Segunda, 13 Julho 2026 13:53

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Alair Silveira

Professora e Pesquisadora do SOCIP e do PPGPS

Pós-doutoranda Universidad de Buenos Aires (UBA)

Membro do Grupo de Pesquisa MERQO/CNPq e do GTPFS/ADUFMAT-ANDES/SN

Miembro del Grupo de Trabajo Derechas Contemporaneas/CLACSO

 

"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. / E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. / Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. / E já não podemos dizer nada."

Eduardo Alves da Costa

 

         Há muitos anos alguns colegas denunciam a cultura empresarial que tem avançado por dentro das instituições acadêmicas, transformando radicalmente a atividade docente e o desenvolvimento de pesquisas científicas. Portanto, não se trata de um problema novo. O que realmente impacta são as assustadoras proporções que o gerencialismo empresarial tomou dentro das universidades, vassalando a autonomia universitária e a capacidade crítica de parte muito significativa de professores e pesquisadores. Seja por adesão ideológica ou necessidade de sobrevivência acadêmica, docentes-pesquisadores foram sendo – progressivamente – submetidos à lógica quantitativa das “entregas”, ou seja, da quantidade de produtos que, ao final de cada período, têm que disponibilizar em ‘prateleiras’ que atendem por muitos nomes: Lattes, CAPES, CNPq, PROPESQ, Sucupira, Stella, QUALIS... Não por acaso, uma das frases mais comuns aos professores e pesquisadores é: ‘não tenho tempo’. Também não é por coincidência que os percentuais de adoecimento, ansiedade e/ou depressão têm alcançado números expressivos na categoria docente.

            Porém, impõe-se reconhecer que a lógica gerencialista-produtivista não se impôs sem, antes, conquistar muitos corações e mentes dentro dos ambientes acadêmicos. Como o poema de Eduardo A. Costa[1] (em destaque), o processo de transformação da pesquisa acadêmica-científica em esteira de produção fordista não se consolidou sem a adesão e/ou resignação pessoal e institucional. Em sintonia com o modus operandi de organismos internacionais como o Banco Mundial e o FMI[2], o “convencimento” quanto às soluções gerenciais para aferir o desempenho e a produtividade acadêmica foi sendo construído sobre a dupla face do condicionamento da aprovação dos recursos à métrica dos números. Avaliados conforme o estoque quantitativo de produção em tempos estabelecidos, o trabalho docente e a pesquisa reduziram-se ao produto, desconsiderando-se todo o processo de coleta, sistematização e maturação empírica que antecede à elaboração intelectual.

            A vassalagem à lógica gerencial-produtivista produziu uma multiplicidade de tipos que oscila entre indignados, resignados, indiferentes, desistentes, aderentes, ostentadores e multiplicadores. Mas, produziu também, estratégias de sobrevivência acadêmica: registrar toda e qualquer atividade, exposição, produção; limitar a elaboração intelectual a um número cada vez menor de páginas; ‘esquartejar’ dissertações e teses para multiplicar o número final de artigos e Papers; assinar vários artigos com outros autores para pontuar; moldar-se às classificações de rankings, nos quais livros pontuam menos do que artigos;  hiperespecialização em determinados assuntos, a partir da qual é possível produzir múltiplos artigos sobre o mesmo tema etc. etc. etc. Seja qual for o recurso utilizado para projetar-se neste universo gerencial-produtivista, é a métrica da quantidade que se impõe.

            Junto ao modus operandi dos organismos financeiros internacionais supracitados, a hegemonia da cultura pós-moderna dentro dos espaços universitários firmou o terreno fértil para a captura de mentes e corações acadêmicos. Sob o império das subjetividades descoladas das metateorias, do relativo, do fragmento e da bricolagem, do imagético e do volátil, o papel e a responsabilidade social da universidade pública, da autonomia da pesquisa científica e da proeminência dos critérios qualitativos foram sendo secundarizados pela naturalização da irrazoabilidade.

Afinal, sobre quais elementos da razão científica a produção intelectual rigorosa e qualificada eliminou o tempo de maturação dos dados, da confrontação com as hipóteses, dos desafios teóricos que muitas vezes se revelam no cruzamento dos dados? Sobre quais evidências qualitativas se hiper compactou o tempo de elaboração e revisão das boas análises? Mais ainda: em quais fundamentos razoáveis o trabalho intelectual foi subtraído de suas especificidades para se igualar ao trabalho mecânico dos processos embrutecedores da produção em massa e em série que marcaram o modelo fordista/taylorista? Ironicamente, enquanto os operários que operavam estas máquinas rebelaram-se contra este modelo de organização do trabalho e da produção, nós, trabalhadores intelectuais, não apenas aderimos às esteiras de produção científicas, mas, elaboramos rankings para premiar os mais ‘produtivos’, capazes de conquistar as ‘metas’ gerenciais da produtividade.

            Sob estas condições, e considerando-se os termos do Edital n. 03/2026 da PROPESQ/UFMT, assim como a relação dos projetos habilitados para disputar as bolsas de iniciação científica para estudantes de graduação da Universidade, alguns aspectos evidenciam o atropelo à razoabilidade e à isonomia. De acordo com o Edital supracitado, a habilitação de orientadores/estudantes é extraída da quantificação de pontos atribuídos a cada uma das atividades (as quais, por sua vez, também estão submetidas ao ranking das quantidades de acesso e outros critérios hierárquicos de pontuação). Não bastasse a subordinação integral à métrica do desempenho gerenciado dos números, entre as áreas de conhecimento também foram estabelecidas pontuações completamente perversas para com as áreas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas[3]. No Edital (Bloco 2 do Anexo) é possível identificar rubricas de pontuação dirigidas a áreas específicas, cuja contabilização agrega à lógica quantitativa mais um elemento de discriminação por área.Enquanto para docentes-pesquisadores de Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências Exatas e da Terra, Ciências da Saúde e Engenharias, as pontuações vão de 10 a 30 pontos, para a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, as pontuações oscilam entre 2 e 3 pontos. Inclusive para aqueles que atuam na área de Linguística, Letras e Artes, a pontuação é um pouco mais elevada que aos pesquisadores que atuam na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: oscila entre 3 e 5.

            Para além do desprestígio implícito à área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e do comprometimento da isonomia, há que observar que também no quesito da arrancada no ranking de pontuação, os chamados pesquisadores de ‘produtividade’ (CNPq) já desfrutam de condição privilegiada em relação aos demais. Ao fim e ao cabo, tem-se que aqueles que já estão consolidados mantêm-se no topo do ranking quantitativo, cabendo aos demais as sobras das bolsas de IC.

            Entretanto, mesmo com todas estas condições desiguais e combinadas que evidenciam que a igualdade de oportunidade entre docentes-pesquisadores de áreas de conhecimento distintas não ultrapassa os limites de uma carta de intenções, a apresentação da Lista Geral de Ampla Concorrência (publicada em 23/06/2026) causa uma mescla de incredulidade e indignação.

            Da análise da Lista de Ampla Concorrência é possível extrair que a pesquisa na UFMT é constituída de raríssimas excelências individuais, alguns poucos pesquisadores qualificados, alguns outros capazes de evoluir conforme a métrica qualitativa e muitos ‘aspirantes’ sem chances de ‘competir’. Para além da perversidade desta Lista que mensura número e não produção científica de acordo com a realidade das distintas áreas e a razoabilidade lógica, ela é ainda mais cruel com docentes que somam ‘zero’ ou que são classificados como ‘currículo não compatível’.

            Diante disso, do que exatamente estamos falando? Com que tipo de Universidade e Pesquisa a UFMT está comprometida? Estamos, realmente, afirmando que alguns colegas não têm currículo compatível com a pesquisa? Baseado em quais pressupostos científicos-acadêmicos? Como a UFMT pretende estimular a pesquisa e a iniciação científica se reproduz uma lógica que, desde o Edital até a publicização, estabelece regras que vão ao encontro do produtivismo-gerencial? Qual a razoabilidade científica entre professores que totalizam quase 1.300 pontos enquanto outros somam zero ou são classificados como ‘incompatíveis’? Qual a média razoável de produção científica por ano, respeitando-se princípios como originalidade e tempo de coleta e maturação dos dados, rigor científico e elaboração teórica? Isto sem contar o processo de submissão às revistas especializadas e o tempo para avaliação e publicação.

            Por fim, com tranquilidade, como pesquisadora da área de Ciências Humanas e Sociais, posso dizer que a pesquisa empírica, a sistematização de dados, a maturação, a análise e a elaboração permitiriam, no máximo, três artigos anuais. E isto sendo otimista, isto é, contando com a inexistência de obstáculos na pesquisa de campo, ainda mais para quem faz pesquisa na área de Ciência Política em MT, cujas dificuldades de acesso a dados oficiais nem sempre é tarefa fácil. Não por acaso, minha pontuação alcançou os surpreendentes 71 pontos! Em síntese, faço parte do grupo dos ‘aspirantes’ que não alcançou sequer 10% da pontuação dos pesquisadores considerados ‘qualificados’. Ironicamente, trata-se de um estimulante processo de produção científica docente e, especialmente, de fomento à pesquisa para aqueles estudantes que, todo semestre, nos procuram para a Iniciação Científica.

            Em tempo: esclareço que este não é um artigo ressentido, mas, sim, revoltado! Sinceramente, espero que esta revolta e inconformidade não seja somente minha.



[1] Erroneamente, durante muitos anos, este poema foi atribuído ao poeta russo Maiakóvski.

[2] O livro de José Márcio M. Pereira, intitulado O Banco Mundial como ator político, intelectual e financeiro 1944-2008 [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010], nos permite dimensionar suas consequências, estabelecendo uma analogia com o processo por dentro das universidades.

[3] Registre-se que o ataque à área de Ciências Humanas e Sociais não é recente, gratuita ou despretensiosa. Não somente as disciplinas da área, no ensino médio, foram substituídas durante a ditadura militar, senão que no processo de redemocratização brasileiro, a reestruturação curricular da esmagadora maioria dos cursos universitários de outras áreas de conhecimento foi feita com a redução e/ou extinção destas disciplinas de seus currículos, como se cursos da área de exatas, tecnologia, saúde etc. fossem factíveis à revelia da dinâmica das relações societárias.

 

Quinta, 09 Julho 2026 11:12

 

 

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Por Danilo de Souza*  

 

Durante grande parte da história moderna, os Sapiens passaram a enxergar-se como algo separado da natureza. Essa transformação não ocorreu de forma repentina. Foi resultado de séculos de construção filosófica, religiosa, econômica e “científica” que consolidaram uma ideia poderosa: a de que os Sapiens ocupam uma posição singular no planeta e, por isso, não estariam submetidos às mesmas limitações que condicionam as demais espécies.

Essa visão, que a sociologia ambiental contemporânea passou a denominar excepcionalismo humano, sustenta que a sociedade humana existe de forma independente dos ecossistemas que a sustentam. A natureza seria fornecedora de recursos, absorvedora de resíduos e prestadora de serviços ambientais, mas a trajetória humana seria determinada principalmente pela cultura, pela economia, pela política e pela tecnologia. A biosfera, nesta perspectiva, aparece como um cenário externo à história humana, e não como sua condição fundamental de existência. Assim, esta visão gerou uma consequência profunda: a tendência a enxergar os limites ecológicos como obstáculos temporários que poderão ser superados por novas tecnologias.

