ANDES-SN inicia levantamento sobre situação financeira das seções sindicais
O ANDES-SN encaminhou, nessa segunda-feira (1º), a Circular nº 225/2026 solicitando às seções sindicais informações sobre arrecadação, quadro de sindicalização, despesas e custos eleitorais. O levantamento integra os estudos da Tesouraria Nacional e atende a uma das indicações apontadas durante o II Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, realizado entre os dias 22 e 24 de maio, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
II Seminário Nacional tratou do Fundo Único, entre outras pautas. Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
De acordo com a circular, os dados irão subsidiar a Tesouraria Nacional a aprofundar os estudos em curso, especialmente aqueles relacionados aos Textos de Resolução (TRs) que propõem ao ANDES-SN formas de apoio financeiro às seções sindicais, aos eventos deliberativos e ao processo eleitoral. A implementação dessas medidas depende da análise de sua viabilidade financeira.
Para isso, foi disponibilizado um formulário com perguntas sobre número de sindicalizadas e sindicalizados, formas de arrecadação, despesas com manutenção de sede, pessoal e eleições. As respostas deverão ser enviadas até o dia 15 de julho.
Acesse o formulário aqui.
Leia a Circular nº 225/2026
Fonte: Andes-SN
II Seminário Nacional do ANDES-SN debate organização sindical, financiamento e democracia interna
Mais de 100 docentes de diferentes regiões do país participaram, entre os dias 22 e 24 de maio, em Campinas (SP), do II Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN. O encontro se consolidou como um importante espaço de debate coletivo sobre os desafios organizativos, financeiros e democráticos do Sindicato Nacional e aprofundou discussões que irão subsidiar o Conad Extraordinário, previsto para novembro em Brasília (DF).
Realizada no Auditório Milton Santos, no Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a atividade tratou dos Textos de Resolução (TRs) do Tema IV - Questões Organizativas e Financeiras, que não foram apreciados no 44º Congresso do ANDES-SN, realizado em março deste ano.
Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN
Antes do início dos debates, na manhã de sexta-feira (22), ocorreu o lançamento oficial do Painel “Mais Verbas”, plataforma interativa do ANDES-SN voltada ao acompanhamento dos dados sobre o financiamento das instituições públicas federais e estaduais de ensino superior no Brasil. Durante a apresentação, Diego Marques, 2º tesoureiro e encarregado de Imprensa e Divulgação do ANDES-SN, destacou que o portal foi criado para ampliar o debate público e fortalecer a mobilização em defesa da educação superior pública. “O portal é bastante intuitivo e vai ajudar nossos colegas pesquisadores, vai ampliar o debate com a categoria e permitir que a sociedade brasileira conheça melhor a situação do financiamento das instituições públicas de ensino superior no país”, afirmou. Acesse aqui o painel aqui.
Fundo Único e rateio
A primeira plenária discutiu o Fundo Único e o sistema de rateio dos eventos deliberativos da entidade. Entre as propostas apresentadas, o TR 80 sugere a suspensão temporária das contribuições ao Fundo Único quando as reservas financeiras do Sindicato Nacional ultrapassarem determinado limite em relação à arrecadação anual. Já o TR 87 propõe utilizar parte do “superávit financeiro”, quando houver, para reduzir os custos de participação das seções sindicais em Congressos e Conads. O TR 88, por sua vez, defende que o caixa nacional assuma integralmente os custos dos eventos deliberativos, extinguindo o atual modelo de rateio.
Na abertura do debate, Sérgio Barroso, 1º tesoureiro do ANDES-SN, afirmou que a discussão envolve não apenas aspectos financeiros, mas também princípios históricos de solidariedade e autofinanciamento da entidade. Segundo ele, o atual sistema — com 80% da arrecadação destinada às seções sindicais e 20% ao caixa nacional — é fundamental para garantir a sustentação política e organizativa do ANDES-SN. Para o tesoureiro, a criação de um teto ou o fim do Fundo Único comprometeria a capacidade de luta e resistência do sindicato diante dos ataques à educação pública.

Em contraponto, Michele Schultz, docente da Universidade de São Paulo (USP) e uma das signatárias do TR 80, argumentou que a proposta não busca extinguir o Fundo Único, mas revisar sua metodologia diante das dificuldades financeiras enfrentadas por diversas seções sindicais. De acordo com ela, o objetivo é estabelecer critérios proporcionais à arrecadação da entidade, preservando o funcionamento das bases locais.
As intervenções evidenciaram posições distintas sobre o modelo de financiamento do Sindicato Nacional. Parte das falas defendeu a manutenção do Fundo Único e do rateio como expressão de uma concepção sindical baseada na solidariedade e no fortalecimento coletivo das bases. Outras intervenções cobraram maior flexibilização das contribuições, transparência nos gastos e revisão das metodologias de arrecadação e distribuição dos recursos.
De acordo com Virgínia Assunção, 2ª vice-presidenta da Regional Nordeste 1 do ANDES-SN, o debate foi marcado por ampla participação da categoria e ajudou a aprofundar a reflexão sobre a organização financeira da entidade. “A plenária foi muito participativa e evidenciou o papel do Conad como espaço de fiscalização e transparência do Sindicato Nacional. Todas as prestações de contas e investimentos da direção nacional são públicas e debatidos coletivamente”, afirmou.
Fundo eleitoral e custeio
A segunda plenária abordou o financiamento das eleições do ANDES-SN, o custeio dos processos eleitorais nas seções sindicais e o uso da virtualidade nas eleições.
O TR 79, apresentado pela diretoria, propõe a elaboração de estudos e debates sobre o financiamento das chapas nas eleições nacionais e sobre formas de reduzir o impacto do rateio dos eventos para as seções sindicais.
Maria do Céu, 3ª tesoureira do Sindicato Nacional, destacou que o debate envolve não apenas os custos das eleições, mas também os desafios da multicampia e da autonomia das seções sindicais. Para a diretora, diferentes realidades convivem no sindicato, com bases que realizam eleições simultâneas às da diretoria nacional e outras que adotam calendários próprios.

Já o TR 86 propõe que os custos das eleições da diretoria nacional sejam financiados pelo caixa nacional, além da criação de um modelo de financiamento público e igualitário para as campanhas das chapas.
Na defesa da proposta, Fran Rebellato, diretora da Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Sesunila SSind.), argumentou que as questões organizativas e financeiras estão diretamente ligadas à política sindical e apontou a existência de um “déficit de democracia interna” no Sindicato Nacional. Ela defendeu um percentual da arrecadação anual do ANDES-SN para o financiamento igualitário das chapas eleitorais, sob coordenação da comissão eleitoral. No entanto, ressaltou que os percentuais e formatos ainda devem ser construídos coletivamente nos espaços deliberativos do sindicato.
Parte das intervenções manifestou preocupação com o uso de recursos do caixa nacional para financiar campanhas eleitorais, argumentando que isso poderia estimular a fragmentação política e ampliar disputas burocráticas internas. Também houve críticas ao uso da virtualidade nas eleições, considerada por algumas intervenções um fator de enfraquecimento da participação sindical presencial.
“Foram relatadas as dificuldades financeiras das seções sindicais e a possibilidade de ampliar a democracia do sindicato com o financiamento pelo caixa nacional. Por outro lado, foram expostas dúvidas de que o caixa nacional tenha condições de arcar com todos esses custos e de que essa política esteja de acordo com algumas questões, que são muito caras para nós, como a concepção de Sindicato Nacional, em que as seções sindicais compartilham essa responsabilidade com a diretoria nacional, assim como o fazem no processo de elaboração e implementação da política do Sindicato Nacional”, avaliou Daniele Cunha, 1ª vice-presidenta da Regional Rio Grande do Sul do ANDES-SN.
Democracia e proporcionalidade
Os debates continuaram na manhã de sábado (23) com a plenária sobre composição da diretoria nacional e das secretarias regionais.
O TR 83 defende o aperfeiçoamento da democracia interna, propondo que a constituição da Diretoria Nacional do ANDES-SN passe a adotar o critério da proporcionalidade qualificada. Com isso, a composição da diretoria passaria a refletir os votos obtidos por cada chapa nos processos eleitorais, remetendo ao 69º Conad a tarefa de construir as mudanças estatutárias necessárias para serem objeto de deliberação no 45º Congresso do ANDES-SN.
Welbson Madeira, docente da Universidade Federal do Maranhão (Ufma) e um dos signatários da proposta, afirmou que o modelo atual, baseado em chapas majoritárias, já não responde à diversidade política existente na categoria e defendeu a adoção da proporcionalidade na composição da diretoria e das secretarias regionais para ampliar a democracia interna e garantir maior representação das diferentes correntes políticas na direção do ANDES-SN.
Ele argumentou que o sindicato deve funcionar como uma “frente única”, assegurando espaço para que todas as forças políticas possam expressar suas posições nas instâncias e diretorias. O docente questionou a estrutura atual da direção nacional e das secretarias regionais, defendendo que o modelo foi concebido em outro contexto histórico e precisa ser atualizado diante da fragmentação política existente hoje no movimento docente.

