I Conferência Antifascista propõe frente internacional contra a extrema direita
A cidade de Porto Alegre (RS) ocupou papel central na articulação da resistência global com a realização da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, entre os dias 26 e 29 de março. O evento foi um marco na articulação contra a ascensão da extrema direita e do neofascismo não só no país, mas em todo o mundo.

A Conferência, que contou com o apoio central e a participação do ANDES Sindicato Nacional, reuniu mais de 4,5 mil ativistas, lideranças políticas, intelectuais e representantes de movimentos sociais, sindicais e estudantis, vindos de mais de 40 países de cinco continentes.
O início da jornada foi marcado pela força das ruas. Na noite do dia 26, milhares de pessoas marcharam pelo Centro Histórico da capital gaúcha com palavras de ordem contra o imperialismo, pela autodeterminação dos povos indígenas, além de cartazes que denunciavam o genocídio na Palestina e o autoritarismo na América Latina.

Mais cedo, na Assembleia Legislativa do Estado, o Fórum de Autoridades Antifascistas debateu o papel e os limites da ação institucional, destacando que o fascismo contemporâneo se alimenta da desigualdade, do ódio e da desinformação, exigindo não só a defesa da democracia formal, mas a construção de uma democracia econômica.
Crise do capitalismo
No dia 27, a 1ª Conferência “A Ofensiva da Extrema Direita no Mundo: Causas, Consequências e Desafios” analisou que a escalada neofascista está ligada à crise do capitalismo e ao esgotamento de décadas de políticas neoliberais. A precarização das condições de vida, o aumento das desigualdades e a disseminação da desesperança criaram um terreno fértil para discursos autoritários.

A 2ª Conferência destacou a experiência argentina sob o governo de extrema direita de Javier Milei, apontando o país como um “laboratório” de reorganização capitalista. Foi ressaltado o protagonismo das mulheres nas mobilizações de 24 de março, que levaram 1 milhão de pessoas às ruas, e a importância da unidade entre diferentes forças políticas para construir alternativas populares.
Já a 3ª Conferência do dia tratou da resistência sindical e da organização da classe trabalhadora frente ao neoliberalismo, enquanto a 4ª Conferência abordou o caso brasileiro, destacando o bolsonarismo como expressão local de um fenômeno global. As análises indicaram a permanência de estruturas autoritárias herdadas da ditadura empresarial-militar e a articulação entre extrema direita, milícias e interesses imperialistas.
Encerrando o dia, a 5ª Conferência reforçou a centralidade da solidariedade entre os povos e da luta anti-imperialista. Foram denunciadas as intervenções militares, sanções econômicas e tentativas de desestabilização de países que buscam caminhos soberanos. Nesse contexto, Cuba, Irã e Venezuela foram citados como exemplos de resistência.
Atividades autogestionadas
No dia 28, pela manhã, o ANDES-SN promoveu atividades em sua sede na Regional do Rio Grande do Sul. Os debates abordaram temas como feminicídio, transfeminicídio e os impactos do imperialismo na América Latina, reforçando a importância de compreender as múltiplas dimensões da violência da extrema direita.

A mesa “Feminicídio e Transfeminicídio como resultado do projeto da extrema direita no Brasil e na América Latina”, contou com a participação das diretoras do ANDES-SN, Letícia Carolina Nascimento, 2ª vice-presidenta, e Emanuela Rútila, 2ª vice-presidenta da Regional Nordeste II, ambas do Grupo de Trabalho de Política de Classe para as Questões Étnico-raciais, Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) do Sindicato.
Em suas falas, as docentes situaram a violência contra a mulher nas esferas doméstica e institucional, denunciando a "pedagogia da agressão" da machosfera e o papel das big techs na monetização do ódio. Complementando a análise, foi criticado o silenciamento das pautas de gênero e raça sob a pecha de "identitarismo" e as táticas globais como o pânico moral, além do "pinkwashing", entendido como uso instrumental de pautas LGBTI+ por agendas geopolíticas e pelo mercado.
“As discussões ressaltaram os desafios nas instituições educativas, exemplificados por casos de misoginia organizada em institutos federais e pela violência institucional, o que exige a criação de redes de autodefesa e protocolos rígidos contra assédios. A atividade definiu o fortalecimento do GTPCEGDS nas seções sindicais e a luta pela regulamentação das plataformas digitais, reafirmando que a unidade da classe trabalhadora deve ser construída como uma síntese viva das diferenças, fundamental para o enfrentamento ao fascismo e a superação das opressões”, avaliou Luciana Henrique da Silva, 1ª vice-presidenta da Regional Pantanal, que esteve na mesa.

Já no segundo debate “Os ataques imperialistas na Venezuela e os impactos na América Latina”, houve a participação de Maria de La Luz, da Rede Social para a Educação Pública nas Américas (Rede Sepa), que dividiu a mesa com o professor Osvaldo Coggiola, 2º tesoureiro da Regional São Paulo do Sindicato Nacional. A discussão se expandiu para além da fronteira venezuelana, abrangendo o bloqueio a Cuba, a ascensão da extrema direita no continente e os ataques aos direitos sociais em países como Argentina e Chile.
"Realizamos um debate qualificado com a categoria, culminando em contribuições diretas para a Carta de Porto Alegre. Saímos com o sentimento de missão cumprida e com o ANDES-SN consolidado na vanguarda da luta internacionalista e antifascista”, disse Caroline Lima, 1ª vice-presidenta e encarregada de Relações Internacionais do Sindicato.
Resistência palestina
Ainda no dia 28, a 6ª Conferência “A Resistência Palestina ao Genocídio e à Opressão do Estado de Israel” destacou essa luta como símbolo global contra o colonialismo e o fascismo. Foi denunciado o “educocídio” em Gaza e defendido o fortalecimento de campanhas internacionais de boicote.

Segundo Muna Muhammad Odeh, 2ª vice-presidenta da Regional Planalto do ANDES-SN e uma das palestrantes, a destruição deliberada de escolas e universidades em Gaza (o “educocídio”) é uma tentativa de apagar o futuro do povo palestino.
"A luta do povo palestino é o epicentro da luta contra o imperialismo. As universidades devem romper com a neutralidade cúmplice. Não há como falar em democracia e direitos humanos sem defender o fortalecimento de campanhas de pressão internacional e o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra as políticas de ocupação", afirmou.
Já a 7ª Conferência debateu o combate ao fascismo nas Américas, destacando as conexões entre lideranças da extrema direita e enfatizando a necessidade de organização popular permanente.
Negacionismo climático
No dia 28, a 8ª Conferência “A Luta Contra o Negacionismo Climático e Pela Reforma Agrária no Contexto da Crise Ambiental” conectou a ecologia à luta de classes, reunindo intelectuais, militantes e ecossocialistas, que destacaram a urgência de um modelo econômico alternativo. Para as e os palestrantes, o capitalismo mostra-se incompatível com a sustentação da vida no planeta, aprofundando as desigualdades socioambientais e acelerando a crise climática.

“O debate afirmou um posicionamento político claro ao articular o combate ao fascismo com a denúncia do negacionismo climático e a defesa dos territórios e dos movimentos de luta pela terra. Além da necessidade de construção de uma sociedade ecossocialista, reafirmando que o enfrentamento ao fascismo passa, necessariamente, pela transformação estrutural das relações entre sociedade, economia e natureza”, declarou Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN, debatedora da conferência.
Luta contra o fascismo
A 9ª Conferência “Antirracismo, Feminismo e Direitos Civis na Luta contra o Fascismo”, realizada na manhã do dia 29, debateu como o machismo, o racismo e a xenofobia são elementos estruturantes do projeto neofascista.

Foto: Júlia Rosa / Imprensa Sindoif SSind.
Letícia Carolina Nascimento, uma das debatedoras da mesa, denunciou o uso de "pânicos morais" — como a ideologia de gênero — para cooptar as massas. “O pânico moral é o laboratório do fascismo contemporâneo. Eles agitam espantalhos morais contra mulheres, negras/os e a população LGBTI+ para ocultar a real exploração do grande capital e o desmonte dos direitos sociais. O ataque a essas existências não é uma ‘pauta cultural’ secundária, mas o cerne de um projeto que violenta quem historicamente sustenta a base da classe trabalhadora”.
