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O Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Se é pela palavra – materialização de complexas elaborações de nossos cérebros – que nos diferenciamos dos outros animais, é também por ela que estamos a naufragar em nossas interações cotidianas. De uns tempos para cá, no Brasil, é como se tivéssemos construído um tipo de Faixa de Gaza para nossa convivência.

Nas redes sociais, tudo pode ficar ainda pior, até porque muitos se sentem protegidos por uma simples tela; assim, a todo instante, destilam ódio de todo tipo. 

Com o triunfo do pensamento de direita nas últimas eleições, marcado não apenas pelo conservadorismo, o que seria normal, mas pelo reacionarismo, o que é inconcebível, a perversidade de muitos vem ganhando dimensão antes impensável. Nesse cenário, nunca tanta gente desprovida de informações consolidadas falou tanto; e com ares de donos da verdade!

De minha parte, venho acumulando agressões que chegam da opinião de leitores conservadores/reacionários sobre meus artigos, mesmo muitos sequer compreendendo a completude do que escrevo.

Das agressões, dois itens se destacam. Um está ligado a quem, profissionalmente, realmente sou: docente com doutorado; o outro, à crítica política que tenho feito ao atual governo. Aliás, esta minha postura faz muitos leitores concluírem que sou pertence àquele tipo de esquerda incapaz de se autocriticar; todavia, fui crítico constante dos (des)governos petistas.

Ignorando o histórico de minhas opiniões, para me atingir na condição de professor, esse tipo de leitor se utiliza, via de regra, da ironia, marcada, em geral, pelo uso de aspas já na invocação. Ex.:

“Nobre professor’, é lamentável essa didática/narrativa da esquerda ao se referir a GUERRILHEIROS, como sendo pessoas de resistência ao regime militar! Temos que, realmente, passar a limpo esse período e dar nomes, motivações e consequências desses grupos terroristas.

O próximo exemplo ataca minha titulação. Na transcrição, preservo sua sofrível redação, sem nada destacar com o “sic”:

é bom ja-ir se acostumando com a verdade com o que é certo, o mal não pode prevalecer para senpre o bem sempre vence o mal, queprofessor e que doutor  em jornalismo (grifo meu). esta esquerda comunista, populista e socialista pira com o novo governo que quer o bem do nosso povo”.

Os dois exemplos podem ser conferidos nos comentários sobre meu artigo publicado no site Mídia News de 01/08/19.

E assim se sucede com outros leitores que não coadunam com minhas opiniões. Mas até aí, “a gente vai levando”. Todavia, um dos leitores passou dos limites; e o fez em meu Facebook, que é público, pois praticamente só compartilho ali meus artigos e chamadas para algum literomusical que apresento esporadicamente.

Por conta de uma “Carta Aberta” que escrevi recentemente ao governador de MT, um advogado do RS, sem me conhecer, escreve:

Quem é Roberto Boaventura? Ahh, professor de universidade pública? Entendi. Mais um vadio tentando segurar a boquinha”.

Possivelmente amparado nas acusações de que servidor público é privilegiado, que a balbúrdia é o que prevalece nas universidades, além dos ataques feitos ao exercício científico, de modo geral, a agressão desse leitor é feita sem exceção; ela atinge todos os professores das universidades públicas.

Por conta disso, como fui citado nominalmente, já estou judicializando a acusação por danos morais. Com raras exceções, nas universidades, sem balbúrdias, mas com senso crítico, não há espaço para vadios. Trabalhamos muito mais do que a ignorância e o preconceito de alguns possam supor. 

 

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JUACY DA SILVA*
 

Existe uma certa visão “glamourizada”, um tanto romântica em relação ao processo de envelhecimento, com a qual eu discordo totalmente e uma das “provas” desta visão distorcida e nada realista  é quando passamos a denominar esta última etapa da vida humana como “melhor idade” ou “idade da sabedoria”, quando na verdade, como consta do dicionário da língua portuguesa “envelhecer = tornar-se velho ou mais velho”, ou “dar ou tomar aspecto de velho, de idoso, ou de antigo” ou de algo imprestável, trapo.


