstração de que cuidamos corretamente das obras da criação.
Em nossas formações, treinamentos e reuniões, temos insistido para não usarmos nada de plástico, na certeza de que aos poucos precisamos nos educar ambientalmente, nos convertermos ecológica e socioambientalmente em diversas frentes da caminhada, incluindo o combate ao consumismo, ao desperdício, a adoção de práticas de economia circular, incluindo a separação de nosso lixo doméstico, o reuso do que for possível e a reciclagem, o uso de fontes renováveis de energia e assim por diante.
Se todas as pessoas e também todas as organizações públicas e não governamentais, incluindo empresas privadas, instituições de ensino, IGREJAS e entidades comunitárias, despertarem para a necessidade de PRÁTICAS ECOLÓGICAS que contribuam para uma SUSTENTABILIDADE plena, abrangente, estaremos contribuindo para reduzir a degradação ambiental, a nossa “pegada ecológica”, para reduzirmos os impactos da CRISE CLIMÁTICA, que a cada dia se torna mais insidiosa e grave.
Outro aspecto importante é a necessidade das Câmaras Municipais, das Assembleias Legislativas e do Congresso Nacional aprovarem leis que proíbam o uso de embalagens, inclusive sacolas de plástico, e outras medidas que combatam a degradação ambiental.
A Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese de Cuiabá, tendo em vista sua caminhada e práticas sustentáveis, tem estimulado a substituição de sacolas plásticas por sacolas de algodão ou outros materiais recicláveis/reciclados, da mesma forma que diversas outras entidades e coletivos ambientalistas pelo Brasil afora.
Oxalá as questões e desafios socioambientais possam fazer parte da pauta das discussões que normalmente acontecem em períodos eleitorais. É muito importante que os candidatos, tanto a cargos eletivos estaduais quanto federais, incluam entre suas propostas temas relacionados com o meio ambiente.
Só assim poderemos construir as bases de políticas públicas voltadas para um melhor cuidado com a ecologia integral, reduzindo os impactos da degradação e destruição do meio ambiente, enquanto é tempo.
Reclamar, gritar, protestar contra o descaso com que nossos governantes tratam as questões e problemas socioambientais são formas importantes de mobilização profética, mas é preciso, é imperioso, que os governantes despertem de suas letargias e omissões para esta realidade cruel que está tornando a vida no planeta quase impossível para todas as formas de vida, mas principalmente para a vida humana!
As eleições estão chegando. Mais importante do que ficarmos “discutindo” nomes, o que realmente importa são as propostas de ação política, principalmente daqueles que serão eleitos.
O cuidado com o planeta, nossa Casa Comum, com o meio ambiente, transcende as ideologias, os partidos políticos, as picuinhas eleitorais e todas as demais peculiaridades. Ao nos omitirmos diante da destruição ambiental, estamos inviabilizando nosso futuro, a partir de nossos territórios. Aqui e agora!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
“Cabe-nos agora enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo. É necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e de conter os efeitos nocivos do poder tecnológico. Mas a questão não se esgota na regulamentação. Como alertou o Papa Francisco, devemos perguntar-nos com realismo quem detém hoje este poder e para que fins o orienta: «Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos […] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro». [7] Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente “privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”. Papa Leão XIV, Encíclica Magnífica Humanitas, Vaticano, 15/05/2026.
Nesta segunda-feira, 25 de maio de 2026, o Papa Leão XIV acaba de apresentar aos católicos, aos cristãos, aos fiéis das demais religiões e, enfim, ao mundo sua primeira Encíclica denominada MAGNIFICA HUMANITAS.
Esta Encíclica está à disposição do público em geral, em diversas línguas, inclusive em português, e pode ser “baixada” gratuitamente acessando o site https://www.vaticannews.va/en.html
Vale a pena acessar, ler e refletir sobre seu conteúdo, que deve ser mais uma bússola, juntamente com outras Encíclicas e Exortações Apostólicas, principalmente as de seu antecessor, Papa Francisco, para a nossa caminhada diante dos desafios contemporâneos e da urgente necessidade de ações sociotransformadoras em nossas pastorais, movimentos e organizações.
A nossa fé precisa ser transformada em ações visando ao BEM COMUM, à JUSTIÇA (SOCIAL, CLIMÁTICA, DE GÊNERO E INTERGERACIONAL), enfim, uma FÉ ENGAJADA pela paz e pelo diálogo.
Nunca a presença e as ações sociotransformadoras por parte da Igreja, entendida como o Corpo de Cristo Ressuscitado (fiéis e clero), foram tão necessárias. Uma Igreja Sinodal, em saída, rumo às periferias materiais e existenciais, profética, que realmente faz a opção preferencial pelos pobres, é desafiada a lutar por uma ecologia integral, a cuidar de nossa Casa Comum, pela “paz desarmada” e a criar raízes para que a Economia da Morte seja substituída pela Economia da Vida, a Economia de Francisco e Clara, e promova uma CULTURA DA PAZ, fundada no diálogo!
É neste contexto que Leão XIV publica sua primeira Encíclica, dando um “novo” rumo à Igreja no mundo todo.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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DESASTRE ECOLÓGICO À VISTA: AQUÍFERO GUARANI CORRE RISCO DE ACABAR? - Juacy da Silva
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Informações coletadas e compiladas por Prof Juacy da Silva*
Estamos em plena Semana LAUDATO SI, celebrando ONZE ANOS da publicação desta Encíclica pelo nosso saudoso Papa Francisco, exortando a humanidade, principalmente os cristãos em geral e os católicos em particular, sobre a gravidade da degradação socioambiental, da destruição do Planeta, nossa Casa Comum, apontando ser tudo isto resultado de uma “ECONOMIA QUE MATA”, uma economia da morte, e que precisamos, de forma urgente, mudar radicalmente os parâmetros desta economia da morte por outros que possibilitem a existência de uma nova economia, a ECONOMIA DA VIDA, a economia de Francisco e Clara, um novo modelo que respeite a natureza, os trabalhadores, os consumidores e, principalmente, as futuras gerações.