Já o TR 85, que propõe que as secretarias regionais sejam eleitas em chapas separadas da direção nacional dentro do mesmo processo eleitoral, foi defendido pela docente Soraya de Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Segundo ela, há uma “crise organizativa” no ANDES-SN com o excesso de centralização e dificuldades para a expressão de posições minoritárias nos espaços deliberativos. A docente também defendeu o fortalecimento político das secretarias regionais, com maior protagonismo na articulação das lutas locais e nacionais, e afirmou que mudanças organizativas podem contribuir para “oxigenar” a direção do sindicato e ampliar a participação democrática da base.
Márcio Ribeiro, presidente da Associação de Docentes da USP (Adusp Seção Sindical), defendeu o TR 93, que abre a possibilidade para o voto não presencial exclusivamente para eleições de diretorias e conselhos de representantes, desde que aprovada em assembleia local e respeitados os princípios de sigilo e transparência.
Para Ribeiro, a proposta trata exclusivamente da autonomia das seções sindicais para definir a forma de realização de suas eleições internas, sem alterar o caráter presencial das instâncias deliberativas do sindicato. O docente destacou que o texto diferencia os momentos de debate político e formulação coletiva — que, segundo ele, devem permanecer presenciais — do momento específico da votação eleitoral, que poderia ocorrer de forma eletrônica. Conforme ele, as eleições presenciais têm se tornado cada vez mais complexas e custosas, especialmente em seções sindicais multicampi, como a Adusp SSind., diante das dificuldades para garantir voluntários, urnas e logística em unidades espalhadas geograficamente.
Já o TR 89 propõe eleições mais inclusivas, ao exigir que o regulamento eleitoral seja aprovado em Congresso e que a Comissão Eleitoral tenha constituição proporcional às forças presentes. Sugere ainda a implementação de votação secreta e individual por ferramentas digitais acessíveis, visando garantir a participação de docentes aposentados e aposentadas, de pessoas com deficiência e daquelas com mobilidade reduzida.
Marcos Soares, 1º vice-presidente da Regional São Paulo do ANDES-SN, defendeu que o debate sobre proporcionalidade ou majoritariedade deve partir do princípio da democracia sindical, mas considerar também a “materialidade” da organização do sindicato. Segundo ele, mecanismos como o rateio solidário, os comandos nacionais de greve e as assembleias de base já expressam uma concepção democrática construída historicamente no ANDES-SN.
O diretor argumentou ainda que as chapas representam programas políticos distintos e avaliou que uma direção proporcional poderia gerar dificuldades de implementação política, diante da existência de diferentes programas na mesma gestão. Soares também se posicionou contra a proposta de eleições separadas para diretorias regionais e nacional, afirmando que isso fragmentaria a concepção de Sindicato Nacional e criaria uma cisão entre as estruturas regionais e a direção nacional.

Já Diego Marques, 2º tesoureiro do Sindicato Nacional, destacou que o ANDES-SN surgiu em um contexto de forte unidade de ação da classe trabalhadora durante a redemocratização e a resistência ao neoliberalismo, mas avaliou que o cenário atual é marcado por maior fragmentação política, tanto no sindicato quanto no conjunto da esquerda e do movimento sindical.
Marques afirmou que o principal desafio é preservar o sindicato como instrumento de unidade de ação da categoria, independentemente do modelo de direção adotado. Para ele, o fundamental é garantir que o ANDES-SN continue expressando os diferentes níveis de consciência política da categoria e seja capaz de construir direção coletiva da classe trabalhadora. Segundo o diretor, o debate organizativo deve buscar formas de enfrentar a fragmentação política sem comprometer a unidade sindical.
Em seguida, o debate foi aberto às e aos presentes, que apresentaram suas defesas sobre democracia interna, proporcionalidade e virtualidade nas eleições das seções sindicais.

Uma parte das intervenções defendeu que o ANDES-SN já possui uma estrutura profundamente democrática, baseada nas decisões de congressos, assembleias e instâncias de base, avaliando que a proporcionalidade poderia ampliar a fragmentação política, burocratizar o funcionamento da entidade e enfraquecer a unidade do Sindicato Nacional. Também houve críticas às propostas de eleições virtuais e separadas para as regionais, consideradas fatores de desagregação política e afastamento do trabalho de base.
Por outro lado, docentes favoráveis à proporcionalidade argumentaram que o modelo atual já não responde à diversidade política existente na categoria e que mudanças organizativas poderiam ampliar a participação democrática, oxigenar a direção e enfrentar práticas consideradas hegemonistas ou autoritárias. Algumas falas também defenderam a necessidade de atualizar o modelo organizativo do sindicato diante das transformações históricas do movimento sindical e da fragmentação política da esquerda.
As intervenções ainda recuperaram aspectos históricos da fundação do ANDES-SN, das disputas entre modelo federativo e sindicato nacional, da relação com outras entidades sindicais e da defesa da autonomia sindical frente aos governos e ao Estado. Também foram levantadas preocupações com o risco de aparelhamento político, os desafios da participação em seções multicampi e os impactos do uso de ferramentas digitais sobre a organização coletiva da categoria.
De acordo com Jacqueline Magalhães Alves, 1ª vice-presidenta da Regional Leste do ANDES-SN, a mesa contribuiu para aprofundar a reflexão sobre os desafios organizativos e políticos do Sindicato Nacional. “O debate evidenciou diferenças de posicionamento, mas também o compromisso coletivo com a construção dos próximos espaços deliberativos, a partir de propostas amadurecidas à luz da trajetória histórica do ANDES-SN, que segue fortalecendo a luta há 45 anos, e da defesa da educação pública e dos direitos da classe trabalhadora”, afirmou.
Projeções
Ainda no sábado (23), antes do início dos debates, o 1º tesoureiro do ANDES-SN, Sérgio Barroso, apresentou projeções financeiras sobre as propostas em debate no seminário, como a ampliação do apoio às seções sindicais menores para participação em atividades nacionais, o financiamento das eleições e a criação de um fundo eleitoral.
Segundo Barroso, com a ampliação do critério de apoio para seções com até 350 filiadas e filiados, já aprovada no 44º Congresso, o custo estimado anual seria de cerca de R$ 1,5 milhão, o que representaria aproximadamente 38% da arrecadação do Fundo Único em 2025. Ele alertou que, somadas às demais despesas já custeadas pelo fundo — como apoio a greves, jornadas de luta e mobilizações nacionais —, novas ampliações poderiam ultrapassar a capacidade financeira do sindicato.

O tesoureiro também apresentou estudos sobre o impacto de assumir parte dos custos das eleições das seções sindicais e da criação de um fundo eleitoral para financiamento das chapas. De acordo com as simulações da Tesouraria, levando em conta a destinação de 5% da receita do ano anterior, com média de R$ 20 mil por seção sindical, o ANDES-SN não teria condições de sustentar a medida sem comprometer suas reservas financeiras.
Formato dos eventos
A plenária seguinte debateu os formatos dos eventos do ANDES-SN. Três textos de resoluções tratam do tema.
O TR 79, da diretoria do ANDES-SN, propõe reorganizar o formato do Conad para adequá-lo ao que prevê o Estatuto do Sindicato Nacional, com debates distribuídos em três temas centrais, criação de grupos mistos para os temas organizativos e de plano de lutas, redefinição do tempo das plenárias e fim do mecanismo de remessa automática de pendências entre eventos deliberativos.
Já o TR 88 sugere que os custos de participação de observadores e observadoras sejam limitados às despesas efetivas do evento, como materiais e coffee break, com cobrança específica às seções sindicais apenas para esses participantes.
O TR 91 propõe uma ampla reformulação dos métodos organizativos do sindicato, incluindo planejamento bianual dos Grupos de Trabalho, realização de congressos a cada dois anos, reorganização das plenárias e grupos mistos, redução das jornadas consideradas exaustivas e revisão dos formatos de debate e tramitação dos TRs. O texto também prevê mudanças no funcionamento dos Conads, com encontros prévios dos GTs, sínteses políticas e reformulação dos métodos deliberativos para garantir maior fluidez e participação nos debates.
Caroline Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN, afirmou que as discussões acumuladas desde o I Seminário de Questões Organizativas evidenciam que os atuais formatos do Congresso e do Conad já não conseguem dar conta do volume de TRs, das demandas políticas e do tempo necessário para os debates.
A diretora destacou que, desde 2022, os espaços deliberativos do sindicato vêm encerrando suas atividades com pendências acumuladas, fazendo com que um Congresso ou Conad comece discutindo temas não finalizados da edição anterior. De acordo com a diretora, o crescimento do número de TRs — intensificado mesmo após o fim do caderno anexo — e o pouco tempo destinado às questões organizativas no Tema IV revelam um “esgotamento” do modelo atual.

Ela também chamou atenção para os impactos das longas jornadas dos eventos sobre as e os docentes, especialmente diante do aumento da pressão das administrações universitárias sobre a participação sindical após o período de intervenções nas instituições federais. Segundo ela, permanecer até dez dias fora das atividades acadêmicas para participar de congressos e conads tem gerado dificuldades para as e os docentes, que não possuem licença sindical.
Entre as reflexões apresentadas para o debate coletivo, Caroline mencionou a possibilidade de rever quóruns, limitar ou reorganizar a tramitação de TRs, ampliar o percentual de destaque de propostas minoritárias nas plenárias e discutir novos formatos para os eventos deliberativos. Também foram levantadas hipóteses como a realização de dois congressos por ano, com duração reduzida, ou mudanças na estrutura das plenárias e grupos mistos.
Ao final, a diretora ressaltou que a direção nacional não apresentou respostas fechadas às questões debatidas e defendeu a construção coletiva de propostas para o Conad Extraordinário, por meio de uma comissão composta por diretoria e base sindical. Sobre o TR 91, que propõe alterações mais profundas no calendário dos eventos, incluindo congressos bianuais, Caroline avaliou que a proposta é inviável nos moldes apresentados, sobretudo pela sobrecarga organizativa que geraria ao concentrar GTs, setores e Congresso em um mesmo período.
Após a fala da diretora, foi aberto o debate e docentes puderam opinar sobre o formato dos eventos deliberativos e divergiram sobre o funcionamento das plenárias e organização dos espaços do sindicato. Parte das intervenções defendeu a manutenção da livre apresentação de TRs, sem exigência de aprovação prévia em assembleias, como forma de garantir a pluralidade política da categoria.

