Sexta, 20 Março 2026 18:35

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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 Juacy da Silva* 

 

Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.

Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então, em 21 de março, com o objetivo de despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem-estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.

Sem florestas, os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores, como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.

As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que são produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.

Com a destruição das florestas, seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeito estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” embaixo das florestas são liberados, contribuindo ainda mais para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.

Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e, mais ainda, a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.

No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas. Demorou e ainda está demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário, percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão, têm um impacto profundo não apenas na economia, mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.

De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso país até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não têm mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.

Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas pode ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.

O desmatamento, queimadas, áreas degradadas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que têm florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.

Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de hectares de florestas nativas.

Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, a destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.

O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas, como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrâneas, como os aquíferos, são afetadas drasticamente, contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil, que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.

De forma semelhante, a questão da água ou das águas tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.

Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra, é que, por resolução da ONU, foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então, a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.

Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação à questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.

Tendo em vista tanto o desmatamento quanto as queimadas e a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água, que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação da qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.

Quando refletimos sobre a questão da água, não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.

Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso à água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 agosto 2025).

Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.

Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes têm considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas às leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.

Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.

Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural, o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.

Em relação à água tratada, potável e de qualidade, a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais de 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos, que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.

A falta de acesso à água potável, tratada, tem causado a morte de 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de COVID-19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.

De forma semelhante, também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.

Em 2024, no Brasil, por exemplo, mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados à falta de saneamento, à falta de água tratada, causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.

Tanto em relação ao desmatamento quanto às queimadas, à destruição das nascentes, à erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área, o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Paris.

Em relação às questões da água e do saneamento básico, a situação também não é nada animadora. Alguns estudos indicam que, se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas forem mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Até lá, centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos, vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.

Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, como sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. 
E- mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

 

 

Sexta, 20 Março 2026 18:25

 

 

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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind. 

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Danilo de Souza* 

  

A transição energética costuma ser apresentada como uma trajetória linear rumo a um futuro inevitavelmente mais limpo e, supostamente, mais barato. No entanto, quando deslocamos o debate do plano ambiental para o plano econômico, surge uma pergunta incômoda: existem hoje exemplos consolidados de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam, ao mesmo tempo, estruturalmente baratas? Se formos rigorosos, a resposta é desconfortável. Não há, entre as grandes economias do G20, um modelo inequívoco que combine alta penetração de fontes de baixo carbono com tarifas sistematicamente baixas ao consumidor final.

O gráfico que relaciona a participação de eólica e solar nos países do G20 com o preço médio da eletricidade em 2023 demonstra uma relação que não pode ser ignorada: países com maior participação dessas fontes variáveis atualmente apresentam preços mais elevados. Alemanha, Espanha e Holanda aparecem com alta penetração de eólica e solar e, simultaneamente, tarifas significativamente superiores à média. A correlação não prova causalidade, mas levanta uma hipótese estrutural: à medida que cresce a participação de fontes intermitentes, cresce também a complexidade, e o custo, do sistema elétrico.

 

 

É fundamental compreender que o custo de uma matriz de baixo carbono não se resume ao custo de geração por megawatt-hora. Eólica e solar, isoladamente, podem apresentar custos competitivos em leilões. Contudo, quando sua participação no sistema se amplia, surgem exigências adicionais: reforço de redes, expansão de transmissão, sistemas avançados de controle, serviços ancilares, reserva de capacidade, armazenamento e usinas de respaldo. Não se trata apenas do painel ou do aerogerador, mas de toda a infraestrutura que permite que essas fontes operem com segurança e estabilidade.

Há também um fator material e industrial relevante. A expansão maciça de renováveis variáveis exige grande volume de aço, cobre, silício, terras raras, semicondutores de potência e, principalmente, baterias quando se busca maior firmeza energética. A densidade energética dessas fontes é menor do que a dos combustíveis fósseis, o que implica maior ocupação territorial e maior quantidade de equipamentos por unidade de energia efetivamente firme. O investimento por megawatt confiável tende a aumentar quando se internaliza a necessidade de armazenamento.

Essa realidade ajuda a explicar por que ainda não temos exemplos claros de matrizes amplamente “descarbonizadas” que sejam estruturalmente baratas sem subsídios relevantes ou mecanismos regulatórios de compensação. Em muitos países europeus, parte do custo da transição foi absorvida por tarifas mais elevadas ou por políticas públicas de incentivo financiadas pela sociedade.

O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição peculiar nesse debate. Diferentemente da maioria dos países do G20, cuja base elétrica é fortemente térmica, a matriz brasileira é predominantemente hidrelétrica. Historicamente, a presença de grandes reservatórios conferiu ao sistema elétrico brasileiro uma vantagem estrutural: a capacidade de armazenamento natural. A água acumulada funciona como mecanismo de modulação, permitindo compensar a variabilidade da geração eólica e solar.

Essa característica reduz, em tese, a necessidade imediata de grandes bancos de baterias ou de expansão térmica para equilíbrio sistêmico. A complementariedade entre hidrelétricas, eólica e solar coloca o Brasil em posição diferenciada na construção de uma matriz de baixo carbono.

No entanto, essa vantagem não se traduziu automaticamente em tarifas baixas. Quando observamos o G20, o custo médio da eletricidade no Brasil é significativamente elevado, mesmo sendo um dos países com maior participação de fontes renováveis e com forte base hidráulica. Esse dado desafia simplificações.

Por que isso ocorre? Parte da resposta está fora da geração propriamente dita. Além dos excedentes e das acumulações, a tarifa brasileira incorpora encargos setoriais, subsídios cruzados, políticas públicas embutidas, custos de transmissão em um país de dimensões continentais e ineficiências estruturais acumuladas ao longo do tempo. Ou seja, a matriz pode ser de baixo carbono, mas o sistema como um todo carrega complexidades institucionais e econômicas que pressionam o preço final.

Além disso, a expansão recente de eólica e solar no Brasil também exige investimentos crescentes em transmissão e controle sistêmico, especialmente para escoar energia do Nordeste para os principais centros de carga. A interligação regional é um ativo estratégico, mas não é gratuita.

Outro ponto frequentemente negligenciado é que a expansão hidrelétrica encontra limites ambientais, sociais e hidrológicos. Eventos climáticos extremos e períodos prolongados de seca reduzem a confiabilidade plena dos reservatórios. Isso obriga o acionamento térmico ou a importação de energia, elevando custos.

Portanto, mesmo no caso brasileiro, que possui uma das matrizes mais renováveis do mundo, não há evidência automática de que baixo carbono signifique baixo custo. Pelo contrário, o custo da energia se dá além das questões técnicas, pelo grau de organização dos consumidores. De maneira que, uma matriz de baixo carbono estruturalmente barata não é um ponto de partida, é um projeto.

O desafio central é sistêmico. À medida que cresce a participação de fontes variáveis, aumenta a necessidade de redundância e sofisticação operacional. O custo não está só na geração, mas na arquitetura do sistema. Confundir custo marginal momentâneo com custo estrutural médio é um erro recorrente no debate público.

Isso não significa que uma matriz de baixo carbono e baixo custo seja impossível. Significa que ela não surge espontaneamente. Ela exige planejamento energético rigoroso, estabilidade regulatória, modernização tecnológica, coordenação entre expansão de geração e infraestrutura de rede e revisão constante de incentivos econômicos.

Um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre a expansão das fontes renováveis variáveis diz respeito ao papel crescente das redes elétricas na coordenação do sistema. Historicamente, os sistemas elétricos foram estruturados em torno de grandes geradores despacháveis que ajustavam continuamente a oferta de energia às oscilações da demanda. Nesse arranjo, a rede desempenhava sobretudo uma função passiva de transporte de eletricidade. Com o avanço da geração eólica e solar, do armazenamento e de tecnologias de gestão da demanda, essa lógica começa a se transformar. A rede passa a assumir uma função ativa de coordenação entre múltiplos recursos energéticos, garantindo o acoplamento entre produção e consumo em tempo real e permitindo que diferentes fontes, muitas delas intermitentes e dispersas, operem de forma integrada no sistema elétrico.

