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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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JUACY DA SILVA*

 

Neste final de semana, entre hoje 18 até segunda feira, 21 de junho de 2021, o Brasil estará registrando dois acontecimentos extremamente tristes. Estaremos contabilizando MEIO MILHÃO DE MORTES POR COVID-19, além de o país estar registrando 18 MILHÕES de casos do coronavirus, não são números, nem estatísticas, são seres humanos que tinham e tem o direito `a vida, direito de serem felizes, com nomes, sobrenomes, com sonhos, esperanças, histórias de vidas,  milhões de pessoas que foram infectadas, muitas, centenas de milhares dessas que foram internadas, estiveram entre a vida e a morte, entubadas, trazendo sofrimento para si mesmas e para seus familiares e quase meio milhão de vitimas que sucumbiram, deixando apenas lembranças e muito sofrimento para familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho, gente que jamais poderemos nos esquecer.

Enquanto isso, nossos governantes, principalmente a cúpula do Governo Federal, capitaneada por Bolsonaro e seus seguidores, alguns governadores, prefeitos, politicos com mandatos ou sem mandatos, gestores, empresários e até mesmo profissionais da saúde, parece que vivem em outro país, em outro mundo onde a covid esteja ausente.

O negacionismo `as vezes se apresentava e se apresenta com escárnio, com galhofas e piadas de mal gosto, ante o medo , angustia e sofrimento que a pandemia provoca na população como um todo, além do sofrimento e morte de tanta gente. Se um dia as pessoas resolverem fazer um corte temporal e analisarem os dados estatísticos (que o governo federal em determinado momento tentou “maquiar” ou impedir que se tornassem de conhecimento público, obrigando a que um grupo de veiculos de imprensa formassem um consórcio para continuar mostrando para a população toda a verdade, nua e crua, do estrago que a COVID-19 estava e continua provocando em nosso país), vai se deparar com números absurdos, cenas tristes, fatos e imagens  estarrecedoras como o congestionamento de ambulâncias nas portas de unidades de saúde e de hospitais, de carros funerários congestionando as entradas de cemitérios, as filas da morte, constituidas por pessoas que aguardaram e ainda aguardam dias, semenas e até meses por um leito de enfermaria ou um leito de UTI.

Para muitas dessas pessoas a vaga em um leito hospitalar chegou ou chega tarde demais e milhares acabaram morrendo, diante dos olhos de profissionais da saúde ou de seus familiares, da mesma forma que milhares morreram sufocadas por falta de respiradores ou até mesmo por falta de oxigênio nos hospitais, como na crise de Manaus e outros estabelecimentos de saúde no país.

Enquanto isso, os seguidores do “mito” continuam, seguindo seu chefe,  espalhando “fake news”, combatendo todas as medidas que a OMS e a comunidade médica e de cientistas recomendavam, como o isolamento, distanciamento social, evitar aglomerações, o uso de máscaras, a higienização das mãos, enfim, cuidados básicos e necessários para evitar o contágio, impedindo que o coronavirus ampliasse sua ação nefasta, fatal e mortífera.
Desde o inicio da pandemia, quando em 26 de fevereiro de 2020 foi registrado o primeiro caso e em 17 de março do ano passado quando foi registrada a primeira morte de uma pessoa infectada por COVID-19, o negacionismo instalado na cúpula do governo federal e também em empresas, em diversos estados e municípios, principalmente governados por politicos e gestores públicos NEGACIONISTAS, que, por não acreditarem na letalidade do coronavirus, não planejaram, nem planejam ações racionais, de emergência ou rotineiras, para confrontarem esta pandemia. Tratam as pessoas como objetos descartáveis.

Além disso, os registros desta triste fase de nossa história registram, para que no futuro os estudiosos possam analisar como a negligência, a incompetência, a falta de ética, a corrupção e a visão distorcida da realidade e dos fatos contribuiram e ainda estão contribuindo para que neste final de semana estejamos registrando números absurdos de casos e de mortes em nosso país.

Esta negligência e negacionismo estão presentes também na visão canhestra de quem deveria zelar pela saúde da populacão, tanto em relação `as vacinas, cujas mensagens que tem passado tem um caráter dúbio ou de negar a eficiência das mesmas e sua fixação, ou seja, idéia fixa a respeito do que tem sido chamado de atendimento precoce ou tratamento precoce, tentando favorecer o uso de medicamentos, cuja eficácia científica jamais foi comprovada, na vã suposição de que esse tipo de curandeirismo oficial possa barrar o avanço do coronavirus, da mesma forma que alguns líderes religiosos, seguidores do negacionismo, tentam enganar o povo com tratamentos mágicos, tentando minorar o caos e a falência de nossos sistemas de saúde.