Mato Grosso é um estado privilegiado por ter em seu vasto território a presença de três dos seis biomas brasileiros: o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia Mato-grossense.
Todavia, apesar da riqueza contida nesses três biomas, os mesmos vêm sofrendo um processo intenso de degradação, seja pelo desmatamento, pelas queimadas, mas, principalmente, pela destruição das nascentes, córregos e rios, afetando tanto o regime de chuvas quanto a degradação dos solos.
Dos mais de 140 milhões de hectares de áreas degradadas, em Mato Grosso estima-se que existam cerca de 20 milhões de hectares de pastagens plantadas com algum grau de degradação, afora outras áreas ocupadas com agricultura e que também estão em algum processo de degradação.
A recuperação deste passivo ecológico para garantir a sustentabilidade é um grande desafio para o agronegócio, para a agricultura familiar e para os governos federal, estadual e municipais, exigindo políticas públicas para o seu enfrentamento.
Sob os territórios de Mato Grosso, de boa parte do Cerrado, dos estados de Minas Gerais, de São Paulo e partes da região Sul do Brasil e também de países vizinhos como Bolívia, Paraguai e Argentina, encontra-se um dos maiores reservatórios subterrâneos de água das Américas, que é o AQUÍFERO GUARANI.
Na verdade, o Aquífero Guarani é uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do mundo, de importância estratégica para a segurança hídrica, garantindo o abastecimento de mais de 100 milhões de pessoas no Brasil e nos referidos países vizinhos e sustentando atividades econômicas essenciais na América do Sul.
Eu fiz uma pergunta a sites de buscas (IA) e encontrei um conjunto valioso de informações, parte das quais compilei e resolvi compartilhar com diversas pessoas e instituições com as quais mantenho contato e com o público em geral, com o objetivo de despertar o interesse em relação a esses desafios ecológicos e socioambientais que dizem respeito de perto ao nosso presente e ao nosso futuro.
Além disso, tendo em vista a proximidade das eleições gerais de 2026, esperamos também que candidatos e candidatas, tanto a cargos eletivos federais quanto estaduais, despertem para a necessidade de que precisamos definir políticas públicas federais, estaduais e municipais, de caráter preventivo e urgente, para evitar que uma verdadeira catástrofe, já amplamente anunciada e denunciada por cientistas e estudiosos dos desafios socioambientais, possa ser evitada.
Caso nossos governantes continuem se omitindo e fazendo de conta que tais problemas e desafios, já amplamente demonstrados, principalmente a grave crise climática, com suas causas e consequências, não existam, com certeza dentro de algumas décadas tanto partes da Amazônia Mato-grossense quanto do Cerrado e, principalmente, o Pantanal poderão ser transformados em áreas extremamente degradadas e até em desertificação.
Cabe ressaltar que o Pantanal não produz água; as águas que garantem o regime das cheias e vazantes no Pantanal têm origem nos rios que nascem em suas cabeceiras ou em seu entorno e que estão sendo destruídos pela ganância e falta de cuidado com a natureza.
Pergunta: O AQUÍFERO GUARANI PODE ACABAR?
Resposta: Sim, o Sistema Aquífero Guarani (SAG) corre sérios riscos. Pesquisas revelam que a retirada de água está superando a recarga natural, e as mudanças climáticas ameaçam secar os reservatórios subterrâneos. A superexploração por cidades, indústrias e agricultura torna urgente a necessidade de gestão e preservação.
O alerta de esgotamento e a degradação do sistema são impulsionados por fatores críticos:
- Extração Excessiva: A quantidade de água bombeada é muito superior à capacidade de reposição da chuva. Em áreas como Ribeirão Preto (SP), por exemplo, já foi retirada até 30 vezes mais água do que o volume que o sistema consegue reabastecer.
- Emergência Climática: Pesquisas lideradas pela USP e INPE apontam que mudanças climáticas severas podem reduzir a recarga natural de aquíferos brasileiros até o ano 2100. A irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas diminuem a taxa de infiltração da água no solo.
- Lentidão na Recarga: Grande parte da água subterrânea é "fóssil" e pode levar de centenas a milhares de anos para percorrer desde as áreas de afloramento até os poços de captação.
- Impacto nas Populações: Estima-se que os aquíferos abasteçam cerca de milhões de pessoas no Brasil. O rebaixamento do nível do aquífero encarece a captação e força o aprofundamento ou a desativação de poços.
Para evitar o colapso, especialistas defendem o monitoramento rigoroso das extrações. Você pode acompanhar a evolução desses estudos e as diretrizes de preservação nos artigos divulgados pelo Jornal da USP. Para entender os impactos a longo prazo, confira os relatórios e análises disponíveis na CNN Brasil e na Revista Pesquisa Fapesp.
Outubro 25, 2024 — Mudanças climáticas podem reduzir recarga de aquíferos.
Agosto 19, 2025 — Águas subterrâneas são aquelas que se acumulam abaixo da superfície terrestre, em formações geológicas chamadas aquíferos.
Maio 29, 2024 — O Estado de São Paulo é responsável por 80% das extrações do Aquífero Guarani.
O nível do Aquífero Guarani está diminuindo, e estudos apontam que o volume retirado para consumo humano e agropecuário supera a capacidade de reposição natural. Embora parte dessa redução climática esteja associada à perda de cobertura vegetal na Amazônia, as áreas de recarga do aquífero também sofrem com a diminuição das chuvas e o aumento da evaporação.
