Quinta, 16 Abril 2026 15:48

 

 

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

Nunca é tarde para sonhar. Insistir sempre, desistir jamais. Este é o lema, o mantra de quem, como a Pastoral da Ecologia Integral, a Associação Cuiabá Mais Verde e tantas outras iniciativas, pessoas e entidades, como, por exemplo, o Projeto Plantar, articulado há anos pelo Vereador Mário Nadaf, lutam em defesa da ecologia integral, em todas as dimensões, incluindo a arborização urbana de nossas cidades, como em Cuiabá, que já há muitas décadas perdeu a condição de CIDADE VERDE.

Graças à decisão do Governo Federal, na atual gestão, através do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em 13 de março último (2026), através da Portaria GM/MMA nº 1.639, foi aprovado o “marco regulatório” da arborização urbana no Brasil, um passo significativo nesta luta quase que inglória, diante das resistências de inúmeros setores e da omissão generalizada dos poderes públicos estaduais e municipais.

“O Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), instituído pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), tem como objetivos aumentar a cobertura vegetal nas cidades brasileiras até 2045, reduzir as ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar, a qualidade de vida da população das cidades, gerenciar águas pluviais, reduzir os riscos de desastres socioambientais, promover e incrementar a biodiversidade e adaptar os centros urbanos às consequências das mudanças climáticas.”

Após a publicação do PlaNAU pelo Governo Federal, em 16 de março último, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em matéria publicada em seu “site”, esclarece que “o governo federal instituiu o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), criando o primeiro instrumento nacional dedicado exclusivamente à expansão e qualificação da arborização nas cidades brasileiras. O PlaNAU estabelece diretrizes federais voltadas à ampliação e qualificação da cobertura arbórea no meio urbano, com 3 metas, 20 diretrizes e 6 estratégias de implementação”.

Diante disso, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) esclarece e alerta aos gestores municipais que o plano representa uma mudança relevante ao reconhecer a arborização urbana como parte da infraestrutura essencial das cidades.

Nesse sentido, o PlaNAU tem um grande potencial para influenciar diretamente o modo como os Municípios irão planejar o desenvolvimento urbano de seus territórios, ao incentivar a integração da cobertura arbórea em diferentes instrumentos das políticas públicas.

Neste mesmo contexto, também o TCE/MT despertou para seu papel como organismo de controle e orientação das ações públicas de âmbito estadual e municipal, principalmente quanto às competências e responsabilidades dos governantes e gestores estaduais e municipais.

Assim, hoje podemos tomar conhecimento de uma notícia/matéria divulgada pelo TCE/MT, ótima, desde que das intenções, boa vontade e discursos possamos ver tudo isso transformado em realidade, dando um prazo de 180 dias (seis meses), ou seja, até meados de julho próximo (2026), tanto o Estado quanto todos os municípios a elaborarem seus PDAUs – Planos Diretores de Arborização Urbana, enviando-os às Câmaras Municipais e, creio eu, em relação ao Estado, sendo aprovado pela Assembleia Legislativa.

Muita gente ignora ou não percebe que a arborização urbana, nos espaços públicos (ruas, avenidas, parques, áreas de proteção ambiental (APAs) ou áreas de proteção permanente (as APPs), é de responsabilidade dos poderes públicos, no caso, estaduais e municipais.

É dever dos Estados e Municípios “alinharem” os planos estaduais e municipais ao PlaNAU – Plano Nacional de Arborização Urbana, aprovado e transformado em lei e política nacional de arborização urbana, devendo, então, serem incluídos nos respectivos orçamentos públicos, como os PPAs – Planos Plurianuais, a serem aprovados no primeiro ano de cada gestão (municipal e estadual), para vigorarem até o final do primeiro ano da próxima gestão; e também serem incluídos na LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias e na LOA – Lei Orçamentária Anual dos Estados e Municípios.

Só assim tais planos terão suporte orçamentário e financeiro para que as ações necessárias sejam programadas e executadas. Costuma-se dizer que as propostas de ações que não estejam contempladas nas “peças” orçamentárias são promessas vazias ou mentiras oficiais.

Sem que isto seja feito, arborização e tantas outras ações públicas importantes só existem nas conversas fiadas de gestores incompetentes e demagogos.

Para que os PDAUs sejam incluídos nas políticas, programas, projetos e ações governamentais, é imperioso que constem das peças orçamentárias, o que vem sendo tentado em Mato Grosso, principalmente em Cuiabá, há mais de 20 anos, diante de ouvidos moucos e desinteresse de sucessivas administrações municipais e estaduais, para tristeza e decepção da população.

Mais detalhes podem ser obtidos lendo a matéria do TCE/MT ou procurando conhecer em detalhes o que os nobres conselheiros aprovaram e decidiram.

O TCE é um dos órgãos de controle, ao lado do Ministério Público Estadual, mas, por incrível que pareça, demoraram décadas para perceberem que arborização deve fazer, ou faz, parte das políticas públicas de enfrentamento da crise climática e um dos suportes fundamentais para a sustentabilidade ambiental e melhor qualidade de vida da população, principalmente da população urbana, que já representa em torno de 80% da população de Mato Grosso.

Vale a pena refletirmos sobre esta decisão e o empenho demonstrado pelo Presidente do TCE/MT, Conselheiro Sérgio Ricardo, que desde seus tempos de vereador em Cuiabá já lutava por questões ambientais, como, por exemplo, combatendo a degradação do Rio Cuiabá e a questão dos recursos pesqueiros do Pantanal.

Vejamos o que ele diz em relação a esta decisão recente do TCE/MT:

“Estamos atuando de forma preventiva e pedagógica, estimulando soluções estruturantes para os municípios. Cidades mais arborizadas são cidades mais saudáveis, resilientes e preparadas para o futuro”.

