Quarta, 22 Abril 2020 15:51

FLORES DOS ANOS 80 - Aldi Nestor de Souza

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Por Aldi Nestor de Souza*
 
 

Os cordões umbilicais eram tratados com fumo de rolo esfarinhado. Não havia luz elétrica. Carro era aqui acolá, de passagem, na carroceria de um caminhão. As letras eram basicamente sagradas e distantes.  As mãos eram, por óbvio,  calejadas. As notícias graúdas, de longe, das guerras, das pestes, andavam em cordéis e chegavam muito tempo depois. O sol determinava as horas. A lua ajudava no plantio. A chuva era prevista pelas pedras de sal postas no telhado. A ciência era basicamente experiência e tradição. A simbiose com a natureza era uma obrigação. Ainda se mantinha relação direta com os quatro elementos. O mundo governado pelas mercadorias parecia algo muito distante e incompreensível.

Ela, que nunca tinha arredado o pé dali, sabia transformar uma semente de algodão numa blusa, posto que dominava a arte do plantio, da colheita, do fiar, do tecer, do costurar. E tudo produzido naquelas rocas, naqueles fusos, naqueles teares rudimentares, improváveis, inacreditáveis. Naquelas máquinas de costurar a sobrevivência. Naqueles bastidores de bordar o dia a dia. Naquelas tardes sem tamanho.

Ela, que do plantio à xícara, também sabia dar todos os termos ao café; que da casca dos troncos dos juazeiros sabia fazer xampu e creme dental;  que sabia fazer sabão e tingir roupas e tecidos com lama; que sabia montar num cavalo, meter-se no meio da violência das juremas e ir dar conta de uma rês fugidia;  que sabia tirar leite e transformá-lo no mais delicioso dos queijos;   que sabia extrair fogo do choque de pedras.  Ela que achava ofensivo e incompreensível haver lugares onde as pessoas eram obrigadas a comprar água.

Foi inevitável pensar nela, e naquele mundo, quando, por esses dias, depois de mais de um mês convivendo com as consequências do vírus, com as mortes batendo recordes, vi o tilintar dos governantes e uma frota de aviões decolarem rumo ao outro lado do planeta, à China, em busca de uma compra de máscaras. Comprar máscaras na China? Certamente isso seria um espanto grande para ela. Talvez maior do que a esquisitice de se comprar água.

Que máscaras são essas? Do que são feitas? Por acaso é de algum derivado de petróleo? É de algodão? De algum outro tecido? Pensei nela, que parecia saber de tudo,  mas pensei também no desfile de tecnologias, as mais avançadas possíveis, que inundam o nosso dia a dia e que estão prestes a nos roubar todos os movimentos, toda nossa memória, todo nosso saber.  Afinal, que modo de vida é esse que prescinde de gente como ela, saberes como o dela e não dar conta de produzir máscaras? E para onde estamos indo? A quem serve tudo isso que sabemos e produzimos?

Pensei nessa forma de vida a que somos submetidos, amontoados em cidades, automáticos, alheios a tudo a nossa volta, sem saber nada do que produzimos, nada da natureza. Nessa ciência controlada nas mãos de muito poucos e submetida à tarefa urgente de virar tecnologia e, logo, uma mercadoria. Nessa poderosa engrenagem que, mesmo depois de um mês de calamidade, não nos permitiu bolar uma máscara.

Por força da pandemia,  essa engrenagem enlouquecedora parou por uns dias e já deu pra sentir o ar mais limpo; o céu mais vistoso; os animais em passeio, golfinhos nos canais famosos, leões descansando nas rodovias, faisões, pebas e tatus à vontade nos centros urbanos; o petróleo com preço negativo.

Pensei no dia em que ela, já com a idade em alta, passou a viver na cidade, à força, arrastada de seu canto pela ação de um projeto de desenvolvimento que tomou-lhe a terra. Pensei, particularmente, na hora em que, com os olhos embaçados, olhando para aquele amontoado de casas enfileiradas, para aquele monte de gente indo e vindo, ela disse: não há nada que eu saiba fazer nesse lugar.

O que ainda resta de comunidades como a dela, dos quilombos, dos povos tradicionais, vive sob ameaça constante de morte, de desaparecer, na iminência de perder suas terras, de perder suas culturas, de dar lugar ao progresso, de ceder ao fetiche da mercadoria.

Ela, que por acaso era mina mãe, na verdade representava todos daquele mundo. Mundo que viu os anos de 1980 nascerem e darem suas flores. Mundo que, com seus modos, com seu saber, com suas tradições, carregou a história da humanidade até ontem. O saber que vivia nela não era uma mercadoria, nem servia a nenhuma individualidade, era um saber cultural, de todos e compartilhá-lo era um ato de sobrevivência.

O mundo que não da conta de fazer uma máscara, que mata o saber das pessoas, que as transforma em vultos, em meras mercadorias, que alega não ter víveres de reserva  pra aguentar um mês,  acabou de nascer, ainda é um bebê em choro, ainda não sabe como tratar seu próprio cordão umbilical, ainda está em busca de algum fumo que lhe vede a sangria.

A promessa das flores dos anos 80 era a de, com seu cheiro, amenizar esse choro. Mas o que fizeram foi aprofundar o corte.

 

*Aldi Nestor de Souza é professor de matemática e pai de três.

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