Quinta, 29 Abril 2021 10:39

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Paulo Wescley Maia Pinheiro*
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Professor da UFMT

 
INTRODUZINDO O DEBATE
 

            A reprodução do preconceito regional no Brasil é algo cotidiano e, ao mesmo tempo, uma questão nebulosa do ponto de vista de sua visibilidade política e teórica. Especialmente a região Nordeste, mas também o Norte do país e outros territórios distantes do centro economicamente desenvolvido, tem os seus povos,  identidades, culturas e corpos subjugados, promovendo maior possibilidade de exploração e complexificando as opressões estruturais no país.
            Num país de proporção continental o que acontece na parte de baixo do mapa ainda ganha contorno privilegiado. Às margens disso há a essência: as pessoas que carregam nas costas o campo e a cidade, o centro e a periferia, a capital e o interior, a produção e a reprodução de uma sociedade que serve ao lucro de poucos.
            É por isso que tratar, ainda que panoramicamente, da questão do Nordeste revela dimensões importantes do antagonismo de classes no Brasil. É preciso refletir as expressões da questão social e os mitos construídos sobre o povo nordestino, produzidos dentro da naturalização da ideologia burguesa, que encobrem a complexidade dos processos de exploração e também de resistência que fizeram parte da formação histórica da região, da identidade do seu povo, das contradições em sua auto-imagem e do modo como é retratado pela hegemonia em diversas práxis como a política, a arte, a ciência e o senso comum.
            Para isso é fundamental partir de alguns pressupostos teóricos que não aprofundaremos aqui, mas que são essenciais, em suas diferenças e que tomam a base material da nossa formação sócio-histórica dentro do capitalismo dependente, as raízes coloniais, escravocratas e patriarcais do Brasil, a burguesia brasileira subsumida ao capital-imperialismo, o desenvolvimento desigual e combinado internamente expresso. 
            Por fim, é também central nessa reflexão a categoria alienação, tida não somente como um elemento econômico, mas como um processo de desumanização em todas as esferas da vida dentro da lógica da unidade exploração-opressão. Na esteira dos princípios do materialismo, o processo dialético ancorado nas contradições históricas coloca o ódio ao trabalho e à pessoa que trabalha como um valor universal entremeado em todas as classes, inclusive entre os sujeitos explorados. A transformação da diversidade em desigualdade tem base estrutural e os valores elitistas são um condimento fundamental no processo de objetificação particular de determinadas parcelas de trabalhadores/as.
            O debate sobre as desigualdades do desenvolvimento regional interno no Brasil, suas consequências econômicas, sociais e culturais tem costumeiramente apagado a discriminação regional que articula e expressa a dimensão de classe, raça/etnia e gênero/sexo, expressando condições singulares na exploração de uma parcela de pessoas da classe trabalhadora e reproduzindo elementos específicos em valores preconceituosos com tons análogos à xenofobia imperialista, mas sob expressão interna no território nacional.
            O rebaixamento e obscurecimento da temática reproduz deformações e advém de um conjunto de fatores que processam essa síntese naturalizada sendo composta pela falta de trato da unidade entre questão urbana e rural no Brasil, pelo histórico tratamento da questão de classe de forma abstrata, pelo falta de desenvolvimento de uma tessitura entre classe, raça/etnia e gênero/sexo como unidade e com mediações mais profundas, pelo trato raso sobre o complexo migratório internacional e nacional.
 
Parte 1 - Nordeste, exploração-opressão e resistência no capitalismo brasileiro 
 
            Tradicionalmente os movimentos sociais que pautam as opressões, os partidos de esquerda e as organizações sindicais pouco deram importância para a constituição que determinou a migração interna no País e desenvolveu as possibilidades de exploração intensa da classe trabalhadora nordestina, estruturando a modernização brasileira, se juntando às condições fundantes realizadas pelas raízes escravocratas e patriarcais.
            Da marginalização ao moralismo, do assistencialismo à romantização da pobreza, da invisibilização midiática às caricaturas comumente espalhadas, a classe trabalhadora nordestina teve e tem sua condição de trabalho precarizada, sua cultura mercantilizada e subjugada, a discriminação naturalizada. Assim, não há como entender o Brasil, suas lutas e contradições, sem desvendar a essência do que se expressa fenomenicamente no preconceito contra o povo nordestino.
            Historicamente, a suposta cordialidade brasileira é uma característica laminada pela contradição. Macia na aparência, ela esconde direções tortuosas, sentidos incoerentes e significados diversos que miram seu corte preciso naquilo que nos acostumamos a achar normal em nossa forma de atuar, seja para viver, seja para sobreviver.
            Na esteira do mito cordial o apassivamento confundido com pacifismo e o amortecimento dos conflitos transmutado como suposta tolerância, foram acobertando e reproduzindo o cerne de uma estrutura capitalista calcada no racismo, no patriarcado e na subserviência ao imperialismo.
            A lente sobre o capitalismo dependente e as particularidades da formação do Brasil e da América Latina como pilares para o entendimento das suas expressões cotidianas contribuem para uma perspectiva de totalidade no reconhecimento de uma classe trabalhadora diversa, sem a reprodução de noções abstratas da luta de classes em territórios fora do eixo do capital.
            O modelo colonial promovido no Brasil faz parte de um processo mais amplo de estruturação da acumulação originária do capital internacional que particulariza um movimento fundacional de subsunção ao imperialismo desde de seus primórdios.
            Essa característica vai sendo constituída de diferentes elementos que permitem um processo de desenvolvimento dependente e combinado, com formas rebaixadas aos interesses europeus que, entre tantas questões, fortalece uma estrutura de rebaixamento do valor da força de trabalho quando se hegemoniza uma estrutura de trabalho assalariado nos anos da República.
            Entre diferentes formas de existir no tramitar histórico dos anos de colônia, de império e de modernização conservadora republicana, há um nó do tradicional metamorfoseado que referenda o trabalho não remunerado, a violência nos espaços produtivos e uma cultura de desumanização das pessoas que foi construída e reproduzida no genocídio e etnocídio dos povos indígenas, na instrumentalização forçada via escravidão da população negra, no acobertamento da importância das atividades realizadas pelas mulheres no processo de reprodução social e, em determinado período e particularidade, na naturalização de práticas análogas à servidão em espaços rurais.
            A seiva e o suor da seca produzida e reproduzida como fenômeno social constrói as possibilidades para os setores dominantes se apropriarem das condições da natureza, constituindo relações sociais como verdadeiras cercas para a reverberação de um instrumento fundamental para o Brasil moderno: a exploração intensa da força de trabalho oriunda do Nordeste do país. Essa exploração, no entanto, não é somente material e nem poderia se estabelecer somente no campo da produção, sendo condimentada por fundamentos políticos e culturais que retroalimentaram a naturalização das condições historicamente determinadas sobre o preconceito geográfico brasileiro.
            Passam-se décadas de pauperização e o “paraíba” e o “baiano” são naturalizados no cotidiano das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, vistos como instrumentos, adjetivados de forma preconceituosa, carregando uma história de invisibilidade e imposições.
            Em tempos de crise a barbárie inflama contradições. De repente, pulsa um escândalo aqui ou acolá, revelando as discriminações cotidianas. Exemplos não faltam: a enxurrada de depoimentos reacionários numa eleição presidencial, culpando os “ignorantes e famintos da parte de cima do mapa país” por não optarem majoritariamente por um projeto ultraliberal e protofascista; ou um tuíte mais específico mandando “afogar os nordestinos”; uma provocação de torcedores de futebol chamando nordestinos de miseráveis ou, ainda, uma “brincadeira” de um colega de trabalho fazendo sua “piada diária” com sua “colega paraíba”, mas que foi documentada e viralizou. Tudo isso são pequenos recortes escritos do tratamento comum dado às trabalhadoras domésticas, aos porteiros, aos garçons, aos garis, aos peões, ou seja, aos sujeitos que estão realizando atividades socialmente tidas como trabalhos de nordestinos no Sudeste.
            Enfim, o que parece ser algo muito circunstancial do ódio do presente é, na verdade, manifestação de uma construção histórica que não é somente no campo da cultura, mas que se constitui do elitismo como ódio de classe.
            Assim como a escravização dos povos africanos foi central para a possibilidade de hegemonia burguesa na Europa, a desigualdade interna do Brasil criou as bases para o desenvolvimento sudestino, ofertando possibilidades mais amplas para a exploração.
            A monocultura produtiva dos séculos de colonização estruturou as possibilidades e impossibilidades infraestruturais e as bases culturais que sedimentaram os estereótipos presentes no século XX. O Brasil marginalizou os negros pós-escravidão, absorveu os sobrantes do exército industrial de reserva europeu e sentou em cima da desigualdade interna do país que a República Café-com-leite, a ditadura Vargas e o desenvolvimentismo de JK constituiu na condição das pessoas fora dos ciclos aburguesados e das camadas médias.
            É nesse processo que a ignorância alimenta a compreensão nacional sobre o ser nordestino, reconhecido como um todo abstrato, sem sua diversidade, disputas e contradições. O reacionarismo das elites rurais agrárias do Nordeste foi tomado como a cultura universal do povo nordestino, ao passo que se marginalizou cada vez mais a cultura popular da região. Esse é um processo clássico que vai instrumentalizando valores e formas de vida dos sujeitos explorados enquanto perpetua os valores funcionais para as classes hegemônicas. 
            Fora do reducionismo popularesco e de referências caricaturais reproduzidas pelas hegemonias regionais (e ainda mais rebaixadas no âmbito nacional) há o sufocamento da riqueza cultural da classe trabalhadora nordestina, produto da resistência cotidiana frente ao processo de exploração, opressão, apropriação e dominação. O saber popular, a linguagem, os meios de solidariedade de classe, a inventividade diante da precariedade e da precarização são manifestações marginalizadas pelos setores da monocultura de valores sociais.
            A forma de falar e agir dos centros urbanos e, dentro deles, dos setores exploradores, assumiram cada vez mais o protagonismo do que é correto, saudável e legalmente aceito. Não por acaso há uma linguagem, um sotaque e determinados hábitos tido como normais em detrimento da “cultura marginal” do resto do país. Capital x interior, litoral, x sertão, centro x periferia, sudeste x nordeste são reproduções de uma lógica hegemônica, irremediável e abstrata do estranhamento capital x trabalho.
            O ódio ao povo nordestino e a sua forma de existir no mundo é, na verdade, o ódio ao trabalhador, sua própria desumanização, a expressão da alienação promovida de cima para baixo pela cultura burguesa, pelas raízes aristocráticas do Brasil e também promovida entre os de baixo, no não reconhecimento da diversidade e na tentativa de sobreposição ideológica frente às questões estruturais
 
Texto integralmente publicado em ENSAIO SOBRE O NORDESTE E O PRECONCEITO REGIONAL COMO EXPRESSÃO DO ÓDIO DE CLASSE NO BRASIL | by Wescley Pinheiro | Medium
 
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Atenciosamente,

 

*Paulo Wescley Maia Pinheiro
Professor do Departamento de Serviço Social da UFMT - Universidade Federal
de Mato Grosso.
Doutorando em Política Social - UnB
 

Segunda, 26 Abril 2021 10:31

 

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Publicado a pedido do professor Leonardo Almeida
 
 
 
            Os presentes extratos fazem parte do posfácio de Ailton Krenak para o livro “Quiçaças e Agouros” de Leo Almeida (Professor UFMT/Letras), livro de contos contemplado pelo Prêmio Estevão de Medonça de Literatura/MT. Para as (os) interessadas (os) em adquirir um exemplar entrar em contato pelo email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . O livro está 40 reais com o frete incluído.
 

Extratos de “O elogio ao Kuarup”
Ailton Krenak

 
 
            Essa conversa que teremos aqui é sobre os contos de seu livro Quiçaças e Agouros.
            O conto Egitsu[1]ou a humanidade que nos convémé o registro de alguém que viveu a experiência de Kuarupda maneira mais mágica e ética,sem nenhuma pretensão de fazer etnografia como um antropólogo. O Kuarupé uma matéria atraente porque é um rito funerário e os ritos funerários têm um poder de atração incomum. (...)
            (...)
            Eu fiquei assim de cara com esse conto. Ele tem um desenvolvimento muito diferente dos outros contos curtos, com exceção de Cosmos,já que estes dois imprimem uma viagem,digamos,mais corajosa para além do que seria essa rotina do dia-a-dia que nós vivenciamos ao tomar café, aoir à livraria, ao pegar o trem, ao atravessar fronteira, ao ficar ofendido quando alguém acha que a gente é negro ou que a gente é índio ou que a gente é branco ou latino. Todas essas questões são a própria miséria humana.Daí, a rotina se diferencia muito daquela beleza de morrer, daquela beleza de pensar. Essa rotina miserável de discriminar uns aos outros, de sacanear uns aos outros se distingue bruscamente do clima apresentado por esses dois contos (Egitsu e Cosmos).
            (...)
            São interessantes esses personagens que você cria que viajam o mundo inteiro, as várias vozes narrativas que atravessam a questão de gênero de uma maneira que eu acho que vai ser muito importante para os leitores e as leitoras que ainda estão com os olhos chapados de preconceito e não veem as mudanças que estão acontecendo em termo de radical desordem do sentido de sociedade que sustentou o capitalismo até ontem.
            (...)
                                               ***
            Nos dias de hoje, estamos sendo todos jogados diante de uma interrogação enorme sobre esse tal de amanhã.
            As ideias dos movimentos da América Latina são evocadas nos contos do livro. De certa forma, os contos convocam outros continentes, como a África e a Ásia, onde a tal da humanidade também foi sendo totalmente esquadrinhada (...).
            Então, os contos fazem uma viagem num mundo em erosão(...).
            (...)E tomara que esses contos provoquem a curiosidade nas pessoas que estão meio sem noção andando por aí, para saberem um pouco mais sobre o tipo de gente que nós somos no mundo.
                                                            

 


[1]Kuarup e Egitsu são palavras de línguas distintas (Tupi-guarani e Karib) que designam a festa dos mortos dos povos do Alto-Xingu.