Segue o link da matéria/notícia referente à decisão do TCE/MT:

https://odocumento.com.br/tce-da-prazo-para-estado-e-municipios-estruturarem-politica-de-arborizacao-urbana/

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Quarta, 15 Abril 2026 15:58



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JUACY DA SILVA*

 

Bem antes do início da “Era Cristã”, em torno de 700 anos antes do nascimento de Cristo, o Profeta Isaías (32:17) exortava “que a verdadeira paz é fruto da justiça, fraternidade, tranquilidade e segurança duradouras”, destacando a relação direta entre o agir com justiça e colher a paz, tanto em nível pessoal quanto comunitário, nacional e internacional e, também, fruto de ações de governos justos (e democráticos).

Em sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Paz, em 01 de janeiro deste ano de 2026, o Papa Leão XIV foi bem claro, como se diz, “direto ao ponto”, ao dizer (“urbi et orbi”, ou seja, à cidade de Roma e ao mundo inteiro): “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”, e, desde então, as críticas às guerras e a todas as formas de violência, principalmente nas relações internacionais, têm sido constantes e bem assertivas por parte do Líder da Igreja Católica, o que não tem agradado diversos chefes de governos e Estados, como nos EUA e outros países, bem como a todos os setores conservadores das Igrejas e da política.

A escolha/eleição de um novo Papa, líder máximo de mais de 1,4 bilhão de cristãos católicos espalhados por todos os continentes e países, sempre gera muitas reflexões e até mesmo algumas “apostas” em relação à sua “linha”, dimensão teológica, pastoral ou, enfim, seu magistério.

A Igreja Católica, como sabemos, acomoda ou inclui diferentes tendências, desde conservadores extremados, identificados política e ideologicamente com a extrema direita mundial, aqueles que “defendem a vida, lutam contra o aborto”, mas defendem a pena de morte e amam fazer as guerras que tanta destruição, sofrimento e mortes têm causado ao longo da história humana, e também alguns setores mais “liberais” ou até mesmo adeptos da Teologia da Libertação, considerada uma heresia pelos conservadores.

O importante é termos presente que, desde o Concílio Vaticano II (1962–1965), a Igreja abriu-se para uma maior participação de leigos e leigas e, também, reforçou sua “opção preferencial pelos pobres”, e isto não tem agradado os setores conservadores da Igreja em diversos países, incluindo o Brasil, os EUA e outros mais.

Ao longo dos pouco mais de 12 anos do magistério do Papa Francisco (2013–2025), “Aquele” que “veio do fim do mundo”, o primeiro Papa da América Latina, adepto da “Teologia dos pobres”, dos “padres das favelas”, a Igreja aprofundou alguns aspectos das conclusões do Concílio Vaticano II, incluindo a dimensão da ecologia integral com a publicação da Encíclica Laudato Si’ e das Exortações Apostólicas “Querida Amazônia”, após o encerramento do Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia, e também da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28, em 2023. Sobre a gravidade da crise climática, indicou à Igreja Católica, aos cristãos em geral e aos fiéis de outras religiões a importância de bem cuidarmos de nosso planeta, denominado por Francisco como a Nossa Casa Comum.

Além disso, o Papa Francisco reforçou a importância de a Igreja Católica ser uma Igreja em saída, voltada para os pobres e ao lado dos pobres, ao criar, por exemplo, o Dia Mundial dos Pobres, criado em 2016 e a ser celebrado anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum (2026 será em 09 de novembro), ou quando enfatizou os seus três “Ts”: Terra, Teto e Trabalho, considerando, inclusive, que “o gemido da terra é também o gemido, o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”.

Além de ser uma Igreja em saída, em direção às periferias físicas e existenciais, a mesma deve ser sinodal, abrindo-se mais à participação de leigos e leigas e, claro, profética, denunciando as injustiças, a opressão, a violência, a exclusão social, política e econômica, psicológica, principalmente em decorrência das guerras e conflitos armados que tanta destruição material, migrações, sofrimento e mortes têm acarretado e continuam acarretando a dezenas e dezenas de milhões de vítimas inocentes.

Neste contexto, a ênfase na defesa dos direitos humanos fundamentais, como, por exemplo, um tratamento digno aos migrantes, trabalhadores, enfim, um combate intransigente a todas as formas de violência ficou mais clara na caminhada da Igreja sob o magistério de Leão XIV.

A escolha/eleição do Papa Leão XIV ocorreu neste contexto de uma grande transformação provocada na Igreja pelo magistério do Papa Francisco, um intransigente crítico de todas as formas perniciosas e nada éticas de ação no seio da Igreja, incluindo o clericalismo, denominado por ele como uma chaga, enfim, uma forma de mundanismo que danifica a Igreja, incluindo, também, a corrupção no Banco Vaticano e os diversos escândalos de pedofilia e abusos sexuais, que tantos males e vergonha estavam causando à imagem da Igreja.

Foi neste contexto que os conservadores imaginaram ou sonharam com a eleição de um novo Papa mais alinhado às suas posturas teológicas e pastorais e, em um primeiro momento, recaindo a escolha sobre o Cardeal Robert Francis Prevost, norte-americano, naturalizado peruano, com passagem como missionário e, depois, bispo da Diocese de Chiclayo, no Peru, poderia representar uma mudança de rumo em relação ao magistério do considerado “esquerdista” Papa Francisco.

Todavia, desde seus primeiros pronunciamentos e exortações apostólicas, tanto no Vaticano quanto em suas viagens apostólicas, Leão XIV tem enfatizado alguns temas considerados de extrema importância para a vida da Igreja Católica, para os cristãos e para o mundo, reafirmando a necessidade de a Igreja Católica ser “o sal da terra e a luz do mundo”, testemunha viva do Cristo Ressuscitado.