Essa mudança implica uma revisão conceitual importante. Em vez de ser compreendida apenas como infraestrutura de transporte de eletricidade, a rede passa a atuar como provedora de flexibilidade energética. Em outras palavras, ela viabiliza o direito de dispor de potência quando e onde ela é necessária, articulando geração centralizada, geração distribuída, armazenamento e controle de carga. Nesse contexto, o valor econômico do sistema elétrico não depende apenas do custo marginal de geração, mas também da capacidade institucional, tecnológica e regulatória de coordenar um conjunto cada vez mais diversificado de ativos energéticos.

A transição energética global é desejável do ponto de vista ambiental e estratégico, mas representa uma transformação estrutural profunda, que envolve investimentos elevados, uma crescente complexidade sistêmica. Nesse contexto, a expansão de fontes intermitentes não se limita à substituição de tecnologias de geração, mas também exige maior sofisticação na organização do setor elétrico e na gestão das redes. O Brasil possui vantagens comparativas relevantes, como uma base hidrelétrica flexível, elevado potencial eólico e solar e um sistema interligado nacional, mas converter essas condições em uma matriz simultaneamente de baixo carbono e estruturalmente barata dependerá menos de discursos e mais de engenharia, governança e planejamento energético de longo prazo. Até o momento, alcançar uma matriz que combine descarbonização profunda com baixo custo permanece um desafio aberto no mundo.

 

OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".

 

*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.

 

Sexta, 20 Março 2026 10:15

 

A Diretoria da Adufmat-Ssind, no uso de suas atribuições regimentais, convoca todos os sindicalizados para Assembleia Geral Ordinária PRESENCIAL a ser realizada na sede da Adufmat-Ssind, em Cuiabá, e nas subsedes de Sinop e Araguaia:

 

Data: 25 de março de 2026 (quarta-feira)

Horário: 13h30 (Cuiabá) com a presença mínima de 10% dos sindicalizados e às 14h, em segunda chamada, com os presentes.

Pauta:

1. Informes;
2. Análise de conjuntura; 
3. Informes qualificados do 44º Congresso do Andes-SN; 
4. Estatuinte da UFMT;
5. Ações de solidariedade a Cuba.

 

A Assembleia será presencial e ocorrerá simultaneamente no auditório da sede da Adufmat-Ssind, em Cuiabá, e nas subsedes dos campi de Sinop e Araguaia.

 

 

Cuiabá, 20 de março de 2026

Gestão Adufmat é pra lutar!

Quinta, 19 Março 2026 14:20

 

De 26 a 29 de março, Porto Alegre (RS) sediará a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O encontro reúne mais de 100 organizações e movimentos comprometidos com o enfrentamento ao avanço da extrema direita e à escalada autoritária, que ameaçam direitos sociais, liberdades democráticas e a própria democracia em diferentes países.

A abertura ocorrerá na quinta-feira (26), às 14h, com o Fórum de Autoridades Antifascistas, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Às 18h, será realizada a Marcha de Abertura da Conferência, com concentração no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público.

A programação inclui ainda conferências e painéis temáticos, construídos de forma plural e participativa, que abordarão temas como o avanço da extrema direita no mundo, o enfrentamento ao neoliberalismo e ao imperialismo, a solidariedade entre os povos, além de pautas como feminismo, antirracismo, defesa da educação pública, direito à comunicação e combate ao negacionismo climático.

A conferência contará também com atividades autogestionadas, com o objetivo de fortalecer a articulação entre organizações, movimentos sociais, juventudes e militâncias populares. O ANDES-SN está entre as entidades que irão realizar essas atividades ao longo do encontro.

No sábado (28), na sede da Secretaria Regional RS do Sindicato Nacional, ocorrerão dois debates organizados pelo sindicato. Das 8h30 às 10h30, será realizada a atividade “Feminicídio e Transfeminicídio como resultado do projeto da extrema direita no Brasil e na América Latina”, com a participação das diretoras do ANDES-SN, Letícia Carolina Nascimento e Emanuela Rútila.

Na sequência, das 11h às 13h, ocorrerá o debate “Os ataques imperialistas na Venezuela e os impactos na América Latina”, com Luis Bonilla-Molina, professor visitante da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e integrante da organização Otras Voces en Educación, e Osvaldo Coggiola, diretor do Sindicato Nacional.

Caravana do FNDC

O ANDES-SN também está apoiando a atividade autogestionada do Fórum Nacional pelo Direito à Comunicação (FNDC). A Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação terá sua primeira parada na I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, também no dia 28 de março.

Serão duas atividades autogestionadas, a partir das 14h, na sede do Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul. O primeiro debate “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo”, contará com a participação do Encarregado de Imprensa e Divulgação do Sindicato Nacional, Diego Marques. O diretor do ANDES-SN dividirá a mesa com Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, Letícia Cesarino, professora da UFSC, Federico Pita, editor de Negrx e do jornal Página 12 da Argentina, e Sérgio Amadeu, professor da UFABC.

A segunda atividade, “Propostas para soberania nas comunicações”, ocorrerá a partir das 16h. Estarão na mesa Helena Martins, Ergon Cugler, Admirson Ferro Júnior (Greg), Mateus Azevedo, José Nunes e Walter Lippold. A inscrição para as mesas do FNDC pode ser feita aqui.

Encerramento

A conferência será encerrada no dia 29 de março, com uma Assembleia Geral, que deve aprovar a “Carta de Porto Alegre”. O documento pretende consolidar uma articulação internacionalista em defesa da democracia e da soberania dos povos.

A programação completa pode ser acessada aqui.

 

Fonte: Andes-SN  

Quinta, 19 Março 2026 14:13

 

 

Publicação reforça o compromisso entre a atuação sindical e a produção científica

 

Lançada em 1991, no décimo aniversário de fundação do ANDES Sindicato Nacional, a Revista Universidade e Sociedade nasceu como um instrumento fundamental de ação política e acadêmica. Um de seus maiores marcos históricos ocorreu logo na edição número 1, que trouxe uma entrevista exclusiva com o educador Paulo Freire, discutindo a universidade democrática e a alfabetização como prática de liberdade. A entrevista é reproduzida ao final desta matéria.

 

 

O surgimento da revista ocorreu em uma conjuntura extremamente complexa, alguns anos após o fim da ditadura empresarial-militar, com o objetivo de enfrentar o projeto ditatorial de Universidade e colaborar com o processo de redemocratização do país. Originalmente com periodicidade quadrimestral, a publicação passou a ser semestral a partir da edição 35, em fevereiro de 2005.

Entre as propostas para a criação da revista estavam constituir um fórum de debates de questões que diziam respeito à educação superior brasileira, divulgar trabalhos, pesquisas e comunicações de caráter acadêmico que abordassem e/ou refletissem as questões do ensino, cultura, artes, ciência e tecnologia, permitir troca de experiências, espaço de reflexão e discussão crítica favorecendo a integração dos e das docentes, e, ainda, oferecer espaço à apresentação de experiências de organizações sindicais de outros países, especialmente da América Latina, visando a integração e a conjugação de esforços em prol de uma educação libertadora.

“À medida que o mundo se converte numa tribo, a perspectiva internacionalista se impõe como uma exigência inadiável. Por insignificantes que possam parecer, há tarefas intransferíveis que cabem a nós, trabalhadores do setor da educação e ciência, que batalhamos no Brasil, em relação ao sindicalismo mundial. Omitirmo-nos a assumir nosso papel, será um desserviço à causa universal dos trabalhadores”, afirmou o editorial do primeiro número, assinado por Sadi Dal Rosso, editor do primeiro número e presidente do ANDES-SN entre 1988 e 1990.

Dal Rosso ressaltou ainda que a revista Universidade e Sociedade seria a única, no Brasil, a analisar a educação e a sociedade a partir da ótica da universidade, e a universidade e a educação, mediante as necessidades e as exigências do conjunto da sociedade. “Nesse sentido não poderá se fechar às questões internas da universidade. Estará, antes, constantemente aberta para acompanhar a caminhada do povo brasileiro, para cuja revolução social supõe que anteceda ou acompanha uma verdadeira revolução educacional”, destacou.

