Quinta, 23 Abril 2026 09:39

 

Ao longo de 2026, ano em que celebramos os 45 anos de fundação do ANDES-SN, preparamos uma série de reportagens que resgatam a trajetória do Sindicato, marcada pela resistência ininterrupta em defesa da educação pública e da categoria docente. A cada mês, publicaremos textos que, a partir de um objeto ou acontecimento, refletem momentos importantes dessa construção.

Duas décadas de luta e uma greve de fome

A história da categoria docente, nas décadas de 1980 e 1990, consolidou a greve como o instrumento máximo de luta contra o sucateamento e a retirada de direitos. Esse ciclo iniciou-se com a paralisação de 1980, que resultou na própria criação da Associação dos Docentes de Ensino Superior (ANDES) em 1981. 

O movimento docente atravessou a década de 1980 com mobilizações sucessivas em 1982, 1984, 1985 e a marcante greve de 1987, que conquistou o Plano Único de Classificação e Retribuição de Cargos e Empregos (PUCRCE) e a isonomia entre autarquias e fundações.

Nos anos 1990, o desafio deslocou-se para o enfrentamento ao projeto neoliberal, com a histórica greve de 1991 — a maior do Setor das Instituições Federais de Ensino até então, com 107 dias — além dos embates em 1993, 1994 e 1996 contra as contrarreformas administrativa e previdenciária impostas pelos governo de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Os avanços desse período incluíram a garantia da autonomia universitária, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, e vitórias na política salarial e de aposentadoria. Contudo, o desafio permanente era enfrentar governos que aplicavam ajustes estruturais recomendados pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que tinham como alvo as universidades públicas.

Como testemunha e protagonista dessa história, a professora Celi Taffarel, ex-secretária-geral do Sindicato Nacional (gestão 2002-2004), viveu intensamente esse processo. A docente já foi vinculada às universidades federais de Pernambuco (UFPE) e de Alagoas (Ufal) e, atualmente, é professora da Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN


Ela enfatizou que, naquela época, o movimento docente deliberava pela greve "de dois em dois anos", para enfrentar as sucessivas tentativas de desmonte da educação pública. Para Celi, a docência e o sindicato são instrumentos indissociáveis de um projeto histórico de nação soberana e humanizada.

A docente contou que o momento mais agudo dessa história foi a greve de professores e professoras de 1998. A paralisação reuniu 51 instituições federais, durante 104 dias, contra os ajustes estruturais do governo de Fernando Henrique Cardoso.

1998: Luta por dignidade

O movimento paredista de 1998 destacou-se pela realização da única greve de fome de docentes federais do ANDES-SN. Diante da intransigência do governo de Fernando Henrique Cardoso, que impunha gratificações meritocráticas (como a Gratificação de Estímulo à Docência - GED) e excluía aposentados e aposentadas e professores e professoras de 1º e 2º graus, a categoria radicalizou.

“Em 1998, nós fizemos uma greve, que foi a segunda maior greve do nosso sindicato, até então. Antes de deflagrarmos a greve, a professora Maria Cristina de Morais, que era presidente do ANDES-SN, protocolou, por encaminhamento das assembleias, a nossa pauta de reivindicação do Setor das Federais. E, se vocês lerem esse documento, vocês podem verificar o quanto, desde aquela época, nós tínhamos pautas que continuam em nossa luta até hoje”, comentou Taffarel.

A docente lembrou que as lutas pelo padrão unitário de qualidade, que vincule a universidade à sua função social, pelo desenvolvimento da educação pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referenciada, por mais financiamento e pela democratização interna das instituições já estavam na pauta da categoria.“Naquela época, nós já lutávamos contra a reforma administrativa. Nós queríamos uma política salarial que realmente recompusesse o nosso salário perante as perdas. E queríamos também que tivéssemos incorporadas as gratificações, que eram penduricalhos, pois quando nos aposentávamos, nós não tínhamos direito a essas gratificações. E os aposentados, portanto, sofriam muito”, acrescentou.

A professora afirmou que o movimento também apresentou uma pauta emergencial, com itens que deveriam ser imediatamente atendidos. “Nessa pauta emergencial estava o reajuste salarial de 48,65%; a não redução do quadro de funcionários, muito pelo contrário, a ampliação de vagas via concurso público; e a retirada da medida provisória, que simplesmente colocava a gratificação como sendo constitutivo do nosso rendimento. E essa gratificação variava de acordo com a capacidade do professor, de acordo com o nível na carreira - se era início de carreira, se era meio, se era o final da carreira. Era uma injustiça enorme”, contou.