O primeiro deles tem sido uma condenação dura, explícita, frequente e bem corajosa às guerras e conflitos armados, principalmente aqueles promovidos por potências e superpotências dominadoras, cujas consequências têm sido devastadoras, principalmente para milhões de vítimas inocentes, como nas guerras da Ucrânia, contra os palestinos e, ultimamente, contra o Irã, Líbano e, também, algumas guerras civis na África e em outras partes do mundo.

Em lugar das guerras, que representam uma grande estupidez humana, Leão XIV propõe mais diálogos, mais diplomacia e a importância de criarmos uma verdadeira “cultura da paz”, embasada na justiça, justiça social, na solidariedade e no respeito pleno aos direitos fundamentais das pessoas (direitos humanos).

Em relação à justiça social e aos direitos humanos, Leão XIV disse claramente que a própria escolha de seu nome papal é a demonstração de que pretende, ao longo de seu magistério, que, esperamos, seja longo, dar continuidade aos princípios estabelecidos na Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, de 1891, representando a estruturação inicial das preocupações da Igreja com as questões sociais relacionadas com a vida dos trabalhadores, em meio ao confronto entre duas concepções distintas: de um lado o capitalismo selvagem, escravizador, e de outro lado o movimento comunista.

Foi neste contexto que surgiu a Doutrina Social da Igreja e a ênfase na economia solidária, que Leão XIV compromete-se a seguir e aprofundar, como já fez ao publicar a Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), uma exortação iniciada pelo Papa Francisco, complementada e atualizada diante da gravidade da pobreza, da miséria e de outras formas de exclusão que tanto afetam os pobres, uma grande maioria da população, principalmente trabalhadores e trabalhadoras ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

E, por último, mas não sem a devida importância, Leão XIV também tem dado continuidade às preocupações e à luta por uma ecologia integral, com o destino do planeta Terra, Nossa Casa Comum, tendo em vista os desafios da crise climática, da degradação dos biomas e ecossistemas, da perda/destruição da biodiversidade, do desmatamento, com todas as formas de poluição (do ar, das águas e dos solos) que afetam profundamente o planeta e, principalmente, a saúde humana e a qualidade de vida, tanto das atuais quanto, principalmente, das futuras gerações.

Essas preocupações estão presentes, por exemplo, quando Leão XIV define a justiça ambiental como “uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção imediata do ambiente”, defendendo que ela deve ser parte de uma “conversão ecológica” que transforma estilos de vida pessoais e comunitários. Ele enfatiza que o cuidado da casa comum é indissociável da justiça social, de uma justa distribuição dos frutos do crescimento econômico e do desenvolvimento integral e do cuidado com os pobres e, tudo isso, interliga-se umbilicalmente com a luta por uma paz desarmada e desarmante.

Diante do momento atual, em que o mundo assiste, passivamente, aos horrores de tantas guerras, cabe aos cristãos em geral e aos católicos em particular, da mesma forma que fiéis de outras religiões, verdadeiros amantes da paz, não apenas defenderem o Papa Leão XIV em sua luta e caminhada em defesa da paz desarmada e desarmante, construída sobre os princípios e fundamentos de uma cultura da paz, bem como em sua defesa da justiça social, justiça socioambiental e dos direitos humanos, mas também transformar nossas vozes e nossas ações em instrumentos dessas bandeiras empunhadas por ele.

Este é o lado que deve ser escolhido pelos verdadeiros cristãos neste momento tão crítico e delicado das relações interpessoais, nacionais e também internacionais.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Terça, 14 Abril 2026 10:23

 

 

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Juacy da Silva*

 

Em 15 de abril, desde 1990, celebramos, comemoramos no Brasil o Dia Nacional da Conservação do Solo, enquanto em 05 de dezembro é celebrado o Dia Mundial da Conservação do Solo, instituído oficialmente pela ONU, através da FAO (organização da ONU para a alimentação e agricultura) em 2013, ou seja, depois que o Brasil já havia criado seu Dia Nacional da Conservação dos Solos, ambos com os mesmos objetivos, praticamente.

Todavia, bem antes desses dias serem instituídos oficialmente, diversos estudos e pesquisas já tinham sido realizados por inúmeras instituições de pesquisa, universidades tanto no Brasil quanto nos EUA e outros países, demonstrando a importância de melhorar os cuidados com a utilização dos solos, evitando que a degradação, o uso superintensivo, a falta de cuidados técnicos e tecnológicos, como o desmatamento, as queimadas, o uso exagerado de agrotóxicos, a falta de correção, a questão da erosão, possam esgotar a fertilidade dos solos, reduzindo drasticamente a produção e a produtividade dos mesmos.

A falta de cuidado com os solos afeta tanto a produção e a produtividade quanto contribui para o agravamento da fome, da miséria e da subalimentação, gerando crises econômicas, sociais e políticas em diversos países.

Por isso, o Dia Nacional da Conservação do Solo a ser celebrado nesta semana, em 15 de abril de 2026 (quarta-feira), é uma data fundamental para destacar a importância do manejo sustentável, prevenção da erosão e preservação da fertilidade do solo, garantindo a segurança alimentar saudável e a saúde dos ecossistemas brasileiros.

O foco das celebrações neste Dia Nacional da Conservação do Solo em 2026 continua sendo a saúde do solo, agricultura regenerativa, manejo sustentável, aumento da produtividade com conservação, como condições para bem cumprir seu papel no sistema produtivo nacional.

O Dia Nacional da Conservação do Solo no Brasil foi instituído pela Lei .86, em 13 de novembro de 1989, durante o Governo Sarney, por iniciativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e a data foi uma homenagem ao cientista (agrônomo) norte-americano, Hugh Hammond Bennett (1881 – 1960), considerado o “pai” da luta pela conservação do solo e um dos grandes pesquisadores de renome nesta área, reconhecido internacionalmente pelas suas contribuições relevantes.