Trajetória e destaques editoriais

Ao longo de décadas, a revista registrou as principais lutas do movimento docente. O debate sobre a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), as contrarreformas do Estado, em diferentes governos pós redemocratização, que afetaram a educação, a previdência e os direitos trabalhistas, a expansão desordenada do ensino superior, a privatização e mercantilização da educação e da ciência e tecnologia, a saúde docente e o ensino a distância foram alguns dos tantos assuntos elaborados nos mais de 70 números da revista.

A Universidade e Sociedade também é um espaço de reflexão sobre temas cruciais para a sociedade e ajuda, inclusive, no registro histórico dos diferentes enfrentamentos da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo, ao longo das últimas três décadas.

As publicações trouxeram, por exemplo, denúncias sobre o suicídio de jovens indígenas Guarani, a violência policial contra as populações periféricas e os crimes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Trataram da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra por reforma agrária, das mulheres por mais espaço na política e no movimento sindical, as jornadas de Junho de 2013 e seus impactos, a crise climática e a necessidade de pensar uma outra forma de sociabilidade, entre outros temas de relevância.

Confira alguns destaques abaixo (acesse todas as publicações aqui): 

REVISTA 01 (Fevereiro 1991): Além da entrevista com Paulo Freire, abordou os desafios do movimento docente após dez anos de ANDES, a autonomia coletiva, o papel da universidade pública e trouxe reflexões de Florestan Fernandes e Ignez Navarro de Moraes sobre a "conciliação aberta" na LDB. A revista publicou ainda a Carta do Rio de Janeiro, documento síntese do I Encontro Latinoamericano de Organizações de Docentes de Instituições de Ensino Superior, realizado de 24 a 26 de outubro de 1990.

Revista 05 (Julho 1993): Focou na Revisão Constitucional, na relação entre Educação e Trabalho e apresentou uma entrevista com Dom Pedro Casaldáliga.

Revista 09 (Outubro 1995): Abordou a questão agrária e introduziu, pela primeira vez, o tema da Comunicação, debatendo o monopólio da terra versus o monopólio da comunicação e a necessidade de uma política de comunicação para o Sindicato Nacional.

Revista 12 (Fevereiro 1997): Trouxe um encarte especial sobre a LDB. O material analisou o processo de construção democrática da Lei nº 9.394/96 até sua aprovação, considerada antidemocrática, incluindo uma análise técnica de seus principais pontos.

Revista 13 (Julho 1997): Destacou o ensaio fotográfico "Terondera" ("Sem amanhã"), denunciando o genocídio moderno e o suicídio de jovens indígenas Guaranis no Mato Grosso do Sul devido ao avanço do agronegócio sobre as terras daquele povo.

Revista 15 (Fevereiro 1998): Apresentou uma entrevista histórica com o centenário jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que aos 100 anos defendia o nacionalismo contra o fracasso do governo FHC. A publicação trouxe também um Caderno Especial com a proposta do Plano Nacional de Educação (PNE), elaborada pela sociedade brasileira.

Revista 20 (Set/Dez 1999): Homenageou a resistência de Chiapas e o povo mexicano com a publicação de uma carta do Subcomandante Marcos a José Saramago, prêmio Nobel de literatura. A revista trouxe também a seção "Mulher & Sociedade", que discutiu ações afirmativas de gênero, saúde reprodutiva e estereótipos sexistas no ensino superior.

Revista 23 (Fev 2001): Realizou um resgate dos 20 anos do ANDES-SN, com síntese histórica, conjunto fotográfico e homenagem ao jornal do sindicato, InformANDES, como preservador da memória docente.

Revista 27 (Junho 2002): Debateu o binômio "Mídia e Poder", analisando o capital estrangeiro na mídia brasileira e a disputa de hegemonia pela comunicação sindical.

Revista 28 (Novembro 2002): Inaugurou a editoria "Debates Contemporâneos", tratando das mentiras da guerra no Afeganistão, a luta pela água e os fundamentos do teatro de Brecht.

Revista 29 (Março 2003): Sob o tema "Minorias Sociais e Luta de Classe no Brasil", fez história ao publicar o primeiro artigo de autores e autoras indígenas (Aurivan Truká, Pina Tembé, Dina XoKleng e Bruno Xavante), relatando suas experiências de luta e legitimidade das ocupações.

Revista 30 (Junho 2003): Focou na Seguridade Social e na contrarreforma da Previdência do primeiro governo Lula, analisando o valor estratégico da previdência pública e o impacto na categoria docente.

Revista 33 (Junho 2004): Analisou criticamente a contrarreforma universitária em curso no governo Lula.

Revista 37 (Março 2006): Edição especial dos 25 anos do ANDES-SN, com entrevistas sobre a militância política e sindical, além de debater a concepção de "universidade shopping center".

Revista 43 (Janeiro 2009): A publicação teve como tema a nova divisão internacional do trabalho e a América Latina: perspectivas e desafios. Trouxe também o dossiê “A OIT, ações do ANDES-SN e a Liberdade Sindical”, caracterizando as lutas pela organização nas instituições de ensino superior particulares e confessionais e as convenções da Organização Internacional do Trabalho.

Revista 44 (Julho 2009): Além de tratar da crise da economia capitalista e os desafios da universidade pública, incluiu o dossiê “Repressão Institucionalizada”, relatando, no calor dos fatos, os violentos acontecimentos na Universidade de São Paulo (USP), em junho de 2009, quando a administração superior da instituição fez uso da força policial dentro do campus contra docentes e estudantes.

Revista 45 (Janeiro 2010): Abordou a alienação e o estresse no trabalho docente e a reforma na Educação. Incluiu ainda o dossiê “Por um Haiti livre”, denunciando a deterioração da vida sob a ocupação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) e exigindo a retirada das tropas brasileiras.

Revista 46 (Junho 2010): Com tema "Política de Cotas na Universidade: Acesso, Permanência e Democratização", deliberado por decisão congressual,  a publicação reuniu 12 textos defendendo as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas como fundamentais para a coesão social e o combate ao racismo estrutural. A publicação trouxe um ensaio do professor Kabengele Munanga, sobre o papel do multiculturalismo, com relação à diversidade étnica.

Revista 47 (Fevereiro 2011): Número especial do 30º Congresso do ANDES-SN, revisitando as três décadas da entidade e das lutas, derrotas e vitórias da categoria docente.

Revista 51 (Março 2013): Refletiu sobre a crise capitalista e a histórica greve docente de 2012 em diversas universidades estaduais e também nas universidades federais. A paralisação das IFE durou quatro meses e unificou diversas categorias do serviço público federal.

Revista 53 (Fevereiro 2014): Trouxe artigos sobre educação, as Jornadas de Junho e a ordem pública numa era de violência, além de abordar a precarização do trabalho docente e da educação pública. A editoria “Atualidade em Foco”, trouxe um ensaio fotográfico das manifestações de junho de 2013.

Revista 57 (Janeiro 2016): Focou nas lutas sociais contra a agenda do capital e registrou a greve dos docentes federais de 2015 em sua seção de atualidades.

Revista 59 (Janeiro 2017): Discutiu os limites do capital em questões agrárias, urbanas e ambientais, com foco na flexibilização da legislação ambiental e biocombustíveis.

Revista 60 (Julho 2017): Abordou a dívida pública e as contrarreformas. Incluiu o ensaio fotográfico "Ousar lutar, ousar vencer" sobre o movimento #OcupeBrasília, que levou mais de 150 mil pessoas à capital federal contra a reforma da Previdência de Michel Temer e foi duramente reprimido pelas forças armadas.

Revista 62 especial (Junho 2018): Primeira edição especial da revista, abordou os 130 anos da abolição da escravidão, focando na resistência do povo negro, na luta por reparações e denúncias contra o trabalho escravo contemporâneo.

Revista Outubro 2019 (Especial América Latina): Edição bilíngue comemorativa do Dia do Professor e da Professora, analisando o projeto do capital para a educação superior em diversos países latinos e rememorando Paulo Freire.

Revista 66 (Julho 2020): Dedicada ao legado de Paulo Freire frente aos ataques intensificados à educação e ao desastre econômico precipitado pela pandemia de Covid-19, sob o governo do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.

Revista 67 (Janeiro 2021): Analisou o binômio "Pandemia e Educação", criticando o Ensino Remoto e seus impactos na saúde mental e na destruição da universidade pública.

