Sexta, 09 Abril 2021 19:18

Nesta quarta-feira, 07 de abril, o mundo celebrou o Dia Mundial da Saúde. O dia foi marcado por diversas ações da Adufmat-Ssind e entidades parceiras na capital mato-grossense e municípios do interior como Cáceres, Jaciara, Rondonópolis e Sinop.

Durante a manhã, foi realizada uma atividade virtual com a participação das mais de 70 entidades que participaram das ações estaduais. Foi debatida a situação de calamidade sanitária do estado diante da pandemia da Covid-19 e realizada a apresentação de uma CARTA AO POVO DE MATO GROSSO EM DEFESA DA VIDA E DO SUS.

 

Assista aqui a atividade na íntegra. 

 

 

E leia abaixo a carta:

 

CARTA ABERTA AO POVO DE MATO GROSSO EM DEFESA DA VIDA E DO SUS

 

O povo de Mato Grosso quer viver! O povo do Brasil quer viver!

 

O estado de Mato Grosso e todo o Brasil vivem a maior calamidade sanitária da nossa história com o assustador aumento do número de casos e óbitos por Covid-19, decorrente da deliberada incompetência do governo federal para o controle da pandemia e também de desastrosas decisões e ações descoordenadas dos governos estadual e municipais.

 

Com centenas de milhares de mortes, o Brasil se tornou uma grave ameaça sanitária mundial.

 

Por isso, neste Dia Mundial da Saúde - 7 de abril de 2021, nos juntamos a todos os movimentos e entidades que defendem a Vida e o Sistema Único de Saúde (SUS), para denunciar o genocídio em curso no Brasil decorrente da incapacidade do presidente Jair Messias Bolsonaro liderar o país no caminho de superar a pandemia, evitar mortes, salvar vidas e recuperar a economia.

 

Diante desse cenário, exigimos, de imediato, a tomada de medidas nos níveis federal, estadual e municipais para salvar a vida do nosso povo, quais sejam:

 

-     Adoção coordenada e imediata de medidas restritivas da circulação de pessoas para redução da transmissão da Covid-19;

-     Incremento de medidas de vigilância à saúde, com base territorial e integrada à atenção primária à saúde e demais serviços que compõem a rede de saúde;

-     Aceleração da vacinação de toda a população, sob a coordenação do SUS e, portanto, de caráter gratuito e seguindo os critérios de risco e de vulnerabilidade social;

-     Assegurar a assistência às pessoas acometidas pela covid-19, com mais investimentos em leitos clínicos e de UTI, insumos e mobilização de profissionais;

-     Fortalecer as equipes da Estratégia Saúde da Família/APS que apoiam a recepção e o monitoramento dos casos de Síndrome Gripal e também precisam continuar assistindo aos demais problemas de saúde, que estão se agravando desde o início da pandemia;

-     Instalação de postos de testagem de Covid-19 em regiões estratégicas, para favorecer acesso às populações que moram em bairros periféricos;

-     Comunicação eficiente para a população sobre todas as informações necessárias para o enfrentamento da pandemia;

-     Assegurar um efetivo auxílio financeiro emergencial no valor de 600 reais até o final da pandemia às pessoas em situação de vulnerabilidade. Defendemos, inclusive, a criação pelo estado de Mato Grosso e seus municípios de um auxílio social destinado às populações vulneráveis, vigente durante todo o período de pandemia e que complemente o auxílio emergencial do Governo Federal até atingir 1 salário mínimo;

-     Criação de bônus sociais para as famílias necessitadas receberem gás de cozinha, cesta básica e isenção das contas de luz, água e aluguel neste período;

-     Realização de programa de aquisição de alimentos produzidos por agricultores familiares e sua distribuição às populações economicamente vulneráveis.

-     Apoio às empresas em dificuldades de manter empregos e salários. Inclusive, com a implantação de subsídio para as micro, pequenas e médias empresas não fecharem as portas durante a pandemia, de modo a garantir segurança sanitária e renda aos empresários e trabalhadores.

Pela superação desses tempos sombrios de dores e mortes nunca antes vividos por nossa geração, as organizações, entidades, movimentos, sindicatos, partidos políticos, e mandatos populares, abaixo-assinados, reafirmam seu compromisso com o fortalecimento do SUS, a Saúde e a Vida.

Vacina para todas e todos já!

Pagamento de auxílio emergencial digno já!

Fora Bolsonaro!

 

Cuiabá, 7 de abril de 2021.

 

A seguir, as entidades signatárias:

 

1.   Articulação do Grito dos Excluídos e das Excluídas de MT

2.   Associação de Pessoas com Doença Falciforme do Estado de Mato Grosso - ASFAMT

3.   Associação dos Amigos e Amigas do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes - AAMOBEP

4.   Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Estado de Mato Grosso - ADUNEMAT

5.   Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso - ADUFMAT - Seção Sindical/UFMT

6.   Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior - ANDES/Sindicato Nacional (Regional Pantanal)

7.   Central Única dos Trabalhadores - CUT/MT

8.   Centro Acadêmico de Enfermagem - UFMT

9.    Centro Acadêmico de Serviço Social - UFMT

10.  Centro Burnier Fé e Justiça - Mato Grosso

11.  Coletivo Amigos do Pantanal

12.  Coletivo de Mulheres Camponesas e Urbanas de Mato Grosso

13.  Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro

14.  Coletivo Negras Mato-grossense

15.  Coletivo Negro Universitário da UFMT

16.  Comissão Pastoral da Terra - CPT/MT

17.  Comitê em Defesa da Saúde Pública MT

18.  Comunidade Eclesiais de Base - CEBs/MT

19.  Confederação Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB/Oeste

20.  Conselho Indigenista Missionário - CIMI/MT

21.  Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil - CONIC/MT

22.  Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB

23.  Conselho Regional de Enfermagem – Mato Grosso

24.  Conselho Regional de Psicologia- CRP 18-Mato Grosso

25.  Consulta Popular - MT

26.  Diretório Central dos Estudantes do Campus Universitário Gabriel Novis Neves - DCE/Cuiabá/UFMT

27.  Federação de Trabalhadores nas Indústrias de Mato Grosso - FETIEMT

28.  Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso - FEPOIMT

29.  Fórum de Direitos Humanos e da Terra

30.  Fórum de Mulheres Negras de Mato Grosso

31.  Fórum de População em Situação de Rua de Cuiabá - Fórum Pop Rua Cuiabá

32.  Fórum Permanente de Saúde de Mato Grosso

33.  Fórum Sindical, Popular e de Juventudes de Luta pelos Direitos e pelas Liberdades Democráticas - Mato Grosso

34.  Fórum Territorial de Segurança Alimentar e Nutricional e Economia Solidária da Baixada Cuiabana - FTSANES-BC

35.  Frente Popular pela Vida, em Defesa do Serviço Público e de Solidariedade ao Enfrentamento à Covid-19

36.  Grupo de Sinop Antifascista

37.  Grupo Livre-mente: Conscientização e Direitos Humanos LGBTQI

38.  Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso - IMUNE/MT

39.  Instituto de Negras e Negros pela Igualdade: UNEGRO - Pantanal/MT

40.  Instituto de Saúde Coletiva - UFMT

41.  Intersindical - Mato Grosso

42.  Levante Popular da Juventude

43.  Mandato Popular da Vereadora Edna Sampaio - PT/Cuiabá

44.  Mandato Popular da Vereadora Graciele Marques dos Santos - PT/SINOP

45.  Mandato Popular do Deputado Estadual Lúdio Cabral - PT/MT

46.  Mandato Popular do Deputado Estadual Valdir Barranco - PT/MT

47.  Mandato Popular da Deputada Federal Rosa Neide -  PT/MT

48.  Movimento de Mulheres Olga Benário MT

49.  Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB/MT

50.  Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST/MT

51.  Movimento Popular Nós do Renascer

52.  Mulheres Resistem MT

53.  Nova Central Sindical de Trabalhadores de Mato Grosso - NCST-MT

54.  Organização Rusga Libertária

55.  Partido Comunista Brasileiro - MT- PCB/MT

56.  Partido Comunista do Brasil - MT- PC do B/MT

57.  Partido da Causa Operária - PCO/MT

58.  Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras - PT/MT

59.  Partido dos Trabalhadores de Cáceres - PT/Cáceres

60.  Partido dos Trabalhadores de Cuiabá - PT/Cuiabá

61.  Partido dos Trabalhadores de Rondonópolis

62.  PET Conexões de Saberes UFMT

63.  Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares em Mato Grosso

64.  Sindicato dos Profissionais de Enfermagem de Mato Grosso

65.  Sindicato dos Servidores do Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso - SINETRAN- MT

66.  Sindicato dos Servidores Públicos da Saúde do Estado de Mato Grosso - SISMA/MT

67.  Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso - SINTEP/Cuiabá

68.  Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso - SINTEP/MT

69.  Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação da UFMT- SINTUF/UFMT