Educação, Ciência e Tecnologia
Os debates da 10ª Conferência “Educação, Ciência e Tecnologia para Soberania dos Povos” centraram na disputa pelo saber e como a extrema direita ataca a escola pública e a autonomia universitária para impor um modelo de obediência, exclusão e mercantilização do conhecimento

Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN e um dos palestrantes, reafirmou o orgulho de dirigir um sindicato cuja luta pela educação pública é indissociável da defesa dos interesses da classe trabalhadora.
Utilizando referências de Milton Santos, Mendonça criticou a forma como as big techs e os oligopólios de comunicação utilizam a tecnologia como instrumento de dominação e para instrumentalizar a violência contra as universidades. Ele enfatizou que derrotar o neofascismo exige o fortalecimento do orçamento das universidades públicas e a valorização das e dos trabalhadores.
Além disso, Mendonça defendeu que as instituições de ensino brasileiras rompam parcerias com o "Estado sionista de Israel", mantenham a solidariedade internacional e enfrentem a lógica neocolonial e racista do imperialismo.
“O ANDES-SN defende que só iremos evitar essa catastrófica com muita luta, muita mobilização, respeitando as entidades legítimas da classe trabalhadora fruto da organização na base, mas, fortalecendo com orçamento e condições de trabalho nossas instituições de ensino”, disse.
A 11ª Conferência “Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas” focou na construção de estratégias globais de resistência. A experiência colombiana, elegendo o presidente Gustavo Petro, foi citada como exemplo de unidade entre movimentos e partidos, sem abandonar a mobilização popular.
Lideranças europeias também aproveitaram para denunciar a cumplicidade da União Europeia com o genocídio em Gaza. O consenso foi de que a esquerda deve apresentar alternativas concretas e não temer a polarização.
Carta de Porto Alegre
A Carta de Porto Alegre, aprovada ao final da Conferência, afirmou a necessidade de unidade internacional diante do avanço do fascismo, da extrema direita e do imperialismo em um cenário de crise do capitalismo.
O documento denuncia ataques a direitos, à democracia e à soberania dos povos, além da intensificação de guerras, desigualdades e da desinformação. Como resposta, defende a articulação global das lutas, a ampliação dos direitos democráticos, a valorização do trabalho, a reforma agrária e a defesa do meio ambiente.
Entre as propostas, estão a criação de uma articulação internacional antifascista, a realização de conferências regionais, o apoio à causa palestina, à soberania de países como Cuba e Venezuela, o combate à OTAN e o fortalecimento de iniciativas como o Fórum Social Mundial.
Caravana do FNDC
Paralelamente, o ANDES-SN participou dos debates da Caravana do Fórum Nacional pelo Direito à Comunicação (FNDC), no dia 28. O enfrentamento às big techs e ao monopólio midiático, apontados como pilares da desinformação, foi tema das atividades “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo” e “Propostas para soberania nas comunicações”.

Diego Marques, encarregado de Imprensa e Divulgação do Sindicato Nacional, destacou como o avanço das plataformas digitais e o monopólio da informação impactam diretamente a categoria docente e a produção de conhecimento, alertando que a luta pela democratização da comunicação é indissociável da luta sindical.
Já na mesa “Propostas para soberania nas comunicações”, Helena Martins, 1ª secretária da Regional Nordeste I do ANDES-SN, destacou que o alcance das pautas depende do contexto histórico, lembrando que já se defendeu até a nacionalização das comunicações. Ela criticou o avanço da privatização e defendeu a construção de novos modelos.
Fonte: Andes-SN | Fotos: Eline Luz
Confira a programação da I Conferência Internacional Antifascista; evento começa dia 26
De 26 a 29 de março, Porto Alegre (RS) sediará a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O encontro reúne mais de 100 organizações e movimentos comprometidos com o enfrentamento ao avanço da extrema direita e à escalada autoritária, que ameaçam direitos sociais, liberdades democráticas e a própria democracia em diferentes países.
A abertura ocorrerá na quinta-feira (26), às 14h, com o Fórum de Autoridades Antifascistas, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Às 18h, será realizada a Marcha de Abertura da Conferência, com concentração no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público.
A programação inclui ainda conferências e painéis temáticos, construídos de forma plural e participativa, que abordarão temas como o avanço da extrema direita no mundo, o enfrentamento ao neoliberalismo e ao imperialismo, a solidariedade entre os povos, além de pautas como feminismo, antirracismo, defesa da educação pública, direito à comunicação e combate ao negacionismo climático.
A conferência contará também com atividades autogestionadas, com o objetivo de fortalecer a articulação entre organizações, movimentos sociais, juventudes e militâncias populares. O ANDES-SN está entre as entidades que irão realizar essas atividades ao longo do encontro.
No sábado (28), na sede da Secretaria Regional RS do Sindicato Nacional, ocorrerão dois debates organizados pelo sindicato. Das 8h30 às 10h30, será realizada a atividade “Feminicídio e Transfeminicídio como resultado do projeto da extrema direita no Brasil e na América Latina”, com a participação das diretoras do ANDES-SN, Letícia Carolina Nascimento e Emanuela Rútila.
Na sequência, das 11h às 13h, ocorrerá o debate “Os ataques imperialistas na Venezuela e os impactos na América Latina”, com Luis Bonilla-Molina, professor visitante da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e integrante da organização Otras Voces en Educación, e Osvaldo Coggiola, diretor do Sindicato Nacional.
Caravana do FNDC
O ANDES-SN também está apoiando a atividade autogestionada do Fórum Nacional pelo Direito à Comunicação (FNDC). A Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação terá sua primeira parada na I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, também no dia 28 de março.
Serão duas atividades autogestionadas, a partir das 14h, na sede do Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul. O primeiro debate “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo”, contará com a participação do Encarregado de Imprensa e Divulgação do Sindicato Nacional, Diego Marques. O diretor do ANDES-SN dividirá a mesa com Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, Letícia Cesarino, professora da UFSC, Federico Pita, editor de Negrx e do jornal Página 12 da Argentina, e Sérgio Amadeu, professor da UFABC.
A segunda atividade, “Propostas para soberania nas comunicações”, ocorrerá a partir das 16h. Estarão na mesa Helena Martins, Ergon Cugler, Admirson Ferro Júnior (Greg), Mateus Azevedo, José Nunes e Walter Lippold. A inscrição para as mesas do FNDC pode ser feita aqui.
Encerramento
A conferência será encerrada no dia 29 de março, com uma Assembleia Geral, que deve aprovar a “Carta de Porto Alegre”. O documento pretende consolidar uma articulação internacionalista em defesa da democracia e da soberania dos povos.
A programação completa pode ser acessada aqui.
Fonte: Andes-SN
NOTA DA ADUFMAT-SSIND E DA REGIONAL PANTANAL DO ANDES-SN: Extrema-direita tenta ameaçar a comunidade da UFMT
A Adufmat-Ssind e a Regional Pantanal do Andes-SN vêm a público rechaçar as tentativas de intimidação feitas por um pequeno grupo de extrema-direita que visa ameaçar a liberdade de expressão, a democracia interna e o salutar debate político no interior da Universidade.
Não é de hoje que a UFMT tem sido alvo preferencial de um setor mais violento e radicalizado do bolsonarismo. Foi assim com os ataques e as ameaças que datam ainda da gestão de Weintraub à frente do Ministério da Educação, e continua sendo assim nesse período de acirramento da violência de extrema-direita que é promovida e autorizada pelo agitador fascista que governa esse país.
No último dia 19, chegou ao conhecimento do DCE um novo episódio de violência explícita da extrema-direita na UFMT, dessa vez na forma de ameaça contra os/as estudantes, docentes e técnicos/as. Em um grupo de bolsonaristas no Whatsapp, um dos participantes sugeriu a realização de um ato político armado para intimidar a comunidade acadêmica. Na mesma conversa, outras postagens faziam chacota dos trabalhadores de Mato Grosso, expressando fielmente o caráter de ódio de classe que alimenta a fascistização do debate político promovida por Bolsonaro. No convite à “manifestação”, conclama-se uma ação armada, supostamente “cristã”, inclusive insinuando apoio da polícia e de um ex-vereador policial, cassado por homicídio (crime, inclusive, capturado por câmeras de segurança). Isso demonstra bem que o intuito da ação é, sim, provocar caos e intimidação à nossa comunidade.
