“Podemos ter a liberdade de formar nossos filhos nessa universidade?”, questionam povos indígenas de Mato Grosso durante Territórios Amazônicos II
O terceiro dia do evento Territórios Amazônicos II foi marcado pela escuta. A quarta-feira, 20/05, foi dedicada a ouvir aqueles que estão em Mato Grosso desde muito antes de ele ser um estado, com municípios nomeados por sociedades imobiliárias. Os povos indígenas do estado, presentes no evento, relataram como era a região e como foram as relações com não indígenas desde o primeiro contato até os dias atuais.
Após intervenções poéticas e reflexivas dos professores Einstein Aguiar e Alexandra Valentim, sentaram-se à mesa o cacique do povo Kawaiwete (Kaiabi), Tuiaraiup Kaiabi, seu sobrinho, Yapariwa Kaiabi, e a cacica Wisio Kaiabi. Então, a aula começou.
Na língua Kawaiwete, o cacique foi relatando, pela primeira vez, como era a vida no território antes de se chamar Sinop. O professor Yapariwa Kaiabi foi traduzindo o relato sobre os lugares onde os Kaiabi faziam suas festas e rituais, de onde retiravam insumos para suas bordunas e cocares, das cachoeiras, rios, do contato traumático e devastador com os seringueiros, que mataram, escravizaram e violentaram os indígenas que encontravam pela frente.
“Os seringueiros usavam arma de fogo, e isso foi muito assustador, traumático. Os indígenas começaram a se espelhar desde esse momento”, traduziu o sobrinho do cacique. Em seguida, contaram como foi o processo de convencimento para que deixassem seu território e começassem nova vida no Xingu por intervenção dos irmãos Vilas Boas, em 1949. “Irmãos Vilas Boas fizeram promessa que seria cumprida, porque a vida não tinha mais sossego. Parte de nós nasceu no Xingu, mas ainda tem gente que saiu do território e lembra como era. Eles não esquecem, nossa terra tradicional vive dentro da gente. Foi uma mudança trágica com relação à alimentação, bem-viver, cultura. A riqueza que o meu povo tinha já não era mais a mesma”, disse, explicando que no Xingu não encontram, por exemplo, material tradicional para confecção dos cocares e bordunas.
Um dos locais citados no território que hoje chamamos de Sinop foi a região do centro, antiga rodoviária, onde o povo Kawaiwete fazia suas festas.
“Nunca viemos cobrar nada apesar de tudo isso. Muitas vezes nós não somos bem-vindos na cidade, mas nós fizemos parte dessa história. Não estamos aqui dizendo que vocês devem para nós, apenas que todos devem ser tratados do mesmo jeito. Não estamos invadindo terras, estamos apenas indo fazer o reconhecimento de onde nasceram nossos antepassados. Tratores estão construindo em cima de túmulos de pessoas importantes para nós. Eu peço que vocês me ouçam, que minha fala chegue às autoridades, e que vocês não falem sobre o que não sabem”, disse o cacique, reivindicando melhorias no atendimento à saúde da população indígena na região, além do direito de realizar as chamadas “expedições de verificação” in loco – onde acabam sendo ameaçados por fazendeiros.
Por fim, num momento emocionante e extremamente importante em meio à disputa política que envolve a UFMT em Sinop – em que o agronegócio e outros setores econômicos se movimentam para desmembrar a universidade e ter maior poder sobre ela – o cacique falou sobre a atualidade na relação com pesquisadores, que tem sido marcada pela troca de saberes e informações, e perguntou: nós poderíamos ter a liberdade de nossos filhos estudarem nessa universidade?

É preciso conhecer o outro
No meio da manhã, representantes de outras oito etnias, todos professores, sentaram-se à mesa para compartilhar também um pouco das suas histórias com foco na importância da educação pública. A professora Darlene Yaminalo Taukane (Kurâ-Bakairi), primeira mestra indígena do estado, e talvez do Brasil, também fez um breve histórico de momentos importantes para o Movimento Indígena e destacou que a parceria na educação permitiu que hoje ninguém mais fale em nome da população indígena. Além disso, reforçou que a UFMT deve ser uma das sedes da Faculdade Intercultural Diferenciada (FAIND), assim como a Unemat.
O professor Kavisgo Txicão (etnia Ikpeng) destacou que a educação convencional ainda não contempla as necessidades da população indígena, que o Avalia MT, por exemplo, envia questionários com perguntas sobre a Revolução Francesa, o Nazismo, e os avaliadores reclamam, dizendo que a educação indígena está atrasando Mato Grosso.