70.  Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica – SINASEFE/MT

71.  União da Juventude Comunista - UJC/MT

72.  União da Juventude Socialista - UJS/MT

73.  União Estadual dos Estudantes - UEE/MT

74.  Unidade Classista - MT

75.  Unidade Popular pelo Socialismo - Mato Grosso - UP/MT

 

 

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Sexta, 09 Abril 2021 09:09
 
Parlamentares em sessão que aprovou o PL 948/2021. Foto: Pablo Valadares / Agência Câmara

A Câmara dos Deputados concluiu nesta quarta-feira (7) a votação do Projeto de Lei 948/2021, que permite à iniciativa privada comprar vacinas contra a Covid-19, furando a fila do Plano Nacional de Vacinação, para a imunização de seus empregados. Para o ANDES-SN, a proposta é imoral e inconstitucional e, ainda, enfraquece a Anvisa e o Plano Nacional de Imunização.

“A proposta de venda de vacinas para empresas privadas, com o discurso de imunizar seus trabalhadores é inaceitável. Ela tira do governo federal a responsabilidade constitucional de garantir e providenciar, por meio do SUS, a imunização de toda a população. Isso não foi feito até o momento porque o governo não providenciou a compra das vacinas em tempo hábil. O SUS tem condições de imunizar milhões de pessoas por dia. Esse projeto também revela um ataque frontal à Anvisa, porque autoriza a compra de vacinas que não passaram pela aprovação da agência”, destaca Rivânia Moura, presidenta do ANDES-SN.

De acordo com o texto aprovado, além de poder comprar vacinas contra a Covid-19 que tenham registro sanitário definitivo concedido pela Anvisa, empresas e associações poderão adquirir imunizantes com autorização temporária para uso emergencial ou autorização excepcional e temporária para importação e distribuição.

No entanto, o PL 948/21 permite também que empresas e associações driblem a autoridade da Anvisa, e adquiram imunizantes sem registro ou autorização da agência, desde que tenham aval de qualquer autoridade sanitária estrangeira reconhecida e certificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O projeto estabelece que as empresas deverão doar 50% das doses adquiridas para o Sistema Único de Saúde. Porém, as doses não aprovadas pela agência reguladora não poderão ser usadas na vacinação gratuita,
promovida pelo SUS. Logo, dificilmente irá contribuir ou acelerar a Campanha de vacinação contra Covid-19 no Brasil.

A presidenta do ANDES-SN ressalta, ainda, que é a Constituição Federal prevê que é atribuição única e exclusiva do Sistema de Saúde brasileiro atestar a segurança e qualidade de medicamentos. Ela lembra os mais de 14 milhões de brasileiros e brasileiras sem emprego e a grande parcela da população em trabalhos informais, que ficarão completamente desassistidos, uma vez que a proposta, se aprovada, deverá ampliar o descaso do governo federal com a imunização de brasileiras e brasileiros.

“Consideramos inaceitável esse projeto. É revoltante o que tem sido feito com a imunização nesse país. Até hoje, só 2,8% da população tomou as duas doses da vacina. É inadmissível um projeto desse teor, que, de fato, vai aprofundar gravemente o processo de desigualdade social, já agravado pela pandemia. Esse projeto vai fazer com que a população mais pobre não tenha de fato acesso à imunização, pois a medida que as empresas comprarem as vacinas, vai se ampliar ainda mais o descaso e desresponsabilização que o governo federal tem tido nesse processo. E isso vai impactar diretamente a população mais pobre, que precisa do SUS”, avalia Rivânia.

Quem poderá comprar e vacinar?
Conforme o texto aprovado pelas deputadas e deputados, as regras se aplicam às pessoas jurídicas de direito privado, individualmente ou em consórcio.

Poderão ser vacinados ainda outros trabalhadores que prestem serviços a elas, inclusive estagiários, autônomos e empregados de empresas de trabalho temporário ou de terceirizadas.

Quanto às pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos (associações ou sindicatos, por exemplo), a permissão vale para seus associados ou cooperados.

A proposta permite que as empresas escolham entre doar integralmente as doses adquiridas para o SUS, o que já estabelece a legislação em vigor, ou aplicar as doses exclusivamente nos seus trabalhadores, de forma gratuita, e doar a mesma quantidade utilizada ao Programa Nacional de Imunização. No entanto, se a empresa adquirir vacinas que não tenham aprovação da Anvisa, as mesas não poderão ser usadas no PNI. Além disso, parcela da população será imunizada com medicamento ainda não aprovado pelo órgão regulador do Sistema de Saúde brasileiro.

“Vacinação é política de pública e precisa ser feita pelo nosso Sistema Único de Saúde. Esse projeto para compra de vacinas por empresas é imoral, é inconstitucional e é revoltante. Não aceitamos. Não podemos aceitar! Vamos continuar com a campanha nacional pela vacinação pública e gratuita para todas e todos, pelo SUS”, afirma a presidenta do ANDES-SN.

Vacinas privadas no mundo
O Brasil é um dos poucos países no mundo onde se discute a possibilidade de vacinação contra a Covid-19 pelo setor privado. Na América Latina, apenas o México aprovou tal medida. A vacina também pode ser comprada por empresas no Paquistão, Tailândia, Filipinas e Malásia. Nem mesmo nos Estados Unidos, onde o Sistema de Saúde não é público nem gratuito, se permitiu, até o momento, a vacinação da população pela iniciativa privada.

Tramitação
O texto aprovado pela Câmara foi o relatório elaborado pela deputada Celina Leão (PP-DF), ao Projeto de Lei 948/21, do deputado Hildo Rocha (MDB-MA). A proposta segue para votação no Senado. Se aprovada, vai à sanção presidencial.

 

Fonte: ANDES-SN (com informações da Agência Câmara de Notícias e site G1)

Quinta, 08 Abril 2021 20:17

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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 Juliana do Couto Ghisolfi [ii]

Maryanne Galvão [iii]
 

          Nos últimos dias, levantamentos realizados por deputados estaduais[iv], pelo Tribunal de Contas (TCE-MT)[v] e pelo Ministério Público de Contas de Mato Grosso (MPC-MT)[vi] registraram aquilo que a população mato-grossense sabe na prática: a vacinação está lenta.

          No caso de Cuiabá, além da lentidão[vii], a vacinação parece ainda mais difícil, pois até o início desta semana, ocorria em um único local – o Centro de Eventos do Pantanal que, diga-se de passagem, fica nas proximidades de bairros centrais e elitizados. Além de centralizada em um só lugar, a vacinação somente é aplicada após agendamento exclusivo pelo site da prefeitura, que com frequência apresenta instabilidade[viii] e pane.

          Na semana do dia 30/03/2021 teve início na capital matogrossense a vacinação das faixas etárias entre os 70 aos 74 anos. Acompanhamos uma família na tentativa de agendamento da vacina para um idoso de 74 anos. Em duas ocasiões, no site da prefeitura, existia a disponibilidade de data e horário, entretanto ao clicar para confirmar o horário, o site caía, e não voltava mais. No quarto dia de tentativa, com cinco pessoas tentando simultaneamente, foi possível completar o procedimento e, finalmente, agendar a vacinação. 

          Questionada em uma rede social – a respeito da aglomeração de idosos, sobre a inconstância do sistema de marcação online – a Prefeitura de Cuiabá afirmou que nossa cidade fora a capital que menos recebeu vacinas.


 
          Na tabela acima, elaborada a partir de dados do Localiza SUS e dados demográficos do IBGE, estão destacados os percentuais da população de cada capital e de cada Unidade Federativa da região Centro Oeste, e o percentual de doses que cada Estado destinou à sua capital. Brasília, obviamente, fica com 100% das doses encaminhadas pelo Ministério da Saúde. Campo Grande, que possui cerca de 33% da população de Mato Grosso do Sul, recebeu aproximadamente o mesmo percentual de vacinas. Da mesma forma, Cuiabá representa 17% da população de MT, e recebeu 19% das vacinas que chegaram a MT. A exceção é Goiânia, que possui 21% da população do estado, mas recebeu 51% das doses destinadas a Goiás.