Ao longo de todos os anos, o Calendário Ecológico nos estimula a refletir sobre aspectos importantes relacionados com a importância de melhor cuidarmos de nosso planeta, que também costumamos denominar de “mãe terra”, Gaia e Casa Comum, onde, como sempre enfatizou o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si e nas Exortações Laudate Deum e Querida Amazônia e tantos outros pronunciamentos ao longo de seu magistério, tudo está interligado.

Considerando, pois, que “tudo, neste planeta Terra, está interligado” e que o “grito e gemido da terra também é o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”, cuidar da ecologia integral, do meio ambiente, de todos os biomas e ecossistemas é um dever e um desafio para a humanidade, pois a degradação, a destruição da biodiversidade e as várias formas de poluição dos solos, das águas e do ar, fatalmente colocam em risco a sobrevivência de todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana.

Por isso é que, pelo menos ao longo de 78 dias e várias semanas destacam diversos momentos que nos estimulam a pararmos um pouco e refletirmos sobre o que está acontecendo ao nosso redor e o que podemos fazer para evitar que este processo de destruição da natureza, em uma busca ávida por resultados imediatos, principalmente o lucro que produz a acumulação de capital, renda, riquezas em poucas mãos e as consequências que recaem sobre a grande maioria da população.

Em mais uma de suas exortações em defesa da ecologia integral, o Papa Francisco falava sobre os paradigmas que sustentam a chamada economia da morte, em que os sistemas econômicos no mundo inteiro, principalmente o capitalismo perdulário e predador, têm contribuído para tantos problemas ecológicos, como o aquecimento global e a crise climática com tantas consequências.

Em lugar da economia da morte, do capitalismo e outros sistemas econômicos, sociais e políticos que não respeitam a natureza, as obras da criação, nem os trabalhadores, muito menos os consumidores e as futuras gerações, precisamos substituir os paradigmas da economia da morte por outros paradigmas de uma economia da vida, baseada na agroecologia, na economia solidária (exemplo da economia de Francisco e Clara) e um maior respeito pela vida.

É neste contexto que a defesa das águas, do solo e do clima torna-se fundamental para a sobrevivência da humanidade, através da produção de alimentos, de matérias-primas e das oportunidades de trabalho.

Cuidar dos solos, garantindo sua fertilidade e capacidade produtiva e reprodutiva, é um desafio que vem sendo colocado ao longo das últimas seis ou sete décadas, tendo em vista o crescimento populacional, a crescente urbanização e o aumento da renda per capita, ensejando um aumento exagerado, diga-se de passagem, das várias demandas e pelo consumismo exacerbado.

Quando falamos em conservação dos solos, precisamos contrapor esta ideia ou preocupação com a realidade dos solos no mundo e em cada país, inclusive no Brasil, principalmente com a questão do avanço da degradação de imensas áreas que estão perdendo ou já perderam totalmente toda a sua fertilidade.

Igualmente, precisamos considerar o avanço da desertificação em inúmeros países, principalmente na África, Oriente Médio, na Ásia e até mesmo na América Latina e do Norte, que afeta profundamente a capacidade de produção, a produtividade e a vida de diversos biomas e ecossistemas.

O tema da conservação do solo é de tamanha importância que a ONU declarou 2015 como o Ano Internacional da Conservação do Solo, tendo como objetivo principal estimular os países a se debruçarem com mais atenção, cuidado e investimentos nesta área.

De forma semelhante, também a ONU, ao estabelecer/instituir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas metas, em 2015, reforçou a necessidade de melhor cuidar dos solos através de alguns ODS, como, por exemplo, ODS 2 Fome Zero e Agricultura Sustentável, demonstrando a relação entre solos bem conservados e o aumento da produção e da produtividade e que a adoção de práticas agrícolas sustentáveis (manejo conservacionista, plantio direto, rotação de culturas), que aumentam a produtividade, ajudam a manter os ecossistemas e fortalecem a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

O ODS 15, Vida Terrestre e suas metas demonstram que o solo é o maior reservatório da biodiversidade do planeta, o seu uso correto e conservação evitam a desertificação, a degradação, a erosão e outras consequências danosas.

De forma semelhante, o ODS 13 Ação contra a mudança global do clima e suas metas demonstram sobejamente que solos saudáveis, bem conservados são ricos em matéria orgânica e atuam como verdadeiros sumidouros que sequestram carbono da atmosfera, reduzindo o impacto das mudanças climáticas, tendo em vista que a degradação dos solos, principalmente fruto de desmatamento e queimadas, aumentam as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera.

Conforme dados recentes da FAO e outras agências e instituições internacionais, em 2025, em torno de 40% da área agricultável do mundo, aproximadamente 1,6 bilhões de hectares, já estavam degradadas, afetando a vida e a subsistência de mais de três bilhões de pessoas.

Anualmente, mais de 100 milhões de hectares de solos férteis se transformam em áreas degradadas ao redor do mundo, afetando tanto a produção de alimentos quanto de outras matérias-primas, gerando um grande impacto econômico, social e político em diversos países.

A situação no Brasil também não é nada animadora, muito diferente da euforia de alguns setores que não se cansam de “exaltar” a capacidade brasileira como “potência agropastoril” e poder alimentar bilhões de pessoas ao redor do mundo.

A realidade da conservação de nossos solos é bem precária, tendo em vista que existem no Brasil, dados de 2025, em torno de 140 milhões de hectares de solos degradados, área esta maior do que a utilizada para a produção de grãos em 2025, em torno de 80 milhões de ha.

Em relação à área ocupada com pastagens, em 2025 totalizavam 180 milhões de ha, dos quais 114 milhões de ha apresentam algum nível de degradação, ou seja, 63,3% do total.

Assim, não se justifica tanta euforia como pode ser vista em diversos setores do chamado agronegócio, os desafios ambientais, principalmente em relação à falta de cuidado com a conservação do solo, acabam impondo um ônus, um peso ao país como um todo; tendo em vista, por exemplo, o custo para recuperação de áreas/solos degradados são praticamente proibitivos, principalmente considerando a escassez de recursos e tantas outras necessidades de investimentos em todos os países.