Importa ressaltar também que esse chamado foi precedido por uma “visita” do ex-vereador bolsonarista cassado Abílio Jr., que esteve no dia 14 de outubro nas proximidades do DCE retirando adesivos das paredes e abordando estudantes que estavam no local. Sua tentativa de atemorizar incentivou outro defensor do atual presidente, que tentou tumultuar a concentração do Grande Ato em Defesa da Educação e Contra os Cortes, realizado com muito êxito no dia 18 de outubro no campus Cuiabá. Esta tentativa de intimidação também foi capturada em vídeo pelos estudantes presentes.
Para completar o conjunto de ofensivas à nossa comunidade, circulou nas redes mensagens de um outro grupo, nas quais uma mulher, comentando sobre esse chamado à ação, defende o fuzilamento de estudantes “petistas” da UFMT.
Esses casos não são aleatórios, mas fazem parte de um esforço coordenado de intimidação e de criminalização da universidade pública e de sua comunidade. A Adufmat-Ssind e o Andes-SN repudiam essas agressões e ameaças, e se colocam em solidariedade com nossa comunidade e com aqueles e aquelas que defendem a educação pública e a democracia. Junto com outras entidades representativas, estamos em alerta constante, principalmente com a proximidade do segundo turno das eleições e das campanhas de desinformação promovidas pela extrema-direita. Além disso, não podemos esquecer do silêncio absoluto da Administração Superior da UFMT diante de tamanha ameaça. Uma Reitoria comprometida com a democracia e com a segurança de sua comunidade não pode se omitir em um momento como este.
A resposta a essas tentativas de ameaças se darão na organização de docentes, técnicos e estudantes, por meio de suas entidades representativas, ocupando a universidade e defendendo, como sempre fizemos, a nossa autonomia e democracia interna.
Em defesa da democracia, contra o governo da morte e seus asseclas e em defesa da educação pública e da UFMT, seguimos na luta e não aceitaremos intimidações!
Cuiabá, Mato Grosso, 21 de outubro de 2022
ADUFMAT – Gestão Colegiada Dom Pedro Casaldáliga (2021-2023)
ANDES-SN – Regional Pantanal
SOBRE O TEMA DO ENEM, O SUS E PORQUÊ DEVEMOS DERROTAR O FASCISMO - Vanessa C Furtado
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Vanessa C Furtado
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Não vê O que acontece com a palavra "vadio" por exemplo? No dicionário significa "vaguear", mas esta palavra, após a promulgação da lei da vadiagem, ganhou outros significados. Esta lei era dotada de sentidos eugênicos, num Brasil que sequer tinha meio século de abolição da escravatura, a palavra "vadio" virou sinônimo de xingamento. E se flexionarmos o gênero, então, "vadia" quantos outros sentidos?
Pois bem, os sentidos e significados das palavras não são de advento do espírito, tão pouco surgem do nada ou estão impressos de imediato na palavra. Os sentidos e significados das palavras são construídos nas relações objetivas e materiais de produção e reprodução da vida. A linguagem é práxis!
Como práxis seus sentidos e significados são também sociais e historicamente datados. Isto quer dizer que, carregam em si os valores, implícita ou explicitamente, da sociedade que os cosntrói. Portanto, são mediados pela particularidade histórica e social.
A ênfase, dada na repetição e reafirmação de que a linguagem é práxis social e historicamente constituída, é proposital para chamar a nossa atenção em como as estratégias fascistas são sutis e utilizam de palavras que são quase a mesma coisa, mas não são! Do mesmo modo, aprendi com um professor Duayer (falecido em decorrência da Covid) que as ciências por mais que se requeiram neutras não são!
Olhem o enunciado do tema de redação do ENEM: *O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira". O tema da Saúde Mental, no início de dezembro tomou as pautas dos jornais e redes sociais com o anúncio do chamado "revogaço" que consistia na revogação de 99 portarias da política de saúde mental e atenção a usuários/as de álcool e outras drogas. Uma verdadeira contra-reforma psiquiátrica, o mais grave ataque que a política de Saúde Mental pode sofrer. Uma política pautada e pensada nas formas de atenção do SUS e como este, é oriunda da luta popular, de movimentos Antimanicomiais, pelo fim dos campos de concentração que se transformaram os hospitais psiquiátricos no Brasil, uma política social contra o Holocausto Brasileiro.
Aparecer este tema no Enem parece quase a mesma coisa que a luta Antimanicomial defende. No entanto, parecer não é a mesma coisa, ao transcender o campo das aparências e pensar nos sentidos e significados das palavras deste enunciado do Enem, a gente pode notar a questão política que se impõe.
Lá onde eles falam em estigma, nós, da luta Antimanicomial, falamos de preconceito, eugenia promovida por uma forma de atenção à saúde mental que segregava e não íntegrava; lá onde eles falam de "doença mental", nós falamos em sofrimento psíquico, porque estes são sintomas que expressam o sofrimento de se viver em uma sociedade cindida em duas classes cuja relação é de exploração de uma sobre a outra e se expressa nas práticas racistas, xenófobas, homofóbicas, machistas e eugênicas (nunca é demais repetir esta palavra).
Assim, é importante notarmos que, embora eles se maquiem no discurso da neutralidade, a forma de cuidado, atenção e promoção em saúde mental que nós da luta Antimanicomial defende é radicalmente diferente deles que tratam por doença sintomas da pura expressão das opressões da sociedade capitalista.
As diferenças estão pra além da semântica e pode-se comprovar na prática: Eles dizem vencer os estigmas,mas com a popularização dos diagnósticos biomédicos do DSM e patologizando a vida; eles falam em cuidar em liberdade, desde que seja com medicalização sem eficácia comprovada e/ou que cronifica sintomas (a maioria das drogas psiquiátricas disponíveis no mercado); eles falam em tratamento, mas com eletroconvulsoterapia ou terapia transcraniana; eles falam em assistência e defendem que esta seja feita em hospital psiquiátrico, com as pessoas trancadas e afastadas dos que lhes querem bem (e pra quem cumpre quarentena, é possível dimensionar o sofrimento que é ficar longe dos seus). Enfim, parece a mesma coisa mas não é!
À risca: eles defendem o lucro dos laboratórios farmacêuticos e dos donos de clínicas psiquiátricas!
São fascistas e genocidas, forjados no bojo da sociedade capitalista, para defender interesses da classe dominante. Por isso, eles chamam de tratamento em saúde mental métodos de tortura e promovem (promoveram) um verdadeiro Holocausto!
Já a defesa da luta Antimanicomial, é, acima de tudo, para que a atenção, prevenção e promoção a saúde mental seja feita de forma pautada nos avanços técnicos e teóricos de uma universidade pública socialmente referenciada; a nossa defesa é pela garantia e promoção de direitos de pessoas atendidas nos dispositivos do SUS; nossa defesa é pela equidade e igualdade, em suma: nossa defesa é pela DEMOCRACIA e de seus frutos, como o SUS.
Este sistema tão sucateado e que, ainda assim, por causa de suas profissionais, funcionárias públicas, na maioria mulheres, têm salvado vidas durante a Pandemia! E que, mesmo diante da falta de insumos básicos, revezaram-se em "ventilação manual" na tentativa de dar o direito, às pessoas com Covid em Manaus, a respirar enquanto os fascistas até o oxigênio se recusaram a entregar.
Por tudo isso, devemos estar atentas e fortes e devemos sim temer a morte, porque só vivas somos capazes de enfrentá-los, seja na semântica de uma narrativa que prelude a contra-reforma psiquiátrica, seja na luta pelo projeto da sociedade que desejamos construir. É preciso estarmos atentas, fortes e vivas para destruir o capitalismo e construir uma outra forma de sociedade, livre das opressões raciais, machistas e de classe. Cuidar da Saúde Mental passa, necessariamente, pelo fim dos fascistas e, fundamentalmente, pelo fim da sociedade de exploração! Um sociedade onde, no meio de uma Pandemia, o Enem teria sido suspenso porque o principal objetivo é o cuidado e a vida das pessoas!
"O que os conservadores querem conservar? Entendendo os cidadãos de bem" é o assunto da Live da Adufmat-Ssind nessa sexta-feira, 28/08, às 19h
Para quem quer entender melhor o que querem os “cidadãos de bem”, a Adufmat-Ssind tem um convite: a Live do sindicato vai debater o tema “O que querem conservar os conservadores? Entendendo os cidadãos de bem” nessa sexta-feira, 28/08. Será às 19h, e as perguntas poderão ser feitas via chat na página oficial da Adufmat-Ssind no Facebook e também no Youtube.
