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Quinta, 23 Abril 2020 17:01

ADJETIVOS AO GOVERNO BOLSONARO - Roberto Boaventura

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Há pouco mais de um mês, Paulo Brondi, promotor de Justiça em Jataí-GO, adjetivou o presidente, seus filhos e seu grupo de cafajestes. A Bolsonaro, em especial, disse que “não há outro adjetivo que se lhe ajuste”.

Mesmo sempre atendo ao noticiário, só agora soube desse artigo-desabafo de Brondi. A AGU disse que o processaria.

Diante desse embate, recordando das crônicas A um jovem, de Drummond, eu poderia acatar o primeiro “anti-conselho” que o poeta oferece, ali, ao jovem Alípio:

I – Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar”.

Como já não sou mais um jovem, continuarei a escritura deste artigo. Assim, já imerso na desobediência, destaco o terceiro de seus anti-conselhos:

III – Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo”.

Ao que tudo indica, Brondi teve certeza de seu “cafajeste”; não passou pelo dilema que, por vezes, experimento: machadianamente falando, encontrar o adjetivo tipo “a mão e a luva” para determinados seres e/ou situações.

Sempre que começo a pensar no melhor adjetivo, seja para o que for, Drummond vem à mente; por isso, a casos e/ou a circunstâncias que extrapolam a lógica, tenho preferido dizer que se trata de um ser ou de algo “inominável”. Este termo tem sido a saída para minhas perplexidades.

Em “inominável” cabe tudo que o leitor quiser. Também pode não caber nada, mas aí o problema não é de quem escreve; pode ser o conforto da solução de quem lê.

Voltando ao desabafo de Brondi, mesmo abominando as ações de Bolsonaro e asseclas, mas liberto de “igrejas”, quero reflexionar sobre duas de suas afirmações:

1ª) “nem todo bolsonarista é canalha, mas todo canalha é bolsonarista”;

2ª) “aquele tio idiota do churrasco, aquele vizinho pilantra, o amigo moralista e picareta, o companheiro de trabalho sem-vergonha... reflete à perfeição aquele lado mequetrefe da sociedade”.

Mesmo não discordo, indago: o “lado mequetrefe da sociedade” é exclusivo de bolsonaristas? Se for, ótimo. Se não, e penso que não seja, temos de tratar das diferenças entre mequetrefes.

Já reflexionando, no dia 19/04, tivemos alguns elementos que diferenciam os mequetrefes da Pátria. Dos elementos, destaco a defesa da volta da ditadura/AI-5 e os fechamentos do Congresso e do STF feita por grupelhos de bolsonaristas, incluindo o próprio presidente, a quem Carlos Luppi encontrou a antonomásia perfeita: “Apóstolo da ignorância”.

Assim, ser idiota, moralista, picareta, sem-vergonha pode revelar (e revela) um lado mequetrefe da sociedade, mas não diz tudo. Ser alguma coisa disso tudo ou, pior, tudo, dessas coisas, junto, é para lá de comprometedor, social e politicamente falando. Todavia, é inominável se essas criaturas, que já carregam tais “defeitos de fábrica”, ainda forem antidemocráticas.

Diante de atos pró-ditadura e congêneres, apoiados por Bolsonaro, espero que o STF, provocado pela PGR, dê as respostas que o país precisa sobre as responsabilidades de seus inomináveis organizadores e financiadores.

Enquanto seguem as investigações, encerro com mais reflexões de Drummond, agora, de O avesso das coisas:

1ª) “O ditador não precisa atrasar o relógio; ele mesmo atrasa a História. Se os ditadores não tivessem algo de fascinante, ninguém pensaria em imitá-los. A diferença entre o ditador e o Presidente é que o primeiro costuma governar mais tempo”;

2ª) “... Resignamo-nos ao mau tempo, que é periódico, mas não nos acostumamos com os maus governos, que também o são...

 

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