Sexta, 10 Janeiro 2020 12:32

CONVERSA COM SARAMAGO


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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
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CONVERSA COM SARAMAGO

Fernando Nogueira de Lima

Dia desses, andava eu à toa num shopping quando me vi diante do José Saramago. E, então, para não perder a oportunidade de conversar com o Nobel de literatura me dirigi até ele e manifestei esse meu desejo. Pois bem, minutos depois, confortavelmente sentado em um dos bancos espalhados naquele espaço comercial, iniciei uma agradável e instigadora conversa com o escritor português sobre o pedido de perdão da Igreja Anglicana a Charles Darwin, que se deu por ocasião da comemoração dos duzentos anos do seu nascimento.

De saída, colocando em dúvida a existência deles, afirmou que para os leitores ingênuos isso é uma boa notícia. Esclareceu que nada tem contra pedidos de perdão que, segundo ele, ocorrem quase todos os dias por uma ou outra razão. Todavia, apressou-se a colocar em dúvida sua utilidade, pontuando que mesmo se o Darwin fosse vivo e aceitasse o pedido não apagaria uma única das injustiças sofridas. Assim, o único beneficiado é mesmo a Igreja Anglicana que, sem despesas, veria aumentado seu capital de boa consciência, disse ele.

Não parou aí e lançando mão da ironia como figura de linguagem, recurso linguístico cada vez menos utilizado entre nós e quando empregado cada vez menos compreendido, disse que deveríamos agradecer o arrependimento, ainda que tardio, pois talvez estimulasse o Papa Bento XVI a também pedir perdão a Galileu Galilei e Giordano Bruno, destacando que este cristão foi caridosamente torturado até a fogueira em que foi queimado.

Distanciei-me dos seus argumentos e fiz considerações sobre o perdão na perspectiva de quem perdoa que, a meu sentir, nada tem a ver com esquecer o que se deu, e sim com deixar de sofrer ao se lembrar do ocorrido. Afirmei que perdoar alguém pós-morte ou a quem pede perdão movido pelo arrependimento, ao assumir os erros do seu proceder reconhecendo a injustiça cometida e os males dela advindos é opção para deixar a vida seguir em frente, virando páginas de um passado ruim do livro da vida, que insiste em se fazer presente.

Destaquei, também, que guardo comigo boa dose de desconfiança quanto às verdadeiras motivações para o remorso transformado, tardiamente, em ação. Pois, mesmo diante da hipótese de benefícios para a história, para a ciência, para descendentes ou para a popularização da prática do perdão, aqui e alhures, nada mais é do que uma súplica inútil. É um grito solto aos quatro ventos, porém, sem eco advindo de quem não pode mais perdoar.

Por conta de compromissos outros tivemos de suspender a conversa, convencidos de que iríamos nos encontrar outras vezes - não mais ali, para dialogarmos sobre este e outros assuntos do cotidiano da vida e sobre alguns personagens da história contemporânea. Então, antes de nos despedirmos, conclui meu raciocínio anterior dizendo que em relação a quem não tem consciência do erro cometido ou a quem não carrega culpa pela atitude perpetrada não há que se falar em perdão, e que, nesses casos, resta apenas o diálogo ou a indiferença.

Creio que você deve estar se questionando: o José Saramago? Dias desses? Como assim? Apresso-me a explicar: na verdade, estava eu no tal shopping quando vi um Sebo Cultural para onde me dirigi de imediato, e lá o olhar se direcionou para um dos livros que estavam à mostra na vitrine principal, qual seja o Caderno de José Saramago que contém os textos escritos para o seu blog, durante setembro 2008 a março de 2009. Após comprá-lo, sentei-me no banco mais próximo e vivenciei momentos de excelente leitura e de boas reflexões.

A propósito do tema daquela conversa fictícia, para os que falam que é fácil dizer que temos de perdoar, difícil é fazê-lo, eu respondo que na vida as coisas são simples, nós é que as complicamos em demasia. Parafraseando Ataulfo Alves e Mário Lago, no samba “perdão foi feito pra gente pedir”, assevero: perdão, por ser uma atitude que pressupõe uma via de mão dupla foi feito pra gente acolher e assegurar a plenitude dos benefícios atinentes, dentre eles o de viver sem mágoas e sem ressentimentos.  Em paz com os outros e consigo mesmo.

Por fim, atenho-me a reminiscências de um filme que assisti há muito tempo. Dele, recordo-me do final em que os protagonistas que vivenciavam uma separação litigiosa se encontram, por acaso, quando vinham em direções opostas pela mesma calçada. Diante um do outro, se entreolharam, e em seguida, ele ou ela – não lembro mais quem, disse: perdoe-me. Nada mais foi dito, apenas abraçaram-se carinhosamente e depois, braços dados, seguiram juntos e em paz na mesma direção. Assim terminou o filme e assim termino este texto.

Fernando Nogueira de Lima é engenheiro eletricista e foi reitor da UFMT 

Que o Ano Novo seja tempo para viver em paz com os outros e consigo mesmo. E, quiçá, também seja tempo para declínio do antagonismo estéril e avanço do pensamento crítico, em prol do bem comum.  