Para compreender a fundo essa dinâmica, veja os impactos que ameaçam o reservatório subterrâneo:
- Queda de pressão: O rebaixamento do nível da água subterrânea já atinge metros em algumas regiões, especialmente no interior de São Paulo, onde a extração é mais intensa.
- Recarga insuficiente: Pesquisas mostram que a chuva concentrada escoa mais na superfície e infiltra muito menos no solo do que o necessário para repor o estoque.
- Fator Amazônico: A redução das chuvas no Centro-Oeste e o prolongamento da estação seca na Amazônia impactam o transporte de umidade regional, agravando o déficit hídrico.
O entendimento do ciclo hidrológico e a preservação dessas reservas são temas de grande debate regional e global. Você pode verificar os dados destas pesquisas nos links abaixo:
- Leia sobre as pesquisas de mudanças nas chuvas na região amazônica no artigo da Agência FAPESP.
- Acompanhe as análises sobre o risco de rebaixamento dos níveis subterrâneos na cobertura da Forbes Brasil.
- Entenda a exposição da biodiversidade e do clima tropical no portal The Conversation.
O PANTANAL PODE SECAR E VIRAR DESERTO?
Sim. O Pantanal corre o risco de perder suas características originais e passar por um processo de desertificação caso o ciclo severo de secas e queimadas continue avançando. O bioma enfrenta reduções drásticas nos níveis de água a cada década, afetando sua capacidade de inundação e regeneração.
Conforme dados recentes do MAPA BIOMAS, entre 1980 e 2024, “o Pantanal é o bioma que mais perdeu superfície de água em relação à média histórica: 61%”, razão pela qual a hipótese de que o Pantanal, caso esta trajetória não seja alterada, corre o risco de secar é altamente provável.
O risco da desertificação
Especialistas apontam que as repetidas crises hídricas e o calor extremo estão empurrando o Pantanal para o chamado "ponto de não retorno", inviabilizando todas as atividades produtivas e até mesmo a permanência dos aglomerados humanos em seu território.
- Redução da área alagada: As superfícies permanentemente alagadas chegaram a registrar quedas de até 75% em um período de 40 anos, tornando o solo extremamente seco e suscetível ao fogo.
- Savana ou deserto: A destruição da cobertura vegetal, aliada à degradação ambiental nas cabeceiras dos rios (incluindo biomas vizinhos), diminui drasticamente a quantidade de água que chega à planície. Se o pulso de inundação for perdido, a região tende a se transformar em uma savana (semelhante ao Cerrado) ou, em cenários mais extremos de degradação, avançar para uma área de desertificação.
A rápida expansão e a gravidade dessa situação no Brasil são discutidas em detalhes e documentadas pelos seguintes artigos:
- Em meio a incêndios, desertificação avança no Pantanal, diz biólogo.
- O grande deserto brasileiro criado pelo agronegócio.
Impacto das mudanças climáticas globais
As alterações no clima e o aquecimento global estão encurtando os períodos de chuva e aumentando as temperaturas médias, o que desequilibra o ritmo natural de cheias e secas. A preocupação com essas alterações em áreas secas e ecossistemas do país é abordada no estudo:
- Aquecimento global faz surgir primeira zona árida e expande clima semiárido e áreas secas no Brasil.
Por que o bioma está secando
A ameaça não vem apenas do que acontece dentro da planície pantaneira, mas também dos fatores climáticos externos. Para compreender melhor a conexão entre o desmatamento, o ciclo de chuvas e o risco ao bioma, assista aos vídeos abaixo:
Para entender como a degradação do Cerrado e a alteração dos 'rios voadores' da Amazônia contribuem para a escassez de água no Pantanal, veja este vídeo: https://www.youtube.com/shorts/vv4REm-Y6K4?feature=share
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
“A humanidade depende da terra. No entanto, em todo o mundo, um coquetel tóxico de poluição, caos climático e dizimação da biodiversidade está transformando terras saudáveis em desertos e ecossistemas prósperos em zonas mortas. Eles estão aniquilando florestas e pastagens, e minando a força da terra para apoiar ecossistemas, agricultura e comunidades.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, mensagem por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2024.
“Não existe desenvolvimento sem cuidado com o meio ambiente”, frase atribuída a Chico Mendes, seringueiro, sindicalista e ativista ambiental brasileiro, assassinado por defender o meio ambiente e as florestas na Amazônia.
Li, há poucos dias, um artigo escrito pela médica Natasha Lhessarenko, pré-candidata a Governadora de MT, pelo PSD, com apoio da Frente Brasil Esperança (PT, PcdoB e PV), mais PSB e PDT, ou seja, partidos de Centro/Esquerda, sobre a viagem/caravana, juntamente com o ex-ministro e senador Fávaro, candidato à reeleição, feita à Região do Araguaia, considerada, há décadas, como “Vale dos Esquecidos”, tendo visitado 18 municípios, onde aborda vários assuntos, e o mesmo tem acontecido nas andanças dela por outras regiões do Estado de Mato Grosso.
Tem sido sempre corriqueiro que candidatos concentrem seus diagnósticos da realidade e suas propostas de ações governamentais em algumas áreas que, secularmente, têm se transformado nos grandes desafios para todas as gestões públicas, em todos os níveis: federal, estaduais e municipais.
São os problemas relacionados com a saúde pública sucateada, a ausência de uma educação pública de qualidade e socialmente referenciada; a insegurança pública e as várias formas de violência, principalmente a presença do crime organizado dominando territórios, pela ausência dos poderes públicos e infiltrando-se nas estruturas públicas; o drama da falta de moradia digna para a população pobre e classe média baixa; os problemas relacionados com a falta de oportunidade/trabalho digno e salário justo; e os desafios de uma administração pública distante dos cidadãos e contribuintes.