Outras falas apontaram dificuldades práticas no funcionamento das instâncias, como excesso de textos, atrasos, falta de leitura prévia dos cadernos e sobrecarga das plenárias, defendendo mudanças metodológicas para otimizar os debates. Também houve posições favoráveis à limitação do temário do Conad, para evitar que o espaço funcione como um segundo congresso anual, enquanto outras defenderam mais tempo para aprofundar as discussões políticas.
As intervenções ainda abordaram a necessidade de reorganizar os grupos mistos, os impactos da longa duração dos eventos sobre a saúde e as condições de trabalho das e dos docentes, além dos limites financeiros e estruturais para realização de congressos.
Segundo Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN, a plenária 4 foi “muito importante por tratar de questões relacionadas ao formato do Conad e, consequentemente, ao funcionamento dos GTs e das plenárias, bem como ao tempo de duração desses espaços, no sentido de melhorar a dinâmica desse importante espaço de debate das questões organizativas, financeiras e administrativas do ANDES-SN”.
A diretora destacou ainda que, ao longo do tempo, o Conad passou a concentrar TRs que não conseguiram ser debatidos nos congressos anteriores. “Repensar o formato do Congresso do Sindicato Nacional torna-se uma tarefa essencial da nossa categoria, na tentativa de otimizar o tempo, qualificar ainda mais o debate político e organizar as lutas da categoria”, afirmou.
Pequenas seções e a virtualidade
A última plenária, realizada neste domingo (24), debateu as políticas de apoio para seções sindicais pequenas e o uso da virtualidade nos espaços do ANDES-SN, a partir dos TRs 90,94 e 95.
O TR 94 propõe a realização de seminários específicos sobre a política financeira do ANDES-SN, com o objetivo de discutir formas de apoio às seções sindicais com menor capacidade financeira, além da elaboração de estudos técnicos sobre possíveis limites para o Fundo de Mobilização.
Já o TR 90 defende a adoção de tecnologias híbridas nas reuniões de GTs, encontros temáticos e reuniões de setores, permitindo participação virtual individual e identificada das pessoas sindicalizadas. O TR 95 propõe a criação de uma política permanente de apoio às seções sindicais com até 500 filiadas e filiados, garantindo infraestrutura mínima de funcionamento, como sede, serviços de secretaria, comunicação, contabilidade e assessoria jurídica.
Edson Franco, presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal da Paraíba (Adufpb SSind.) e um dos signatários do TR 94, defendeu a realização de um seminário específico para discutir a política financeira do sindicato e avaliar formas de ampliar o apoio às seções sindicais com menor capacidade financeira.
Segundo Franco, muitas seções enfrentam dificuldades para manter estruturas básicas, como sede, assessoria jurídica e comunicação. Ele argumentou que os superávits registrados pelo sindicato poderiam ser parcialmente utilizados para reduzir os custos das seções sindicais com participação em congressos e Conads, sem comprometer a sustentabilidade financeira do ANDES-SN. O docente também cobrou maior planejamento financeiro, defendendo estudos técnicos e projeções de longo prazo para subsidiar as decisões políticas e orçamentárias da entidade.
Já Lívia Santos, 1ª vice-presidenta da Regional Planalto do ANDES-SN, reconheceu as dificuldades financeiras enfrentadas pelas seções sindicais, mas ponderou que as propostas de financiamento amplas, apresentadas no seminário, são inviáveis do ponto de vista orçamentário. Ela apresentou estimativas da Tesouraria, que apontam custos exorbitantes para subsidiar infraestrutura mínima, aluguel e contratação de funcionários para dezenas de seções sindicais.
A docente defendeu a busca de alternativas mais sustentáveis, como novos critérios de rateio, compartilhamento de experiências administrativas e suporte técnico entre as entidades. Sobre a virtualização das atividades, defendida pelo TR-90, alertou que a ampliação da participação online pode gerar esvaziamento político, dificuldades organizativas e sobrecarga decorrente do tempo excessivo em frente às telas, exigindo mudanças estruturais no formato dos GTs e reuniões do sindicato.
Os debates reuniram diferentes avaliações sobre os desafios organizativos e financeiros do ANDES-SN. Parte das falas defendeu maior apoio às seções sindicais menores, diante das desigualdades de estrutura e arrecadação, enquanto outras alertaram para os limites orçamentários e os altos custos das mobilizações nacionais. Também houve divergências sobre o funcionamento dos congressos e GTs e sobre o uso da virtualidade nas atividades sindicais.

Surgiram defesas da virtualidade como instrumento formativo e de democratização, contrapostas por preocupações com a precariedade tecnológica, o esvaziamento político e os impactos organizativos das atividades híbridas. Outro eixo importante do debate foi a necessidade de fortalecer as campanhas de sindicalização e reorganizar a atuação das seções sindicais diante da redução de filiadas e filiados.
Para Marcos Soares, diretor do Sindicato Nacional, a plenária foi marcada por um debate amplo e diverso sobre as políticas de apoio às pequenas seções sindicais e o uso da virtualidade nos espaços do ANDES-SN. “As seções têm uma saúde financeira diferente umas das outras”, afirmou, destacando que há entidades sem sede ou funcionários, enquanto outras possuem estrutura própria e maior arrecadação.
Um encaminhamento importante, apontado por ele, foi a proposta de envio de circulares às seções sindicais para levantar dados sobre número de sindicalizadas e sindicalizados e a arrecadação mensal, permitindo à diretoria construir um “raio-x” financeiro que subsidie propostas “exequíveis” para o sindicato.
Encerramento
Na plenária de encerramento, Regina Célia da Silva, 2ª vice-presidenta da Regional São Paulo do ANDES-SN e da direção da Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp Ssind.), destacou a coragem do ANDES-SN em enfrentar coletivamente os desafios organizativos e financeiros do sindicato e ressaltou a importância da unidade e organização das seções sindicais em suas bases.