No dia 20 de junho de 2020 o Brasil registrava 1.070.130 casos de pessoas que tinham sido infectadas desde o inicio da pandemia e, naquele mesmo dia, ou seja, há um ano, nosso país contabilizava 50.058 mil mortes pela COVID-19. Em um ano o número de mortes por covid 19 foi multiplicado por dez, praticamente e o de casos quase 18 vezes.

Neste final de semana, como apontamos no inicio desta reflexão, estaremos contabilizando 500.000 mortes e 18 MILHÕES de casos de covid 19, continuamos,  como terceiro país em número de casos e segundo em número de mortes, neste campeonato macabro.

O primeiro lugar, tanto de mortes quanto de  casos registrados são os Estados Unidos, que durante pouco mais de um ano de pandemia, foi governado por Trump, um negacionista de carteirinha, a quem Bolsonaro e seus fiéis escudeiros seguiam de forma quase religiosa, com alinhamento ideológico automático, que tem uma população de 330 milhões de habitantes, que atualmente registra 35,5 milhões de casos e mais de 600 mil mortes, cujo índice de letalidade é de 1,69%(número de mortes por covid-19 em relação percentual com o número de infectados), enquanto no Brasil este índice é de 2,80%, o terceiro maior do mundo.

O segundo país em numero de casos é a índia, com 29,7 milhões e 381 mil mortes por covid, em que pese que aquele país tenha 1,38 bilhão de habitantes, apontando para um índice de letalidade de 1,29%, ocupando a 14a. posição entre os 15 países com maiores números de casos e de mortes no planeta.

Vale destacar que a Índia tem 6,5 vezes mais população do que o Brasil e muito menos mortes por covid 19, em torno de 381 mil, enquanto o Brasil ostenta MEIO MILHÃO DE MORTES decorrentes desta pandemia.

Outro dado que chama a nossa atenção é o fato de o Estado de São Paulo, considerado a “locomotiva” do Brasil, que tem 46,3 milhões de habitantes (21,9% da população do Brasil), é responsável por 32,6% do PIB brasileiro, ostenta os melhores índices sócio-econômicos , inclusive a melhor rede e sistema de saúde entre os estados brasileiros, no entanto,  desde o inicio da pandemia São Paulo ostenta dados absurdos, tanto de casos quanto de mortalidade e letalidade por coronavirus.

O estado de São Paulo tem população praticamente igual a da Espanha e de forma absurda, apresenta um índice de letalidade de 3,40% (ou seja, de cada 100 pessoas infectadas por coronavirus pouco mais de 3 acabam morrendo), enquanto este índice na Espanha é de “apenas” 2,15%; praticamente igual `a media mundial que é de 2,17%, tanto o Estado de São Paulo, cujo governador aspira ser o próximo Presidente, quanto o Brasil tem índices de letalidade muito superior `a media mundial e dos paises do G20.

Em razão da falta de interesse e até mesmo as ações contrárias e omissões do governo Federal em relação `as vacinas contra o coronavirus, conforme a CPI instalada no Senado da República, com a finalidade de investigar as responsabilidade, principalmente do Governo Federal em relação a esta catástrofe e crise sanitária, sem precedentes, que estamos vivendo no país, tem demonstrado sobejamente, o Brasil nesta área da imunização da população contra a COVID-19, está muito ruim na foto, como costuma-se dizer.

Dados recentes da CNN informam que em 05 de maio útlimo o Brasil ocupava a 58a. posição no ranking mundial da vacinação, percentual de vacinados em relação `a populacao total do país e, apesar do discurso oficial, inclusive do atual ministro da saúde, que segue a mesma cartilha de seu antecessor no sentido da famosa frase em relação ao Presidente “um manda e o outro obedece”, General Pazuello, ambos que prestaram depoimentos na CPI e devem figurar a partir deste final de semana como investigados e não mais como testemunhas, apesar de todo este “lero lero” oficial, há tres dias, em 14 deste mes de junho de 2021, o Brasil caiu para a 68a. posição no ranking mundial da vacinação, atraz de países cujas estaturas estratégicas e tamanho da economia são muito menores do que o nosso país.