Revista 68 (Julho 2021): Comemorou os 30 anos da Universidade e Sociedade e os 40 anos do ANDES-SN. Incluiu uma "Página de Silêncio" em homenagem às vítimas da Covid-19, como o funcionário do ANDES-SN Marcos Goulart de Souza.

Revista 70 (Julho 2022): Debateu os desafios do retorno ao ensino e demais atividades presenciais e a resistência necessária para não deixar o governo "passar a boiada" no orçamento destinado ao ensino superior público.

Revista 71 (Fevereiro 2023): Analisou o fenômeno anti-ciência e o negacionismo, o Novo Ensino Médio, os reflexos do trabalho remoto na saúde de docentes universitários. Trouxe a reportagem fotográfica "Derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas", que registrou a luta da categoria docente contra o governo de extrema direita.

Revista 73 (Fevereiro 2024): Resgatou a história do movimento docente no marco dos 60 anos de resistência à ditadura empresarial-militar.

Revista 74 (Julho 2024): Reafirmou a urgência da luta antirracista nas Universidades, Institutos Federais e Cefets.

Revista 75 (Janeiro 2025): Marcou o lançamento da seção Internacional, com textos bilíngues, além de uma análise ética e política da greve das universidades, institutos federais e cefets em 2024.

Revista 77 (Janeiro 2026): Edição lançada no 44º Congresso ,realizado em março deste ano, em Salvador (BA), no marco dos 45 anos do ANDES-SN, celebrados em 19 de fevereiro. A publicação aborda as resistências e desafios da categoria docente em universidades multicampi e em regiões de fronteira.

 


 

ENTREVISTA PAULO FREIRE: A PAIXÃO DE MUDAR, DE REFAZER, DE CRIAR…

*Reproduzida integralmente da Revista Universidade e Sociedade Nº 01, Fevereiro de 1991.

O ANDES - SINDICATO NACIONAL foi a São Paulo conversar com Paulo Freire, o educador brasileiro mais conhecido e premiado mundialmente. Paulo Freire falou de suas idéias sobre a Universidade, a educação em geral e de seu trabalho atual na Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

 

 

 

ANDES-SN: A Universidade não tem sido um tema tratado por você com frequência, pelo menos de modo explícito. Entretanto, a educação como prática da liberdade tem relação com a Universidade democrática. Como você vê esta relação?

PAULO FREIRE: 
De fato, explicitamente, não tenho falado muito da Universidade mas implicitamente sim. Isto não quer dizer que não me preocupe ou não goste da Universidade, aliás eu sou um professor universitário. O problema da Universidade Brasileira é que ela tem sido, em todos estes anos, elitista, autoritária e distanciada da realidade. Veja o problema do analfabetismo. Ela simplesmente o ignora, passa ao largo. É verdade que existem exceções. A Universidade Federal da Paraíba vem se preocupando com o problema, mas é preciso que outras, também, se voltem para estudar, pesquisar o problema da alfabetização de adultos e crianças. Embora o analfabetismo não seja um problema apenas pedagógico, a formação de nossos professores, por exemplo, precisa ser mais cuidada. É preciso que leiam autores como Emília Ferreiro, Vigotsky, Snyders e outros. Mas é importante que os textos sejam contextualizados. É preciso ler o mundo, ler a realidade de modo crítico. É preciso que a leitura da palavra seja precedida da leitura do mundo e, este não é um problema apenas da alfabetização, como possa parecer a alguns. Na Universidade, às vezes, os professores esquecem totalmente esta questão. Veja, quando o aluno trabalha com um texto ele, às vezes sequer contextualiza este texto. É necessário que ele situe o autor no tempo, que compreenda o momento em que o autor escreveu e relacione com o momento atual do leitor. Educador e educando precisam superar a postura ingênua e vivenciar uma prática concreta de construção da história. Em relação à questão da democracia é preciso muito mais, é preciso democratizar a Universidade por dentro e por fora. É preciso que um maior número de trabalhadores tenha acesso à Universidade mas também as relações internas da Universidade precisam ser democratizadas. Não basta eleger os dirigentes. Às vezes, nos apegamos a um certo ritualismo mecânico e não avançamos na democratização das relações entre os diferentes segmentos da Universidade. As relações entre professores e alunos precisam ser, de fato, relações educativas, dialógicas.

ANDES-SN: A alfabetização é um tema sobre o qual você inovou e, assim, se projetou mundialmente. Como você vê o problema no Brasil hoje?

PAULO FREIRE: 
É claro que não podemos achar que o que servia para o Brasil da década de 60, serve hoje. O país mudou, mas o problema do analfabetismo permanece e tem-se feito muito pouco neste sentido. Aqui em São Paulo estamos trabalhando com algumas Universidades, através de convênios com a Secretaria e estamos fazendo um trabalho que acredito seja uma importante contribuição à educação do trabalhador. Estamos desenvolvendo um amplo programa de alfabetização e pós-alfabetização coordenado pelo Moacir Gadotti. É o “MOVA” como é conhecido. Aqui, a educação do trabalhador, (criança, jovem e adulto) vem sendo tratada de modo integrado. Não adianta continuarmos nos preocupando apenas com a alfabetização do adulto quando a escola continua expulsando os alunos que vão engrossar o contingente de adultos analfabetos. É preciso alfabetizar os adultos, mas também criar condições para que a escola não continue produzindo analfabetos. É preciso uma transformação radical que mude a cara da escola. Certamente que a mudança da própria situação sócio-econômica do povo brasileiro é fundamental.

ANDES-SN: Enquanto Secretário de Educação de um Município tão complexo como é São Paulo, você deve estar vivendo uma experiência muito rica. Quer falar sobre ela?

PAULO FREIRE:
 Eu teria muita coisa para contar. Prefiro, porém, dizer uma coisa rápida e sinceramente: não me arrependo de ter aceito o convite de Erundina para fazer com ela e um bando de gente boa, esta caminhada. Não me arrependo. Mas, não é fácil mudar.

ANDES-SN: Você é um dos educadores brasileiros mais premiados no exterior. Recentemente esteve na Europa onde recebeu um prêmio. Em que consistiu esse prêmio?

PAULO FREIRE:
 Na verdade, nestes 16 meses em que sou Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, estive algumas vezes no exterior. Gostaria de dizer que, em nenhuma destas viagens, a administração pública teve de gastar sequer um cruzeiro. Têm sido todas estas viagens financiadas pelos organismos que me convidam e que são ora Universidades, ora administrações municipais, ora órgãos internacionais. No próximo mês de maio, por exemplo, estarei me ausentando de São Paulo para receber o doutoramento honoris causa da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Depois que assumi como secretário este é o terceiro doutoramento que recebo e, nestas ocasiões, de modo geral, falo do que fazemos e do que não podemos fazer à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Tenho uma compreensão diferente, não provinciana das relações que o administrador de um setor de trabalho da municipalidade, sobretudo de uma cidade como São Paulo, deve ter com outras partes do mundo. Não me considero turista. Sou um educador engajado, mesmo que nada tenha contra turistas.

ANDES-SN: O que está mudando na Secretaria de Educação Municipal de São Paulo e em que consiste esta mudança?

PAULO FREIRE:
 A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo compreende uma rede de 653 escolas onde funcionam 18.305 classes regidas por 26.966 professores atendendo a 676.239 alunos. Ao assumir a Secretaria, nos comprometemos a construir uma educação pública, popular e que tenha como marca principal a educação como prática da liberdade. Entende-se a escola como um espaço de educação popular voltado para a formação social crítica e para a sociedade democrática. A escola é aberta para que o povo participe coletivamente da construção de um novo saber que leve em conta suas necessidades e se torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria escola. Nesta perspectiva, a escola é também centro irradiador de cultura popular em permanente recriação e também espaço de organização política das classes populares. O trabalhador deve encontrar nesta escola um lugar de debates de ideias, soluções, reflexões onde sistematizando sua própria experiência encontrará meios de auto-emancipação intelectual independentemente dos valores da classe dominante. Temos quatro grandes prioridades que não são hierárquicas mas concomitantes. As mudanças estão se dando, ao mesmo tempo, nos currículos, entendidos de modo amplo, nas próprias condições físicas da escola, no professor que está realizando um amplo programa de formação permanente e na questão da alfabetização de jovens e adultos que já estavam fora da escola. Está mudando além disso a forma de se processar a mudança que está sendo compartilhada, participativa. Estamos construindo progressivamente uma escola pública, popular, autônoma, criativa, competente, séria e alegre ao mesmo tempo, animada por um novo espírito.

