Quinta, 21 Maio 2015 08:38

GOLPISTAS NAS UNIVERSIDADES

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Na condição de professor de literatura, tento mostrar a meus estudantes, a partir dos textos literários, a importância das leituras honestas que devemos fazer da própria vida. Por isso, antes das incursões no texto literário, é sempre importante investigar – e compreender – as condições de produção desse material artístico.

Dentre as condições de produção de uma obra, inteirar-se dos principais elementos contextuais do momento de sua concepção é indispensável. Fora disso, só resta a divagação mental pela divagação mental; e ademais, saber da força contextual presente em um texto literário só contribui para sua fruição.

Ex.: ter ciência do significado das explosões das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre duas cidades japonesas durante a II Guerra Mundial só aumenta a capacidade de enxergarmos a beleza poética de “A rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes sobre a tragédia mencionada. Descontextualizado, esse poema pode levar leitores distraídos a interpretações bizarras. 

Nesse sentido, até o momento, em apenas uma ocasião de minha carreira deparei-me com uma bizarrice de leitura exposta por um de meus acadêmicos: em um determinado poema, alguém viu em um vestido insinuante de uma mulher provocante uma batina sacerdotal.

Pronto. Cheguei onde queria: falar da bizarrice da leitura que um colega do meu local de trabalho (o Instituto de Linguagens/UFMT) fez publicar na Folha do Estado (de MT) no dia 14/05/2015, pretendendo ali tratar de “entulhos da ditadura”. Há muito eu não via uma distorção tão grosseira de leitura do real.

Contextualizando: o referido instituto realizou há algumas semanas uma consulta eleitoral com os três segmentos (professores, estudantes e técnicos) para a escolha de sua nova direção.

Assim como nos anteriores processos, democraticamente, a consulta em pauta respeitou o voto paritário entre os segmentos. Após concluído o processo de consulta (inscrições, campanha/debates, eleição e apuração dos votos), a Congregação do Instituto, para se adequar à lei 9.192/95, reuniu-se e compôs a lista tríplice e a enviou à reitoria. Na cabeça da lista, é óbvio, referendou-se o nome da candidata vencedora.

De sua parte, a colega derrotada resolveu virar a mesa e impugnar a escolha, refutando a paridade e apelando à proporcionalidade dos votos, o que poderia inverter o resultado.

Detalhe: essa colega e quaisquer outros poderiam ter questionado tudo durante as discussões e deliberações sobre o formato do processo de consulta. Ninguém o fez.

Mas pior do que as trapaças dos oportunistas nas universidades está o desconhecimento de seus seguidores.

Ao afirmar isso, volto ao artigo acima referido. Nele, o colega diz o contrário do que registra a história do país, afirmando que “...o processo de (nossa) consulta é podre, à revelia da lei e baseado em métodos golpistas. Remonta aos tempos da ditadura...”

Na verdade, é a lei 9.192/95 que é o resquício dos tempos ditatoriais, e não o processo de consulta, que mais de trinta federais, seguindo o modelo da UFMT, já realizam. Por isso, num primeiro momento, democraticamente, buscamos a legitimidade de nossas escolhas, inclusive dos nossos reitores, depois nos adequamos à legalidade.

Por que fazemos assim?

Porque nenhum governo civil foi capaz de se desfazer das abomináveis listas tríplices: essas, sim, resquícios de tempos ferozes.

Conclusão: um professor quando distorce a realidade faz um desserviço social; dificulta o crescimento humano de seus estudantes.

Isso, sim, é um tipo de golpe.

“Cai a tarde feito um viaduto/E um bêbado travando luto/Me lembrou Carlitos/A lua tal qual a dona do bordel/Pedia a cada estrela fria/Um brilho de aluguel/E nuvens, lá no mata borrão do céu/Chupava manchas torturadas, que sufoco/Louco, o bêbado com chapéu coco/Fazia reverencias mil/Pra noite do Brasil, meu Brasil/Que sonha com a volta do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete/Chora nossa pátria mãe gentil/Choram Marias e Clarices/Num solo do Brasil/Mas sei que uma dor assim pungente/ não há de ser inutilmente a esperança/ Dança na corda bamba de sombrinha/Em cada passo dessa linha/pode se machucar/Azar, a esperança equilibrista/Sabe que o show de todo artista/Tem que continuar.”.
Este poema de João Bosco e Aldir Blanc, “O Bêbado e o Equilibrista” remarca a fimbria de brasilidade, resistência, indignação, nas condições mais desfavoráveis. O grito de esperança, e uma melodia que expressa a vontade de mudança verdadeira.
Hoje fazem 51 anos do golpe civil-militar de 1964. Exílio, cassações, torturas, assassinatos, perseguição de todos que enfrentassem e lutassem pela redemocratização do país. Estou em Porto Alegre, como membro da Comissão da Verdade dos docentes das Universidades (ANDES-SN) e da Comissão Nacional da Verdade da Reforma Sanitária. Muitas representações densas e significativas, agora já com a rede da Comissão da Verdade das Universidades. Aqui, terra de João Goulart, derrubado e cassado como o foram Leonel Brizola, Celso Furtado, Miguel Arraes, Luis Carlos Prestes, Jânio Quadros e tantos outros. A junta militar assume, em 15 de abril, Castelo Branco formaliza a trajetória da institucionalização da violência. Tanques, baionetas, militarização do enfrentamento a tudo que se movia contra a ditadura. Aqui, correm longos depoimentos impressionantes e candentes, por instituições da maior integridade e relevância social. Saúdam a todos que lutaram contra o estado de exceção. É muito pesado e amplo o legado da ditadura em nosso país. Exemplo, o ovo da serpente no conduio das empreiteiras, o financiamento privado com recursos público, muitas são as mesmas hoje, em promiscuidade do setor público com o privado e uma imensidão de condições desviantes, como a concentração da mídia no Brasil. O legado da violência policial vem de lá. A violência ambiental e genocídio de populações indígenas, autóctones e de periferias. Segundo o ex-presidente Médici, tido como o mais sanguinário ditador do regime civil-militar, “índios são soldados natos, e a aldeia é um quartel”. Deste lá, tratados como população transitória, que deve acabar. É incrível a semelhança e coincidências com hoje. De lá vem as bases da corrupção, impunidade e violência urbana e rural. Os estrategistas da ditadura não tinham certeza que os governos de 2002 até agora surgissem para tocar seus projetos. Hoje, a corrupção está naturalizada. Médici, dizia que “o homem não foi feito para a democracia”. – quando proibiu falar sobre racismo, índios, esquadrão da morte e temas proibidos para o regime. Tenho vergonha da estátua do Médici na saída de Cuiabá para São Paulo, e no colégio na beira da Avenida MT. Temos que lutar pela punição dos que cometeram crimes durante a ditadura civil-militar. O caminho da verdade é muito longo. É preciso rever a lei de anistia. Passar rigorosamente a limpo o passado é promessa de presente e futuro.

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