Em 2012, quando fui cursar 1 ano da graduação em Serviço Social na Universidad de Deusto, em Bilbao, Espanha. Tive o privilégio de cursar a disciplina de " Sociologia da Marginalização e da Exclusão Social " com o professor Alain Touraine. Inúmeras vezes o professor Touraine elucidou em suas aulas que o socialismo estava morto, havia sido superado pela sociedade pós - industrial, que já havia se tornado sociedade globalizada. O professor argumentava e defendia a tese de que hoje as lutas dos movimentos sociais já não se centra mais nas lutas de classes, tanto, que há desentendimento no interior dos movimentos sociais. O professor Alain Touraine é um sociólogo francês conhecido por sua obra dedicada à sociologia do trabalho e dos movimentos sociais. Tornou-se conhecido por ter sido o pai da expressão "sociedade pós-industrial". Seu trabalho é baseado na "sociologia de acção" e seu principal ponto de interesse tem sido o estudo dos movimentos sociais. Touraine acredita que a sociedade molda o seu futuro através de mecanismos estruturais e das suas próprias lutas sociais. Tem estudado e escrito acerca dos movimentos de trabalhadores em todo o mundo, particularmente na América Latina. Em seus escritos, Touraine aponta para as transformações pelas quais a sociedade moderna e industrial vem passando. Trava diálogos com os autores clássicos da sociologia como Durkheim e Marx - com este último, sobre as novas formas de conflitos sociais. Touraine faz parte de uma linha teórica denominada pós-moderna, ainda que critique a mesma em alguns pontos e de fato não assuma todas as teses dessa vertente, como algumas asserções a respeito do fim da história, fim dos conflitos e principalmente da inviabilidade da compreensão racional dos mecanismo sociais. Para Touraine, a sociedade pós-industrial, longe de acabar com os Em “A sociedade pós-industrial", afirma que a sociologia não é fruto da revolução industrial, mas somente se consolidou a partir da segunda metade do século XIX, quando a sociedade passa a ter um maior controle dos mecanismos econômicos surgidos com as revoluções industriais, os quais, no momento de seu surgimento, levaram às construções teóricas do início do século XIX que identificavam um desenvolvimento econômico intervindo na organização social. Com a retomada do controle social das mudanças econômicas é que, portanto, a sociologia pode se constituir numa ciência que não mais fetichizava o social, tal como o indivíduo da filosofia. Passa-se da identificação de uma natureza social para o reconhecimento da historicidade, ou seja, da ação social e da capacidade desta em direcionar o desenvolvimento do conjunto da sociedade. conflitos, generaliza-os. É sob estas premissas que Touraine fala da sociologia de uma sociedade pós-industrial. Com os primórdios do desenvolvimento industrial, a empresa capitalista e o proletariado eram de fato os elementos centrais na transformação social e política. Porém na sociedade pós-industrial, segundo o autor, esta centralidade da indústria - e, portanto, do fator econômico produtivo - se perde. Nesta nova sociedade, o conhecimento e a informação passam a constituir elementos chaves na produção. Os conflitos sociais, da mesma maneira, não se concentram mais no elemento econômico. Apesar dos conflitos de classe não desaparecerem (a indústria não desaparece), a relação trabalhador-patronato não detém mais a proeminência de outrora. Isto, principalmente, pelo fato destes conflitos de classes terem, de uma forma geral, se institucionalizado, abrindo espaço para outras reivindicações sociais, agora não mais econômicas, mas destacadamente culturais: surgem os movimentos feministas, de homossexuais, estudantil, etc. Os laços que unem estes novos movimentos são mais comunitários e localizados, apesar de uma abrangência socialmente ampla. Se permanecerem reivindicações localizadas e restritas não se constituem, segundo Touraine, em movimentos sociais propriamente ditos. Para tanto devem adquirir um destaque mais amplo e nacional. A direção para a qual devem caminhar tais movimentos são as instituições e, portanto, o âmbito das decisões políticas. A sociedade, segundo Touraine, deve lutar para democratizar o acesso aos mecanismos decisórios da política. Daí a importância que este autor dá ao tema da alienação - esta, pautada pela participação dependente, ou seja, a integração dos indivíduos no jogo dos aparelhos dominantes que visam impor um modelo de desenvolvimento econômico sob um aspecto impessoal, de forma a aparecer como única alternativa possível e no interesse de toda a sociedade. Os termos de que Touraine se utiliza para descrever esta alienação são a integração, a manipulação e a sedução. 
 