Mas, além desses desafios, não podemos esquecer o maior de todos os problemas, que é a crise climática, suas causas e consequências, ou seja, os desafios socioambientais, como fundamento para as demais políticas públicas, seguindo as exortações de cientistas e líderes do escopo de Chico Mendes, António Guterres, dos Papas Francisco e Leão XIV e outros mais.
Voltando ao artigo da médica Natasha, pré-candidata a Governadora de Mato Grosso, não podemos nos esquecer, também, que além da Região do Araguaia, o modelo de desenvolvimento seguido por governantes nas últimas décadas em Mato Grosso tem contribuído para que outras regiões também tenham se transformado em territórios esquecidos pelo Governo do Estado, como a Região Oeste/Grande Cáceres e, principalmente, a Baixada Cuiabana e o Pantanal.
Em relação à pré-candidata Natasha, apesar de seu empenho em favor de mudança de rumo na gestão pública do Estado, não tenho encontrado em seus pronunciamentos referências ou propostas de ação governamental, caso seja eleita, para realmente enfrentar os graves desafios socioambientais e ecológicos que Mato Grosso tem diante de si.
O mesmo pode-se dizer de todos os demais candidatos e candidatas, que pecam por ignorarem os desafios ambientais/ecológicos e outros de natureza estrutural que acabam criando dois Estados: um para os ricos e poderosos e outro para os pobres, excluídos e uma tímida classe média empobrecida.
Entre esses desafios/problemas podemos mencionar ou destacar a degradação e destruição dos Biomas Cerrado, Pantanal e Pré-Amazônia e sua rica biodiversidade; as questões e conflitos fundiários urbanos e rurais, principalmente em relação às terras e territórios indígenas; a grave questão da mineração e garimpos ilegais; a degradação de extensas áreas de solos; a destruição de nascentes; o uso abusivo de agrotóxicos que afetam os trabalhadores rurais, as populações no entorno das grandes áreas de cultivo que usam agrotóxicos até com drones e aviação agrícola, que também afetam a saúde dos consumidores; o desmatamento e as queimadas; outros desafios ambientais, como as PCHs que estão privatizando nossos rios, afetando a população ribeirinha e agricultores familiares e degradando o meio ambiente, principalmente o Pantanal, que corre sério risco de desaparecer, tornando-se uma região sem vida e sem atividades econômicas.
De forma semelhante, também precisamos pontuar os problemas ambientais urbanos, como degradação dos rios e córregos urbanos, transformados em verdadeiros esgotos a céu aberto, como ocorre com o Rio Cuiabá, seus afluentes e demais cursos d’água em todos os centros urbanos do Estado; a precariedade do saneamento básico; a falta de arborização urbana, principalmente na Grande Cuiabá, o maior aglomerado urbano do Estado, com mais de um milhão de habitantes, que a cada dia tem mais pavimentação e menos áreas arborizadas; as ondas de calor extremo; a questão da poluição urbana e a qualidade do ar. Enfim, parece que os desafios ambientais e ecológicos não estão presentes no diagnóstico da realidade de MT elaborado pelos candidatos tanto ao cargo de Governador quanto de parlamentares federais (Senadores e Deputados Federais) e deputados estaduais e, daí, não existem propostas concretas de ação governamental e/ou de legislação pertinente a esses desafios, a nível do Estado, seja do Poder Executivo, seja do Poder Legislativo.
Em relação aos demais candidatos, que fazem parte da vertente ou espectro ideológico da Direita, do Centrão ou Extrema Direita, tudo isso é mais do que verdadeiro, tendo em vista que representam, sem exceção, o mesmo modelo de desenvolvimento elitista, concentrador de renda, riqueza e propriedade, razão pela qual Mato Grosso tem índices de crescimento econômico que fazem “inveja” à China, à Índia e outros países mundo afora, mas tem deixado um rastro de destruição e um passivo socioambiental/ecológico imenso, impagável, além de um grande contingente de pobreza, exclusão, injustiça social e violência.
A degradação ambiental, a destruição dos Biomas e Ecossistemas afetam, de uma forma mais intensa, diretamente as camadas marginalizadas, os pobres e excluídos, daí ser necessário, imperativo, que os candidatos, principalmente a Governador/Governadora de Mato Grosso, digam aos eleitores quais são suas propostas concretas ou seus “famosos” Planos de Governo, mesmo que saibamos que tais planos, na maioria dos casos, são apenas letra morta, como se diz, “para inglês ver”.
Mas nem por isso as candidatas/os candidatos podem se omitir de, pelo menos, se pronunciarem sobre tais desafios e falarem sobre suas propostas para o enfrentamento desses problemas e desafios. Isto é o mínimo que os eleitores, as eleitoras e também os contribuintes têm o direito de ficar sabendo e, aí, poderem decidir, livremente, em quem votar de forma consciente, ao se dirigirem às urnas eletrônicas.
Esses são alguns dos pontos que ambientalistas e defensores da ecologia, dos direitos humanos e de um desenvolvimento integral e integrado, voltados ao bem comum e não apenas para as elites e os “donos do poder”, como tem sido até hoje em Mato Grosso e nos demais estados.
Por isso, gostaríamos e esperamos que todos os candidatos e candidatas levem em consideração esses aspectos em suas campanhas eleitorais, ao “dialogarem” com o povo, principalmente aqueles que pretendem romper com este modelo elitista de desenvolvimento para poucos, que vigora em Mato Grosso há muitas décadas, seja superado.
Muitos candidatos, principalmente os que fizeram parte do Governo do Estado desde 2019 e que defendem este modelo elitista e excludente, início da gestão Mauro Mendes, terão dificuldade em explicar para o povo como um Estado com tantos problemas socioambientais e de desigualdades sociais e econômicas, e também desigualdades setoriais e regionais, abriu mão de arrecadar, entre 2019 e 2026, a importância de 69,6 bilhões de reais, a título de “renúncia fiscal”, incluindo as estimativas até final de 2026, beneficiando apenas alguns setores e grupos econômicos poderosos em detrimento da população que mais precisa.
