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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Por Rosa Lúcia Rocha Ribeiro*

 

As homenagens aos profissionais da saúde em todo o mundo emocionam. É realmente um ato imenso de amor e solidariedade escolher uma profissão destinada a zelar pela vida de pessoas, especialmente em momentos como o que vivemos atualmente. 

 

O coronavírus (Covid-19) explicitou ao mundo a imprescindibilidade dos profissionais da saúde. Aliás, não só dos profissionais, mas do próprio acesso à saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma pedra rara e muito cara, da qual o Brasil jamais poderá abrir mão. O SUS é mais valioso do que qualquer economia, pois é capaz de assegurar muito mais do que a sobrevivência. O SUS é capaz de garantir a própria existência. 

 

Apesar de toda essa importância, a necessidade de cuidar de quem cuida não é novidade para nós. Com a pandemia, a discussão sobre as condições de trabalho na saúde pública tomam proporções inéditas, pois a falta de equipamentos de segurança coloca os profissionais diariamente num dilema de vida e morte. No entanto, há anos os trabalhadores denunciam que, devido à retirada de recursos do setor, à falta de equipamentos, materiais e insumos básicos, não raro expõem suas próprias vidas a risco. 

 

Mas por que o Estado diz que não tem recursos e, por isso, não pode comprar máscaras, luvas e todo o equipamento de segurança do trabalho? Porque, mesmo neste contexto de catástrofe, o governo prioriza o pagamento de juros de uma suposta dívida pública a bancos, em detrimento das vidas de milhares de pessoas.

 

Ano a ano, o Estado brasileiro gasta cerca de 50% dos recursos arrecadados por meio de impostos com juros bancários, enquanto pouco mais de 4% da outra parte arrecadada é destinada à saúde, e cerca de 3% a programas de assistência social - políticas que poderiam beneficiar trabalhadores de hospitais, postos de saúde, albergues e todos os serviços que também são importantes frente à pandemia. Concluímos, com isso, que a prioridade do governo brasileiro não tem sido a população, muito menos a vida daqueles que se arriscam para salvar outras vidas. Seu primeiro compromisso tem sido garantir lucros a banqueiros, uma postura genocida e criminosa contra o povo brasileiro.

 

E mais: quem são esses trabalhadores expostos a tantos riscos? São, sobretudo, mulheres! 

A força de trabalho da Saúde no Brasil é, em sua maioria, formada por mulheres, e tem aumentado ano a ano. Aproximadamente 70% de toda a força de trabalho em Saúde no Brasil é feminina1. Em alguns locais, como hospitais, há unidades em que a proporção de mulheres trabalhando ultrapassa 80%, 90%. 

 

E quem são elas? São Enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicas, psicólogas, fisioterapeutas, atendentes, assistentes sociais, educadoras, copeiras, trabalhadoras da limpeza e serviços gerais, agentes comunitárias de saúde. Geralmente, quanto maior o risco pela proximidade de contato com o adoentado, menor o salário. Nestas profissões também estão, em sua maioria, pessoas negras, sobretudo mulheres negras, o que só reafirma a postura elitista, machista e racista de nossa sociedade e, também, de nossos representantes, visivelmente interessados em dizimar os que trabalham para preservar os lucros de quem não trabalha.

 

Em meio ao caos, imaginem o que acontecerá se essas profissionais adoecerem em massa? Como conseguiremos superar essa pandemia se o Estado brasileiro, de forma irresponsável, coloca em risco as vidas dessas mulheres trabalhadoras?

 

Cabe a nós exigir que todas as condições para enfrentar essa pandemia, com segurança, sejam dadas imediatamente a todos os profissionais da saúde. Por ora, pelas suas vidas e de todos nós, chamamos a sociedade a abraçar fortemente a campanha “Cuidar de quem cuida”, junto a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind) e demais entidades que atuam em defesa dos trabalhadores.  

 

É preciso ter consciência do que os profissionais da saúde e o próprio SUS representam e defendê-los com todas as forças. Essa retribuição ainda será inferior ao que fazem por nós, arriscando suas vidas todos os dias.