No setor energético, esta crença é recorrente. Quando discutimos escassez de recursos, mudanças climáticas ou impactos ambientais, a resposta quase sempre se relaciona a alguma inovação tecnológica futura. Se houver escassez de petróleo, haverá novas fontes de energia. Se as emissões crescerem, haverá captura de carbono. Se a eletrificação aumentar a demanda por minerais críticos, encontraremos substitutos ou novas formas de exploração. Essa confiança na capacidade humana de adaptação é compreensível e, em certa medida, justificada pela própria história do desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando ela se transforma na crença de que as leis ecológicas e biofísicas deixaram de existir.

Para compreender melhor essa questão, é útil observar a figura abaixo. Nela, os sistemas naturais e os sistemas humanos aparecem como entidades distintas, cada qual com seus próprios processos internos, conectados por mecanismos de acoplamento e interação. A representação é extremamente útil para demonstrar as influências mútuas entre a sociedade e a natureza. Entretanto, ela também mostra uma das marcas mais profundas do pensamento moderno: a ideia de que há dois sistemas separados que interagem entre si.






A crítica formulada por autores como William Catton, Riley Dunlap, Herman Daly, Carl Folke, Johan Rockström e Vaclav Smil vai além dessa interpretação. Para esses pesquisadores, o problema é que, além da necessidade de compreender as interações entre sociedade e natureza, precisamos reconhecer que a própria separação entre ambas é artificial. O sistema humano não existe fora da natureza. A economia não existe fora da biosfera. A política não existe fora das restrições impostas pela disponibilidade de energia, de materiais e de água, e pela estabilidade climática. A sociedade é, em última instância, um subsistema inserido em um sistema ecológico muito maior.

Essa constatação parece óbvia quando observamos os organismos vivos. Nenhum animal existe fora dos fluxos de energia e de matéria que sustentam os ecossistemas. Nenhuma espécie está desconectada dos ciclos biogeoquímicos que regulam a disponibilidade de nutrientes, de água e de condições ambientais. Entretanto, quando passamos a analisar fenômenos sociais, frequentemente abandonamos essa lógica. A pobreza passa a ser discutida apenas como um problema econômico ao longo de toda a história humana. O crescimento é tratado como uma variável financeira. A urbanização é compreendida como um processo essencialmente social. A segurança energética é reduzida a uma questão tecnológica. Em muitos casos, as bases biofísicas que sustentam todos esses fenômenos desaparecem do debate.

Talvez esse seja um dos aspectos mais curiosos da modernidade. A sociedade desenvolveu uma extraordinária capacidade de compreender sistemas complexos, mas frequentemente analisa os fenômenos humanos como se estivessem parcialmente desvinculados de sua base ecológica. O resultado é a fragmentação do conhecimento. As ciências sociais estudam a sociedade. As ciências naturais estudam a natureza. As engenharias estudam as tecnologias. E, muitas vezes, perde-se a compreensão de que todos esses elementos fazem parte de um mesmo sistema.

Essa desconexão se manifesta em diversos campos. Na economia, a riqueza é medida predominantemente por indicadores monetários, enquanto a degradação dos sistemas naturais costuma ser tratada como uma externalidade. Na política, os debates priorizam legitimamente emprego, renda, inflação e crescimento econômico, mas raramente discutem com a mesma intensidade a estabilidade climática, a disponibilidade hídrica ou a resiliência ecológica que tornam possível a própria atividade econômica. Na educação, a história costuma ser apresentada como uma sucessão de eventos humanos, com pouca atenção ao papel da energia, dos recursos naturais e das transformações ambientais na formação das civilizações, como por exemplo, falar em revolução industrial sem abordar o carvão e o petróleo como elemento possibilitante desta transformação.

As cidades oferecem outro exemplo emblemático. Frequentemente são apresentadas como espaços artificiais, independentes da natureza. Entretanto, nenhuma cidade produz sua própria água, seu próprio alimento, seus próprios materiais ou sua própria estabilidade climática. As áreas urbanas apenas tornam invisíveis os sistemas ecológicos dos quais dependem. Quanto mais sofisticada a infraestrutura, maior tende a ser essa ilusão de autonomia.

No campo energético, essa reflexão ganha especial importância. A energia é, talvez, a manifestação mais evidente da dependência humana em relação aos sistemas naturais. Toda sociedade depende de fluxos energéticos para produzir alimentos, movimentar mercadorias, construir infraestrutura, transportar pessoas e sustentar atividades econômicas. Os recursos energéticos podem mudar ao longo do tempo, mas a dependência física permanece.

A própria transição energética ilustra essa realidade. A substituição dos combustíveis fósseis por fontes de baixo carbono representa uma transformação tecnológica extraordinária e necessária. Contudo, ela não elimina a materialidade dos sistemas energéticos. Painéis fotovoltaicos exigem silício, alumínio, cobre e vidro. Aerogeradores exigem aço, concreto e minerais críticos. Baterias exigem lítio, níquel, grafite e cobalto. Redes elétricas exigem enormes quantidades de materiais, energia e território. Em outras palavras, a transição energética altera os fluxos materiais e energéticos da sociedade, mas não elimina sua dependência da biosfera.

Talvez seja justamente esse o principal avanço teórico construído a partir do debate em torno da sustentabilidade. Durante décadas, o debate energético concentrou-se em garantir a oferta, a confiabilidade e os custos competitivos. Esses objetivos continuam fundamentais. Entretanto, os desafios contemporâneos exigem uma visão mais ampla. Sustentabilidade não significa apenas utilizar tecnologias mais eficientes ou reduzir as emissões. Deveria reconhecer que a economia está inserida na sociedade e que esta é apenas um dos subsistemas da biosfera.

Essa percepção não reduz a importância da tecnologia. Pelo contrário. Ela permite compreender seu verdadeiro papel. A inovação tecnológica pode ampliar os limites, aumentar a eficiência, reduzir os impactos e melhorar a qualidade de vida. O que ela não pode fazer é eliminar a dependência humana dos processos biofísicos que sustentam a vida.

Ao discutir energia, sustentabilidade e desenvolvimento, talvez a pergunta mais importante não seja qual tecnologia desenvolveremos nas próximas décadas. Talvez a questão fundamental seja outra: continuaremos a enxergar a sociedade como algo separado da natureza ou passaremos a reconhecê-la como parte inseparável dela?

Para os leitores interessados em aprofundar essa discussão, recomenda-se a leitura do artigo "Conceptualizing Human–Nature Relationships: Implications of Human Exceptionalist Thinking for Sustainability and Conservation", de Kim et al., publicado na revista Topics in Cognitive Science (2023). O trabalho apresenta uma análise abrangente do conceito de excepcionalismo humano, suas origens cognitivas e culturais, e suas implicações para a sustentabilidade, a conservação ambiental e a formulação de políticas públicas, complementando e aprofundando as reflexões deste texto.

 

OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".

*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).

Terça, 07 Julho 2026 16:32




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Juacy da Silva*


Um dos grandes desafios socioambientais, principalmente nas últimas décadas, tem sido a produção e o uso de embalagens plásticas, incluindo sacolas, sacos, garrafas PET e outros produtos e embalagens que aumentam a geração de lixo e provocam um grande impacto tanto nos solos quanto em todos os cursos d'água, como córregos, rios, lagos, lagoas, mares e oceanos, enfim, em todos os biomas e ecossistemas.

Para despertar a consciência em relação a este problema, foi criado o DIA INTERNACIONAL SEM SACOLAS PLÁSTICAS, por iniciativa da “Global Bag Free World”, com o objetivo de conscientizar a população sobre os impactos socioambientais negativos do uso de embalagens plásticas em geral e das sacolas plásticas em particular, e promover alternativas sustentáveis, como o uso de sacolas produzidas com material reciclado ou de outros materiais, como pano e papel etc. A data é celebrada anualmente em 3 de julho, em diversos países, inclusive no Brasil.

Para orientar e massificar a campanha pelo fim das embalagens plásticas em geral e das sacolas e sacos plásticos em particular, a cada ano é escolhido um tema, em torno do qual essas reflexões e ações são realizadas. Em 2026, o tema é “Libertação dos plásticos de uso único: rumo a um futuro sustentável”.

No entanto, apenas incentivar as pessoas a deixarem de usar sacolas/sacos plásticos por um dia, com certeza, não vai resolver este problema sério e grave se, ao longo dos demais 364 dias, continuarmos a usar todos os tipos de plásticos que estão degradando e destruindo todos os biomas e ecossistemas ao redor do mundo.

Em 2026, por exemplo, em todos os países, enfim, no mundo inteiro, está mais do que caracterizado e comprovado, por dados e estatísticas confiáveis e atualizadas, que estamos vivendo uma grave crise dos plásticos e que este assunto precisa ser tratado como uma emergência global.

O desafio principal é a falta de consciência e a resistência do mundo empresarial, que lucra bilhões de dólares por ano, tendo em vista que a produção anual de plásticos, em 2026, deverá ultrapassar 516 milhões de toneladas, ou seja, 500 bilhões de kg de plásticos, em torno de 60 kg per capita (por pessoa), em média; em alguns países “desenvolvidos”, muito mais do que este volume.

Em apenas um quarto de século, entre 2000 e 2026, a produção de plásticos no mundo passou de 200 milhões de toneladas para 516 milhões de toneladas, um crescimento exponencial em um período considerado curtíssimo da história humana.

Outro aspecto que demonstra a gravidade é o aumento espantoso dos plásticos em todos os tipos de atividade humana, além do fato de que, no máximo, 10% do lixo plástico gerado no mundo são reciclados corretamente, e 90% deste imenso volume vai parar nos bueiros, terrenos desocupados, córregos, rios, lagos, lagoas, mares e oceanos, poluindo, degradando e destruindo irreparavelmente o meio ambiente.

Até bem pouco tempo, mas em alguns países pobres continuam “importando” lixo, principalmente lixo plástico produzido pelos países ricos/desenvolvidos, mas isto apenas transfere o problema de um país para outro, tendo em vista que não existe alternativa de enviar o lixo produzido no planeta Terra para outro planeta.

O volume do lixo plástico existente, digamos, “estocado”, no planeta, pelo acúmulo de 90% deste lixo que não é reciclado, ano após ano, representava, em 2025, mais de 8 mil megatoneladas, e a tendência tem sido piorar no futuro próximo, tendo como destino os oceanos, razão pela qual o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, há poucos anos, em um pronunciamento oficial, alertava que, se nada de concreto for feito para acabar com o uso dos plásticos (subproduto do petróleo, combustível fóssil responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa): “Se nada for feito, em 2050, em diversas partes do mundo, os oceanos terão mais lixo plástico do que peixes”.

Inúmeros estudos e pesquisas, em diversos países, inclusive no Brasil, têm demonstrado o impacto negativo do lixo plástico na vida animal lacustre, ribeirinha e marítima e na vida terrestre também.

Em Mato Grosso, por exemplo, com frequência, inúmeras reportagens têm demonstrado a presença de muito lixo, inclusive lixo plástico, em todos os rios, principalmente os que alimentam o Pantanal, transformando esta maravilha, reconhecida como “patrimônio natural da humanidade”, em um grande depósito de lixo, afetando todas as formas de vida ali existentes.