Sexta, 23 Abril 2021 09:31

 

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Por Roberto de Barros Freire*
 
  

O general Braga Neto na terça feira, dia 20/04/2021, veio ameaçar senadores e a sociedade civil com o velho e antigo golpismo militar, via de regra, alegando falsamente serem guardiões dos valores superiores sobre a pátria, quando o que está em jogo é a velha ganância de manter seu posto e seu status, pois se o presidente for deposto, ele também perderá seu cargo e as mordomias a ele inerente. Desde 1964 os militares usam de mentiras e subterfúgios para justificar suas ações imorais e tirânicas contra a liberdade de todos, e darem seus golpes, querendo impor seu ponto de vista, ou pior ainda, se considerando os arautos do povo, que nunca deu essa autoridade ou poder para eles.


Disse o general imoral que é preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para conduzir os destinos do país. A sociedade, atenta a essas ações, tenha a certeza que suas Forças Armadas estão prontas a servir aos interesses nacionais. Em primeiro lugar, ninguém pediu para as forças armadas conduzir os destinos do país; elas têm antes que ser conduzidas pelas leis civis. Em segundo lugar, o fato de o presidente ter sido eleito não significa que tenha recebido uma carta em branco e possa fazer o que quiser, mais ainda, o povo assim como institui tem também o poder de destituir os presidentes, que só ficam enquanto agradam. E se for destituído, não será o primeiro. Quem faz isso de forma ilegítima são exatamente as forças armadas, quando se alvoram no direito de mandar no destino da nação. Ou quando querem forçar que aceitemos um presidente aloprado e genocida como o nosso.


Ora, foi pela vontade do povo que fizemos a constituição de 1988 onde se pode retirar um presidente eleito através de impeachment. Portanto, não vamos contra a vontade do povo quando destituímos presidentes. Pelo contrário, é um legítimo direito de resistência instituído pelas leis. Além disso, é em nome do povo que se institui uma CPI no Congresso para investigar os malfeitos governamentais. E se os senadores descobrirem (como descobrirão) atitudes nefastas, um negacionismo doentio, uma política completamente equivocada por parte do governo, através do ex-ministro capacho Pazuelo, tem não apenas o direito, mas o dever de buscar a justiça, além de tomar providências para impedir que as atitudes ignorantes e prejudiciais do presidente da república continuem a nos governar, ou melhor a nos matar e destruir.


Contrariamente ao que alega o mal general, quem desestabiliza e dividi o país não é o congresso ou o STF, mas o próprio executivo, atacando governadores e prefeitos, as instituições, a imprensa e a grande maioria da população que não concorda com a presidência; Bolsonaro nunca teve a maioria da população ao seu lado e foi menos da metade dos eleitores que o elegeram.


Se, como diz o famigerado general, que o momento requer um maior esforço de união nacional, com foco no combate à pandemia e no apoio à vacinação, que o país precisa estar unido contra qualquer tipo de iniciativa de desestabilização institucional, que altere o equilíbrio entre os poderes e prejudique a prosperidade do Brasil, então devemos ficar atentos contra as forças armadas que está dando provas quase diárias do seu ímpeto golpista, de apoiar um presidente que divide o país, que age contra a maioria. Até hoje os militares não deram mostra de renegarem o golpe militar, a tortura, a perseguição política e o regime tirânico que impuseram ao país, e todo ano tentam festejar algo que nos envergonha, o golpe militar, a tirania das forças armadas sobre a sociedade civil. Enquanto os militares não apresentarem uma autocrítica dos acontecidos de 1964, serão sempre suspeitos de golpismo, e serão sempre uma ameaça as liberdades democráticas.


O que divide o país não é a divisão dos poderes que promove até um certo conflito entre eles, pois isso faz parte do sistema republicano, de pesos e contrapesos dos poderes, mas um dos poderes querer impor aos demais sua lógica, sua força, sua tirania, como tentam em toda oportunidade os militares intimidando o judiciário e o legislativo. Nos países com tradição republicana e democrática, não se ouve a opinião dos militares, nem ao menos conhecem seus nomes. A missão constitucional das forças armadas é não se intrometer no governo, pois são antes instrumento do Estado, e não podem tomar partido sobre os governantes que são sempre temporários e podem ser destituídos a qualquer momento quando são nefastos. O exército não é uma instituição democrática, mas republicana.


O discurso do general Braga Netto, nosso infeliz ministro da Defesa, na troca de comando do Exército, foi de extrema petulância e intimidador.Contrariamente ao que disse,a sociedade, atenta a estas ações, tem a certeza de que suas Forças Armadas não estão preparadas e prontas a servir aos interesses nacionais, mas antes aos seus interesses privados. Não é função dos militares tutelar as instituições democráticas, mas antes se submeter a elas.Nas democracias civis, as forças militares não permanecem “sempre atentas à conjuntura nacional”, pois sua função profissional e constitucional é incompatível com a interferência na arena política. E o Exército nunca foi decisivo e leal aos anseios do povo brasileiro.


Há com certeza nesse discurso absurdo do general crime de responsabilidade, e deveria ser afastado do cargo, processado, julgado, condenado e preso.
 

*Roberto de Barros Freire
Professor do Departamento de Filosofia/UFMT
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Quinta, 22 Abril 2021 14:41

 

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José Domingues de Godoi Filho*

“Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar” …

(Antonio Machado, em Cantares)

 
 

Desde 1972, após a realização da Conferência de Estocolmo/0NU, se engalfinham os interessados num mundo mais igualitário, habitável pelas atuais e futuras gerações e os interesses dos impérios preocupados em garantir acumulação crescente e ilimitada de riquezas, num planeta finito.


A mesma ONU realizou, na cidade do Rio de Janeiro, outras duas conferências mundiais para tratar das questões socioambientais, em 1992 (ECO-92) E 2012 (Rio +20). Os resultados e recomendações pouco acrescentaram à disposição dos impérios, no sentido de alterar os rumos das mudanças climáticas e dos acordos envolvendo a biodiversidade e a propriedade intelectual; inclusive, o representante de um império, durante a ECO-92, defendeu que “a biodiversidade é patrimônio da humanidade e as patentes patrimônio das empresas”–daí, oatual mercantilismopelas vacinas e demais suprimentos contra o Covid-19.


Durante esse tempo, no que se refere às mudanças climáticas, foi praticamente atropelado o Protocolo de Quioto e realizadas 25 Conferências das Partes (COP). A primeira ocorreu em Berlim (março-abril de 1995), com a presença de 117 países, que estabeleceu o “Mandato de Berlim”, cujo ponto central consensuado foi que todos os países deveriam adotar medidas enérgicas, para mitigação do efeito estufa. No momento, está previsto, para ocorrer em Glasgow (Escócia), em novembro-2021, uma nova reunião da Cúpula da ONU, a COP-26.


Em dezembro-2015, aconteceu a COP-21, em Paris, considerada histórica pelo resultado atingido. O documento final consensuado pelos participantes, conhecido como o “Acordo de Paris”, teve como objetivo principal a redução das emissões dos gases de efeito estufa (GEE), para limitar o aumento médio da temperatura global a 2º C, tendo como referência os níveis pré-industriais. Resumidamente incluiu: - “esforços para limitar o aumento de temperatura a 1,5ºC;recomendações quanto à adaptação dos países signatários às mudanças climáticas, em especial para os países menos desenvolvidos, de modo a reduzir a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos;estimular o suporte financeiro e tecnológico por parte dos países desenvolvidos para ampliar as ações que levam ao cumprimento das metas para 2020 dos países menos desenvolvidos;promover o desenvolvimento tecnológico e transferência de tecnologia e capacitação para adaptação às mudanças climáticas;proporcionar a cooperação entre a sociedade civil, o setor privado, instituições financeiras, cidades, comunidades e povos indígenas para ampliar e fortalecer ações de mitigação do aquecimento global”.


Os países participantes, mais de 190, apresentaram suas propostas para a redução de emissões domésticas de GEE, denominadas de “Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada” (NDC, sigla em inglês).


O Brasil, com o documento intitulado “Compromisso do Brasil no Combate às Mudanças Climáticas: Produção e Uso de Energia”, se comprometeu, dentre outras, com as seguintes ações: - “reduzir suas emissões de GEE em 37% até 2025, atingindo 43% em 2030, tendo como referência os níveis emitidos em 2005; aumentar o uso de fontes alternativas de energia; aumentar  a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira para 18% até 2030; utilizar tecnologias limpas nas indústrias; melhorar a infraestrutura dos transportes; diminuir o desmatamento e restaurar e reflorestar até 12 milhões de hectares”.


Em 2017, um ano depois de assinado o Acordo de Paris, o Presidente Donald Trump anunciou que deixaria a participação, para buscar um “melhor acordo”, afirmando que “o tratado penalizava de forma injusta empresas americanas” e que não atendia a sua política de “América Primeiro”. A formalização da saída, junto à ONU, do pacto global no combate às mudanças climáticas, se deu em novembro de 2020.


Não é demais lembrar que os Estados Unidos, ao lado da China, são os maiores emissores de GEE do mundo. A China, em 2020, foi responsável por 28% das emissões de GEE e os EUA, segundo colocado, por 15%. A China e os Estados Unidos juntos, por outro lado, consomem 40% de toda a energia elétrica disponibilizada no mundo, enquanto mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a esse tipo de energia. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), as principais fontes de energia desses países são: carvão (40,8%), gás natural (21,6%),hídrica (16,4%), nuclear (10,6%) óleo (4,3%).


O desgoverno negacionista brasileiro, sem preocupação alguma com as questões socioambientais e com os povos indígenas e quilombolas, se associou às posições do governo Trump, afirmando sua disposição, com a conivência dos entreguistas de sua equipe, civis e militares, da reserva ou não, de explorar os recursos naturais da Amazônia com as empresas dos EUA; além de recusarsediara, então prevista, realização da COP-25. Assumiu o lema de “passar a boiada”, sugerido pelo Ministro do Meio Ambiente e, está desregulamentando a legislação de licenciamento ambiental e desmontando o IBAMA e o ICMBIO; transformando o Brasil de um dos principais protagonistas do mundo, num pária da questão socioambiental.
 
O retorno do EUA
 
O atual presidente dos EUA, Joe Biden, cumprindo promessa de campanha, convidou 40 líderes mundiais para o que está denominando de Cúpula dos Líderes sobre o Clima, dentre os quais, representantes de outros impérios e o presidente negacionista e entreguista do Brasil, Jair Bolsonaro, para uma reunião virtual sobre o clima, a ser realizada nos dias 22 (Dia da Terra) e 23 de abril. Pretende, com isso, marcar o retorno de Washington ao combate às mudanças climáticas, antes da COP-26, prevista para novembro próximo, em Glasgow, Escócia.


Os principais temas anunciados, para a Cúpula dos Líderes sobre o Clima, “enfatiza a urgência e os benefícios econômico de uma ação climática mais enérgica” e espera resultados que auxiliem para as discussões na COP-26, ou seja: - “esforços para sensibilizar e mobilizar as principais economias do mundo a reduzirem as emissões de GEE nesta década, para manter o limite de aquecimento de 1,5ºC; mobilizar o financiamento de setores público e privado para impulsionar a transição para a emissão líquida zero e ajudar os países vulneráveis a lidar com os impactos climáticos; os benefícios econômicos da ação climática, com forte ênfase na criação de empregos, e a importância de garantir que todas as comunidades e trabalhadores se beneficiem da transição para uma nova economia de energia limpa; impulsionar tecnologias de transformação que podem ajudar a reduzir as emissões e na adaptação às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que criam novas oportunidades econômicas e constroem as indústrias do futuro; apresentar atores subnacionais e não estatais comprometidos com a recuperação verde e uma visão equitativa para limitar o aquecimento a 1.5ºC e que estão trabalhando em estreita colaboração com os governos nacionais para promover a ambição e a resiliência; discutir oportunidades para fortalecer a capacidade de proteger vidas e meios de subsistência dos impactos da mudança climática e o papel das soluções baseadas na natureza para atingir as metas de emissões líquidas zero até 2050”.
 
No processo de apropriação dos recursos naturais e energéticos, com um discurso genérico de desenvolvimento sustentável, a reprodução do capital, com verniz verde, tem ultrapassado suas formas primitivas e selvagens; ampliando os mecanismos econômicos de trocas desiguais de recursos naturais dos países emergentes, por produtos tecnológicos do primeiro mundo, ao mesmo tempo que assume uma estratégia de discurso que legitime a apropriação dos recursos naturais e energéticos.