Conforme notícia veiculada no site Midia News em 30/09/2025, “Auditoria do TCE-MT aponta concentração dos incentivos fiscais em poucas empresas e regiões mais ricas e revela que esses incentivos fiscais não contribuem para reduzir desigualdades”.
Com certeza, esses incentivos também não contribuíram e nem contribuem para o enfrentamento aos desafios socioambientais, nem com a falta de recursos orçamentários para a educação, para a saúde, moradia popular digna e outras áreas importantes para a melhoria da qualidade de vida da população.
A conclusão do conselheiro do TCE/MT, Antônio Joaquim, é bem “cristalina”, muito bem sentida e percebida pela população, quando disse: “O primeiro e principal achado desta auditoria, em minha avaliação, trata-se da constatação de que as políticas de incentivos fiscais e a aplicação dos recursos dos Fundos Especiais não têm contribuído para a redução das desigualdades regionais em Mato Grosso”.
Diante de tudo isso, é fundamental não apenas uma renovação ampla e geral das “elites” governantes, tanto no plano federal, principalmente no Congresso Nacional, cuja avaliação divulgada recentemente ocupa o último lugar entre diversas instituições públicas avaliadas.
Esta renovação é necessária também nos estados, incluindo, também, uma nova forma que transforme, realmente, como a gestão pública vem sendo realizada, muito distante dos anseios, necessidades e aspirações do povo. Tudo isso precisa mudar, daí a importância do voto consciente, livre e responsável.
Lembrando sempre que voto não é mercadoria para ser comprado e vendido.
Está bem claro que precisamos romper, com urgência, este círculo vicioso em Mato Grosso e outros estados, onde governantes e candidatos, no período eleitoral, aproximam-se do povão, principalmente dos pobres e excluídos, e depois de eleitos governam para os ricos e poderosos. É fundamental uma mudança radical para inaugurarmos um novo tempo em nosso Estado e no Brasil.
Este é o significado, o sentido e o alcance dessas próximas eleições gerais de outubro de 2026.
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas, antes de tudo, é a humanidade que precisa mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração”. Papa Francisco, Encíclica Laudato Si', Vaticano, 2015.
“Já se passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato Si, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está-se esboroando e talvez aproximando-se dum ponto de ruptura. Independentemente desta possibilidade, não há dúvida de que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos”. Papa Francisco, 04/10/2023, na Exortação Laudate Deum, mensagem endereçada aos participantes da COP 28.
Promover uma educação ambiental radical envolve ir além de ações superficiais de reciclagem ou outras práticas de natureza mitigadora, mas sim ações com o objetivo de uma transformação mais profunda, focando nos comportamentos, nas atitudes, na mentalidade, nos valores, nos estilos de vida e, também ou principalmente, nas estruturas culturais, sociais, econômicas e políticas para enfrentar a crise ecológica, a cada dia mais grave, com consequências mais trágicas.
Por isso, também o Papa Leão XIV tem insistido que é preciso mudar as estruturas que geram a pobreza e a degradação ecológica e tem condenado o que seu antecessor (Papa Francisco) insistia dizendo tanto na “economia que mata”.
Neste sentido, a educação ambiental radical aproxima-se ou até mesmo passa a ser instrumento de “Conversão Ecológica”, mencionada e enfatizada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si'.
A conversão ecológica na Encíclica “Laudato Si”, prestes a completar onze anos de publicação no dia 24 deste mês de maio de 2026, é um chamado para uma transformação profunda nos corações, mentes, atitudes, comportamentos, enfim, no estilo de vida e nos sistemas econômicos que não respeitam a natureza, reconhecendo nossa contribuição para a crise socioambiental.
Não é apenas uma mudança técnica ou tecnológica, o chamado paradigma tecnocrático, mas um compromisso cristão mais profundo, de amor e da cidadania ecológica para um melhor cuidado com a “casa comum”, superando o consumismo, o desperdício, a degradação do planeta e a nossa indiferença diante da crise socioambiental e climática que estamos presenciando e sofrendo suas consequências.
Isso implica uma abordagem pedagógica, social, cultural, econômica, política e ética que questione os modelos, modos de produção e as relações de trabalho e de consumo/consumismo atuais.
Neste contexto, tanto os conceitos de conversão ecológica quanto os de educação ambiental/ecológica radical ou libertadora aproximam-se de dois outros conceitos tão enfatizados pelo Papa Francisco: economia da morte e economia da vida (Economia de Francisco e Clara).
Antes, porém, é fundamental identificarmos alguns aspectos importantes do conceito de conversão ecológica, entre os quais podemos mencionar: integração espiritual e ética, pois a conversão ecológica exige uma revisão profunda do estilo de vida, entendendo que o cuidado com o meio ambiente, com a natureza, é inseparável da dignidade humana, da justiça social, da justiça climática e dos direitos humanos e dos direitos das futuras gerações (justiça intergeracional).
Da mesma forma, é importante e fundamental termos em mente a dimensão da interconexão ou interligação entre todas as dimensões do viver humano e das relações entre natureza e humanidade, daí a ênfase de que “tudo está interligado”: fatores físicos, químicos, biológicos, sociais, políticos, econômicos e culturais. A degradação ambiental reflete também a degradação humana e as estruturas do pecado ecológico.
Outro aspecto a ser considerado é que precisamos, de fato, de uma grande mudança de paradigmas e, neste sentido, é imperioso rejeitar o paradigma tecnocrático e antropocêntrico, adotando uma “ecologia integral” que valoriza cada criatura e prioriza os mais frágeis, tendo sempre presente que “o gemido da terra” é também o gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados.