Estudo recente, já requisitado e entregue `a CPI, demonstra a responsabilkidade tanto da administração federal quanto do proprio Presidente no avanço da pandemia em nosso país, atingindo os patamares que aterrorizam a população.

Vale a pena ler o referido estudo, que inicialmente foi veiculado em Janeiro último no Jornal El Pais e agora, por requisição da CPI atualizado até o último mes (maio de 2021), cujo trecho inicial nos oferece um panorama muito diferente das versões oficiais.

“A pedido da Comissão Parlamentar de Inquérito, pesquisadores do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa), ligado à Universidade de São Paulo (USP), atualizaram a pesquisa Mapeamento e análise das normas jurídicas de resposta à Covid-19 no Brasil. Uma versão preliminar havia sido publicada em janeiro de 2021. Na atualização, o período estudado vai até o fim de maio deste ano. Para chegar às conclusões, a equipe se debruçou tanto sobre manifestações públicas de Jair Bolsonaro e outras autoridades quanto sobre atos administrativos, como a publicação de normas federais. Ao fim, os especialistas são taxativos e dizem que o conjunto de evidências comprovam que Bolsonaro buscou a imunidade de rebanho dos brasileiros sem vacina, mesmo sabendo que a estratégia provocaria milhares de mortes que outras medidas poderiam evitar”.

Ante os indicadores, tanto em termos de número de novos casos, taxa de transmissibilidade, que nos últimos dias tem atingido 1,07 , ou seja, que cada 100 pessoas infectadas, muitas assintomáticas e outras que só descobrem que estão doentes ao serem internadas, já que o Ministério da Saúde, as secretarias estaduais e municipais de saúde, jamais realizaram uma campanha massiva de testagem, para identificar a realidade do número crescente de pessoas infectadas, ou seja, cada grupo de 100 pessoas infectadas pela COVID-19, acabam infectando outras 107 e assim, a velocidade de contágio aumenta assustadoramente, principalmente com as novas CEPAS, mais letais e de maior transmissibilidade.

Quando da primeira onda, em meados do ano passado, durante pouco mais de 30 dias o número de mortes diárias por covid foi pouco superior a mil vitimas e nos útlimos seis ou sete meses, em 147 dias o patamar de mortes diárias foi superior a mil, chegando em varios dias a ser superior a dois mil ou próximo de 3.000 mil vitimas.

Diante do colapso dos sistemas público e privado de saúde, `a falta de UTIs e leitos de enfermaria, falta de insumos, medicamentos, pessoal técnico especializado, oxigênio, do “kit entubação”, a morosidade na produção e/ou importação de vacinas e insumos (IFAs), `a morosidade, ;lentidão e desorganização na campanha de imunização, ao relaxamento da população e `a falta de ações coordenadas e continuadas entre os entes públicos federais, estaduais e municipais,  diversos analistas tem construido um cenário muito grave, dizendo que até o fim da pandemia, que pode durar muito mais do que imaginamos, talvez meses ou ainda mais de um ano, poderemos ter que enfrentar uma terceira ou quarta onda, o Brasil poderá aingir mais de 28 a 40 milhões de casos e não menos do que 850 mil ou até  mais de um milhão de mortes decorrentes da pandemia da COVID-19.

Os dados relativos a novos casos e novas mortes diárias, bem como a média móvel dos dois últimos meses, que no dia 16 deste mes de junho de 2021, apontavam 74.327 novos casos em 24 horas e uma média móvel de casos na ordem de 72.051, se projetados para um mes representariam  mais 2.161.530 novos casos e em um ano, a partir deste mes, atingiriam mais 26.341.846 casos, que, somados com os atuais casos (17,7 milhões), estariamos atingindo 44,0 milhões de casos.

Quanto `as mortes, nas últimas 24 horas (referência 16 de junho 2021) 2.335 vítimas, com uma média móvel de 2.007 óbitos. Aplicando o mesmo raciocínio para 30 dias seriam 60.210 mortes e em um ano 733.759, que somadas `as mortes já registradas totalizariam 1,22 milhões de vitimas fatais pela covid-19.

Convenhamos, este parece um cenário de horror, mas se considerarmos a evolução da pandemia no Brasil, principalmente deste Janeiro deste ano, este cenário pode ser concretizado, caso as coisas piorem ou continuem como estão no momento.