A questão ambiental, como observado por vários pensadores, se converteu num instrumento para ampliar os limites de crescimento, isto é, o ambiente e o aparato tecnológico passam a funcionar como tecnologia de reciclagem; a biotecnologia como um fator para reduzir a vida a uma mera produção de mercadoria e o ordenamento ambiental como um instrumento viabilizador da localização de atividades produtivas, dispersando as forças sociais, aumentando o espaço de produção, circulação e consumo, além de ampliar o território como suporte do crescimento econômico.


O discurso da sustentabilidade foi incorporado às políticas ambientais com os mesmos pressupostos e ditames da economia neoliberal, para solucionar os processos de degradação ambiental e de uso racional dos recursos naturais, ao mesmo tempo, que legitima a economia de mercado, justificando a capitalização da natureza. São convidados para participar todos os sujeitos sociais (governos, empresários, professores, povos indígenas, movimentos sociais) para uma operação de arrumação e participação na qual se integram e não se respeitam diferentes visões, além de mascarar os interesses contrapostos, com uma fantástica engenharia política para privilegiar o acúmulo de capital. Não se permite a discussão e formulação de um projeto futuro comum, debilitando-se as resistências da cultura e da natureza para reconvertê-las na lógica do capital.


Como parte dessa engenharia política, busca-se fazer com que as populações dos mercados emergente, particularmente, os povos indígenas e as populações tradicionais se reconheçam como capital humano e ressignifiquem seu patrimônio de recursos naturais e culturais como um capital cultural; que aceitem uma compensação econômica negociada pela cessão deste patrimônio às empresas, principalmente às multinacionais farmacêuticas e às geradoras de produtos agronômicos, que se tornarão as encarregadas de administrar bens comuns em benefício do equilíbrio ecológico e do bem estar da humanidade atual e futura. Significa uma operação simbólica que funciona como um amálgama nos marcos ideológicos do capital transnacional para legitimar as novas formas de apropriação da natureza. Faz crer que não há alternativas e impõe um pensamento único, ao qual não se pode mais opor os direitos tradicionais pela terra, pelo trabalho e pela cultura. (Godoi Filho(1))
 
Os EUA estão realmente preocupados com a questão socioambiental?
 
As declarações de autoridades americanas colocam em dúvida as reais intenções do império. Afinal, a disputa pelo domínio e controle do que o Fórum Econômico Mundial denominou de Quarta Revolução Industrial é o que tem norteado a guerra comercial China-Estados Unidos, muito mais
que a questão socioambiental. E, numa reunião, como a convocada pelos EUA, são poucas as possibilidades de grandes resultados que se viabilizem na prática;mesmo depois da missão do assessor especial para o clima do governo Biden,John Kerry, na China e de afirmações do tipo “é muito importante tentarmos nos manter distantes de outras pendências, porque o clima é uma questão de vida ou morte em tantas partes diferentes do mundo”.


Não há como esconder, que os EUA e a China disputam o protagonismo nas ações contra as mudanças climáticas e a posição de império mais poderoso do planeta. A China acusa os americanos de “serem responsáveis por atrasar o cumprimento do Acordo de Paris. Deveriam ter vergonha de tê-lo abandonado e não deixar claro como farão para recuperar o tempo perdido”.


O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Le Yucheng, alertou que “a questão climática não deveria ser moeda de troca para a geopolítica ou para barreiras comerciais”. Afirmou, ainda, que “para um grande país com 1,4 bilhão de habitantes, algumas das metas não são facilmente alcançadas. Alguns países estão pedindo à China que faça mais em relação à mudança climática. Talvez isso não seja muito realista”. O governo da China, por seu lado, prometeu em seu plano econômico “continuar aprovando novas usinas de carvão, priorizando a estabilidade social e o desenvolvimento de importantes indústrias nacionais”.


O secretário de Estado Antony Blinken (2) deixou claro, essa semana, que os EUA, por sua vez, decidiram fazer do debate das mudanças climáticas a oportunidade de reorientar a geopolítica mundial, buscando ultrapassar a China e consolidar sua posição de império mais poderoso do planeta. Nesse sentido, admitiu que “os EUA estão atrás na agenda verde e, se não alcançarem os chineses, perderão a chance de moldar o futuro climático do mundo”. Afirmou, que “neste momento, estamos ficando para trás. A China é o maior produtor e exportador de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos. Detém quase um terço das patentes mundiais de energia renovável”. Mesmo com o “objetivo número um da política climática americana ser o de prevenir catástrofes”, os EUA “não deixarão de lado a competitividade e a ânsia de voltar a ditar os rumos do planeta”.
Ressaltou, o secretário Blinken, que “é difícil imaginar os EUA ganhando uma competição estratégica de longo prazo com a China se não liderarem a revolução das energias renováveis”. As mudanças climáticas não devem ser vistas apenas como “uma ameaça”, mas também como “uma oportunidade” para os americanos recuperarem seu protagonismo. “Estamos torcendo para que cada país, empresa e comunidade melhore a redução de emissões e a construção de um sistema de resiliência. Mas isso não significa que não tenhamos interesse em que os EUA desenvolvam essas inovações e as exportem para o mundo.”
Como chefe da chancelaria dos EUA, afirmou que seu trabalho é garantir que a política externa atenda aos interesses dos americanos e que a abordagem da crise climática como forma de transformar a matriz energética do país e criar empregos é a melhor forma de fazer isso. Para convencer o público americano da importância do tema, Blinken argumentou que o mercado de energia renovável global deve chegar a US$ 2,15 trilhões até 2025, 35 vezes o tamanho atual do setor nos EUA. Ele também afirmou que as políticas que serão adotadas por Biden representam novos empregos para os americanos. Vamos acompanhar a reunião e tirar conclusões.
 
E o Brasil?
 
Chegará à guerra dos impérios na condição de “paria” e, certamente, não serão os poucos minutos previstos para o pronunciamento de cada liderança, que recolocarão o Brasil como um dos principais protagonista mundiais na questão socioambiental. A credibilidade do governo Bolsonaro tende a zero, a carta encaminhada ao governo Biden é vista com ceticismo e desconfiança. O governo brasileiro terá que explicar a excessiva e absurda desregulamentação das normas ambientais; o desmonte dos órgãos ambientais e o esvaziamento das instituições oficiais de pesquisas que produzem dados e conhecimento sobre o território como INPE, IBAMA, IBGE, universidades; a intimidação que tem sido feita aos que criticam a política ambiental do atual governo; a militarização esdrúxula da política ambiental; a atual paralisação da fiscalização pelos órgãos responsáveis em função de portarias do Ministério do Meio Ambiente, dentre outras. A favor apenas a postura entreguista para tentar seduzir interesses empresariais.


Temos os direitos sobre os recursos naturais existentes em nosso território e de qualidade de vida em um ambiente saudável; bem como a obrigação de lutar contra a posição subjacente nessa guerra dos impérios e explícita nas posições do governo brasileiro de, como bem questionadopor Forrester (3) – “é preciso merecer viver para ter esse direito? Será útil viver quando não se é lucrativo ao lucro?”

Há saídas, depende de nós. Vamos construir um novo caminho.
 
(!) Godoi Filho, J.D. Desenvolvimento sustentável e a capitalização da natureza. Cuiabá: CEGAM, mimeografado,1994.
(2) Blinken, A. Blinken warns US is falling behind China in race to capitalize on climate opportunities –CNN Politics. Disponível em:https://edition.cnn.com/2021/04/19/politics/blinken-climate-speech/index.html - Acessado em 20/04/2021.

(3) Forrester, V. L’horreur économique. Paris: Fayard, 1996.
 

*José Domingues de Godoi Filho – Professor da UFMT/Faculdade de Geociências.
 

Quinta, 22 Abril 2021 11:27

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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JUACY DA SILVA*


Enquanto a humanidade imaginar que precisa dominar, destruir e degradar a natureza, em nome de um progresso, cujos frutos acabam sempre se acumulando em poucas mãos, gerando  pobreza, miséria e exclusão sócio-econômica e política;  enquanto o consumismo e o desperdício continuarem presentes ao lado de um crescimento populacional, urbano, industrial ou pós industrial, ainda acelerado em diversos países; enquanto, em nome do desenvolvimento ou da soberania nacional, os países e seus governantes se acharem no direito de devastarem suas florestas e poluirem o ar, os rios, oceanos e demais cursos d’água e a estimularem a degradação dos solos, com certeza as mudanças climáticas, o aquecimento global e a saúde do planeta e de seus habitantes estarão em risco permanente.

É fundamental que a consciência e a responsabilidade ambientalistas sejam despertadas para que as nossas relações com a natureza, com a ecologia, com o meio ambiente sejam pautadas pelo sentido do bem-comum e o compromisso em relação `as gerações futuras, que também tem o direito de desfrutarem de um meio ambiente saudável, sem os graves problemas que estão sendo gerados/causados pela miopia, omissão e insensibilidade das atuais gerações, inclusive de seus governantes.

Desde 1970, quando do primeiro DIA DA TERRA, há mais de meio século diversos setores, pesquisadores, cientistas e lideranças tanto públicas quanto da sociedade civil organizada, em nível mundial, vem alertando e clamando para o fato de que não podemos continuar nesta saga destruidora, os custos desta insanidade serão altissíssimos e recairão tanto sobre a atual geração quanto e principalmente das futuras gerações.

O planeta terra, a MÃE TERRA  está doente, está sofrendo com as dores da irresponsabilidade geral, da ganância dos poderosos e daqueles que imaginam que defender o meio ambiente, a terra e combater o desmatamento, a mineração que tem deixado um rastro de destruição e morte, a poluição, a degradação dos solos e dos cursos d’água, o uso abusivo dos agrotóxicos sejam questões de ordem ideológica ou pauta politica de partidos e movimentos de esquerda. Neste particular é fundamental o despertar da consciência e da responsabilidade coletiva, ou restauramos a terra rápidamente ou estaremos avançando para um caminho sem volta, onde até mesmo a sobrevivência humana no planeta estará ameaçada.

Há 51 anos que no dia 22 de Abril comemora-s e o DIA DA TERRA, desde as grandes manifestações que ocorreram em várias cidades americanas em 1970, ano após ano esta data vem se revestindo de um significado mais profundo  da luta ambiental em todos os países.

Inúmeras conferências internacionais, diversas acordos e tratados celebrados por todos os países, sob os auspícios da ONU tem apontado para a gravidade das questões  ecológicas/ambientais e o que esses desafios representam para o planeta terra, para a biodiversidade (flora e fauna) e, principalmente, para o ser humano.

Recentemente, o Secretário Geral da ONU, António Guterrez, dirigindo-se a inúmeros Chefes de Estado e de Governos que integram a ONU, fez mais um alerta quanto `a gravidade e urgência que são necessários quanto se trata das questoes ambientais, assim dizendo: “ Nós devemos envidar todos os esforços e agirmos decisivamente para proteger nosso planeta tanto do coronavirus quanto das ameaças existenciais representadas pelas mudancas climáticas”.

É importante ressaltar que enquanto o coronavirus, a COVID-19 é um enorme problema, desafios conjuntural, as questoes ambientais são de natureza estrurural e de longa duração. Cabe tambem destacar que anualmente entre 6,3 e 7,0 milhões de pessoas, das quais mais de 500 mil criancas, morrem em decorrencia da poluição do ar, dentro de for a dos ambientes residenciais ou comerciais, mas que pouca atencao ou quase nenhuma preocupaç ão tem despertado em governantes e gestores dos sistemas de saúde publicos ou privados.

O fulcro dessas e de tantas outras declarações do Secretário Geral da ONU quanto de cientistas que tem se dedicado aos estudos sobre o clima, as mudanças climáticas, o aquecimento global, o aumento de desastres naturais e as diferentes formas de degradação ambiental tem sido na ênfase quanto ao comportamento totalmente irracional e imediatista, principalmente de amplos setores governamentais e empresariais, além da passividade e alienação popular em relacao `a destruição da natureza, de forma rápida, continua e impiedosa.

A idéia subjacente a tantos alertas é como se a humanidade estivesse travando uma guerra contra a natureza, imaginando que a mesma é  um inimigo a ser dominado, explorado de forma predatória, sem considerar as consequências nefastas para as atuais e, pior, para as próximas gerações. Confunde-se desenvolvimento com destruição da natureza, com degradação ambiental, pouco se importando com o passivo ambiental que os atuais modelos econômicos estão provocando, cuja conta, imensa e impagável recairá sobre os ombros das próximas gerações em termos de danos ambientais, como os decorrentes de  crimes ambientais, como mineradoras, empresas petrolíferas, desmatadores e grileiros de terras publicas, de indígenas e florestas, madeireiros ilegais  e governantes omissos e coniventes com toda esta sanha ambiental destruidora, onde o Brasil tem se destacado de forma negativa nos ultimos tempos. A visao holística, de longo prazo cede lugar ao imediatismo, a busca desenfreada por acumulação do capital e concentração de renda e riqueza.

A idéia que se tem é que estamos em Guerra declarada contra a natureza, contra a MÃE TERRA, uma guerra estúpida e inconsequente que acabará por destruir a biodiversidade do planeta  provocando a degradação ambiental, contribuindo para a impossibilidade de todos os tipos de vida, inclusive da vida humana, na terra.

Por essas razões e pelos efeitos danosos que esta guerra estúpida e impiedosa estão provocando, é mais do que urgente parar com a mesma, precisamos de um Tratado de Paz entre a ganância, a irracionalidade humana e a natureza, enquanto é tempo. Quando mais duradoura e irracional for esta guerra, como todas as demais guerras, piores e mais devastadoras serão suas consequências.

