Sexta, 11 Fevereiro 2022 12:42

DEVEMOS SER TOLERANTES COM OS INTOLERANTES? Roberto de Barros Freire

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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*Por Roberto de Barros Freire*
 
Eis uma questão que sempre ocupou os liberais, e que recentemente ocupou as manchetes dos jornais, devido a um debate equivocado de um influenciador digital e um deputado, supostamente querendo se passar por liberais (sem saberem o que é o liberalismo e sem conhecimento histórico), defendendo o direito dos nazistas a terem partido político e participarem da vida política. O nazismo não apenas é a morte da vida política e democrática, como defende o extermínio de etnias, de grupos sociais, de posições políticas, enfim, é uma ideologia da morte, que não apenas ameaça, mas atenta contra a humanidade. A sua existência representa o extermínio dos demais, com exceção deles próprios. A sua permanência é uma ameaça constante a integridade física de todos, das minorias, da diversidade, da humanidade, da civilidade.
 
O fato é que a liberdade irrestrita pode levar ao fim da liberdade, da mesma forma que a tolerância irrestrita pode levar ao fim da tolerância. Devemos, portanto, estabelecer alguns limites, ou como diziam os contratualistas modernos, trocarmos a liberdade natural, absoluta e irrestrita, que permite tudo, mas não garante nada, nem os bens nem a vida, por uma liberdade civil, que limita os direitos, mas garante as posses e a vida.
 
Os intolerantes argumentam que devem ter liberdade absoluta, o que significa no fundo poder para destruir a liberdade alheia. Ora, a liberdade das pessoas acaba quando ameaçam a liberdade dos demais, esse é o limite da liberdade e da tolerância. A partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio, incitando à violência e buscando minar o sistema que garante a existência das liberdades individuais e coletivas, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas, e, portanto, deve ser criminalizado como atentado a vida e a dignidade humana.
 
Naturalmente, há o direito de dizer besteira e ter o direito de ter opinião significa, inclusive, ter o direito de ter opiniões erradas. Na verdade, a maior parte das opiniões estão equivocadas, e poucos detém de fato a verdade. Outra coisa muito diferente é quando a suposta opinião significa uma ameaça a integridade de outras pessoas. Ou seja, posso defender princípios equivocados, ideais erradas, por desconhecer a verdade, mas não posso por atos, palavras, atitude ou gesto declarar ódio ou desprezo pelo outro.

E mais ainda, é nosso dever sermos complacentes, quer dizer, fazermos um esforço por nos acomodar com os outros, e admitirmos a diversidade humana como um direito supremo e irrevogável. Ou seja, a minha opinião não pode conter ódio, desprezo, ofensa ou discriminação. O princípio é que somos todos iguais e as diferenças de idade, sexo, cor, crença, nacionalidade ou política não representa algum tipo de superioridade ou inferioridade, mas antes de tudo diversidade.

Enfim, os intolerantes não devem ser tolerados, mais ainda, devem ser combatidos e punidos toda vez que tentam ameaçar a vida e a dignidade da pluralidade humana. Pessoas como esse deputado e esse influenciador digital devem ser banidos da vida civilizada, punidos juridicamente e colocados no ostracismo. Só nazistas defendem o direito do nazismo a existir.
 

*Roberto de Barros Freire
Professor do Departamento de Filosofia/UFMT
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