          Se Campo Grande e Cuiabá receberam percentual de vacinas equivalentes ao percentual da sua população no Estado, o que explicaria a discrepância dos desempenhos das duas capitais em suas campanhas de vacinação? Ao compararmos as duas capitais, surgem muitas questões a respeito da vacinação contra a COVID-19 em Cuiabá.

          Para começar, ao contrário de Cuiabá, Campo Grande conta com uma campanha de vacinação descentralizada: as vacinas são aplicadas em mais de 30 locais, nos diferentes bairros da cidade. O morador vai até a unidade mais próxima de sua casa, na época de vacinação de sua faixa etária, e recebe a vacina, sem maiores burocracias. Além de facilitar e diversificar o acesso, a vacinação feita nos bairros permite acompanhar o avanço da aplicação das doses em cada região da cidade.

          Após o Ministério Público de Mato Grosso (MPE-MT)[ix] ingressar com ação civil pública exigindo que a Prefeitura de Cuiabá abra mais polos de vacinação em Cuiabá, especialmente com as últimas doses recebidas do Ministério da Saúde no dia 01 de abril (113 mil doses), o prefeito Emanuel Pinheiro anunciou ontem a abertura de dois novos locais[x] de vacinação.

          Hoje, 06/04, a prefeitura anunciou mudanças no sistema de agendamento: ao fazer o cadastro do usuário, a data e o horário da vacinação serão feitos a partir de uma “‘fila de espera virtual’ e o agendamento é gerado automaticamente de acordo com a ordem cronológica de cadastro no site e com a quantidade de vagas disponibilizadas por dia”.[xi].

          Ou seja, foi preciso que instituições como o Ministério Público e deputados questionassem para que algumas mudanças fossem adotadas. Esperamos que as mudanças anunciadas não sejam no estilo “mudar para continuar igual”[xii]

          Ainda assim, restam dúvidas que merecem esclarecimento:

          - Por que Cuiabá optou por vacinar em um único local até agora?

          - Por que não descentralizar mais os polos de vacinação, com um ponto por bairro, por exemplo?

          - Por que a exigência do agendamento exclusivamente pelo site? Poderia ser uma opção, para agilizar o atendimento, mas não um empecilho para a vacinação de quem não consegue fazer o agendamento. Agora é esperar que o novo sistema não apresente falhas, e, ainda mais importante, que haja transparência na “fila virtual” anunciada.

          - Nas condições em que vinham ocorrendo as vacinações até o começo desta semana, foi feito um acompanhamento de quantos idosos de cada região da cidade estão sendo vacinados? Quem são os idosos que estão recebendo as vacinas em Cuiabá? De quais regiões e bairros?

          - Qual o perfil socioeconômico da população vacinada?

          - Os idosos de famílias sem acesso à internet estavam conseguindo agendar a vacinação e comparecer ao distante Centro de Eventos do Pantanal?

          As duas últimas questões estão intrinsicamente ligadas, pois se levarmos em consideração que muitas pessoas não possuem acesso à internet banda larga e que muitos bairros populosos, da região periférica da cidade, ficam bastante distantes do único ponto de vacinação, no Centro de Eventos do Pantanal – como o bairro Pedra 90, um dos mais populosos de Cuiabá, que fica a 21 km de distância, 42 km para ir e voltar – é possível que idosos dos bairros mais distantes e carentes não estejam recebendo a vacina a que teriam direito e acesso, se a vacinação ocorresse nas UBS, por exemplo.

          Várzea Grande, cidade que integra a região metropolitana de Cuiabá, recebeu 37.591 doses de vacinas, ou seja, 6,7% da quantidade recebida pelo Estado de Mato Grosso. A cidade conta com dois pontos[xiii] de vacinação, e pretende ampliar para cinco pontos na medida em que for decrescendo a faixa etária do público alvo. Juntas, Cuiabá e Várzea Grande receberam aproximadamente 25% das doses que chegaram a MT.

          O certo é que tanto o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) quanto o governador Mauro Mendes (DEM) não perdem oportunidade pra rivalizar entre si, e isso, temos certeza, não ajuda na dinâmica de buscar acesso às vacinas e muito menos na criação de um plano municipal ou estadual efetivo de gestão de crise e de vacinação. Os mandatários deveriam parar de pensar em eleições e agir. Enquanto isso, Mato Grosso bateu mais um triste recorde de perdas em 24 horas para a pandemia: de domingo (04/04/2021) para segunda, foram 128 mortos.

          Todos aguardamos por respostas e, principalmente, pela vacinação em massa, e em locais acessíveis a toda a população, de todas as regiões das cidades. Por enquanto, ainda temos o direito ao acesso universal. No entanto, a realidade é que as vacinas estão escassas, mesmo para os grupos prioritários.
 
Fontes:

IBGE - População Centro-Oeste por faixa etária. Disponível em:  https://sidra.ibge.gov.br/tabela/5918#resultado Acesso em: 03/04/2021.
SUS - Localiza SUS. Disponível em:  https://localizasus.saude.gov.br/ Acesso em: 03/04/2021.

 


[i] Este artigo faz parte de SANTANA, Luciana (org). Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política – ABCP.
[ii] Doutora em Ciência Política; Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política/ UFMT.
[iii] Socióloga, Pós Doutoranda do Programa Pós Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Piauí.
[iv] https://www.gazetadigital.com.br/editorias/politica-de-mt/estudo-mostra-que-quase-40-das-vacinas-recebidas-em-mt-ainda-no-foram-aplicadas/649186  
[v] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/01/tce-mt-aponta-baixa-aplicacao-da-vacina-contra-a-covid-19-em-64-municipios-e-pede-aceleracao.ghtml
 [vi]https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/03/31/mp-aponta-divergencia-entre-doses-distribuidas-e-aplicadas-e-questiona-governo-e-municipios-de-mt.ghtml
[vii] Apesar da lentidão na vacinação, Cuiabá foi uma das 7 cidades em que a prefeitura (MDB) suspendeu a vacinação durante a sexta feira santa (02/04). https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/04/02/brasileiros-nao-puderam-se-vacinar-em-pelo-menos-11-capitais-nesta-sexta-feira-2.ghtml
[viii] Prefeitos de 141 municípios do interior do Estado, pressionados pelo governador Mauro Mendes quanto à lentidão e transparência dos dados da vacinação, divulgaram nota declarando instabilidade no sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI), que ficaria horas sem funcionar, comprometendo os registros de doses extramuros em até 48 horas, além de falta de acesso à internet em regiões rurais e as chuvas, e falta de servidores. https://www.midianews.com.br/politica/prefeitos-atribuem-atraso-a-sistema-instavel-e-equipes-reduzidas/396364
[ix] https://www.gazetadigital.com.br/editorias/judiciario/mp-aciona-justia-para-descentralizar-vacinao-em-cuiab/649763 
[x] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/05/ufmt-e-sesi-papa-serao-novos-pontos-de-vacinacao-contra-a-covid-19-em-cuiaba-no-modelo-drive-thru.ghtml
[xi] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/06/agendamento-da-vacina-contra-covid-19-em-cuiaba-sera-feito-de-forma-automatica.ghtml
[xii] Referência à obra de Tomasi di Lampedusa, Il Gattopardo (O Leopardo), que narra a decadência da aristocracia italiana. Em determinado momento, Tancredi, sobrinho do Príncipe Don Fabrizio, afirma que é preciso que tudo mude, para tudo permanecer como está.
[xiii] http://www.varzeagrande.mt.gov.br/conteudo/18882/nesta-quinta-feira-a-vacinacao-ocorreu-na-clinica-medica-do-univag-e-atraves-de-drive-thru-prefeito-voltou-a-cobrar-autoridades-federais-para-liberar-mais-vacinas
 

Terça, 06 Abril 2021 11:25

 

Sistema utilizado em Cuiabá, além de ser ruim, também se revela excludente

 

O Governo do Estado não consegue dizer por que Mato Grosso é um dos estados que menos vacinou no país. No período mais grave da pandemia, com números cada vez mais alarmantes de mortes e contágio, apenas 60% das vacinas recebidas foram aplicadas. Mas esse é o primeiro de uma série de erros, que incluem a desorganização, e que causaram o péssimo desempenho do estado.