Os convidados para o debate dessa sexta-feira são: Marina Basso Lacerda, doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Rio de Janeiro, analista legislativa da Câmara dos Deputados e autora do livro "O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro" (Zouk, 2019); e Leonardo Santos, assistente social formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), mestre em Serviço Social pela Federal do Rio Grande do Norte (UDRN), professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), integrante do Grupo de Pesquisa MERQO e militante da Corrente Sindical Unidade Classista.
A mediação será feita pela professora Lélica Lacerda, diretora de Imprensa da Adufmat-Ssind e docente do Departamento de Serviço Social da UFMT.
Participe!
Link do Youtube: https://youtu.be/FyTF5IgY4ag
AS RUAS E AS ARQUIBANCADAS EM TEMPOS REACIONÁRIOS: FUTEBOL, DIVERSIDADE E AS TORCIDAS ANTIFASCISTAS - Paulo Wescley Pinheiro
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P. Wescley M. Pinheiro
Professor da UFMT
Resistência Tricolor
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Numa conjuntura onde muita gente trata política como futebol, futebol como religião e religião como política a falsa premissa que não se pode discutir sobre esses três assuntos é tão falsa como sempre foi. Com a máxima de que “só é ideológico aquilo que se contrapõem à ordem vigente” o discurso travestido do mito da neutralidade reproduz no esporte a perpetuação de espaços antidemocráticos. Assim, o silenciamento diante de tantas questões que fazem parte da produção e reprodução da cultura e dos valores do nosso povo tem sido uma forma de obscurecer contradições, romantizar desigualdades e vilipendiar possibilidades de diálogo.
Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Nelson Rodrigues, afirmava que “em futebol, o pior cego é o que vê só a bola”. O antropólogo Roberto da Matta (1982) afirmou também que esse esporte é uma espécie de drama da vida social onde se pode descortinar aspectos culturais e sociais da sociedade brasileira. O sociólogo Maurício Murad (1996) superou o entendimento do futebol como mero lazer fortuito, colocando como “simbologia e metalinguagem, e como tal, revelador das culturas das coletividades e revelador expressivo das condições humanas”.
Precisamos pensar que o futebol não é um mero reflexo da sociedade, mas sim de um espaço de materialização cotidiana daquilo que estrutura nossa sociabilidade e, assim sendo, mais que um espelhamento, resguarda limites, mas também possibilidades, lócus de reproduções, mas também de ações pedagógicas dentro de uma perspectiva emancipatória, vivências em diferentes medidas, forças e leituras sobre a realidade que se atravessam diante dos principais temas que constituem a ordem do dia da sociedade brasileira.
Observando o futebol e tudo que está no seu entorno mergulhamos numa história de fundação eurocêntrica e lógica excludente até o processo de popularização e posterior massificação. Percebemos o racismo, dentro e fora do campo, como algo construído historicamente, o apagamento das mulheres em todos os setores, as reproduções machistas e lgbtfóbicas como condição permanente, entre tantas outras questões.
Se isso tudo é fato, é preciso destacar também que, nesse mesmo lugar, diversos movimentos, manifestações e fatos históricos importantes e representativos de processos de resistência, de construção coletiva, de denúncia de violência e desmandos políticos e de luta contra preconceitos se apresentaram pertinentes.
O chute no preconceito da pátria de chuteiras
Na conjuntura de fortalecimento da lógica mercadológica em todos os espaços da vida, da intolerância e do fatalismo histórico tecer reflexões e construir ações profundas sobre os alicerces de outra cultura política é condição para resistir à barbárie.
Se há um crescimento do fundamentalismo religioso apontando para posições políticas autoritárias é mister que tenhamos processos de visibilidade de setores religiosos progressistas, democráticos e defensores da diversidade. Se a indústria cultural rebaixa a cultura periférica em produtos que só reproduzem o consumismo, o individualismo e o hedonismo, absorvendo e rebaixando os discursos de representatividade, é fundamental que se fortaleçam meios de fazer crescer os artistas e as produções que perseveram no protagonismo com a história de seu povo, buscando organicidade e posições coletivas comprometidas.
Se a política formal é majoritariamente construída pelo oportunismo e fisiologismo, é crucial que construamos coletivos que se espraiam longe da dependência do pragmatismo eleitoral, saíndo da busca de atalhos, afastando-se das novidades estéreis e também do tradicionalismo torpe. Nessa mesma direção, se o futebol foi majoritariamente ocupado pelos setores que reproduzem e defendem o processo de exploração e opressão é urgente que corroboremos iniciativas que partem para o contra-ataque disso.
Quando se fala de futebol e política todos os lados políticos ficam de orelha em pé. Os setores de direita costumam reproduzir que são coisas incompatíveis, ao mesmo tempo que elegem seus cartolas como deputados e senadores, realizam eventos nos clubes para defender pautas políticas e continuam a perseverar culturas violentas e marginalizadoras de diversos setores socialmente discriminados. No apogeu mercadológico e de ascensão ultra-liberal a defesa de que é preciso “não polemizar” para não prejudicar o clube também aparece como desculpa, ou seja, a versão esportiva de “quem lacra não lucra”.
Sabemos que esse argumento econômico é facilmente refutado e que historicamente os clubes e empresas que se anteciparam em construir posições liberais no campo dos direitos humanos sempre tiveram sua história exaltada. Além disso, os processos históricos transformam consciências individuais e percepções coletivas demonstrando que esse processo é muito mais complexo do que se estabelece no discurso antipático do não-debate.
Vejamos como o Vasco da Gama (RJ) se orgulha de ser o primeiro clube que colocou um jogador negro oficialmente em campo, mesmo que tenha enfrentado, na época, a cultura elitista, racista e proibicionista. Vejamos como a torcida do Flamengo (RJ) transformou a ideia do “Urubu” em símbolo e não em ofensa racial como costumeiramente se impôs. Pensemos nos diversos clubes mundo afora que saem na frente no campo mercadológico diante as possibilidades de marketing e formação de plateia para além do modelo arcaico do futebol.
Se essa argumentação é frágil é preciso frisar que a mera demarcação de posição com interesse no mercado é também repleta de frigidez, sendo necessário atitudes reais que desenvolvam mudanças efetivas e enfrentam as incoerências dentro dessa sociedade. É nesse sentido que o afastamento do pensamento de esquerda na arquibancada e nos bastidores se expressa como um problema, pois perde a oportunidade de desenvolver a batalha das ideias num campo fértil de possibilidades, não somente ocupando um espaço, mas construindo, aprendendo e expandido atores políticos.
Sem observar essas frestas de contradição, parte dos movimentos de esquerda, historicamente assumiram a máxima de "ópio do povo", repetida, corriqueiramente, de forma rebaixada até mesmo com relação à frase original de Marx sobre a religião que, analisada em sua completude, demonstra o caráter contraditório desses complexo, afirmando "o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma".
Assim, saindo de uma visão mecanicista e rasa sobre a formação da superestrutura é preciso analisar os espaços de cultura e construção de valores em sua potência contraditória, percebendo os sujeitos como seres da práxis e suas manifestações individuais e coletivas como expressões dos antagonismos sociais vigentes.
A compreensão que limita o futebol como alienação das massas é rasa. Tal e qual todos os espaços de sociabilidade esse é só mais um que expressa as questões fundamentais de um dado tempo histórico. Quando não há organização, interesse e não se planta nas brechas das contradições sociais um discurso emancipatório os espaços são ocupados apenas pela manutenção do status quo.
Quando há um avanço substancial de valores conservadores na sociedade não é chocante que a maioria dos atletas profissionais de destaque fiquem em silêncio ou se posicionem contra os direitos dos oprimidos e explorados, mesmo que boa parte deles venham desses setores e tenham ascendido socialmente pelo esporte. Quando não há uma política de esporte que não se reduz ao aspecto competitivo e salta para questões mais amplas à manutenção da ideologia vigente se expressa também nas consciências individuais de atletas, dirigentes e torcedores.
Se nos espaços de formação de atletas e do processo de trabalho o futebol apresenta suas contradições, a arquibancada também vira arquétipo dos processos da sociabilidade constituída por cisões sociais importantes. A claque reverbera e potencializa as disputadas inerentes da sociedade, reproduz e retroalimenta valores, expressa as manifestações da questão social, encobre coisas, absorve algumas, revela tantas outras.