Uma outra consequência do lixo plástico, também demonstrada por diversos estudos em inúmeros países, novamente incluindo o Brasil, é em relação à saúde humana. Por exemplo, a presença de microplástico no corpo das pessoas, na corrente sanguínea e até no cérebro é um fato concreto e real.

Microplásticos são partículas minúsculas de plástico, com menos de 5 mm, invisíveis a olho nu, e são derivados das embalagens, inclusive presentes em inúmeros supermercados para embalar legumes, carnes e outros alimentos, garrafas PET e também do lixo plástico ou de roupas sintéticas. Eles podem entrar no corpo pela respiração ou alimentação. A ciência indica que eles se espalham pelo sangue e se acumulam nos órgãos, podendo afetar o corpo de várias formas.

Os microplásticos afetam a saúde humana em geral, inclusive aumentando os riscos de agravamento de doenças crônicas e até mesmo afetando diretamente a fertilidade humana.

Os microplásticos agravam problemas cardiovasculares, aumentam o risco de infarto, derrame e outras doenças cardíacas; provocam danos e inflamações nas células, envelhecimento celular, desregulação hormonal, doenças neurológicas, problemas no desenvolvimento fetal, contribuindo para diversas doenças degenerativas e, também, doenças ósseas e renais.

Conforme dados de um relatório de 8 de agosto de 2025 do “Environment Texas Research & Policy Center”, mencionando matéria publicada em “The Lancet”, o custo financeiro anual das doenças geradas pelo lixo plástico no mundo ultrapassa US$ 1,5 trilhão de dólares ou aproximadamente R$ 8 trilhões, importância maior do que o PIB de 95% dos países do globo terrestre. Esse valor colossal representa o impacto na saúde global, cobrindo desde despesas com hospitais até mortes precoces e perda de qualidade de vida.

Tendo em vista a gravidade da situação do lixo plástico no mundo e as perspectivas sombrias a longo prazo, na Assembleia Geral da ONU sobre questões ambientais, em março de 2022, representantes de 175 países conseguiram aprovar uma resolução com o objetivo de criar um Comitê Intergovernamental de Negociação, visando à aprovação de um acordo global/internacional contra a poluição plástica, ou seja, pondo fim à produção e ao uso de plástico, uma luta hercúlea, da mesma forma que a luta que vem sendo travada nas últimas COPs, para pôr um fim à produção e ao uso de combustíveis fósseis, incluindo petróleo e seus derivados.

Apesar da gravidade dos problemas oriundos do uso e do lixo plástico em escala internacional e do esforço de diversos países, atualmente, em 2026, as negociações visando à aprovação, em Assembleia Geral da ONU, de um Tratado Global sobre os Plásticos estão praticamente paralisadas, por pressão dos países produtores e exportadores de petróleo e também dos países onde estão instaladas as grandes indústrias de produção de todos os tipos de plásticos, basicamente os integrantes do G7 e do G20, dos quais o Brasil também participa.

Em 2026, as negociações do Tratado Global sobre Plásticos enfrentam um grande impasse. A divisão ocorre entre os países que defendem o corte na produção de plástico virgem e aqueles focados apenas no controle do lixo e na reciclagem.

Esses países tentam desvirtuar as discussões colocando como alternativa concreta, em lugar do fim da produção e do uso dos plásticos (que geram bilhões de toneladas de lixo plástico e seus impactos no planeta), repito, colocando a reciclagem como a “grande saída”, o que não irá resolver o problema, tendo em vista que há países, como o Brasil, em que a reciclagem de plásticos não atinge sequer 4% do lixo plástico gerado. O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do planeta, gerando anualmente mais de 11 milhões de toneladas.

Em relação às discussões sobre o Tratado Global sobre os Plásticos, a posição do Brasil tem sido dúbia, mas, conforme matéria publicada no site A Pública, em 13 de agosto de 2025: “A diplomacia brasileira fez uma guinada conservadora nas negociações que buscam criar um tratado de combate à poluição por plásticos. O país deixou de se posicionar sobre as questões críticas do acordo, ao mesmo tempo em que adotou argumentos similares aos grandes produtores de petróleo”. Essa dubiedade do Brasil também tem ocorrido nas COPs quando a discussão gira em torno do fim do uso dos combustíveis fósseis.

Isto significa que, anualmente, 10,6 milhões de toneladas de lixo plástico (96% não reciclado) não têm a destinação correta. A cada ano, em apenas uma década, serão 106 milhões de toneladas, só no Brasil. Diante disso, estaremos convivendo com montanhas e montanhas de lixo plástico ao redor de nosso país.

O pior em tudo isto, em meio a esta verdadeira tragédia ecológica e socioambiental, é constatarmos que não existe consciência ambiental nem por parte da população em geral e muito menos por parte de nossos governantes, em todos os níveis, e também no mundo empresarial, que sempre coloca a busca do lucro e a acumulação de capital acima dos danos causados pelo lixo plástico e outros crimes contra o meio ambiente.

Também a passividade e a falta de consciência ecológica estão presentes em todas as demais entidades da chamada sociedade civil organizada/desorganizada, como os estabelecimentos educacionais, as Igrejas, os movimentos sindical e comunitário e os clubes de serviço.

Assim, diante do imenso volume de lixo plástico gerado no mundo e em todos os países, e que tem aumentado muito todos os dias e anos, diante da passividade, alienação e falta de um despertar da consciência ecológica sobre este desafio e diante da resistência dos sistemas produtivos/empresários em colocar o bem comum e a saúde das pessoas e do planeta acima do lucro e da acumulação de capital, e também diante da omissão generalizada de governantes em todos os países sobre esta realidade, com certeza, o mundo tem pouco a celebrar neste DIA INTERNACIONAL SEM SACOLAS PLÁSTICAS.

Continuamos como o beija-flor que imaginava conseguir apagar um enorme incêndio florestal com apenas algumas gotinhas que carregava em seu biquinho.

Para terminar, gostaria de relembrar a exortação feita pelo Papa Francisco, em 2015, quando da publicação da Encíclica Laudato Si’: "A Terra, nossa casa comum, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo". Do volume global de lixo produzido no mundo, o lixo plástico já representa, em média, 10% deste total, com previsões de, como já acontece em alguns países, chegar a 20% dentro de poucas décadas, sabendo que o lixo plástico pode continuar poluindo o planeta por mais de 500 anos, média de "vida" do lixo plástico.

O combate ao lixo plástico, portanto, é também uma maneira de defendermos todas as formas de vida, inclusive a vida humana, e isto passa pela necessidade de mudança de hábitos, de estilo de vida e de estruturas sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Convenhamos, uma grande luta, uma verdadeira revolução ecológica.

A nossa luta é pelo fim do uso das sacolas e de todas as embalagens de plástico em todo o Brasil, como já acontece em diversos países e cidades mundo afora.

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

 

Sexta, 19 Junho 2026 16:12

 

 

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Cuiabá viverá nos próximos dias um importante momento de participação democrática e construção coletiva da saúde pública - nos dias 29 e 30 de junho, será realizada a 16ª Conferência Municipal de Saúde, que neste ano traz como tema "Brasil das Brasileiras e dos Brasileiros: SUS e Soberania - Cuidar do Povo é Cuidar do Brasil". 

As conferências de saúde constituem uma das mais importantes conquistas da sociedade brasileira após a Constituição Federal de 1988. Foi a partir delas que se consolidou o entendimento de que as políticas públicas não devem ser construídas apenas por especialistas e em reuniões de alta cúpula e, sim, a partir das necessidades, experiências e demandas da população. A Constituição definiu que as políticas de saúde devem ser construídas de forma ascendente, ou seja, partindo dos territórios, das comunidades e das pessoas que vivenciam cotidianamente os desafios relacionados à saúde. Esse mecanismo pauta-se no entendimento de que são as pessoas, vivendo a vida no território, que sabem indicar quais são os problemas prioritários de saúde que vivenciam, tanto quanto os profissionais de saúde e gestores. 

Ao longo da história do Sistema Único de Saúde (SUS), muitas das diretrizes que orientam as políticas municipais, estaduais e nacionais nasceram dos debates e deliberações realizados nesses espaços. Usuários, trabalhadores da saúde, gestores, movimentos sociais, entidades representativas e instituições de ensino têm a oportunidade de refletir coletivamente sobre os desafios da saúde e propor caminhos para sua superação, ou seja, a Conferência é de todos nós. 

A conferência é um exercício permanente de democracia, é nela que diferentes experiências, opiniões e visões de mundo se encontram para debater problemas, formular propostas e construir consensos em torno do interesse coletivo que, à priori, é um sistema de saúde público que atenda a todos nós sem distinção e considerando nossas diferenças. Portanto, um espaço privilegiado de escuta, diálogo e respeito à diversidade, valores indispensáveis para o fortalecimento da vida democrática. 

As conferências de saúde também são arenas legítimas de debate sobre diferentes projetos para a saúde pública e é nessa cena, marcada pela pluralidade de ideias e interesses, que se disputam os princípios que sustentam o SUS, como a universalidade, a integralidade, a equidade e a participação social. Por isso, é fundamental que esses espaços sejam preservados como ambientes democráticos, plurais e acolhedores, onde todas as pessoas possam se expressar livremente, apresentar suas propostas e defender seus pontos de vista com respeito mútuo. Este espaço deve garantir que todos e todas tenham oportunidade de inclusão de suas pautas; é um espaço, originalmente, de discordâncias e consensos. Proteger a conferência é proteger o direito à participação social e fortalecer os mecanismos democráticos que permitem à população influenciar as decisões que afetam diretamente sua saúde e sua qualidade de vida. 

Mas a importância da conferência não está apenas em seu caráter democrático. Ela se torna ainda mais necessária diante dos desafios concretos que Cuiabá enfrenta diariamente na área da saúde,  entre esses desafios destacam-se o crescimento das doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer; as recorrentes epidemias de dengue e chikungunya; as dificuldades de acesso a consultas, exames e cirurgias especializadas; a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência; os problemas relacionados à saúde mental; a persistência da mortalidade materna e infantil; e as desigualdades sociais e territoriais que fazem com que as pessoas de diferentes regiões da cidade vivam realidades muito distintas em relação ao acesso à saúde e às oportunidades de viver com qualidade.

É justamente para enfrentar desafios como esses que a conferência existe - mais do que um espaço para discursos ou disputas estéreis, ela deve ser um ambiente de reflexão crítica e de construção de propostas capazes de melhorar a vida da população. O foco das discussões precisa estar nos problemas que afetam os cuiabanos todos os dias e nas estratégias necessárias para fortalecer o SUS, ampliar o acesso aos serviços, reduzir desigualdades e produzir respostas efetivas às necessidades da população.

Ao eleger a soberania como tema central, a 16ª Conferência Municipal de Saúde reafirma que o cuidado com a população é um dos pilares de um país democrático e socialmente justo. Não há soberania sem a garantia de direitos, sem a redução das desigualdades e sem a participação ativa da sociedade nas decisões que afetam sua vida. Fortalecer o SUS e ampliar os espaços de participação popular significa fortalecer a própria democracia e a capacidade da população de construir coletivamente seu futuro.