       

Na última semana, o atraso de Mato Grosso na aplicação das vacinas repercutiu local e nacionalmente. O Tribunal de Contas do Estado elaborou um documento apontando alguns fatores e pedindo celeridade a 64 municípios. O Ministério Público de Contas pediu esclarecimentos sobre as doses recebidas e aplicadas, além da descentralização do local de aplicação.

 

Após o a informação de que pouco mais da metade das vacinas recebidas foram aplicadas – em Cuiabá, das 95.588 doses que chegaram, apenas 57.364 - também a centralização da vacinação no Centro de Eventos Pantanal e a completa desorganização do agendamento pelo site ganharam o centro das reclamações. O professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Carlos Roberto Sanches, de 74 anos, conseguiu tomar a primeira dose nessa segunda-feira, 05/04, depois de passar uma semana inteira tentando agendar.

 

“O site marca para 13h a abertura do agendamento, mas não funciona. O mais estranho é que não aparecem vários horários, aparece um ou dois, e quando você vai escolher, em menos de um minuto, o sistema cai. Isso foi a semana inteira, inteira, inteira. Tentamos de madrugada, acordamos às 4h da manhã, porque falaram que apareciam os horários, e nada. Até que conseguimos marcar num sábado. Mas esse é um sistema ultra excludente. Só quem tem internet boa, de qualidade, consegue marcar. E quem não tem? O sistema está privilegiando apenas quem tem acesso. Outra coisa é o local. Um lugar de difícil acesso, distante. Você percebe que as pessoas que não têm transporte estão pagando uber”, relatou à Adufmat-Ssind a esposa de Sanches, também professora, Cristiane Vasconcelos.  

 

A professora do Departamento de Ciência Política da UFMT, Juliana Ghisolfi, acredita que esses são os fatores mais evidentes que motivam o atraso. “Me chama a atenção o seguinte: nas maiores cidades do Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, a vacinação acontece em vários locais. Em Campo Grande, por exemplo, a vacinação é feita nos postos de saúde, às vezes mais de um posto de saúde por bairro. Os postos atendem a população local. O agendamento é diretamente no posto, a pessoa marca um dia, quando abre a vacinação para a faixa etária, a pessoa marca e vai no dia tomar a vacina. Minha mãe tem 68 anos e está vacinada. Essa semana vai abrir para a população na faixa dos 50 anos em Campo Grande. Aqui em Cuiabá a vacinação está acontecendo só no Centro de Eventos Pantanal e dependendo de agendamento num site que não funciona”, avaliou.

 

Vale destacar que há alguns dias, diante da confusão generalizada, a Prefeitura de Cuiabá chegou a dizer que o sistema de agendamento foi invadido por hackers, o que motivou o a suspensão da vacinação até que as equipes se reorganizassem. Na sexta-feira, 02/04, o município suspendeu novamente a vacinação, não por falta de doses, mas por causa do feriado.

 

“A vacinação num só lugar e o agendamento feito por um site que não funciona é um problemão. Quem é que está conseguindo agendar vacina em Cuiabá? Porque depende de ter uma boa conexão, de ter gente pendurada no site tentando agendar. Então, a população mais pobre está conseguindo agendar?”, questiona Ghisolfi.   

 

Contradições


A Secretaria de Estado de Saúde (SES) chegou a dizer que o percentual baixo foi motivado por um atraso no registro de informações. “Para que essa inserção de informações no RNDS [Rede Nacional de Dados em Saúde] ocorra de forma mais célere, o secretário Estadual de Saúde, Gilberto Figueiredo, e o presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems-MT), Marco Antonio Norberto, convocaram uma reunião com os secretários municipais para tratar do tema, pois as informações ainda estão defasadas no sistema, o que coloca Mato Grosso entre os que menos vacinou no País”, respondeu a assessoria de Imprensa da SES à Adufmat-Ssind.

 

No entanto a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da capital, responsável pela maior demanda do estado, informou que o sistema utilizado pelo município é atualizado em tempo real. “O sistema utilizado pelo município para inserir os dados da vacinação é o SI-PNI, atualizado em tempo real, no momento em que o usuário apresenta os documentos para se vacinar, na Capital. Com os dados do SI-PNI, o Ministério da Saúde atualiza a Rede Nacional de Dados em Saúde e o portal Localiza SUS, onde é informado ao público em geral o ‘vacinômetro’ da covid-19. No caso de Cuiabá, por exemplo, a última atualização no Localiza SUS foi feita em 29/03. Mas os dados dos dias 30 e 31 já foram inseridos no SI-PNI pelo município. O porquê do delay entre o SI-PNI e o Localiza SUS deve ser questionado junto ao Ministério da Saúde”, explicou a SMS.

 

A justificativa só faria sentido, no entanto, se o atraso fosse registrado nacionalmente, o que não é o caso. Alguns estados já ultrapassaram a marca dos 12% de vacinação.  

 

A SES não tentou emitir qualquer explicação sobre os outros 40% de doses não aplicadas. Não alegou nem que estariam reservadas para a segunda dose, nem que seriam aplicadas nos próximos dias. Apesar de o SUS ser um sistema integrado, a SES se limitou a dizer que “as doses recebidas do Governo Federal foram entregues pela SES aos municípios. São eles os responsáveis pela vacinação do público alvo. Diante disso, orientamos que esse questionamento seja realizado aos municípios”. 

 

Outro argumento apresentado como tentativa de justificar o atraso foi que a quantidade de vacina é proporcional ao número de pessoas do grupo prioritário, e não à população em geral.

 

“Em Mato Grosso, os grupos prioritários somam 1.121.971 pessoas. A população convocada foi de 125.622. E chegaram 447.960 doses. Dados do Localiza SUS”, respondeu a Secretaria Municipal de Saúde. 

 

No entanto, esse argumento também não se sustenta, considerando que Mato Grosso do Sul, por exemplo, é o estado que mais vacinou até o momento e, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem um perfil populacional bastante parecido com Mato Grosso. Por aqui 35% da população tem idade entre 0 e 19 anos, 57% entre 20 e 59 anos e 7,9% acima de 59. O estado vizinho tem 34% da população entre 0 e 19 anos, 56% entre 20 e 59 e 9,8% acima de 59 anos.

 

“Faz sentido que as vacinas sejam encaminhadas de forma proporcional à população prioritária, mas não faz sentido Cuiabá ter vacinado pouca gente por ter mais jovens. Até porque, em todo o país, o grupo prioritário é de profissionais de saúde e idosos, e essa semana o Mato Grosso do Sul já vai começar a vacinar a faixa etária de 50 anos. Em Cuiabá, nem os que têm 70 estão conseguindo vacinar”, observou a professora da UFMT, Juliana Ghisolfi.

 

Nessa terça-feira a Secretaria Municipal de Cuiabá informou que vai descentralizar o local de aplicação das vacinas e fazer mudanças no sistema de agendamento, que ainda será pelo site.

 

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Sexta, 26 Março 2021 18:30

 

 

 

O Instituto Butantan anunciou nesta sexta-feira (26) que desenvolveu uma vacina 100% nacional contra a Covid-19 e irá pedir à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorização para testes clínicos com o novo imunizante, chamado de Butanvac.

 

Segundo o diretor do Instituto, Dimas Covas, a vacina integralmente desenvolvida no Brasil é produzida com vírus inativado através do método que utiliza ovos embrionários. É o mesmo método utilizado para a produção da vacina da gripe.

 

“Nós já estamos falando de uma segunda geração de vacinas. Já é a vacina 2.0. Aprendemos com as vacinas anteriores e sabemos o que é uma boa vacina pro Covid. Ela é mais imunogênica e, portanto, poderemos usar menores doses da vacina por pessoa. Com isso, o quantitativo de doses pode ser aumentado”, afirmou o diretor do Butantan em coletiva à imprensa.

 

A vacina, que vem sendo desenvolvida desde o ano passado, já passou por testes pré-clínicos em animais. O Butantan pedirá à Anvisa autorização para fazer a avaliação em humanos.  O pedido de autorização se refere às fases 1 e 2 de testes da vacina, nas quais serão avaliadas segurança e capacidade de promover resposta imune com 1.800 voluntários. Na fase 3, com até 9.000 indivíduos, é estipulada sua eficácia.

