Sexta, 06 Março 2020 16:52

Mulheres de Cuiabá voltam às ruas no domingo para denunciar feminicídio e retirada de direitos; confira a agenda e o manifesto do 8M

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O Ato será às 16h, na Praça Ulisses Guimarães (em frente ao shopping Pantanal), e contará com diversas atrações culturais locais  

 

O 8 de Março tem se consolidado como Dia Internacional de Luta das Mulheres, e não apenas um dia especial para as mulheres. Em todo o mundo, as manifestações têm sido cada vez mais politizadas, conscientes de que ainda há muita coisa a mudar. As vitórias femininas são, sim, motivos de orgulho. No entanto, sobreviver aos altos índices de feminicídio, à objetificação, ao mercado de trabalho desigual e às jornadas triplas não são vitórias a serem comemoradas, tal qual um jogo. Esses obstáculos, definitivamente, não devem mais existir na vida das mulheres.

 

Para denunciar a persistência desse cenário, agravado pela atuação desastrosa de um governo de ideias retrógradas, as mulheres de Cuiabá irão às ruas neste domingo, junto a milhares de outras trabalhadoras do mundo. A organização local é do coletivo Mulheres na Luta, que constrói cotidianamente atividades para pautar temas feministas em diferentes espaços, além de mobilizações. A Adufmat-Ssind é uma das entidades que contribui com a organização do 8 de Março, junto ao coletivo.

 

“O local foi escolhido pela simbologia. A Praça Ulisses Guimarães leva o nome de quem promulgou a Constituição Federal de 1988, que é diariamente rasgada pelos governos, massacrando direitos, e essa mesma praça foi o local do ato “Ele Não”, realizado em 2018. Ocupar essa praça vai ser uma demonstração de que as mulheres não cederão ao militarismo e à violência”, explica a diretora da Adufmat-Ssind, Lélica Lacerda.

 

“Este ano, nós, mulheres aqui de Mato Grosso, iremos participar do 8M internacional. Como a gente não poderia deixar de fazer, vamos pisar o pé na rua, levar nossa voz à rua. Porque depois da Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista e agora Reforma Administrativa, nós não poderíamos deixar de ir às ruas dizer que nós queremos a revogação das reformas, somos contra a Reforma Administrativa, que têm atingido a vida dos trabalhadores, mas diretamente a vida das mulheres. Além disso, as taxas de feminicídio têm crescido assustadoramente de 2018 a 2020, e isso a gente precisa mostrar, a gente precisa dizer para todos”, afirmou Patrícia Acs, do Mulheres na Luta.

 

Acs destacou ainda a importância da atividade nos últimos anos, sua capacidade de agregar mulheres de todo o mundo e movimentar politicamente a partir das pautas e discussões dos últimos 8 de março. “O 8M 2020 vem com toda a força, toda a resistência que nós mulheres temos mantido nessa luta”, acrescentou.  

 

Agenda

 

A programação do chamado 8M já começou. Nessa sexta-feira, 06/03, mulheres foram ao Posto de Saúde do bairro Jardim Renascer para uma Roda de Conversa sobre o protagonismo das mulheres.

 

Também na sexta e na quinta-feira foi realizado o Encontro de Mulheres pela Vida: discussão sobre feminicídio e violência contra a mulher, no auditório do Museu Rondon/UFMT, às 18h.

 

No sábado, 07/03, às 8h, haverá a Marcha Rosa – MT Mama, com o tema “Quem tem câncer não pode esperar”, justamente num momento em que o Hospital do Câncer anuncia que não atenderá mais pacientes por falta de recursos. A concentração será na Praça Alencastro.

 

Dia 08/03, Ato às 16h, na Praça Ulisses Guimarães, com diversas atrações culturais.

 

Entre as atrações culturais, devem se apresentar Nay Silva, Lua Brandão, Nega K. Bulosa, Luisa Lamar, Karola Nunes, Josi Crispim, Carla Vecchia, Hend, Aline Fauth, Anne Duarte, Renata Crizanto e Cena Livre.

 

Ainda no dia 08/03, também às 16h, a Adufmat-Ssind expõe o painel “Não somos números”, na edição desse ano do Samba das Pretas. Serão exibidas imagens de mulheres conhecidas pelo trabalho na arte, na ciência, na política, entre outros, além de mulheres que foram vítimas de feminicídio no estado.  

 

No dia seguinte, 09/03, as mulheres se reunirão no Auditório da Adufmat-Ssind, às 19h, para avaliar o ato e continuar a organizar as próximas atividades.

 

Para marcar mais um ano sem respostas sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes, as mulheres programam um evento no dia 14/03. O ato “Quem Matou Marielle Franco e Anderson Gomes?” ainda tem local e horário a definir.

 

No dia 27/03, haverá nova Roda de Conversa sobre o protagonismo das mulheres, dessa vez no Posto de Saúde do bairro Pedregal.

 

Manifesto

 

Para marcar o 8M 2020, o coletivo Mulheres na Luta divulgou um manifesto, disponível abaixo na íntegra.

 

MANIFESTO PELA VIDA DAS MULHERES


No dia 8 de março, voltaremos às ruas mais uma vez!