Para Jones Crixí (etnia Munduruku), o incentivo dos pais para que as crianças da etnia estudassem foi fundamental e, além disso, o Projeto Tucum de formação de professores indígenas, que teve início em 1995, representa um grande marco.
Sati-i Panará (etnia Panará) ressaltou a importância da educação no processo de demarcação e reconhecimento dos territórios ao longo dos anos. Ele falou também que os primeiros contatos entre seu povo e os seringueiros foram traumáticos, com muitas mortes provocadas por ataques e também doenças. História da qual também partilham os Rikbaktsa, representado no evento pelo professor Huberto Mytsikzi Rikbakta. Ele contou que, na década de 1970, devido aos ataques iniciados 30 anos antes, chegaram a ser cerca de 200 pessoas apenas, mas que hoje conseguiram aumentar a população para cerca de 3.100 pessoas. Há escolas convencionais dentro de dois dos três territórios da etnia no estado e, apesar de isso ser muito importante, o fato de não levarem em consideração as especificidades dos povos indígenas está fazendo as crianças se acostumarem a seguir os horários da cidade, e não do território.
Para Mateus Rondon (etnia Terena), o apoio de outros movimentos sociais foi e ainda é importante para a conquista do reconhecimento do território, e ainda há muito a se construir. A professora Ivanete Krixi falou sobre como os povos indígenas se uniram e formaram famílias multiétnicas para sobreviver aos ataques e tentar preservar sua cultura. Ela pediu mais apoio da UFMT às causas indígenas e reforçou a importância de estabelecer, na universidade federal, um campus da Faculdade Intercultural Diferenciada.
O representante da etnia Enawenê-Nawê, professor Wahtere Enawenê, falou da importância da preservação da língua, considerando que sua etnia é uma das que teve contato mais recente com não indígenas. Dialogando com os parentes, o representante da etnia Manoki, Edivaldo Mampuche finalizou a mesa afirmando que a educação contribui para que as pessoas conheçam o diferente. “Ninguém respeita aquilo que não conhece, então é preciso conhecer o outro, o diferente”, concluiu.
Parcerias e compromissos
A troca que existe hoje entre as universidades públicas de Sinop (UFMT e Universidade do Estado de Mato Grosso - Unemat) foram expostas na tarde de quarta-feira.
Representantes de projetos como Ação Saberes Indígenas da Escola (valorização das culturas e línguas), UFMT-Xingu (área da Saúde), Gaia (incentivo à produção agroflorestal), Arborecer e outras iniciativas de educação ambiental foram apresentados.
O professor Gustavo Canale destacou que o agronegócio afirma que produz ao mesmo tempo que preserva o meio ambiente. No entanto, os mapas de conservação ambiental registram que as únicas áreas preservadas em Mato Grosso são justamente onde estão localizadas as terras indígenas. “Quem preserva 60% das terras em Mato Grosso? As terras indígenas. Se a gente ainda tem floresta em Mato Grosso é por causa das terras indígenas”.
O diretor da Adufmat-Ssind, Breno Santos, ressaltou que o papel da universidade não é só para escrever artigos e publicar em revistas; é para estar junto com o povo, ter compromisso político e social. Nesse sentido, todo o trabalho realizado nos três dias do evento resultará num documento que, a princípio, seria elaborado ao final do encontro, mas a pedido do Movimento Indígena será, antes, avaliado em suas comunidades. A ideia é justamente estreitar essa relação com as comunidades.

Na quinta-feira pela manhã, dia 21/05, os participantes do evento foram para as ruas defender que a UFMT não seja desmembrada, e sim que fortaleça sua política multicampi. Na Praça da Bíblia, afirmaram que só assim esse compromisso entre os povos tradicionais e originários, isto é, da população em si, poderá ser de fato construído.
Confira as fotos do evento nas redes sociais oficiais da Adufmat-Ssind no instagram e facebook.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Territórios Amazônicos II: Qual o papel da universidade no debate sobre degradação ambiental e redução das desigualdades no campo?
O segundo dia de atividades do evento Territórios Indígenas MT II foi marcado por debates profundos, orientados pelos movimentos sociais de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de Atingidos por Barragens (MAB). Novamente, o papel da universidade em meio às questões sociais, políticas e econômicas que envolvem as disputas pela terra entre os movimentos sociais e o agronegócio foi o ponto central das reflexões.
A coordenadora estadual do MST, Dê Silva, iniciou sua intervenção com a poesia “A fala da terra”, de Pedro Tierra, que ressalta: a paz no campo tem nome, é Reforma Agrária (leia a íntegra aqui).