A outra pergunta que podemos fazer é o que significa “velho ou velha” pode ser tanto sinônimo de pessoa idosa ou em sentido mais amplo alguma coisa antiga, inservível, cujo destino quase sempre é o lixo, o abandono, o descaso. Ninguém ou pouquissimas pessoas gostam de coisas velhas e, por extensão, isto também se aplica `as pessoas que estão quase chegando ao final da existência.


De um lado, as pessoas idosas estão muito mais propensas a uma série de doenças crônicas e degenerativas que praticamente vão destruindo o vigor físico, incapacitando tais pessoas em termos de movimentos fisicos, capacidade cognitiva, incluindo as diversas formas e manifestações da demência.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, demência é uma síndrome, usualmente de natureza crônica, progrressiva, incurável, degenerativa , quando muito “administrável”, causada por uma variedade de doenças cerebrais que afetam a memória, o pensamento, o comportamento e a habilidade de realizar as tarefas ou atividades do dia-a-dia.


Existem diversos e diferentes tipos de demência, cabendo destaque para as seguintes: Doença de Alzheimer, a que tem maior incidência; demência vascular, decorrente tanto por AVC – acidente vascular cerebral (derrames) quanto da hipertesão arterial, que provoca como se fossesm “pequenos ou micro derrames”, afetando algumas áreas do cerebro; demência frontotemporal, demência por corpúsculos de Lewy, demência mista e também demência em pacientes que sofrem do mal de Parkinsons, além de outros tipos.


A demência, como as demais doenças crônicas e degenerativas estão presesntes de forma mais frequente nas pessoas idosas e aumenta `a medida que o envelhecimento avança, contribuindo muito para o processo degenerativo nesta fase da vida.


Apesar do avanço científico e tecnológico nas pesquisas nas áreas médica e farmacêutica, até o momento não existe cura para a demência, isto causa uma grande angústia tanto nas pessoas que são diagnósticadas com a doença quanto seus familiares, pois é como se fosse um filme que já assistimos e sabemos como será o seu final. É muito mais um filme de terror do que romântico, onde todos os personagens acabam felizes para sempre!
Neste sentido e contexto, a demência é como  o ocaso da vida humana ou vazio existencial, onde paulatinamente esses pacientes perdem a memória, suas lembrancas e registros do passado, afetando o presente como algo fugidio, pois a cada dia a progressão da doença vai afetando também o dia-a-dia e como não poderia deixar de ser, as pessoas que sofrem de demência não conseguem projetar seu futuro, perdem a capacidade de sonhar e de imaginar o futuro. Ou seja, para si mesma, uma pessoa com demencia perde (se esquece) seu passado, não se lembra do que aconteceu ao longo da caminhada; permanece se perdendo no presente e seu futuro é como um grande vazio existencial, não consegue imaginar-se no future.


No Mundo existem mais de 60 milhões de pessoas diagnosticas com algum tipo de demência, sendo que a grande maioria nos países emergentes ou subdesenvolvidos, onde os dianósticos, por falta de professionais habilitados, como neurologistas, psiquiatras e psicólogos especializados neste tipo de doença e também pela falta de equipamentos de imagem ou cujos custos desses exames, geralmente não oferecidos por sistemas de saúde pública, indicam que o numero de pessoas que sofrem ou virão a sofrer com algum tipo de demência seja muito maior. Estima-se que para cada caso de demência diagnosticado no mundo, principalmente nos países emergentes e subdesenvolvidos, existam mais 4 ou 5 que jamais serão “descobertos”, diagnosticados e oferercidas alternativas, paliativos, para “administrar’ esta terrivel doença. Ou seja, por volta do ano 2050 o número real de pessoas com demência serão mais de 250 milhões e não “apenas” 150 milhões como projeta a OMS.