Diante disto tudo, na Assembléia Geral da ONU em 01 de Março de 2019, foi aprovado uma Resolução estabelecendo que entre os anos de 2021 e 2030 será a DÉCADA DA RESTAURA,CÃO DOS ECOSSISTEMAS DEGRADADOS, objetivando o combate `as mudanças climáticas; proteger a biodiversidade (vegetal e animal), a segurança alimentar, garantindo a vida para mais de 7,8 bilhões de habitantes do mundo em 2020 e mais alguns bilhões dentro de 10; 20 ou 30 anos e a consecução plena dos Objetivos do Desenvolvimento sustentável e suas metas (Agenda 2030).

Na Assembléia Geral da ONU em Abril de 2009, por iniciativa do entao Presidente da Bolívia, Evo Morales, com apoio de mais 50 outros chefes de Estado e de Governo foi aprovado a proposta de que  22 de Abril fosse declarado o DIA INTERNACIONAL DA MÃE TERRA, ao invés de simplesmente DIA DA TERRA.

No mesmo diapasão para comemorar o DIA DA MÃE TERRA, a cada ano é escolhido um Tema e para  2021, em coerência com Resolução mais recente que estabeleceu a DÉCADA DA RESTAURAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS DEGRADADOS, o tema escolhido foi “RESTAURAÇÃO DA TERRA”, do Planeta.
Mesmo que o mundo todo esteja sendo afetado pela pandemia do CORONAVIRUS, com niveis maiores ou menores de restrições quanto `as atividades presenciais, diversas eventos, alguns presenciais e a maioria virtuais estarão sendo realizado não apenas nesta quinta feira, 22 de Abril, mas também ao longo deste mes, incluindo uma Reunião Virtual nos dias 22 e 23 deste mes, aberta  ao público em geral, por iniciativa do Presidente dos EUA Joe Biden, para a qual foram convidados 40 Chefes de Estado e de Governo, que representam mais de 80% do PIB mundial e tambem mais de 80% das emissões de gases de efeitos estufa, para discutirem as questões do Clima e suas consequências, incluindo o aquecimento global.

Este evento, por iniciativa do Presidente Biden, marca uma mudanca radical da politica ambiental, tanto interna quanto internacional dos EUA, após o desastre que foi a administração Trump, principalmente em relação ao meio ambiente e ao combate a COVID-19, quando o mesmo retirou a maior economia do mundo, maior PIB e segundo maior poluidor do planeta do Acordo de Paris, afrouxou as regras e normas ambientais internas, sucateou os organismos de fiscalização Ambiental, trazendo sérias consquências para aquele país e para o resto do mundo, modelo este seguido “ipsis litteris” (semelhante) pelo Governo Bolsonaro, o que representa um desastre ambiental de consequências de longo prazo.

Segundo analistas internacionais, de vários paises e meios de comunicação, esta iniciativa e compromisso do Governo Biden, marcam também um reposicionamento e a volta dos EUA ao cenário internacional com uma liderança forte por parte dos EUA para encaminhar os desafios e cumprimento do Acordo de Paris, principalmente em relação `a proxima Reunião do Clima, a COP-16, sob a coordenação da ONU a ter lugar em novembro próximo em Glasgow, na Inglaterra.

Tanto as ações, eventos a serem realizados no DIA INTERNACIONAL DA MÃE TERRA, quanto o Encontro virtual de chefes de Estado e Governo, convocados por Bidem para discutir a questão do Clima, estão e estarão inseridas tanto no contexto dos termos do Acordo de Paris quanto no espirito, conteudo e compromissos assumidos por ampla maioria dos paises membros da ONU, incluindo o Brasil,  quando a Assembléia Geral daquela organização internacional aprovou a criação da DÉCADA DE RESTAURAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS DEGRADADOS e, ao mesmo tempo, complementares aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e suas metas, enfim, o que se percebe é que, com a eleicao e inicio do Governo Biden, a pauta ECOLÓGICA/AMBIENTAL ganha mais espaço e pressionará todos os países a respeitarem tanto os termos dos acordos e tratados internacionais relativos ao meio ambiente e as resoluções das Assembléias Gerais da ONU, quanto, realmente, passarem dos compromissos e discussões nos foruns internacionais e inúmeras “cartas de intenções”, como tem feito o Brasil, para ações concretas, políticas públicas de defesa do meio ambiente de curto, médio e longo prazos. Blá-Blá-Blá e discursos demagógicos não salvam o planeta e nem restauram a terra, apenas estimulam os criminosos ambientais a seguirem IMPUNEMENTE em sua sanha destruidora, como vem ocorrendo e se agravando no atual governo no Brasil.

O pano de fundo nessas discusões  é a questão dos limites da soberania nacional em temas, problemas e desafios ambientais que afetam diversos países, continentes ou o mundo/planeta todo. Por exemplo, a questão dos rios e bacias hidrográficas internacionais, o uso de combustíveis fósseis que tantos males tem causado ao planeta e aos seus habitantres, o desmatamento acelerado das florestas tropicais, as queimadas de biomas importantes, como as que aconteceram no ano passado no Pantanal, na Camazônia e no Cerrado, a degradação das savannas que abragem diversas países, a poluição dos oceanos, o aquecimento da terra  e outras mazelas mais.

No caso da Amazônia, é mister que o Brasil entenda que por mais que tenha a soberania territorial e politica sobre a maior parte daquela região (bioma), a Amazônia não é exclusivamente brasileira, a mesma é compartilhado por mais 8 países sul americanos e, em decorrência, o desmatamento, as queimadas, a degradação dos solos, a poluição, principalmente decorrente de garimpos e atividades mineradoras, agropecuárias e madereira, boa parte de forma clandestina, ilegal e criminosa, enfim, tudo o que acontece por lá e também no bioma cerrado afetam o clima e o regime de chuvas e, desta forma, provocam degradação e danos ambientais não apenas no Brasil mas também em  todo o planeta, razão pela qual não podemos imaginar que a Amazônia seja apenas um tema, um assunto ou uma questão de interesse exclusivo do Brasil.

Algumas pessoas podem estar se perguntando, porque instituir o tema “RESTAURAÇÃO DA TERRA” no dia internacional em que se comemora o DIA DA TERRA ou o estabelecimento de uma DÉCADA DE RECUPERAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS DEGRADADOS, esta última a ser observada entre 2021 e 2030? Afinal o que isto representa para a população mundial, para a economia internacional ou a economia de cada país e a vida em escala global?

Dentre os vários aspectos que justificam esta preocupação, podemos mencionar que, em 2019, dados estatísticos demonstraram que o custo da degradação Ambiental por ano nos diversos biomas mundiais eram de US$ 6,3 trilhões de dólares ou R$ 35,2 trilhões de reais, isto representa 7,2% do PIB mundial naquele ano e afetava 3,2 bilhões de pessoas ou 41,6% da população mundial.

Os objetivos do DIA INTERNACIONAL DA MÃE TERA  e da Década de restauraçã/recuperação dos sistemas degradados, serão,  senão a única, pelo menos uma das mais importantes formas para se combater as mudanças climáticas e suas metas são: restaurar/recuperar até 2030 em torno de 350 milhões de ha de solos degradados, reduzir drásticamente o desmatamento mundial, principalmente das florestas tropicais, com destaque para a Amazônia, maior Floresta tropical do Planeta e atingir a meta de um aquecimento de no máximo 1,5 graus centigrados a mais do que em relação ao início do período industrial, combater a poluição dos oceanos, defender e proteger a biodiversidades, principalmente as espécies vegetais e animais em processo de extinção, controlar e combater as queimadas, que geram poluição do ar e destroem a biodiversidade, dentre outros.

No entanto, mesmo que aparente um objetivo pouco expressivo, a recuperação das áreas degradadas ou seja,  a recuperação desses 350 milhões de ha, pode gerar US$ 9 trilhões de dólares para a economia mundial e também remover entre 13 e 26 gigatons de gases tóxicos que estão “presos” na atmosfera e contribuindo para o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Além de lutar pela restauração dos biomas degradados mundo afora, é fundamental que comsigamos acabar ou reduzir drásticamente os fatores e causas que estão provocando esta degradação, dentre as quais podemos destacar o desmatamento, a destruição das florestas que, segundo a FAO atinge 7,3 milhões de ha por ano, que entre os anos de 2000 e 2021 atingirá 153,3 milhões de ha, boa parte dos quais se transformam  dentro de pouco tempo em áreas degradadas.

No mundo existem mais de 2,0 bilhões de ha de áreas degradadas, das quais mais de 100 milhões no Brasil, sendo que já identificadas mais de 50 milhões de pastagens degradadas, além do fato de que na Amazônia caminham ,lado a lado o desmatamento, as queimadas, a extração ilegal de madeiras, o garimpo e mineração tambem ilegais, a invasão impune de terras indigenas e de reservas ambientais, a grilagem de terras públicas e privadas e a especulação imobiliária que acabam contribuindo para a formação de mais de 33,7 milhões de ha de áreas degradadas.

Segundo estudo realizado sobre os custos de recuperação de áreas degradadas em Rondônia, o valor médio, em 2018, era de R$30 mil por ha, assim, o custo para recuperar 12 milhões de ha de áreas degradadas assumido pelo Brasil no Acordo de Paris seria de de R$360 bilhões de reais até 2030 ou R$3,6 bilhões de investimentos só neste projeto, compromisso anualmente, o que não esta acontecendo e a manter-se o sucateamento das politicas e órgãos ambientais tanto do Governo Federal quanto de governos estaduais e municipais, não acontecerá mesmo.

Se considerarmos o total das áreas degradadas, que aumentam na proporção direta do desmatamento da Amazônia, do Cerrado e dos demais biomas, que atualmente é de 100 milhões de ha de terras degradadas, este custo (atual) é de R$3,0 trilhões de reais e dentro de mais esta década, se nada for feito, além de discursos e cartas de intencao pelos governos federal e estaduais, até 2030 teremos mais de 150 milhões de áreas degradadas e os custos e prejuizos serão incalculáveis.

Isto, além de um sério prejuizdo economico, financeiro, ambiental e tambem afeta negativamente a imagem do Brasil no contexto internacional. Devemos ter em conta que cada ha de Floresta consegue sugar/sequestrar 26 toneladas de gases de efeito estufa, ou seja, as áreas desmatadas, ao lado das áreas degradadas no Brasil geram um impacto imenso no aquecimento do planeta, pois ao serem derrubadas as árvores liberam carbono estocado em suas raizes na atmosfera, além da poluição decorrente das queimadas e, ao mesmo tempo, deixam de exercer o papel de sugarem/sequestrarem carbono e outros gases de efeito estufa que estão “presos” na atmosfera, causando as mudancçs climáticas e seus efeitos nefastos.

Além do desmatamento, das queimadas e das áreas degradadas existem diversas outras causas ou fatores que contribuem para a deterioração da saúde do planeta que serão abordadas em outras ocasiões, para não tornar este artigo extenso demais.

Dentre esses podemos destacar a poluição dos oceanos e demais cursos d’água, onde a questão da poluição por plásticos demanda uma ação urgente; o desperdício de água, de diversas materiais e, pior, de alimentos que chegam a mais de 60 milhões de toneladas por ano, enquanto quase um bilhão de pessoas passam fome; a falta de saneamento básico na maioria das cidades principalmente nos países do terceiro mundo (com renda baixa e média) afetando a qualidade de vida de mais de 50% da humanidade, quase quatro bilhões de pessoas, que vivem ou sobrevivem em condicoes sub-humanas de vida, sobre quem recaem as consequencias da degradação ambiental

Dentro de pouco mais de seis semanas, em 05 de Junho próximo, estará sendo comemorado o DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE quando entará será oficialmente lançada pela ONU a DÉCADA DE RESTAURAÇÃO DOS SISTEMAS/BIOMAS DEGRADADOS e ao longo deste ano e dos demais até 2030, diversos eventos e datas “comemorativas” de aspectos ambientais estarão sendo relembradas, ocasiões que devem ser usadas para discutirmos a gravidade das questões ambientais nas localidades, nos estados, paises e planeta.

Enfim, a pauta ambiental/ecológica devera estar muito mais presente nas discussões publicas e na definição de politicas publicas de estado, de longo prazo e na alocação de recursos orçamentários federais, estaduais e municipais. Se assim não acontecer estaremos condenados a ser um país e não pária nas relacoes internacionais, estaremos caminhando na contra-mão da história.

Podemos dizer que o tema central das discussões e da luta ambientalista a partir de agora, de forma mais enfática e efetiva , terão dois focos principais e interligados: as mudanças do clima e como podemos e devemos fazer para combater este perigo iminente e como podemos evitar a degradação ambiental em geral. A resposta é apenas uma JUNTOS PODEMOS RESTAURAR A TERRA, curar, sarar, cuidar melhor do planeta, da MÃE TERRA, reduzir as mudancas climáticas e melhorar a qualidade de vida para a grande maioria dos excluidos em todos os países, regiões e continentes.