ANDES-SN: No seu livro Medo e Ousadia você diz que os professores deveriam ter nas mãos, através de suas organizações, não só a defesa dos salários, mas o processo de sua formação permanente. Pode falar sobre esta questão?

PAULO FREIRE:
 Estou convencido, em primeiro lugar e nisto não estou só, de que a luta dos professores e professoras, jamais deixando de lado a reivindicação salarial, deve ir mais além dela. Ir mais além da reivindicação salarial significa lutar por melhores condições de trabalho, que, proporcionando maior conforto às educadoras e educadores, lhes ofereçam caminhos à criatividade. O descaso a que vem sendo relegada a educação entre nós é tal que se torna fácil reconhecer quão difícil é deixarmo-nos tocar pela paixão de mudar, de refazer, de criar, o que nos empurraria a ir mais além da reivindicação salarial. É neste sentido que a clareza política em torno do que fazemos como educadores ou educadoras, em torno de nosso sonho que é político, se impõe a nós como necessidade de nosso fazer. Quanto mais criticamente claros nos tornamos em face de, a favor de que e de quem, contra que e contra, quem somos educadoras e educadores, tanto melhor percebemos que a eficácia de nossa prática exige de nós competência científica, técnica, e política. Jamais uma sem a outra. Jamais clareza política sem saber científico. Jamais este com ares de descomprometido. Na linha destas reflexões é que me parece fundamental o papel político-pedagógico das entidades da categoria. Tudo o que puder ser feito como contribuição à formação permanente de seus quadros, numa prática e numa visão que não dicotomize o político do científico, deve ser feito.

ANDES-SN: Há cerca de dois anos atrás, falando das perspectivas da educação, você apontava como tarefa fundamental deste final de século a tarefa da libertação e apontava a prática educativa como processo de resgate da liberdade. Como se dá esse resgate?

PAULO FREIRE:
 Penso que a liberdade, como gesto necessário, como impulso fundamental, como expressão de vida, como anseio quando castrada, como ódio quando explosão de busca, nos vem acompanhando ao longo da história. Sem ela, ou melhor, sem luta por ela, não é possível criação, invenção, risco, existência humana. O que ameaça a liberdade não é, porém, o limite de que precisa para ser e sem o qual, deixando de ser, vira licença. O que ameaça a liberdade é o arbítrio que, despótico, se faz autoritarismo. Há sempre ameaças rondando a liberdade que, por isso mesmo, precisa estar desperta. A libertação é o processo permanente de busca da liberdade, que não é ponto de chegada, mas sempre de partida. Se hoje faminto e cansado, preciso de pão e repouso, amanhã, alimentado e dormido, descubro que preciso de som, de imagem, de palavra escrita. Ontem, precisado do fundamental para viver, não percebia o significado do ato arbitrário que fez mudar uma estação de rádio ou silenciou um jornal ou proibiu a venda de um livro. A luta pela liberdade implica um mínimo de sentimento e de percepção da falta da liberdade. Esta luta vem dando sentido à minha prática de educador. Lutar pela libertação, como busca permanente, é a forma que encontro neste final de século, para ser autenticamente gente.

 

 

Fonte: Andes-SN 

Terça, 17 Março 2026 09:48

 

 

As e os docentes da Universidade do Distrito Federal (UnDF) entrarão em greve a partir da próxima sexta-feira (20). A decisão foi tomada em assembleia convocada pelo Sindicato de Docentes da UnDF (SindUnDF – Seção Sindical do ANDES-SN), realizada no dia 12 de março.

 

 

A deliberação pelo movimento paredista ocorre após sucessivas tentativas de diálogo com a administração da universidade. De acordo com Louis Blanchet, presidente do SindUnDF SSind., as professoras e os professores estão há mais de um ano em negociação sobre as condições de trabalho na instituição sem obter respostas efetivas. “Todos os grupos de trabalho e mesas de negociação são interrompidos quando os e as docentes não aceitam o que é imposto pela Reitoria”, denunciou o dirigente.

Entre os principais pontos da pauta de reivindicações estão o reajuste de 10% no salário-base, o aumento da gratificação por magistério superior para 60% do salário-base, a instituição do regime de Dedicação Exclusiva, com gratificação correspondente de 50%, e a redução do tempo necessário para alcançar o topo da carreira, passando de 25 para 15 anos. Em outras universidades estaduais esse tempo varia, em média, entre 15 e 20 anos.

Blanchet explica que a carreira do magistério superior no Distrito Federal está entre as mais defasadas do país. Além disso, as gratificações por titulação estão entre as menores do governo do Distrito Federal (GDF), mesmo com um corpo docente composto majoritariamente por docentes com titulação de mestrado e doutorado.

“O Magistério Superior do DF é a carreira com um dos menores salários do ensino superior e ocupa o penúltimo lugar entre as carreiras do GDF. Isso provoca a evasão de servidores qualificados. As atividades administrativas, como coordenações, não possuem gratificações, o que gera acúmulo de funções sem remuneração”, afirmou Blanchet.

Além da lentidão na progressão e da desvalorização da titulação, a categoria aponta a sobrecarga de trabalho como um dos fatores que contribuem para o processo de precarização. As e os docentes da UnDF também denunciam a ausência de limites para a carga de trabalho e uma exigência mínima de regência de aulas superior à prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), o que compromete o equilíbrio entre ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica.

Conselhos da UnDF

Kíssila Mendes, vice-presidenta da SindUnDF. SSind., ressalta que, desde sua criação, a UnDF foi pensada de uma forma muito fisiológica, como órgão do GDF e não como uma universidade pública.  “Foi passado para todos nós como se isso fosse algo transitório. A nossa primeira pauta, que levou à criação do sindicato, foi a gestão democrática. Não existiam, e como não existem ainda, conselhos. Então, todas as deliberações ainda vêm de cima para baixo, todas as decisões, porque não têm deliberações. E isso ainda é uma luta. A gente, inclusive, precisou judicializar a compreensão do que é ser professor. Então esse é o tamanho do nosso problema”, relatou.

A professora ressaltou que, embora a pauta salarial seja importante, a falta de diálogo, que também é resultado da ausência dos Conselhos e de eleição para reitoria, foi o que levou à deliberação da greve. “A gente não tem o reconhecimento de que a nossa carreira é que deve ocupar os espaços de gestão, os cargos que são administrativos e acadêmicos, como reitoria e pró-reitorias. Nenhum desses espaços é ocupado por professores da carreira. Tudo isso cria uma situação trabalhista bastante ruim, bastante complicada. Não é só o salário. É claro que isso é muito ruim, é a nossa principal reivindicação, mas também [reivindicamos] o acesso à administração da universidade”, acrescentou a vice-presidenta da seção sindical do ANDES-SN na UnDF.

Mesmo com decisão favorável da Justiça, a Reitoria pro tempore mantém o edital considerado irregular para composição dos órgãos colegiados da UnDF, sem contemplar os 70% das vagas destinadas a docentes, conforme determina o artigo 56 da LDB. A medida descumpre o acórdão, que determinou a correção da composição, de modo a garantir o percentual mínimo de 70% das vagas para a carreira docente do quadro permanente.

“Esperamos que o GDF avance na direção de instalar os Conselhos com a nomeação de docentes efetivos e pela instalação de uma eleição para reitor que seja democrática. Até o momento, só nos ofereceu intervenções no sentido contrário, estabelecendo a lista tríplice por meio de decreto, já que não estava prevista em Lei, e prorrogando o mandato da atual reitora”, criticou Louis Blanchet, presidente do SindUnDF SSind.

ANDES-SN apoia a greve

Diante do movimento grevista, a diretoria do ANDES-SN divulgou, na última sexta-feira (13), uma nota de apoio e solidariedade às e aos docentes da UnDF, destacando a legitimidade da mobilização e a importância da luta por melhores condições de trabalho e pela consolidação de uma universidade pública forte e socialmente referenciada. Leia aqui.