Nas pequenas vilas, distritos, municípios e grandes metrópoles; nas casas, nas fábricas, locais de estudo, nas vielas e ruas, onde houver uma mulher, haverá, como sempre, luta, resistência e reivindicação! Os tons de nossas vozes, mais uma vez, se erguerão contra os retrocessos do conservadorismo e reacionarismo que mais se sub-servem do sistema patriarcal para nos retirar direitos políticos, sociais, culturais e econômicos, expondo nossa frágil democracia. Estamos no estado do agronegócio, e este é um dos estados que mais matam mulheres. O estado do agro atinge a vida das mulheres quando o dinheiro público, que deveria ser investido em serviço público para melhor atender à população, escorre pelo ralo das isenções fiscais bilionárias dadas ao agronegócio; o estado do agronegócio mata mulheres quando privilegia o agrotóxico em detrimento da vida de mulheres e crianças; mais mata mulheres quando o poder público ignora nossas vidas e não investe seriamente em políticas públicas contra violência às mulheres e os feminicídios.

Como nos anos anteriores, no dia 8 de março, também comemoraremos as conquistas que se consolidam com sufrágio, participação política, com a relativa autonomia sexual e reprodutiva, com acesso ao trabalho. Mas, buscaremos, sobretudo, fazer deste dia um grande dia de mobilização e articulação de mulheres de todas as idades, regionalidades, sexualidades, raças e identidades de gênero/ sexual e de diferentes setores da sociedade em torno de pautas comuns e que nos são muito caras.

Nossas bandeiras se levantam pela luta contra a violência doméstica, de gênero e estrutural, que nos têm feito “alvos” em nossos próprios lares; pela legalização e descriminalização do aborto, que, a cada 1 minuto, é feito de forma clandestina e é o 5º maior causador de mortes  maternas no Brasil; pela equiparação e equidade salarial que, dada a desigualdade, precariza nossas condições de trabalho, emprego e renda; pela aposentadoria digna e justa, pois, no ciclo de vida que exige maior cuidado e intervenção do Estado, somos expostas à marginalização social e econômica, que através das jornadas contínuas e ininterruptas  de trabalho, associadas ao cuidado/doméstico, ou seja, trabalho não remunerado, imputa-nos uma redução na qualidade e expectativa de vida. Assim, lutamos pela revogação da reforma da previdência e trabalhista e nos posicionamos contra a reforma administrativa, que fragilizará ainda mais os direitos sociais que, hoje, sucateados, são, equivocadamente, apresentados como “benefícios”. Lutamos por uma vida digna, cada vez mais difícil com o aumento do custo de vida; vivenciamos o aumento da comida, do gás, da carne, energia, da água, do aluguel, daquilo que é necessidade básica na vida das mulheres mais vulneráveis economicamente. Uma vida digna significa uma vida sem as grandes dívidas feitas para manter o básico do dia a dia, dívidas geradas por um mercado que visa ao lucro acima das vidas humanas; uma vida digna é ter garantidos os direitos à Saúde e Educação públicas e de qualidade; ter uma vida digna é ter acesso às creches públicas, uma vez que, em Mato Grosso, apenas 30% da demanda é contemplada pelo poder público; ter uma vida digna é ter resguardado o direito a salários que não estejam desgastados, a uma previdência mais justa e condições de trabalho mais humanas – o que não nos é oferecido, principalmente, no setor das empresas terceirizadas, em que as mulheres são maioria e os salários e direitos são os mais precarizados.  

Temos o direito de viver uma vida livre de qualquer tipo de violência, agressão física, violação e abusos sexuais, mas o Estado Brasileiro, através do atual governo (Jair Bolsonaro), e sua prática machista, racista, misógina e LGBTfóbica, nos expõem e nos colocam num “lugar frágil” e, por isso, vulnerável. A recente fala misógina do presidente em relação à denúncia de uma jornalista de um jornal de grande circulação nacional o coloca como nosso inimigo número 1. Temos um governo que, com seu discurso, justifica e incentiva a violência contra as mulheres, uma vez que prega o machismo em seus pronunciamentos e o aplica em suas políticas de redução de direitos – “mulheres devem ganhar menos porque engravidam”; “mulheres podem ser estupradas”; “homens de outros países podem vir ao Brasil fazer sexo com as brasileiras”, como se fôssemos apenas carne, objeto, sexual. E é nessa mesma linha que se colocam as arbitrariedades da ministra Damares, que, por meio de discursos que querem se fazer de alucinantes, aliena toda a população daquilo pelo que verdadeiramente lutam os movimentos feministas e de mulheres. Embora os índices de feminicídios e violência contra as mulheres estejam aumentando de modo assustador, temos uma ministra que tenta negar essa violência e a nossa necessidade de igualdade; temos um governo que tenta destruir os direitos que conquistamos com muita luta.

Nossa saída é nossa organização e nossa luta! E é isso que queremos mostrar neste 8 de março!

Não podemos mais esperar! Contra a violência mantida pelo estado patriarcal! Por direitos! Por uma vida digna! Pela vida de todas nós!

“Pela vida das mulheres: contra a violência e autoritarismo, por direitos e uma vida digna!”

                                                                                                        

Cuiabá, 8M 2020

Mulheres de Mato Grosso na Luta!

 

 

 

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

             

Ler 542 vezes Última modificação em Terça, 10 Março 2020 17:12