Segunda, 05 Outubro 2015 15:48

Crise migratória

Cruel imaginar que, enquanto a União Europeia discute se são “imigrantes” ou “refugiados” os milhares de indivíduos que tentam abandonar seus países devido às guerras, a pobreza, repressão religiosa ou política, entre outros motivos, morram sem que ninguém se comova.

Os últimos acordos datam de 1970, quando a Europa fechou as suas portas para os expatriados, salvo em condições especiais – se eles fossem importantes para os países que os recebessem.
De lá para cá, o mundo se tornou mais violento e mais pobre.  Alguns países da África e do Oriente Médio foram se tornando inviáveis para as suas populações.
O que nos apavora é que o resto do mundo, mergulhado nas suas perspectivas capitalistas desumanas, não se sensibiliza, aparentemente, com esse verdadeiro genocídio.
As perdas de vidas são diárias nessa fuga desesperada. Famílias inteiras desafiam a morte através de caminhos marítimos ou terrestres.
A rota preferida por essas pessoas é: chegar à Itália ou à Grécia por meio de embarcações precárias, atingir, por via terrestre a Macedônia, daí para a fronteira com a Sérvia e, finalmente, para a Hungria, país que seria a porta de entrada final para a Alemanha e para os outros países ricos da Europa.
A Macedônia já se declarou em estado de emergência. A Hungria vem construindo uma imensa cerca de arame farpado para impedir a entrada desses imigrantes.
Acontece que as fronteiras de todos esses países já se transformaram em imensos campos de refugiados, com todos os problemas que isso acarreta para as suas devidas organizações.
A Organização Internacional para Migração (OIMpublicou um relatório mostrando que mais de 4.000 pessoas morreram em 2014 tentando migrar para outros países.
Em 2015 quase 1.000 pessoas já morreram em busca de uma vida melhor – segundo dados do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados)
A mais recente e chocante foi a morte de uma família síria em sua tentativa de fuga desesperada para o Canadá.
A imagem do corpo do menino sírio, de apenas três anos de idade, encontrado em uma praia da Turquia parece que, finalmente, acordou o mundo para este sério problema. Ele morreu juntamente com seu irmão de cinco anos e sua mãe. O pai foi o único sobrevivente dessa desgraça.
O Jornal britânico The Independent estampou em sua página: “Se essa imagem extraordinariamente poderosa de uma criança síria morta em uma praia não mudar a atitude da Europa com os refugiados, o que irá?”.
O jornal português também publicou a imagem chocante e justificou: “Vamos de forma paternalista proteger o leitor de quê? De ver uma criança morta à borda da água, com a cara na areia? Não sabemos se esta fotografia vai mudar mentalidades e ajudar a encontrar soluções. Mas hoje, no momento de decidir, acreditamos que sim”.
Eu também quero acreditar que sim. Quero crer que aquela imagem brutal e bestial do resgate do menino sírio Aylan Kurdi seja o início de tentativas sérias para se resolver esse grande problema.
Aquela imagem que chocou o mundo, já se tonou o símbolo da terrível crise migratória que hoje presenciamos.