Esse compromisso também convoca as universidades, faculdades, escolas técnicas e demais instituições de ensino a assumirem um papel ativo na formação cidadã. Mais do que estudar o SUS em sala de aula, é fundamental que estudantes tenham a oportunidade de vivenciar os espaços de participação social e compreender como as políticas públicas são construídas coletivamente. A participação em conferências, conselhos e outros fóruns de debate fortalece a formação de profissionais mais sensíveis às necessidades da população e mais comprometidos com os princípios democráticos que sustentam o sistema público de saúde.

Que a 16ª Conferência Municipal de Saúde de Cuiabá seja um espaço de aprendizado, diálogo e construção coletiva. Um momento em que diferentes vozes possam ser ouvidas, propostas possam ser construídas e o compromisso com a saúde pública seja renovado. Afinal, cuidar do povo é também fortalecer a democracia, ampliar a participação social e construir respostas concretas para os desafios que impactam a vida dos cuiabanos todos os dias.


Dra. Maria Angela Conceição Martins, conselheira estadual de saúde e docente no Instituto de Saúde Coletiva/UFMT

Dra. Elyana Teixeira Sousa – Docente do Instituto de Saúde Coletiva/UFMT  

Sexta, 19 Junho 2026 11:13

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Dirceu Grasel
Prof. UFMT

 

I. Introdução

Antes de entrar na questão central deste artigo de opinião, provavelmente sem nenhuma contribuição original ou inédita, gostaria de esclarecer que reconheço que o tema abordado é complexo, mas também extremamente importante. Destaco ainda que o objetivo deste artigo não é prever o futuro, embora aborde cenários possíveis, mas apresentar uma inquietação crescente diante da passividade institucional sobre o tema, de alguém que acredita que a instituição está reagindo lentamente a mudanças profundas, ou seja, de alguém que gostaria que este artigo de opinião fosse visto como um esforço para provocar um debate produtivo, dentro de uma instituição, que vejo passiva e acomodada. Destaco também que não há intencionalmente nenhuma crítica a instituição ou tentativa de convencimento, mas apenas e somente um esforço em provocar um debate necessário. 

II. As universidades contemporâneas: características, limitações e sinais de esgotamento do modelo atual

As universidades modernas foram estruturadas a partir de um paradigma institucional consolidado ao longo do século XX, fortemente baseado na centralidade física do campus, na autoridade epistemológica do professor, na fragmentação disciplinar do conhecimento e na lógica industrial de formação em massa. Esse modelo foi eficiente para atender às demandas da sociedade industrial e da economia baseada em profissões relativamente estáveis, produzindo avanços científicos, tecnológicos e sociais incontestáveis. 

Todavia, as transformações aceleradas da sociedade contemporânea têm revelado sinais evidentes de esgotamento desse arranjo institucional. O primeiro grande problema refere-se ao custo estrutural das universidades e ao consequente custo médio de formação. A manutenção de grandes infraestruturas físicas, estruturas administrativas complexas, regimes rígidos de contratação docente e modelos pedagógicos presenciais intensivos tornou o ensino superior progressivamente mais caro e, em muitos casos, economicamente insustentável, especialmente em cursos que formam pouquíssimos alunos. 

Paralelamente, emerge uma crescente desconexão entre formação universitária e as dinâmicas contemporâneas do mercado de trabalho. Em diversas áreas, observa-se que os currículos permanecem excessivamente lentos, atrasados, burocráticos e pouco responsivos às transformações tecnológicas e econômicas. O tempo institucional de atualização curricular frequentemente é incompatível com a velocidade de transformação das competências demandadas pela economia digital, por exemplo. 

Outro aspecto crítico refere-se à qualidade da formação. Embora as universidades continuem sendo centros fundamentais de produção de conhecimento científico, há questionamentos crescentes acerca da efetividade pedagógica de modelos baseados predominantemente em aulas expositivas, avaliações padronizadas e transmissão verticalizada de conteúdo. A disponibilidade quase ilimitada de informação em ambientes digitais reduz progressivamente o monopólio informacional historicamente exercido pela universidade. Hoje já é possível uma formação igual ou superior, por estes meios digitais, desde que se tenha capacidade de distinguir o que é útil e inútil. Habilidade que também vem se tornando sempre mais importante no modelo atual e, pode ser uma excelente pista para entender a falta de interesse generalizada dos alunos. 

Além disso, observa-se uma crise de legitimidade social do ensino superior. O diploma universitário, outrora símbolo quase automático de mobilidade social, já não garante inserção profissional estável nem diferenciação competitiva significativa em diversos 2 setores. Em consequência, cresce o debate sobre o custo-benefício da educação superior tradicional. 

As universidades também enfrentam desafios relacionados à evasão estudantil, dificuldades de internacionalização, baixa integração interdisciplinar, lentidão decisória, resistência institucional à inovação e crescente competição com novos atores educacionais privados, plataformas digitais e sistemas alternativos de certificação profissional.

Nesse contexto, torna-se evidente que o modelo universitário atual ainda existe e resiste, porém seus fundamentos estruturais começam a apresentar sinais de fadiga sistêmica. O problema central talvez não seja apenas tecnológico, mas civilizacional, já que as universidades foram concebidas para um modelo de sociedade que já não existe integralmente. 

Portanto, estamos basicamente falando de sobrevivência institucional e da profissão de professor universitário. Neste ponto está a minha angústia crescente, pois não vejo preocupação significativa, nem qualquer atitude para entender a questão e definir uma estratégia para se preparar ao que virá.  

Qual questão exatamente? Todos os que possuem bom senso vivem a angústia de saber que o modelo atual apresenta evidências crescentes de esgotamento e que, ao mesmo tempo, ainda não sabemos o que será a universidade do futuro e nem o que será da nossa profissão de professores do ensino superior. Esta angústia é generalizada, dos professores, alunos e da própria sociedade de forma geral. Hoje um professor que se diz fazendo um bom trabalho, ainda não compreendeu a realidade ou se engana a si mesmo.

Precisamos sair desta passividade e tentar responder ou entender essas questões. Diante deste contexto, não seria prudente formar uma comissão de especialistas para realmente entender o problema e se preparar para o que está por vir? Esta comissão poderia ter um tempo determinado para conclusão dos trabalhos, ser composta por membros das áreas envolvidas, com as capacidades acadêmicas necessárias e inquestionáveis para sair da superficialidade e ir na raiz da questão, que sejam capazes de distinguir o que é realidade e alarmismo, atribuindo-se uma carga horária generosa para se debruçar sobre o tema ou, no mínimo coletar as informações disponíveis, organizá-las e coordenar um debate institucional. 

Questões que precisam ser respondidas:
1) O que está acontecendo?
2) Quais são as expectativas dos alunos atuais?
3) Qual será o ensino superior no futuro? 
4) O que já existe de novo no mundo?
5) Como podemos nos preparar para enfrentar a nova realidade?  Afinal, precisamos nos preparar para o que está por vir.   


III. As novas tecnologias e seu potencial impacto sobre as universidades

As tecnologias emergentes possuem potencial disruptivo sem precedentes sobre o ensino superior. Inteligência Artificial generativa, computação em nuvem, big data, realidade aumentada, realidade virtual, sistemas adaptativos de aprendizagem, biotecnologia, interfaces homem/máquina e automação cognitiva tendem a alterar profundamente os processos de ensino, pesquisa, gestão universitária e certificação. 

A Inteligência Artificial, em particular, representa talvez a transformação mais radical para o ensino superior. Sistemas baseados em modelos avançados de linguagem já conseguem produzir sínteses bibliográficas instantâneas, gerar conteúdos didáticos, criar avaliações, oferecer tutoria personalizada e apoiar atividades de pesquisa em níveis anteriormente inimagináveis. Tudo indica que isto deslocará profundamente o papel tradicional do professor como principal transmissor de informação. 

Ao mesmo tempo, algoritmos de aprendizagem adaptativa permitem trajetórias formativas altamente personalizadas, ajustando conteúdos, ritmos e metodologias conforme o perfil cognitivo individual do estudante. Tal transformação desafia diretamente o modelo padronizado de ensino em turmas homogêneas, com vários alunos.

A expansão da educação digital síncrona e assíncrona também rompe a dependência da presencialidade física como elemento central da experiência universitária. Plataformas globais de ensino tornam possível o acesso a especialistas internacionais, laboratórios virtuais e sistemas de aprendizagem distribuídos geograficamente, que facilitarão o ensino/aprendizado e reduzirão drasticamente os custos médios e marginais de formação. 

No campo da pesquisa científica, a automação computacional acelera drasticamente análise de dados, revisão sistemática de literatura, modelagem preditiva e experimentação simulada. Consequentemente, a produção científica tende a tornar-se mais rápida, colaborativa e interdisciplinar, mas com sérios riscos, que ainda não entendemos plenamente.

Contudo, talvez o aspecto mais importante não seja a substituição pontual de ferramentas, mas a transição paradigmática em curso. As universidades vivem hoje uma situação peculiar, o modelo tradicional claramente já não responde integralmente às necessidades contemporâneas; mas ainda não existe consenso sobre qual será o novo modelo institucional dominante.

Estamos, portanto, em um período de transição entre um paradigma educacional que perde progressivamente sua eficácia e outro que ainda está em formação. Essa condição produz elevada instabilidade institucional, profissional e essa inquietação mencionada no início. O ensino superior encontra-se em uma espécie de “zona intermediária” entre a universidade industrial do século XX e uma futura universidade, pós-digital, cuja configuração ainda é incerta. 

IV. O que provavelmente será a universidade do futuro?

É claro que alguém que nem especialista na área é, somente pode especular ou construir cenários possíveis. É isto que pretendo fazer abaixo, pois é exatamente o que acredito que deve ser feito no estágio atual de incertezas. 

A universidade do futuro provavelmente será muito menos definida por espaços físicos e muito mais por estratégias digitais de aprendizagem contínua. Em vez de instituições centradas em cursos longos, rígidos e altamente padronizados, tende a emergir um modelo modular, flexível, interdisciplinar e orientado por competências, definidas pelo próprio aluno ou exigidas pelo mercado.

Os currículos deverão tornar-se dinâmicos e continuamente atualizáveis. A distinção clássica entre graduação, pós-graduação e educação progressiva e continuada tende a perder relevância diante da necessidade permanente de requalificação profissional ao longo da vida.

A formação universitária provavelmente migrará de uma lógica centrada na transmissão de conteúdo para uma lógica baseada em resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, capacidade analítica, colaboração interdisciplinar e integração humanomáquina.

A personalização educacional deverá ampliar-se significativamente. Ambientes inteligentes de aprendizagem poderão construir trajetórias formativas individualizadas, utilizando dados em tempo real sobre desempenho, interesses, dificuldades e competências dos estudantes.

A internacionalização também tende a se intensificar. As universidades mais competitivas provavelmente funcionarão em redes globais de cooperação acadêmica, compartilhamento de disciplinas, mobilidade digital e pesquisa compartilhada e distribuída, já que estes custos deverão ser drasticamente reduzidos. 