Além disso, as ações concretas decorrentes de uma conversão ecológica precisam reconhecer a “dívida ecológica” de gerações e países e adotar comportamentos e ações solidárias, reparadoras, de responsabilidades coletivas nacionais e internacionais.
Feito isto, estaremos em condições de promover uma educação ambiental ou ecológica radical e libertadora, tanto nas residências e escolas, nas Igrejas, quanto em outros espaços, como nas comunidades, nos locais de trabalho, nas organizações públicas, privadas e não governamentais.
Os países ricos não podem continuar poluindo e destruindo o planeta impunemente e, em todos os países, é preciso definir responsabilidades em relação aos crimes ambientais/pecados ecológicos.
É neste contexto que emerge/surge a educação ambiental crítica e libertadora, ampliando e aprofundando o diálogo em relação...
Vejamos, por exemplo, algumas formas de promovermos uma educação ambiental/ecológica radical e libertadora em relação ao que está acontecendo com o planeta, a partir de cada território concretamente definido.
A primeira delas é a ênfase na importância e necessidade de uma transformação profunda, radical, de estilos de vida responsáveis pela degradação ambiental, pela destruição da natureza, da biodiversidade, combatendo os sistemas econômicos que não respeitam os “limites do planeta”, nem “nosso futuro comum”, e são orientados apenas por um imediatismo visando o lucro fácil, pouco se importando com a herança socioambiental a ser deixada para as futuras gerações, além das consequências já presentes na atualidade.
Esta é uma ação que visa despertar a consciência ambiental/ecológica em diferentes públicos e motivar as pessoas a promoverem mobilizações em busca da definição de políticas públicas tanto nas dimensões reparadoras quanto mitigadoras e também para a conservação e proteção dos biomas e ecossistemas.
Paralelamente a este despertar ecológico, através de um processo de mobilização coletiva, não podemos também ignorar a importância e o papel de ações de adaptação mitigadoras, tanto individuais quanto coletivas.
Essas são ações e mobilizações para combater o consumismo, os plásticos, o desperdício, todas as formas de degradação ambiental, a geração de lixo/resíduos sólidos, enfim, as diferentes formas de poluição do solo, das águas e do ar.
Despertar as pessoas, em todas as faixas etárias, para a necessidade de incentivarmos a economia circular, a reciclagem, a agroecologia, a arborização urbana, a importância das florestas, inclusive das florestas urbanas, a agricultura urbana, hortas domésticas, escolares e comunitárias para a produção orgânica; o incentivo às práticas de economia solidária; o uso de fontes renováveis de energia (incluindo sistemas cooperativos); a importância da moradia digna e o combate ao uso de combustíveis fósseis, responsáveis por 80% das emissões de gases de efeito estufa e que contribuem para a crise climática e suas consequências.
A educação ambiental radical, libertadora, neste sentido, é uma prática revolucionária, mas fundamentalmente de natureza pacífica, porque busca criar novas formas e estilos de vida baseados no respeito à natureza, em defesa da dignidade e dos direitos humanos, na valorização dos saberes tradicionais e ancestrais e na sustentabilidade plena, diferente dos atuais sistemas produtivos que ignoram a importância de uma mudança profunda dos paradigmas que os sustentam, distantes do bem comum e de uma espiritualidade ecológica que reconhece tudo como obras da criação.
Os conflitos que porventura surgem relacionados às questões socioambientais só existem devido à resistência de alguns setores políticos, econômicos e sociais que não reconhecem que só existe um planeta e que os chamados “recursos naturais” não são inesgotáveis e que todas as obras da criação, enfim, o planeta é um bem comum, ou seja, de todos, e não podem estar apenas sujeitos à lógica mercadológica e do lucro a ser acumulado “nas mãos” ou nas contas bancárias de uma minoria privilegiada, em detrimento do direito de todos/todas usufruírem desses bens e serviços produzidos.
A educação ambiental radical e libertadora é o único caminho que nos leva a uma cidadania ecológica plena e transformadora; por isso, vale a pena caminhar nesta direção.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
Quando Presidente da República, dentro de suas atribuições constitucionais, Bolsonaro indicou dois ministros para o Supremo Tribunal Federal, um deles por ser “terrivelmente evangélico”, e ambos foram aprovados pelo Senado, sem problemas, diferente do que aconteceu com uma indicação recente do Presidente Lula.
Um deles, o “terrivelmente evangélico”, atual ministro do STF André Mendonça, acabou de autorizar medidas policiais de busca, apreensão e prisão de gente graúda, até ex-ministro do próprio governo Bolsonaro, ex-colega da Esplanada dos Ministérios do ministro do STF.
As investigações apontam ou estão apontando que o início da corrupção bilionária teve início e fortaleceu seus tentáculos exatamente no Governo Bolsonaro, daí a razão de que o Presidente do Senado, com apoio dos partidos de direita e do Centrão, tem impedido a instalação da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito — Senado e Câmara Federal), para investigar este, que tudo leva a crer e tem apontado como o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, quem viver verá, dezenas ou centenas de milhões de reais ou muito mais, talvez.
No entanto, essas tentativas de encobrir os meandros da corrupção não têm adiantado, pois Vorcaro, o “master mind” deste escândalo, preso em um hangar particular no Aeroporto Internacional de Guarulhos, prestes a voar com seu jatinho para a ilha de Malta, no Mediterrâneo, quando percebeu o destino que o aguardava na Papuda, onde estão algumas figuras ilustres da República, resolveu colaborar e “abrir o bico”, aceitando fazer a famosa “delação premiada” ou colaboração com as investigações, contando tudo o que sabe, oferecendo provas, como celulares, computadores, pen drives, anotações, gravações de conversas, enfim, está entregando e vai entregar tudo, para salvar a pele, como costumam fazer corruptos e bandidos quando o braço da Justiça aperta.