Tendo por base diversos estudos e estimativas, estima-se que para recuperar essas áreas no mundo seriam necessários em torno de US$ 2,6 trilhões de dólares, ou um bilhão de dólares por dia entre os anos de 2025 até 2030, no contexto da Agenda 2030 da ONU.

Considerando a existência de mais de 140 milhões de hectares de solos/áreas degradadas no Brasil e as metas estabelecidas pelo Governo, até novembro de 2025, apenas 3,4 milhões de hectares haviam sido “recuperados”, a despeito de a meta estabelecida ter sido a recuperação de 12 milhões de hectares até 2030, apesar de que, nas últimas quatro décadas, mais de 111 milhões de hectares de solos férteis foram degradados, ou seja, o processo de degradação tem sido mais rápido em relação à capacidade de recuperação, daí a importância de refletirmos mais profundamente quanto à importância deste Dia Nacional de Conservação do Solo no Brasil.

Estimativas recentes tanto do Governo quanto do setor privado, divulgadas pela Agência Brasil em 09 de agosto de 2025, enfatizavam a necessidade de R$ 31,4 bilhões de reais para a recuperação de 1,1 milhão de hectares de solos/áreas degradadas.

Considerando a existência de 168 milhões de hectares de solos/áreas degradadas até o final de 2025 no Brasil, o custo total para a recuperação deste “passivo” causado pela falta de conservação do solo agricultável em nosso país, o valor a ser gasto neste processo seria de R$ 4,8 trilhões de reais, algo praticamente impossível, diante da realidade orçamentária, fiscal e financeira atual do país.

É fundamental repensarmos este modelo agroexportador e predatório que tem contribuído também para o desmatamento em todos os biomas, principalmente na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e no Pantanal, com o uso superintensivo do solo (sem “descanso”), com uso absurdo/abusivo de agrotóxicos.

Precisamos substituir este modelo atual, destruidor, predatório, por práticas mais racionais como uma agricultura de baixo carbono, uma agricultura regenerativa, baseada na agroecologia, na produção orgânica, na produção mais consciente através da integração agricultura/lavoura, floresta, pecuária, garantindo um melhor cuidado e conservação dos solos e apoio mais efetivo à agricultura familiar.

O Brasil não pode se dar ao luxo de destruir suas florestas, suas águas, seus solos em nome de um projeto de acumulação de capital que beneficia apenas um grupo limitado de barões da economia em geral e do agronegócio em particular, precisamos construir um modelo que respeite o meio ambiente e também os consumidores, os trabalhadores e as futuras gerações, cujos frutos/resultados sejam melhor distribuídos pela sociedade.

Este é um assunto a ser considerado e refletido não apenas pelo empresariado do agro e da pecuária, mas por toda a sociedade, afinal a conservação dos solos é também um assunto de políticas públicas de interesse tanto dos produtores rurais quanto dos consumidores e trabalhadores, enfim, de toda a sociedade brasileira.

Assim, tendo em vista que estamos em pleno período pré-eleitoral, quando iremos eleger toda a “cúpula” governamental do país e dos estados, ou seja, iremos eleger os “eternos donos do poder”, essas reflexões sobre diversos temas ecológicos, como o Dia Nacional da Conservação do Solo, deveriam estar presentes nos debates, nas discussões políticas e partidárias e, também, nos famosos “planos” de governo e nas propostas, às vezes esdrúxulas e mirabolantes, de milhares de candidatos por este Brasil afora.


*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Segunda, 13 Abril 2026 13:53

 

 

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JUACY DA SILVA*

 

Olá amigas e amigos, que maravilha, vejam isto, o INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE publicou a 2ª Edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, 2026, em 18 de março último, é um documento com 119 páginas, excelente, bem documentado, enfim, um acervo de informações valiosas para todas as pessoas e organizações públicas e, principalmente, não governamentais, ambientalistas que fazem parte da caminhada e luta por uma ECOLOGIA INTEGRAL e sustentabilidade, como base de um desenvolvimento nacional com Justiça Social, inclusão e participação democrática.

Como é enfatizado na apresentação e parte inicial da publicação: “O Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026 não é apenas um relatório — é um convite a compreender, com clareza inédita, como o Brasil se organiza e responde à crise climática que vivemos. Em um momento em que eventos extremos deixam de ser exceção e passam a redesenhar territórios, economias e vidas, compreender como as diferentes unidades federativas estão respondendo à crise do clima tornou-se essencial.

O Anuário organiza aquilo que estava disperso, ilumina avanços que precisam ser reconhecidos e revela fragilidades que não podem mais ser ignoradas. Nas próximas páginas, o leitor encontrará dados e evidências estratégicas para decisões públicas mais inteligentes, coordenação federativa mais eficaz e uma transição climática que seja, ao mesmo tempo, ambiciosa, justa e economicamente sustentável. Este Anuário é, antes de tudo, uma ferramenta de inteligência pública. Ele transforma dados técnicos, instrumentos normativos e políticas estaduais em uma radiografia integrada da ação climática nas 27 unidades federativas. Ao reunir informações sobre planos, orçamento, governança, dados setoriais como emissões de mudança de uso da terra, agropecuária, energia, transportes, indústrias e resíduos, além de dados sobre riscos, desastres e ações de adaptação e resiliência em uma mesma plataforma analítica, o documento permite enxergar o Brasil climático como um sistema — e não como fragmentos isolados.”

Diante da destruição passada, presente e tudo leva a crer que, se não barrarmos este processo criminoso, dentro em breve todos os biomas brasileiros, como a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga terão a mesma “sorte” ou azar que tiveram os biomas Mata Atlântica e Pampas, quase que totalmente destruídos ao longo de séculos de ocupação predatória desses territórios.