 

Segundo Covas, o objetivo do Butantan é liderar um consórcio que tem como objetivo produzir vacina para países pobres da África e da Ásia.

 

“Seremos totalmente independentes, temos uma capacidade de produção de 100 milhões de doses por ano e já podemos iniciar a produção em maio, com a produção de 40 milhões de doses, assim que acabar a campanha da vacinação da gripe. Agora, aguardamos a aprovação da Anvisa para iniciar o estudo clínico. Isso será feito, acredito eu, muito rapidamente, e possamos começar a usar essa vacina ainda no segundo semestre deste ano”, disse o diretor do instituto paulista, que é responsável no Brasil pela produção da Coronavac, em parceria com a chinesa Sinovac.

 

 

Fonte: CSP-Conlutas (com informações de Congresso em Foco e G1)

 

 

Sexta, 26 Março 2021 18:19

 

 

 

Nesta quarta-feira (24), o país totalizou 300 mil mortes por Covid-19, consolidando a lamentável posição de epicentro mundial da pandemia. Os números são alarmantes e não deixam margem para qualquer dúvida sobre o descontrole da disseminação do vírus no Brasil.

 

A média diária de casos e mortes é recorde há várias semanas e a escalada de casos fatais demonstra a velocidade com que a doença está se espalhando e matando.

 

Do primeiro caso registrado oficialmente em 12 de março de 2020, passaram-se 149 dias para que alcançássemos 100 mil mortes. Para registrar 200 mil vidas perdidas transcorreram 152 dias. Já a assombrosa marca de 300 mil óbitos foi alcançada apenas 76 dias depois.

 

Segundo o mais recente Boletim Extraordinário do Observatório Covid-19 Fiocruz, ocorreram, em média, 73 mil casos diários e 2 mil óbitos por dia na última semana epidemiológica analisada (14 a 20 de março de 2021). O número de casos cresce a uma taxa de 0,3% ao dia e o número de óbitos aumentou para 3,2% ao dia, um ritmo ainda maior do que o das semanas anteriores.

 

“O cenário é preocupante, pois indica que pode estar havendo uma situação de desassistência e falhas na qualidade do cuidado prestado para pacientes com quadros graves de Covid-19”, comentam os especialistas.

 

“A incapacidade de diagnosticar correta e oportunamente os casos graves, somado à sobrecarga dos hospitais, em um processo que vem sendo apontado como o colapso do sistema de saúde, pode aumentar a letalidade da doença, dentro e fora de hospitais”.

 

A instituição destaca que o cenário nacional não é apenas de crise sanitária, mas também humanitária, considerando todos os seus impactos, com aumento da miséria.

 

 

É urgente adoção de lockdown por 14 dias

 

A Fiocruz orienta a adoção imediata de medidas rígidas de bloqueio no Brasil, com restrição de todas as atividades não-essenciais, o lockdown, por 14 dias. O prazo é considerado como o tempo mínimo para a redução efetiva das taxas de transmissão e da pressão sobre os sistemas de saúde.

 

Em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, o coordenador do Observatório Covid-19 Fiocruz, o professor Carlos Machado, alertou que se o lockdown de 14 dias não for adotado de forma coordenada por todas as esferas, o país chegará à 5 mil mortes por dia no final de abril. Segundo o especialista, o lockdown, para ser eficiente, tem que durar de 14 a 21 dias.

 

“Esse é o tempo que demora, em média, para os sintomas se manifestarem de forma clara e evidente e, no caso dos casos mais graves, que haja a evolução da doença. Ou seja, se fecharmos tudo hoje, nos próximos 15 dias ainda teremos casos surgindo porque as pessoas já tinham se infectado. A experiência em Araraquara [que decretou lockdown] nos mostra que cinco dias após o fechamento, ainda havia aumento de 12% nos casos de internação. Eles só conseguiram reduzir em 40% a transmissão do vírus no 17º dia do lockdown. Essas medidas deram certo também em outros países. Mas precisa de tempo para funcionar. Se adiarmos mais uma semana, aumentaremos muito o número de mortes”, afirmou.

 

Ampliação do auxílio emergencial e lockdown já

 

Diante do colapso no país e pressionado, Bolsonaro faz cena de uma suposta mudança de postura, mas segue mentindo descaradamente como fez no pronunciamento em rede nacional de TV na última terça-feira, dizendo que seu governo “sempre combateu a pandemia”.

 

A CSP-Conlutas defende o lockdown e que a medida seja garantida com pagamento de auxílio emergencial de um salário mínimo para trabalhadores desempregados, informais e autônomos, bem como apoio aos proprietários de pequenos negócios.  “É preciso que os governos garantam renda para que, de fato, a população fique em casa”, disse o dirigente da Secretaria Executiva Nacional da Central Atnágoras Lopes.

 

“Ao mesmo tempo, é preciso pressão para que o governo Bolsonaro, de fato, atue para garantir vacinas em doses suficientes para imunizar toda a população brasileira imediatamente”, disse.

 

“Somente a mobilização popular pode derrotar a política genocida deste governo e defender a vida e os empregos”, afirma o dirigente.

 

Fonte: CSP-Conlutas

Quarta, 24 Março 2021 16:00

 

 

 

O Brasil está prestes a totalizar 300 mil mortes pela Covid-19. Tivemos na semana passada, de 15 a 21 de março, os dias mais fatais da pandemia, em que o país sozinho contabilizou 25% de todas as mortes por Covid-19 no mundo. Em números absolutos de vidas perdidas na pandemia, estamos atrás apenas dos EUA, apesar de termos apenas 2% da população mundial.

 

Considerando os últimos sete dias, morreram, em média, 2.255 pessoas por dia e especialistas estimam que a situação poderá ser ainda mais dramática se não houver medidas efetivas para frear a contaminação no país. Falam em até 5.000 mortes diárias, com o país alcançando a marca, em poucos meses, de meio milhão de pessoas.

 

O colapso vivido em Manaus (AM) no início deste ano já se espalha por todo o país. O Ministério da Saúde admitiu nesta terça-feira (23) que seis estados estão com situação preocupante no abastecimento de oxigênio hospitalar. São eles: Acre, Rondônia, Mato Grosso, Amapá, Ceará e Rio Grande do Norte. Outros seis estados estão em estado de atenção: Pará, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

Em mais um capítulo do caos instalado no país, hospitais começaram a relatar a falta de bloqueadores neuromusculares, analgésicos e sedativos, medicamentos usado para a intubação de pacientes graves. Segundo matéria da Folha de S.Paulo, que ouviu médicos intensivistas, a escassez desses medicamentos tem obrigado as equipes médicas a racionar o uso desses insumos ou improvisar.

 

Isso sem falar na falta de leitos de UTIs em todo o país. 16 estados mais o Distrito Federal estão com a ocupação de leitos em colapso. Segundo a Agência CNN, Mato Grosso e Rondônia estão com a situação mais crítica, com 106% e 100% de ocupação, respectivamente.

 

Outros 15 estão com uso acima de 90%: Acre – 99,1%, Rio Grande do Sul – 98,4%; Goiás – 98,28%; Distrito Federal – 97,1%; Pernambuco – 97%; Santa Catarina – 96,8%; Mato Grosso – 95,72%; Piauí – 95,4%; Paraná – 95%; Amapá – 94,23%; Espírito Santo – 93,82%; Tocantins – 93%; Ceará – 91,6%; São Paulo – 91,2%; Rio Grande do Norte – 90,44%.

 

Para Bolsonaro, país “dá exemplo” e “está dando certo”

 

É diante deste cenário que Bolsonaro afirmou em uma cerimônia com políticos e empresários em Brasília, nesta segunda-feira (22), que o país “está dando certo” e “dá exemplo”. Estamos dando certo, apesar de um problema gravíssimo que enfrentamos desde o ano passado. Mas o Brasil vem dando exemplo. Somos um dos poucos países que está na vanguarda em busca de soluções”, disse.

 

Mais do que uma fala que não corresponde à realidade, a declaração de Bolsonaro comprova, mais uma vez, que o governo segue tratando com negligência e descaso a pandemia no país.

 

O Ministério da Saúde novamente está sem um ministro de fato a comandar a Pasta. Na semana passada, Bolsonaro anunciou a saída do general Eduardo Pazuello e sua substituição pelo médico Marcelo Queiroga. Até agora, contudo, o novo ministro não assumiu.