Na hipertrofia da elitização do futebol os estádios se embranqueceram, tornaram-se cada dia mais distantes dos marcos da torcida e mais próximos das marcas televisivas. Essa constatação, no entanto, não é nada saudosista. O ontem e o hoje demarcam a naturalização de práticas preconceituosas, reprodutoras de machismo, racismo e lgbtfobia como modus operandi do ser torcedor. O cerne da questão está em potencializar aqueles/as que buscam, nesse mesmo espaço, ir no caminho inverso.
Da famosa Democracia Corinthiana, emblemática na luta pela redemocratização do país nos anos 1980, até o fortalecimento de vários coletivos antifascistas, torcidas organizadas LGBT´s e ações sociais com as tradicionais torcidas organizadas o processo político cotidiano nos oferece oportunidade de formação de consciências, de aprendizado sobre educação popular, de reconhecimento de problemas importantes na formação de base e dos desafios que exigem paciência histórica, capacidade de diálogo, criatividade e a habilidade de endurecer sem perder a ternura.
Realizar debates sobre preconceitos e opressões ou mesmo sobre política e outros temas espinhosos não é uma tarefa fácil em lugar nenhum, no entanto, é incomparavelmente mais desafiador quando não estamos lidando com o ambiente universitário, com a militância dos movimentos sociais e partidos de esquerda e quando se enfrenta a realidade de frente, partindo do dia-dia dos sujeitos, mergulhando em nossos afetos, em nossos lugares, desmistificando as impossibilidades deles, descortinando a zona de conforto dos privilégios e a zona de desconforto das violências.
O distanciamento daqueles que se dizem de esquerda da cultura popular e do cotidiano dos sujeitos da classe trabalhadora enfraqueceu a leitura emancipatória na batalha das ideias. Isso ocorreu por diversos motivos que perpassam desde o processo de institucionalização e protagonismo da estratégia centrada na política formal, dos setores tradicionalmente vinculados aos movimentos populares, passando ainda pelo encastelamento acadêmico, pela vulgarização da teoria crítica, pela abstração pós-moderna e também por certo vício ilusório da atualidade com a participação virtual.
Em tempos de obscurantismo, as ações antifascistas, dentro e fora de campo, se expressam nas disputas nas instituições de massa que são os clubes de futebol e, principalmente, nas torcidas organizadas que afirmam a democracia, a diversidade e os direitos dos/das torcedores/as. Essas ações são exercício de cidadania, de expressar a coragem de falar sobre temas invisibilizados, de tocar em feridas e quebrar tabus em uma sociedade de que fortalece o constrangimento contra quem quer dialogar sobre o direito à diferença.
Por isso, esse processo é também um exercício pedagógico que demonstra o grau de conservadorismo da sociedade, o quanto os processos de espraiamento dos aparelhos ideológicos do reacionarismo conseguiu enraizar desvalores em nossa população e como as bolhas virtuais, políticas e acadêmicas precisam enfrentar seus limites e buscar as pessoas reais, com seus limites de consciência e suas reproduções das opressões.
As ações afirmativas nos clubes de futebol, as atividades coletivas com as torcidas, os debates políticos, as polêmicas suscitadas, são questões que evidenciam a capacidade de voltar os olhos para a formação das pessoas naquilo que faz sentido para elas. Mais que somente demarcações políticas, performances e bandeiras o desenvolvimento pedagógico e a batalha das ideias na realidade se apresenta como tarefa fundamental.
No atual momento histórico essas ações cumprem o seu papel civilizatório, concretizam leituras da realidade a partir da vida concreta, suspendem o cotidiano, atacam o senso comum, dão oportunidade de muitos conhecerem bandeiras de luta, provocam reações, tensionam pactos invisíveis e consciências amortecidas além de, obviamente, evidenciarem o caráter de classe e o incômodo dos poderosos da sociedade com o exercício de participação popular.
Nesse sentido, o enraizamento cultural e a identidade afetiva do espaço do futebol possibilita que cresça a percepção da capacidade de fortalecermos uma consciência de que podemos agir na realidade. Afinal, no futebol há uma construção simbólica de que a torcida participa do jogo: jogar em casa, ter o estádio cheio, ouvir o grito motivando faz diferença no certame. O exercício de ação coletiva e a pulsão simbólica de que o sujeito fora do campo não é um mero espectador, mas um protagonista que constrói sua paixão afirma possibilidades de sairmos do lugar de apassivamento contra aqueles que atacam a condição de vida e trabalho dos menos favorecidos socialmente.
“Paz entre as torcidas, guerra entre as classes”
Há anos a Resistência Coral (Ferroviário-CE) estampou nos estádios cearenses a célebre frase “Paz entre as torcidas, guerra entre as classes” apresentando à massa de pessoas que ali torciam que, embora haja uma disputa no campo, a derrota principal se expressa na violência urbana e policial, que se apresenta no extermínio da juventude negra e que, no futebol, tem sua particularidade nas brigas entre as torcidas e na repressão da polícia. A goleada real está nos gritos lgbtfóbicos e racistas que nada mais são do que gols contra diante de pessoas que tem sua vida diminuída, suas práticas marginalizadas, seus afetos atacados.
Nos anos 2010, páginas nas redes sociais e coletivos que afirmavam o direito LGBT e de mulheres nessa área foram cobertos de ameaças e repúdio. Esse movimento retomou iniciativas que existiram desde a década de 1970, conforme afirmou o pesquisador Maurício Rodrigues, com grupos como a FlaGay (Flamengo-RJ) e ColiGay (Grêmio-RJ). Nessa retomada grupos como Gaivotas Fiéis (Corinthians-SP), Galo Queer (Atlético-MG), Cruzeiro Maria (Cruzeiro-MG), Bambi Tricolor (SPFC-SP), Timbu Queer (Náutico-PE), Vitória Livre (Vitória-BA), Queerlorado (Internacional-RS), Palmeiras Livre (Palmeiras-SP) e tantas outras enfrentaram as críticas e as ameaças, formas próprias do patriarcado, do machismo e da misoginia, afinal, para a cultura hegemônica, o homossexual é sempre o adversário, denotando como a orientação sexual e a identidade de gênero não-hegemônicas são vistas como ofensivas.
Para os mesmos setores a figura da mulher ou é a torcedora objetificada como musa, ou a mãe do juiz a ser xingada. No debate das opressões a construção e desconstrução dos valores é um processo constante. Em mais um ano de copa do mundo de futebol feminino vemos o processo de luta contínua por visibilidade, estruturação e reconhecimento entrando em choque com o machismo, com a lesbofobia, com a desconfiança própria do machismo. Essa disputa é contínua, avança em alguns momentos, retrocede em outros. Quanto mais é visível o sucesso das atletas, quanto mais se pauta a modalidade, quanto mais conhecemos aquelas mulheres mais elas são reconhecidas, tidas como exemplos e apresentam para a sociedade a particularidade e os desafios impostos do ser mulher em qualquer espaço do mercado de trabalho.
Observando tudo isso o ataque preciso não é somente ao “futebol moderno”, mas sim aos processos de absorção que a cultura popular promoveu no silenciamento de setores oprimidos. Para isso é preciso articular um debate sobre a estrutura social que vivemos, a particularidade do futebol, o progressivo distanciamento das classes populares do esporte, além de atividades mais elaboradas que possibilite uma aproximação didática com essas defesas e não somente um disputismo estéril diante daqueles sujeitos da classe trabalhadora quem também reproduzem as opressões.
Nesse sentido, se tem crescido o conservadorismo na sociedade é também verdade que, nos últimos anos, se intensificou o processo de formação popular e disputa de valores, iniciativas que haviam se enfraquecido no futebol e deixado para os conservadores todo o processo de fortalecimento de sua lógica. Atividades que, por exemplo, a Gaviões da Fiel (Corinthians-SP) e tantas outras torcidas realizavam no passado voltaram a ter visibilidade, encarando a função social do esporte, a construção educativa coletiva, os espaços de lazer e a identidade da torcida como possibilidade de ser solidário tem retomado a condição de debates sobre gênero, raça, sexualidade, violência mesmo com o estranhamento de muitos torcedores.
