Quinta, 09 Julho 2015 08:14

UM “OXI” A VIOLÊNCIAS SIMBÓLICAS

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Escrevi este artigo em clima do corajoso “oxi” (“não”, em grego) que o país-berço da democracia deu à zona do euro e ao próprio sistema, representado pelo FMI. O mundo capitalista está em pânico.

Ao contrário disso, enquanto novas denúncias de corrupção surgiam contra ministros do governo brasileiro, Dilma dizia um “sim” atrás do outro aos EUA de Barack. Na linhagem político-econômica das Parcerias Público Privadas, vários acordos foram firmados, inclusive para a educação.

Essa visita de Dilma me fez lembrar dos versos finais de “Quem dá mais” de Noel Rosa: “Quanto é que vai ganhar o leiloeiro// Que é também brasileiro// em três lotes vendeu o Brasil inteiro?

Mesmo diante de uma agenda política forte, falarei de algumas violências simbólicas que ocorreram recentemente em nosso país.

De tudo, destaco um adesivo contra a honra justamente de Dilma, as injúrias raciais contra a Maju do Jornal Nacional e as condenações à excelente crítica cultural que Zeca Camargo fez em torno do funeral e do tipo da “obra” de Cristiano Araújo.

O adesivo contra Dilma foi publicado no site da MercadoLivre. Trata-se de uma das mais grosseiras e ofensivas montagens que já vi. O rosto é da presidente. O corpo, possivelmente, é de uma mulher que poderia ter posado para alguma revista pornográfica.  

O adesivo foi produzido para ser colado na entrada do tanque de gasolina dos automóveis, de tal forma que aquele orifício fosse visto com uma vagina.

Para quem adquiriu o produto, ele serviria como uma forma de protesto contra o aumento do preço da gasolina. Injustificável.

De minha parte, sou crítico contumaz da política do governo Dilma/PT, acentuadamente ao que concerne à tal “Pátria educadora”. É raro eu considerar positivamente algum encaminhamento político de seu (des)governo. Linhas acima deste próprio artigo são provas disso.

Todavia, o decalque é repugnante. Ele depõe contra a própria noção de crítica.

Já os ataques que a nova apresentadora do tempo no JN sofreu no Facebook – por aproximadamente “cinquenta criminosos” – demonstram que ainda temos longo caminho cultural a percorrer no sentido de vencer as manifestações de injúrias raciais, ainda que sempre localizadas, como atesta, neste caso, a própria Globo.

Sobre essa questão, todos precisamos sonhar e lutar para a chegada urgente do dia em que nenhum brasileiro negro precise dizer que “Eu já lido com esta questão do preconceito desde que eu me entendo por gente”. Inaceitável.

Inaceitáveis também são as condenações públicas que o apresentador Zeca Camargo, também da Globo, tem recebido. Motivo: falou algumas verdades em torno do funeral e do tipo de música que Cristiano Araújo cantava.

Em suma, Camargo expôs, na Globo News, uma análise sobre nosso panorama cultural a partir da morte do cantor. Essencialmente, falou do exagero da cobertura da TV que acompanhou cada momento do velório e do enterro daquele jovem. 

Falou mais. Disse que não entendia a idolatria diante de "uma figura relativamente desconhecida"; que aquilo revelava a "pobreza da atual alma cultural brasileira".

Algum erro de análise?

Nenhum.

A prova do relativo desconhecimento do cantor foi dada por Fátima Bernardes e Marcela Monteiro, ambas da Globo. Elas confundiram Araújo com Ronaldo, jogador que também é Cristiano.

Confesso: também tive dificuldade semelhante. Ainda hoje troco Cristiano por Eduardo Araújo, nome de um cantor da jovem guarda, ainda vivo.

No tocante à "pobreza da atual alma cultural brasileira", pergunto: alguém ainda duvida disso?