Existem diversas maneiras de agirmos, tanto no plano individual, local quanto nas dimensões regionais, sub-regionais, nacionais e internacionais, desde ações simples como plantar uma árvores, reciclar nosso lixo, reduzirmos o desperdício, promover a educacao ambiental, passarmos a usar fontes alternativas de energia, como a solar, eólica e outras formas, enfim, basta despertar a nossa consciência ecológica, nossa responsabilkidade quanto ao future do planeta e passarmos das intenções para a prática, de preferência de forma coletiva e organizada, cujos resultados são mais visíveis, efetivos e duradouros.

Kathleen Rogers, Presidente da “Earth Day Org”, recentemente disse de forma clara “ Estamos a beira de um precipício, se não agirmos agora, de forma efetiva, para reduzir as emissões de carbono e de outros gases que provocam o efeito estufa, a poluição em geral, principalmente do ar, e a degradação ambiental em geral, não haverá caminho de volta”. Isto demonstra uma verdade e um sentimento que de  há muito vem sendo enfatizados pela comunidade científica e pelos ambientalistas em diversos países, inclusive no Brasil. Pena que a grande maioria dos governantes não ouvem essas vozes ou apenas fingem que as ouvem.

Esses são os principais recados neste DIA INTERNACIONAL DA MÃE TERRA, em 2021!

*JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, colaborador de alguns veículos de comunicação. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Twitter@profjuacy

Segunda, 19 Abril 2021 10:11

 

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O falecimento da amiga, historiadora, professora, Geralda Dias Aparecida, em 17 de abril de 2012, decorrente das sequelas do Covid 19, após  hospitalização de um mês, em Brasília, onde residia, deixa-nos profundamente consternadas.


Geralda foi professora no departamento de História da UFMT, de 1982 a 1985,  atuando com paixão em várias disciplinas e, de modo particular, a disciplina de História da América.


A ambiência com esta área do conhecimento explicava-se por sua experiência como professora titular na Universidade  Autónoma Metropolitana de México  (UAM), entre os anos de 1977 e 1982.  Estadia essa forjada em decorrência de sua participação ativa no movimento estudantil, o que a levou a sair do país no final da década de 1960. Ainda nesse país, realizou seu doutorado no Colégio de México, entre 1973 e 1981.  De volta ao Brasil, ingressou no quadro de docentes do departamento de História da UFMT.


Durante sua estadia na UFMT exerceu o cargo de vice-presidente da ADUFMAT, na gestão da Diretoria “Afirmação” (1984/1985), presidida pelo professor Guilherme Frederico Moura Muller. Essa gestão deu sequência ao trabalho da diretoria "Renascer" que havia promovido, em parceria com as demais entidades sindicais da UFMT, a primeira eleição para a reitoria. 


A  ADUFMAT, sob a chapa “Afirmação”, mobilizou a UFMT como um todo:  docentes, administração, técnicos, servidores e discentes na luta pela  redemocratização do país. Nesse engajamento, encontrava-se a luta pelas eleições das "Diretas Já",  com a Emenda Dante de Oliveira. 


Com este mesmo espírito, consolidou-se, entre os docentes, o compromisso de democratizar o campus da UFMT, o que significava democratizar a gestão universitária em todos os níveis, com eleições diretas, desde a escolha do(a) reitor(a) à  chefia de departamento.


Fortaleceu-se, assim, na UFMT, a prática dos debates entre os candidatos à reitoria,  sob a coordenação da ADUFMAT. Talvez esteja aí uma das explicações de que, até os dias atuais, tais eleições se mantenham sob a coordenação da ADUFMAT Ssind. Assim sendo, pela primeira vez, uma eleição, com as urnas do Tribunal Regional Eleitoral, eram distribuídas em todos os campi da UFMT.


Com sua forma serena, altiva, diplomática, perspicaz, esta professora sabia, como poucos, se movimentar e se fazer ouvir. Tais predicados, podiam ser notados  em meio a uma assembleia, ou mesmo em outros espaços: uma roda de samba, uma mesa de bar, uma conversa amiga e franca com seus alunos, em uma reunião formal. Ali estava Geralda, inteira: interessada, comprometida, apresentando soluções e caminhos. Uma mente brilhante – comprometida profundamente com seu trabalho, seus alunos, suas pesquisas, com a universidade pública, com o Brasil.  Uma intelectual que não se encaixava em partidos políticos, gostava de pensar e agir livremente.  Uma mineira de boa cepa.


Após sua estadia na UFMT, ingressou via concurso público na Universidade de Brasília, onde permaneceu como docente até aposentar-se.
Na UNB, foi coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História entre 1985 e 1990. Dirigiu o Centro de Documentação da UNB (CEDOC) e, no âmbito deste centro, desenvolveu os trabalhos da Comissão de Anistia para a reintegração de professores perseguidos e exonerados  durante a ditadura militar.  Como profunda conhecedora da História da América, foi Diretora da Casa de Cultura da América Latina (CAL).


Cientes somos de que uma vida com a envergadura da  historiadora e professora Geralda Dias Aparecida não se esgota em poucas  linhas. Cabe-nos, neste momento, onde quer que esteja, afirmar nossa gratidão pelo seu   inestimável legado.

 
Para as gerações atuais, futuras, e ex-alunos, deixa, com certeza, um imenso legado na luta pela valorização e defesa da universidade  pública, bem como a  permanente necessidade da luta pela democratização de nosso país e da defesa dos direitos humanos na América Latina como um todo. Levemos avante seus sonhos e utopias!

     
              Maria Adenir Peraro  e Maria Inés Malta Castro.
 
              Historiadoras e professoras, aposentadas, pela UFMT e  UniCEUB, respectivamente.
                           
             Cuiabá, 17 de abril de 2021
 
 
 

Segunda, 12 Abril 2021 09:44

 

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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT
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        Neste tempo de pandemia, especialmente em nosso país, tantas são as mortes diárias que jávamos perdendo a conta das vítimas da covid-19. Para o aumento do nosso infortúnio,este dolorido tempo de perdas ainda nos encontra em processo de desintegração do real sentido do quedeveria ser um “ser humano”. O negacionismo da ciência, exposto invariavelmente de forma desdenhosa e violenta, por parte de seus adeptos, pode ser um dos elementos catalizadores dessa desintegração. Para as mentes negacionistas, estranhamente vinculadas à noção do divino, nem a arte, por mais sublime que seja, consegue “operar milagres”.
        E por falar em arte, no último dia 07/04, ànominata brasileira dos mortos por covid, da qual nenhum de nós está isento,paradoxalmente, foiincorporadoum dos seres humano mais humanos: Alfredo Bosi.Dele, em emocionante homenagem de seu neto Tiago, ficamos sabendo, dentre tantos e ricos detalhes de uma existência exemplar, se tratar de um “filho prodígio de uma costureira e um ferroviário da Barra Funda”.
        No leadda mídiaaqui destacada(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/morre-alfredo-bosi-um-dos-maiores-criticos-literarios-do-brasil-de-covid-aos-84-anos.shtml),lemos que Alfredo Bosifoi um “professor emérito da USP e membro da Academia Brasileira de Letras”. Em certeiro complemento, é registradoainda que “ele foi um dos principais intérpretes do país”.
        Por tudo isso, emboradito de forma tão resumida algo que só se constrói durante uma longa e honesta existência acadêmica, é que externoo privilégio de ter tido o primeiro contato com o professor Bosi, por meio de seu livro História Concisa da Literatura Brasileira, no início dos anos 80, quando ingressei no ensino superior. Por conta dessadeterminante referência bibliográfica, serei sempre grato à professora Alice Penteado, responsável por esse presente.
        Daquele livro basilar, cuja perspectiva didática era simplesmente ser“concisa”, historiando cronologicamente o percurso de nossa literatura, com a competência ímpar que só os grandes mestres possuem, pude ter a dimensão da minha elástica ignorância a ser atenuada com o tempo, jamais eliminada. Como estudante de Letras, sem o privilégio do prodígio de Bosi, mas com origem familiar semelhante à sua, nada era tão “conciso”para mim, como é pretendido naquele título. Cada parágrafo daquele livro era um fragmento desafiador, até mesmo em tópicos semânticos. Cada notaderodapé – e não são poucas – se abria como um leque que assoprava conhecimento que tinha de ser apanhado até onde e como se podia. Com isso, posso afirmar que me identifiquei, definitivamentecom a carreira docente, por conta do trabalho intelectual de Alfredo Bosi, absolutamente tão inspirador quanto indispensável.
        Depois desse primeiro livro, tornei-me um leitor de outros trabalhos seus, dos quais destaco as Reflexões sobre a Artee, sobretudo, olivro Dialética da Colonização, que sistematicamente, assim como a sua “história concisa”,compartilho com os meus acadêmicos no curso de Letras, pois tudo ali nos leva a pensar a complexidade de nosso país, ainda respirando valores e reproduzindo desprezíveis práticas coloniais.A leitura desse livro, a mim, como a tantos outros estudantes e professores, foi um exercíciodivisor de águas.
        Do mestre Alfredo Bosi, digo que cada palavra, cada reflexão sua importa. Nada é desprovido de sentido, como é peculiar aos intelectuais, que – assim como os galos de João Cabral tecem as manhãs com os seus cantos apanhados de um a outro – sabem estabelecer diálogos com outros intelectuais, com destaque aos pensadores clássicos; talvez, por isso, um verdadeiro intelectualnunca transita pelas trilhas da arrogância e suas parceiras adjacentes. É uma lástima ter a ciência de que esse tipo de trabalhador do intelecto vai se tornando avis raras, inclusive, dentro das universidades, cada vez que um exemplar à lá Bosi se vai.
        Ao constatar isso, e, agora, perante a memória de Alfredo Bosi, me lembrei de Antônio Cândido, outro intelectual que nos deixou há pouco. Deste,trago à tona o seu livro Na sala de aula (1986), de onde sê lê a análise literária “Carrossel”, baseada no poema “Rondó dos Cavalinhos” (In: Estrela da Manhã; 1936), do modernista Manuel Bandeira, do qual destaco o seguinte fragmento:
        “Os cavalinhos correndo,// E nós, cavalões, comendo...// Alfonso Reys partindo,// E tanta gente ficando...”.
        Infelizmente, findado o seu trabalho diplomático por aqui, Alfonso Reys, poeta mexicano, teve de regressar ao seu país. Naquele momento (década dos anos 30/século XX), para a tristeza do eu-poético manuelino, enquanto o valoroso Reys nos deixava, “tanta gente(medíocre ia) ficando”. Vale lembrar que, naquela circunstância, regimes ditatoriais, como o fascismo de Mussolini da Itália, onde Bosi pôde residir por um ano para estudar a literatura italiana, e o próprio período Vargas, por aqui, eram ameaças deveras abrangentes.
        Agora, Alfredo Bosi nos é subtraído pela doença pandêmica deste início de um século que já acumula perdas e dores infindas. Ele nos deixa em um momento também marcado por tensões, pois nossademocracia encontra-sesobsobressaltos; daí a necessidade do empenho para compreendermos o real valor das democracias.
        Por isso, mais do que antes,as reflexões de Bosi sobre o Brasil, consolidadas a partir do método dialético,pelos quais transitam os inigualáveis humanistas Marx e Gramsci, precisam e podem continuar nos ajudando a tentar entender nosso complexo país, até para defendê-lo de “tanta gente”, obviamente, medíocre e perigosa, que continua “ficando” por aqui; em outras palavras, protegê-lo de aventureiros, que em nome de pensamentos e de práticas típicas do medievo e do nosso nefasto período colonial, flertam com o autoritarismo.
        Neste cenário de dores e riscos, vivaeternamente a memória de Alfredo Bosi;graças eternas a cada palavra escrita e nos legada tão generosamente por esse grandioso Mestre de um país, perigosamente, tão macunaímico.

Quinta, 08 Abril 2021 20:17

 

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 Juliana do Couto Ghisolfi [ii]

Maryanne Galvão [iii]
 

          Nos últimos dias, levantamentos realizados por deputados estaduais[iv], pelo Tribunal de Contas (TCE-MT)[v] e pelo Ministério Público de Contas de Mato Grosso (MPC-MT)[vi] registraram aquilo que a população mato-grossense sabe na prática: a vacinação está lenta.

          No caso de Cuiabá, além da lentidão[vii], a vacinação parece ainda mais difícil, pois até o início desta semana, ocorria em um único local – o Centro de Eventos do Pantanal que, diga-se de passagem, fica nas proximidades de bairros centrais e elitizados. Além de centralizada em um só lugar, a vacinação somente é aplicada após agendamento exclusivo pelo site da prefeitura, que com frequência apresenta instabilidade[viii] e pane.

          Na semana do dia 30/03/2021 teve início na capital matogrossense a vacinação das faixas etárias entre os 70 aos 74 anos. Acompanhamos uma família na tentativa de agendamento da vacina para um idoso de 74 anos. Em duas ocasiões, no site da prefeitura, existia a disponibilidade de data e horário, entretanto ao clicar para confirmar o horário, o site caía, e não voltava mais. No quarto dia de tentativa, com cinco pessoas tentando simultaneamente, foi possível completar o procedimento e, finalmente, agendar a vacinação. 

          Questionada em uma rede social – a respeito da aglomeração de idosos, sobre a inconstância do sistema de marcação online – a Prefeitura de Cuiabá afirmou que nossa cidade fora a capital que menos recebeu vacinas.