Nesse sentido, a Resistência Tricolor (Fortaleza-CE) vem construindo uma experiência autônoma, democrática e explicitamente anti-conservadora, que apresenta preocupação com a laicidade do futebol, com o combate das opressões, a reprodução de preconceitos, com a não instrumetalização político-partidária dos clubes e a função social do esporte.
O coletivo se constrói de modo horizontal, progressivamente ganha corpo e se revela lócus para juntar pessoas para debater temas, exercitar convergências e divergências, aprofundar afetos e cultivar, diante da paixão pelo Fortaleza Esporte Clube, os aspectos socialmente positivos diante da realidade que nos cerca. Os processos políticos que se fortalecem nesse processo aprofundam a maturidade sobre as disputas nos bastidores do futebol, possibilitam autocrítica sobre as ações na arquibancada e afirmam potencialidades desconhecidas no esporte.
Mais que faixas no estádio, os tais grupos que potencializam esses debates vão construindo possibilidades de incluir na arquibancada as pessoas oprimidas que antes não viam condições de vivenciar a paixão pelo clube, devido aos ataques à sua condição e a potencialização dos preconceitos. Assim, a afirmação dos direitos da população, a caracterização desse esporte e desse espaço como genuinamente do povo, apresenta possibilidades de fortalecimento de bandeiras que defendem os direitos humanos e sociais dentro e fora do futebol.
Nesse sentido, mais que uma afirmação política, os processos vão motivando outros grupos, trazendo a realização de ações efetivas de aproveitamento da identidade futebolística dos/as torcedores/as para melhoria das condições dos mesmos. Um bom exemplo é o projeto de Aulões para o ENEM que a Resistência Tricolor tem realizado em parceria com a TUF (Fortaleza-CE), maior torcida organizada do clube. Nessa ação se aproveita a unidade de diversos profissionais da educação em torno do amor pelo tricolor para realizar possibilidades mais amplas e construir pontes entre indivíduos que antes somente tinham em comum a paixão clubística.
Tal exemplo demonstra que não se trata de afirmar uma tensão dentro da torcida, provocar pessoas e coletivos, mas agir no sentido democrático, inclusivo e contra-hegemônico, numa sociedade que afirma cada vez mais as desigualdades. Assim, quando avança a torcida, avança também o clube e, por tantas ações de diversos outros grupos, dirigentes e torcedores, nos últimos anos, o Fortaleza E.C. também cresceu em participação democrática e ampliou posicionamentos progressistas, ainda que haja necessidade de avançar e que isso demonstre os desafios internos nesse processo.
Dentro e fora desses coletivos, esses debates vão crescendo e catalisando novas possibilidades, como o crescimento de grupo de mulheres que se unem para ir aos jogos juntas e enfrentar o assédio, de pessoas LGBT que buscam estratégias de auto-cuidado, de deficientes físicos e outros setores com acessibilidade dificultada, etc.
Essas iniciativas contam com desafios importantes e que podem ampliar ou retroagir sua capacidade de interlocução. Por serem majoritariamente experiências novas, por resguardar processos fluidos de absorção de novos quadros e por ter uma diversidade de posições e diferentes niveis de maturidade política entre os seus membros e simpatizantes. A capacidade formativa que não cair no mero voluntarismo, na construção espontaneísta e no pragmatismo diante dos resultados do seu clube no campo serão os grupos e ações mais crescerão e terão condições de interferir na necessária e urgente formação de processos políticos emancipatórios na sociedade brasileira.
Entre tantos exemplos, talvez o Esporte Clube Bahia (BA) tem sido o maior deles em ações institucionais que fortalecem a cidadania. O clube vem afirmando em seus meios de comunicação oficiais, nos produtos do clube e na construção política interna uma série de questões que explicitam o direito à diversidade, o combate à violência, a afirmação do povo negro, das mulheres, da população LGBT e da popularização da arquibancada. Essas ações, ainda dentro de um futebol que é negócio e disputa, ao contrário do que muitos pensam, não desvaloriza a marca do clube e ainda eleva o patamar histórico da instituição.
Num tempo histórico marcado pela perseguição de quem busca a afirmação de direitos uma instituição tão cara aos sujeitos das classes populares pode revelar importantes possibilidades no enfrentamento de uma lógica que se espalha na sociedade. As posições oficiais apresentam à todos os setores a necessidade de pensar sobre os temas em questão.
Não por coincidência um coletivo de torcedores baianos vem construindo uma experiência contra-hegemônica plural de destaque nacional nesses debates e demonstrando que esse processo democrático é retroalimentado entre torcida e clube, não como tutela e imposição, mas como construção coletiva. A Frente Esquadrão Popular (Bahia-BA) tem conseguido de maneira autônoma ampliar debates, realizar ações, fortalecer posições de uma forma bastante interessante, articulando a tradição popular do clube com temáticas costumeiramente vilipendiadas.
As atividades junto com jornalistas renomados sobre política e futebol, a parceria acadêmica e política com o Observatório de discriminação racial, as palestras e debates, os posicionamentos virtuais e as articulações com movimentos sociais, populares e setores universitários demonstram o caminho a ser seguido por todos os coletivos e as possibilidades de pensarmos esses processos em uma rede nacional de todas as torcidas.
Assim, por todo o Brasil as ações populares se alimentam, algumas tímidas, outras mais estruturadas. Mais que potencializar a espetacularização do mercado e da violência pela mídia ou demarcar posição política é preciso potencializar, conhecer e reverberar as ações dentro do futebol que buscam resistir.
O processo de ataques aos direitos sociais, o desmonte das políticas sociais e relativização das liberdades democráticas precisa encontrar resistência nas ruas de forma ativa e criativa, absorvendo os instrumentos históricos da classe trabalhadora, mas buscando também chegar aos espaços culturais onde historicamente sempre foi lugar de suposto pensamento único. Dirigentes ricos, políticos tradicionais e novos empresários utilizaram e continuam utilizando os clubes para afirmar um projeto de sociedade que não realiza nada de positivo para a maioria dos/das torcedores/as.
No atual ambiente de instabilidade, a naturalização da forma política baseada numa reprodução mercantil e no distanciamento da população dos espaços representativos, se aliaram ao resultado de décadas sem espaços de formação política para a classe trabalhadora, à descrença nos instrumentos de mobilização diante dos processos de cooptação de inúmeros sindicatos, movimentos sociais e outros setores e formalizam uma cultura de ódio à democracia e a política do ódio como ferramenta.
Diante desse quadro, os desafios da disputa de hegemonia em terra arrasada se realizam na tarefa de não repetir os erros interpostos no rebaixamento de horizonte emancipatório e nem constituir uma análise meramente abstrata da conjuntura. Não se conquista corações e mentes partindo de uma condição ideal, mas colocando a bola no chão e compreendendo o mundo como ele é. Há que se buscar o chão da realidade, as frestas do cotidiano e impedir a degeneração do contra-hegemônico, buscando as mediações para seu enraizamento a partir de pautas concretas e da realidade cotidiana da classe trabalhadora.
A bola está no meio-campo e nesse jogo não há empate. Ou os setores antifascistas se expressam, se articulam e disputam a sociedade ou obscurantismo continuará goleando, dentro e fora do futebol, tomando nossos direitos, nos matando e lucrando com nossa alegria e com nossas dores. Grita, torcida, grita!
Debate na Adufmat-Ssind aborda cenário de intolerância no país e motiva criação de Rede de Apoio a Vítimas do Fascismo
A conjuntura política na qual o Brasil está inserido tem deixado boa parte da população inquieta e preocupada com o aumento da violência, muito relacionada ao processo eleitoral. Os ataques são direcionados a manifestações de ideias divergentes, e já resultaram em agressões físicas e até homicídios. Por esse motivo, a Adufmat-Seção Sindical do ANDES-SN convocou todos os interessados para o debate “Tempos Sombrios, Tempos de Intolerância”, realizado na última sexta-feira, 19/10, que mobilizou dezenas de pessoas ansiosas para entender os motivos de tanta brutalidade.
A mediadora da mesa, professora Lélica Lacerda, recepcionou os presentes afirmando que o encontro teve como objetivo o debate, mas também o fortalecimento dos laços e a organização dos trabalhadores na defesa dos direitos sociais e liberdades democráticas. “É importante ver esse auditório tão cheio, perceber que os anseios de todos nós, de alguma forma, nos une nesse momento”, disse a docente, apresentando a proposta de movimentos sociais mais próximos ao sindicato de construir uma Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo, discutida mais detalhadamente ao final no evento.