Estamos nos aproximando das eleições gerais de 2026, quando serão eleitos Presidente, Vice-Presidente da República, Governadores de Estado e do Distrito Federal; dois terços do Senado, a “renovação” total da Câmara Federal e de todas as Assembleias Legislativas, ou seja, a “cúpula” dirigente do Brasil inteiro, Governos Federal e Estaduais.

Este é o momento de nós, CIDADÃOS, CIDADÃS, eleitores e eleitoras, e também, CONTRIBUINTES, exigirmos (afinal a Constituição Federal estabelece textualmente que “TODO O PODER EMANA DO POVO...”) de todos os candidatos, independente de partidos e ideologias aos e às quais estejam vinculados, que as QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS estejam presentes em seus “planos de governo” ou ideário político partidário e institucional.

Defender o meio ambiente e definir políticas socioambientais que respeitem nosso presente e, principalmente, nosso futuro não é favor que os governantes, verdadeiros “donos do poder”, velhos e novos caciques, precisam se comprometer e, depois de eleitos, executarem.

Diante disto, para bem exercermos nossos direitos, já que os nossos deveres, principalmente como contribuintes, o FISCO brasileiro age com bastante voracidade, daí o símbolo da Receita Federal ser um leão, perante os contribuintes e as instituições e órgãos de controle, verdadeiros “gatinhos”, mansinhos diante da corrupção e dos criminosos de colarinho branco em todas as instâncias da vida nacional, repito, daí a importância do conhecimento, verdadeira arma a serviço da cidadania e da democracia verdadeira e não de uma democracia de fachada, como às vezes nos querem fazer crer que tudo se resume apenas ao ato de votar e nada mais!

Vale a pena, pois, consultar, refletir sobre o conteúdo desta importante contribuição que é oferecida gratuitamente a todos nós, inclusive, participantes e agentes da Pastoral da Ecologia Integral, presentes em inúmeros territórios pelas mais diferentes Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades Eclesiais, pelo Brasil afora, onde travamos uma grande luta por um cuidado melhor com nossa Casa Comum, contra a degradação ambiental, contra o desmatamento, as queimadas, principalmente as criminosas, contra a poluição das águas, a destruição dos solos, contra os agrotóxicos, contra a poluição do ar, contra a falta de arborização urbana, contra os plásticos que estão destruindo nossos rios e oceanos, contra o garimpo e a mineração e o uso dos combustíveis fósseis que também estão presentes em nossos biomas e aumentando a gravidade da crise climática que está colocando todas as formas de vida, principalmente da vida humana, em risco no Planeta inteiro e nos diferentes territórios em particular.

Para lutarmos contra tudo isso e muito mais, precisamos aprofundar nossos conhecimentos sobre a natureza da crise climática, de suas causas (já mencionadas) e também de suas consequências, precisamos ampliar e aprofundar nossos conhecimentos, como instrumentos de uma luta continuada e permanente, para, então, pressionarmos os governantes e instituições governamentais, por políticas públicas que atendam às necessidades de uma transformação profunda e radical dos modelos e sistemas econômicos existentes, denominados pelo Papa Francisco de “ECONOMIA DA MORTE”, substituindo seus paradigmas (MARKETING, CONSUMISMO, OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA E DESPERDÍCIO) por outros que facilitem o surgimento e implementação da Economia da vida, como a Economia de Francisco e Clara, baseado na frugalidade, economia circular, na reciclagem, no uso de fontes alternativas renováveis de energia, em um sistema logístico moderno, eficiente e não dependente de combustíveis fósseis, na economia solidária/cooperativismo, na agroecologia, na agricultura regenerativa e outras formas e modelos de relação sociedades/seres humanos x natureza, garantindo a sustentabilidade, a justiça social, a justiça ambiental e a justiça intergeracional.

Grande abraço e sigamos juntos nesta luta, o Planeta Terra e as presentes e futuras gerações nos agradecerão muito,

Atenciosamente, Prof. Juacy da Silva

Segue o link do 2º ANUÁRIO ESTADUAL DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS 2026 que pode ser “baixado” gratuitamente: https://climaesociedade.org/publicacao/anuario-estadual-de-mudancas-climaticas-2026-2a-edicao/

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Terça, 07 Abril 2026 09:35

 

 

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

Por coincidência, 31 de março e 1º de abril de 1964 “caíram” em uma terça e quarta-feira, igual ao calendário deste ano de 2026. Lá se vão 62 anos e muitas lembranças de meus tempos de juventude, calouro, estudante de sociologia e política em São Paulo.

A vida só vale a pena quando temos a capacidade de sonhar e a coragem de nos indignar contra a injustiça, contra a exploração, contra a discriminação, contra o racismo e contra todas as formas de opressão.

I Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, realizado em setembro de 1963, no Recife.

Eu participei deste Encontro histórico da trajetória da Cultura Popular e da Alfabetização de Adultos no Brasil, tive a honra e satisfação de hospedar-me na residência de Paulo Freire, no bairro Casa Amarela, na capital pernambucana. Na época eu tinha apenas 21 anos de idade e era calouro universitário em São Paulo.

Eu estava no primeiro ano do curso de Sociologia, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, e fazia parte da equipe de estudantes da UEE (União Estadual de Estudantes), que foi responsável pela implantação da primeira experiência de alfabetização de adultos, utilizando o Método Paulo Freire, no bairro Helena Maria, em Osasco, São Paulo.

Após havermos absorvido (treinados) o Método Paulo Freire, fizemos a escolha do bairro e, através de visitas, por amostragem, realizamos o levantamento do universo vocabular, que contou com todas as especificidades da língua portuguesa e, a partir deste universo vocabular, utilizando diafilmes que eram projetados através de projetores importados da Checoslováquia e financiados pelo Ministério da Educação e Cultura, partimos para a ação. Foi uma experiência fantástica, realizada como um sonho de jovens universitários e uns poucos professores.