Gabriel Novis Neves
20/09/2015

Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT
 
Na semana que passou, publiquei neste “Espaço Aberto” o artigo “Tensões de Greve”. Nele, falei das dificuldades e obviamente das tensões que as greves – como esta pela qual estamos passando nas federais – trazem a todos, mas principalmente aos que não se furtam de ajudar a construí-las e conduzi-las cotidianamente.
Em nosso caso específico, falei das dificuldades e tensões enfrentadas pelos docentes que estão no Comando Local de Greve (CLG), destacando as que temos com o governo federal – infelizmente, o “patrão nosso de cada dia” – e as dificuldades e tensões que temos com alguns colegas que insistem em não compreender que, “sem as greves, as universidades públicas, p. ex., já nem existiriam como tais”.
 Vejam só! Nesse cenário de dificuldades e tensões, escrevi aquele artigo por conta da indignação que senti diante de uma intervenção de um colega do ICHS que, sem pejo, disse que não estava na assembleia da ADUFMAT para falar do governo federal, nem do PT e nem de política; que queria discutir apenas a greve, propondo seu final, inclusive. Essa “pérola”, recheada de ódio à classe trabalhadora e mais diretamente aos colegas do CLG, está filmada para a posteridade!
Perplexo, eu me indagava: como seria possível falar de uma greve das federais, abstraindo o governo federal e o agrupamento político-partidário desse governo? Como abstrair a política em si desse debate?
IM-POS-SÍ-VEL. Simples assim.  
Logo, escrevi meu artigo por achar aquele discurso irremediavelmente trágico, ainda mais sabendo que aquilo vinha da mente de um professor doutor de disciplinas que estudam a vida humana em sociedades, nestas incluídas, necessariamente, as tensões provocadas pelas lutas de classe. Disse e repito que sentia pena de um aluno desse tipo de colega.
Na verdade, eu mal podia acreditar que tinha ouvido aquele discurso tão lunático de um professor. Em sã consciência, nem o mais desavisado dos humanos diria tamanha sandice. Disse ainda, confirmando agora, o quanto aquele discurso era academicamente constrangedor; e por conta daquele constrangimento acadêmico, o colega – de mente tão colonizada quanto mercantilizada – não era sequer digno de estar atuando em uma universidade pública.
Pois bem. Aquele era o alvo de minhas contundentes considerações, mas eis que um outro colega, agora do IE, surgiu tomando as mesmas dores para si e para outros membros de seu agrupamento político. Fazer o quê?
Confesso que estranhei as dores sentidas e absorvidas pelo colega do IE, afinal, em algumas das Assembleias Gerais (AG) de greve, eu já havia declarado meu respeito por aquele colega que, mesmo quase solitariamente, expõe com vigor e organização seu pensamento, via de regra, contrário a tudo que penso e pratico.
Aliás, em seu caso, antes ficasse mesmo só na exposição do que escreve, assina e distribui aos presentes nas AG da ADUFMAT, pois quando alguém de seu grupo se prontifica a ajudá-lo no discurso é fiasco anunciado, tamanho o vazio de conteúdo político que invariavelmente é exposto. Um aviso: um pouco de boa leitura política não faz mal a ninguém; ao contrário, até nos ajuda a compreender nossa ati(vida)de acadêmica dentro da sociedade. Desse vazio político, só têm restado, às vozes pós-modernas que se apresentam nas AG, os discursinhos mais débeis acerca das individualidades (de docentes e discentes), em detrimento de uma visão coletiva. É lastimável quando a linha mais distante do horizonte é a ponta do nariz de alguns colegas.
Mas as dores tomadas pelo colega do IE em nome do colega do ICHS vieram em forma de artigo, também publicado neste “Espaço Aberto” (28/09); e embora o colega do IE terminasse seu texto dizendo estar “de alma e coração abertos ao debate político de alto nível”, fez exatamente o contrário ao longo do artigo, a começar pelo título de suas reflexões: “Intolerância e dogmatismo: ‘as doenças infantis’ do sindicalismo sectário”.
Assim, em que pese tentasse se mostrar acenando uma bandeira branca aos poucos, mas incansáveis professores que compõe o CLG, esse título – à lá Lenin dos pântanos – é ofensivo, pois seu objetivo maior é “...questionar a forma como vem sendo comandada (pelo CLG) a continuidade...” de nossa greve, bem como as “...greves do setor público em geral”.
E por que o título, e consequentemente o texto como um todo, é ofensivo ao CLG?
Simples: pelos adjetivos e expressões adjetivadas escondidos na aba dos substantivos e expressões substantivadas ali presentes.
Isso tudo junto e misturado naquele título surge por conta do inconformismo do colega do IE de se aceitar circunstancialmente derrotado, não pelo CLG, mas por sucessivas e soberanas AG da ADUFMAT; aliás, isso ocorre desde a AG que deflagrou a greve. Já faz tempo! O CLG, por si, não consegue formar sequer um time de futebol completo; no máximo, forma um time de vôlei, mas sem os reservas!