O professor Cândido Moreira Rodrigues, do Instituto de Geografia, História e Documentação da Universidade Federal de Mato Grosso (IGHD/UFMT), convidado para explanar sobre a Ressurgência do Fascismo no Início do Século XXI, iniciou sua apresentação afirmando que tudo o que acontece atualmente no país já foi visto antes, e que historicamente as relações de intolerância emergem em momentos de fragilidade da democracia burguesa. “Uma democracia em que os cidadãos não exercitam seus direitos com frequência estará periodicamente sujeita ao desgaste. O fascismo ganha fôlego nos momentos em que o Liberalismo não atende mais as demandas da sociedade, a partir das décadas de 1920 e 1930”, disse o historiador.
Analisando os casos de ascensão do fascismo especialmente na Europa, o palestrante pontuou entre os elementos característicos desse movimento a proteção exacerbada da identidade nacional e aversão ao estrangeiro, retórica da ameaça comunista, a criação de movimentos sociais de extrema direita e enraizamento desses movimentos nos espaços de representação, a chegada ao poder – que nem sempre decorre de golpe, mas também pela via eleitoral, como Hitler, na Alemanha – e o próprio exercício do poder.
“Esse espaço representativo é preenchido quando os conservadores de centro cedem parte do seu poder à extrema direita, a partir de negociações que envolvam determinados interesses”, revelou o pesquisador. Ao mesmo tempo, entre a população, aumenta a desconfiança nos governos e nas instituições e nessas esferas representativas, os direitos e liberdades passam a ser relativizados, assim como os valores da razão se desgastam.
“Eu trouxe todo esse material para dizer a vocês que talvez não estejamos diante de um problema brasileiro, nem passageiro. Talvez o capitalismo esteja se deslocando da democracia ideal”, finalizou Rodrigues.
Em seguida, a cientista política, Alair Silveira, segunda debatedora da noite, iniciou sua análise, afirmando que as condições objetivas da atual conjuntura estão dadas e são captadas pelos movimentos organizados de trabalhadores, mas as subjetivas ainda escapam. “À exemplo de Gramsci, nós precisamos questionar a fundo por que, se o nosso projeto é o mais generoso, nós não conseguimos tocar as mentes o os corações das pessoas”, disse a professora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da UFMT.
A docente criticou a ausência de memória brasileira sobre os horrores da ditadura militar, muitas vezes abafada pelo que ficou conhecido como “milagre econômico”. Silveira também alertou para o processo de desmonte da Constituição de 1988, a partir da implementação do projeto Neoliberal, por Fernando Collor de Mello. Junto a reestruturação produtiva, a queda do Muro de Berlim e a consolidação da cultura pós-moderna, esses elementos provocaram, aos poucos, a desmobilização da população que lutou pela abertura política nos anos anteriores.
Para Silveira, as manifestações de 2013, no entanto, indicaram insatisfação da população justamente com o desmonte dos direitos sociais. “Vocês se lembram que os manifestantes erguiam cartazes reivindicando educação e saúde padrão Fifa? Eles sabiam o que não queriam, mas não exatamente o que queriam. Sem saber, disseram não ao Neoliberalismo”, afirmou.
Ao mesmo tempo, a convulsão social registrada em 2013 já lançava embriões da intolerância, com o repúdio aos partidos políticos e manifestações xenofóbicas contra estrangeiros que participavam, por exemplo, do Programa Mais Médicos. Esses sentimentos foram capitaneados por grupos políticos que conseguiram formar as legislaturas mais conservadoras da história do país em 2014 e 2018, e poderá eleger, também no pleito de 2018, um presidente da República com as mesmas características.
“Esse processo de desestabilização está bastante presente na América Latina, de modo geral, com os mesmos fundamentos, e a mesma estrutura, envolvendo sempre questões de fundo moral”, acrescentou a docente.
As universidades, segundo a pesquisadora, contribuíram com esse processo e foram afetadas igualmente por ele. “Tudo isso foi construído socialmente, inclusive dentro da universidade, no processo de formação do imaginário social. Mas de 2016 a 2018, além do contingenciamento econômico, as instituições de ensino superior sofreram também ataques políticos, interna e externamente. Eu fiz um levantamento e já registrei dezenas de processos administrativos e até pedidos de demissões com justificativas absurdas, como improdutividade, utilização de referencial teórico marxista, e até por participação em publicações ou lançamentos de livros. Um desrespeito absoluto às particularidades do trabalho do professor e pesquisador”, denunciou a palestrante.
Por fim, a professora retomou o questionamento inicial, de Antonio Gramsci. “Nós já estamos vivenciando um período duro, que provavelmente será ratificado pelas urnas. As condições objetivas estão dadas, mas estamos atrás com relação às subjetivas. A questão que nos desafia é como construir um canal para disputar a hegemonia, no sentido de que os trabalhadores identifiquem o projeto que realmente os representa, e assuma esse projeto como seu”, provocou a convidada.
Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo
Como anunciado de início, ainda diante da plateia lotada, o professor Aldi Nestor apresentou a proposta de movimentos sociais para formação de uma Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo. Na ocasião, alguns dos casos já registrados em Cuiabá e Mato Grosso foram relatados pelo docente.
Além de acolher as vítimas, a Rede será responsável por orientar juridicamente, exercer pressão sob o Poder Público exigindo providências, e formar comunicadores para denunciar e dialogar com a população em geral.

Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Debate na Adufmat-Ssind aborda cenário de intolerância no país e motiva criação de Rede de Apoio a Vítimas do Fascismo
A conjuntura política na qual o Brasil está inserido tem deixado boa parte da população inquieta e preocupada com o aumento da violência, muito relacionada ao processo eleitoral. Os ataques são direcionados a manifestações de ideias divergentes, e já resultaram em agressões físicas e até homicídios. Por esse motivo, a Adufmat-Seção Sindical do ANDES-SN convocou todos os interessados para o debate “Tempos Sombrios, Tempos de Intolerância”, realizado na última sexta-feira, 19/10, que mobilizou dezenas de pessoas ansiosas para entender os motivos de tanta brutalidade.
A mediadora da mesa, professora Lélica Lacerda, recepcionou os presentes afirmando que o encontro teve como objetivo o debate, mas também o fortalecimento dos laços e a organização dos trabalhadores na defesa dos direitos sociais e liberdades democráticas. “É importante ver esse auditório tão cheio, perceber que os anseios de todos nós, de alguma forma, nos une nesse momento”, disse a docente, apresentando a proposta de movimentos sociais mais próximos ao sindicato de construir uma Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo, discutida mais detalhadamente ao final no evento.

O professor Cândido Moreira Rodrigues, do Instituto de Geografia, História e Documentação da Universidade Federal de Mato Grosso (IGHD/UFMT), convidado para explanar sobre a Ressurgência do Fascismo no Início do Século XXI, iniciou sua apresentação afirmando que tudo o que acontece atualmente no país já foi visto antes, e que historicamente as relações de intolerância emergem em momentos de fragilidade da democracia burguesa. “Uma democracia em que os cidadãos não exercitam seus direitos com frequência estará periodicamente sujeita ao desgaste. O fascismo ganha fôlego nos momentos em que o Liberalismo não atende mais as demandas da sociedade, a partir das décadas de 1920 e 1930”, disse o historiador.
Analisando os casos de ascensão do fascismo especialmente na Europa, o palestrante pontuou entre os elementos característicos desse movimento a proteção exacerbada da identidade nacional e aversão ao estrangeiro, retórica da ameaça comunista, a criação de movimentos sociais de extrema direita e enraizamento desses movimentos nos espaços de representação, a chegada ao poder – que nem sempre decorre de golpe, mas também pela via eleitoral, como Hitler, na Alemanha – e o próprio exercício do poder.
“Esse espaço representativo é preenchido quando os conservadores de centro cedem parte do seu poder à extrema direita, a partir de negociações que envolvam determinados interesses”, revelou o pesquisador. Ao mesmo tempo, entre a população, aumenta a desconfiança nos governos e nas instituições e nessas esferas representativas, os direitos e liberdades passam a ser relativizados, assim como os valores da razão se desgastam.
“Eu trouxe todo esse material para dizer a vocês que talvez não estejamos diante de um problema brasileiro, nem passageiro. Talvez o capitalismo esteja se deslocando da democracia ideal”, finalizou Rodrigues.