Aí é que a “porca torce o rabo”, como dizem os matutos, a partir de agora tem muita gente importante no Brasil inteiro, principalmente figuras de destaque na política nacional e em alguns estados, que já estão perdendo o sono e com crises de pânico, alguns que são candidatos já estão preocupados com tudo isso e temem serem impedidos de disputar as próximas eleições.
Sem cargos importantes para blindá-los, com certeza o “caldo” pode entornar.
Nada como um dia depois do outro, por muito tempo a narrativa era de que apenas políticos de esquerda, principalmente do PT, eram corruptos, mesmo que a nossa história, desde o descobrimento, passando pelo Brasil Colônia, Império, República Velha, República Nova e República atual, a corrupção exista, muito antes e depois da criação do PT.
Jânio Quadros fez uma carreira política meteórica usando como símbolo a vassoura e o alvo a corrupção, principalmente de Ademar de Barros, político paulista influente nas décadas de 1950 e 1960, muito antes do PT ser organizado.
O então Presidente Collor de Mello, o “caçador de marajás” das Alagoas, terra de Renan Calheiros e Arthur Lira, acabou cassado por corrupção.
No Rio de Janeiro, que é um caso emblemático, diversos governadores e parlamentares, gestores de alta envergadura, já estiveram e outros ainda estão na cadeia, e a maioria ou quase totalidade nunca foram de esquerda ou do PT.
Em Mato Grosso, da mesma forma, ao longo de décadas, antes mesmo dos governos militares, as estórias de corrupção são pródigas, basta fazer uma busca em jornais de épocas antigas ou em anais do sistema judiciário.
E, ainda em Mato Grosso, há poucos anos, diversas figuras do mundo político, como parlamentares e governadores, e até mesmo integrantes do sistema judiciário, foram alvos de investigações e diversos foram investigados, condenados, presos, usaram tornozeleiras eletrônicas e nenhum desses corruptos pertencia à esquerda ou ao PT.
Enfim, se alguém tiver interesse, basta dedicar um tempo analisando a vida política de todos os estados e milhares de municípios e irá encontrar centenas ou milhares de casos de corrupção, a grande maioria, diga-se de passagem, que “terminaram” na impunidade. Afinal, como diz o jargão popular, uma verdade absoluta até bem pouco tempo: “cadeia foi feita para pobre, preto e bandido pé de chinelo”, gente importante, gente grande, gente graúda, “amigos do Rei”, jamais irão para a prisão.
Só que esta estória parece estar mudando ultimamente e há quem diga ser esta a razão de tantos conflitos institucionais em nossa República, principalmente contra integrantes de Tribunais Superiores.
Compartilho o link de uma notícia de 07 de maio de 2026 (hoje), onde está estampada a matéria sobre o envolvimento de um ex-ministro e presidente nacional de um partido do Centrão que foi alvo dessas medidas judiciais e policiais. Fonte: site MSN/Área Vip.
Após delação de Vorcaro, ex-ministro de Bolsonaro é alvo da PF com mandado de prisão.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
“Um dos motivos pelos quais escolhi o nome “Leão XIV” é a Encíclica Rerum Novarum, escrita por Leão XIII durante a Revolução Industrial. O título Rerum Novarum significa “coisas novas”. Certamente há “coisas novas” no mundo, mas, quando dizemos isso, geralmente adotamos uma “visão a partir do centro” e nos referimos a coisas como inteligência artificial ou robótica. No entanto, hoje, gostaria de olhar para as “coisas novas” com vocês, começando pela periferia. A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar” Papa Leão XIV, no 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, em 23/10/2025.
Para entendermos o significado do Magistério Papal, é fundamental termos em mente que o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica no mundo, igreja esta que está presente, praticamente, no mundo inteiro e conta com mais de 1,422 bilhão de fiéis que, se viverem o evangelho em toda a sua plenitude e radicalidade, podem transformar a realidade, sendo o sal da terra e a luz do mundo, enquanto aguardamos o “novo céu e a nova terra”.
Neste sentido, é fundamental que o Papa, qualquer que ele seja, promova orientações relacionadas com a doutrina católica, mantendo a unidade da fé; mas também se preocupe e se posicione sobre os grandes desafios que afetam tanto católicos quanto a população mundial como um todo. Temas econômicos, sociais, políticos e geopolíticos, religiosos e culturais não podem estar ausentes das preocupações e exortações papais, jamais!
Daí a importância de, como cristãos, católicos e cidadãos de todos os países, inclusive do Brasil, acompanharmos, de perto, as “pegadas”, a caminhada, as exortações do Papa Leão XIV que, em 08 de maio de 2026, estará celebrando/comemorando seu primeiro ano na “Cátedra de São Pedro”.
No dia 21 de abril de 2025, falecia, em Roma, o Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio) e, 17 dias depois, em 08 de maio do mesmo ano (2025), o Colégio dos Cardeais elegia Robert Francis Prevost como o novo Papa, que escolheu o nome de Leão XIV, pelas razões já expostas.
Enquanto São Francisco de Assis foi a fonte inspiradora do Papa Francisco, principalmente em relação ao cuidado com a ecologia integral e com os pobres, Leão XIV inspira-se na figura de Leão XIII, um Papa que, diante do embate entre comunistas/socialistas, de um lado, e capitalistas selvagens, exploradores dos trabalhadores, de outro, em relação à situação do trabalho no final do século 19, não titubeou e escreveu/publicou a Encíclica Rerum Novarum, o marco inicial da Doutrina Social da Igreja, ainda atual na Igreja e no mundo contemporâneo.
Para muita gente, tanto dentro quanto fora da Igreja, a escolha de Leão XIV, um norte-americano de nascimento e naturalizado peruano, com formação agostiniana, enquanto Francisco era jesuíta da Argentina/América Latina, foi uma surpresa.