Segundo Sérgio Barroso, 1º tesoureiro do Sindicato Nacional e da coordenação do Setor das Instituições Estaduais, Municipais e Distrital de Ensino Superior (Iees, Imes e Ides), a categoria docente da UnDF enfrenta dificuldades desde a criação da universidade em 2021. “A UnDF é uma universidade relativamente nova e a comunidade acadêmica enfrenta uma série de dificuldades relacionadas ao autoritarismo do governo do Distrito Federal e à falta de respeito aos processos democráticos. Há pessoas indicadas para cargos de gestão pelo governo que sequer pertencem à carreira da universidade. Além disso, os conselhos superiores têm dificuldade para funcionar e muitas vezes nem chegam a se reunir. Também há problemas de assédio institucional. Docentes em estágio probatório, por exemplo, são pressionados a assumir cargas horárias superiores às permitidas por lei ou a desempenhar funções que não deveriam exercer”, reforçou o diretor do Sindicato Nacional.

Kíssila reforçou que a greve foi a última alternativa da categoria, na expectativa de conseguir algum avanço nas negociações. “A gente aposta na greve como a nossa maior alternativa, talvez a última alternativa enquanto mobilização. E foi muito legal, porque foi a maior assembleia que a gente já teve, foram 60 pessoas. Hoje, a nossa categoria tem em torno de 100 docentes. Então, muita gente esteve presente e foi quase unânime a decisão pela greve. E é mesmo a nossa aposta, pela abertura de diálogo para melhoria das nossas condições de trabalho e para implementação da gestão democrática na universidade. Embora o GDF tenha um histórico de muita violência em resposta às greves, a gente acha que é um momento muito fundamental, com a chegada dos novos professores, de mobilização na nossa categoria”, concluiu a vice-presidenta do SindUnDF SSind.

 

Fonte: Andes-SN 

Segunda, 16 Março 2026 16:04

 

Circular nº 091/2026

 

Brasília, 16 de março de 2026.

 

 

Às Seções Sindicais, Secretarias Regionais e às(aos) Diretoras(es) do ANDES-SN

 

 

Assunto: Envia Convocação da Reunião do GTMultiFront para os dias 29 e 30 de maio de 2026. 

 

Companheiras(os),                                     

 

 

A Coordenação do Grupo de Trabalho de Multicampia e Fronteira do ANDES-SN convoca a categoria para reunião do GTMultiFront, que ocorrerá na sede do ANDES-SN, em Brasília (DF), nos dias 29 e 30 de maio de 2026, com início às 14h do dia 29/05 (sexta-feira) e previsão de término às 17h do dia 30/05 (sábado).

 

A confirmação da participação, de até duas representações por seção sindical, deverá ser feita por meio do preenchimento do formulário disponível no link enviado às seções sindicais, até o dia 22 de maio de 2026 (sexta-feira).

 

As seções sindicais que quiserem socializar seus informes deverão enviá-los até às 18h do dia 27 de maio de 2026 (quarta-feira), exclusivamente por meio do formulário disponível no link também enviado às seções, para serem publicados junto ao relatório da reunião.

 

A pauta da reunião será enviada posteriormente, por meio de circular complementar.

 

Sem mais para o momento, aproveitamos a oportunidade para renovar nossas mais cordiais saudações sindicais.

 

 

Prof. Herrmann Vinicius de Oliveira Muller

2º Secretário

Sexta, 13 Março 2026 14:06

 

 

****

Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

 

A cada dia presenciamos o aumento de “desastres naturais”, como mais furacões, tornados, chuvas torrenciais, maremotos, secas prolongadas, ondas de calor extremo e também de frio extremo, impactando milhões e bilhões de pessoas ao redor do mundo, com enormes prejuízos materiais, sofrimento e mortes que poderiam ser evitadas, se cuidássemos melhor do planeta.

Instituições nacionais e internacionais têm produzido estudos e pesquisas com dados e informações científicas sobre o aquecimento global, sobre as mudanças climáticas que dentro de poucos anos poderão superar a meta aprovada no Acordo de Paris, de 1,5º graus acima da média histórica, quando do início do período da industrialização, e até mesmo os temíveis 2,0º acima daquele limite, considerado o chamado “ponto do não retorno”, que poderá inviabilizar todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana, afetando vários bilhões de pessoas.

O despertar da conscientização mundial sobre as mudanças climáticas é o único caminho a seguir, é uma urgência crítica, focada não apenas em mitigar os impactos de gases de efeito estufa (GEE): petróleo, gás natural e carvão, componentes principais da matriz energética e elétrica da maior parte dos países, gerados por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, o aumento da produção de lixo, a elevação da temperatura média das águas dos oceanos e, finalmente, a tão temível crise climática que já está entre nós.

Por isso foi criado o DIA NACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, a ser celebrado no dia 16 de março no Brasil, inspirado no Acordo de Paris e nos ODS, aprovados em 2015 pela ONU.

O Dia Nacional de Conscientização sobre as mudanças climáticas foi instituído pela Lei Federal 12.533/2011, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, em uma referência direta ao Protocolo de Kyoto, aprovado durante a COP 3, em 1997, no Japão, ou seja, há quase 30 anos, sendo um dos primeiros tratados internacionais que demonstrou a urgente necessidade da redução das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis diretos pelo aumento do aquecimento global e pela crise climática e seus impactos.

A ONU também “celebra” o Dia Mundial da Conscientização sobre as mudanças climáticas por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente em 05 de junho e também em 23 de março, Dia Mundial da Meteorologia, e através do estímulo à implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, principalmente o ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima, aprovados também em 2015 e que fazem parte da Agenda 2030, tendo como objetivo combater as alterações climáticas e seus impactos e como foco a resiliência, a adaptação e a redução das emissões desses gases de efeito estufa e, também, uma mudança radical, uma transformação profunda em nossos hábitos e estilos de vida, enfim, mudanças essas que contribuem para o surgimento de um novo modelo de economia, como a Economia de Francisco e Clara.

Diante disso, os cristãos em geral e a Igreja Católica em particular, dando seguimento às exortações apostólicas e à Encíclica Laudato Si, publicada também em 2015 pelo Papa Francisco, que oferecem subsídios e novas bases de conhecimento e inspiração, através da Espiritualidade Ecológica, e, assim, contribuirmos para este despertar da consciência ecológica, individual e, também ou principalmente, coletiva, comunitária.

Por isso, cuidar da Casa Comum, do planeta e lutar pela Ecologia Integral não é algo opcional aos cristãos, principalmente aos católicos; para tanto, precisamos mudar radicalmente nossos hábitos que impactam negativamente o meio ambiente e substituirmos a omissão (que é um pecado pela doutrina católica) pela conscientização e por ações sociotransformadoras.

Como bem disse e escreveu o Papa Francisco: “O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (governantes, empresários, consumidores, trabalhadores, enfim, a população em geral)”.

Além disso, ele (Papa Francisco, que também tem sido seguido pelo Papa Leão XIV) insistia que “A Igreja, com sua ação, como por exemplo através da Pastoral da Ecologia Integral, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também proteger o ser humano de sua própria destruição, pois, afinal, ‘o clamor/grito da terra é também o clamor, gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados’, pois são esses as maiores vítimas das mudanças climáticas e das tragédias ambientais”.

A partir do Magistério do Papa Francisco, a Ecologia Integral passou a fazer parte da Doutrina Social da Igreja e, neste contexto, está umbilicalmente ligada à opção preferencial pelos pobres que a Igreja tem feito ao longo de milênios, mas de uma forma mais enfática e clara nas conclusões do Concílio Vaticano II, que precisa ser resgatado por fiéis e também pela hierarquia eclesiástica.

Diante disso, podemos afirmar com certeza que você, como cristão, católico, cidadão, contribuinte e também pertencente a outras religiões, pode fazer a diferença, mudando seus hábitos de consumismo, de desperdício e de destruição da natureza, que contribuem para a degradação do meio ambiente e fazem parte da CRISE CLIMÁTICA, que a cada ano está se tornando mais grave e mais recorrente, com impactos cada vez mais terríveis.

Este despertar da consciência ecológica também abrange o que denominamos de mobilização profética e a luta por políticas públicas que cuidem melhor do meio ambiente e de nosso sofrido planeta.

