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Terça, 24 Março 2026 09:16

A Comunicação como engrenagem da violência: o perigo do jornalismo não profissional Destaque

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 *Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial

 

Mato Grosso é, lamentavelmente, um dos estados mais agressivos contra as mulheres no Brasil. Nesse cenário de vulnerabilidade extrema, a comunicação deveria atuar como rede de proteção, mas o pensamento conservador característico da região junto a precarização do trabalho jornalístico — alimentada pela não obrigatoriedade de formação específica aprovada em 2009 — tem permitido que, para além das redes sociais, já sem nenhum tipo de regulamentação, outros veículos se transformem em extensões de discursos que agravam o quadro de violências contra as vítimas.

 

A flexibilização da exigência de formação específica em jornalismo não é um detalhe técnico. Ela impacta diretamente a qualidade da informação e contribui para legitimar narrativas que colocam mulheres como suspeitas, exageradas ou manipuladoras — bases típicas de discursos como os difundidos por comunidades “Red Pill”.

 

Mato Grosso tem vivido essa degradação. Todos os dias algum novo veículo, que não possui sequer expediente para identificar sua equipe, espalha narrativas que desvirtuam o papel de informar e evidenciam o de defender interesses particulares. No jornalismo profissional, o expediente é o mínimo que um site sério deve informar. Ele permite saber quem escreve, quem responde, quem edita. Sem isso, não há compromisso verificável com qualquer verdade.

 

Não é nenhuma novidade que o dinheiro aliado à comunicação presta desserviço em nome da disputa retórica, mas isso tem se agravado e, como temos visto, atingido diretamente a vida de milhares de mulheres. Do contrário, os casos teriam diminuído e não aumentado. Cinquenta e três mulheres que eram mães, filhas, amigas, primas, sobrinhas, companheiras foram assassinadas no estado em 2025 - mais de uma por semana, para quem considera que o mais importante nisso tudo é o número. Segundo o Observatório Caliandra (mantido pelo Ministério Público), foi o maior registro dos últimos 5 anos. Em apenas três meses de 2026, ao menos oito mulheres já foram apartadas daqueles que realmente amam, pelas mãos de homens que se sentem no direito de levantar primeiro a voz, depois a mão, e por fim a arma para uma pessoa que simplesmente não é obrigada a conviver com ninguém, caso não queira.     

 

É preciso pensar e lutar pela Comunicação

 

A falta de formação jornalística e o viés ideológico resultam em matérias que, quando não explicitam, induzem o público a diversos erros. Por exemplo, recentemente, um portal de notícias de Mato Grosso, destes, sem expediente e até mesmo com editorias ainda em construção em outro idioma, publicou uma matéria, em tom de vitória, afirmando que um processo contra um agressor - já denunciado por mais de uma vítima - teria sido "anulado". Contudo, os documentos revelam uma realidade estritamente processual: o Tribunal de Justiça de Mato Grosso reconheceu apenas a nulidade da citação por edital.

 

Isso significa que a decisão ocorreu porque o juízo tentou intimar o réu em endereço e telefone errados, sem esgotar as buscas nos sistemas disponíveis. Ou seja, o processo não foi encerrado por inocência do acusado, mas deve recomeçar do ponto da intimação válida. Ao vender uma "anulação" inexistente, o site fortalece a sensação de impunidade em um estado já marcado pelo feminicídio.

 

Em outro site, também sem muitas informações sobre responsáveis, uma notícia sobre agressão em Rondonópolis expõe detalhes sobre a vítima, facilitando sua identificação: onde mora, qual a dinâmica da relação com o agressor, rotina, quais palavrões eram usados para agredir a mulher, entre outras informações de cunho pessoal, quando deveria problematizar o contexto da relação de violência e informar quais são os recursos de proteção e denúncia. Esse tipo de relato transforma violência doméstica em narrativa de ocorrência, sem cuidado com proteção da vítima, tornando-a novamente vítima.

 

Estes são apenas dois casos diante de outros, que costumam utilizar estratégias como narrativas de "Retaliação Emocional", aquelas cujas publicações tentam emplacar a ideia de que mulheres utilizam a Lei Maria da Penha para se vingar de ex-parceiros, classificando denúncias graves como meros ressentimentos pessoais; vazamento de conversas privadas, quando o portal utiliza capturas de tela de conversas íntimas e fotos das vítimas — muitas vezes extraídas de processos que deveriam ser resguardados por sigilo — para expô-las publicamente e gerar constrangimento social; e ataques à própria Lei Maria da Penha, quando o conteúdo frequentemente dá voz a acusados que se dizem "vítimas do sistema", questionando a constitucionalidade e a aplicação da proteção legal feminina.

 

Esse jornalismo "justiceiro" e enviesado ignora que a exposição indevida da imagem e da vida privada de uma mulher em situação de violência é, por si só, uma forma de violência psicológica. Em Mato Grosso, onde o risco de feminicídio é real e constante, a comunicação que escolhe o lado do agressor sob o manto de uma falsa liberdade de expressão torna-se cúmplice do silenciamento das vítimas.

 

A professora Lélica Lacerda, integrante do Grupo de Trabalho Política de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind) destaca, ainda, outras estratégias. “Em geral, se constrói uma narrativa em que o sujeito da frase nunca é o homem. Geralmente, no título, colocam a mulher como sujeito e o motivo pelo qual ela morreu. Nunca é: ‘fulano mata esposa’, é sempre alguma coisa do tipo ‘após ser flagrada com amante, mulher é morta de tal forma’. Outra questão é a exploração das imagens. Em vez de aparecer a imagem dos homens sendo presos, o que tem sido veiculado são imagens das mulheres sendo agredidas. Então, você está no seu cotidiano, comendo, andando e vendo mulher sendo violentada... isso vai dessensibilizando. Nós estamos num momento de hiper exposição de situações de violência e a gente está naturalizando essas violências. Por exemplo, cobertura de guerra: todos os dias a gente vê crianças palestinas sendo bombardeadas, mas não relaciona ao fato de que outros países, Israel e EUA, estão fazendo isso... e isso vai dessensibilizando, desumanizando os palestinos”.    

 

Disciplina é liberdade

 

A história do Jornalismo no Brasil é a seguinte: os próprios trabalhadores da Imprensa defenderam a formação específica para atuar na área no início do século XX. Nem existia curso de jornalismo ainda – o primeiro foi da Casper Líbero, na década de 1940. Isso porque pessoas sem compromisso com o interesse público, empenhadas apenas em obter vantagens pessoais, utilizavam a profissão para isso.

 

Esse comprometimento com o interesse coletivo se chama ética profissional, e é a primeira prerrogativa a qual um trabalhador da Imprensa deve se atentar. Desse modo, até por uma questão de coerência, o Jornalismo não poderia atuar como promotor ou facilitador de discursos de ódio, como o “Red Pill”.

 

Como diz a música: “disciplina é liberdade”. Ninguém pode ser livre no caos. É preciso lutar para retomar a exigência de formação específica para o exercício do Jornalismo, regulamentar as redes e os meios de comunicação e instituir políticas de observação e fiscalização dos veículos.

 

A imprensa só será livre se tiver métodos. Não é liberdade quando é mentira, quando prejudica, quando presta desserviço público.

 

 

Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Ler 55 vezes Última modificação em Terça, 24 Março 2026 10:26
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