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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP
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            Atônitos com tantas notícias ruins, a nós, brasileiros, soma-se a morte de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Felix do Araguaia, ocorrida na manhã do triste 08/08.
 
           Desde as primeiras informações que tive sobre a vida de Casaldáliga, sempre fiz uma ligação espontânea com o percurso existencial de Severino, aquele personagem de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Já no início do longo poema cabralino, quanto mais Severino tentava dizer quem ele era, mais ele próprio diluía sua identidade no meio de sua gente, igualando-se num coletivo que só tinha e via adversidades pela frente.
 
           Sobre Casaldáliga, talvez por conta das incontáveis adversidades que teve durante sua vida, geralmente percorrida em agrestes terras batidas e literalmente minadas, a tarefa de quem tenta dizer quem foi esse senhor também entra no labirinto das reticências, ou seja, daquilo que pode nos levar a muitas outras informações, quase numa perspectiva de espelho refletido ao infinito. Perante algumas existências humanas, as palavras e as enumerações, definitivamente, são limitadas; elas não dão conta.
 
           Assim que ingressei na UFMT, tive o privilégio de começar a conhecer diversas cidades do Mato Grosso. No início dos anos 90, fui a São Félix do Araguaia, por terra; e muita terra... Pelo trajeto, já fui compreendo melhor a dimensão do que poderia significar a luta de um sacerdote que usava chapéu de palha do sertanejo local contra todas as cercas levantadas pelos “senhores feudais” de nossa contemporaneidade. Mais: um trabalho assumidamente inserido na Teologia da Libertação, exercido com tanta altivez em um lugar tão inóspito, que parecia mesmo ser “um canto esquecido por Deus”.
 
           Já em São Felix, participando de uma atividade do Sindicato dos Professores do Estado (Sintep), por uma das tantas ignorâncias assumidas, precisei de um dicionário para desempenhar uma parte de minhas atividades. Um professor, rapidamente, me convidou para ir à “Biblioteca do Bispo”.
 
           - “Na casa do Bispo, certamente, há um dicionário”, disse-me ele.
 
           Com a possibilidade de conhecer aquele senhor, dei graças à minha estupenda ignorância. Era a oportunidade que eu teria de estar, frente a frente, com um dos seres humanos mais humanos de que eu tinha conhecimento. Eu já sabia que exatamente por conta de sua humanidade, de sua preferência explícita às camadas populares, a ditadura militar dos golpistas de 64 havia lhe imposto perseguição.
 
           Ao chegar à residência episcopal, em alguns lugares, “palácio episcopal”, só perplexidade, mas no sentido mais positivo do termo. Sua residência, de fato, era apenas uma casa, semelhante à maioria das outras casas da cidade. As portas estavam abertas, embora não houvesse ninguém dentro. Aquilo “era habitual”, disse-me o professor anfitrião.
 
           Para minha tristeza, Casaldáliga havia viajado para Cuiabá, de ônibus... Ele era resistente ao avião.
 
           - “Então, não podemos entrar”, concluí.
 
           - “Podemos. A casa é nossa também. É assim que Dom Pedro tem suas coisas. Tudo dele é do povo. O povo da cidade cuida de sua casa, e cuida dele também, pois ele vive sendo ameaçado por fazendeiros.”
 
           Superada minha tristeza por conta daquele desencontro, que seria um dos encontros mais felizes que eu poderia ter tido na vida, não me restava muito, a não ser fazer o papel indecente de uma visita curiosa, pois as referências que eu tinha de bispos e de seus palácios eram outras.
 
           A simplicidade de tudo o que eu via podia ser resumida nas paredes sem reboco e no chão absolutamente rude; também na caminha de solteiro que sustentava um colchão de pouca ou nenhuma densidade, onde ele repousava. Era uma casa de um sertanejo cristão: tudo bem organizado, mas em cima da mais pura simplicidade, dessas que nos encantam, como aquelas velhas xícaras de esmalte já descascado pelo tempo, soltando a fumacinha de um café passado na hora.
 