O processo de alfabetização consistia em estimularmos os educandos, através do diálogo, um diálogo sempre “provocador”, em círculos, sobre a realidade vivida pelos alfabetizandos, todos trabalhadores e donas de casa, pessoas pobres e marginalizadas, principalmente por serem analfabetas.

Lembro de um trabalhador da construção civil, de meia-idade, mas que, pelo sofrimento do trabalho que lhe era imposto, parecia bem mais velho do que seu registro de nascimento. Um dia, quando ele já conseguia ler algumas palavras e dar sentido ao que lia, foi-lhe perguntado o que saber ler e escrever significava para ele. A resposta ficou em minha memória como se a experiência fosse hoje e não há 62 ou 63 anos atrás. Disse ele: “antes eu era cego e nada sabia de por que somos pobres e explorados, hoje enxergo sem precisar usar óculos” (sentido figurado do despertar da consciência política e de cidadania).

Lembro que uma das palavras geradoras era TIJOLO, a partir da qual a discussão ocorria na forma de descobertas, a partir das perguntas/provocações, tipo, por exemplo, “como se faz o tijolo”, “para que serve o tijolo”, “quem é o dono dos tijolos”, “quem constrói as casas e os prédios”? Quem mora nos prédios que os trabalhadores constroem?

O diálogo sobre esta realidade ensejava a discussão sobre propriedade privada, economia, moradia, transporte, alimentação, saúde, política nacional de habitação, favelas, os “porquês” das pessoas pobres morarem em casebres enquanto os próprios trabalhadores da construção civil, a grande maioria migrantes nordestinos (aí surgia também a discussão sobre as migrações) do Nordeste para São Paulo; as migrações das áreas rurais para as cidades.

As aulas eram à noite, com duração de duas horas, às vezes se prolongavam um pouco mais. O bairro Helena Maria era uma região bem pobre, com problemas de iluminação pública, falta de saneamento, falta de moradia, ruas de terra batida, pobreza generalizada, como ainda hoje são as periferias urbanas da grande maioria das cidades brasileiras.

O processo de alfabetização, além dos “alunos” aprenderem a ler e a escrever, também despertava a consciência política (conscientização) para as causas da marginalização e exploração em que viviam os trabalhadores e trabalhadoras, tanto em Helena Maria quanto no Brasil inteiro.

A alfabetização, as discussões e os diálogos possibilitavam a expansão do universo mental dos participantes, partiam da realidade local para a regional, para a nacional e para a internacional. Percebiam as inter-relações entre esses diferentes níveis de realidade, de espaços, territórios. Este era um processo libertador.

Os estudantes/monitores eram rapazes e moças, na faixa de 18, 19, 20 ou no máximo 23 anos, todos bem jovens, de vários cursos, de diferentes entidades universitárias, principalmente da USP, e havia também pessoas com diferentes tendências políticas e ideológicas, mas todos e todas se identificavam como sendo de “esquerda”, incluindo estudantes católicos da JUC – Juventude Universitária Católica, depois AP (Ação Popular), evangélicos e alguns que não professavam religião e também do “partidão” (antigo Partido Comunista Brasileiro) e outros grupos políticos e ideológicos.

Com a derrubada do governo Goulart pelos militares, Paulo Freire passou a ser perseguido, veio para São Paulo e depois foi para o exílio. Quanto ao grupo de jovens estudantes universitários que realizaram a experiência de alfabetização de adultos, em 40 horas, com o Método Paulo Freire, no bairro Helena Maria, em Osasco, houve uma dispersão e muitos foram para outras experiências, alguns “caíram” na clandestinidade e de outros nunca mais se ouviu falar; com certeza a grande maioria já partiu para o “andar de cima”.

Conciliar vida universitária, de estudante pobre, que precisava trabalhar (fui cobrador de lojas, vendedor ambulante de bugigangas e, depois, bancário), com participação na política estudantil, no movimento comunitário e na política partidária, toda desfigurada pelos militares, donos do poder, não era nada fácil.

Além da experiência de Helena Maria, também aventurei-me pela política partidária, na luta pela emancipação do pequeno distrito de Jandira, que pertencia ao município de Cotia, na Grande São Paulo. Como secretário da União Pró-Jandira, entidade comunitária, possibilitou-me ser candidato a vereador, sendo eleito e escolhido como primeiro secretário da Mesa Diretora da primeira legislatura do recém-instalado município.

Mesmo desempenhando o mandato de vereador, o movimento estudantil continuava sendo também um foco de minhas ações, mesmo em tempos sombrios como viviam os movimentos políticos que continuavam sonhando com um país desenvolvido, com justiça e igualdade.

Hoje, prestes a completar meus 84 anos, olho (mentalmente) para um passado distante (62 anos), para um Brasil ainda pouco urbanizado, pouco industrializado e pouco soberano, onde trabalhadores urbanos e rurais, donas de casa, estudantes, intelectuais e uma minoria de políticos com mandatos sonhavam com mudanças, com transformações profundas nas estruturas arcaicas, quase coloniais e altamente discriminatórias que marcavam o Brasil naquela época.

Muitos daqueles jovens estudantes, entre os quais eu me incluo e que eram os grandes sonhadores, poucos ainda estão por aí nutrindo e cultivando suas memórias, seus sonhos e suas experiências na luta por um país que imaginávamos fosse melhor do que este Brasil que temos hoje.

Cada pessoa carrega sua própria história, marcada por sonhos, ilusões, decepções, enfim, experiências que marcaram a trajetória percorrida. Quanto mais longa é a vida, a caminhada, mais fugidias vão ficando as memórias, às vezes vislumbradas como uma bruma em um amanhecer que se perdeu no tempo e que não volta mais. Esses são alguns fragmentos de algumas memórias que ainda guardo de um tempo sofrido, de lutas, mas lindo por fazer parte de minha juventude estudantil.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Segunda, 06 Abril 2026 14:30

 

 

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Alair Silveira

Profa. SOCIP/PPGPS. Pesquisadora MERQO/CNPq.