Logo nos primeiros meses da pandemia, em meados do ano passado, a Universidade de Oxford e outros cientistas apontavam que o Brasil poderia atingir mais de 300 mil mortes e mais de 10 milhões de casos, muita gente achou exagero,  no entando, mes após mes os números foram aumentando, tanto de casos quanto de mortes e chegamos onde estamos hoje (atualmente), uma tristeza e um absurdo.

Além da campanha da vacinação estar muito lenta, comparada com outros países que, praticamente, já estão retomando a uma “nova normalidade”, mesmo assim, diversas autoridades governamentais continuam apregoando uma mensagem negacionista, como há um ou dois dias, em que se tenta desacreditar as vacinas, afirmando que o contágio, ou o que é chamada de imunidade de rebanho ou coletiva, dizendo que a infecção é mais eficiente como imunização do que as vacinas, confundindo ainda mais a cabeça e a capacidade de reflexão crítica e racional por parte da população.
Todavia, parece que como já estamos iniciando uma nova campanha eleitoral, para Presidente, Governadores, Senadores, Deputados federais e estaduais, o assunto pandemia, coronavirus, falência dos sistemas de saúde, sofrimento e morte de tanta gente, nada disso estará, a partir de agora na agenda politica e governamental brasileira.

Vamos ter que continuar assistindo demonstrações democráticas e anti-democráticas, apelos para golpe e autoritarismo, carreatas, motociatas, em que os participantes, `a semelhança do que aconteceu com o Titanic, enquanto o transatlântico ia afundando, o baile, a música e a alegria continuavam enfim, o Brasil, no momento atual, diante da maior e mais grave crise sanitária de nossa história, se parece muito com o desastre do TITANIC, com o maestro e o timoneiro desviando a atenção dos passageiros, evitando que os mesmos percebessem ou percebam que o transatlântico (Brasil) estava naufragando.


Até quando? Só Deus e o povo sabem. Nos Estados Unidos um presidente negacionista recebeu cartão vermelho e com a chegada de um novo presidente, democrata, que valoriza a ciência, o planejamento, com objetivos e compromissos populares claros, definidos e capacidade de liderança, mudou radicalmente aquele cenário de sofrimento e morte.


Por lá, criancas com mais de 12 anos já estão sendo vacinadas e aquele país se dá ao luxo de ajudar outros países, principalmente os de baixa renda a terem vacinas para imunizar suas populações.


Esta é, talvez, a maior diferenca entre negacionismo, messianismo, obscurantismo, autoritarismo em comparação com lideranças preparadas, com estatura de estadistas, que, verdadeiramente, respeitam o povo, a democracia e estão preocupados com os destinos nacionais, com a sorte da população e com a imagem interna e internacional do país.


Se o Brasil não controlar rapidamente esta pandemia e outros desafios que tem pela frente, principalmente as questões ambientais/ecológicas, poderá ser condenado a ser um pária no contexto internacional, dificultando, sobremaneira o retorno das atividades em geral, principalmente as econômicas, inclusive o comércio internacional do país.


JUACY DA SILVA, professor fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Twitter@profjuacy

 

 

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JUACY DA SILVA*

A Igreja, tanto católica quanto evangélicas, ou seja, as Igrejas Cristãs, que representam o cristianismo enquanto religião, da mesma forma que outras religiões, cada vez mais devem pautar suas ações e terem suas bases teológicas ancoradas nas dimensões missionária, samaritana, solidária, mas também profética e libertadora.

Em um mundo cada vez mais injusto, materialista e consumista, que gera exclusão, fome, miséria e violência não se concebe que continuemos apenas ouvindo mensagens e sermões alienadores que estejam desconectadas da realidade dura e cruel em que vivem milhões e bilhões as pessoas, nas chamadas “periferias existenciais”.

A humanidade requer Igrejas e Religões que representem e estimulem a esperança tanto de uma vida após a morte, a salvação, e a eterminade junto a Deus, no Céu, ou Paraiso, enfim, em algum lugar onde reine a paz, a harmonia, onde não exista mais sofrimento, dor, exploração das pessoas; mas fundamentalmente, também a esperança de um mundo terreno melhor, onde não exista, de um lado tanta opulência, riqueza, poder e bens concentrados nas mãos de uma ínfima minoria e, de outro lado, a imensa maioria da população com uma vida miserável, de fome, pobreza, miséria, violência de toda ordem, injustiça, inclusive injustiça social e injustiça ambiental.

