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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Marluce Souza e Silva
Doutora em Política Social

 
          Desde a eleição do atual presidente do Brasil que o cenário político vem nos impondo, incessante e insistentemente, algumas figuras da mais alta “excelência”. Tudo leva a crer que existe (não sei onde!) uma fábrica de notáveis e de “gente do BEM” que eu pensei não existir neste planeta. Mas existem.

          Com o capitão do Exército na Presidência do Brasil, fomos premiados no Ministério da Educação com a indicação e posse de Ricardo Vélez Rodríguez, que chega se apresentando como filósofo, ensaísta, teólogo e professor colombiano naturalizado brasileiro e como professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, responsável pela formação de oficiais de alta patente. Mas, logo revela sua polidez ao declarar que "o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisa dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião, [...] e carrega tudo”. Isso é um pouco do que marca sua saída do governo. Nenhuma contribuição deixou para a política de educação.

          Na sequência, surge das “trevas” o então Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub, com a chancela de economista e docente da Universidade Federal de São Paulo, que logo após sua posse, já anuncia um "corte" de 30% em recursos destinados às despesas discricionárias de algumas universidades federais, que segundo ele eram "universidades que estavam fazendo balbúrdia”. Essa figura logo adensa às suas qualidades o adjetivo de "ministro da educação sem educação, grosso, horrendo, nojento”. O Colunista Demétrio Magnoli passa a dizer que ele é "um seguidor inculto de Olavo de Carvalho” e o Presidente da Câmara (à época), Rodrigo Maia, o classificou como um "desqualificado”.

         Em maio de 2019, as redes sociais passam a exibir o histórico escolar de Weintraub no curso de economia na USP, e as imagens revelaram reprovação em nove matérias em apenas três semestres; notas ZERO tinham de montão e frequência baixíssima. (Aff)

         Não demorou muito para que Weintraub mostrasse a que veio. Seu diagnóstico sobre o ensino superior tinha a sua cara. E, na primeira oportunidade apresentou um relatório (com rigor científico zero) onde afirmava: “há universidades federais com plantações extensivas de maconha e com laboratórios de química que estão desenvolvendo drogas sintéticas de metanfetaminas”. Tais afirmações fizeram com que a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados o convocasse para dar explicar. Ele foi e protagonizou um espetáculo circense. Todas as provas apresentadas foram desqualificadas. E ele também.

         Em 18 de junho de 2020, Weintraub anunciou sua saída do ministério. UFA! E o Presidente anunciou então o nome de Carlos Alberto Decoteli, também economista e doutor. Mas, imediatamente, a turma que gosta de conferir as informações (acho que faço parte desta turma) passa a revelar uma série de inconsistências no currículo do novo anunciado e, ao contrário do que ele dizia, a FGV veio a público esclarecer que o economista nunca havia sido professor em nenhuma das escolas da Fundação, nem tampouco conduzido pesquisas financiadas pela FGV.

         A coisa piora... E, logo após a sua nomeação, Decotelli passa a ser acusado de ter plagiado pelo menos 10% da sua dissertação de mestrado, concluída em 2008, a “partir de um relatório da Comissão de Valores Mobiliários publicado em fevereiro do mesmo ano, onde 4.200 palavras foram copiadas desse relatório para a dissertação”. Concomitante, ganha os noticiários as informações da Plataforma Lattes onde o ministro havia registrado que, em 2009, ele havia cursado um doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, e que havia defendido uma tese intitulada “Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja”. A informação foi imediatamente desmentida pelo reitor da instituição. A história se agravou quando a mesma “turma de intrometidos da rede social” foi conferir o curso de pós-doutorado do novo Ministro da Educação na Universidade de Wuppertal, na Alemanha e verificou, mais uma vez, a falsidade do registro. Wuppertal desmentiu a informação em nota enviada ao jornal O GLOBO, explicitando que Decotelli havia conduzido pesquisas na universidade durante três meses, em 2016, mas não concluíra qualquer programa de pós-doutoramento nem obtivera qualquer título naquela instituição.

         O Presidente Bolsonaro (cansado de tanto sofrer!!!!!) recuou na indicação de Decotelli e deu posse ao Pastor Milton Ribeiro no Ministério da Educação que, segundo registros do MEC, foi convidado por ser um Presbítero de Santos (PRST); pastor da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração e porque ele possui graduação em Teologia, cursado no Seminário Presbiteriano do Sul; graduação em Direito pela Instituição Toledo de Ensino; especialização em Direito Imobiliário pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas; especialização em Gestão Universitária pelo Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras; especialização em Teologia do Velho Testamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; especialização em Velho Testamento pelo Centro Teológico (de cursos pastorais/confessionais); mestrado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie  e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. Extenso e santificado o seu currículo!!!!

         Milton Ribeiro foi empossado em 16 de julho de 2020, e a história dele (passada e presente) passou a ganhar destaque na mídia, com ênfase no fato de que, em 2018, ele havia afirmado que o “existencialismo estava sendo ensinado nas universidades, e que isso estava incentivando os alunos a terem relações sexuais desconsiderando o parceiro”, ou seja, com qualquer um.

         A turma da “bisbilhotação” continuou em campo e descobriu que o “SANTO” Ribeiro durante uma pregação intitulada "A Vara da Disciplina", proferida em uma igreja presbiteriana, também havia defendido o castigo físico para a educação das crianças, alegando que "essa ideia que muitos têm de que a criança é inocente é relativa", que um bom resultado "não vai ser obtido por meios justos e métodos suaves" e que as crianças "devem sentir dor". Só faltava isso!