 
          Na tabela acima, elaborada a partir de dados do Localiza SUS e dados demográficos do IBGE, estão destacados os percentuais da população de cada capital e de cada Unidade Federativa da região Centro Oeste, e o percentual de doses que cada Estado destinou à sua capital. Brasília, obviamente, fica com 100% das doses encaminhadas pelo Ministério da Saúde. Campo Grande, que possui cerca de 33% da população de Mato Grosso do Sul, recebeu aproximadamente o mesmo percentual de vacinas. Da mesma forma, Cuiabá representa 17% da população de MT, e recebeu 19% das vacinas que chegaram a MT. A exceção é Goiânia, que possui 21% da população do estado, mas recebeu 51% das doses destinadas a Goiás.

          Se Campo Grande e Cuiabá receberam percentual de vacinas equivalentes ao percentual da sua população no Estado, o que explicaria a discrepância dos desempenhos das duas capitais em suas campanhas de vacinação? Ao compararmos as duas capitais, surgem muitas questões a respeito da vacinação contra a COVID-19 em Cuiabá.

          Para começar, ao contrário de Cuiabá, Campo Grande conta com uma campanha de vacinação descentralizada: as vacinas são aplicadas em mais de 30 locais, nos diferentes bairros da cidade. O morador vai até a unidade mais próxima de sua casa, na época de vacinação de sua faixa etária, e recebe a vacina, sem maiores burocracias. Além de facilitar e diversificar o acesso, a vacinação feita nos bairros permite acompanhar o avanço da aplicação das doses em cada região da cidade.

          Após o Ministério Público de Mato Grosso (MPE-MT)[ix] ingressar com ação civil pública exigindo que a Prefeitura de Cuiabá abra mais polos de vacinação em Cuiabá, especialmente com as últimas doses recebidas do Ministério da Saúde no dia 01 de abril (113 mil doses), o prefeito Emanuel Pinheiro anunciou ontem a abertura de dois novos locais[x] de vacinação.

          Hoje, 06/04, a prefeitura anunciou mudanças no sistema de agendamento: ao fazer o cadastro do usuário, a data e o horário da vacinação serão feitos a partir de uma “‘fila de espera virtual’ e o agendamento é gerado automaticamente de acordo com a ordem cronológica de cadastro no site e com a quantidade de vagas disponibilizadas por dia”.[xi].

          Ou seja, foi preciso que instituições como o Ministério Público e deputados questionassem para que algumas mudanças fossem adotadas. Esperamos que as mudanças anunciadas não sejam no estilo “mudar para continuar igual”[xii]

          Ainda assim, restam dúvidas que merecem esclarecimento:

          - Por que Cuiabá optou por vacinar em um único local até agora?

          - Por que não descentralizar mais os polos de vacinação, com um ponto por bairro, por exemplo?

          - Por que a exigência do agendamento exclusivamente pelo site? Poderia ser uma opção, para agilizar o atendimento, mas não um empecilho para a vacinação de quem não consegue fazer o agendamento. Agora é esperar que o novo sistema não apresente falhas, e, ainda mais importante, que haja transparência na “fila virtual” anunciada.

          - Nas condições em que vinham ocorrendo as vacinações até o começo desta semana, foi feito um acompanhamento de quantos idosos de cada região da cidade estão sendo vacinados? Quem são os idosos que estão recebendo as vacinas em Cuiabá? De quais regiões e bairros?

          - Qual o perfil socioeconômico da população vacinada?

          - Os idosos de famílias sem acesso à internet estavam conseguindo agendar a vacinação e comparecer ao distante Centro de Eventos do Pantanal?

          As duas últimas questões estão intrinsicamente ligadas, pois se levarmos em consideração que muitas pessoas não possuem acesso à internet banda larga e que muitos bairros populosos, da região periférica da cidade, ficam bastante distantes do único ponto de vacinação, no Centro de Eventos do Pantanal – como o bairro Pedra 90, um dos mais populosos de Cuiabá, que fica a 21 km de distância, 42 km para ir e voltar – é possível que idosos dos bairros mais distantes e carentes não estejam recebendo a vacina a que teriam direito e acesso, se a vacinação ocorresse nas UBS, por exemplo.

          Várzea Grande, cidade que integra a região metropolitana de Cuiabá, recebeu 37.591 doses de vacinas, ou seja, 6,7% da quantidade recebida pelo Estado de Mato Grosso. A cidade conta com dois pontos[xiii] de vacinação, e pretende ampliar para cinco pontos na medida em que for decrescendo a faixa etária do público alvo. Juntas, Cuiabá e Várzea Grande receberam aproximadamente 25% das doses que chegaram a MT.

          O certo é que tanto o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) quanto o governador Mauro Mendes (DEM) não perdem oportunidade pra rivalizar entre si, e isso, temos certeza, não ajuda na dinâmica de buscar acesso às vacinas e muito menos na criação de um plano municipal ou estadual efetivo de gestão de crise e de vacinação. Os mandatários deveriam parar de pensar em eleições e agir. Enquanto isso, Mato Grosso bateu mais um triste recorde de perdas em 24 horas para a pandemia: de domingo (04/04/2021) para segunda, foram 128 mortos.

          Todos aguardamos por respostas e, principalmente, pela vacinação em massa, e em locais acessíveis a toda a população, de todas as regiões das cidades. Por enquanto, ainda temos o direito ao acesso universal. No entanto, a realidade é que as vacinas estão escassas, mesmo para os grupos prioritários.
 
Fontes:

IBGE - População Centro-Oeste por faixa etária. Disponível em:  https://sidra.ibge.gov.br/tabela/5918#resultado Acesso em: 03/04/2021.
SUS - Localiza SUS. Disponível em:  https://localizasus.saude.gov.br/ Acesso em: 03/04/2021.

 


[i] Este artigo faz parte de SANTANA, Luciana (org). Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política – ABCP.
[ii] Doutora em Ciência Política; Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política/ UFMT.
[iii] Socióloga, Pós Doutoranda do Programa Pós Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Piauí.
[iv] https://www.gazetadigital.com.br/editorias/politica-de-mt/estudo-mostra-que-quase-40-das-vacinas-recebidas-em-mt-ainda-no-foram-aplicadas/649186  
[v] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/01/tce-mt-aponta-baixa-aplicacao-da-vacina-contra-a-covid-19-em-64-municipios-e-pede-aceleracao.ghtml
 [vi]https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/03/31/mp-aponta-divergencia-entre-doses-distribuidas-e-aplicadas-e-questiona-governo-e-municipios-de-mt.ghtml
[vii] Apesar da lentidão na vacinação, Cuiabá foi uma das 7 cidades em que a prefeitura (MDB) suspendeu a vacinação durante a sexta feira santa (02/04). https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/04/02/brasileiros-nao-puderam-se-vacinar-em-pelo-menos-11-capitais-nesta-sexta-feira-2.ghtml
[viii] Prefeitos de 141 municípios do interior do Estado, pressionados pelo governador Mauro Mendes quanto à lentidão e transparência dos dados da vacinação, divulgaram nota declarando instabilidade no sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI), que ficaria horas sem funcionar, comprometendo os registros de doses extramuros em até 48 horas, além de falta de acesso à internet em regiões rurais e as chuvas, e falta de servidores. https://www.midianews.com.br/politica/prefeitos-atribuem-atraso-a-sistema-instavel-e-equipes-reduzidas/396364
[ix] https://www.gazetadigital.com.br/editorias/judiciario/mp-aciona-justia-para-descentralizar-vacinao-em-cuiab/649763 
[x] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/05/ufmt-e-sesi-papa-serao-novos-pontos-de-vacinacao-contra-a-covid-19-em-cuiaba-no-modelo-drive-thru.ghtml
[xi] https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2021/04/06/agendamento-da-vacina-contra-covid-19-em-cuiaba-sera-feito-de-forma-automatica.ghtml
[xii] Referência à obra de Tomasi di Lampedusa, Il Gattopardo (O Leopardo), que narra a decadência da aristocracia italiana. Em determinado momento, Tancredi, sobrinho do Príncipe Don Fabrizio, afirma que é preciso que tudo mude, para tudo permanecer como está.
[xiii] http://www.varzeagrande.mt.gov.br/conteudo/18882/nesta-quinta-feira-a-vacinacao-ocorreu-na-clinica-medica-do-univag-e-atraves-de-drive-thru-prefeito-voltou-a-cobrar-autoridades-federais-para-liberar-mais-vacinas
 

Segunda, 22 Março 2021 10:04

 

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José Domingues de Godoi Filho*

 

Será possível ser otimista em relação a uma mudança global para um novo normal? Mesmo com algum otimismo, não me parece que iremos acordar, no final da pandemia, com uma mentalidade coletiva diferente. Será que os tecnocratas que decidem os rumos da economia dos diferentes países, especialmente os nefastos “Chicago boys”, que integram o governo brasileiro, conseguirão ver e reconhecer a falência das receitas neoliberais e os seus efeitos como, por exemplo, mostra o relatório da Oxfam (1): - “desde o início do século 21, a concentração de riqueza entre os mais ricos tem aumentado constantemente. O número total de bilionários quase dobrou dez anos após a crise financeira de 2008 e, entre 2017-2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias. Esse abismo crescente entre os mais ricos e o restante da população foi alimentado, em parte, por níveis elevados e persistentes de desigualdade de renda. Em 2015, a maior parte da população mundial vivia em países onde a desigualdade havia aumentado nos 25 anos anteriores. O World Inequality Lab mostrou que, entre 1980 e 2016, o 1% mais rico recebeu 27 centavos de cada dólar de crescimento da renda global”.

E mais, que, no Brasil, mesmo com a pandemia o lucro total dos quatro maiores bancos, em 2020, foi de R$ 61,6 bilhões?

A extrema desigualdade atual foi gerada por um sistema econômico explorador (neoliberalismo) que, há quarenta anos, vem beneficiando uns poucos super ricos. O neoliberalismo é o responsável pela abissal concentração de riqueza e renda no topo, enquanto uma ampla maioria, na base, continua sendo sacrificada e empobrecida.

Como bem analisa Mia Couto, em países como Moçambique, “fica clara a falência das receitas neoliberais, que acabaram destruindo as conquistas sociais dos primeiros anos da Independência. Se for verdade que a vacina da BCG ajuda a proteger contra o coronavírus, os moçambicanos só podem agradecer esse período de poder popular em que a totalidade da população se beneficiava de campanhas de vacinação e de cuidados médicos básicos. Não será por causa da medicina privada, inspirada no capitalismo selvagem, que nós iremos proteger nem nesta pandemia nem em nenhuma outra situação de sofrimento”.

Todas variáveis que estão disponíveis indicam, como já ressaltado pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, que o ponto de partida não será encorajador. Independentemente de sua evolução futura, a pandemia deixará um mundo de trabalho com mais desemprego, mais desigualdade, mais pobreza, mais dívidas e, com toda a probabilidade, mais frustração e até raiva popular. No entanto, a pandemia também destacou fortemente a necessidade absoluta de agir, sem demora, para cumprir os princípios e objetivos da Declaração do Centenário da OIT, comemorado em 2019, e o preço humano de não o fazer. Portanto, o processo de uma melhor reconstrução terá que responder a certas questões e desafios prementes (2):

i - como promover o crescimento sustentável com pleno emprego e trabalho decente para todos; como conceber resposta à crise pelo Covid-19 de forma a recuperar a economia global da recessão e colocá-la em posição de superar os desafios de uma transição digital, demográfica e ambiental justa; ii - o que precisa ser feito para resolver as enormes vulnerabilidades no mundo do trabalho revelados pela pandemia? Como intensificar os esforços para formalizar a economia informal e avançar decisivamente para a cobertura universal da proteção social? iii - Queremos acelerar o uso de tecnologias que possibilitem novas formas de trabalhar à luz da experiência da pandemia? Em caso afirmativo, como esse trabalho deve ser regulamentado? iv - Quais setores de atividade econômica e categorias de trabalhadores requerem especial apoio e atenção? O processo de recuperação pode incorporar uma agenda transformadora para alcançar a igualdade de gênero e uma plataforma para o avanço da juventude no mundo do trabalho? v - Como fazer com que a redução e eliminação da pobreza e os imperativos de direitos e justiça social se tornem objetivos centrais do processo de recuperação? vi - Num momento em que a cooperação multilateral é mais indispensável do que nunca, mas enfrenta desafios sem precedentes, como a comunidade internacional pode se unir em torno de um verdadeiro propósito comum e se dedicar novamente à implementação da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável?

E no Brasil?

No caso brasileiro, onde um time de bonecos amestrados controlados pelos interesses do capital que os elegeu e estão destruindo o Estado com as emendas constitucionais e reformas que estão aprovando, conseguirão perceber a importância dos sistemas públicos de saúde e de educação? E a falência do neoliberalismo?

O anunciado colapso no sistema de saúde deixou de ser uma possibilidade e se tornou realidade em todo país. Há necessidade de contornar o colapso e de impedir que se mantenha por tempo indeterminado, sendo fundamental atender as recomendações feitas com base na ciência, enquanto a vacinação não atinja a maioria da população.

A recente entrevista do CEO do Hospital Sírio-Libanês Paulo Chap Chap, onde informa que cancelou cirurgias eletivas e que não consegue mais atender os pedidos de transferência, ilustra bem a situação. Disse ainda, que ter dinheiro ou plano de saúde de primeira linha não significa espaço assegurado nas unidades privadas. Ao contrário, cresce gradativamente o universo de pessoas que, sem conseguir vaga na rede particular, acabam socorridas pelo sistema público.