Se somos filhos e filhas de um mesmo pai, de um mesmo Criador, que deu/ofereceu seu Filho Único, que é o “Verbo Encarnado”, para redimir a humanidade do pecado, incluindo esses antes mencionados, como explicar tantas desavenças, tanta violência, tantos conflitos e guerras sangrentas, sofrimento e morte na familia humana? Este é o paradóxo que as igrejas e as religiões tentam explicar ou justificar, sem sucesso, ao longo de milênios.

Neste sentido, precisamos refletir mais sobre o papel das igrejas e das religiões, de todos os matizes, inclusive do cristianismo, no que concerne suas dimensões humanas, temporais e também transcendentais/espirituais. Quando falamos em igrejas e religiões, não podemos esquecer que além dos aspectos institucionais, também as mesmas são representadas por seus fiéis, seus adeptos e seus seguidores, afinal, são essas pessoas que demonstram, por atitudes, comportamentos e ações do dia-a-dia, tanto o compromisso ético, moral, espiritual quanto o compromisso social, econômico, ambiental e político com seus semelhantes.

A humanidade, imagino eu, requer igrejas e religiões que se comprometam mais , de forma efetiva, com a solidariedade, com a fraternidade, com a justiça, inclusive com a justica social, com o amor verdadeiro ao próximo, que tenham mais compaixão real com os que sofrem, com os excluidos, com as pessoas que são injustiçadas, perseguidas, discriminadas, violentadas, vilipendiadas. Este compromisso tem um nome, ação sócio-transformadora; ação libertadora, tanto no plano transcendental quanto no plano humano, histórico, social, econômico, ecológico e politico.

Se assim acontece, seus fiéis/adeptos, como seguidores das normas, doutrinas, como a Doutrina Social da Igreja, no caso da Igreja Católica e ensinamentos de tais igrejas e religiões, precisam pautar suas relações sociais, politicas, econômicas e culturais por principios éticos e morais que atestem na prática quais são os parâmetros que devem reger tais relações.

Podemos dizer que se os adeptos do cristianismo e do judaismo, que tem na Biblia, principalmente no Velho Testamento verdades sagradas e ali consta que Moisés recebeu de Deus a Tábua das Leis, contendo os dez mandamentos, não seriam necessárias tantas leis nas sociedades para coibirem, por exemplo, os homicidios,  o feminicídio, os roubos e furtos, a corrupção, o adultério e outros crimes, substrato que favorecem o surgimento e perpetuação da violência, da injustiça e de uma ordem sócio-econômica e politica injusta.

Precisamos de forma urgente, também, de Igrejas e religiões que respeitem mais as obras do Criador, inclusive um cuidado maior com o meio ambiente, com a ECOLOGIA INTEGRAL, enfim, que melhor possam cuidar da Casa Comum, como frequentemente tem exortado o Papa Francisco e diversas outros líderes religiosos mundo afora.

Só assim, as Igrejas, as religiões e seus adeptos, fiéis ou membros do “Corpo de Cristo” terão a credibilidade necessária como força transformadora da realidade circundante e também acenar com uma mensagem de salvação, como consta da Carta de Tiago, no capítulo 2: 14 e seguintes quando  diz textualmente que a Fé sem obras é morta, como a seguir transcrevo:”14 Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus e não fizer prova disso através de obras? Esse tipo de fé não salva ninguem. 15 Se um irmão ou irmã sofrer por falta de vestuário, ou por passar fome, 16 e lhe disserem: “Procura viver pacificamente e vai-te aquecendo e comendo como puderes”, e não lhe derem aquilo de que precisa para viver, uma tal resposta fará algum bem? 17 Assim também a fé, se não se traduzir em obras, é morta em si mesma. 18 Poderão até dizer: “Tu tens a fé, mas eu tenho as obras. Mostra-me então a tua fé sem as obras. Porque eu dou-te a prova da minha fé através das minhas boas obras!”

Vale ressaltar que as obras referidas ao longo dos textos sagrados não são obras apenas de natureza assistencial, que acabam sendo transformadas em assistencialismo e manipulação dos pobres e excluidos para interesses politicos imediatos de conquista e manutenção do poder, mas sim de obras de caridade sócio-transformadoras dessas estruturas injustas, razão pela qual a “caridade libertadora”, para utilizar um conceito da Caritas Brasileira, é a única que possibilita tanto romper com as amarras da exploração humana, do trabalho escravo e semi-escravo e outras formas de exploração, quanto colocar o bem comum, incluindo o meio ambiente, a serviço de todos.