Por outro lado, o campus físico não necessariamente desaparecerá, entretanto, sua função poderá mudar substancialmente. Em vez de espaço prioritariamente destinado à transmissão de conteúdo, poderá tornar-se um ambiente voltado à convivência intelectual e social, experimentação prática, inovação, interação social, empreendedorismo e desenvolvimento de capacidades socioemocionais. 

V. O que provavelmente mudará na profissão dos professores universitários

Lembrando novamente que, também neste tema, o objetivo é somente especular ou construir cenários possíveis e provocar o debate absolutamente necessário e urgente. 

A profissão de professor universitário provavelmente sofrerá uma das maiores transformações de sua história. O professor deverá deixar gradualmente de exercer predominantemente o papel de transmissor de conteúdo, para assumir funções mais complexas relacionadas à curadoria do conhecimento, mentoria intelectual, mediação cognitiva, orientação ética e desenvolvimento de competências humanas não automatizáveis.

Com a crescente disponibilidade de sistemas inteligentes capazes de fornecer informações instantâneas e personalizadas, o diferencial do professor tenderá a deslocar-se para dimensões interpretativas, críticas e relacionais, bem como para a capacidade de selecionar e focar em informações úteis.

Também deverá se tornar cada vez mais necessário que os docentes desenvolvam competências digitais avançadas, compreendam ambientes híbridos de aprendizagem, integrem ferramentas de Inteligência Artificial aos processos pedagógicos e atuem em contextos interdisciplinares.

Ao mesmo tempo, deverá haver crescente pressão institucional por produtividade, inovação pedagógica, internacionalização e adaptação contínua. Isso poderá gerar tensões relevantes relacionadas à precarização do trabalho acadêmico, redefinição de carreiras e necessidade permanente de atualização profissional.

Em muitos aspectos, a docência universitária provavelmente deixará de ser uma atividade relativamente estável para tornar-se uma profissão em constante reinvenção. 

VI. A necessidade de as instituições de ensino superior se prepararem para sobreviver

Diante desse cenário, a preparação institucional para o impacto das novas tecnologias deixa de ser uma questão opcional e passa a constituir um imperativo estratégico de sobrevivência. 

Instituições que permanecerem excessivamente presas a modelos burocráticos, currículos rígidos, estruturas administrativas lentas e resistência cultural à inovação tendem a perder competitividade acadêmica, relevância social e sustentabilidade financeira, mesmo que sejam públicas.

A transformação digital não deve ser compreendida apenas como aquisição de equipamentos ou adoção superficial de plataformas tecnológicas. Tudo indica que se trata de alterações estruturais da própria lógica institucional universitária.

As universidades precisarão desenvolver capacidades para se adaptar rapidamente aos novos cenários, construir culturas organizacionais orientadas à inovação, ampliar articulações com sistemas tecnológicos e incorporar metodologias mais experimentais de ensino, pesquisa e gestão.

Além disso, será necessário repensar modelos de governança universitária, processos decisórios e estruturas curriculares historicamente marcadas por elevada rigidez institucional, geralmente impostas pelos “donos do saber”, mesmo que esse conteúdo não tenham nenhuma relação com a realidade e na verdade sejam muito mais reserva de domínio, que permita ao professor se manter no conforto. 

A velocidade das mudanças tecnológicas sugere que a necessidade de gerar capacidades de adaptação tem prazo definido e não é longo.

Diante deste contexto, do cenário descrito, possível e provável, que sugere mudanças estruturais na UFMT, como questão de sobrevivência, bem como mudanças estruturais de seus colaboradores, além das reiteradas tentativas de mostrar a necessidade deste debate nos ambientes institucionais em que convivo, finalizo este relato com perguntas que, ao meu ver, salvo melhor juízo de especialistas, se tornam sempre mais relevantes:

1) Por que, apesar da inquietação generalizada, ninguém ou quase ninguém, discute a questão?
2) Estamos nos preparando para estas mudanças profundas ou estamos simplesmente supondo que tudo continuará funcionando como sempre?
3) Estamos discutindo seriamente como a IA e outras tecnologias podem transformar a universidade e a profissão docente?
4) Se estamos diante de um cenário que pode até comprometer a existência da instituição, por que este assunto não é eixo central do debate na instituição?

Não sabemos exatamente o que o futuro nos reserva, mas sabemos que nada será igual.  

Quinta, 18 Junho 2026 16:53

 

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Adufmat-Ssind

Sexta, 12 Junho 2026 13:16

 

 

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Juacy da Silva*

 

“Lamento constatar que a situação das crianças hoje não melhorou durante o último ano, e também é motivo de profunda preocupação saber da falta de progresso na proteção das crianças contra o perigo. É preciso questionar se os compromissos globais para o desenvolvimento sustentável foram deixados de lado quando vemos em nossa família humana global que tantas crianças ainda vivem em extrema pobreza, sofrem abusos e são deslocadas à força, sem mencionar que carecem de educação adequada e estão isoladas ou separadas de suas famílias.” Papa Leão XIV, Audiência Geral no Vaticano, 05 de fevereiro de 2026.

Por decisão da OIT – Organização Internacional do Trabalho, em 12 de junho de 2022 foi instituído o DIA MUNDIAL DE COMBATE AO TRABALHO INFANTIL, com o objetivo de despertar a consciência internacional sobre a gravidade desta prática criminosa e a necessidade urgente de colocar um fim à mesma, garantindo às crianças e adolescentes uma infância e adolescência dignas e seus direitos fundamentais plenamente respeitados.

Na Assembleia da OIT, naquela ocasião, foi apresentado o primeiro relatório global sobre a situação do trabalho infantil ao redor do mundo sob condições degradantes e criminosas em diversos países, prática esta que requer uma ação imediata em todos os países, tanto por parte dos governantes como também contando com a participação e parceria do empresariado, das Igrejas e das demais entidades representativas da Sociedade Civil Organizada. A omissão diante de uma prática desumana como esta é inadmissível e inaceitável.

No Brasil, esta prática desumana é considerada um crime desde a publicação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, regulamentado pela Lei Federal nº 8.069, que é o principal marco legal do Brasil para a proteção de menores de 18 anos. A legislação adota o princípio da proteção integral e define esses jovens como sujeitos de direitos, definindo, inclusive, a questão do trabalho infantil.

O Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil surgiu com a publicação da Lei nº 11.542, de 12 de novembro de 2007, sancionada pelo então Presidente Lula, em seu segundo mandato, cujo artigo 1º estabelece que “É instituído o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, celebrado anualmente no dia 12 de junho”; sendo que a primeira celebração ocorreu em 2008.

É importante ressaltar, também, que há mais de um século, ou mais especificamente há 135 anos, antes mesmo que a OIT, o Governo brasileiro ou qualquer outra instituição nacional ou internacional se preocupasse com esta grave questão, a Igreja Católica, através da Encíclica Rerum Novarum, durante o Pontificado de Leão XIII, colocou o “dedo nesta ferida” e, desde então, diversos Papas também exortaram tanto os fiéis, principalmente os empresários católicos, quanto a população em geral, mas, principalmente, os governantes, sobre esta prática desumana, que, além de ser um crime, também é considerada um pecado social, de acordo com a Doutrina da Igreja.

Vejamos algumas dessas manifestações de diferentes Papas condenando de forma clara, explícita e corajosa o trabalho infantil.

Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 (que representa os fundamentos básicos da Doutrina Social da Igreja), no item §42, escreveu: "Cesse o trabalho prematuro das crianças", contra o trabalho infantil. Já exigia idade, força, descanso e duração menor da jornada de trabalho, inclusive condições especiais de acordo com as características físicas das crianças e adolescentes.

Também Pio XI, na Encíclica Quadragesimo Anno (1931), reafirma no item 42 e condena "a exploração da infância" como crime e pecado social, insistindo que o Estado deve proteger as crianças e adolescentes, garantindo sua dignidade e seus direitos.

O Papa Francisco, em diversas ocasiões, nos exortou sobre a gravidade desta prática criminosa e pecado social. Na Audiência Geral de 12 de junho de 2013, no início de seu magistério, referiu-se ao trabalho infantil da seguinte maneira: "É um fenômeno que priva meninos e meninas da sua infância e é uma verdadeira forma de escravidão. Milhões de crianças são forçadas a trabalhar, em condições desumanas, vivendo situações de exploração, abuso e discriminação. Isto é uma verdadeira chaga!"

Novamente, por ocasião do Ângelus, em 12 de junho de 2022 (exatamente quando a OIT criava o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil), o Papa Francisco assim se pronunciou: "Crianças exploradas pelo trabalho: centenas de milhões de crianças são obrigadas a trabalhar, privando-as da saúde, da educação e de uma infância serena. Peço que se elimine este flagelo."

E novamente, em pleno 2026, o Papa Leão XIV – ao publicar a Encíclica Magnifica Humanitas – volta a condenar esta prática criminosa ao mencionar no item 173: "Adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras”.

A situação do trabalho infantil no mundo em 2026 ainda é extremamente grave e imoral, executando trabalhos muito próximos às condições de escravidão, causando danos irreparáveis à saúde e impedindo que essas crianças e adolescentes tenham oportunidade de estudar e desfrutar de um padrão e condições de uma vida digna.

Atualmente, em 2026, em pleno século XXI, cerca de 160 milhões de crianças e adolescentes estão sujeitos ao trabalho infantil degradante no mundo. Isso significa que aproximadamente uma em cada dez crianças globalmente encontra-se nessa situação. Metade delas (80 milhões) executa trabalhos perigosos que oferecem risco direto à sua saúde, ao seu desenvolvimento e à própria vida. Se essas crianças e adolescentes representassem a população de um país, ocupariam a 9ª posição mundial, número maior do que a Rússia, país com uma população de 143,4 milhões de habitantes.

No Brasil, apesar de uma redução tênue desta prática absurda, os dados oficiais do IBGE, em 2025, apontam para cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, às vezes sem salário ou em trabalho em condições análogas à escravidão, com destaque para setores como agricultura, trabalho doméstico e comércio.

Tendo em vista que, principalmente nas áreas rurais, o trabalho dos agentes do IBGE é extremamente difícil, com certeza este contingente deve ser muito maior, talvez superior a dois milhões de crianças e adolescentes sendo explorados impunemente.

Estudo publicado pelo TRT – 12ª Região em 2019 detalha o trabalho infantil por setores produtivos: Agropecuária, 1,024 milhão de crianças e adolescentes sendo utilizadas em diversos tipos de atividades, correspondendo a 31% do total, inclusive insalubres e perigosas; comércio, 795,5 mil ou 24%; serviços, 461,4 mil ou 14%; indústria, 356,1 mil ou 11%; serviços sociais e administração pública, 286,1 mil ou 9%; construção, 231,4 mil ou 7%; e serviços domésticos, 175,0 mil ou 5%.

Com certeza, diante desses números, é quase impossível que, em apenas 6 anos, o trabalho infantil tenha sido reduzido como informa o IBGE.

Diante da gravidade do trabalho infantil no mundo todo, a OIT, em parceria com diversas outras organizações internacionais e nacionais, a cada ano define um tema para orientar as celebrações, na verdade denúncias, desta crueldade.

Assim, com o slogan para este ano de 2026 sendo "Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil", o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador (FNPETI), no Brasil, tem disponibilizado os materiais da Campanha Nacional de 12 de Junho de 2026, data que marca o Dia Nacional e Mundial contra o Trabalho Infantil.