Em seguida, relatou as dificuldades de falar de Reforma Agrária, uma política realizada em dezenas de países, incluindo Estados Unidos da América e outros europeus, num país que ainda não fez, e da importância da educação neste processo, em parceria com os movimentos sociais de trabalhadores organizados e as comunidades tradicionais, sem as imposições estabelecidas pelo governo – já orientado pelos interesses econômicos.
“A agroecologia é um modelo antagônico ao modelo hegemônico do capital, ela vai contra o capitalismo e o agronegócio. Se a universidade pensa em discutir agroecologia em paridade com o agronegócio, ela está fora da realidade do mundo. É preciso compreender a agroecologia como um modelo de enfrentamento a esse setor e ao capital”, pontuou.
Segundo Silva, neste debate, uma informação fundamental é quanto o setor hegemônico e o próprio Governo investem na instituição. “Assim, nós vamos saber que quem sustenta, de fato, a universidade é o povo, não é o agronegócio, porque esse modelo só expropria e explora. Para que de fato nós tenhamos demarcação de terras, os direitos que reivindicamos, a democratização da educação contextualizada será nossa ferramenta. Nós não queremos apenas o acesso à educação clássica e bancária, mas uma educação que enxergue a partir das nossas culturas, etnias, e priorize o fortalecimento das políticas que nós realmente precisamos, que são, de fato, as necessidades do povo – Pronera, Proindi, entre outras. É preciso que a universidade se abra para o povo, e essa é uma decisão política”.
Marciano da Silva, também do MST, explicou que ser “sem terra” é uma identidade; é muito mais do que lutar pela distribuição de terras, é lutar pela democratização da terra junto à garantia de todos os direitos aos trabalhadores do campo e da cidade. “Todos os direitos que cada um de nós, aqui hoje, tem, foi conquistado com luta, não foi dado por alguém que era bonzinho”, destacou.
Além disso, o debatedor apresentou a agroecologia como, além de um modelo de produção, uma ciência que visa produzir pensando nas pessoas, nos animais e no meio ambiente. Um modelo que ajuda no fortalecimento de uma sociedade mais justa e igualitária.
“A Reforma Agrária é uma questão de justiça, e o Brasil é um dos poucos que ainda não fez. Até os Estados Unidos fizeram. Os assentamentos não são a Reforma Agrária ainda, são frutos dessa luta, mas quando houver a Reforma Agrária vai ser bem diferente”, finalizou.
A professora Rafaella Felipe falou sobre a experiência no Projeto Gaia, que promove agroecologia em Sinop. Segundo Felipe, houve e ainda há muita resistência dentro e fora da universidade, e ainda não há órgãos institucionais para promover este modelo.
A docente falou, ainda, sobre alimentos com agrotóxico (veneno): uva, batata, tomate, pimentão, e destacou uma aparente contradição: um dos menos contaminados, de acordo com as pesquisas oficiais, é a soja. Isso ocorre porque, apesar de a soja ser um dos produtos que mais utiliza agrotóxicos na sua produção, os grandes produtores têm equipamento de milhões, enquanto a agricultura familiar tem apenas a indiferença. “A agricultura familiar está abandonada”, afirmou.
A manhã foi encerrada por uma dinâmica de grupos, onde os participantes deveriam destacar ameaças e fortalezas que identificam em suas lutas.
Algumas ameaças destacadas foram: o agronegócio, Hidronegócio, alimentos produzidos com alto teor de insumos agrícolas, emissão de carbono, mudanças climáticas, desmatamento, garimpeiros, madeireiros, a lógica do lucro, a naturalização do químico, a pressão dos fazendeiros, individualidade, Congresso inimigo do povo, desinformação, ignorância, mídia, universidade nas mãos dos capitalistas, abuso de poder, feminicídio, racismo, desigualdade no financiamento para produção (agronegócio tem financiamento público, a agricultura familiar não tem), especulação imobiliária, cooptação dos jovens.
Entre as fortalezas, foram citadas a solidariedade, a coletividade, unidade na luta, unidade popular, conscientização, movimentos e projetos que visam introduzir a agroecologia no cotidiano, estimular debates sobre meio ambiente, hortas escolares, educação, respeito, educação e sustentabilidade, agroecologia como ferramenta de segurança alimentar, alimentos saudáveis, soberania alimentar, ervas medicinais, emancipação humana, comunicação entre pessoas e comunidades, convívio interculturais.

Não é preciso degradar para prosperar
No período da tarde, a mesa “Degradação ambiental: ocupação do território, desafios e prioridades” foi conduzida pelos representantes do Movimento de Atingidos por Barragens.
A coordenação nacional, Emilly Schwingel, falou sobre a atuação do movimento em mais de 22 estados, onde pessoas foram atingidas por barragens e pelas mudanças climáticas.