Os frutos do chamada desenvolvimento, pouco importa os adjetivos que o acompanham, mesmo com o advento do conceito de desenvolvimento sustentável, não devem ser apropriados por uma minoria ínfima das sociedades ou do Estado, mas sim, melhor repartidos por todos que contribuiram para o enriquecimento da sociedade como um todo.

No caso da Igreja Católica essas ações e essas formas de caridade, seja a assistencial, a promocional e a libertadora, são realizadas pelas diversas pastorais e movimentos, com a ressalva de tais ações, pastorais e movimentos não podem ser caracterizadas ou vistas como ONGs, pois devem estar e sempre estão fundadas e fundamentadas no Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e nos ensinamentos contidos nas diversas Encíclicas.

Por exemplo, um ponto muito importante, imprescindível neste processo de uma Igreja em saida, missionária, samaritana e profética é que essas pessoas (colaboradores/animadores/agentes da Pastoral da Ecologia Integral, por exemplo, além dos demais fiéis e que representam o corpo da Igreja) sejam inseridas no processo, iniciando por uma formação básica a partir da leitura e reflexão dos documentos como Enciclica Laudato Si, Documento de Aparecida, Exortação Minha Querida Amazônia; um pouco mais sobre Doutrina Social da Igreja e outros artigos e livros já escritos sobre este tema (Igrejas proféticas, Ecologia Integral e pastorais da ecologia integral), para que a caminhada seja ancorada e inspirada pelo Evangelho, como costuma-se dizer “ pastoral não é apenas mais uma ONG”;  mas conforme a CNBB “Ação pastoral da Igreja no Brasil ou simplesmente pastoral é a ação da Igreja Católica no mundo ou o conjunto de atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão de continuar a ação de Jesus Cristo junto a diferentes grupos e realidades”.

Com certeza é um trabalho lento, passa pelo batismo, pela compreensao da fé que anima os fiéis, pela conversão, inclusive pela conversão ecológica, como afirma o Papa Francisco e isto, as vezes,  enfrenta resistências até mesmo dentro da Igreja ou tem dificuldade de uma maior adesão tendo em vista a enorme gama de atividades já em curso com outras pastorais, movimentos e atividades sobrecarregam pessoas que já estao engajadas.

Todavia, nem por isso devemos desanimar, precisamos preparar o terreno, preparar as equipes que vão plantar as sementes, regar, cuidar com zelo e carinho este trabalho que também faz parte da messe e onde a presença da Igreja é importante, fundamental e não pode estar ausente.

Finalmente, é  importante tambem destacar porque as Igrejas precisam estar calcadas, embasadas na dimensão profética. O que é uma Igreja profética? Porque uma Igreja Profética?

Para Alexis Parra, da organização “Catholic voices Chile”, uma Igreja profética “ tem que anunciar as boas novas do Evangelho, mas também denunciar as estruturas que geram e dão forma a todos os tipos de pecado”.

Em meu entendimento, isto significa que uma Igreja Profética não pode estar abraçada com os poderosos, os donos do poder, os que exploram e violentam o povo, esta Igreja não pode estar de costas para os que sofrem injustiças, deve estar mais próxima e voltada para os pobres, os excluidos e marginalizados.

De forma semelhante, uma Igreja profética não pode estar centrada em si mesma, em suas estruturas e hierarquias eclesiásticas, em seus ritos e práticas distantes da realidade de seus fiéis, alheias a tantos pecados, inclusive pecados econômicos, pecados sociais, pecados politicos (como a corrupção e o abuso de poder) e pecados ecológicos/ambientais que são cometidos na sociedade e afetam diretamente os mais frágeis, aprofundando o sofrimento das grandes massas, tornando a vida não apenas dificil mas quase impossivel para bilhões de pessoas.

Uma Igreja profética não pode ser conivente com o desrespeito aos direitos humanos, com a cultura da violência institucionalizada, inclusive praticada pelos agentes do Estado contra pessoas inocentes, geralmente os pobres, excluidos e marginalizados, enfim, grupos humanos vulneráveis.