           Tudo aquilo era um choque para quem vinha de uma cidade imponente, que fazia questão de mostrar ao mundo que havia construído a catedral mais alta do país: pouco mais de 120m de altura, em tipo de um cone, supondo estar mais próximo de Deus...
 
           Ao contrário daquela e de tantas outras imponências que podem ser vistas alhures, a vida religiosa de Casaldáliga foi pautada, do início ao fim, pelas palavras que estão no convite para sua sagração como bispo. Extraí essa pérola da p. 197, do livro Um bispo contra todas as cercas (Gramma Editora), da jornalista Ana Helena Tavares. Mais do que um texto, eis um conjunto sintético de princípios de um verdadeiro cristão:
 
           “Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno; o olhar dos pobres com quem caminhas, e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
 
           Teu báculo (cajado) será a Verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti.
 
           O teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e a fidelidade ao povo desta terra.
 
           Não terás outro escudo que a força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus, nem usarás outras luvas que o serviço do Amor”.
 
           Em uma das fotos mais significativas presentes no livro acima citado, vemos Casaldáliga recebendo um remo indígena durante a cerimônia de sua sagração. Ele não teve dúvidas: “usou aquele remo como seu báculo”. O melhor de tudo é que aquele gesto já lhe era incorporado em seu cotidiano, assim como o era estar ao lado de toda gente oriunda das comunidades tradicionais.
 
           Por tudo, finda sua missão por aqui, só posso, respeitosamente, dizer: quanta fidelidade contida em um conjunto de palavras, que assim ditas, parecem tão benditas, pois foram todas vividas e respeitadas, dia após dia, em seus 92 anos de existência. Esse comportamento, marcado pela coerência, é próprio apenas das avis raras. Pedro Casaldáliga foi uma avis rara que pousou por aqui, dando-nos o privilégio de pertencer à sua contemporaneidade nesse longo e difícil percurso da história humana.

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Publicamos a pedido da professora Rosa Lúcia Rocha Ribeiro, do Departamento de Enfermagem da UFMT

Mobilizadas pelo drama de trabalhadores de Enfermagem de Mato Grosso na luta contra a COVID-19, estudantes do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Cuiabá, se organizaram e produziram um vídeo em sua homenagem (disponível abaixo).

O vídeo tem a participação de estudantes de diversos semestres do curso e trazem mensagens de agradecimento, mas também de apoio na luta dos trabalhadores da enfermagem por valorização profissional, por proteção e por melhores condições de trabalho. A ação foi uma iniciativa do Centro Acadêmico de Enfermagem e do projeto de extensão Cuidar Brincando, da Faculdade de Enfermagem da UFMT.

Também denunciam as mortes de profissionais da enfermagem que faleceram em decorrência da doença, desde o início da pandemia até o mês de julho de 2020. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem, por meio do Observatório da Enfermagem, o Brasil registrou até o momento 334 óbitos de profissionais de enfermagem, sendo mais de 20 óbitos do estado de Mato Grosso, a maioria deles que estavam trabalhando diretamente no cuidado a pacientes e alguns poucos afastados do trabalho.

Segue o texto da homenagem:

Estamos vivendo um momento muito delicado. E nós estudantes não poderíamos deixar de agradecer e prestar o nosso apoio aos trabalhadores de enfermagem que estão na linha de frente em combate ao novo coronavírus em Mato Grosso.

Vocês são submetidos a jornadas de trabalho exaustivas e condições insalubres de emprego, onde faltam materiais, faltam EPIs, faltam medicações, mas estão fazendo o melhor trabalho que podem mesmo diante de tais condições.

São afastados de sua família para protegê-los. A saudade dói né?

São sobrecarregados de tensão emocional e cansaço físico, sem ter um lugar digno para repousar, sem ter como ir ao banheiro, sem beber água e sem ter como comer.

Além de excelentes profissionais, são seres humanos incríveis que dedicam a vida à pessoas desconhecidas.