Em seguida, a cientista política, Alair Silveira, segunda debatedora da noite, iniciou sua análise, afirmando que as condições objetivas da atual conjuntura estão dadas e são captadas pelos movimentos organizados de trabalhadores, mas as subjetivas ainda escapam. “À exemplo de Gramsci, nós precisamos questionar a fundo por que, se o nosso projeto é o mais generoso, nós não conseguimos tocar as mentes o os corações das pessoas”, disse a professora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da UFMT.
A docente criticou a ausência de memória brasileira sobre os horrores da ditadura militar, muitas vezes abafada pelo que ficou conhecido como “milagre econômico”. Silveira também alertou para o processo de desmonte da Constituição de 1988, a partir da implementação do projeto Neoliberal, por Fernando Collor de Mello. Junto a reestruturação produtiva, a queda do Muro de Berlim e a consolidação da cultura pós-moderna, esses elementos provocaram, aos poucos, a desmobilização da população que lutou pela abertura política nos anos anteriores.
Para Silveira, as manifestações de 2013, no entanto, indicaram insatisfação da população justamente com o desmonte dos direitos sociais. “Vocês se lembram que os manifestantes erguiam cartazes reivindicando educação e saúde padrão Fifa? Eles sabiam o que não queriam, mas não exatamente o que queriam. Sem saber, disseram não ao Neoliberalismo”, afirmou.
Ao mesmo tempo, a convulsão social registrada em 2013 já lançava embriões da intolerância, com o repúdio aos partidos políticos e manifestações xenofóbicas contra estrangeiros que participavam, por exemplo, do Programa Mais Médicos. Esses sentimentos foram capitaneados por grupos políticos que conseguiram formar as legislaturas mais conservadoras da história do país em 2014 e 2018, e poderá eleger, também no pleito de 2018, um presidente da República com as mesmas características.
“Esse processo de desestabilização está bastante presente na América Latina, de modo geral, com os mesmos fundamentos, e a mesma estrutura, envolvendo sempre questões de fundo moral”, acrescentou a docente.
As universidades, segundo a pesquisadora, contribuíram com esse processo e foram afetadas igualmente por ele. “Tudo isso foi construído socialmente, inclusive dentro da universidade, no processo de formação do imaginário social. Mas de 2016 a 2018, além do contingenciamento econômico, as instituições de ensino superior sofreram também ataques políticos, interna e externamente. Eu fiz um levantamento e já registrei dezenas de processos administrativos e até pedidos de demissões com justificativas absurdas, como improdutividade, utilização de referencial teórico marxista, e até por participação em publicações ou lançamentos de livros. Um desrespeito absoluto às particularidades do trabalho do professor e pesquisador”, denunciou a palestrante.
Por fim, a professora retomou o questionamento inicial, de Antonio Gramsci. “Nós já estamos vivenciando um período duro, que provavelmente será ratificado pelas urnas. As condições objetivas estão dadas, mas estamos atrás com relação às subjetivas. A questão que nos desafia é como construir um canal para disputar a hegemonia, no sentido de que os trabalhadores identifiquem o projeto que realmente os representa, e assuma esse projeto como seu”, provocou a convidada.
Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo
Como anunciado de início, ainda diante da plateia lotada, o professor Aldi Nestor apresentou a proposta de movimentos sociais para formação de uma Rede de Apoio às Vítimas do Fascismo. Na ocasião, alguns dos casos já registrados em Cuiabá e Mato Grosso foram relatados pelo docente.
Além de acolher as vítimas, a Rede será responsável por orientar juridicamente, exercer pressão sob o Poder Público exigindo providências, e formar comunicadores para denunciar e dialogar com a população em geral.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
NOTA DA DIRETORIA DA ADUFMAT-SSIND: EM DEFESA DA DEMOCRACIA CONTRA O NEOFASCISMO
Vivemos tempos sombrios, cuja memória nos remete aos anos de chumbo, quando proibir era o verbo mais usado. Tempos em que ao invés do embate político, havia a tortura nos porões. Tempos em o direito de divergir era calado pelo medo, e que o espaço da liberdade pública (imprescindível à política) inexistia. Tempos em que a liberdade de aprender e ensinar se limitava à disciplina de Moral e Cívica. Tempos em que as universidades viram seus livros confiscados e/ou queimados, e seus professores, estudantes e técnicos perseguidos. Tempos em que a força das armas impunha-se à força dos argumentos.
Tempos em que a ADUFMAT, fundada em 05/12/1978, presenciou sua Primeira Diretoria sofrer intervenção, quando seus diretores foram destituídos dos cargos, e uma Junta Governativa assumiu a partir de 20/11/1979. Tempos de demissão e de afastamento de docentes de seus cargos e de suas atividades.
Esses tempos que esperávamos ter superado em meados da década de 1980, apresentam-se, agora, como alternativa eleitoral representativa do “novo” e do “diferente”. Um discurso cuja novidade está construída sobre os mais antigos discursos de ódio a todos aqueles que ousem ser e/ou pensar diferente. Como ‘novo’ somente o prefixo que antecede sua definição. Lamentavelmente, esse discurso neofacista tem inspirados as mais terríveis manifestações de ódio racista, LGBTfóbico, xenófobo, que avançam de ataques verbais a ataques físicos contra aqueles que assumem posições diferentes.
Diante desse quadro, cujas perspectivas remetem ao passado de chumbo que deve ser totalmente rechaçado, a Diretoria da ADUFMAT-S.Sind. do ANDES/SN vem a público manifestar-se integralmente em defesa da democracia, dos direitos humanos e sociais e da solidariedade social.
Cuiabá/MT, 23 de outubro de 2018.
ADUFMAT de Luta: Autônoma e Democrática
Gestão 2017-2019
Docentes se posicionam contra o projeto fascista e contra o voto branco e nulo
"O ANDES-SN reafirma a sua luta histórica contra o projeto fascista e de extrema direita, o projeto ultraliberal e as ações de ódio que estão sendo difundidas pelo Brasil. Este sindicato se integra às frentes antifascistas suprapartidárias, criadas nos estados e nas instituições públicas de ensino superior, e se posiciona contra o voto nulo e em branco no segundo turno das eleições, indicando a participação ativa nos atos e mobilizações em defesa da democracia e contra o fascismo, bem como nas atividades do movimento #EleNão”.
Este posicionamento integra a nota política do Sindicato Nacional sobre o segundo turno das eleições. A nota foi aprovada na reunião conjunta dos Setores das Instituições Federais de Ensino (Ifes) e Estaduais e Municipais de Ensino Superior (Iees/Imes) nesta quinta-feira (18). Os docentes avaliaram os resultados das assembleias e definiram os próximos passos da luta.
A nota avalia “que o que está em jogo nesse momento é a possibilidade ou não dos docentes continuarem lutando nas ruas pelos direitos dos trabalhadores”. O documento convoca todas as seções sindicais a fortalecerem as lutas, nas urnas e nas ruas, para derrotar o fascismo que tem crescido na sociedade.
Para Antonio Gonçalves, presidente do ANDES-SN, a diretoria acertou em consultar as bases, chamando as duas reuniões de urgência. “Serviu para mobilizar a categoria em torno do tema e para respeitar o método democrático que sempre pautou nossa entidade”, disse.
Segundo Antonio, houve uma construção importante para a conjuntura, posicionando o ANDES-SN na luta contra o fascismo e chamando a categoria participar dessa luta “nos locais de trabalho, nas ruas e nas urnas”, explicou.
Gonçalves destaca que independente do resultado da eleição, o enfrentamento ao fascismo continua: “O nosso posicionamento como Sindicato Nacional vai para além das eleições. Mesmo que o candidato que representa o ataque à democracia e às liberdades individuais seja derrotado, há na classe trabalhadora uma adesão às ideias protofascistas. Nós temos que fazer esse enfrentamento para além das eleições. A decisão foi importante, porque ela marca um posicionamento para o segundo turno das eleições, mas também sinaliza para o que vem a seguir. Nossa luta continua independente do resultado das urnas”, concluiu.
Encaminhamentos
A reunião aprovou a produção de materiais contra o fascismo, intensificação das mobilizações para o dia 24 (Dia Nacional de Lutas dos Servidores Públicos), participação em frentes suprapartidárias, entre outros.
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