O presidente do ANDES-SN, Cláudio Mendonça, agradeceu à Regional São Paulo, à Adunicamp SSind. e a todas e todos que participaram do seminário. Em sua avaliação, o espaço demonstrou a riqueza e a legitimidade dos debates construídos pelas seções sindicais, mesmo diante de divergências. O presidente destacou ainda os desafios que estarão colocados para o próximo período, especialmente no Conad Extraordinário, quando o Sindicato Nacional deverá aprofundar o debate sobre sustentabilidade financeira, fortalecimento das seções sindicais e possíveis mudanças na estrutura organizativa, para preservar e fortalecer o ANDES-SN.
“Hoje, nós temos seções sindicais que passam por situações muito delicadas, não só pequenas seções sindicais, mas médias e grandes. E a gente vai ter que debater coletivamente como preservar a saúde financeira do nosso Sindicato Nacional e, ao mesmo tempo, como permitir que as seções sindicais, que são a materialidade cotidiana do ANDES-SN nas universidades, possam aplicar a política do nosso Sindicato Nacional”, afirmou.
Fonte: Andes-SN
Fotos: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN
Tem início o XVII Encontro da Regional Pantanal do Andes-SN na Adufmat-Ssind
Começou, nesta sexta-feira, 08/05, o XVII Encontro da Regional Pantanal do Andes-Sindicato Nacional, na sede da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind), em Cuiabá. Serão dois dias de atividades com o objetivo de debater e encaminhar deliberações e planos de luta do sindicato nacional, além de promover a articulação entre as seções sindicais e intensificar a unidade de ação no âmbito da educação superior.
A programação teve início pela manhã, com visitação à sede da Regional Pantanal, com uma cerimônia de inauguração do espaço adquirido recentemente, no bairro Bandeirantes. No período da tarde, a mesa de abertura contou com a presença de representantes de entidades locais parceiras, como o Sindicato dos Trabalhadores Técnicos-administrativos da UFMT (Sintuf-MT), a Associação dos(as) Amigos(as) do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes (AAMOBEP) e a Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), Diretório Central dos Estudantes (DCE – UFMT Cuiabá). A administração superior, por meio da Pró-Reitoria de Ensino e Graduação (Proeg), também compôs a mesa, além das representações das seções sindicais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – que formam a Regional Pantanal.
Os presentes destacaram a importância da realização do evento em Mato Grosso, estado que tem as relações marcadas pelo conservadorismo e pela forte presença do agronegócio. “É uma satisfação receber este evento, especialmente num momento em que, além de todas as questões nacionais, nós vivenciamos, em âmbito local, uma pressão política e empresarial para forçar o desmembramento do campus da UFMT em Sinop. Nós estamos lutando para garantir um debate democrático e debater multicampia”, afirmou o diretor-geral da Adufmat-Ssind, Breno Santos.
Ainda no primeiro dia, os participantes realizaram o Painel 1, que abordou a conjuntura política e abriu espaço para que as seções sindicais apresentassem suas demandas e pautas específicas. Alguns dos anseios apresentados foram, justamente, as pressões políticas e econômicas nas universidades, os ataques da extrema-direita.
A professora Ivanete Santos, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), diretora da Adufmat-Rondonópolis, relatou, entre outras coisas, que há docentes reavaliando o processo de emancipação, efetivado em 2018 – que em Rondonópolis se deu por iniciativa da comunidade acadêmica, diferentemente do que está ocorrendo na UFMT – no sentido de que esse não teria sido um bom passo.
A docente da Universidade do Estado de Mato Grosso e presidente da Adunemat, Luciene Neves, também falou sobre questões que desafiam a autonomia universitária, além dos ataques de fascistas e a luta dos servidores de Mato Grosso pelo direito ao Reajuste Geral Anual (RGA).
O professor Marcelo Batarce, diretor da Seção Sindical do Andes-SN na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Aduems), falou sobre a unidade na luta, que deve se dar diante das convergências e também das divergências dentro da categoria, e defendeu o fortalecimento da luta pelo reenquadramento dos docentes aposentados.
Citando Pedro Casaldáliga, que dá nome ao largo onde a sede da Adufmat-Ssind está localizada, o professor José Roberto Oliveira, diretor da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Adufms), declarou: “malditas sejam todas as cercas que nos impedem de viver e amar”, contextualizando não apenas a existência das cercas do latifúndio, mas as ideias que limitam o imaginário social no estado. Em seguida, relatou também a realidade da categoria na universidade onde trabalha, denunciando uma pseudo-democracia criada com a participação do sindicato nos espaços institucionais. “A gente está lá, falando, se posicionando, mas a gente perde sempre. Às vezes é até constrangedor assinar a ata das reuniões do conselho. Temos que avaliar essa participação”, avaliou.
No sábado, a programação continua com o Painel 2, voltado às questões organizativas, administrativas, financeiras e políticas do ANDES-SN, com participação dos docentes Sérgio Luiz Carmelo Barroso (primeiro tesoureiro do Andes-SN) e Eblin Farage (ex-presidente do Andes-SN). À tarde, o Painel 3 discutirá o plano de lutas e estratégias de ação, com contribuições de Josevaldo Cunha (primeiro vice-presidente da Regional Nordeste II) e Luciana Henrique da Silva (primeira vice-presidente da Regional Pantanal).
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
ANDES-SN 45 anos: duas décadas de luta nas Federais culminaram em uma greve de fome em 1998
Ao longo de 2026, ano em que celebramos os 45 anos de fundação do ANDES-SN, preparamos uma série de reportagens que resgatam a trajetória do Sindicato, marcada pela resistência ininterrupta em defesa da educação pública e da categoria docente. A cada mês, publicaremos textos que, a partir de um objeto ou acontecimento, refletem momentos importantes dessa construção.
Duas décadas de luta e uma greve de fome
A história da categoria docente, nas décadas de 1980 e 1990, consolidou a greve como o instrumento máximo de luta contra o sucateamento e a retirada de direitos. Esse ciclo iniciou-se com a paralisação de 1980, que resultou na própria criação da Associação dos Docentes de Ensino Superior (ANDES) em 1981.
O movimento docente atravessou a década de 1980 com mobilizações sucessivas em 1982, 1984, 1985 e a marcante greve de 1987, que conquistou o Plano Único de Classificação e Retribuição de Cargos e Empregos (PUCRCE) e a isonomia entre autarquias e fundações.
Nos anos 1990, o desafio deslocou-se para o enfrentamento ao projeto neoliberal, com a histórica greve de 1991 — a maior do Setor das Instituições Federais de Ensino até então, com 107 dias — além dos embates em 1993, 1994 e 1996 contra as contrarreformas administrativa e previdenciária impostas pelos governo de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.
Os avanços desse período incluíram a garantia da autonomia universitária, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, e vitórias na política salarial e de aposentadoria. Contudo, o desafio permanente era enfrentar governos que aplicavam ajustes estruturais recomendados pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que tinham como alvo as universidades públicas.
Como testemunha e protagonista dessa história, a professora Celi Taffarel, ex-secretária-geral do Sindicato Nacional (gestão 2002-2004), viveu intensamente esse processo. A docente já foi vinculada às universidades federais de Pernambuco (UFPE) e de Alagoas (Ufal) e, atualmente, é professora da Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN
Ela enfatizou que, naquela época, o movimento docente deliberava pela greve "de dois em dois anos", para enfrentar as sucessivas tentativas de desmonte da educação pública. Para Celi, a docência e o sindicato são instrumentos indissociáveis de um projeto histórico de nação soberana e humanizada.
A docente contou que o momento mais agudo dessa história foi a greve de professores e professoras de 1998. A paralisação reuniu 51 instituições federais, durante 104 dias, contra os ajustes estruturais do governo de Fernando Henrique Cardoso.
1998: Luta por dignidade
O movimento paredista de 1998 destacou-se pela realização da única greve de fome de docentes federais do ANDES-SN. Diante da intransigência do governo de Fernando Henrique Cardoso, que impunha gratificações meritocráticas (como a Gratificação de Estímulo à Docência - GED) e excluía aposentados e aposentadas e professores e professoras de 1º e 2º graus, a categoria radicalizou.
“Em 1998, nós fizemos uma greve, que foi a segunda maior greve do nosso sindicato, até então. Antes de deflagrarmos a greve, a professora Maria Cristina de Morais, que era presidente do ANDES-SN, protocolou, por encaminhamento das assembleias, a nossa pauta de reivindicação do Setor das Federais. E, se vocês lerem esse documento, vocês podem verificar o quanto, desde aquela época, nós tínhamos pautas que continuam em nossa luta até hoje”, comentou Taffarel.
A docente lembrou que as lutas pelo padrão unitário de qualidade, que vincule a universidade à sua função social, pelo desenvolvimento da educação pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referenciada, por mais financiamento e pela democratização interna das instituições já estavam na pauta da categoria.“Naquela época, nós já lutávamos contra a reforma administrativa. Nós queríamos uma política salarial que realmente recompusesse o nosso salário perante as perdas. E queríamos também que tivéssemos incorporadas as gratificações, que eram penduricalhos, pois quando nos aposentávamos, nós não tínhamos direito a essas gratificações. E os aposentados, portanto, sofriam muito”, acrescentou.
A professora afirmou que o movimento também apresentou uma pauta emergencial, com itens que deveriam ser imediatamente atendidos. “Nessa pauta emergencial estava o reajuste salarial de 48,65%; a não redução do quadro de funcionários, muito pelo contrário, a ampliação de vagas via concurso público; e a retirada da medida provisória, que simplesmente colocava a gratificação como sendo constitutivo do nosso rendimento. E essa gratificação variava de acordo com a capacidade do professor, de acordo com o nível na carreira - se era início de carreira, se era meio, se era o final da carreira. Era uma injustiça enorme”, contou.
Diante da intransigência do governo FHC, foi proposta a intensificação do movimento e encaminhado, às assembleias de base, deliberar pela realização da greve de fome. “Foi uma decisão coletiva, a partir do comando de greve. Foi remetido para as bases, para as seções sindicais. As seções sindicais discutiram e aderiram. Nós fomos 19 professores, que tivemos aprovação das nossas assembleias, para participar da greve de fome. Foi um momento muito crucial e de muita sensibilidade humana”, recordou.
A docente lembrou os debates nas assembleias e a dificuldade que colegas expressavam de apoiar um movimento que poderia colocar em risco a vida de companheiras e companheiros. “Uma plenária, com um número enorme de professores, tinha que decidir. Vamos ou não vamos fazer greve de fome? Era a primeira decisão. Aí, vinham os debates, as discussões. Os colegas sensibilizados. ‘Eu não vou votar para que um colega meu morra de fome’. ‘Eu não quero que meus colegas morram’. E os outros dizendo: ‘mas esse governo não nos respeita’. ‘Esse governo não atende as nossas indicações. Nós vamos ter que radicalizar’. E aí, as plenárias votavam. E, depois de votar: sim, nós vamos participar, vinha o momento seguinte. Quem se dispõe a ir para a greve de fome? Esse é também um momento muito sensível na vida da categoria. Porque não é uma decisão individual. É uma decisão coletiva”, explicou.
Durante a entrevista, Celi reviveu a tensão emocional do período, pois além da decisão junto ao coletivo docente, também foi preciso dialogar no ambiente familiar."Você tem que chegar em casa e conversar com as crianças, com o marido e tem que argumentar: ‘Mas mãe, por que você vai fazer greve de fome?’ ‘Porque eu quero que todos tenham o melhor. Se vocês têm o melhor, todos devem ter o melhor. Todas as crianças, todos os jovens, da creche até a educação de jovens e adultos’. Nesse sentido, era muito, mas muito, muito sensível”, revelou, com os olhos marejados
Celi Taffarel foi uma das e dos 19 docentes que, após deliberação coletiva das assembleias de base, dispuseram seus próprios corpos à luta. ""Privo-me da comida porque me tiram a voz, o salário e tentam tirar-me o respeito", dizia o manifesto dos e das docentes, que ocuparam o auditório Dois Candangos, na Universidade de Brasília (UnB)
O movimento da greve de fome encontrou grande solidariedade no Brasil e internacionalmente. Mensagens chegavam por email (ferramenta recente naquela época), via fax, telegramas. Professores e professoras que não estavam em greve de fome vinham de vários estados visitar as e os colegas.
“Essa coletividade, eu lembro até hoje. Quando nós começamos a greve de fome, professores que não fizeram greve de fome vinham de outros estados conversar com a gente, nos visitar. Vinham nos acalentar, acompanhar de manhã, quando saíamos para tomar banho de sol, que era a maneira com que nós nos alimentávamos, com os raios solares. [Lembro] o quanto eles foram solidários, nesses 17 dias em que nós ficamos na greve de fome”, contou Taffarel.
O grupo era constantemente acompanhado por uma equipe multidisciplinar da área da saúde. O desgaste físico foi severo. Celi, que tinha 47 anos e era muito magra na época, passou a desmaiar já no quarto dia, tendo sua vida colocada em risco e orientada a suspender a greve de fome. Parte do grupo resistiu por 17 dias em privação total de alimentos, bebendo apenas água.
A pressão do parlamento e a solidariedade nacional forçaram o governo a negociar pautas emergenciais e liberar salários retidos. Um acordo negociado, com mediação do então presidente do Congresso Nacional, Antônio Carlos Magalhães, colocou fim à greve histórica.
Luta traz conquistas
Celi Taffarel ressaltou que o ANDES-SN continua sendo o "esteio fundamental" de resistência para garantir uma universidade pública, laica e socialmente referenciada. Ela reforçou que a luta sindical é um instrumento fundamental, que unifica gerações, e conclamou a juventude docente a manter vivo esse legado, construído ao longo de mais de quatro décadas.
A docente rejeitou a visão individualista da docência e lembrou que a lição de 1998 permanece. "A luta que traz as conquistas. Elas não caíram do céu. Elas não são benesses. As conquistas são fruto da luta, por isso a importância desse sindicato”, afirmou.
Durante o 44º Congresso do ANDES-SN, a professora Celi Taffarel foi homenageada pelo Coletivo Democracia e Luta da UFBA por seu papel acadêmico e por sua trajetória de luta na construção e defesa do ANDES-SN como único representante da categoria docente.
Participantes voluntários da greve de fome do ANDES-SN em 1998:
1. Alexis Leite - Universidade Federal do Piauí
2. Antônio Rafael da Silva - Universidade Federal do Maranhão
3. Cândido Medeiros - Universidade Federal do Maranhão
4. Delso Lima Filho - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
5. Durval Cruz Prazeres - Universidade Federal do Maranhão
6. Irenilda Ângela Santos - Universidade Federal de Mato Grosso
7. Maria Luiza Fontenelle - Universidade Federal do Ceará
8. Marcelo Guina Ferreira - Universidade Federal de Goiás
9. Nelson O. Doki - Centro Federal de Educação do Paraná
10. Pedro Rodolpho Jungers Abib - Universidade Federal da Bahia
11. Carlos Adalberto Celedoni - Universidade Federal do Ceará
12. Alexandre Luiz Gonçalves de Resende - Universidade de Brasília
13. Glauco Falcão de Araújo - Universidade de Brasília
14. Jorge Paulo Watrin - Universidade Federal do Pará
15. Raimundo Nonato Nunes - Universidade Federal do Rio Grande do Norte
16. Marcos Lourenço Herter - Universidade Federal de Santa Catarina
17. Valter Pires Pereira - Universidade Federal do Espírito Santo
18. Celi Taffarel - Universidade Federal de Pernambuco
19. Maurício Roberto da Silva - Universidade Federal de Santa Catarina
Fonte: Andes-SN
44º Congresso do Andes-SN termina, em Salvador, com uma série de deliberações e encaminhamentos; veja aqui os principais
Foto de capa: Luana Soutos/ Assessoria da Adufmat-Ssind
Terminou nesta sexta-feira, 07/03, às 23h59, o 44º Congresso do Andes – Sindicato Nacional. Durante os cinco dias do evento, 640 participantes, representando 93 seções sindicais de todas as regiões do país debateram e encaminharam os temas propostos no Caderno de Textos, conforme metodologia de trabalho estabelecida pelo próprio Movimento Docente, no qual os debates são realizados nos grupos mistos e, posteriormente, nas plenárias.
Uma das principais deliberações do evento foi a aprovação de um Conad Extraordinário para 2026, focado em aprofundar debates sobre questões organizativas, administrativas, financeiras, políticas e de democracia interna do Sindicato Nacional. Boa parte dos textos encaminhados neste sentido não foram debatidos no 44º Congresso do Andes-SN por falta de tempo. Entre os TRs não debatidos, está o 92, aguardado pela delegação da Adufmat-Ssind, por ter sido objeto de discussão e deliberação da assembleia geral (saiba mais aqui).
Diante do avanço imperialista estadunidense sobre a América Latina e outras regiões, mais uma importante deliberação teve relação com o campo internacional, a partir da decisão de intensificar as ações de solidariedade a Cuba e à Palestina. Foram aprovadas medidas como o envio de insumos médicos e placas de energia solar para Cuba, além da garantia do envio de delegações da categoria para o 1º de Maio cubano. Em relação à Palestina, a categoria deliberou pelo fortalecimento da campanha de "Boicote, desinvestimento e sanções" (BDS) contra o Estado de Israel e a realização de um dia de mobilização nacional com paralisação no primeiro semestre de 2026.
Para o diretor geral da Adufmat-Ssind, Breno dos Santos, a categoria deu passos importantes neste Congresso, especialmente com relação às ações em âmbito internacional e os encaminhamentos voltados para o campo da Educação. “Nós tivemos um frutífero debate em torno das questões da Política Educacional, que é um dos temas mais importantes para o nosso sindicato. Aprovamos um plano de lutas, com deliberações importantes para a reorganização da luta dos trabalhadores e trabalhadoras deste setor. Algumas delas foram o fortalecimento da Coordenação Nacional das Entidades em Defesa da Educação Pública e Gratuita (Conedep) e que a Plenária da Educação – que já havia sido deliberada no ano passado e foi reforçada a indicação para que seja realizada este ano – seja um instrumento de construção do IV Encontro Nacional da Educação (ENE), com realização prevista para o primeiro semestre de 2027. Esses encontros foram ferramentas importantes, do campo combativo, para construir o que a gente entende hoje como um Projeto de Educação voltado para a classe trabalhadora. A realização do IV ENE, a partir da deliberação deste Congresso, será um passo importante para que a gente possa aprofundar, neste momento de corte orçamentário, de ataque às políticas públicas de Educação e ao serviço público, e também de ataque aos professores e professoras, por parte dos governos autoritários, que a gente possa ter um direcionamento na luta, construindo um plano em conjunto com os demais setores da educação, da juventude, dos técnicos-administrativos e da educação básica, para pensar uma educação que atenda aos interesses da classe trabalhadora”, afirmou.