         Infelizmente este vídeo foi deletado por Ribeiro, que apagou a gravação em seu canal no You Tube e passou a negar o fato.

         E agora, no mês de agosto de 2021, o senhor Ministro, em entrevista concedida à TV Brasil, declarou que o “acesso às universidades deveria, na verdade, ser para poucos [...] e que algumas crianças com deficiência devem estudar em salas de aulas separadas do restante dos estudantes, pois elas só atrapalham”.

         Isto foi a gota d`água para que eu largasse coisas importantes e viesse escrever este texto.

      Mas esperem aí... não terminei. Lembram-se da indicação da Profa. Claudia Mansani para a presidência da Capes? Então...ela é a coordenadora científica da instituição em que Ribeiro e o ministro da AGU, André Mendonça, se formaram. O seu Curriculum Lattes também é uma peça curiosa. Ela registra que é mestre em Direito das relações sociais pela PUC-SP com doutorado em Direito Constitucional pelo Instituto Toledo de Ensino (ITE) e seu projeto de pesquisa intitulado “Reflexões sobre a horizontalização dos direitos fundamentais” foi registrado em 2014 e não foi concluído até hoje. Será que esta é uma boa indicação para a Capes?

        E pior, no item “Outras Produções técnicas”, é possível encontrar o registro da participação da Profa. Mansani em incontáveis reuniões e como organizadora em outras tantas reuniões administrativas com seu corpo docente. Vocês também registram reuniões no Lattes?

         É canseira!!!! Mas eu precisava desabafar e saber se vocês também estão percebendo a excelência de nossos ministros. Estão?
 
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Por Roberto de Barros Freire*
 
 
 
Foi noticiado que a escola Notre Dame puniu uma professora por ela ter manifestado sua opinião política. Punição realizada a pedido de pais de alunos, que se pudessem empregariam uma punição ainda superior aos três dias de suspensão que a infeliz da professora recebeu. Se dependesse deles, é bem capaz que colocariam a professora não na rua, mas na prisão.
 
Vejo nesse evento um absurdo completo. Em primeiro lugar, vivemos numa democracia onde as pessoas têm o direito de ter suas opiniões, mesmo que distintas da opinião dos pais dos alunos ou da direção da escola. Em segundo lugar, também por vivermos numa democracia, não basta ter o direito de ter uma opinião, é também intrínseco que se tem o direito de manifestá-la, pois, de que adiantaria ter uma opinião se não se pode manifestá-la? Em terceiro lugar, um professor tem não apenas o direito, mas o dever de manifestar sua opinião, para que seus estudantes percebam a multiplicidade de posições que a sociedade possui, inclusive quando são distintas dos pais dos alunos. A função da escola não é referendar a opinião dos pais, mas dar acesso a multiplicidades de posições do mundo, para que os estudantes tenham condições de criar sua própria opinião. É preciso fazê-los transcender as idiossincrasias familiares. Aliás, é função da escola fazer com que os estudantes abandonem os preconceitos domésticos. Se a escola repetir só o que os pais acreditam, os estudantes não precisariam de escola, seria mais econômico e prudente que ficassem em casa. O ensino tem a função de socializar as crianças, para que tomem contato com a multiplicidade social, cultural, religiosa e política.
 
Achar que o professor deve ser “neutro” é não apenas equivocado, mas uma posição tendenciosa e ideológica, atrasada, que defende o status quo, antes do que uma visão crítica. Não falar nada diante das calamidades que acontecem na sociedade é consentir com o que acontece, pois quem cala, consente. Se um professor se cala diante das injustiças sociais, ambientais, econômica, cultural e política ele está contribuindo para a continuidade das injustiças, não possibilitando que os estudantes absorvam outras visões, outros pontos de vistas, para que possa um dia ter os próprios. É preciso apresentar o contraditório para que se perceba que há outras formas de pensar e encarar os problemas. Uma escola que fornece apenas um ponto de vista, não forma, deforma seus estudantes, criando crianças tendenciosas e com visões limitadas e unilaterais.
 
Pelo que a reportagem mostrava a professora falou sobre questão ambiental, inflação e urna eletrônica. Não fez política partidária, falou para os alunos o que está acontecendo. Ela mentiu??? Então temos que formar alunos alienados? Ora, não existe neutralidade. Não suportar liberdade de expressão é que é problemático, isso é fascismo. E a justiça deveria se posicionar contra esses atos autoritários dos pais dos alunos e da direção da escola contrários a autonomia dos professores. Um professor não pode ser punido por manifestar sua opinião, ainda que não seja a opinião dos pais ou da direção da escola.
 
Temo que a ditadura está se implantando nessas atitudes miúdas, perseguindo a autonomia dos professores, proibindo as pessoas de se manifestarem, ameaçando a liberdade de cátedra. Houve épocas em que se respeitava os professores, hoje não se acredita na ciência, nem nas autoridades pedagógicas, segue-se apenas as ideologias mais tacanhas e medíocres. Qualquer um sem formação coloca em xeque as opiniões dos professores. Quando não se confia mais nos professores é porque se elencou a ignorância como o grande condutor dos homens. Não é à toa que há todo esse negacionismo da ciência em solo nacional e as pessoas acreditando nas fake news de WhatsApp.
 
No Brasil, pessoas sem cultura e conhecimento querem submeter professores e cientistas às suas ideologias pequenas e atrasadas. É um desserviço à nação. Não é à toa que temos péssimas escolhas na nossa representação política. E muitos desses se dizem favoráveis à liberdade: a liberdade de punir, não de se manifestar.


*Roberto de Barros Freire
Professores do Departamento de Filosofia/ UFMT
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