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Artigo enviado pelo Prof. Juacy da Silva,  AGRAVAMENTO DA CRISE NO ORIENTE MÉDIO 2020

Soleimani, as manobras de Trump alarmam o Papa. No Vaticano, código vermelho Fonte: Site www.ihu.unisinos.br 06/01/2020 

AGRAVAMENTO DA CRISE NO ORIENTE MÉDIO 2020

Soleimani, as manobras de Trump alarmam o Papa. No Vaticano, código vermelho

Fonte: Site www.ihu.unisinos.br 06/01/2020 

Soleimani, as manobras de Trump alarmam o Papa. No Vaticano, código vermelho

"O assassinato do general Soleimani não ocorreu no curso de uma "ação militar normal". Foi o assassinato planejado e espetacularizado de um altíssimo expoente do Irã. Uma exposição do poder soberanista", escreve Marco Politi, vaticanista, jornalista, escritor, professor universitário, e autor do livro intitulado "A solidão de Francisco: Um Papa profético, uma Igreja na tempestade", em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 05-01-2020. A tradução é deLuisa Rabolini.

Eis o artigo.

No Vaticano, código vermelho. O pontífice acompanha constantemente os eventos em curso entre Teerã e Washington. O assassinato do general Soleimani ocupa as manchetes doOsservatore Romano desde 3 de janeiro.

A escalada de violência de Donald Trump preocupa gravemente o Papa Francisco. O cardealPeter Turkson, prefeito do dicastério para o Desenvolvimento, denuncia a incumbência de uma "espiral de vingança com todos os sinais ... de tensão e de guerra". O núncio do Vaticano noIrã enfatiza fortemente nas últimas horas um conceito básico de Francisco: "A boa política está a serviço da paz, a comunidade internacional deve se colocar a serviço da paz".

L'Avvenire, o jornal da CEI, reflete com precisão (e com maior liberdade por não ter vínculos diplomáticos) o clima que reina na comitiva papal. A eliminação do general iraniano Qassem Soleimani - escreveu em um editorial de primeira página - “é um frio assassinato … reflete a atitude incompreensível e indefensável do governo Trump, que parece agora proceder sem nenhum planejamento estratégico sério, de forma impensada, manobras impulsivas ... ".

O pontífice sempre discorda de operações militares unilaterais, disfarçadas em boas intenções, porque vê seus propósitos de poder. Em 2015, falando às Nações Unidas em Nova York, ele lembrou que "não faltam provas graves das consequências negativas das intervenções políticas e militares não coordenadas entre os membros da comunidade internacional". Foi ainda mais claro na entrevista coletiva em seu retorno da Coreia do Sul, em agosto de 2014: "Precisamos ter memória! Quantas vezes, com essa desculpa de deter o agressor injusto, as potências se apoderaram dos povos e fizeram uma verdadeira guerra de conquista! Uma única nação não pode julgar como parar um agressor injusto".

Vaticano tem uma memória longa, não raciocina seguindo a métrica dos tweets, mas das décadas. No Vaticano, lembram que João Paulo II foi contra a empreitada estadunidense noAfeganistão e, em 2003, desenvolveu todas as ações diplomáticas possíveis para impedir a invasão do Iraque defendida pelo presidente Bush e baseada em alegações totalmente falsas de posse de armas de destruição em massa por parte de Saddam Hussein. As guerras noAfeganistão e no Iraque foram um desastre para os Estados Unidos e o Oriente Médio e alimentaram poderosamente o surgimento do ISIS e uma onda sangrenta de terrorismo em todo o mundo. Os efeitos ainda são sentidos hoje.

A diplomacia do Vaticano é prudente, não alimenta ilusão sobre manobras, ataques, atentados provocados nos últimos anos pelo Irã; mas ninguém tem a menor dúvida sobre a responsabilidade de Trump nos dias de hoje de abandonar o "conflito de baixa intensidade" que opôs os iranianos aos estadunidenses (e seus respectivos aliados) nos últimos anos, provocando uma escalada de violência com resultados imprevisíveis. O assassinato do general Soleimaninão ocorreu no curso de uma "ação militar normal". Foi o assassinato planejado e espetacularizado de um altíssimo expoente do Irã. Uma exposição do poder soberanista.

No Vaticano, também não esquecem a ação negativa exercida nessas décadas pela direita expansionista israelense, que no início do século (primeiro-ministro Ariel Sharon) instigou sistematicamente os líderes estadunidenses a agir contra Saddam Hussein e que, nos últimos anos, sob o governo Netanyahu - em uma mistura de fanatismo nacionalista e fundamentalista - incitou contra o Irã para eliminar qualquer contrapoder no cenário do Oriente Médio que pudesse retardar a crescente anexação de territórios palestinos.

O objetivo último de Netanyahu - a diplomacia do Vaticano registrou isso atentamente - é anexar o vale do Jordão. O editorial do Avvenire fala claramente: “Aproximar-se de um conflito aberto com o Iraque (é) um objetivo nem tão velado pelos falcões em torno de Trump ou peloslobbies ligados aos círculos de poder mais radicais de Israel e da Arábia Saudita que influenciam o errático avançar da Casa Branca”.

Fechado no Vaticano, o Papa Francisco está medindo as palavras. Certamente abordará a questão na próxima reunião com o corpo diplomático. Mas a diferença entre a Santa Sé eWashington ampliou-se dramaticamente. O pontífice não perdoa Trump por ter se retirado do acordo com o Irã sobre a energia nuclear e por sabotá-lo abertamente, nem por ter legitimado as pretensões de anexação israelense sobre a parte oriental árabe de Jerusalém, das colinas sírias de Golã, das "colônias" implantadas ilegalmente em terras palestinas.

Francisco está alarmado com a crescente ideologia soberanista em Washington e em outros lugares. "O soberanismo é um exagero que sempre acaba mal - afirmava em agosto passado em uma entrevista ao jornal La Stampa. Leva a guerras".

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