Por isso, diga NÃO ao consumismo, ao desperdício, à geração de mais lixo, aos agrotóxicos, ao desmatamento, às queimadas, às invasões dos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, à destruição da biodiversidade, à poluição das águas e do ar, à degradação promovida pela mineração e garimpos ilegais e à maior causa do aquecimento global, que são os combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão). Isto tem um nome: A LUTA PELA SUSTENTABILIDADE.

Tudo isso está ao seu alcance, basta despertar a sua consciência ambiental, ecológica e juntar-se a outras pessoas de sua comunidade, sua cidade, sua paróquia, sua Igreja e aí, juntos, podemos fazer uma grande diferença.

Além disso, precisamos nos unir para uma grande MOBILIZAÇÃO PROFÉTICA PLANETÁRIA e lutar contra os modelos econômicos que não respeitam a natureza, nem os trabalhadores e muito menos os consumidores e as futuras gerações.

Esses modelos foram condenados pelo Papa Francisco, que os denominava de Economia da Morte, que precisam ser substituídos pela ECONOMIA DA VIDA, fundada na Economia Solidária, na agroecologia e na produção orgânica, garantindo uma qualidade de vida digna para as atuais gerações e também para as gerações futuras.

A conscientização sobre os riscos e impactos das mudanças climáticas é o primeiro passo para as ações sociotransformadoras e, neste contexto, cabe um destaque ao papel da Educação Ambiental, Educação Ecológica Libertadora, tanto na escola, em todos os níveis, da educação infantil até a universidade, bem como componente dos movimentos sociais, populares, ONGs e, também, nas igrejas.

Vale a pena destacar qual deveria ou deve ser o papel da educação ambiental libertadora para o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si: “A educação ambiental (libertadora) deveria predispor-nos a darmos um salto para o mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo”.

Assim, uma educação ambiental libertadora, juntamente com ações sociotransformadoras, abre caminho para a plenitude da sustentabilidade e novas formas de organização da sociedade e dos sistemas econômicos.

Isto é o que podemos denominar de uma verdadeira cidadania ecológica, onde existe um profundo respeito pelo meio ambiente, pelas obras da criação e também o respeito à dignidade dos trabalhadores, dos empresários e consumidores, com os olhos postos nas futuras gerações, ao respondermos à indagação: “que planeta queremos ou vamos deixar para as próximas e futuras gerações?”

Pense nisso. Esta deve ser a essência da mensagem neste Dia Nacional e Mundial de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, neste 16 de março de 2026.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

Sexta, 13 Março 2026 08:58

 

O dossiê “Fim da Escala 6×1 e Redução da Jornada de Trabalho” publicou mais três textos que aprofundam o debate sobre os efeitos da organização do tempo de trabalho na vida da classe trabalhadora. Os 27º, 28º e 29º artigos da série abordam temas como saúde mental, desigualdades de gênero no trabalho de cuidados e os impactos da jornada exaustiva sobre determinados grupos sociais.


O 27º artigo, intitulado “Trabalho que fratura, jornada que adoece: saúde mental e os impactos da escala 6×1”, de autoria de Vanessa Silveira de Brito, discute a relação entre tempo de trabalho e saúde mental, destacando a escala 6×1 como um dispositivo de precarização. Segundo a autora, as jornadas prolongadas e escalas restritivas comprometem a saúde mental das trabalhadoras e dos trabalhadores e defende a redução da jornada e o direito ao tempo de viver como medidas fundamentais de cuidado e resistência. Acesse aqui.


Já o 28º artigo, “Fim da escala 6×1: e o trabalho de cuidados, como é que fica?”, de autoria de Élida Azevedo Hennington, apresenta uma reflexão teórica sobre a relação entre jornada de trabalho e desigualdades de gênero, com foco no trabalho de cuidados e na área de Saúde da Trabalhadora. O texto problematiza o papel historicamente atribuído às mulheres como cuidadoras e a divisão sexual do trabalho, destacando seus impactos na saúde física e mental. Leia aqui.


O 29º artigo, “O peso do trabalho e os corpos que aguentam: quem são os corpos que sustentam as estruturas da escala 6×1”, de autoria de Wanise Cabral Silva, Ludmila Rodrigues Antunes e Mariane Pereira Rodrigues, analisa o modelo de regulamentação da jornada de trabalho no Brasil e suas consequências no cotidiano laboral. 


Para as autoras, a jornada de 44 horas semanais recai de forma desigual sobre determinados grupos sociais, que acabam sustentando o peso de um modelo de trabalho exaustivo. O texto busca identificar o perfil das trabalhadoras e dos trabalhadores submetidos à escala 6×1 e discutir como iniciativas como a proposta de emenda constitucional que trata do tema e o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) podem contribuir para enfrentar a hiperexploração do tempo de trabalho. Confira aqui


Dossiê

Com o objetivo de ampliar o debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho, o Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de Economia da Unicamp, a Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho do Departamento de Sociologia da UnB e o site “Democracia e Mundo do Trabalho em Debate” organizaram um dossiê com artigos que abordam o tema sob diferentes perspectivas.


Segundo a chamada para artigos, “o objetivo é estimular o debate e abrir espaço para novas visões e diferentes abordagens sobre essas questões. O propósito principal é construir argumentos que contribuam para reforçar a agenda do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho sem redução de salários".

ANDES-SN na luta contra a jornada 6x1

A luta pelo fim da jornada 6x1 e pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários é uma das pautas centrais do Plebiscito Popular por Justiça Tributária, organizado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, em articulação com entidades dos movimentos sindical e social, entre elas o ANDES-SN. O plebiscito obteve mais de 2,1 milhões de votos.


Para fortalecer a divulgação de conteúdos relacionados ao plebiscito e ampliar o debate público sobre o tema, o Sindicato Nacional se soma às demais entidades e canais de comunicação que estão publicando os artigos do dossiê.


Confira aqui todos os artigos já publicados.

 