Segunda, 06 Julho 2015 20:40

Coral Universitário – 35 anos

 

 

 

Benedito Pedro Dorileo 

Devíamos aliar a inteligência à criatividade para aprofundar o humanismo, pois, aquele tempo, mais do que o debate político, exigia doação e fervor. Não podia perecer a decisão do governo federal em instituir a Universidade Federal em Cuiabá, ainda no papel, para torná-la palpitante realidade – diante de fracassos de gestão em desperdiçar por incúria tantos programas advindos de Brasília. Enfrentando a empreitada, lembramos como âncora o escultor Augusto Rodin (França: 1840-1917), quando escreveu L’Art, em seu diálogo com Paul Gsell: ? ‘Hoje, a arte está ausente da vida cotidiana. Buscam a utilidade da vida moderna, esforçam-se para melhorar materialmente a existência, apenas’. Ao que Gsell rebateu: ‘Eu sei, mas desejo que este livro seja um protesto contra as ideias de hoje; que vossa voz desperte nossos contemporâneos para o amor à arte e à beleza’. Esta a inspiração: extirpar o marasmo e a bestealidade para produção do encanto do pensamento, robustecer os sentimentos para o serviço da implantação da Universidade, a pioneira. Precisávamos encontrar beleza até na cólera, como, na paisagem, a ave desfere o grito de guerra, para, desconhecendo a selvageria, identificar o belo.

Já se disse que Gabriel, o reitor da arrancada inaugural, tocava obra dia e noite, ensejando pensar que o trabalho só é bendito quando se realiza cantando. Dessa maneira, a vontade tinha dimensão acentuada no décimo ano da criação, em 1980. Urgia a cantante voz humana na desenvoltura dos esforços – dos laços que o amor arma brandamente (Camões). Foi que, na fremente colmeia, houve o alargar do voo em busca do banimento da descrença. – Felizes o povo, professores, técnicos e estudantes do Instituto de Ciências e Letras e da Faculdade Federal de Direito que acreditaram. Prevaleceu a premência do fazejamento pela angústia do tempo – fazer à toda brida.

A Orquestra Sinfônica Universitária iniciou os passos em 1974; muito cedo foram as suas raízes na banda sinfônica – resposta à desoladora baforada: ‘banda de música no interior é com prefeitura’. Com música erudita, em 1979, estava ela organizada, sob direção do maestro fundador, Konrad Wimmer, acolitado por Domingos Vieira de Assunção. Nenhuma ideologia ou escola literária exerceram influência, tampouco contribuíram, ainda que à distância na organização da OSU e do Coral Universitário. Foi arte pela arte.

Nasceu o Coral, em 29 de abril de 1980, visando à construção de um veículo de cultura musical do mais alto valor artístico, objetivando atuar como elemento de integração da universidade com a comunidade. Tanto Orquestra quanto Coral foram  organizados pelo vice-reitor, autor deste texto, mediante delegação de competência.

Tempo de inigualável inventividade, nas décadas de 1970 e 80, com editora, cineclube, núcleo de documentação e história regional, museus, biblioteca, audiovisual, departamento de artes, esportes e teatro. Sôfregas tarefas à procura de recomposição de energias na música e na revivescência das atividades culturais.

Buscamos almas solícitas, sob as virtuosidades de Peter Ens e Lydia Ens, o primeiro, o maestro fundador, admitidos como professores visitantes, dados os admiráveis currículos na arte musical e experiência vivenciada em Estados da Federação. Organizar um Núcleo Permanente foi ato ímpar com membros da comunidade universitária e da sociedade cuiabana. Para tanto, criamos o quadro de Colaborador de Ensino, convertido depois em Agente Didático. Privilegiada improvisação que deu certo. Como Agentes, tivemos figuras ilustres: Rubens de Mendonça, Pedro Rocha Jucá, Dunga Rodrigues e outros, além dos coralistas. Logo o Coral atinge 130 componentes, ganhando os estudantes partícipes incentivos de créditos nos estudos.

Em 5 de maio de 1980, Dia Nacional da Comunicação, houve apresentação inaugural em homenagem à memória do patrono, o cuiabano, marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, um nome universal (nasceu em Mimoso, Santo Antônio, distrito na época, em 1865, do município de Cuiabá). O repertório avantajava-se progressivamente, cantando à ‘capella’ ou com a OSU. Ouvia-se o Hino de Mato Grosso, obrigatoriamente nos eventos cívicos. Também: O Coro dos caçadores, de Antônio Carlos Gomes; Jesus, alegria dos homens, de J. Sebastian Bach; Saudade de Matão, de Raul Torres e Galati. Ou Aleluia, de George F. Händel. E mais. Chegou-se ao Laboratório Coral em 1981, integrando instituições de ensino e cultura. Decorridos, neste 2015, os 35 anos de existência, o Coral Universitário da UFMT tem o condão de harmonizar trabalho e engenho artístico, integrar a formação do ‘homo totus’e liderar o canto coral em Mato Grosso, que muito tem expandido. 

                                                                            Benedito Pedro Dorileo é  

Advogado e foi reitor da UFMT.

 

 

 

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