Sexta, 02 Outubro 2015 16:03

Mentiras com pernas curtas III

Aqui em Mato Grosso, após a queda do império de contravenção João Arcanjo, sem que fossem investigadas as relações com autoridades, o grupo mais recente que saqueou os cofres do Estado está com as máscaras caindo. Imagine se Arcanjo conta o que sabe. Temos uma história de verdadeiras gangues que saquearam o Estado e ainda passam por “gente de bem”. Até que enfim, saiu a decisão do STF contrário ao financiamento privado de campanha. A maioria do Congresso quer manter a qualquer custo seus privilégios para facilitar a compra histórica de mandatos. Esse é um retrato geral do Congresso, dos legislativos, manter a chave de permanência da corrupção. Após eleitos, compromisso com o povo é “para boi dormir”. Maioria dos mandatos, a representação dos interesses coletivos é uma farsa. Quanto a luta entre Congresso e STF, especialmente a Câmara Federal, parlamentares não terão vergonha em forçar um retrocesso, tentando medidas para manter o “status quo”. A decisão do STF ocorreu praticamente em prazo final, após enfrentamento dos pedidos de vistas para retardar ou atrapalhar a decisão, que teria que ser tomada até 2 de outubro, um ano antes da próxima eleição. A OAB agilizou uma ADIN pela inconstitucionalidade do financiamento privado de campanha em 2011. O processo só foi retomado em 2014. Para muitos, o Projeto de Lei seria uma deliberação infraconstitucional. Só a aprovação de uma PEC poderia superar a decisão do STF. É isso que a maioria do Congresso quer fazer. No entanto, o Presidente do STF deu como encerrada a polêmica da constitucionalidade ou não, afirmando ter validade a inconstitucionalidade para os partidos a partir de agora, e para as eleições de 2016 em diante. O Ministro Gilmar Mendes, a favor do financiamento privado de campanha, entende que ainda é necessário o STF definir a partir de quando entrará em vigor a decisão do STF contra o financiamento privado de campanha. O PT, que nutriu-se de financiamento privado de campanha com dinheiro público (petrolão) após assumir o poder, está mergulhado em franco desgaste e descrédito. A ponto de formarem recente uma comissão nacional para assessorar o partido, que há muito não conta com militantes e cabos eleitorais espontâneos. Exemplo: no apoio a Dilma e Lula na 5ª “Marcha das Margaridas” em Brasília, lotando o Estádio Mané Garrincha, com 40 mil mulheres lutadoras dos mais longínquos rincões do Brasil, foram repassados recursos no valor de 900 mil doados pelo BNDES, Itaipu e CEF. O Congresso Nacional do MST em 2014 teve patrocínio da Petrobras (650.000), BNDES (450.000), e CEF (200.000). Com a justiça nos calcanhares, isso será bastante dificultado. A coalizão de partidos baseou-se no aparelhamento da máquina pública em todos os níveis de governo, até as Estatais e Fundos de Pensão. Fome incontrolável de arrecadação e gastos em contas falseadas. Toma lá dá cá, garantia de impunidade, qualquer menção a desvios virou demonização e golpismo dos “inimigos da democracia”.  Como no caso do financiamento da campanha da Presidente em 2014. O Ministro do TSE foi advogado de campanha da Presidente, não declarou-se impedido neste processo. Independente de ser ou não favorável ao Impeachment, é previsto na Constituição Federal. Assim caiu Collor, com o PT ocupando as ruas, como também no fora FHC. Nada de golpismo, quando acuados invertem a concepção democrática. Os argumentos do Procurador Geral da República ao TCU sobre as “pedaladas fiscais”, são ridículos. Não é novidade que tenham festejado o orçamento de 2016 por não ter maquiagem! Da cultura da mandioca à “mulher sapiens”, ao “cachorro oculto em cada criança”, ao ser “surpreendida” pela crise anunciadíssima, apela acusando golpes dos inimigos de sempre. O mentor Lula e a pupila Presidente caminham entre a ingenuidade e a perversão do maquiavelismo? Enquanto isso, João Vaccari e Renato Duque, próceres do PT, pegaram agora 15 e 28 anos de prisão.  Acuados, Lula e Dilma ainda acreditam que mentiras repetidas insistentemente viram verdades. Minha mãe, minha avó, diriam: “falta uma réstia de honestidade no trato com o povo”! 

Waldir Bertulio

Quarta, 30 Setembro 2015 13:07

A tão temida greve dos ”120 dias”

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo, nem direito sem justiça
Nem juízes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências.

Mauro Iasi 

Não é “conversa de corredor”: um conjunto de universidades públicas federais completou 120 dias em greve essa semana no país. Movimento, resultado de um processo democrático de consulta às bases, mediante assembleias realizadas em todas as sessões sindicais. Porque parece, na maioria das vezes, pelos “comentários de corredores”, que essa greve está literalmente comandada por meia dúzia de professores e professoras que não têm vocação para sacerdócio e que não sabem fazer pesquisa, por isso, fazem greve; e que só acontece na UFMT! Creio que a grande maioria precisa acreditar nisso para justificar sua omissão ou convicção em não fazer greve.