A campanha tem como objetivo fortalecer o engajamento de instituições públicas, organizações da sociedade civil, setor privado e cidadãs(os) no enfrentamento ao trabalho infantil e pela proteção integral de crianças e adolescentes, especialmente em um contexto de agravamento das desigualdades sociais.

Apesar dos alertas, campanhas informativas e também das denúncias que chegam aos órgãos de fiscalização, precisamos fortalecer tanto os órgãos de fiscalização quanto aperfeiçoar a legislação em vigor, tornando as penas mais efetivas, incluindo restrições a financiamentos por parte de bancos oficiais. Afinal, não faz sentido o Governo oferecer crédito subsidiado a empresas rurais ou urbanas, ou a produtores que utilizam trabalho em condições próximas à escravidão ou também o trabalho infantil, proibido em lei e considerado um crime.

Em 2025, os órgãos oficiais de fiscalização obtiveram um de seus resultados mais expressivos na última década ao resgatar 4.318 crianças e adolescentes que estavam em situação extremamente degradante, sendo utilizadas como mão de obra barata ou quase escrava. No entanto, o volume de denúncias recebidas, cerca de 7.900, supera a capacidade imediata de atendimento da rede de proteção, requerendo um aumento do número de fiscais desta prática criminosa e também maior celeridade por parte da Justiça quanto à condenação final dos criminosos, muitas vezes tentando passar-se por empresários.

Como parte dos eventos deste Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil, ainda neste mês de junho, nos dias 16 e 17, será realizado o Seminário Nacional de Enfrentamento ao Trabalho Infantil de 2026, que ocorrerá na cidade de Salvador (BA), reunindo especialistas para debater políticas públicas e estratégias de proteção. Com certeza, as conclusões deste seminário e de outros estudos deverão servir de subsídios ao aperfeiçoamento da legislação e das políticas públicas voltadas a este desafio em nosso país.

Um aspecto fundamental que não pode estar ausente nesta discussão ou reflexão é que o trabalho infantil está umbilicalmente vinculado à situação de pobreza, exclusão e miséria em que vivem mais de 19,5 milhões de famílias brasileiras que vivem abaixo da linha da pobreza (renda de até R$ 218 por pessoa). Em termos populacionais, isso representa aproximadamente 48,9 a 53 milhões de pessoas, praticamente um quarto da população brasileira.

O trabalho infantil surge como uma forma ou mecanismo de complementar a renda familiar e, mesmo diante do aviltamento, da precariedade, dos riscos e de a Lei considerar esta prática como crime, essas famílias aceitam, toleram ou até incentivam que crianças e adolescentes trabalhem e até deixem de estudar para trabalhar. Por isso, esta questão exige um olhar mais atento e a definição de políticas públicas para o seu enfrentamento.

Voltando ao ponto inicial, o papel da Igreja. A mesma tem sido uma parceira do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção a Adolescentes, dos Tribunais Regionais do Trabalho e demais organismos públicos.

Também, através de suas pastorais, como a da Criança, do Menor, da Comissão Pastoral da Terra, da Pastoral da Ecologia Integral e do CIMI, tem realizado um trabalho permanente de reflexão, de orientação e prevenção desta prática criminosa.

Além disso, a CNBB, em diversos anos, quando da Campanha da Fraternidade, tem escolhido temas relacionados direta ou indiretamente com o trabalho infantil, como será, por exemplo, em 2027, com o tema “Fraternidade e o Cuidado das Crianças".

A questão do trabalho infantil insere-se perfeitamente no conceito de “economia da morte”, quando o Papa Francisco critica sistemas econômicos que não respeitam nem a natureza, nem os trabalhadores, nem os consumidores e muito menos as próximas gerações.

A lógica e os paradigmas do “deus” mercado, do “deus” lucro, do “deus” tecnologia e do “deus” da guerra precisam ser substituídos pela dignidade humana, pelo respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana e, também, pela garantia dos direitos da natureza, dos trabalhadores, dos consumidores e das gerações futuras.

Só assim estaremos construindo um mundo melhor, justo e solidário, enfim, um mundo realmente humano, onde todos possamos viver com dignidade e paz!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Terça, 09 Junho 2026 10:06

 

 
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Juacy da Silva*

 

“Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro”. Papa Francisco, discurso aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em Roma, 29/10/2014.

“Sustentar uma família de quatro pessoas no Brasil em 2026 exige uma renda muito acima do salário mínimo, segundo estimativas baseadas na cesta básica. Alimentação, aluguel, transporte, saúde, escola, luz, água e pequenos gastos do dia a dia formam uma soma que cresce rapidamente, especialmente quando é necessário atender às necessidades simultâneas de quatro pessoas. De acordo com dados do Dieese divulgados em maio, o salário mínimo necessário para manter uma família desse porte em abril de 2026 seria de R$ 7.612,49, equivalente a 4,7 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. O cálculo considera uma família formada por dois adultos e duas crianças, utilizando como referência a Constituição, que determina que o salário mínimo deve cobrir gastos com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência”. Fonte: Revista Fórum, 02/06/2026. Raony Salvador.

"Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que vocês retiveram com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros (trabalhadores e trabalhadoras) chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." Carta de São Tiago 5:4, sobre a fé e a prática da justiça. Com certeza, este ainda é o mesmo clamor no Brasil de hoje e da grande maioria dos países. É o grito dos pobres e também o grito/gemido da terra, como está na Laudato Si.

Entre os países do G20 (as vinte maiores economias do mundo, entre as quais nosso país ocupa a 10ª posição), o Brasil foi o segundo pior (19º) em desigualdade de renda/salário, riqueza e patrimônio/propriedade, medida através do índice de Gini, onde a África do Sul ocupou a 20ª posição. Isto nos aproxima dos países mais pobres da África, da América Latina e da Ásia, apesar de um certo ufanismo muito próprio de alguns setores econômicos, dos discursos das elites dominantes e dos donos do poder.

Ao longo dos últimos 135 anos, desde a publicação da Encíclica Rerum Novarum pelo Papa Leão XIII, em 15 de maio de 1891, passando pela Quadragesimo Anno, escrita pelo Papa Pio XI em 1931, em meio à grande recessão econômica mundial, seguindo-se a Mater et Magistra, do Papa João XXIII, em 1961, celebrando os 70 anos de publicação daquela Encíclica que representa os fundamentos básicos da Doutrina Social da Igreja, chegando à Centesimus Annus, escrita pelo Papa João Paulo II em 1991, para marcar o centenário da Rerum Novarum e analisar as transformações pós-Guerra Fria, e chegando, finalmente, a Magnifica Humanitas, a primeira Encíclica publicada recentemente, em 15 de maio último (2026), pelo Papa Leão XIV, para celebrar o 135º aniversário da Rerum Novarum, focando nos desafios e impactos da inteligência artificial, a Igreja Católica, através das exortações de seus líderes máximos, que são os Papas, tem se posicionado de forma coerente, firme e corajosamente na defesa dos trabalhadores, exortando a todos e todas de que o trabalho é um direito humano fundamental, como condição de sobrevivência e "progresso" individual e familiar, mas que o trabalho tem que estar embasado na dignidade humana e garantir condições básicas como jornada de trabalho coerente com as necessidades físicas e de descanso, bem como salário justo que possibilite ao trabalhador atender suas necessidades básicas e de sua família.

Assim, a defesa do trabalhador, de condições dignas e salário justo é o único caminho para que os trabalhadores desfrutem de um padrão de vida, de bem-estar e de uma condição necessária para reduzir ou até mesmo eliminar as desigualdades sociais e econômicas existentes em nosso país e ao redor do mundo.

A Igreja no Brasil, através da CNBB, tem se posicionado e orientado em relação a esses desafios através de ações das pastorais sociais inseridas na dimensão sociotransformadora, conforme diversos de seus documentos oficiais.

Por isso, acreditamos que, se tais requisitos não forem cumpridos, mesmo que o trabalho escravo tenha sido eliminado na grande maioria dos países ao longo desses 135 anos, as condições de vida do trabalhador estarão ainda próximas do chamado “trabalho em situação análoga à escravidão”, como ainda existem em um grande número de países.

Outro aspecto importante nesta reflexão sobre a questão central, que é o valor do trabalho e como, em sendo este valor aviltado, o trabalhador jamais deixará sua condição de pobreza, fome, miséria, discriminação e exclusão; razão pela qual a Igreja, ao longo de milênios, tem feito a “opção preferencial pelos pobres” e, através de seu magistério social, apoia a luta dos trabalhadores e trabalhadoras no mundo inteiro e também no Brasil.

Todavia, é importante estarmos cientes de que a maioria das discussões sobre pobreza, fome, miséria e exclusão, que caracterizam mais da metade dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, parece fugir de uma reflexão que demonstre a origem verdadeira: a maior causa dessas desigualdades são o aviltamento e os baixos salários pagos aos trabalhadores ao longo de décadas ou até mesmo séculos.

A abolição do trabalho escravo, longe de fazer justiça plena e garantir a dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras, foi substituída por condições e padrões de vida que estão muito mais próximos das “senzalas”, dos mocambos, do que da “casa grande”. Basta observarmos a precariedade das áreas periféricas de nossas cidades, onde vive a grande maioria da classe trabalhadora.

O trabalho que garanta condições dignas e salário justo é o único caminho que conduz à dignidade humana, à libertação plena e à mobilidade social e econômica; sem isso, os trabalhadores continuarão apenas como o elo mais fraco dos sistemas de produção e de relações de trabalho, contribuindo para gerar renda, riqueza, patrimônio, privilégios e opulência para as “classes abastadas”.

Os trabalhadores que constroem os edifícios, os apartamentos luxuosos, são os mesmos que moram nas favelas, nos cortiços, nas palafitas, enfim, nas periferias urbanas sem as mínimas condições que lhes garantam a dignidade humana.

Ao não identificar a maior causa dessas mazelas, que é o aviltamento dos salários, das aposentadorias e pensões, principalmente o valor do salário mínimo que, legalmente/constitucionalmente, deveria ser “reajustado” tanto em relação aos índices de inflação em geral quanto à manutenção do poder aquisitivo dos salários, cria-se um hiato, um abismo, a longo prazo, entre o valor do salário e seu poder de compra, empurrando o trabalhador para a pobreza, a miséria e a fome.

Desde a sua criação, há quase um século, nos anos quarenta do século passado, por exemplo, o salário mínimo e todas as demais faixas salariais pagas aos trabalhadores foram perdendo poder de compra.

Esta perda de poder de compra do salário mínimo, por exemplo, ao longo de mais de 83 anos, chega em 2026 a 78,2% em relação ao que comprava nos anos quarenta, ou seja, o salário mínimo em 2026 vale apenas 21,8% do valor recebido, em poder de compra, por um trabalhador que ganhava um salário mínimo na década de quarenta.

Costuma-se dizer que a inflação é algo “democrático”, que afeta igualmente todas as classes sociais, mas não é bem assim. A inflação impacta de uma forma mais cruel os trabalhadores, principalmente quem ganha um ou dois salários mínimos, e, neste sentido, ocorre uma transferência de renda dos mais pobres, dos trabalhadores, para a classe alta, a chamada burguesia ou os “donos do poder”. Esta é uma ou a maior fonte da acumulação de capital em poucas mãos, como costuma-se dizer.