Vocês não são anjos mas arriscam a própria vida pra cuidar de outras vidas, gratidão por fazerem isso com tanta excelência.

Vocês não são super-heróis, mas têm dado exemplo de heroísmo e alguns deram até mesmo, a própria vida.

É preciso que todos saibam que vocês, trabalhadores de enfermagem, não são heróis ou heroínas, mas são pessoas trabalhadoras que também precisam de proteção para que se mantenham vivas!

Porque não desejamos que vocês sejam mártires! Por essa razão, denunciamos o pouco cuidado de governantes e de patrões para a sua proteção! Exijam EPIs!

Não aceitamos que, num estado que se vangloria de ser o maior produtor de algodão do país, profissionais da linha de frente como a Enfermagem não tenham acesso a uma roupa decente para a sua proteção nessa guerra contra o coronavírus!

O nosso amplo agradecimento aos profissionais de enfermagem que hoje lutam por melhorias salariais e que estão, ainda que com pouca proteção, na linha de frente no combate à Covid 19.

Realmente não somos super heróis, somos seres humanos, necessitamos de um salário adequado para a nossa categoria e equipamentos de proteção individual, não podemos nos permitir ser mutilados pela falta de investimento na saúde e pelo descaso dos políticos devido o desvio de verbas da saúde.

Não romantizar esse momento é essencial, trabalhamos porque temos contas para pagar assim como todos e precisamos de condições dignas de trabalho. Por isso, é um momento de luta.

Luta por condições melhores de trabalho, está na hora de aprovar o Projeto de Lei n° 2564 de 2020 que dispões sobre o piso salarial da enfermagem e uma jornada de 30 horas semanais.

É tempo da enfermagem se unir e lutar por melhores condições de trabalho.

Sindicatos e Conselhos, contamos que vocês continuem com uma gestão séria e dedicada à Enfermagem, que lutem para que as vidas de técnicas de enfermagem, enfermeiras e enfermeiros sejam preservadas!

E a vocês, profissionais, nosso mais sincero agradecimento e o nosso apoio na luta!

Nós agradecemos a todos os profissionais de saúde pelo compromisso, dedicação e amor.

Prestamos homenagem também à todos aqueles TRABALHADORES DE ENFERMAGEM que perderam a vida para COVID-19, a maioria trabalhando, alguns afastados do trabalho:

1 - Athaíde Celestino da Silva - 02/05/2020

2 - Alessandra Bárbara Pereira Leite - 19/05

3 - Maria Eliane Queiroz da Silva - 12/06

4 - Simone Lima Oliveira dos Anjos - 12/06

5 - Joselita dos Santos - 17/06

6- Juciana Mendes dá Silva Melo- 22/06

7- Cleiton Viana - 25/06

8- Clarice Bamberg - 27/06

9- Gonçalo Benedito de Barros - 29/06

10- Fabrício Uprewa - 03/07

11- Rosilei Rech - 05/07

12 - Zilda de Moura Viana - 13/07

13 - Maria Alice Ramos da Silva- 14/07

14 - Pedro Ezídio - 14/07

15 - Dirce de Oliveira Souza - 14/07

16- Odair Correia - 16/07

17- Mariza de Jesus Silva - 16/07

18- Regina de Lira Sales - 20/07

19 - Luiz Carlos Weber - 21/07

20- Erivelton Luciano Silva Martins - 24/07

21 - Glaciela Marques Correia - 25/07

22 - Klediston Kelps - 25/07

23- Elisangela Morevo - 27/07

24- Geralda Leite Mendes - 27/07

25 - Juceli Pereira da Costa 30/07

26- Lauro Bassani - 30/07

27 - Marta Araújo Souto - 30/07

28 - José Maria da Silva Filho - 06/08

Se você não tem medo da Covid-19, ao menos colabore para que a gente não morra.

A vocês, profissionais de Enfermagem, todo o nosso apoio na Luta!

Alunas de Enfermagem UFMT

Cuiabá, 05 de agosto de 2020.

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