Uma Igreja profética não pode fechar os olhos para as práticas do trabalho escravo ou semi-escravo, aos crimes ambientais, não pode se calar e fazer coro com o racismo, os preconceitos, o feminicío e tantas outras formas de violência que marcam profundamente não apenas as sociedades, mas, principalmente, a vida de dezenas ou centenas de milhares de familias das vitimas desta violência diuturnamente.

Uma Igreja profética não pode pactuar-se com as estruturas e relações de trabalho e de produção que geram desigualdades, o acúmulo de capital em poucas mãos, que degradam os ecossistemas/biomas, que impõem condições de vida indígnas aos trabalhadores e provocam sofrimento e mortes desnecessárias e desrespeitam todas as formas de vida.

Enfim, uma Igreja profética é aquela que esta ancorada nos Ensinamentos de Jesus, que tem suas práticas voltadas para a realidade tanto espiritual quanto temporal e que defende de forma efetiva e corajosamente todas as formas de vida e que jamais aceita toda e qualquer forma de injustiça, de violência e abuso contra as pessoas, principalmente os pobres, excluidos e marginalizados.

Com certeza uma Igreja Profética  precisa estar ancorada na Biblia, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, tanto nas exortações dos diversas profetas que sempre denunciaram o pecado e as injustiças de seu tempo quanto por Jesus, em seus ensinamentos.

Amós, Capítulo 2: 6 – 8, um desses profetas, assim fala quanto aos pecados e injustiças  cometidas pelos poderosos de Israel naquela época “Assim diz o Senhor: "Por três transgressões de Israel, e ainda mais por quatro, não anularei o castigo.Vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre. Pisam a cabeça dos necessitados como pisam o pó da terra, e negam justiça ao oprimido. Pai e filho possuem a mesma mulher e assim profanam o meu santo nome. Inclinam-se diante de qualquer altar com roupas tomadas como penhor. No templo do seu deus bebem vinho recebido como multa”.

 

Jesus, quando questionado pelos Fariseus e doutores da Lei quanto `as exortações de seus discípulos, não titubeia em responder-lhes “ Se esses se calarem, até as pedras clamarão” Evangelho de Lucas, 19:40.

 

A Biblia Sagrada, que é a única regra de fé e compromisso dos cristãos, destaca diversas passagens sobre a questão da injustiça, que é a mãe de todas as mazelas humanas, como algo contrária tanto aos desígnidos de Deus quanto `a vida humana.

Isto pode ser observado, por exemplo, em algumas citações bíblicas como em: Provérbios 22:8 – “Quem semeia a injustiça colhe a maldade; o castigo da sua arrogância será completo”, 16:8 – “É melhor ter pouco com retidão do que muito com injustiça”.

 

1 Coríntios 13:6 – “O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”. 1 João 1:9 – “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”.

Jeremias 17:11 – “O homem que obtém riquezas por meios injustos é como a perdiz que choca ovos que não pôs. Quando a metade da sua vida tiver passado, elas o abandonarão, e, no final, ele se revelará um tolo”.

Provérbios 29:27 – “Os justos detestam os desonestos, já os ímpios detestam os íntegros”.19:5 – “A testemunha falsa não ficará sem castigo, e aquele que despeja mentiras não sairá livre”. Deuteronômio 16:19 – “Não pervertam a justiça nem mostrem parcialidade. Não aceitem suborno, pois o suborno cega até os sábios e prejudica a causa dos justos”.

Colossenses 3:25 – “Quem cometer injustiça receberá de volta injustiça, e não haverá exceção para ninguém”. Romanos 1:18 – “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça”;  2:6-8 – “Deus “retribuirá a cada um conforme o seu procedimento”. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça”.

Com certeza uma Igreja Profética e seus fiéis podem contribuir de uma maneira muito importante para construirmos um mundo, uma sociedade melhores, onde possam reinar a justiça, a justica social e ambiental, a solidariedade, a fraternidade e o respeito por todas as formas de vida, enfim, uma vida humana mais igualitária e com equidade.

Este é um dos grandes desafios que se apresentam na atual caminhada não apenas da Igreja Católica, mas de todas as Igrejas Cristãs e também de tantas outras religiões, ou seja, o que podemos fazer para termos Igrejas e religiões, verdadeiramente, mais solidárias e mais proféticas, principalmente em tempos tão difíceis como o que estamos atravessando no mundo todo e também no Brasil na atualidade.

 

*JUACY DA SILVA, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Twitter@profjuacy

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