Os hospitais particulares também enfrentam superlotação ou vivem perto dela. Morrer na fila de UTI por causa do colapso é agora, um risco de todos, assim como é também de todos a responsabilidade em revê-lo.

Quanto ao governo brasileiro já passou da hora de ficar insistindo que o governo fez tudo certo, conforme teria dito para médica Ludhmila Hajjar ao convidá-la para ocupar o ministério da saúde. A médica recusou o convite e relatou, em entrevistas para a imprensa, que “não houve convergência técnica com o governo”, uma forma educada de dizer que era incompatível com o saber estabelecido. Cabe uma pergunta, se tinha feito tudo certo, por que trocar de ministro de novo?

Um novo convite foi feito e aceito pelo médico Marcelo Queiroga e, um novo ministro indicado. Não é demais desconfiar de qualquer um que aceite o cargo, sabendo o que o presidente Bolsonaro pensa, faz e deixa fazer em relação à pandemia. O que Queiroga conversou com o presidente? O que perguntou antes de aceitar o cargo?

Agora temos um ministro que está exonerado, mas não deixou o cargo e, um que foi indicado e ainda não assumiu. Enquanto isso a pandemia caminha celeremente para atingir três mil mortes por dia, como previsto e alertado há tempos por pesquisadores.

O que fazer para enfrentar a pós pandemia.

Talvez retomar, para fortalecer os sonhos e a esperança, a frase inicial de “O primeiro círculo”, de Alexander Soljenitsin – “mariposas vivem pouco tempo, o carvalho floresce aos cem anos” e tocar em frente inspirados pela brilhante recomendação de Chomsky que:

- “Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald’s e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hamburguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais têm tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios têm placas dizendo ‘olhe para frente’, porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social autoinduzido, o que é muito prejudicial. Estamos agora em situação real de isolamento social, que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa que puder ajudas as pessoas em suas necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises...Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto...Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos têm encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português”.

 

(1)    O vírus da desigualdade – Oxfam Brasil – Disponível em:

https://www.oxfam.org.br/wp-content/uploads/2021/01/bp-the-inequality-virus-110122_PT_Final_ordenado.pdf?utm_campaign=davos_2021_-_pre_lancamento&utm_medium=email&utm_source=RD+Station –Acessado em 15/03/2021

(2)    Cumbre virtual – ILO – Disponível em: https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/---dcomm/documents/meetingdocument/wcms_747938.pdf - Acessado em: 10/01/2021

 

*José Domingues de Godoi Filho – Professor da UFMT/Faculdade de Geociências.

 

Sexta, 19 Março 2021 09:59

 

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JUACY DA SILVA*

O Brasil esta diante da maior crise, na verdade da maior tragédia nacional que afeta o país não apenas em relação ao caos, sofrimento e morte como característica do nosso Sistema de saúde pública e privado, mas também  profundamente a economia e a sociedade como um todo.

A evolução da pandemia do coronavirus foi rápida e atingiu praticamente todos os paises, em todos os continentes. Todavia, a incidência tanto de casos quanto de mortes tem sido bem diferentes, sendo que as Américas (Norte, Central, Sul e Caribe), além da Europa concentram a grande maioria tanto de casos quanto de mortes.

Em 18 de Março de 2021 a OMS ja contabiliza 121,3 milhões de casos e 2,68 milhões de mortes. Os Estados Unidos ocupam o primeiro lugar tanto em casos quanto em mortes, cabendo ao Brasil o segundo lugar nesta trágica estatística.

No Brasil já foram contabilizados 11,7 milhões de casos e 284,8 mil mortes para uma popula¸cão de 212,6 milhões de habitantes; enquanto a China, onde o coronavirus foi identificado pela primeira vez, com 1,4 bilhão de habitantes registra apenas 101,5 mil casos e 4,8 mil mortes; situação também bem diferente do Brasil é apresentada pela Índia, com uma população de 1,39 bilhão de habitantes e apenas 159,2 mil mortes.

A mesma tendência pode ser observada em alguns outros países mais populosos do que o Brasil como Indonésia com 270 milhões de habitantes, tendo registrada 1,4 milhão de casos e apenas 39,1 mil mortes e o Paquistão com 220 milhões de habitantes tendo apenas 615,8 mil casos e 13,7 mil casos, situacao muito melhor do que a existente em diversas estados brasileiros, com população infinitamente menor.

Situação também muito diferente do Brasil vive a Nigéria, com populacao de 206 milhões de habitantes, bem próxima `a população brasileira tem apenas 161,3 mil casos e um número insignificante de 2,0 mil mortes.

Outra situação digna de nota é a Coréia do Sul, com população de 51,3 milhões de habitantes, bem mais do que do estado de São Paulo ou 15,5 vezes a população de Mato Grosso, registra apenas 97,3 mil casos e 1,7 mil mortes; enquanto São Paulo registra 2,24 milhões de casos e 65,5 mil mortes e Mato Grosso 278,0 mil casos e 6,5 mil mortes; ou seja, Mato Grosso com apenas 3,3 milhões de habitantes tem mais mortes por covid do que a China e a Nigéria, paises com mais de 1,4 bilhão e 206 milhões de habitantes, respectivamente.

Algo de errado está acontecendo no Brasil e com nossos governantes, com certeza, isto é o que devemos refletir ao analisar a atual situação de um colapso no Sistema de saúde de nosso país.

Esses dados demonstram como governantes, em diferentes paises, enfrentaram ou estão enfrentando a COVID 19, com medidas que conseguiram, de fato, barrar a disseminação do virus e também reduzir os índices de letalidade e, pelo que se tem notícia não enfrentaram situação de calamidade pública como esta acontecendo no Brasil e nem queda do PIB.

O último relatório de acompanhamento da COVID-19 da FIOCRUZ, instituição centenária, respeitadissima tanto no Brasil quanto no exterior pela sua excelência em matéria de ensino, pesquisa e extensão, entidade governamental, vinculada ao Ministério da Saúde, portanto, que trabalha com seriedade e reconhecimento público, com a mais alta credibilidade não deixa dúvida quanto `a extrema gravidade da situação. Pena que o governo federal não considere os alertas que ao longo de meses a FIOCRUZ e seus pesquisadores vem fazendo quanto `a gravidade desta pandemia.

Vejamos o que consta de seu último relatório sobre a situação caótica e crítica dos indicadores que permitem que o conteúdo deste relatório, de 15 de março de 2021, portanto há poucos dias, seja, de fato, um alerta nacional, principalmente `as autoridades Federais, estaduais e Municipais: “ Uma pandemia envolve uma doença infecciosa que afeta populações em muitos países, em diferentes regiões, ainda que de diferentes modos, como no caso da Covid-19. Se estes países não estão preparados para controlar a sua disseminação, seus efeitos podem resultar em uma grave interrupção do funcionamento de uma sociedade e exceder sua capacidade de resposta utilizando recursos próprios, de forma que uma pandemia pode ser compreendida como um desastre. Porém, quando a capacidade de resposta, como as ações desenvolvidas pelos serviços e sistemas de saúde, se apresenta em uma situação extremamente crítica ou mesmo em colapso, como se vê em quase todo país, sendo incapaz de atender às necessidades de todos os pacientes graves e levando os trabalhadores da saúde a situações de exaustão, estamos próximos ou diante de uma catástrofe.”

Seguem outros alertas quanto a situacao dos leitos de UTI no citado relatorio: “No momento atual são 24 estados e o Distrito Federal, entre as 27 unidades federativas, com taxas iguais ou superiores a 80%, sendo 15 com taxas iguais ou superiores a 90%. Em relação às capitais, 25 das 27 estão com taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos iguais oueriores a 80%, sendo 19 delas superiores a 90%. A situação é absolutamente crítica. Como nos boletins anteriores, chamamos à atenção para o fato de a situação da pandemia por Covid-19 ser gravíssima. Um conjunto de indicadores, incluindo as médias móveis de casos e de óbitos e as taxas de ocupação de leitos UTI Covid-19 para adultos, apontam para situação extremamente crítica ou mesmo colapso, em todo o país.”

Um outro aspecto não mencionado no relatório da FIOCRUZ, mas que esta umbilicalmente relacionado com a situação apontada é quanto `a super lotação dos leitos de UTI que são as filas da morte, ou seja, existem atualmente mais de 6 mil pessoas necessitando e aguardando um leito de UTI e inúmeras já morreram nessas filas e outras mais irão sucumbir nos próximos dias, semanas e meses. Para essas, como para as que ficaram e ainda vão ficar sem oxigênio em alguns hospitais, o direito `a vida, constitucionalmente amparado, não tem passado de letra morta.

O que todos se perguntam ou como se diz “a pergunta que não quer se calar” é como em apenas um ano um país que tanto se orgulho de seu potencial, de sua pujança econômica, principalmente ao se transformar em um dos tres maiores países produtores de commodities, principalmente alimentos, não ter sido capaz de controlar a covid 19, como aconteceu com alguns outros países como China, Vietnam, Nova Zelândia, Coreia do Sul, da Índia e outros mais, que conseguiram enfrentar, controlar esta terrivel pandemia, alguns desses paises chegaram até mesmo a experimentar crescimento economico em 2020.

Indo `a raiz desta tragédia, podemos encontrar o negacionismo do Presidente como a causa básica, a partir da qual todas as demais mazelas vieram a ocorrer e continuam presents neste drama que estamos vivendo.

De inicio o mesmo ridicularizou o coronavirus dizendo ser apenas uma “gripezinha”, depois, sem ser médico e contrariamente ao que toda comunidade científica do mundo e também no Brasil, médicos e suas entidades representativas, docentes e pesquisadores de diversas universidades públicas e privadas e centros de excelência no mundo como o CDC nos EUA e a própria FIOCRUZ e também a OMS que declarou a COVID-19 como uma PANDEMIA mundial em março de 2020, o nosso presidente sempre foi contra o uso de máscara, do distanciamento social, do isolamento social, de medidas que restrigem a circulação de pessoas, como formas de reduzir a circulação do virus.

O seu negacionismo é complementado pela propaganda quanto ao uso de cloriquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos que há muito tempo foram declarados pelas comunidades médicas, cientistas e a OMS, como sendo ineficazes na prevenção ou tratamento da covid-19. Este fato foi determinante na saida dos ex ministros Mandeta e Nelson Teich do Ministério da Saúde.

O próprio novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que irá substituir o atual ministro da saúde General Pazuello, através da Sociedade Brasileira de Cardiologia, da qual é presidente, ja se manifestou contra o uso da cloriquina e hidroxicloroquina para tratamento de prevenção e cura da coronavirus, argumentando que tal ação não tem respaldo científico, além de pessoalmente também ter defendido o uso massivo de mascaras, higienização, isolamento e distanciamento social, além de “lockdown” em localidades específicas. Talvez se persistir nessas idéias não deverá permanecer por muito tempo `a frente do Ministério, a menos que se molde totalmente `as determinações do presidente, que, para muitos é o único e verdadeiro ministro da saúde.

Outra forma de negacionismo  tem sido sua postura do Presidente em relação `a vacina, chegando em alguns casos a ridicularizar a mesma que seria (como acabou acontecendo) produzida pelo Instituto Butantan, em parceria com a China, ao dizer que não compraria a vacina da China, país sempre denegrido por seus filhos e por seus seguidores, por ser um um país comunista.

Como parte deste negacionismo chegou a dizer que ele jamais tomaria a vacina (mas sua genitora acabou tomando), insinuando numa forma jocoza que quem a tomasse poderia “virar jacaré”. Além disso, desautorizou publicamente o General Ministro da Saúde que em determinado momento anunciou aos governadores que iria comprar 46 milhões de dose da coronavac (a vacina do Butantan/China), obrigando o mesmo a voltar atraz e cancelar os entendimentos.

Na ocasião o Presidente esbravejou publicamente dizendo que ele é o presidente, que “quem manda sou e que por isso não abro mão de sua autoridade” , dizendo que  “ja mandei o Pazuello cancelar esta compra”. Todavia, meses depois o Governo Federal, com aval de Bolsonaro e do General Pazuello voltaram atraz desta decisao e “fecharam” a compra de 100 milhões de doses da vacina do Butantan/China.

Outro episódio que contribuiu para a falta de vacina no Brasil, provocando a demora e lentidão da campanha de imunização/vacinação, foi a forma negacionista em relação a uma oferta de compra de 70 milhões de doses feita pela Pfizer em Agosto de 2020.

Bolsonaro e Pazuello se apegaram a uma clausula contida no contrato onde fica estabelecido que aquela empresa farmacêutica não se responsabiliza por danos colaterais que, porventura, ocorram com pessoas que tomam a vacina.

Este lenga lenga, que acabou se mostrando apenas uma cortina de fumaça, foi deixado de lado e o Governo brasileiro irá comprar  alguns milhões de doses da Pfizer, cujo contrato é o mesmo anteriormente apresentado nas negociações e que foram aceitos por dezenas de paises, cujas campanhas de vacinação estão muito avançadas do que o Brasil. Vale ressaltar que o Brasil ocupa a 50a. posição no ranking dos países em termos de percentuais da população que já receberam a primeira e segunda dose, onde a vacina da Pfizer fez uma grande diferenca.

