“Cai a tarde feito um viaduto/E um bêbado travando luto/Me lembrou Carlitos/A lua tal qual a dona do bordel/Pedia a cada estrela fria/Um brilho de aluguel/E nuvens, lá no mata borrão do céu/Chupava manchas torturadas, que sufoco/Louco, o bêbado com chapéu coco/Fazia reverencias mil/Pra noite do Brasil, meu Brasil/Que sonha com a volta do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete/Chora nossa pátria mãe gentil/Choram Marias e Clarices/Num solo do Brasil/Mas sei que uma dor assim pungente/ não há de ser inutilmente a esperança/ Dança na corda bamba de sombrinha/Em cada passo dessa linha/pode se machucar/Azar, a esperança equilibrista/Sabe que o show de todo artista/Tem que continuar.”.
Este poema de João Bosco e Aldir Blanc, “O Bêbado e o Equilibrista” remarca a fimbria de brasilidade, resistência, indignação, nas condições mais desfavoráveis. O grito de esperança, e uma melodia que expressa a vontade de mudança verdadeira.
Hoje fazem 51 anos do golpe civil-militar de 1964. Exílio, cassações, torturas, assassinatos, perseguição de todos que enfrentassem e lutassem pela redemocratização do país. Estou em Porto Alegre, como membro da Comissão da Verdade dos docentes das Universidades (ANDES-SN) e da Comissão Nacional da Verdade da Reforma Sanitária. Muitas representações densas e significativas, agora já com a rede da Comissão da Verdade das Universidades. Aqui, terra de João Goulart, derrubado e cassado como o foram Leonel Brizola, Celso Furtado, Miguel Arraes, Luis Carlos Prestes, Jânio Quadros e tantos outros. A junta militar assume, em 15 de abril, Castelo Branco formaliza a trajetória da institucionalização da violência. Tanques, baionetas, militarização do enfrentamento a tudo que se movia contra a ditadura. Aqui, correm longos depoimentos impressionantes e candentes, por instituições da maior integridade e relevância social. Saúdam a todos que lutaram contra o estado de exceção. É muito pesado e amplo o legado da ditadura em nosso país. Exemplo, o ovo da serpente no conduio das empreiteiras, o financiamento privado com recursos público, muitas são as mesmas hoje, em promiscuidade do setor público com o privado e uma imensidão de condições desviantes, como a concentração da mídia no Brasil. O legado da violência policial vem de lá. A violência ambiental e genocídio de populações indígenas, autóctones e de periferias. Segundo o ex-presidente Médici, tido como o mais sanguinário ditador do regime civil-militar, “índios são soldados natos, e a aldeia é um quartel”. Deste lá, tratados como população transitória, que deve acabar. É incrível a semelhança e coincidências com hoje. De lá vem as bases da corrupção, impunidade e violência urbana e rural. Os estrategistas da ditadura não tinham certeza que os governos de 2002 até agora surgissem para tocar seus projetos. Hoje, a corrupção está naturalizada. Médici, dizia que “o homem não foi feito para a democracia”. – quando proibiu falar sobre racismo, índios, esquadrão da morte e temas proibidos para o regime. Tenho vergonha da estátua do Médici na saída de Cuiabá para São Paulo, e no colégio na beira da Avenida MT. Temos que lutar pela punição dos que cometeram crimes durante a ditadura civil-militar. O caminho da verdade é muito longo. É preciso rever a lei de anistia. Passar rigorosamente a limpo o passado é promessa de presente e futuro.

Quinta, 14 Maio 2015 17:18

LIÇÕES DA PM/PR

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

O artigo de hoje é dedicado a quem têm dito que só contesto ações do governo petista, sempre perverso contra os trabalhadores; que tenho poupado de críticas os partidos de oposição.

Antes de tudo, um registro: não vejo oposição político-ideológica no quadro dos partidos brasileiros do momento. Com pontualidades expressadas pelo PSOL, os demais partidos com representação no Congresso Nacional são farinhas do mesmo saco; todos compactuam com o programa neoliberal.

Isso posto, vamos ao cerne: as lastimáveis lições que a PM do Paraná – sob tutela do governador Beto Richa/PSDB – expôs a todos no último dia 29 de abril.

Mas antes de comentar o significado pontual desse ocorrido, uma lembrança de âmbito geral: os governantes do PSDB, com exceções, também são famosos por não respeitarem a educação; logo, por desrespeitarem, de forma direta, os professores e os estudantes de nosso país, e de forma indireta, a sociedade em geral.

Exemplifico a afirmação, registrando que pelo menos mais três estados governados pelo PSDB estão vendo os professores em greve há mais de meses: Goiás e São Paulo. A truculência das PMs nesses locais, a mando dos governadores, também já nos é conhecida.

Todavia, nada superou, em termos de força policial, o que ocorreu no Paraná. As imagens chocaram nosso país, pois tudo aquilo parecia uma cena de guerra. Por si, elas já disseram bem mais do que qualquer conjunto de palavras ainda possa acrescentar.

Contudo, implicitamente, as imagens “ensinaram”, principalmente aos jovens, lições lastimáveis, se olharmos para a dinâmica do futuro. Dentre elas, que ser professor no Brasil é optar por mais uma profissão de altíssimo risco.

E esse ensinamento não é pouca coisa. Até o dia 29 de abril, o alto risco ficava por conta da violência urbana, liderada, principalmente, por ações de narcotraficantes nas imediações das escolas. É raro a semana que não vemos episódio de violência em alguma unidade escolar brasileira, colocando professores e estudantes sob condição de risco de morte.

Somando a isso e, agora, a truculência policial contra professores em legítimas greves, temos outras ações de violência, mas no campo do simbólico, contra a categoria docente. Do conjunto dessas outras ações, destaco a judicialização presente no cotidiano. Qualquer ação de um professor que venha desagradar um estudante ou a família de um estudante pode se transformar em um processo judicial.

Nesse sentido, ficou emblemático o apelo aos tribunais de um aluno que teve o celular tomado por seu professor.

Para aquele caso, e para a felicidade do colega e da própria educação nacional, o juiz de Direito Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª vara Cível e Criminal de Tobias Barreto/SE, julgou improcedente a ação do aluno.

De qualquer forma, em casos tais, a violência simbólica já estava concretizada, pois o desgaste emocional de um professor para enfrentar tribunais da justiça já se consolidara. No caso pontuado, houve apenas uma reparação de dano.

Enfim, para além do quadro da degradação salarial, do excesso de trabalho de todos os profissionais dessa categoria, da falta de condições materiais na maioria dos espaços da educação formal do país, da judiciliazação da relação professor-aluno, da violência urbana, soma-se agora questão da violência policial contra professores em greve.

Diante desse quadro, fica cada vez mais difícil convencer um jovem a optar por ser professor, uma profissão tão digna quanto indispensável. Fica mais difícil acreditar numa “pátria educadora”.

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