Dirceu Grasel

Quinta, 21 Maio 2015 08:38

GOLPISTAS NAS UNIVERSIDADES

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Na condição de professor de literatura, tento mostrar a meus estudantes, a partir dos textos literários, a importância das leituras honestas que devemos fazer da própria vida. Por isso, antes das incursões no texto literário, é sempre importante investigar – e compreender – as condições de produção desse material artístico.

Dentre as condições de produção de uma obra, inteirar-se dos principais elementos contextuais do momento de sua concepção é indispensável. Fora disso, só resta a divagação mental pela divagação mental; e ademais, saber da força contextual presente em um texto literário só contribui para sua fruição.

Ex.: ter ciência do significado das explosões das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre duas cidades japonesas durante a II Guerra Mundial só aumenta a capacidade de enxergarmos a beleza poética de “A rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes sobre a tragédia mencionada. Descontextualizado, esse poema pode levar leitores distraídos a interpretações bizarras. 

Nesse sentido, até o momento, em apenas uma ocasião de minha carreira deparei-me com uma bizarrice de leitura exposta por um de meus acadêmicos: em um determinado poema, alguém viu em um vestido insinuante de uma mulher provocante uma batina sacerdotal.

Pronto. Cheguei onde queria: falar da bizarrice da leitura que um colega do meu local de trabalho (o Instituto de Linguagens/UFMT) fez publicar na Folha do Estado (de MT) no dia 14/05/2015, pretendendo ali tratar de “entulhos da ditadura”. Há muito eu não via uma distorção tão grosseira de leitura do real.

Contextualizando: o referido instituto realizou há algumas semanas uma consulta eleitoral com os três segmentos (professores, estudantes e técnicos) para a escolha de sua nova direção.

Assim como nos anteriores processos, democraticamente, a consulta em pauta respeitou o voto paritário entre os segmentos. Após concluído o processo de consulta (inscrições, campanha/debates, eleição e apuração dos votos), a Congregação do Instituto, para se adequar à lei 9.192/95, reuniu-se e compôs a lista tríplice e a enviou à reitoria. Na cabeça da lista, é óbvio, referendou-se o nome da candidata vencedora.

De sua parte, a colega derrotada resolveu virar a mesa e impugnar a escolha, refutando a paridade e apelando à proporcionalidade dos votos, o que poderia inverter o resultado.

Detalhe: essa colega e quaisquer outros poderiam ter questionado tudo durante as discussões e deliberações sobre o formato do processo de consulta. Ninguém o fez.

Mas pior do que as trapaças dos oportunistas nas universidades está o desconhecimento de seus seguidores.

Ao afirmar isso, volto ao artigo acima referido. Nele, o colega diz o contrário do que registra a história do país, afirmando que “...o processo de (nossa) consulta é podre, à revelia da lei e baseado em métodos golpistas. Remonta aos tempos da ditadura...”

Na verdade, é a lei 9.192/95 que é o resquício dos tempos ditatoriais, e não o processo de consulta, que mais de trinta federais, seguindo o modelo da UFMT, já realizam. Por isso, num primeiro momento, democraticamente, buscamos a legitimidade de nossas escolhas, inclusive dos nossos reitores, depois nos adequamos à legalidade.

Por que fazemos assim?

Porque nenhum governo civil foi capaz de se desfazer das abomináveis listas tríplices: essas, sim, resquícios de tempos ferozes.

Conclusão: um professor quando distorce a realidade faz um desserviço social; dificulta o crescimento humano de seus estudantes.

Isso, sim, é um tipo de golpe.

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