Podemos notar o negacionismo de Bolsonaro quando se referiu a quem usa máscara como maricas ou que a população deve deixar de frescura e parar de chorar, se lamenter,  esquecendo-se de que mais de 11,8 milhões de pessoas ja foram infectadas e mais de 287,8 mil pessoas já morreram. Pergunta-se: será quem nem chorar seus mortos e se lamenter de que pessoas estejam nas filas da morte, a espera de uma vaga de UTI, ou entubadas em hospitais seus familiars não tem o direito sequer de chorar, já que nem velorio podem ser feitos e nem se despedir de um ente querido que faleceu?

Deixando de lado o negacismo do Presidente , de diversas de seus auxiliaries diretos e milhões de seus seguidores que, na verdade acabam provocando aglomerações, sem uso de máscaras e facilitando a propagação do virus, podemos também identificar na origem do caos, catástrofe e colapso dos sistemas de saúde tanto a incompetência do Governo Federal em liderar as ações de prevenção e combate `a COVID 19, quanto `a falta de articulação entre os tres niveis de poder e de governos: federal, estaduais e municipais.

Tanto por parte do Governo Federal quanto dos Governos Estaduais e municipais o que se tem visto é uma verdadeira balburdia, uma politização politica-partidária, colocando sempre interesses menores, como as futuras eleições gerais de 2022, na frente dos principais desafios que estão direta ou indiretamente relacionados com o enfrentamento daCOVID-19.

Ao longo da pandemia a população tem acompanhado um confronto, um conflito aberto entre o Palácio do Planalto, o Ministério da Saúde e os governadores e também os mesmos conflitos entre governadores e prefeitos, principalmente das capitais e maiores cidades, onde estão os maiores colégios eleitorais.

Esta desarticulação tem acarretado sérios prejuizos financeiros e de gestão de recursos humanos e insumos, contribuindo para a presente tragédia, que podera se agravar se mudancas radicais e profundas na condução das ações governamentais não forem feitas com urgênca. Tanto isto é verdade que o Ministro da Saúde, General Pazuello está sendo investigando pelo STF por acusação de se omitir na crise sanitária/hospitalar de Manaus quando centenas de pacientes tiverem que ser transferidos para outros estados e dezenas  morreram por falta de oxigênio nos hospitais e no Congresso Nacional já foi aprovado uma CPI, ainda nao instalada, para investigar as ações do governo federal em relacao `a pandemia.

A evolução da pandemia, tanto em números de casos quanto de mortes teve um perfil que não foi acompanhado pelas ações governamentais correspondentes, ou seja, houve negligência, certo descaso e incompetência por parte de governantes e gestores publicos nas tres esferas de governo.

Diante de inúmeros alertas por parte de médicos e especialistas quanto aos riscos e desafios que a pandemia iria acarretar se medidas efetivas não fossem adotadas a tempo, como de fato aconteceu, ou seja, esta é uma tragédia anunciada e muitos alertas foram feitos, só faltaram mais ações efetivas e menos discursos, meias verdades ou inverdades, inclusive, falta de transparência quanto `as estatísticas e medidas que deveriam ser adotadas.

Uma das grandes falhas que podem ser mencionadas foi a falta de testagem em massa, como fizeram inúmeros paises, para que pudessem ser detectados todos os casos de pessoas contaminadas e, assim, poderem ser isoladas e tratadas adequadamente.

Diversas pesquisas, realizadas por  universidades,  centros médicos, prefeituras e governos estaduais demonstram e continuam demonstrando que o número real de pessoas infectadas representa duas ou tres vezes mais do que as estatísticas oficiais indicam (que só identificam as pessoas infectadas quando as mesmas buscam unidades de saúde). Isto significa que de fato existem no Brasil mais de 35 ou 40  milhões de pessoas infectadas ao longo desta pandemia e os niveis de contágio são muito maiores do que as informações governamentais passam para a população, daí este colapso que estamos assistindo.

Se, desde o inicio da pandemia, houvesse testagem em massa, campanha por parte do Ministério da Saúde para o uso massivo, inclusive com distribuição gratuita, de máscaras para a população e isolamento e distanciamento social articulado em todos os estados ao mesmo tempo e severa fiscalização por parte dos diferentes niveis de governo e uma maior compreensao por parte do empresariado, com certeza o panorama atual seria muito diferente e o país teria conseguido controlar a pandemia, como fizeram tantos outros paises e já teria retornado `a plenitude das atividades como aconteceu na China, Vietnan, Coréia do Sul e outros países, como já mencionado.

Vejamos como evoluiram os casos e mortes relacionados com a COVID 19 no Brasil.

O primeiro caso registrada de covid 19 foi em 26/02/2020 e só depois de 124 dias foi registrada o primeiro milhão de casos em 19/06/2020. Em menos de um mes depois, em 16/07/2020 atingimos 2 milhões; em 9 de Agosto chegamos a 3 milhões; em 02 de setembro 4 milhões; em 7 de outubro 5 milhões; em 20 de novembro 6 milhões; em 16 de dezembro 7 milhoes; em 8 de janeiro deste ano (2021) 8 milhões; em 28 janeiro 9 milhões; em 18 de fevereiro último 10 milhões; em 08 de marco (ha pouco mais de uma semana) 11 milhões e, nesta semana, em 17 marco de 2021 atingimos 11,7 milhões.

Mantida a tendência de aceleração observada nas duas últimas semanas dentro de poucos dias, entre este domingo ( 21 de março de 2021) e segunda feira próxima o Brasil estará registrando 12 milhões de pessoas infectadas e 296,2 mil mortes.

Convenhamos, nossos governantes tiverem bastante tempo para agirem de forma mais eficiente, efetiva e eficaz para debelar esta pandemia, se não o fizeram não foi por falta de alerta e das observações quanto a velocidade em que a covid se alastrava e continua se alastrando pelo país. Há quem  diga que tudo isto pode ser traduzido em poucas palavras: incompetência, negligência, omissão, descaso e insensibilidade em relação ao, drama, sofrimento e morte de tanta gente, cifras jamais vistas em nosso país ao longo de sua história.

Vejamos como tem ocorrido o registro/dados sobre mortes por covid-19 no Brasil.

A primeira morte foi registrada em 12/03/2020, há pouco mais de um ano. Quando da saida de Mandeta do Ministério da Saúde, em 16 de abril de 2020, o Brasil registrava apenas 30.891 casos de covid e 1.592 morte, praticamente um terço da media dos casos diários e metade das mortes registradas por dia atualmente.

O Ministro Nelson Teich, alcunhado de “o breve”, pois ficou menos de um mes no cargo por se recusar a seguir as recomendações do Presidente, principalmente quanto ao uso da hidroxicloroquina, que desde sempre tem contrariado a ciência. No dia de sua saida do ministério o Brasil já registrava 220.191 casos e 14.062 mortes.

Com Pazuello tanto durante seus poucos meses como ministro interino e depois como ministro efetivo , tanto os casos quanto as mortes evoluiram com extrema rapidez, apesar de que o mesmo sempre tentava minimizar a gravidade do quadro sanitário e hospitalar brasileiro.

Em 16 de setembro de 2020, quando da efetivação de Pazuello como titular do Ministério da Saúde, o Brasil registrava 4,4 milhões de casos e 134,2 mil mortes e, em 15 de março deste ano (2021) quando Bolsonaro, apesar dos constantes elogios quanto `a sua gestao `a frente da Pasta (razão pela qual ninguém entendeu a troca, ou seja, se Pazuello era tão eficiente, qual a razão da toca?), repetido no anúncio do final da gestão de Pazuello e a escolha do quarto ministro da saúde em apenas um ano de pandemia, o Brasil registrou mais um triste record de 11,5 milhões de casos e 279,6 mil mortes.

Hoje (18/03/2020) o Brasil registra 11,8 milhões de casos e 287,8 mil mortes, sendo que só nas últimas 24 horas ocorreram 87,2 mil casos e 2,7 mil mortes, indicando uma tendência de alta em ambos os indicadores, o que demonstra que ainda estamos longe de um controle efetivo da pandemia, o caos e colapso total dos sistemas público e privado de saúde

Apesar de que Bolsonaro ter dito certas frases que não foram bem recebidas pela população,   como as que disse em relacção ao elevado número de mortes: “E daí? Sou messias, mas não faco milagres”, agora, no auge desta tragédia nacional, que pode ainda ficar pior, pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, demonstra que o Presidente  Bolsonaro não tem sido bem avaliado pela população em relação `as suas posturas e ações no combate `a pandemia e que ele, Presidente, é o maior responsável pelo atual situação, mais do que os governadores e prefeitos, a quem também a população não avalia positivamente.

Vamos a alguns numeros desta pesquisa.

Em relação `a condução das ações de enfrentamento `a pandemia, 22% aprovam a forma como o Presidente tem atuado e 54% o reprovam. Quanto `as declarações do Presidente 18% dos entrevistados afirmam que sempre acreditam e 45% jamais acreditam; em relação `a capacidade de Bolsonaro liderar o país no combate `a pandemia, 42% afirmam que ele tem condições e 56% que ele não tem condições para desempenhar satisfatoriamente tal missão.

Uma visão temporal também demonstra uma certo desencanto e deterioração tanto na imagem quanto nas ações do Presidente, bem como quando comparadas com governadores e prefeitos.

Em março de 2020, em torno de 35% consideravam o desempenho do Presidente como ótimo e bom, enquanto 33% consideram ruim e péssimo. Já em março de 2021, ótimo e bom cairam para 22% e ruim e péssimo passou para 54%.

A pesquisa do Datafolha também indagou quem seria o maior responável pela escalada da pandemia no Brasil. Para 42% dos entrevistados é o Presidente da República; para 20% são os governadores e para 17% são os prefeitos.

Quando a questão “quem esté combatendo melhor a pandemia”, ou seja, tendo um melhor desempenho, os resultados seguem a mesma linha: Presidente 16%; Governadores 38% e Prefeitos 28%; ou seja, a imagem de Bolsonaro quanto `a eficácia, eficiência e efetividade de suas ações continua bem arranhada perante a população.

Uma quesito que também lança luz sobre a avaliação quanto ao desempenho dos governantes em relação ao enfrentamento `a pandemia do coronavirus, o panorama da situação é o seguinte.

Em março de 2020 em torno de 54% dos entrevistados avaliaram que os governadores estavam tendo um dessempenho otimo e bom e em marco de 2021 caiu para 34%.; e os que disseram ruim e péssimo passou de 16% para 35%, ou seja, também a avaliação negativa quanto ao desempenho dos governadores fica bem patente na pesquisa.

Um dado interessante é em relação ao desempenho do ministro da saúde. Em março de 2020, o então ministro mandetta foi avaliado positivamente, ou seja, ótimo e bom para 55% dos entrevistados e em marco de 2021, o ministro Pazuello foi avaliado positivamente por apenas 28%; e , inversamente, ruim e péssio (avaliacao negativa) março de 2020 Mandeta 12% e Pazuello em março de 2021 nada menos do que 39%.

Esses dados são importantes para que passamos refletir como a população está reagindo não apenas quanto a este caos, colapso e tragédia que está estrangulando todo o sistema de saúde (pública e privada) e o sofrimento daí advindo; mas também e principalmente, dando um recado, através dos resultados da pesquisa de que não está nada satisfeita com seus governantes quando se trata de politicas, estratégias e ações de enfrentamento `a pandemia do coronavirus.

Os mesmos sentimentos de angústia, frustração, sofrimento e também de indignação podem ser observados em relação `a campanha de vacinação, cuja morosidade e falta de uma coordenação mais eficiente por parte do ministério da saúde pode levar muitos meses ou até mais de um ano para que toda a população adulta, acima de 18 anos ou talvez, inclusive, adolescentes a partir de 15 anos, possam ser devidamente imunizados.

Enquanto isto podemos observar um verdadeiro pandemonio com ações e iniciativas por parte de governadores e prefeitos tentando suprir a lacuna da incapacidade do Ministério da Saúde em cumprir seu verdadeiro papel que seria adquirir e articular as ações como já eram feitas em outras campanhas de vacinação em que até mesmo o setor privado, como os planos de saúde podem participar deste esforço coletivo com excelentes resultados.

Diante desta balburdia, descontinuidade na direção do Ministério da Saúde, troca de equipes e a politização politica e partidária, quando todos os politicos tanto do Poder Executivo quanto Legislativo, nas duas esferas de poder (União e Estados), com  certeza vamos ter que conviver com mais mortes e pessoas sendo infectadas, podendo atingir mais de 500 mil ou 600 mil mortes e mais de 18 milhões de casos até o final do ano de 2021, caso a tendência recente se mantenha.

Segundo a Dra. Ludhmila Hajjar, que passou a ser chamada de ex futura ministra, “o cenário brasileiro é sombrio”, lamentavelmente. O Brasil e o povo brasileiro merecem governantes melhores, mais capazes, mais comprometidos com as aspirações do povo e que tenham mais solidariedade diante do sofrimento do povo, principalmente de dezenas de milhoes de excluidos que estão passando fome, sem condicoes de sobrevivência e morrendo e menos apegados aos seus projetos pessoais, partidários ou de grupos em busca do poder, das vantagens e privilégios que emanam de suas estruturas.

*JUACY DA SILVA, professor universitário, titular e aposentado UFMT, sociólgo, mestre em sociologia e colaborador de alguns veiculos de comunicação. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Twitter@profjuacy