Ela destacou que os grandes causadores dos crimes ambientais, desastres e mudanças são grandes empresas como a Vale, a Cargill, a Amaggi, entre outras, e não o nosso banho de mais de 5 minutos, como tentam fazer a população pensar. De acordo com Schwingel, os crimes ambientais ocorrem porque as empresas colocam o lucro acima da vida.
Após a leitura de um cordel sobre o tema, a professora Keyla Garcia, atingida pela construção da Usina Hidrelétrica de Sinop, também criticou a produção predatória de monocultura – de soja, de milho -, e falou sobre a Gleba Mercedes V, assentamento Wesley Manoel dos Santos, localizado ao norte de Mato Grosso (zona rural de Sinop), que foi colonizado de maneira institucionalizada a partir da década de 1970, orientada por políticas da ditadura militar. Na época, a região ficou conhecida como a última fronteira agrícola (saiba mais aqui).
Mais uma vez a grande questão foi: qual o papel da universidade, como ela pode ajudar? As respostas foram desde estimulando a conscientização e escutando os povos que ocupam esses territórios até desenvolvendo conhecimento e tecnologias.
A dinâmica da tarde pretendeu, justamente, identificar as degradações ambientais, seus causadores e o que é possível fazer neste cenário. Os participantes falaram sobre irregularidades nas chuvas, riscos às espécies, empobrecimento dos solos, entre outras realidades já vivenciadas nas regiões.
O diretor da Adufmat-Ssind, Einstein Aguiar, representou um dos grupos e apresentou as ideias sobre como as instituições de ensino superior podem atuar. “A universidade tem vários papéis: monitorar (ela poderia ter um laboratório com satélite desenvolvido e mantido pelo governo, por exemplo. Tem isso a serviço do agro); ela pode criar subsistência voltada a desenvolver tecnologias para os pequenos produtores; ela pode agir como viabilizador de conhecimento, promovendo cursos rápidos para identificação das necessidades da comunidade, fazer formação em geoprocessamento, por exemplo; ela pode ter ambiente de prova, de teste, isso é muito comum na academia. Claro que a instituição não vai resolver tudo, ela não é o Estado, mas ela é um veículo que a gente pode usar para pensar, construir e elaborar”, afirmou.

A professora e também diretora da Adufmat-Ssind, Maria Salete Ribeiro, utilizou o microfone para agradecer. “Nós temos muito a aprender com os povos dos territórios. Saber a situação e, principalmente, as alternativas apontadas pelos povos originários, é fundamental para a produção de conhecimento de ensino superior”.

Representantes indígenas de diversas etnias reafirmaram a importância da educação para fortalecer as relações entre as aldeias, garantindo direitos, e também aumentando o poder de reivindicação das populações.
Esses destaques serão sistematizados em um documento, consolidando as potencialidades e desafios apontados pelos grupos.
O dia foi encerrado, novamente, com a exibição de filmes. Desta vez “Vidas Alagadas”, do MAB, e “Bicho Livre Terra Viva”, do Proteção Animal Mundial.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Inscrições abertas para o evento Territórios Amazônicos - Educação, Direitos e Resistência; clique aqui para se inscrever
A Adufmat-Ssind está com inscrições abertas para a segunda edição do evento “Territórios Amazônicos – Educação, Direitos e Resistência”, que será realizado entre os dias 18 e 21/05, em Sinop. A programação reunirá representantes da comunidade acadêmica, movimentos sociais, povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais e demais interessados em debater os desafios enfrentados pelos territórios amazônicos e o papel da educação pública na transformação social.
O encontro propõe reflexões sobre temas centrais para a região amazônica, como reforma agrária, agroecologia, degradação ambiental, justiça social, sustentabilidade, resistência popular e garantia de direitos. Segundo a organização, o evento busca fortalecer espaços democráticos de troca de saberes e construção coletiva diante do avanço das desigualdades sociais, territoriais e socioambientais.
A programação será realizada presencialmente na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus de Sinop, e contará com mesas de debate, atividades culturais, rodas de conversa e participação de diversos segmentos sociais ligados às lutas em defesa dos territórios amazônicos.
O “Territórios Amazônicos II” pretende consolidar um espaço popular de diálogo entre universidade e sociedade, articulando educação pública, direitos humanos e resistência social em defesa da Amazônia e de seus povos.
As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas pela plataforma oficial do evento. Haverá certificação para os participantes.
Faça aqui sua inscrição – Territórios Amazônicos II
Também haverá caravana saindo de Cuiabá no dia 18 de maio.
Interessados devem realizar a inscrição até 15/05 (Sexta-feira) às 13h.
Para fazer sua inscrição na caravana clique aqui.
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind












