Quinta, 29 Junho 2017 11:28

FÚRIA SEM LASTRO - Roberto Boaventura

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Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Em meu artigo anterior – “Furiosos no ar e em solo” – tratei da dificuldade que os antidemocráticos têm de estabelecer debates firmes e de forma respeitosa. Trouxe à tona esse tema por conta das agressões verbais que militantes do PT impuseram à jornalista Mirian Leitão durante um voo. Naquele artigo, eu disse que “não ter respeitado o pleno direito de opinar sobre o que se pensa é agressão que só sente quem por ela passa”.

Diante de meus artigos, dois grupos têm se destacado pela agressividade: séquitos do PT e cristãos, quando trato de política partidária e religião, respectivamente. Para a maioria que ajuda a compor tais quadros, algumas afirmações são inquietantes.

Comprovando: recebi, há pouco, agressiva mensagem eletrônica de uma leitora, que não omitiu sua identidade. Ponto positivo a ela. O anonimato é mais comum. Todavia, como a mensagem foi enviada ao meu endereço particular, preservo o seu nome.

Já no título de sua mensagem, a primeira agressão surge de forma genérica: “Professores comunistas deletando a vida dos jovens”. Em seu texto a mim dirigido, seu ódio amplia-se ao dizer: “Veja (sic.) aí o que vocês, COMUNISTAS DE BOUTIQUE, estão fazendo com a nossa juventude...”

Nas reticências que inseri, a leitora transcreve o endereço eletrônico do artigo “A história de uma geração que não cresceu”, publicado na Gazeta do Povo de 21/06/17. Seu autor é Rodrigo Neves, que indaga: “por que tantos jovens caem na lábia de socialistas radicais, como Sanders e Corbyn?”.

No primeiro parágrafo, Neves trata como “fenômeno recente na internet brasileira” as “piadas com as mudanças que os jovens sofrem após entrarem (sic.) na universidade”.

Nesse sentido, Neves afirma que “A página de Facebook ‘Antes e depois da Federal’, recorrentemente deletada pela administração da rede social... retrata casos que beiram quase a insanidade, em que adolescentes aparentemente normais e bem integrados se tornam figuras estranhas, caricatas ou simplesmente bizarras ao entrar em contato com o mundo da militância esquerdista nas universidades públicas brasileiras”.

No final do segundo parágrafo, Neves fala de “...jovens de aparência, sexualidade e ideias confusas se manifestando como militantes radicais de esquerda”. No restante do texto, o articulista reflete sobre o que explicaria “essa relação tóxica dos jovens com o socialismo”.

Quanto preconceito! Quanta discriminação! Quanta desinformação!

Resposta encontrada por Neves: “Simples: a hegemonia da esquerda não só nos meios de imprensa, mas também nos meios educacionais..."

Acreditar que o pensamento “gauche” seja predominante na mídia e no meio educacional é chamar para o riso. A mídia convencional é sistêmica; portanto, defende os valores do capital. Algum veículo da mídia está, p. ex., se opondo às “reformas” do governo brasileiro, que são imposições do capital? Logo...

Nas universidades, a cara essência do pensamento “gauche” é para pouquíssimos; até porque isso demanda muitas e aprofundadas leituras. A maioria dos docentes universitários sequer se considera trabalhadora. Logo...

O pensamento “gauche”, nas universidades, é igual a uma andorinha no verão. As “figuras estranhas, caricatas, bizarras” – identificadas por Neves – são minoria dentre os acadêmicos. Detalhe: dessa minoria, a maioria sequer sabe o que é norte e sul, quem dirá direita e esquerda. Mais: a maioria dos estudantes universitários é a cara da sociedade: conservadora, preconceituosa e desinformada; ou seja, é “selfie” da direita.

 

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