Aproveito a ocasião para registrar aqui alguns sentimentos e minhas convicções em participar de movimentos grevistas há quase 30 anos nesta universidade. Espero que não pareça discurso piegas ou arrogante, mas sinto necessidade de mais uma vez registrá-las, ainda que já tenha feito por diversas vezes em plenárias.

A mais importante, penso, trago da minha formação política: é a clareza que vivemos numa sociedade de contradições, de luta de classes e de que pertenço à classe trabalhadora. Isso eu aprendi ainda com o Partido dos Trabalhadores, quando defendia um projeto classista “rumo ao socialismo” ou o chamado Projeto Democrático e Popular, tantas vezes alardeado pelos timoneiros da razão instrumental.  Se o PT me ensinou isso errado, problema dele que para mim perdeu a legitimidade enquanto partido de esquerda.

O professor Mauro Iasi avalia que o governo do PT tem aberto mão até mesmo de uma alternativa democrática e popular que com todas as suas limitações, poderia tensionar a ordem capitalista, aprofundando as lutas de classes e criando as condições para uma ruptura revolucionária. Contraditoriamente, a alternativa adotada desarma a classe, desmobilizando as suas organizações e fortalecendo a burguesia. É o controle e o apassivamento da classe trabalhadora; partido que se metamorfoseou de democracia de massas para democracia de cooptação. Eis sua tese. Eis o PT. (Iasi, 2006).

Para não ficar apenas no argumento de um professor comunista que, portanto, gosta de fazer greve, vou lançar mão da referencia inquestionável de um dos mais importantes ideólogos do PT, o professor Carlos Nelson Coutinho. Afirma ele: “Infelizmente, fui depois obrigado a constatar que o governo Lula, iniciado em 2003, longe de representar uma tal alternativa (refere-se à democracia de massas), tornou-se uma nova e radicalizada expressão do neoliberalismo; e o PT, em vez de se afirmar como o principal instrumento desta nova hegemonia, abandonou inteiramente seu velho programa e deixou-se envolver pelos piores vícios da politica brasileira”. É do conhecimento de grande parte dos intelectuais a defesa do professor Carlos Nelson da tão propalada democracia como valor universal e isso pressupunha para ele a presença de um sindicalismo forte e combativo. (Coutinho, 2006, p.53-54).

Tenho outra convicção que trago da minha formação acadêmica como assistente social e professora de Serviço Social (com mestrado e doutorado na área), cujo projeto ético-político é claramente comprometido com outra sociabilidade que imprima uma nova direção social anticapitalista: “esse projeto tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor ético central – a liberdade concebida historicamente, como possibilidade de escolher entre alternativas concretas; daí um compromisso com a autonomia, a emancipação dos indivíduos sociais. Consequentemente, o projeto profissional vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem dominação e/ou exploração de classe, etnia e gênero” (NETTO, 1999). Nesse projeto eu tenho construído as minhas bases profissionais e políticas.

Também faço greve porque minha trajetória na UFMT foi de muita luta e conquista. Para entrar aqui tive que passar em 1º lugar, ou seja, me submeter a várias provas. Mas as conquistas se somam: uma carreira de 30 anos com mestrado e doutorado públicos, meus livros, meus (três) filhos/as formados nesta instituição. Sem contar no plano afetivo, os/as companheiros/as e companheiros de departamentos que convivi e a legião de alunos e alunas que estudam meu livro por esse país, quiçá no continente.

Quero dizer ainda que não faço greve por aumento salarial exclusivamente, pois 5% não muda o poder de compra do meu salário. Disse em assembleia: “entrei pobre e saio pobre da universidade”.

Retomando as “conversa de corredores”, soube de comentário provavelmente capitaneado por alguém sem leitura sociológica ou análise de conjuntura, dizendo que eu estava passando “atestado de pobreza”. Ora, nós professores/as que vivemos somente dos proventos da universidade, não ganhamos o que merecemos; nós formamos cotidianamente um conjunto de profissionais de todas as áreas do conhecimento desse país, produzimos pesquisa, realizamos projetos de extensão e sequer temos o reconhecimento de um delegado de polícia, porque esse provavelmente é mais funcional ao Estado penal.

Para quem não conhece os principais eixos de nossa luta são: defesa do caráter público da universidade, condições de trabalho, garantia de autonomia, reestruturação da carreira e valorização salarial de ativos e aposentados. Lutamos, sim, principalmente, pelo que resta de uma instituição pública que vem sendo sucateada desde a ditadura militar, para que possa servir a várias gerações de homens e mulheres que necessitarão de uma universidade pública, gratuita, com qualidade e socialmente referenciada.

Retomando o projeto da minha profissão faço uma analogia dizendo que, como é um projeto e não uma religião, nem todos/as os/as assistentes sociais necessariamente farão sua defesa ou pautarão seus valores teórico-prático e ético-político pelo mesmo. Justo por preconizar princípios como autonomia e liberdade de escolha entre alternativas concretas dirão alguns: escolhi não fazer greve. O que me assusta é quando grande número tem essa convicção. Mas, eu disse muitas vezes, também em plenária, que já passei da idade de fazer cobrança: cada um com suas convicções. Da minha parte, continuarei na luta! 

Ivone Maria Ferreira da Silva

Professora do Departamento de Serviço Social/CHS/UFMT

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