 

Isso porque o governo tenta encontrar uma saída para Pazuello, que está sob investigação de má gestão e improbidade administrativa em razão da condução do ministério na pandemia. A intenção de Bolsonaro é manter o general incompetente no governo, para lhe garantir foro privilegiado em meio às investigações e denúncias.

 

Sem contar que no final de semana, ao comemorar seu aniversário de 66 anos de idade junto a apoiadores aglomerados em frente ao Palácio da Alvorada, atacou novamente os governadores que estão tomando medidas restritivas para frear o avanço da Covid-19, reafirmou a ação que ajuizou no STF (Supremo Tribunal Federal) para impedir essas ações e novamente ameaçou o uso das Forças Armadas.

 

Dia 24 é dia nacional de luta

 

A política negacionista do governo de Bolsonaro e Mourão trouxe o país à situação crítica que estamos vivendo. É uma política consciente que nega a Ciência e as medidas necessárias para combater a Covid-19 e que está causando um verdadeiro genocídio.

 

Esta quarta-feira, 24 de março, será um Dia Nacional de Protestos e Paralisações para exigirmos vacinação imediata para toda a população; lockdown nacional com pagamento de auxilio emergencial de um salário mínimo para trabalhadores informais, desempregados e autônomos, bem como para proprietários de pequenos negócios. E, principalmente, para fortalecer a luta para colocar para fora este governo de genocidas.

 

Fora Bolsonaro e Mourão, já!

 

Fonte: CSP-Conlutas

Terça, 23 Março 2021 13:56

Um ato público e uma carta aberta, os trabalhadores chamam a atenção para diversas situações de risco e injustiças trabalhistas

 

Nessa segunda-feira, 22/03, a população mato-grossense se deparou com mais uma triste realidade: profissionais da Enfermagem que trabalham em regime de plantão, diretamente em contato com a Covid-19, arriscam suas vidas por condições de trabalho absolutamente precarizadas e salários ínfimos. Tudo isso oferecido pelo próprio Estado, que se recusa a dialogar sobre a demanda.

 

Os trabalhadores reclamam que, além da ausência de benefícios gerais, como férias remuneras, 13º salário, direito ao afastamento em caso de doenças, não conseguem nem mesmo receber a verba indenizatória oferecida a outros servidores que trabalham na linha de frente no combate à pandemia.

 

Em um ato realizado na manhã dessa segunda-feira, em frente ao Centro de Triagem da Covid-19 da Arena Pantanal, onde atuam, os servidores pediram ajuda apoio à população. Além da ausência de direitos, há ainda reclamações com relação à instabilidade salarial pelas mudanças no atendimento feitas pela própria Secretaria. “Nós fazemos todos os plantões em escala de 12 por 36, como qualquer outro profissional de unidades de pronto atendimento, seja onde for. E o mais lamentável é que colegas do setor administrativo, que não têm contato com o paciente, não prestam assistência direta, têm direito a receber a verba indenizatória de R$ 500. Os colegas que estão em cargos de chefia, assessores, diretores, ganham mais de R$ 500. O diretor geral da Arena ganha mil reais por mês de verba indenizatória, porém não presta nenhum cuidado ao paciente. E a ele é garantido esse direito porque o vínculo dele é de contrato temporário, então ele recebe o salário fixo, recebe o valor do plantão, e recebe mais mil reais de verba indenizatória” explica a enfermeira Kamylla Reis.   

 

Uma prova de que a Reforma Trabalhista, cuja lógica é espremer os direitos dos trabalhadores, já afeta tragicamente o setor privado e também do setor público.

 

Além de tudo isso, a sobrecarga de trabalho pesa sobre os profissionais, porque com o agravamento da pandemia, aumentou o número de atendimentos, mas não de profissionais. A infraestrutura, precarizada desde antes da pandemia pelos governos, é outro ponto muito sensível e destacado pelos trabalhadores. Os setores de triagem e testagem, por exemplo, não têm pia para higienização das mãos. O álcool 70% é indicado por um período, mas ele cria um biofilme nas mãos, então a higienização precisa ser feita também frequentemente, denunciam os servidores.

 

“O setor de testagem é fechado, semelhante a um contêiner, com vários guichês. Quando a gente faz o exame do swab (cotonete estéril para coleta de amostra microbiológica), inserindo pela nasofaringe, uma resposta normal do paciente é espirrar ou tossir, liberando partículas do vírus no ar. A dificuldade dentro desse setor específico não existe um filtro capaz de remover essas partículas ou, no mínimo um exaustor, para a circulação de ar acontecer e o vírus não ficar suspenso no ar, para circular o ar”, diz Reis.

 

Os manifestantes ressaltam ainda que o salário médio de uma técnica de enfermagem hoje é R$ 2.300. Os trabalhadores do setor administrativo, que apenas oferecem orientações aos pacientes na Arena, recebem o mesmo valor, porque recebem o salário fixo e o plantão, mas também a verba indenizatória. Assim, têm condições melhores do que os técnicos em Enfermagem que estão em contato direto com os pacientes e correm um risco maior de infecção. Vale destacar que a reivindicação dos profissionais é pela ampliação dos direitos, de forma justa, e não redução em prejuízo de qualquer trabalhador.

 

Em reunião com o secretário estadual de Saúde, na presença do sindicato da categoria, o gestor foi contundente em dizer que os trabalhadores não têm direito a nada além do que está no edital de contratação, e que o pagamento de plantões atrasados e não pagamento de falta mediante apresentação de atestados são casos excepcionais, muito embora todos os documentos e requisitos tenham sido apresentados pelos servidores nos prazos solicitados. Também foram acionadas as chefias locais e diretorias sobre o assunto, sem respostas.   

 

O ato dos trabalhadores, que teve o apoio da "Frente Popular pela Vida: em Defesa dos Serviços Públicos e de Solidariedade ao Enfrentamento à Covid-19" tem como objetivo insistir no diálogo com o Estado. “Nós decidimos fazer o ato antes do horário de trabalho, para não prejudicar o atendimento. Nós começamos às 5h, e tinha gente aguardando desde às 3h. A gente sabe o que é isso, nossos parentes, tios, primos, irmãos, já passaram por ali. O que nós esperamos é que o Governo se sensibilize, porque o que a gente ganha não condiz com o trabalho que executamos e com os riscos a que estamos expostos. E que a população nos apoie, porque quem cuida dos pacientes são os profissionais da Enfermagem. Se precisarem de internação, medicamento, banho, troca de fralda, quem segura a mão dele no leito é o profissional da Enfermagem. Nós precisamos de valorização. Nosso trabalho é essencial, sem Enfermagem não tem saúde. Nós esperamos que a população perceba isso e ajude a cobrar os governantes”, acrescentou a enfermeira.

 

Por fim, a profissional convidou os demais colegas da saúde, de outras unidades públicas e privadas, para a luta por valorização e condições de trabalho adequadas. “Entrem nessa luta, porque não é apenas do Centro de Triagem. São péssimas as condições de trabalho na saúde cuiabana, mato-grossense, e a Enfermagem precisa se unir, porque a valorização só vem com a luta, não vai cair de bandeja. Esse é o momento da categoria se unir pelo que a gente vem defendendo há tanto tempo: 30h semanais e piso salarial da Enfermagem.”

 

Confira, abaixo, a carta aberta divulgada pelos manifestantes. 

 

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO MATOGROSSENSE

 

A equipe de enfermagem do Centro de Triagem COVID-19, instalado na Arena Pantanal, vem a público denunciar as condições de trabalho a que está submetida na unidade. Para tanto, listamos abaixo os pontos de maior preocupação e desgaste:

● Não recebemos a Verba Indenizatória Extraordinária (R$500,00 reais) destinada a profissionais da saúde que atuam na linha de frente do combate à COVID-19. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT), a verba que é paga aos “servidores efetivos, comissionados e contratados temporariamente que estejam efetivamente prestando serviços e potencialmente expostos ao contágio pelo coronavírus” não é nosso direito, pois somos contratados em regime de plantão (12hx36h), ou seja, trabalhamos em dias alternados em plantão de 12h (das 7h às 19h). Porém, somos vinculados à SES-MT por contrato temporário, atuamos em unidade que presta atendimento específico para COVID-19 e estamos expostos a alto risco de contágio, o que mais é necessário para “ter direito”? Qual a justificativa para um servidor administrativo, que não é profissional da saúde ou que não presta assistência direta ao paciente, receber essa verba (de maior valor) e nós que estamos no cuidado direto não recebermos?