 

Ao final dessa tormenta, a sociedade deverá mais do que palmas e homenagens. Nossa dívida será a defesa intransigente da saúde pública, dos serviços públicos, dos profissionais da saúde. Estaremos devendo a defesa de seus empregos, de salários dignos e das garantias de todas as condições de trabalho para o melhor atendimento à população. Teremos o compromisso irrevogável de exigir cada vez mais investimento no SUS e nos seus profissionais, agora e sempre.

 

Cuidar de quem cuida: é pela vida delas, pelas nossas vidas e de toda a sociedade.

 

*Rosa Lúcia Rocha Ribeiro é enfermeira e professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

 

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Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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               Em que pese o tom mais ponderado na fala de Bolsonaro, ontem (31/03), o que vimos no domingo (29) foi um presidente – isolado até por aliados – fazendo um “tour” por locais de Brasília e cidades satélites: audácia ou irresponsabilidade?

               A dúvida tem sentido por diversos motivos. Deles, destaco que, no dia anterior (28), o ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta, pedira à população que respeitasse o isolamento, dada a periculosidade do COVID-19; que, quando saísse, que fosse por motivos indispensáveis, e com os cuidados devidos. Pediu ainda que acreditássemos na ciência; subjetivamente, que duvidássemos de seu chefe.

               Pois bem. Logo após, medindo forças com Mandetta, Bolsonaro foi às ruas: caminhou e conversou com trabalhadores, muitos informais, dos quais, inocentemente, vieram pedidos semelhantes aos dos pequenos e médios empresários, promotores de recentes carreatas realizadas alhures.

               Detalhe: nas carreatas, os “ativistas engravatados”, que pediam aos trabalhadores o retorno às empresas, permaneceram dentro de seus carros, muitos deles blindados, inclusive contra a pobreza e a miséria dos empregados, cinicamente tratados como “colaboradores”. 

               Sobre esse panorama, numa conclusão da Folhapress (29/03), depois de uma tentativa de produzir discursos menos divisionistas, aquela “postura (desrespeitosa e isolada) de Bolsonaro diante do COVID-19 foi gerada pelo receio de perder apoio do setor empresarial e de trabalhadores autônomos, pilares de sustentação de seu mandato”.

               O receio apontado teria sido inflado por seus filhos. “Para convencer o presidente, foram mostradas a ele previsões do desemprego nos EUA diante da pandemia”.

               Isso posto, começo chamando atenção para o fato de Bolsonaro ter dito que fez o teste para COVID-19, e que o resultado fora negativo.

               Ótimo, mas alguém viu isso?

               Por ser Bolsonaro o presidente, ele não poderia ter apresentado o resultado à nação?

               Garantido o meu direito de duvidar, se não for verdade sua, no domingo passado, o presidente pode ter distribuído mais vírus do que afagos àquelas pessoas.

               A despeito de qualquer intensão, o “tour”, em si, afrontou o ministro Mandetta, que, na condição de médico, poderia ser mais enfático contra as “receitas” dadas pelo presidente Bolsonaro que, mesmo nesta condição, não tem autoridade para desrespeitar profissões, tampouco a Medicina. 

               Mas a propósito, até quando as próprias elites engolirão um presidente tão limitado? 

               Pergunto isso porque a elite empresarial já entendeu que articulações da equipe econômica do governo, liderada por Guedes, são para lhes favorecer, antes de tudo e de todos. As medidas que já estão sendo aprovadas pelo Congresso comprovam isso.

               De qualquer forma, aos incrédulos, serei didático: peço que prestem atenção em anúncios recentes de transnacionais e de megaempresas nacionais. Dentre os que já vi, cito o comercial em que OI, VIVO, CLARO e TIM se uniram em torno do discurso cada vez mais internacionalista, aliás enunciado até por Trump: ‘Stay at home and save lives’.

               Bondade empresarial?

               Não. As empresas só passaram a expor esse comportamento humanista após anúncios das medidas governamentais que, antes de outras vidas quaisquer, salvarão – com incalculáveis recursos públicos – as vidas das próprias empresas, mantendo intactos seus exorbitantes lucros; e isso em diversos países!

               Sendo assim, se Bolsonaro entendeu essa jogada, precisamos reflexionar mais sobre os porquês daquele seu rolezinho no meio do proletariado. 

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