A Adufmat-Ssind foi representada no 44º Congresso do Andes-SN por nove delegados, os professores Maria Luzinete Vanzeler, Einstein Aguiar, Lélica Lacerda, Waldir Bertúlio, José Domingues de Godoi Filho, Valéria Queiroz, Geruza Vieira, Ana Paula Sacco e Breno Santos.
Foto: Eline Luz/ Assessoria do Andes-SN
Grupos de Trabalho
Essas decisões foram tomadas na Plenária do Tema III, Plano Geral de Lutas, que orienta especialmente os Grupos de Trabalho (GT’s). Assim, o GTPE (Grupo de Trabalho Política Educacional) do sindicato deverá realizar painéis de debate sobre o Fórum Nacional da educação (FNE), convidando outras entidades e movimentos sociais que fazem parte do fórum, para avaliar a possibilidade de também compor o espaço. Essa questão será debatida durante o 69º Conad, que será realizado em julho deste ano.
O enfrentamento e resistência ao uso do Ensino à Distância (EaD) como forma de precarização do trabalho docente e do ensino; a continuidade da produção de materiais críticos à Reforma do Ensino Médio, às Diretrizes Curriculares Nacionais e à Base Nacional Comum Curricular; a defesa da aplicação imediata de 10% do PIB na educação pública; a defesa de financiamento público adequado e exclusivo para a educação pública de gestão pública; o combate às políticas de austeridade fiscal que afetam o orçamento da educação; a articulação de um Dia Nacional de Luta contra a violência e a militarização nas instituições de educação pública; a revogação da Resolução CNE/CP 04/2024 e retomada da Resolução 02/2015; a defesa da inclusão obrigatória de Ensino de Jovens e Adultos (EJA), relações étnico-raciais, educação indígena e educação especial inclusiva na formação docente; e a realização de campanha de valorização das licenciaturas públicas continuam sendo posições do Andes-SN que devem ser encaminhas pelo GTPE.
Um momento emocionante marcou um avanço na inclusão de docentes surdos e a garantia dos direitos linguísticos e de acessibilidade em todas as esferas da atuação sindical e acadêmica. A defesa pública da proposta, elaborada por um grupo de docentes surdos, foi feita em Libras durante a plenária do 44º Congresso do Andes-SN, por uma das professoras que assinou a TR. Ela participou pela primeira vez do evento. Com a aprovação do texto, referente O Grupo de Trabalho Política de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual, a categoria exigirá das instituições de ensino superior a presença de intérpretes de Libras e a contratação desses profissionais via concurso público. O GTPCEGDS também tem se debruçado sobre o debate anticapacitista.
Com relação à inclusão, a categoria aprovou, ainda, a intensificação da campanha "Sou Docente Antirracista", com o combate às burlas no sistema de cotas; a defesa de cotas em todos os níveis e inclusão da Marsha Nacional Trans na agenda oficial; apoio jurídico para a redução da jornada de trabalho para cuidadores sem prejuízo na carreira; e a implementação de protocolos contra o assédio moral, sexual e o feminicídio.
Houve, ainda, encaminhamentos relacionados a outros GT’s, como o GT de Formação Política e Sindical, que incluíram a luta pelo fim da Escala 6X1, contra a Reforma Administrativa e o aprofundamento sobre a formulação de políticas públicas para acolhimentos de estudantes migrantes ou refugiados; o GT Ciência e Tecnologia, que reafirmou a defesa pela regulação soberana das tecnologias debatendo o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024-2028) e o PL 2.338/2023, além da luta pela revogação do Parecer CNE/CES 331/2024 que subordina os cursos de pós-graduação aos interesses mercadológicos; o GT Multicampia e Fronteiras que debateu a melhoria das condições de trabalho em regiões isoladas, por meio da defesa da implementação do adicional de atividade penosa de no mínimo 20% do vencimento básico para docentes em zonas de fronteira, Amazônia Legal e Semiárido Nordestino, e pela criação de uma Indenização Educacional de Fronteira.
Ao final do evento, foram aprovadas, ainda, 34 moções, sobre os mais diversos temas. O 45° Congresso do Andes-SN será em Curitiba.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Adufmat-Ssind entrega carta aos participantes do 44º Congresso do Andes-SN em defesa da democracia interna do sindicato nacional
A Adufmat-Seção Sindical do Andes – Sindicato Nacional entregou aos participantes do 44º Congresso, nesta sexta-feira, 06/03, uma carta em defesa da democracia interna do sindicato. O documento, elaborado conforme decisão de assembleia geral da entidade, cita casos de intolerância e violência política sofridos por docentes da base da Seção Sindical, praticados, inclusive, por diretores do Sindicato Nacional.
O texto reafirma solidariedade às docentes agredidas, solicita retratação por parte da Diretoria do Andes-SN e indica a aprovação do Texto Resolução 92 (acesse aqui), publicado no Caderno de Textos do 44º Congresso, que vai no mesmo sentido. O TR será debatido na plenária do tema IV (Questões Organizativas e Financeiras), que deve ocorrer na noite desta sexta-feira.