A OMS elaborou um plano mundial para enfrentar a questão da demência, cujas projeções indicam um crescimento exponencial, para as duas ou tres  próximas decadas, tornando um dos mais sérios problemas de saúde pública no mundo, por três razões: a) pelo progressivo e rápido envelhecimento da população no mundo todo; b) pelo descaso, negligência dos sistemas de saúde e governos que pouco ou nada investem em pesquisas nas áreas de diagnóstico, descoberta de novos medicamentos e formas de tratamento,  e c) falta de alerta quanto as causas que podem levar `a demência, as quais estão presentes muitos anos ou décadas antes das pessoas serem consideradas idosas ou velhas, ou seja, bem antes dos 60 ou 65 anos.


Essas principais causas, conforme inúmeros estudos e pesquisas em diversas áreas são: a) idade/envelhecimento; b) fatores genéticos; c) gênero, no caso,  o surgimento da demência afeta proporcionalmente muito mais as mulheres do que os homens, agravada pela maior expecativa de vida das mulheres; d) tabagismo , alcoolismo e o uso de outras drogas “mais pesadas” que afeetam o cérebro de maneira irreversível; e) hipertesão arterial/pressão alta, que provoca micro-derrames no cérebro; f)  arteroesclerose, colesterol, principalmente nas carótidas; g) obsesidade, que ajuda a desencadear outras doenças degenerativas, também incuráveis e com graves riscos `a saúde; h) homocisteina elevada; i) deficiência nutricional, principalmente deficiência de vitamina B-12 e outras mais; j) estilo de vida que facilite o surgimento de estresse; depressão, droga-adicão e complicações ou interação medicamentosa ou efeito colateral de diversos tipos de medicação, principalmente remédios controlados ou psicotrópicos, alguns que acabam em adição, inclusive moderadores de apetite e medicamentos para combater insônia.


Enfim, é fundamental que bem antes da pessoa iniciar o processo de envelhecimento possa realizar “check-up” com alguma frequência, incluindo visita a médico neurologista e outros profissionais para cuidar melhor da saúde, ai sim, criando condições para que a fase final da vida, seja menos dolorosa e com mais saúde e vigor físico, mental e emocional.


Lembre-se, a demência rouba a alegria de viver e o significado da existência humana. Para que esta fase da vida possa, de fato, ser considerada  a “melhor idade”, o que está muito longe de ser, principalmente no Brasil, onde o descaso de nossos governantes em relação `a saude publica é mais do que evidente, quando comparada com fases anteriores em que as pessoas desfrutam de pleno vigor físico, capacidade de sonhar e realizar seus sonhos, precisamos devotar mais recursos, cuidados e dedicação `a saúde pública, caso contrário, em um futuro bem próximo teremos legiões de idosos pobres, abandonados, doentes e dementes. Esta é a realidade que está bem clara diante de nossos olhos, só não exergam nosos governantes incompetentes e corruptos, que roubam impunemente preciosos recursos que deveriam ser destinados `a saúde.


Precisamos despertar para esta realidade hoje, amanhã será tarde demais e só quem vive ou convive com uma pessoa afeetada pelas diferentes formas de demência sabe o quanto é dificil, doloroso, triste e frustrante esta realidade.


A vida só tem sentido e significado se e quando temos consciência plena de nossa existência, nossa  realidade passada, presente e nossas projeções/sonhos de futuro. Sem isso, acabamos apenas vegetando e aos poucos vamos nos perdendo em um grande vazio existencial, onde a morte é apenas uma ponte que nos liga `a transcendência imaterial ou espiritual.


*JUACY DA SILVA, professor universitário, sociólgo, mestre em sociologia, colaborador de diversos veiculos de comunicação. Twitter@profjuacy Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Blog www.professorjuacy.blogspot.com.br

 

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