Diante da intransigência do governo FHC, foi proposta a intensificação do movimento e encaminhado, às assembleias de base, deliberar pela realização da greve de fome. “Foi uma decisão coletiva, a partir do comando de greve. Foi remetido para as bases, para as seções sindicais. As seções sindicais discutiram e aderiram. Nós fomos 19 professores, que tivemos aprovação das nossas assembleias, para participar da greve de fome. Foi um momento muito crucial e de muita sensibilidade humana”, recordou.

A docente lembrou os debates nas assembleias e a dificuldade que colegas expressavam de apoiar um movimento que poderia colocar em risco a vida de companheiras e companheiros. “Uma plenária, com um número enorme de professores, tinha que decidir. Vamos ou não vamos fazer greve de fome? Era a primeira decisão. Aí, vinham os debates, as discussões. Os colegas sensibilizados. ‘Eu não vou votar para que um colega meu morra de fome’. ‘Eu não quero que meus colegas morram’. E os outros dizendo: ‘mas esse governo não nos respeita’. ‘Esse governo não atende as nossas indicações. Nós vamos ter que radicalizar’. E aí, as plenárias votavam. E, depois de votar: sim, nós vamos participar, vinha o momento seguinte. Quem se dispõe a ir para a greve de fome? Esse é também um momento muito sensível na vida da categoria. Porque não é uma decisão individual. É uma decisão coletiva”, explicou.

Durante a entrevista, Celi reviveu a tensão emocional do período, pois além da decisão junto ao coletivo docente, também foi preciso dialogar no ambiente familiar."Você tem que chegar em casa e conversar com as crianças, com o marido e tem que argumentar: ‘Mas mãe, por que você vai fazer greve de fome?’ ‘Porque eu quero que todos tenham o melhor. Se vocês têm o melhor, todos devem ter o melhor. Todas as crianças, todos os jovens, da creche até a educação de jovens e adultos’. Nesse sentido, era muito, mas muito, muito sensível”, revelou, com os olhos marejados

Celi Taffarel foi uma das e dos 19 docentes que, após deliberação coletiva das assembleias de base, dispuseram seus próprios corpos à luta. ""Privo-me da comida porque me tiram a voz, o salário e tentam tirar-me o respeito", dizia o manifesto dos e das docentes, que ocuparam o auditório Dois Candangos, na Universidade de Brasília (UnB)

O movimento da greve de fome encontrou grande solidariedade no Brasil e internacionalmente. Mensagens chegavam por email (ferramenta recente naquela época), via fax, telegramas. Professores e professoras que não estavam em greve de fome vinham de vários estados visitar as e os colegas.

“Essa coletividade, eu lembro até hoje. Quando nós começamos a greve de fome, professores que não fizeram greve de fome vinham de outros estados conversar com a gente, nos visitar. Vinham nos acalentar, acompanhar de manhã, quando saíamos para tomar banho de sol, que era a maneira com que nós nos alimentávamos, com os raios solares. [Lembro] o quanto eles foram solidários, nesses 17 dias em que nós ficamos na greve de fome”, contou Taffarel.

O grupo era constantemente acompanhado por uma equipe multidisciplinar da área da saúde. O desgaste físico foi severo. Celi, que tinha 47 anos e era muito magra na época, passou a desmaiar já no quarto dia, tendo sua vida colocada em risco e orientada a suspender a greve de fome. Parte do grupo resistiu por 17 dias em privação total de alimentos, bebendo apenas água.

A pressão do parlamento e a solidariedade nacional forçaram o governo a negociar pautas emergenciais e liberar salários retidos. Um acordo negociado, com mediação do então presidente do Congresso Nacional, Antônio Carlos Magalhães, colocou fim à greve histórica.

Luta traz conquistas

Celi Taffarel ressaltou que o ANDES-SN continua sendo o "esteio fundamental" de resistência para garantir uma universidade pública, laica e socialmente referenciada. Ela reforçou que a luta sindical é um instrumento fundamental, que unifica gerações, e conclamou a juventude docente a manter vivo esse legado, construído ao longo de mais de quatro décadas.

A docente rejeitou a visão individualista da docência e lembrou que a lição de 1998 permanece.  "A luta que traz as conquistas. Elas não caíram do céu. Elas não são benesses. As conquistas são fruto da luta, por isso a importância desse sindicato”, afirmou.

Durante o 44º Congresso do ANDES-SN, a professora Celi Taffarel foi homenageada pelo Coletivo Democracia e Luta da UFBA por seu papel acadêmico e por sua trajetória de luta na construção e defesa do ANDES-SN como único representante da categoria docente.