Fonte: Andes-SN 

Quinta, 12 Março 2026 16:22

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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            Por dois anos consecutivos, recortes da cultura brasileira têm sido vistos por plateias mundo afora. Em 2025, vibramos com a estatueta do Globo de Ouro, conquistada por Fernanda Torres, que interpretou as dores, o luto e a luta de Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Na edição deste ano, já vimos Wagner Moura receber a estatueta de melhor ator/drama e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencer como o melhor filme de língua não-inglesa.
            Agora, já no aguardo pelo Oscar, para o qual há quatro indicações, registro que, além de leituras de campos diversos do conhecimento, muito já se falou acerca de tópicos específicos de O Agente Secreto, como, p. ex., de sua direção, elenco, figurino, fotografia, trilha sonora, caracterização de época etc.; todavia, penso que ainda haja elementos para reflexões sobre o seu cerne, afinal, em grandes obras, a obviedade não tem espaço.
            Como reflexo estético de época marcada pelo silêncio, irmão do medo, imposto em 1964 por golpistas cívico-militares, o filme diz muito, sem explicitar tanto. A síntese desse clima pode estar na cena em que dona Sebastiana (Tânia Maria), com os dedos deslizando sobre seus lábios, faz o gesto da “boca de siri”, após entregar um pacote a Marcelo (Wagner Moura), que faz gesto semelhante, quando indagado se, de fato, era Marcelo; e, assim, muito de sua narrativa surge por meio de signos e códigos, que pedem pela labor interpretativo do espectador, convidado a imergir na trama para tentar desvelar o que possa estar encoberto por véus (metáforas), ou fria e criminosamente fechado em gavetas de um IML... Enfim, todos precisamos organizar os dados – aparentemente, lançados de forma aleatória – de um intrincado enredo.
            Nesse sentido, contribuindo com o diálogo sobre o filme de Mendonça Filho, vou ao que considero central, reflexionando sobre qual seria o seu ponto de partida como narrativa que demandasse, de fato, por algum “agente secreto” em sua trama. Mas, antes, reafirmo a genialidade dessa construção fílmica, disposta em três grandes partes (“O Pesadelo do Menino”; “Institutos de Identificação” e “Transfusão de Sangue”), subdividas pelo que identifico como “signos focalizados”, além de se ancorar em:
            1º) códigos cifrados para cidadãos refugiados, em geral, politicamente;
            2º) metáforas/signos pictóricos, tais como:
            a) fotografias em paredes de repartições públicas, com ênfase à de Ernesto Geisel;
            b) placas de automóveis, que marcam espaços geográficos da narrativa, auxiliando nos “signos focalizados” de que falei acima;
            c) presença do tubarão, tanto o do filme “Tubarão” (1975), quanto dos que atacam banhistas no litoral pernambucano;
            d) brevíssima projeção de um fragmento de “Le Magnifique” (1973), no qual Philippe de Broca satiriza películas de espionagem, ou seja, de agentes secretos;
            e) gata com dupla face e dois nomes, assim como o grupo das personagens em refúgio no Edifício Ofir, em Recife; aliás, o nome “Ofir” cai como luva para a interpretação do filme, posto estar referenciado na Bíblia como região ou porto lendário, famoso por sua imensa riqueza, especialmente o seu ouro, de inconteste pureza 
            3º) presença de um elemento fantástico (a metonímia da “perna cabeluda”), que – substituindo a integralidade dos corpos de criminosos comuns e de inescrupulosos policiais em “passeios” noturnos pela Praça 13 de Maio, também em Recife – ganha vida própria na trama, servindo como denúncia de violências e assassinatos contra prostituta(o)s e LGBTQIA+, à época (1977), identificados como homossexuais e outros adjetivos nada respeitosos. Detalhe: o nome dessa praça – que também nos ajuda a sentir a densidade do filme – nos remete às pretensões da Lei Áurea, de 1888, possivelmente ainda não alcançada por tantos trabalhadores, inclusive, pelos trabalhadores do sexo.
            Isso tudo, somado ao fato de sua narrativa/enredo não se apresentar cronologicamente linear, faz O Agente Secreto ser mesmo um filme de recepção complexa, que não perde a chance de estabelecer críticas a acontecimentos atuais, como a indignação pela morte de Miguel Otávio, filho de Mirtes Souza, que segue na luta por justiça contra sua ex-patroa, Sari Corte Real, todos igualmente de Recife. Essa paráfrase é tão inesperada quanto reveladora, social e cinematograficamente falando.  
            Diante da complexidade do filme, sinto-me como um dos seus espectadores privilegiados, pois, assim como a personagem Armando (Wagner Moura), fui professor de uma das nossas federais. Concomitantemente à docência, militei no Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, o ANDES-SN – à época, espaço de relevantes debates políticos –, que deu sequência organizacional das antigas associações dos professores universitários. Tais agrupamentos já discutiam, como um dos desafios da categoria docente, a cooptação, em nada secreta, de pesquisadores, em especial das áreas tecnológicas, por parte de representantes do capital (nacional e estrangeiro), quase sempre em conluio com os golpistas/ditadores de 64, que também não eram anônimos ou secretos, ainda que suas práticas fossem realizadas à margem das leis e/ou dos direitos humanos.  
            Portanto, mais do que identificar que Armando fosse chefe de um Departamento da UFPE, é necessário perceber, no cerne da narrativa em pauta, esse processo de cooptação abrangente e bem-sucedido do capital junto a um departamento inteiro; tarefa corporificada por Ghirotti (Luciano Chirolli), empresário inescrupuloso, mas influente no Conselho da Eletrobras, vinculada ao Ministério das Minas e Energia daquele período.
            Na linha do tempo e dos acontecimentos, aqui, é interessante localizar que a cooptação em questão ocorrera em 1974, ou seja, três anos antes daquela cena do posto de gasolina, na abertura do filme, em cujo pátio se encontra um cadáver já em putrefação. Aliás, aquele prólogo, como numa antecipação metafórica do “mau cheiro” reinante no país, é retomado no unhappy end de O Agente Secreto, quando se fica sabendo, via notícia de jornal, do assassinato de Armando, ocorrido em 1977; estendido no chão, sua foto remete à lembrança da cena do cadáver no pátio do posto de gasolina, bem como de todos os demais cidadãos assassinados que “aparecem” no desenvolvimento do texto fílmico.
            Do processo de cooptação, vale ressaltar a resistência, inclusive física, de Armando e Fátima (Alice Carvalho), que – além de pesquisadora nordestina e mulher negra, e, por isso, vítima do racismo praticado por Ghirotti e por seu filho, Salvatore Ghirotti (Luciano Graziosi) – era companheira de Armando, com quem tivera o filho Fernando (Wagner Moura). O casal de pesquisadores, adversários frontais daquela intervenção dos dois representantes do capital, põe-se em situação de extrema vulnerabilidade ao defender seus princípios e origens, bem como a força da ciência/conhecimento vivenciado em universidades fora do eixo Rio-São Paulo.
            Portanto, aqui está, de forma cíclica, a origem do ponto de partida e do epílogo da narrativa. Sem esse conjunto de acontecimentos não haveria ação/motivação para que surgisse O Agente Secreto como filme de memória, fruto de pesquisa acadêmica de uma instituição particular de ensino superior, que investigava – mas, logo, desistira da empreitada – um pouco dos porões de um tempo deveras sombrio de nosso país.
            Todavia, se a instituição interrompera e engavetara seus estudos, a estagiária Flávia (Laura Lufési) não. Ao contrário, é ela quem, ao copiar, clandestina e secretamente, os depoimentos que ajudava a transcrever para a pesquisa institucional, torna-se o sujeito agente que entrega o material num pen drive a Fernando, filho de Armando e Fátima, garantindo, assim, o desvelamento público dos atos ocorridos com seus pais. O restante é despiste, típicos de narrativas tais.
            Nesse sentido, como num lance de fina ironia, Marcelo – que, antes, é Armando –, da cabine de projeção do Cine São Luiz, parece se sentir “espelhado” ao assistir a uma breve cena, na qual a personagem Bob Saint-Clar, uma criação de François Merlin, ambos interpretado por Jean-Paul Belmondo, em Le Magnifique, é que sugere ser o tal “agente secreto”; e até pode ser, mas naquele filme francês. No que nos interessa aqui, outra despista: o “nosso” Bob/Bobbi (Gabriel Leone), como jovem que responde a antigas violências vividas na infância, é um agente silencioso e perigoso, mas não secreto, pois não intelectualiza nada; no limite, apenas age friamente para auxiliar na terceirização – uma das dinâmicas do capital – de um matador de aluguel. Os que recebem propinas para “pequenas tarefas” equivalem, p. ex., às mulas do tráfico. São sempre seres sorrateiros, sem nada intelectualizar ou mesmo intuir algo.
            E, assim, várias ações desonestas vão surgindo, afinal, nos subterrâneos de uma ditadura, ninguém age solo. Há sempre um conjunto de colaboradores do regime, conscientes ou não, trabalhando para algum projeto, via de regras, obscuro. Nos porões, os ratos transitam e se comunicam entre si.
            Nessa perspectiva, em “despretensiosa” informação, à lá notas de rodapé, como nos trabalhos acadêmicos, sabe-se que, após a já mencionada dissolução do departamento da UFPE, houve dispersão daquele antigo corpo docente, que aceitou “tomar um banho de indústria”, conforme sugerido por Ghirotti. Por meio de um “sutil destaque”, registra-se que alguém do antigo grupo de docentes teria ido trabalhar justamente onde Ghirotti também tinha seus tentáculos, ou seja, no Metrô de São Paulo; não por coincidência, era a cidade da placa do fusca que, agora, Marcelo – após o assassinato de Fátima, que, ao invés de pneumonia, teve seu corpo atirado na represa Sérgio Motta – dirigia até o Recife, almejando sair do país em companhia de seu filho.
            Infelizmente, Armando não conseguiu se proteger do Brasil”, como havia sido sugerido pela personagem Elza (Maria Fernanda Cândido). Seu assassinado ocorreu pouco antes de seu autoexílio de um país que ainda busca sua consolidação como pátria, sem ameaça da presença asquerosa de nenhum agente do tipo sorrateiro, sem nenhuma “pirraça”, termo inusitado e maravilhosamente bem escolhido para abranger um amplo leque semântico de todo o retrocesso político, social, cultural e econômico que períodos antidemocráticos implacavelmente podem nos trazer: memória é, de fato, também prevenção ao futuro.