● Não recebemos a indenização excepcional em caso de afastamento médico por infecção da COVID-19;

● Não temos direito a décimo terceiro, FGTS e férias;

● Profissionais de enfermagem estão lotados como auxiliar de escritório, situação identificada em consulta ao aplicativo oficial da Carteira de Trabalho Digital do Ministério da Economia;

● A unidade não possui Protocolos de Atendimento ou Procedimento Operacional Padrão (POP). Pelo menos nunca foram apresentados aos servidores como orientação. O processo de trabalho de enfermagem é implementado equipe sem padronização da instituição;

● Não há exaustor ou filtro HEPA no setor de testagem, um ambiente fechado em que é realizada a coleta de material da nasofaringe para o teste, produzindo aerossóis com partículas do vírus que ficam suspensas no ambiente;

● Não há pia para higienização das mãos nos setores de triagem ou testagem;

● A disponibilização de máscara N95 ocorre a cada 7 plantões, que corresponde em média a 15 dias, pois atuamos em regime de plantão 12hx36h;

● Estamos enfrentando sobrecarga de trabalho, com efeitos na saúde física e psicológica dos profissionais que estão na linha de frente dessa pandemia;

● Não temos uma área de repouso adequada, em média 15 pessoas ficam na mesma sala fechada, sentadas em cadeiras em que não é feita desinfecção após a saída de um profissional e chegada de outro;

● O refeitório improvisado no vestiário do estádio não oferece espaço, mesas ou cadeiras suficiente para manter o distanciamento, alguns colegas se alimentam em pé ou esperam alguém se levantar para poder almoçar;

● As refeições ofertadas são insuficientes na palatabilidade, apresentando quantidades não padronizadas de lipídios e sódio, bem como não correspondem aos padrões do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) e Guia Alimentar para a População Brasileira;

● Relatos de colegas sugerem a ocorrência de assédio moral por parte das chefias e demais gestores, que expõe o trabalhador em grupos de Whatsapp, listando as faltas, número de atendimento de cada profissional, acusação infundada de furto de materiais, ameaças de demissão, dentre outros motivos.

Ressaltamos que aqui estão apenas algumas das irregularidades e preocupações da equipe, reivindicamos o mínimo de condições de trabalho. É importante lembrar que estamos trabalhando expostos a alto risco de infecção, preocupados em infectar nossas famílias, em sobrevivermos a essa pandemia. Para prestar uma assistência de qualidade à população também precisamos de cuidado.

Solicitamos aos órgãos públicos competentes e à imprensa que investiguem as pontuações colocadas aqui e tomem providências para defesa e garantia de direitos dos profissionais de enfermagem.

Por respeito e valorização profissional!

Em defesa do SUS!

Em defesa da vida!

Cuiabá-MT, 21 de março de 2021.

Trabalhadoras(es) de enfermagem do Centro de Triagem COVID-19

 

 

 

 

 

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind        

Terça, 23 Março 2021 13:23

 

Segundo estudo da Fiocruz, a pandemia impactou de modo significativo na vida de 95% das e dos profissionais. Foto: Fiocruz/Raquel Portugal​​​


Este mês de março marca um ano desde a primeira morte por consequência da Covid-19 no Brasil e, enquanto a doença recua no resto do mundo, o país enfrenta o seu pior momento da pandemia. Já são mais de 12 milhões de pessoas contaminadas pelo vírus e 295 mil mortes no país.

O prolongamento do isolamento social decorrente da falta de vacinação e do descaso do governo é sentido por grande parte da população através de fadiga, cansaço, desgaste físico e mental. Quando se analisa os relatos das e dos profissionais da área da Saúde que atuam na linha de frente contra o coronavírus, esse cenário é ainda mais preocupante, não só pelo elevado número de casos e mortes de pacientes, colegas de profissão e familiares, como também das alterações significativas que a pandemia vem provocando em seu bem-estar pessoal e vida profissional.

De acordo com a pesquisa “Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19”, realizada pela Fiocruz em todo o território nacional, a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% das trabalhadoras e trabalhadores da área. Os dados revelam, ainda, que quase 50% admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais, e 45% ainda necessitam manter mais de um emprego para sobreviver.

Os dados indicam que 43,2% das e dos profissionais de saúde não se sentem protegidos no trabalho de enfrentamento da Covid-19, e o principal motivo, para 23% delas e deles, está relacionado à falta, à escassez e à inadequação do uso de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs). 64% revelaram a necessidade de improvisar equipamentos.

As e os participantes da pesquisa também relataram o medo generalizado de se contaminar no trabalho (18%), a ausência de estrutura adequada para realização da atividade (15%), além de fluxos de internação ineficientes (12,3%). O despreparo técnico das e dos profissionais para atuar na pandemia foi citado por 11,8%, enquanto 10,4% denunciaram a insensibilidade de gestoras e gestores para suas necessidades profissionais.

“O medo da contaminação e da morte iminente acompanham seu dia a dia, em gestões marcadas pelo risco de confisco da cidadania do trabalhador (perdas dos direitos trabalhistas, terceirizações, desemprego, perda de renda, salários baixos, gastos extras com compras de EPIs, transporte alternativo e alimentação)”, detalhou a coordenadora do estudo, Maria Helena Machado.

O levantamento contou com mais de 25 mil participantes e avaliou as condições de trabalho das e dos profissionais de saúde desde o início da pandemia, o ambiente e a jornada de trabalho, o vínculo com a instituição, a vida da e do profissional na pré-pandemia e as consequências do atual processo de trabalho envolvendo aspectos físicos, emocionais e psíquicos desse contingente profissional.

Saúde e vida profissional
Graves e prejudiciais consequências à saúde mental daquelas e daqueles que atuam na assistência aos pacientes infectados foram também detectadas no levantamento. Segundo a pesquisa, as alterações mais comuns em seu cotidiano, citadas pelas e pelos profissionais, foram perturbação do sono (15,8%), irritabilidade/choro frequente/distúrbios em geral (13,6%), incapacidade de relaxar/estresse (11,7%), dificuldade de concentração ou pensamento lento (9,2%), perda de satisfação na carreira ou na vida/tristeza/apatia (9,1%), sensação negativa do futuro/pensamento negativo, suicida (8,3%) e alteração no apetite/alteração do peso (8,1%). O estudo demonstra ainda que 14% da força de trabalho que atua na linha de frente do combate à Covid-19 no país está no limite da exaustão.

Desrespeito x fake news
Conforme o estudo, essas transformações decorrem de vários fatores, por exemplo, a falta de apoio institucional, segundo 60% das e dos entrevistados. A desvalorização pela própria chefia (21%), a grande ocorrência de episódios de violência e discriminação (30,4%) e a falta de reconhecimento por parte da população usuária (somente 25% se sentem mais valorizados) também afligem as e os profissionais de saúde.

Mais de 90% das e dos profissionais de saúde admitiram que as notícias falsas (fake news) são, sim, um verdadeiro obstáculo no combate ao novo coronavírus. No atendimento, 76% relataram que a e o paciente tinha algum tipo de crença referente às fake news, como a adoção de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento, por exemplo. A porcentagem expressiva de 70% das e dos trabalhadores discorda que os posicionamentos das autoridades sanitárias sobre a Covid-19 têm sido consistentes e esclarecedores.

Perfil
Os dados revelam que a força de trabalho durante a pandemia é majoritariamente feminina (77,6%), a maior parte da equipe é formada por enfermeiras e enfermeiros (58,8%), têm faixa etária entre 36 e 50 anos (44%), 57,7% declararam-se brancas e brancos, 33,9% pardas e pardos e 6% pretas e pretos e 34,5% das e dos profissionais trabalham em hospitais públicos. Cerca de 25% dessas pessoas foram infectadas pela Covid-19.

“A pandemia revelou a essencialidade da saúde em nossas vidas e paradoxalmente, revelou o quanto os profissionais de saúde não são considerados e respeitados nesse processo. Por meio da pesquisa, constata-se o estado de exaustão e sofrimento desses profissionais, que já entraram na pandemia adoecidos e cansados, e a situação sob a qual estão expostos só piorou tal quadro”, finalizou a coordenadora do estudo.