Vejamos o caso brasileiro, país que ostenta um dos maiores índices de desigualdades de renda, riqueza e patrimônio do planeta, ocupando a 5ª pior posição entre mais de 200 países e territórios, conforme dados do último relatório da Desigualdade Global, divulgado em dezembro de 2025 pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty, conforme matéria publicada pelo site Poder360, enfatizando que os 10% mais ricos no Brasil concentram 59,1% da renda nacional, enquanto a metade mais pobre detém apenas 9,3% dos recursos.

Mais gritante ainda é o fato de que 1% dos mais ricos detém 26,5% da renda nacional, com uma renda média per capita de 332.335 mil euros, equivalente em PPP – paridade de poder de compra –, comparada com uma renda média entre os 50% mais pobres de apenas 1.167 euros, ressaltando que a origem da renda dos 50% mais pobres advém do salário, enquanto a do 1% tem origem na especulação financeira, no chamado rentismo, praticamente não tributado.

Vale a pena examinar com mais atenção e profundidade este relatório sobre a desigualdade em todos os países, onde podemos perceber que esta desigualdade de renda, a partir do salário, tem cor, raça e classe social, ou seja, os índices de desigualdade afetam de uma forma mais intensa pessoas negras/pretas, mulheres, pobres e indígenas.

Dados também recentes do IBGE e de outras instituições de pesquisas e análises, inclusive de fontes governamentais como o IPEA ou não governamentais como a FGV, vêm demonstrando constantemente que, ao longo de mais de um século, os índices de desigualdade praticamente não têm diminuído.

Vejamos, em 2025, por exemplo, 35,3% dos trabalhadores brasileiros recebiam no máximo até um salário mínimo por mês. Este percentual é um dos principais retratos da desigualdade de renda no país, revelado pelo Censo Demográfico e pela PNADs do IBGE.

Além de ocupar mais de um terço da população ocupada, esses dados do IBGE demonstram outras características importantes da base da pirâmide salarial: gênero e raça. O impacto é ainda maior entre pretos e pardos (onde mais de 43% recebem até um salário mínimo) e indígenas (57,3%).

A concentração de renda/salário não para apenas nesses dados; constatamos que aproximadamente 7 em cada 10 trabalhadores, ou seja, 70% da população ocupada, ganham até dois salários mínimos mensais, e 90% dos trabalhadores recebem no máximo até três salários mínimos mensalmente, sendo que apenas 7,6% dos trabalhadores possuem rendimentos superiores a cinco salários mínimos.

Se a situação salarial dos trabalhadores e trabalhadoras os acorrenta na pobreza, não sendo suficiente sequer para cobrir gastos com alimentação e moradia, quando a Constituição Federal, desde a de 1946, fazendo coro com a legislação trabalhista aprovada em meados dos anos quarenta e, novamente, presente na Constituição Federal de 1988, estabelece que o valor ou poder de compra do salário mínimo deve ser suficiente para cobrir, além dessas duas necessidades fundamentais, também despesas/gastos com saúde, lazer, educação e transporte, quando o trabalhador se aposenta a situação às vezes piora, principalmente porque algumas despesas, como saúde, incluindo medicamentos, aumentam.

É importante sabermos que 70% dos pagamentos feitos pelo INSS correspondem a benefícios de até um salário mínimo. Esse contingente representa a grande maioria dos aposentados e pensionistas que dependem do piso nacional para sua renda básica.

Mais de 80% dos aposentados e pensionistas do INSS recebem no máximo até dois salários mínimos, e em torno de 95% dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem até três salários mínimos. Dados históricos da Previdência Social demonstram claramente esta concentração de renda e desigualdade gritante no Brasil.

Cabe ainda ressaltar que os índices de desigualdade, principalmente de renda/salário, no caso do Brasil, vêm persistindo ao longo de mais de um século, e a tendência é continuar ou até mesmo se agravar no futuro, diante de um modelo econômico excludente, concentrador de renda, riqueza e propriedade/patrimônio, graças, inclusive, a políticas públicas que transformam o Estado brasileiro em sócio e alimentador na acumulação do capital, através de subsídios, renúncia fiscal e um sistema tributário regressivo em detrimento do fator trabalho.

Se o trabalhador não recebe salário sequer para cobrir seus gastos básicos e acaba complementando seu salário/renda através de políticas públicas assistencialistas que distribuem migalhas, gerações e gerações de trabalhadores continuarão acorrentadas na pobreza e jamais terão condições de ter um teto, uma moradia digna para morar; um pedaço de terra para morar e trabalhar; e trabalho digno com salário justo que lhes permita “poupar” alguns trocados.

Costuma-se dizer que a única herança que os trabalhadores, a imensa maioria que vive na pobreza, deixam para seus filhos/filhas são as dívidas, contraídas pela manipulação de um marketing comercial que promove verdadeira lavagem cerebral, empurrando milhões de trabalhadores que recebem salários aviltados a caírem na trama ou malha de agentes financeiros ou agiotas que lhes cobram taxas de juros abusivas, acima de 100%, 200% ou até 300%, empobrecendo-os ainda mais para a pobreza e miséria, um sufoco sem fim.

Discutir e lutar pelo fim da escala 6 x 1 é superimportante, mas, de maneira igual, se não houver uma luta muito grande para recuperar o poder de compra dos salários em geral e principalmente do salário mínimo, os níveis de exploração, opressão e exclusão dos trabalhadores em geral, mas especialmente dos negros/pretos, mulheres, moradores das periferias e indígenas, continuarão sendo a principal causa das desigualdades, da fome e da miséria.

Por isso, lutar pelos três “Ts” do Papa Francisco é fundamental. Se a Igreja proclama com frequência que faz a “opção preferencial pelos pobres”, não pode estar alheia a esta luta, defendendo a Casa Comum, mas também a Reforma Agrária, a agricultura familiar e a agroecologia, a economia solidária, a Reforma Urbana, a Moradia Popular digna, contra os despejos em áreas de ocupação e, claro, por condições dignas de trabalho e salário justo.

Alimentação e moradia digna são direitos fundamentais das pessoas. Se o salário não permite ou não é suficiente para atender esses dois direitos básicos, não resta a quem esteja em situação de carência extrema senão as ocupações e o “roubo famélico”. Esses são desafios próprios da Justiça Social e não meros casos de polícia, como temos observado com frequência.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Quarta, 03 Junho 2026 14:41

 

 

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

“A educação ambiental ampliou seus objetivos. Enquanto no início estava centrada principalmente na informação científica, na conscientização e na prevenção de riscos ambientais, hoje ela tende a incluir uma crítica aos “mitos” de uma modernidade fundamentada em uma mentalidade utilitária (individualismo, progresso ilimitado, competição, consumismo, mercado desregulado). Busca também restaurar os diversos níveis de equilíbrio ecológico, estabelecendo a harmonia dentro de nós mesmos, com os outros, com a natureza e outros seres vivos, e com Deus. A educação ambiental deve facilitar o salto em direção ao transcendente, que confere à ética ecológica o seu significado mais profundo. Ela precisa de educadores capazes de desenvolver uma ética da ecologia integral e de ajudar as pessoas, por meio de uma pedagogia da liberdade eficaz, a crescer em solidariedade, responsabilidade e cuidado compassivo." Papa Francisco, Laudato Si, 2015.

Hoje, 03 de junho, Dia Nacional da Educação Ambiental, não celebramos apenas uma data do calendário ecológico, mas, sim, celebramos os chamados de nosso saudoso Papa Francisco, que nos alertou na Laudato Si' §217 quando disse, textualmente: "Não bastam as normas, sem uma conversão do coração".

Da mesma forma, o Papa Leão XIV, seguindo na mesma direção, insiste que “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário.” Pronunciamento na abertura da Conferência “Espalhando a Esperança”, ressaltando a necessidade de uma conversão ecológica do coração e dos estilos de vida, para atender à urgência das ações diante da crise climática que tanto fustiga o planeta e a humanidade, por ocasião das celebrações dos dez anos da Laudato Si, em 01/10/2025, em Castel Gandolfo.

Neste sentido, a Educação Ambiental é um caminho a ser seguido, um instrumento fundamental na transformação de nossos hábitos de consumo e consumismo, de desperdício, de geração de lixo e tantas outras mazelas que contribuem para a degradação e a poluição do ar, dos solos e das águas e a destruição do planeta.

No Brasil, a Educação Ambiental foi tratada na Lei nº 9.795/99, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental. Conforme seu Art. 1º, entendem-se por educação ambiental (EA) os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e à sua sustentabilidade.

O Art. 2º define que “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal”.

Todavia, a educação ambiental direciona-se também para outros públicos, como gestores e trabalhadores dos setores público e privado, para as empresas, para os movimentos sociais, sindicais, comunitários e, também, para os fiéis de todas as Igrejas e religiões.

Cabe enfatizar também que a Educação Ambiental precisa ter uma dimensão crítica, libertadora, indo também às estruturas políticas, sociais, culturais e econômicas, a partir das quais novos paradigmas devem definir as relações de trabalho e de produção, incluindo, é claro, como os sistemas econômicos se relacionam com a natureza, com o consumo e com o mundo do trabalho, principalmente em vista das profundas transformações científicas e tecnológicas, como, por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) e seus impactos na ecologia integral e no mundo do trabalho.

Voltando à questão dos valores, é importante indagarmos que valores são esses que são o cerne da educação ambiental?

A Política Nacional de Educação Ambiental insiste, também, que “Art. 3º Como parte do processo educativo mais amplo, todos têm direito à educação ambiental” e, ao definir os princípios que devem moldar a educação ambiental, estabelece, na verdade, os valores que a fundamentam.

Vejamos então: Art. 4º São princípios básicos da educação ambiental: I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II - a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III - o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV - a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V - a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI - a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII - a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; VIII - o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural”.

Ao definir os objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental, a dimensão crítica está explicitamente estabelecida. Vejamos os três primeiros desses objetivos: “Art. 5º São objetivos fundamentais da educação ambiental: I - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II - a garantia de democratização das informações ambientais; III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social”.

De forma semelhante, a Igreja, através das Encíclicas e das Exortações de diferentes Papas, tem contribuído para uma melhor compreensão da educação ambiental, no contexto da Ecologia Integral, para a solidificação de valores referentes às relações da humanidade com a natureza (as obras da criação) e também das relações humanas, sociais, econômicas e políticas, insistindo, por exemplo, “que não existem duas crises separadas, de um lado uma crise ambiental e de outro uma crise socioeconômica e política; mas apenas uma única e complexa crise socioambiental”, conforme consta da Laudato Si. A solução passa, necessariamente, pelo cuidado com a natureza, mas também pelo cuidado com os pobres e excluídos, as maiores vítimas deste processo que culmina na crise climática e suas consequências. Neste sentido, não podemos nos referir à educação ambiental sem considerar as dimensões da justiça social, da justiça climática e da justiça intergeracional.