Leia, abaixo, a íntegra da Carta da Adufmat-Ssind aos congressistas do 44º Congresso do Andes-SN:
Carta da ADUFMAT-SSIND aos e às Congressistas do 44º Congresso do Andes
Vivemos tempos assombrosos do capitalismo que agoniza em suas contradições, tomando proporções de destrutividade nunca vistas antes, colocando a vida humana em xeque.
Esta destrutividade se expressa no colapso climático; pela escalada do feminicídio e violências contra mulheres, meninas e animais; pela contração dos direitos trabalhistas, pelo colapso do financiamento público de políticas sociais; pela criminalização da pobreza e de imigrantes; e exibe sua face nefasta pelas guerras neocoloniais em que máquinas de guerra maximizam lucros capitalistas com genocídio televisionado de povos inteiros, como o fazem hoje com palestinos, venezuelanos, cubanos, iranianos, populações periféricas brasileira, etc.
Diante da profundidade da destrutividade e da amplitude da crise da totalidade da sociedade burguesa, incluindo suas instituições, a história nos demonstra que não existe qualquer instituição burguesa capaz de conter a escalada de destruição: apenas a ação revolucionária da classe trabalhadora pode fazê-lo. A construção do poder popular torna-se, portanto, questão de vida e morte para a humanidade.
Este diagnóstico nos faz perceber que se torna tarefa histórica cada vez mais premente de partidos, sindicatos e toda sorte de instrumentos de luta da classe trabalhadora canalizar os descontentamentos difusos para, a partir da efervescência dos que lutam, construir saídas autodeterminadas por meio de consensos e lutas unitárias.
Neste cenário, quando se espera que a classe trabalhadora esteja solidarizando entre si, vemos o fascismo produzindo ódio entre nós; quando pensamos que nossa classe irá encontrar seus pontos de unidade de luta por meio do franco debate democrático na busca de saídas para problemas tão complexos, o que vemos é a esquerda dentro da ordem e burocratizada promover o sufocamento das instancias de debate que possam colocar em xeque suas estruturas de poder, denotando que adentramos o tempo da intolerância, em que “Se você quer um inimigo, é só falar o que pensa” (Elza Sores em “No tempo da Intolerância”).
Esta degeneração da democracia interna dos instrumentos de luta da classe trabalhadora, reflexo do giro a direita do espectro político mundial, se expressa e vem se intensificando no bojo do ANDES – Sindicato Nacional. Tivemos um Comando Nacional de Greve que se deu ao direito de encerrar a greve docente de 2024 sem deliberação de base; temos tido Congressos do Andes cada vez mais encurtados, com proposta de ser bianual; no CONAD de Manaus, foram adiantados os TRs que a diretoria julgava mais importantes e, ao final, foi votado que os TRs que não foram apreciados pelo CONAD não seriam remetidos a nenhuma outra instância, desprezando a construção coletiva entorno das propostas. Em suma, cada vez mais a burocracia que dirige o sindicato busca se afastar do debate coletivo para garantir medidas que perpetuem seu poder e toda pessoa que coloque tais medidas ao exame racional é combatida como inimiga. O rechaço ao dissenso vem se tornando regra.
Por exemplo, no Seminário Nacional do GTPCEGDS, a representante da ADUFMAT-SSIND foi com muitas demandas tiradas do GT e se inscreveu para fala em quase todas as mesas, todas as intervenções orientadas pelo coletivo; na ocasião houve brincadeiras de pessoas da diretoria dizendo que se limitaria um determinado tempo que cada pessoa poderia falar durante todo o seminário, devendo cada pessoa distribuir este tempo entre as mesas; uma piada para dizer que nossa representante estava falando demais; e que demonstra o desprezo pela construção coletiva desde a base.
Mas se no GTPCGDES o ataque foi sutil em meio a risadas cínicas, no Seminário Nacional do GTPFS essa violência escalou para o ataque aberto. Na ocasião, a representante da ADUFMAT-SSIND estava com a demanda do GT de questionar um vídeo em que o ANDES – Sindicato Nacional se utilizava de animais para transmitir determinado conteúdo. Em vez da mesa responder ao questionamento, a interlocutora foi hostilizada: primeiro, de forma descontextualizada, foram puxadas palavras de ordem contra machistas e fascistas, buscando caracterizar um questionamento legítimo como um ataque opressor.
Por fim, quem desferiu ataque opressor foi a diretora do Andes, ao fazer uso da palavra no último bloco de intervenções do dia de atividades, quando disse que tinha tido a ideia de fazer novos vídeos, agora com a “piranha da Amazônia”, numa comparação misógina e depreciativa da representante da Adufmat-Ssind com piranha.
Ao perceber que estava sendo atacada, nossa companheira decidiu gravar a cena e, então, vieram mais ataques. A diretora que participava da mesa afirmou que não tinha dado autorização para ser filmada por ela e, na sequência, o presidente do Sindicato interveio, comparando nossa companheira às práticas fascistas, de extrema direita, como Escola sem Partido. Importante dizer que em todos os eventos do ANDES as pessoas tiram fotos e fazem vídeos.
E a intimidação não parou aí. Alegando direito de imagem, a diretora acionou a Comissão de Ética para coagir a representante da ADUFMAT-SSIND a apagar o vídeo do celular. Então, nossa representante apagou o vídeo, mas indagou se seria instaurado um procedimento ético contra a dirigente que a atacou, comparando-a a piranha. Também é importante dizer que, até hoje, nenhum membro da Comissão de Ética deu qualquer satisfação à companheira ou, sequer, respondeu à solicitação formalmente protocolada poucos dias depois.
Também é fundamental registrar que a iniciativa de filmar - integral ou parcialmente - um evento público, durante evento sindical aberto, em contexto de debate político, afasta qualquer expectativa legítima de privacidade. Neste sentido, o próprio STF já tem entendimento consolidado sobre o assunto,não apenas porque o direto de imagem não constitui direito absoluto, na medida em que deve ser ponderado com a liberdade de expressão e o direito de informação, mas, inclusive, porque nos espaços e eventos públicos, quando envolvem agentes ou dirigentes no exercício de funções institucionais, prevalece o interesse coletivo à informação. Para além disso, o direito de imagem está assegurado tendo-se em consideração suas finalidades. Ora, no caso concreto, a gravação não tinha finalidade comercial, difamatória ou de exposição vexatória, mas um recurso legítimo de resguardo pessoal em um ambiente sindical bastante hostil e agressivo.
Não é possível aceitar que um sindicato que vem se empenhando e avançando em políticas de combate ao assédio, ao machismo e demais opressões se utilize de opressão machista e misógina para atacar e silenciar uma companheira que exercia seu direito democrático de contestação. O dissenso é próprio da vida democrática; lugares de pensamento único são aqueles autoritários, como religiões ou o exército. No bojo de um instrumento de luta da classe trabalhadora, a coação do livre pensamento é inaceitável; utilizando-se de comparações machistas então, torna-se inconcebível.
A Adufmat-Ssind foi fundada em plena ditadura militar; seus fundadores enfrentaram a tortura e os porões da ditadura para que a voz docente não fosse silenciada. Somos uma seção sindical ativa, crítica, radical e convicta de que nossa militância tem profundas contribuições com o ANDES-Sindicato Nacional em toda a sua história e seguiremos contribuindo e imprimindo nele a nossa marca, com ou sem consentimento de burocratas. Não toleraremos a tentativa de silenciamento de nossa militância, expressamos repúdio a postura autoritária e machista por parte da direção do ANDES-SN na ocasião citada e reiteramos nossa solidariedade a nossa companheira que não está sozinha: toda a ADUFMAT-SSIND a apoia e exige que a diretoria do ANDES-SN se retrate e que a democracia interna seja reestabelecida em nosso sindicato, sob preço dele se tornar inócuo aos desafios do complexo tempo presente.
Combateremos toda forma de intimidação, hostilidade e desrespeito de qualquer sindicalizado ou sindicalizada. Lutaremos para defender a democracia interna do ANDES-SN, defenderemos de forma intransigente o direito de livre expressão dentro do sindicato e o direito ao contraditório, ansiando que nosso sindicato possa continuar sendo ponta de lança na politização e organização da categoria docente e do conjunto da classe trabalhadora. Por fim, reforçamos a necessidade de aprovação do TR 92: “Sobre a Intolerância e perseguição político-sindicais”
Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso – Seção Sindical do Andes Sindicato Nacional.
Foto de capa: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
O 44º Congresso do ANDES-SN teve início nesta segunda-feira (2), no Campus Ondina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador (BA). Na noite do primeiro dia, as e os participantes debateram a conjuntura nacional e internacional e os desafios para a mobilização, durante a Plenária de Conjuntura e Movimento Docente.
As e os autores dos 15 textos enviados ao Caderno do Congresso para debate, apresentaram suas análises da conjuntura política, econômica, social e educacional no Brasil e, ainda, do cenário internacional. As falas trouxeram ainda propostas e análises para orientar a atuação política e sindical da categoria docente no próximo período.
Em comum, foi apontada a necessidade de unidade de ação para enfrentar a extrema direita nas ruas e nas urnas, de lutar em defesa dos direitos da categoria e dos serviços públicos e de construir estratégias para barrar a crise socioambiental sob uma perspectiva anticapitalista. A importância de fortalecer as alianças internacionalistas para combater o avanço do imperialismo sobre a América Latina e outros países do Sul Global e ampliar a solidariedade com Cuba, Venezuela e Palestina esteve presente em várias das apresentações.
No campo educacional, as e os docentes apontaram a urgência de reverter o subfinanciamento das universidades públicas, institutos federais e cefets, como forma de combater a precarização e plataformização do trabalho docente e seus impactos na saúde da categoria. Também foi destacado como prioritário o enfrentamento às propostas de reforma administrativa, que ameaçam os serviços públicos e o funcionalismo em todas as esferas.
Os debates reforçaram ainda a importância da luta por justiça social, na construção de uma sociedade antirracista e no combate ao machismo, à LGBTI+fobia, ao capacitismo, à violência do Estado, em especial contra as populações pobres e periféricas, e contra todas as formas de opressão. A unidade entre os povos do campo e da cidade também foi apontada como estratégia necessária para a resistência à destruição do meio ambiente e na construção de um outro modelo de sociabilidade.

Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
As falas destacaram, ainda, a importância do ANDES-SN, que completou 45 anos no último dia 19 de fevereiro, como ferramenta fundamental de luta da classe trabalhadora. Foi reafirmada a relevância de fortalecer a organização interna do Sindicato Nacional, reforçando sua autonomia, independência e construção pela base.
Os debates ressaltaram que a presença ns ruas em 2025, na luta contra a reforma administrativa e contra a escala 6x1, além da luta vitoriosa em defesa da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), da participação na Cúpula dos Povos durante a COP 30, o apoio na construção da II Marcha das Mulheres Negras e da III Marsha Trans, entre outras ações do ANDES-SN, mostraram que a mobilização coletiva continua sendo a ferramenta mais eficaz da categoria docente. Além disso, reforçaram a compreensão de que a defesa de uma universidade popular, gratuita, socialmente referenciada e antirracista é indissociável da luta contra o capital e em defesa de um novo modelo de sociedade.
Após as defesas dos textos presentes no Caderno, entre os docentes que se inscreveram para debater as análises, o professor Breno Santos, diretor geral da Adufmat-Ssind, também contribuiu. Ele iniciou sua intervenção saudando os povos indígenas, que tiveram uma vitória recente contra a privatização do rio Tapajós, durante a ação que chamou de pedagógica. Parabenizou, também, a vitória contra a privatização e venda da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), e citando estes exemplos, declarou: "essas vitórias mostram que este sindicato representa muito mais do que o Setor das Federais, representa também o setor das Estaduais, Municipais, Distrital. Essas lutas não podem estar ocultadas num debate que faz parecer que nosso horizonte é o proceso eleitoral. Enquanto a gente discute eleições, essas universidades seguem sendo massacradas, cada uma pelo seu governo. Isso aponta que não se faz movimento sindical sem luta concreta, e a luta concreta não nasce do nada, da vontade ou do voluntarismo de um sindicato ou de outro, ela nasce de um processo real no campo combativo, de articulação real entre sindicatos e movimentos sociais e populares que apontam para a emancipação da classe trabalhadora. Nós não temos a fórmula, mas temos experiência concreta de lutas que construímos nos últimos anos. A construção de um campo classista para debater nosso projeto de Educação, fortalecimento da Conedeb [Conselho Nacional das Entidades de Base], a construção do IV ENE [Encontro Nacional da Educação], e em unidade com setores classistas do campo internacional, fortalecer a luta antimperialista. A urgência é a urgência dos trabalhadores do mundo, e essa urgência precisa de um sindicato do porte, da importância, da relevância do Andes - Sindicato Nacional na sua vanguarda".