 Participantes voluntários da greve de fome do ANDES-SN em 1998:

1. Alexis Leite - Universidade Federal do Piauí
2. Antônio Rafael da Silva - Universidade Federal do Maranhão
3. Cândido Medeiros - Universidade Federal do Maranhão
4. Delso Lima Filho - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
5. Durval Cruz Prazeres - Universidade Federal do Maranhão
6. Irenilda Ângela Santos - Universidade Federal de Mato Grosso
7. Maria Luiza Fontenelle - Universidade Federal do Ceará
8. Marcelo Guina Ferreira - Universidade Federal de Goiás
9. Nelson O. Doki - Centro Federal de Educação do Paraná
10. Pedro Rodolpho Jungers Abib - Universidade Federal da Bahia
11. Carlos Adalberto Celedoni - Universidade Federal do Ceará
12. Alexandre Luiz Gonçalves de Resende - Universidade de Brasília
13. Glauco Falcão de Araújo - Universidade de Brasília
14. Jorge Paulo Watrin - Universidade Federal do Pará
15. Raimundo Nonato Nunes - Universidade Federal do Rio Grande do Norte
16. Marcos Lourenço Herter - Universidade Federal de Santa Catarina
17. Valter Pires Pereira - Universidade Federal do Espírito Santo
18. Celi Taffarel - Universidade Federal de Pernambuco
19. Maurício Roberto da Silva - Universidade Federal de Santa Catarina

 

Fonte: Andes-SN

Terça, 01 Dezembro 2020 09:14

 

Depois de oito dias em jejum total, educadores paranaenses encerraram a greve de fome nessa quinta-feira (26). O grupo estava acampado em frente à sede do governo estadual, Palácio Iguaçu. A ação foi finalizada após uma assembleia da categoria, que definiu outras estratégias de mobilização contra os ataques do governo Ratinho Júnior (PSD).

De acordo com a APP-Sindicato, a greve de fome foi encerrada para garantir a saúde dos manifestantes, que já estavam há 174 horas sem qualquer tipo de alimentação. Outro fator considerado foi o avanço da pandemia do novo coronavírus, com aumento do número de casos e mortes na capital paranaense. Conforme orientação da equipe médica voluntária que acompanhou os educadores, a fragilidade imposta ao organismo pela falta de alimentação poderia deixá-los ainda mais vulneráveis ao vírus.

Segundo o secretário de Comunicação da APP-Sindicato, Luiz Fernando Rodrigues, a categoria continuará mobilizada, denunciando os ataques do governador Ratinho Jr. e do secretário da Educação, o empresário Renato Feder, e cobrando que as reivindicações dos trabalhadores da educação do Paraná sejam atendidas.


A greve de fome se deu pelo descaso e insensibilidade do governador Ratinho. Desempregar milhares de pessoas e colocar outras milhares em risco em plena pandemia são provas de que o governo do Paraná não se preocupa com a vida do povo paranaense. Por isso, vamos intensificar a luta e desmascarar esse governo que se esconde como rato do debate com a categoria. Saímos mais fortes e mais dispostos a enfrentar e denunciar os abusos do governador e do comerciante que ocupa a Secretaria de Educação", destaca Rodrigues.


Entre as principais pautas estão a revogação do edital 47, o qual institui prova presencial para o Processo Seletivo Simplificado (PSS). Junto com a revogação do edital e da prova, a categoria reivindica a renovação dos contratos de professores e funcionários de escola, atualmente contratados de forma temporária pelo PSS, o pagamento do salário mínimo regional e de promoções e progressões, concurso público para suprir o déficit de educadores, além da manutenção das turmas de ensino noturno nas escolas incluídas no processo de migração para o modelo cívico-militar.


Luta intensa

 

Os trabalhadores em educação intensificaram as mobilizações em todo o estado no começo de novembro, quando o governador, Ratinho Jr., e o secretário de Educação, Renato Feder, anunciaram a militarização de 216 escolas no Paraná e a realização de uma prova para o PSS.


Em resposta à falta de diálogo com a categoria, foram realizados atos na capital Curitiba e em várias cidades do estado. Graças à mobilização, no dia 17, representantes do governo se reuniram com o sindicato para discutir as reivindicações dos trabalhadores. Como não houve avanço, a categoria montou acampamento em frente ao Palácio Iguaçu. E, no dia seguinte, um grupo ocupou a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) para exigir dos parlamentares mediação no diálogo com o governo. Após a desocupação, no dia seguinte (19), 49 educadores iniciaram uma greve de fome para denunciar a falta de diálogo e respeito do governador.

* Fonte: APP-Sindicato (com edição do ANDES-SN)