Números da Covid-19
Segundo o levantamento do consórcio de veículos de imprensa sobre a situação da pandemia de coronavírus no Brasil, a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, consolidados na segunda-feira (22), a média móvel nos últimos 7 dias foi de 75.163 novos diagnósticos de contaminação por Covid-19 por dia. É a primeira vez na pandemia em que essa média fica acima da marca de 75 mil. A média móvel diária de mortes no país nos últimos 7 dias chegou a 2.298, mais um recorde no índice. Em comparação à média de 14 dias atrás, a variação foi de +46%, indicando tendência de alta nos óbitos pela doença.

Fonte: Fiocruz, com edição e acréscimo de informações do ANDES-SN

Segunda, 22 Março 2021 10:04

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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José Domingues de Godoi Filho*

 

Será possível ser otimista em relação a uma mudança global para um novo normal? Mesmo com algum otimismo, não me parece que iremos acordar, no final da pandemia, com uma mentalidade coletiva diferente. Será que os tecnocratas que decidem os rumos da economia dos diferentes países, especialmente os nefastos “Chicago boys”, que integram o governo brasileiro, conseguirão ver e reconhecer a falência das receitas neoliberais e os seus efeitos como, por exemplo, mostra o relatório da Oxfam (1): - “desde o início do século 21, a concentração de riqueza entre os mais ricos tem aumentado constantemente. O número total de bilionários quase dobrou dez anos após a crise financeira de 2008 e, entre 2017-2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias. Esse abismo crescente entre os mais ricos e o restante da população foi alimentado, em parte, por níveis elevados e persistentes de desigualdade de renda. Em 2015, a maior parte da população mundial vivia em países onde a desigualdade havia aumentado nos 25 anos anteriores. O World Inequality Lab mostrou que, entre 1980 e 2016, o 1% mais rico recebeu 27 centavos de cada dólar de crescimento da renda global”.

E mais, que, no Brasil, mesmo com a pandemia o lucro total dos quatro maiores bancos, em 2020, foi de R$ 61,6 bilhões?

A extrema desigualdade atual foi gerada por um sistema econômico explorador (neoliberalismo) que, há quarenta anos, vem beneficiando uns poucos super ricos. O neoliberalismo é o responsável pela abissal concentração de riqueza e renda no topo, enquanto uma ampla maioria, na base, continua sendo sacrificada e empobrecida.

Como bem analisa Mia Couto, em países como Moçambique, “fica clara a falência das receitas neoliberais, que acabaram destruindo as conquistas sociais dos primeiros anos da Independência. Se for verdade que a vacina da BCG ajuda a proteger contra o coronavírus, os moçambicanos só podem agradecer esse período de poder popular em que a totalidade da população se beneficiava de campanhas de vacinação e de cuidados médicos básicos. Não será por causa da medicina privada, inspirada no capitalismo selvagem, que nós iremos proteger nem nesta pandemia nem em nenhuma outra situação de sofrimento”.

Todas variáveis que estão disponíveis indicam, como já ressaltado pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, que o ponto de partida não será encorajador. Independentemente de sua evolução futura, a pandemia deixará um mundo de trabalho com mais desemprego, mais desigualdade, mais pobreza, mais dívidas e, com toda a probabilidade, mais frustração e até raiva popular. No entanto, a pandemia também destacou fortemente a necessidade absoluta de agir, sem demora, para cumprir os princípios e objetivos da Declaração do Centenário da OIT, comemorado em 2019, e o preço humano de não o fazer. Portanto, o processo de uma melhor reconstrução terá que responder a certas questões e desafios prementes (2):

i - como promover o crescimento sustentável com pleno emprego e trabalho decente para todos; como conceber resposta à crise pelo Covid-19 de forma a recuperar a economia global da recessão e colocá-la em posição de superar os desafios de uma transição digital, demográfica e ambiental justa; ii - o que precisa ser feito para resolver as enormes vulnerabilidades no mundo do trabalho revelados pela pandemia? Como intensificar os esforços para formalizar a economia informal e avançar decisivamente para a cobertura universal da proteção social? iii - Queremos acelerar o uso de tecnologias que possibilitem novas formas de trabalhar à luz da experiência da pandemia? Em caso afirmativo, como esse trabalho deve ser regulamentado? iv - Quais setores de atividade econômica e categorias de trabalhadores requerem especial apoio e atenção? O processo de recuperação pode incorporar uma agenda transformadora para alcançar a igualdade de gênero e uma plataforma para o avanço da juventude no mundo do trabalho? v - Como fazer com que a redução e eliminação da pobreza e os imperativos de direitos e justiça social se tornem objetivos centrais do processo de recuperação? vi - Num momento em que a cooperação multilateral é mais indispensável do que nunca, mas enfrenta desafios sem precedentes, como a comunidade internacional pode se unir em torno de um verdadeiro propósito comum e se dedicar novamente à implementação da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável?

E no Brasil?

No caso brasileiro, onde um time de bonecos amestrados controlados pelos interesses do capital que os elegeu e estão destruindo o Estado com as emendas constitucionais e reformas que estão aprovando, conseguirão perceber a importância dos sistemas públicos de saúde e de educação? E a falência do neoliberalismo?

O anunciado colapso no sistema de saúde deixou de ser uma possibilidade e se tornou realidade em todo país. Há necessidade de contornar o colapso e de impedir que se mantenha por tempo indeterminado, sendo fundamental atender as recomendações feitas com base na ciência, enquanto a vacinação não atinja a maioria da população.

A recente entrevista do CEO do Hospital Sírio-Libanês Paulo Chap Chap, onde informa que cancelou cirurgias eletivas e que não consegue mais atender os pedidos de transferência, ilustra bem a situação. Disse ainda, que ter dinheiro ou plano de saúde de primeira linha não significa espaço assegurado nas unidades privadas. Ao contrário, cresce gradativamente o universo de pessoas que, sem conseguir vaga na rede particular, acabam socorridas pelo sistema público.

Os hospitais particulares também enfrentam superlotação ou vivem perto dela. Morrer na fila de UTI por causa do colapso é agora, um risco de todos, assim como é também de todos a responsabilidade em revê-lo.

Quanto ao governo brasileiro já passou da hora de ficar insistindo que o governo fez tudo certo, conforme teria dito para médica Ludhmila Hajjar ao convidá-la para ocupar o ministério da saúde. A médica recusou o convite e relatou, em entrevistas para a imprensa, que “não houve convergência técnica com o governo”, uma forma educada de dizer que era incompatível com o saber estabelecido. Cabe uma pergunta, se tinha feito tudo certo, por que trocar de ministro de novo?

Um novo convite foi feito e aceito pelo médico Marcelo Queiroga e, um novo ministro indicado. Não é demais desconfiar de qualquer um que aceite o cargo, sabendo o que o presidente Bolsonaro pensa, faz e deixa fazer em relação à pandemia. O que Queiroga conversou com o presidente? O que perguntou antes de aceitar o cargo?

Agora temos um ministro que está exonerado, mas não deixou o cargo e, um que foi indicado e ainda não assumiu. Enquanto isso a pandemia caminha celeremente para atingir três mil mortes por dia, como previsto e alertado há tempos por pesquisadores.

O que fazer para enfrentar a pós pandemia.

Talvez retomar, para fortalecer os sonhos e a esperança, a frase inicial de “O primeiro círculo”, de Alexander Soljenitsin – “mariposas vivem pouco tempo, o carvalho floresce aos cem anos” e tocar em frente inspirados pela brilhante recomendação de Chomsky que:

- “Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald’s e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hamburguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais têm tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios têm placas dizendo ‘olhe para frente’, porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social autoinduzido, o que é muito prejudicial. Estamos agora em situação real de isolamento social, que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa que puder ajudas as pessoas em suas necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises...Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto...Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos têm encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português”.

 

(1)    O vírus da desigualdade – Oxfam Brasil – Disponível em:

https://www.oxfam.org.br/wp-content/uploads/2021/01/bp-the-inequality-virus-110122_PT_Final_ordenado.pdf?utm_campaign=davos_2021_-_pre_lancamento&utm_medium=email&utm_source=RD+Station –Acessado em 15/03/2021

(2)    Cumbre virtual – ILO – Disponível em: https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/---dcomm/documents/meetingdocument/wcms_747938.pdf - Acessado em: 10/01/2021

 

*José Domingues de Godoi Filho – Professor da UFMT/Faculdade de Geociências.