Mas, quando do início de um “novo” papado, tudo é novidade e, ao mesmo tempo, especulação, principalmente em relação aos rumos que cada Papa imprime à vida da Igreja, e isto gera muita expectativa e, às vezes, certa “angústia” e tensões internas na Igreja, principalmente quando consideramos a existência de alguns grupos, uns que se dizem mais conservadores e outros que se dizem e agem como mais “progressistas”, resgatando, inclusive, as conclusões do Concílio Vaticano II e as reformas decorrentes das conclusões do mesmo, encerrado em 08 de dezembro de 1965, portanto há mais de seis décadas, mas ainda totalmente válidas.
Ao longo deste seu primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou um grande respeito e amizade em relação ao legado do Papa Francisco e deu prosseguimento a aspectos fundamentais que marcaram o magistério de Francisco e “avançou” ou aprofundou outros aos quais Francisco não teve tempo de dedicar-se como era seu desejo.
Neste primeiro ano de magistério, o Papa Leão XIV tem exortado tanto a Igreja (tanto sua hierarquia eclesiástica, sacerdotes, religiosos, religiosas quanto os fiéis) a continuar no caminho da SINODALIDADE, uma igreja em saída em direção às periferias materiais, espirituais e existenciais, fiel à opção preferencial pelos pobres, razão de ser da Igreja, tão enfatizada no Concílio Vaticano II, que tanto Francisco pretendeu quanto Leão XIV pretende resgatar, como tem sido bem claro em seus pronunciamentos e exortações.
Outro aspecto fundamental abraçado por Leão XIV é o cuidado e defesa da Casa Comum, a ECOLOGIA INTEGRAL, seu compromisso com a continuidade da caminhada iniciada com a publicação da Laudato Si e das exortações Querida Amazônia e Laudate Deum, e os três “Ts” de Francisco: Terra, Teto e Trabalho.
Outro aspecto importante neste seu primeiro ano de caminhada tem sido o compromisso em defesa e acolhida dos pobres. Primeiro, de forma humilde, mencionada ao publicar a Exortação Dilexit Nos (Eu te amei), deu continuidade ao que o Papa Francisco estava escrevendo sobre os pobres, ampliando a abordagem e imprimindo a sua marca diante deste desafio mundial que são a pobreza, a exclusão e as injustiças.
Tanto é verdade que, ao definir sua intenção de oração do mês de maio deste ano (2026), escolheu como tema da exortação o combate ao desperdício de alimentos e enfatizou a importância de uma alimentação saudável, à qual os pobres têm direito.
A proposta vai além das orações e visa também ao despertar da solidariedade, da fraternidade, transformando a lógica do consumo egoísta que gera exclusão, pobreza e fome.
Lamentando o desperdício de tantos alimentos em nossas mesas, o Papa Leão XIV rezou para que o Senhor “desperte em nós uma nova consciência: que aprendamos a dar graças por cada alimento, a consumir com simplicidade, a partilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um dom de Vós, destinado a todos, e não apenas a alguns”.
Um outro tema que tem estado presente nas reflexões, nos pronunciamentos e nas atitudes e tentativas de mediação de Leão XIV são as guerras, os conflitos armados, a violência em geral e todas as suas formas particulares, incluindo a violência doméstica e de gênero.
Em lugar da violência como forma de “resolução” de conflitos, o Papa Leão XIV tem apresentado a proposta do diálogo e, no contexto dos conflitos e guerras entre países, tem insistido que o caminho é a diplomacia.
Em decorrência, tem sofrido ataques por parte de alguns governantes que promovem guerra em lugar da paz, mas isto não o tem demovido de suas convicções e atitudes.
Ele tem também condenado as guerras de conquista de territórios, os genocídios, as migrações em massa, em consequência da destruição tanto material quanto de vidas humanas inocentes. Sendo que uma de suas propostas é o desenvolvimento de uma cultura da paz, onde, ou em que, a Igreja, melhor, as Igrejas e religiões têm um papel preponderante.
Neste mesmo contexto, o Papa Leão XIV tem insistido também em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso como caminhos em busca da paz e da construção de um mundo justo, sustentável, mais humano e mais tolerante.
Este empenho fica bastante claro em seu primeiro pronunciamento a representantes de diversas religiões, em 19 de maio de 2025, no Vaticano, quando afirma aos presentes que “a sinodalidade e o ecumenismo estão intimamente relacionados” e afirmou mais sua intenção de continuar o compromisso do Papa Francisco em promover “o caráter sinodal da Igreja Católica e em desenvolver formas novas e concretas para uma sinodalidade cada vez mais intensa na esfera ecumênica”.
Esses são alguns dos aspectos, além de diversos outros que não são abordados nesta oportunidade, que marcam este primeiro ano do magistério do Papa Leão XIV. Vida longa, para que sua jornada produza frutos que fortaleçam a Igreja ao redor do mundo, em sua caminhada evangelizadora, em defesa dos direitos humanos em sua plenitude, da justiça social, justiça ambiental, justiça intergeracional.
Mas, para tanto, o Papa Leão também tem insistido na necessidade de reformas mais profundas na Igreja, como podemos ver na Audiência Geral de hoje (06/05/2026), quando disse claramente: “Nenhuma instituição eclesial pode ser absolutizada; antes, já que vivem na história e no tempo, são chamadas à conversão contínua, à renovação das formas e à reforma das estruturas, à regeneração constante das relações, para que possam verdadeiramente corresponder à sua missão”.
Essas são as marcas deste primeiro ano de pontificado de Leão XIV, mas que apontam novos rumos para a Igreja, inserida na história e na realidade, diante do compromisso em busca do “Reino”.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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