Fernanda Mendonça, 1ª vice-presidenta da Regional Sul do ANDES-SN que presidiu a plenária, lembrou que os debates desse primeiro dia irão orientar os trabalhos nos grupos e as deliberações dos planos de lutas setoriais e geral do ANDES-SN, nos próximos dias do 44º Congresso. A diretora pontuou que grande parte dos textos apresentados destacaram desafios comuns, tanto do ponto de vista internacional como nacional.
“Me parece que a base do ANDES-SN compreende as eleições de 2026 como um desafio bastante importante. A importância de derrotar a extrema direita, não apenas nas urnas, mas também nas ruas, foi recorrente nas avaliações. A gente verifica o desejo e a necessidade da nossa base de nos mantermos extremamente mobilizados, nesse ano de 2026, para enfrentar, obviamente, não só a extrema direita, que vem forte, mas também uma série de outros desafios que acabam comprometendo a nossa capacidade de organização”, avaliou.
Para Fernanda, ficou nítido, nas apresentações e nos debates que seguiram, a necessidade do ANDES-SN assumir o protagonismo dessas lutas. “A gente precisa continuar instigando a nossa base para se organizar cada vez mais e enfrentar os diferentes desafios que vão se apresentar ao longo do ano de 2026”, concluiu.
Além de Fernanda Mendonça, conduziram a mesa da Plenária de Conjuntura, Jacob Paiva, 3º secretário do ANDES-SN, Virgínia Viana, 2ª vice-presidenta da regional Nordeste I, e Márcio Wagner, 1º vice-presidente da regional Norte II.
Com o tema central “Na capital da resistência, das revoltas dos Búzios e dos Malês: ANDES-SN nas lutas e nas ruas, pela democracia e educação pública, contra as opressões e a extrema direita!”, o 44º Congresso terá atividades até dia 6 de março, sob organização da Regional Nordeste III do ANDES-SN e do Coletivo Democracia e Luta da UFBA.

Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
Denúncia
No início da Plenária, Joelson de Carvalho, vice-presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal de São Carlos (Adufscar SSind.) denunciou como a Proifes-Federação segue atuando com uma política antidemocrática a antissindical contra docentes da instituição. Segundo ele, representantes da diretoria anterior da Adufscar SSind. estão sendo processados individualmente, como forma de retaliação por sua atuação no Grupo de Trabalho de Oposição Sindical do ANDES-SN.
Fonte: Andes-SN (com inclusão de informações da Adufmat-Ssind)
Começa o 44º Congresso do Andes-Sindicato Nacional na UFBA, em Salvador
São 45 anos de história. O 44º Congresso do Andes-Sindicato Nacional, que teve início nessa segunda-feira, 02/03, na sede da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em Salvador, marcará as mais de quatro décadas de organização e luta da categoria docente em todo o Brasil. Até a próxima sexta-feira, 06/03, professores do ensino superior de todo o país vão debater e encaminhar as ações políticas dos próximos meses.
A Adufmat-Seção Sindical do Andes está presente com nove delegados, os professores Maria Luzinete Vanzeler, Einstein Aguiar, Lélica Lacerda, Waldir Bertúlio, José Domingues de Godoi Filho, Valéria Queiroz, Geruza Vieira, Ana Paula Sacco e Breno Santos. Os números ainda não foram confirmados, mas espera-se que este seja o maior Congresso da história do Sindicato Nacional.
Conforme a programação, o primeiro dia teve três plenárias: a de abertura, a de instalação, e a de análise de conjuntura. As apresentações culturais do Grupo de Ogãs da Casa de Oxumarê e do artista Thiago Tupinambá convidaram os presentes a refletirem sobre a ancestralidade local, negra e indígena, que protagonizaram diversas revoltas e movimentos de resistência e luta em solo baiano, como propõe o tema do evento – citando as revoltas dos búzios e dos malês.
Durante a plenária de abertura, entidades parceiras do Andes-SN saudaram os presentes. Além das boas-vindas, o representante da ASSUFBA (Sindicato Dos Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado Da Bahia), Antônio Moreira, falou sobre o movimento de retomada da greve por parte dos técnicos-administrativos devido ao descumprimento do Governo Federal do que foi acordado na greve de 2024.

O primeiro vice-presidente da Regional Nordeste III, do Andes-SN, Aroldo Felix, afirmou ser uma honra receber o evento que vai construir o plano de lutas deste ano da categoria, contra os ataques do capital e o avanço do imperialismo.
A professora Maíra Mano, representante do Coletivo Democracia e Luta, lembrou que o último congresso da categoria na Universidade Federal da Bahia foi há 22 anos, e afirmou que a construção deste evento foi uma grande luta para os militantes da Apub. “Este congresso é de ocupação. Ele foi construído do zero, como este auditório, por um coletivo sem seção sindical, porque nós somos oposição. O coletivo Democracia e Luta fez acontecer o que parecia impossível”, afirmou.
Representando a Coalizão Negra por Direitos, a advogada Maíra Vida destacou um tema que tem sido bastante discutido pela categoria, que são as fraudes relacionadas à aplicação da lei de cotas para assumpção das vagas efetivas nas universidades. A própria Adufmat-Ssind pautou a questão em 2025 (relembre aqui). "Nós não podemos conceber democracia enquanto existir racismo", concluiu Vida.
Pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Vitor Passos saudou as mulheres, cujo mês de março é um grande marco de luta, e destacou os debates em defesa do público, contra a mercantilização, luta de classes e direitos sociais, soberania, que estão entre os debates que serão realizados durante a semana.
A estudante Ana Luiza Passos, da Federação dos Estudantes em Ensino Técnico (FENET) falou que a categoria está mobilizada, construindo o “março rebelde”, para mostrar que não aceitam o projeto de precarização e destruição do Estado.

Parte da delegação da Adufmat-Ssind, da esquerda para a direita, os professores: Einstein Aguiar, Valéria Queiroz,
Geruza Vieira, Lélica Lacerda e Ana Paula Sacco
Fabiano Paixão de Souza, representante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração Brasileira (MAM), também destacou o avanço do imperialismo como um grande desafio neste momento e parabenizou o Andes-SN. “Ninguém faz 44 congressos sem referência, sem história. E nós precisamos destes encontrar para pensar como unificar a esquerda, a partir da construção de um programa, pois o que está em curso não atende aos interesses da classe trabalhadora. Ainda é preciso construir esse programa trazendo temas como a mineração e a agricultura como centralidade”, observou.
Pela Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), Tiago Almeida, lembrou do filme brasileiro candidato ao Oscar, O Agente Secreto, cujo protagonista é baiano na vida real e professor na trama: “Um professor que foi perseguido por defender a autonomia universitária até as últimas consequências”, apontou. Almeida falou também sobre a importância da defesa de direitos para pesquisadores, como a Previdência.
A professora Heleni Duarte Dantas, representante da Frente Nacional Contra a Privatização da Saúde (FNCPS), defendeu o SUS 100% público e estatal, e criticou a incorporação das comunidades terapêuticas, que afirmou serem “depósitos de gente”.
Pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), FÁBIO NOGUEIRA destacou como as universidades são estratégicas para pensar o projeto de soberania popular que os movimentos sociais tanto lutam para construir.
Por fim, o presidente do Andes-SN, Cláudio Mendonça, falou sobre o capitalismo como uma máquina de moer gente, que concentra a riqueza nas mãos de poucos, em detrimento da vida de muitos, o que está ainda mais explícito com os bombardeios e ataques à soberania dos países da América Latina e do Oriente Médio.
Também fizeram fala na mesa de abertura a representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), Louise Ferreira; Karina Lima Sales Pelo Fórum das ADs da Bahia; Rita de Cássia Ferreira dos Santos, representante do Movimento Dos Sem-Teto Da Bahia (MSTB); o reitor da UFBA, professor Paulo César Oliveira; e Luiz Fernando Santos Bandeira, representante da FASUBRA.