O Papa Francisco resumiu em Roma, em 2014, falando aos Movimentos Populares, que "Terra, teto e trabalho" (frequentemente chamados de "os três Ts") formam um tripé de direitos sagrados e fundamentais para garantir a dignidade humana. Esse conceito tem forte raiz na Doutrina Social da Igreja Católica, tendo sido difundido de forma marcante pelo Papa Francisco e reafirmado por seu sucessor, como em diversos pronunciamentos recentes do Papa Leão XIV em encontros com movimentos populares.

Esta trilogia dos três “Ts” não é slogan de partidos ou movimentos de esquerda ou de movimento sindical. É parte integrante da Ecologia Integral e da Doutrina Social da Igreja e deve ser tratada também como base para uma educação ambiental crítica e libertadora dentro e fora da Igreja.

Por isso, neste dia dedicado à Educação Ambiental no Brasil, a pergunta que nos move é uma só: sobre qual Educação Ambiental estamos falando? A que enfeita relatórios de ESG ou advoga apenas uma maquiagem, como na chamada “economia verde”, ou a que muda hábitos, estilo de vida, estruturas sociais, econômicas e políticas que geram degradação ecológica, exclui os pobres, alimenta a pobreza e estimula o consumismo e o desperdício?

A educação ambiental crítica estimula atitudes que reduzem o consumismo e o desperdício, que estimulam a partilha, a economia solidária, a agroecologia e o respeito aos limites da natureza e aos direitos das gerações futuras. E, neste sentido, seu foco passa do individualismo para a dimensão comunitária, coletiva.

Precisamos refletir que este é um convite para a Igreja, para a escola, para o poder público, para os empresários e para o chão da fábrica, para os camponeses, para os povos indígenas, para passarmos da mera reflexão para ações sociotransformadoras, como recentemente se manifestou o Papa Leão XIV ao dizer, em sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, que o conhecimento deve servir ao bem comum. O saber precisa ser democratizado e usado para "desarmar" as estruturas de desigualdade e exclusão, em vez de se tornar um monopólio de poucos.

Esta exortação do Papa Leão XIV está em perfeita sintonia com a proposta de Francisco, na Laudato Si, ao vincular educação ambiental com espiritualidade ecológica e com o propósito da EA, no contexto de uma proposta mais ampla, que é o Pacto Global pela Educação, ao escrever no Capítulo 6 ("Educação e Espiritualidade Ecológica") sobre a educação ambiental, definindo-a não apenas como conscientização científica, voltada apenas para o intelecto, mas como uma verdadeira mudança de paradigma que deve moldar um estilo de vida sustentável.

Por esta razão, insistimos que a Educação Ambiental deve ser também e, principalmente, objeto das ações evangelizadoras da Igreja, dos cristãos, enfim, dos fiéis de todas as religiões, na dimensão sociotransformadora de nossas relações com a natureza e também de nossas relações econômicas, sociais e políticas em todos os países, inclusive no Brasil.

Como a Igreja no Brasil trabalha as questões socioambientais? A resposta pode ser encontrada nos diversos documentos, como as Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, Magnifica Humanitas e as Exortações Apostólicas Laudate Deum, Querida Amazônia, Dilexi Te, além de diversos documentos, como os de Aparecida e outros mais do CELAM.

Mas é importante também mencionar o Diretório da Pastoral Social da CNBB, Doc. 85, 2007; o "manual" que orienta toda a ação social da Igreja no Brasil, onde aparece a Educação Ambiental, no Cap. III, nº 89-92 - "Dimensão ecológica da caridade". A CNBB afirma: "A caridade cristã, hoje, inclui necessariamente o cuidado com a casa comum. A Educação Ambiental é instrumento privilegiado da evangelização social, pois forma sujeitos capazes de novos hábitos e de transformação das estruturas".

Se a educação ambiental é caridade, a mesma não pode ser considerada apenas uma dimensão assistencialista, como muitas pessoas imaginam. Por exemplo, como conjugar distribuição de cesta básica para famílias que não têm moradia digna e moram ao lado de esgoto e de lixões, sem a mínima dignidade? Será que, neste contexto, educação ambiental, no sentido de mudar hábitos, funciona?

A Igreja reconhece na EA uma dimensão pedagógica da fé e que deve integrar a formação do cristão e a evangelização. Formar novos hábitos e estilos de vida, como preceitua a Encíclica Laudato Si, faz parte das ações pastorais da Igreja e passa a ser um tema transversal que une ciência e religião, fé engajada e caridade libertadora, teologia, sociologia e antropologia.

Outro exemplo: o texto-base da Campanha da Fraternidade de 2025, cujo tema foi a Ecologia Integral, esclarece que a “conversão ecológica (o caminho para mudanças de hábitos e de estilos de vida) deve refletir-se no âmbito comunitário, por meio da promoção da educação ambiental”.

O artigo 13-A da Política Nacional de Educação Ambiental instituiu o Junho Verde, vinculando-o à educação ambiental não formal, ou seja, de difusão ampla e geral, com o objetivo de atingir o público em geral e despertar ou estimular a consciência ecológica/ambiental.

Vejamos: “Art. 13-A. Fica instituída a Campanha Junho Verde, a ser celebrada anualmente como parte das atividades da educação ambiental não formal” - § 1º O objetivo da Campanha Junho Verde é desenvolver o entendimento da população acerca da importância da conservação dos ecossistemas naturais e de todos os seres vivos e do controle da poluição e da degradação dos recursos naturais, para as presentes e futuras gerações. (incluído pela Lei 14.393/2022); § 2º A Campanha Junho Verde será promovida pelo poder público federal, estadual, distrital e municipal em parceria com escolas, universidades, empresas públicas e privadas, igrejas, comércio, entidades da sociedade civil, comunidades tradicionais e populações indígenas, e incluirá ações direcionadas para diversos setores, agentes e assuntos.

Diante dos desafios socioambientais que se agravam a cada dia, desprezar a Educação Ambiental Crítica é reduzir sua importância enquanto instrumento do despertar da consciência ecológica e, ao mesmo tempo, um mecanismo de transformação de hábitos e de estilos de vida, aspectos fundamentais para reduzirmos esta marcha irracional rumo a uma degradação ambiental e destruição dos biomas e ecossistemas.

Como sempre tem dito o Secretário-Geral da ONU, a janela para impedirmos as catástrofes ambientais está se fechando e o tempo para agirmos está ficando mais curto. A hora de agir é agora, e a educação ambiental é fundamental neste processo.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Terça, 02 Junho 2026 15:32

 

 

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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Alair Silveira
Professora e Pesquisadora SOCIP e PPGPS/ICHS/UFMT
Membro GTPFS/ADUFMAT/ANDES-SN


              O II Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas ocorreu no período de 22 a 24 de maio/2026, no campus da Unicamp, em Campinas/SP. Este Seminário – sequência daquele realizado em novembro/2025 – teve como objetivo debater os TRs aprovados sobre o tema nos Grupos Mistos do 44º Congresso Nacional do ANDES-SN (março/2026, Salvador), de forma a subsidiar o 69º CONAD, que ocorrerá entre 02 e 05 de julho/2026, em São Luís/MA.

              O II Seminário, entretanto, não cumpriu integralmente as deliberações congressuais, na medida em que – seletivamente – excluiu o TR 92 do direito de participar da exposição e discussão assegurado aos demais TRs na mesma condição. Organizado sobre cinco Mesas dedicadas às questões organizativas, administrativas, financeiras e políticas, em nenhuma delas os signatários do TR 92 foram convidados a expor o conteúdo do seu Texto-Resolução e, tampouco, a debatê-lo. Questionada sobre as razões pelas quais descumpriu deliberação congressual e subtraiu direito assegurado, a Diretoria Nacional do ANDES-SN silenciou, ignorando os dois pedidos de esclarecimentos feitos por uma das signatárias do TR 92. Ironicamente, o II Seminário foi generoso com a utilização da palavra democracia como ‘princípio’ sindical inarredável!

              Também o estudo detalhado sobre as finanças do ANDES-SN, com projeções sobre o impacto de algumas das proposições aprovadas nos Grupos Mistos do 44º Congresso, não foi feito pela Diretoria, apesar da determinação congressual. Em seu favor, justificou-se pelo excesso de atividades e o curto espaço de tempo entre o Congresso e o II Seminário. Contudo, apesar das justificativas e diante da insatisfação manifesta dos presentes, no transcurso do dia 22 e o dia 24, foi apresentado um estudo preliminar, com algumas projeções de impacto.

              Nestas circunstâncias – e apesar delas – o II Seminário não foi somente prejudicado pela ausência de uma radiografia quanto às seções sindicais (número de filiados, critérios e percentuais de contribuição, arrecadação etc.), mas, também, por projeções agrupadas, que impediram uma análise qualificada e profícua.
              Conforme relatos foram sendo feitos, foi se descortinando um quadro de enormes disparidades entre as seções sindicais, comprometendo qualquer política uniforme que desconsidere as particularidades. Consequentemente, a aprovação do número de 350 filiados como critério para garantir uma política de apoio às pequenas seções sindicais (para participação em eventos nacionais) já se mostrou inadequada.

              Além disto, muitas propostas sugeridas pela Diretoria e/ou apresentadas pelos participantes, evidenciaram um processo de naturalização da cultura empresarial por dentro do Sindicato. Assim, sob a lógica da “otimização” do tempo, ouviu-se intervenções que, há alguns anos, seria impensável: a) “excesso” de TRs que impedem a deliberação nos eventos nacionais (Congressos e CONADs); b) inconveniência política de dividir tempo de intervenção com observadores (que não votam) e o custo que representam (impacto sobre o rateio); c) necessidade de limitar o número de intervenções (talvez a um único bloco); d) avaliar a possibilidade de reduzir tempo para discussão reservado à Análise de Conjuntura; e) aprofundamento da fragmentação política, com existência de muitos Coletivos (em torno de 10), em oposição ao ANDES-SN que, anteriormente, se aglutinava em torno da ANDES-AD; f) aumentar a exigência de 40% de aprovação nos Grupos Mistos para diminuir o número de TRs para Plenária; g) aumentar o número de exigências para apresentação de TR etc.

              Com relação à proporcionalidade eleitoral para composição da Diretoria, percebeu-se um aumento nas intervenções favoráveis ou mais sensíveis à proposição. A proposta com maior número de posições contrárias foi apresentada pelo Coletivo POR, defendendo que a eleição das Regionais tenha como colégio eleitoral os filiados das seções sindicais da Regional.

              No mesmo tópico, a eleição virtual foi defendida a partir de uma concepção cindida de democracia, na qual as discussões, debates e campanha seriam presenciais, mas, a eleição seria virtual, como um ‘momento’ separado do processo. Nesta perspectiva, a eleição estimularia a participação de muitos docentes que não querem participar... afinal, segundo seus proponentes, não somente as seções sindicais conhecem melhor sua base sindical, senão que o ANDES-SN não pode manter uma atitude tecnofóbica, recusando-se a incorporar a conveniência das eleições virtuais. Ainda de acordo com seus defensores, as eleições presenciais representam “gastos mal-feitos”.

              Ao final, sob a métrica da otimização do tempo, a política sindical e a democracia interna parecem cada vez mais incompatíveis pelo tempo que demandam para ouvir, debater e deliberar. Desta maneira, vamos progressivamente nos afastando do Sindicato que construímos para nos aproximar da política que condenávamos. Realmente, são tempos sombrios estes!