Diante disso, convido você, caro professor que ora me lê, a pensar comigo: quem é mesmo o intolerante, o dogmático, o sectário da história?
Começo dizendo que, embora fosse direito legítimo de todos, até onde sei, no CLG, há apenas um membro ainda filiado ao PT, mas não há nenhum docente entre nós, e nem mesmo esse professor possivelmente filiado ao PT, compartilhando as imposições políticas do governo federal à sociedade, com ênfase às universidades federais. 
O mesmo não se pode dizer do colega professor do IE. E sua apaixonada vinculação partidária – portanto, longe de qualquer “razão” que infantilmente pressupõe ter – o transforma em peça local desse jogo político; por isso, imerso em tergiversações discursivas, tem obsessivamente feito, nas AG da ADFUMAT, o papel de facilitar a vida do governo federal, que não tem o menor respeito pela sociedade, e tampouco pelas universidades públicas brasileiras. Prova irrefutável do que estou dizendo foi o anúncio do Pacote de Ajuste Fiscal, feito em rede nacional de TV no dia 14/09/2015.
O referido anúncio, até onde se sabe na história brasileira, foi a maior declaração de amor e compromisso de um governo para as elites econômicas, com destaque ao segmento dos banqueiros. Quem tiver alguma dúvida, leia o documento que economistas, como Márcio Pochmann, da Fundação Perseu Abramo, um “braço” do próprio PT, lançaram no último dia 28/09. Os economistas petistas condenam o pacotaço do seu próprio governo, apontando outras saídas, das quais muitas delas o CLG está a dizer desde sempre. Portanto, sem meias palavras, espero que nenhum professor sectário, daqueles que querem facilitar a vida do governo petista, saiam algum dia vitoriosos em AG da ADUFAMT.
Nossa história político-sindical tem sido forte o suficiente para mostrar, com honestidade – e a aí, sim, sem tergiversações – a todos os colegas verdadeiramente “de alma e coração abertos ao debate político de alto nível” que nunca fomos reféns de governo algum, muito menos do governo da vez. Nossa autonomia político-sindical é nítida. Não temos amarradas e paixões partidárias. Os cabrestos de certos partidos nunca couberam em nossas faces. O sectarismo e o enquadramento políticos passam a milhas de nossas mentes. A credibilidade que temos dentro de nossa Instituição e, consequentemente, em nossas AG vem desta postura franca e segura. 
No mais, a “doença infantil” de que trata Lenin em seu ensaio “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, publicado em 1920, e referenciado no título do artigo assinado pelo colega do IE, nada diz a nenhum dos componentes do CLG, embora a isso se prontificasse aquela citação.
E por que as “doenças infantis”, expressas por Lenin e resgatadas pelo colega do IE, não nos contagiam?
Porque nunca nos recusamos ao diálogo com quem quer que fosse, muito menos com o governo. Sabemos que o jogo político só é resolvido pelo diálogo, pelos acordos, pelos compromissos, mas assinados, obviamente. Se não conversamos mais é porque o governo federal se recusa sistematicamente a esses encontros. A maior prova disso, neste momento, é que professores do Comando Nacional de Greve do ANDES-SN tiveram de ocupar, no último dia 24/09, a sala do ministro da Educação para poder garantir pelo menos uma reunião com o ministro do MEC. Até agora, quando o governo federal – por meio de secretários dos secretários dos ministros do MEC e MPOG – aceitou participar de alguma reunião conosco, essas participações foram marcadas pelo viés autoritário, pois o governo sempre chegou com propostas prontas e indiscutíveis. O governo petista parece sentir honra desse comportamento desonesto.
Portanto, somos todos pelos acordos e pelos compromissos, mas não por acordos e compromissos que rebaixem ou congelem nossas reposições salariais por um ano e ainda detonam com nossas condições de trabalho. Isso não é acordo. Não é compromisso. Isso é trapaça. E como não somos infantis, agora na perspectiva semântica mais singela do termo, não podemos aceitar nada disso. E porque não podemos aceitar, continuamos em greve, como indicou mais uma vez a AG do dia 01 de outubro.
Mas até quando vai essa greve?
Se depender da força e da disposição políticas dos poucos membros do CLG, faremos de tudo para ir até onde for possível, conversando e convencendo os colegas que estiverem presentes nas AGs. Afinal, desde o início, dizíamos que esta era uma GREVE DE RESISTÊNCIA. Estamos bravamente resistindo, e sem nenhum receio de ser derrotados; afinal, pior do que ser derrotado é não lutar e ser humilhado pelo governo federal, capitaneado pelo PT e outros da mesma linhagem.
Sejamos fortes. Sejamos resistentes. É o que nos resta. É o que pede o momento. Já que a Pátria não é mesmo educadora, que sejamos nós seus educadores verdadeiramente responsáveis pela manutenção da Universidade pública, laica, gratuita e socialmente referenciada.

Saudações
Roberto Boaventura da Silva Sá
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