Já no final da noite de segunda-feira, mais uma parte da delegação da Adufmat-Ssind, da esquerda para a direita, os professores: José Domingues de Godoi, Waldir Bertúlio, Vera Capilé, Einstein Aguiar, Geruza Vieira e Valéria Queiroz
Durante a manhã também ocorreu o lançamento da edição deste ano da Revista Universidade & Sociedade, que tem o tema “Educação Pública em Movimento: resistências e desafios da multicampia e em regiões de fronteira”; da mais recente cartilha do Grupo de Trabalho Política de Classe sobre questões Étnicas, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS), sobre capacitismo, além das campanhas de sindicalização e de comemoração dos 45 anos do Sindicato Nacional.
Os presentes finalizaram a noite debatendo os textos de conjuntura e na terça-feira se dedicarão aos debates dos textos nos grupos mistos – uma metodologia que visa aprofundar os debates antes da apreciação nas plenárias. Saiba mais sobre o conteúdo dos debates consultando o Caderno de Textos do 44º Congresso do Andes-Sindicato Nacional (clique aqui).
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Em assembleia geral, docentes da UFMT debatem propostas que serão apreciadas no 44º Congresso do Andes na próxima semana
A estrutura organizacional do Andes – Sindicato Nacional é uma das ferramentas da categoria docente para dar conta de debater seus temas de interesse e organizar as ações da luta de forma efetiva. O congresso do Andes-SN, que terá início na próxima semana, em Salvador, é onde a categoria define suas prioridades e ações dos próximos meses ou anos e, por isso, a assembleia geral realizada nesta quinta-feira, 26/02, pela Adufmat-Seção Sindical, discutiu as propostas do Caderno de Textos que será a referência no maior espaço deliberativo da categoria nos próximos dias.
Como de costume, a assembleia teve início com uma série de informes sobre as atividades que envolvem o sindicato, como o próprio congresso do Andes, que será em Salvador entre os dias 02 e 06/03, a Mesa para debater os novos embargos a Cuba nesta sexta-feira (saiba mais aqui), organização do 8 de Março – Dia Internacional de Luta das Mulheres, que será às 8h na Feira do CPA; lançamento do novo Caderno do GTPFS, previsto para o mês de maio junto à discussão sobre o Mundo do Trabalho, atividade sobre o direito à aposentadoria organizada para o dia 23/03, além do andamento das obras na oca, que devem ser concluídas até o final de março, com o retorno da equipe administrativa.
Durante a análise de conjuntura, as intervenções falaram sobre o avanço do Imperialismo diante das ameaças, sequestros, bombardeios entre outras ações, especialmente dos Estados Unidos da América, indicando certa fragilização das forças sociais e reorganização do capital.
Diante das evidências da luta de classes em curso, os presentes criticaram o fato de que as propostas de conciliação de classes apareçam como alternativa, e defenderam que a melhor forma de conseguir avançar nas lutas sociais é radicalizar. “Do mesmo jeito que a conciliação aparece como alternativa, são essas políticas que a gente denuncia e combate: reformas, avanços sobre os bens naturais”, disse o diretor geral da Adufmat-Ssind, Breno Santos.
A professora Lélica Lacerda exemplificou com o caso mais recente na Amazônia. “O Governo homologou a demarcação de terras indígenas, mas ia privatizar o rio. Do que adianta?”, questionou, acrescentando que o avanço do capital levou a uma crise civilizatória. A docente também defendeu a radicalização da luta, criticando o sindicato nacional pela burocratização e recusa ao enfrentamento aberto ao neoliberalismo. “Nós precisamos elaborar ações para mexer concretamente nas relações sociais, intervindo no processo econômico”, concluiu.
Para a professora Alair Silveira a falha está no distanciamento da leitura social pautada na perspectiva histórica, de totalidade e dialética, além do aumento da intolerância ao debate dentro do próprio Andes-SN. “Nós devemos discutir o Mundo do Trabalho na sua totalidade, não por segmentos; a uberização do trabalho, Inteligência Artificial, Redes, Internet, o papel das universidades, considerando a totalidade das relações e suas contradições. O problema não é demarcar nossas diferenças, há acordo sobre isso, o que nós precisamos fazer é enxergar nossas semelhanças, a unidade”, pontuou.
Não houve deliberação relacionada à análise de conjuntura.
Em seguida, a assembleia se debruçou sobre os textos apresentados no Caderno de Textos, documento que baliza as discussões durante todo o Congresso do Andes-SN (leia aqui o Caderno de Textos). Os temas são divididos conforme os eixos: conjuntura e Movimento Docente; planos de lutas dos Setores (Federal/ Estadual/ Municipal); Plano Geral de Lutas (onde estão as propostas dos Grupos de Trabalho, entre outras); e questões organizativas e financeiras.
O diretor geral do sindicato pontuou que a delegação indicada em assembleia geral para representar o sindicato se reuniu e destacou alguns textos com propostas mais sensíveis, entre eles as propostas relacionadas às eleições, como a proporcionalidade de grupos políticos dentro das chapas, votação online, separação das eleições das Vice-presidências regionais da direção nacional – cujas intervenções demonstraram, em sua maioria, contrariedade; e a criação de um fundo único de campanha que, ao contrário das outras, registrou concordância por parte dos presentes.
Também foram problematizadas propostas como realizar o congresso da categoria a cada dois anos, construir jornadas de lutas e greves ainda no primeiro semestre de 2026, propostas de reajuste salarial consideradas rebaixadas, a autorização para realização de reuniões nacionais no formato híbrido – que também foram encaradas com receio pelos docentes -, em contraposição a outras propostas que obtiveram pleno acordo, como a defesa do Fim da Escala 6X1, propostas de carreira mais combativas e ampliação do diálogo com outras entidades de trabalhadores da Educação.
A questão principal deste ponto de pauta, no entanto, diz respeito ao Texto Resolução 92, que relatou a violência política sofrida pela professora Alair Silveira, docente da base da Adufmat-Ssind, durante o Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, realizado em São Paulo, em novembro de 2025 (saiba mais aqui). Na ocasião, a própria docente relatou em texto e presencialmente, em assembleia, que foi constrangida no evento por fazer questionamentos, em nome do GTPFS da Adufmat-Ssind, sobre uma campanha do Sindicato Nacional que utilizava gatos como personagens e sobre a posição da entidade com relação a um vídeo que denunciava a realização de Boletim de Ocorrência por parte da diretoria, contra pessoas que criticaram outra campanha.
Segundo os relatos, após os questionamentos, a professora Alair Silveira passou a ser pessoalmente constrangida e agredida, com menções diretas e indiretas bastante ofensivas em diversos momentos do evento, e chegou a ser pressionada a apagar um vídeo do seu celular pessoal. A docente destacou que, além da violência gratuita por parte dessas pessoas, que incluem alguns diretores do Andes-SN, chamou a atenção o silêncio da grande maioria dos colegas que estavam no Seminário, que chegaram a demonstrar solidariedade a ela em particular, mas não tiveram a coragem de o fazer publicamente.
Após sua exposição, os presentes na assembleia concordaram que essa postura por parte da categoria, especialmente de diretores do Andes – Sindicato Nacional, é inaceitável, e que, além do apoio ao TR, a Seção Sindical deve se posicionar formalmente pela defesa intransigente da democracia interna do sindicato, repudiando o que ocorreu no Seminário. Para isso, será feito um documento, que será amplamente divulgado nos canais oficiais de comunicação do sindicato, além de distribuído no Congresso do Andes-SN. Foi definido que a professora Lélica Lacerda fará o texto.
Sobre os demais textos, não houve orientação para votação, mas a conclusão de que o debate enriqueceu a análise da delegação, formada pelos professores Maria Luzinete Vanzeler, Einstein Aguiar, Lélica Lacerda, Waldir Bertúlio, José Domingues de Godoi Filho, Valéria Queiroz, Ana Paula Sacco e Breno Santos.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
ANDES-SN convoca categoria para a I Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre
O ANDES-SN convoca suas seções sindicais a participarem da I Conferência Internacional Antifascista, que será realizada em Porto Alegre (RS), entre os dias 26 e 29 de março de 2026. As pré-inscrições estão abertas até o próximo sábado (28).
A iniciativa reúne mais de 100 organizações e movimentos comprometidos com o enfrentamento ao avanço da extrema direita e à escalada autoritária que ameaça direitos sociais, liberdades democráticas e a própria democracia em diferentes países.
Segundo a organização do evento, a conferência nasce como um ato político urgente de resistência coletiva. A programação inclui um grande ato de rua de abertura, painéis temáticos construídos de forma plural e participativa e atividades autogestionadas, com o objetivo de fortalecer a articulação entre organizações, movimentos sociais, juventudes e militâncias populares.
Para Claudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, o cenário internacional impõe desafios que exigem respostas articuladas e solidárias. “O Brasil e o mundo vivem um processo de intensificação dos ataques da extrema direita, que se expressa de forma escancarada no governo Trump, que bombardeia países, ataca a soberania, sequestra governantes legitimamente eleitos e patrocina o extermínio de povos, como acontece com a Palestina. As ações sobre a América Latina, tentando desestabilizar governos autônomos e soberanos, com o recente sequestro de Maduro e Cilia, e a intensificação do bloqueio econômico criminoso contra Cuba, exigem muita unidade, muita disposição de luta e muita mobilização. O ANDES-SN se coloca no bojo da luta para derrotar a extrema direita nacional e mundial”, afirmou.
Luta Antifascista
De acordo com a Circular 52/26, ao longo de seus 45 anos de trajetória, o Sindicato Nacional tem atuado de forma permanente no enfrentamento à extrema direita e no combate aos ataques dirigidos às universidades públicas, aos Institutos Federais (IFs) e aos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets).
A Comissão Nacional de Enfrentamento à Criminalização e Perseguição Política a Docentes, criada no 37º Congresso do Sindicato, é um dos principais instrumentos de resistência diante de tentativas de intimidação, censura e criminalização da luta docente.
Soma-se a isso, a luta histórica encampada pelo Sindicato contra as intervenções nas Instituições Federais de Ensino (IFE), que resultou na aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que extingue a lista tríplice.
Diante desse cenário, o presidente do ANDES-SN afirmou que a participação da categoria docente é central no enfrentamento à extrema direita e na defesa da democracia. “A educação, a ciência e o conjunto da classe trabalhadora da educação têm sido alvos de grupos neofascistas. Universidades, institutos federais e cefets têm sido atacados. A intolerância e o ódio contra a população negra, mulheres, pessoas LGBTI+, pessoas com deficiência, imigrantes e nordestinos, somados ao aumento da violência policial nas periferias do país, exigem da categoria uma resposta à altura”, acrescentou Mendonça.
Programação
A I Conferência Internacional Antifascista terá início no dia 26 de março com um fórum de parlamentares, seguido por uma marcha de abertura. Nos dias seguintes, serão realizadas conferências e painéis temáticos, que abordarão temas como a resistência palestina, o combate ao negacionismo climático, feminismo, antirracismo e a defesa da educação pública, entre outros eixos estratégicos.
A agenda também prevê espaços para atividades autogestionadas, fortalecendo a participação plural das organizações presentes. A conferência será encerrada no dia 29 com uma Assembleia Geral destinada à aprovação da “Carta de Porto Alegre”, documento que pretende consolidar uma articulação internacionalista em defesa da democracia e da soberania dos povos.
A programação completa pode ser acessada aqui
Inscrições
As pré-inscrições podem ser realizadas até o dia 28 de fevereiro, AQUI
Para mais informações sobre o evento, acesse AQUI
Fonte: Andes-SN