Membro GTPFS/ADUFMAT/ANDES-SN

 

 

            Entre os dias 26 e 29 de março/2026 foi realizada a I Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre/RS. Em tempos tão assustadoramente sombrios, marcados pelo imperialismo bélico e pelo ascenso de movimentos e governos neofascistas, as guerras tradicionais de destruição e barbárie têm substituído quaisquer aparências de mediação através das relações diplomáticas, geridas pelo direito internacional. Como no estado de natureza hobbesiano, a lei do mais forte tem dominado as relações internacionais. E como lobos cruéis, Donald Trump e Benjamin Netanyahu têm se mostrado os mais eficientes e ignóbeis.

            Assim, se em 2022, os conflitos entre Rússia e Ucrânia-OTAN inaugurou a guerra na Europa, em 2023 ela escalou para genocídio contra o povo palestino e avançou para os ataques sionistas e norte-americanos contra o Irã. Neste processo, o imperialismo estadunidense, capitaneado por Trump, tem atuado sem qualquer parâmetro de legalidade, respeito à autodeterminação dos povos e prurido com relação aos interesses que o move. Como uma avalanche que destrói tudo que encontra pela frente, o imperialismo norte-americano e seus parceiros de destruição (por parceria ou omissão e conivência) agora voltam suas energias bélicas, também, para a América Latina.

Da histórica e inaceitável tentativa de inviabilizar a existência de Cuba (tentativas de assassinato, bloqueio econômico, satanização do comunismo cubano e guerras híbridas/psicológicas), os ataques escalaram para o estrangulamento total da Ilha, o sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro e da sua esposa e deputada Cilia Flores, as intervenções nas eleições hondurenhas, as ameaças ao governo colombiano de Gustavo Petros, os ataques às embarcações no mar do Caribe etc. e ao desenvolvimento da operação nomeada Escudo das Américas que, sob a justificativa de combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas, combate a livre-determinação dos povos ao mesmo tempo em que explicita os interesses econômicos aos quais serve.

Não casualmente, neste esforço para assegurar o pseudo combate ao terrorismo e às drogas, dentre os principais convidados para a reunião dedicada a articular a coalizão militar estavam Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador), Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile) e líderes de países como Paraguai, Bolívia, Costa Rica, Honduras, Guiana e Trinidad e Tobago. Deixados de fora pelo primeiro-mandatário norte-americano, Brasil, Colômbia e México, isto é, países que têm atuado de forma mais independente em relação aos interesses dos EUA.

Se na América Latina e no Oriente Médio o quadro é revelador quanto à política imperial que move os governos dos EUA e de Israel, na Europa a situação também é preocupante, não apenas em virtude da inação da OTAN e da maioria dos governos europeus - excetuando-se as posições do governo espanhol -, mas, também, pelo impressionante crescimento da representação política de reacionários e neofascistas nos Parlamentos.

Neste mapa geral, o neofascismo expande-se como forma reacionária de controle e barbárie, entranhando-se nos poros da vida social e dos poderes institucionalizados, corroendo avanços societários e subtraindo direitos consolidados

Foi sob este conjunto de relatos e experiências históricas que a I Conferência Internacional Antifascista consagrou a resistência mundial e, através de delegações de mais de 40 países, latino-americanos, africanos, europeus, estadunidenses e representantes do Oriente Médio fizeram-se presentes.

Com Mesas formadas pela diversidade internacional, análises que conjugaram a realidade mundial com as especificidades nacionais dos palestrantes convergiram para a gravidade destes tempos, assim como para a necessidade de enfrentamento ao neofascismo, ao neoliberalismo, ao imperialismo e à barbárie. Neste sentido, diversas foram as intervenções que apontaram para o equívoco da priorização dos processos eleitorais e ressaltaram a urgência de resgatar o socialismo como alternativa civilizatória.

De modo geral, também comungaram quanto à importância de assegurar governos popular-democráticos para fazer tais enfrentamentos. Daí a importância destacada por muitos dos palestrantes quanto à eleição de Iván Cepeda, na Colômbia, e de Lula, no Brasil, em 2026.

Por fim, cabe registrar a relevância da iniciativa de Porto Alegre que, tal qual há 25 anos atrás, quando inaugurou o Fórum Mundial Social e tornou-se o berço dos militantes por um ‘outro mundo possível’, agora recepcionou delegações de várias partes do mundo para articular o enfrentamento ao neofascismo. De outra parte, também cabe o registro quanto a algumas ausências sensíveis de análises sobre Bolívia, Equador, El Salvador, Paraguai e Peru. De igual maneira, a quase inexistência de referência à ‘classe trabalhadora’, substituída nas intervenções e agitações políticas por “povo”. Paradoxalmente, apesar das muitas intervenções quanto à contraface do neofascismo - isto é, o capital -, o encerramento da I Conferência Internacional Antifascista foi a conclamação: “Povos do mundo, uni-vos!”, olvidando que os ‘povos’ também compõem a classe trabalhadora.

 

 

Quarta, 01 Abril 2026 11:17

 

 

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Publicamos a pedido do professor Aldi Nestor de Souza.

Sr. DIRETOR do Imposto de Renda:

O senhor me perdoe se venho molestá-lo. Não é consulta: é caso de consciência: Considerando o formulário para declaração de imposto de renda algo assimilável aos textos em caracteres cuneiformes, sempre me abstive religiosamente de preenchê-lo. Apenas dato e assino, entregando-o, imaculado, a um funcionário benévolo, a quem solicito: “Bote aí o que quiser”. Ele me encara, vê que não sou nenhum tubarão, rabisca uns números razoáveis, faz umas contas, conclui: “É tanto”. Pago, e vivemos in love, o Fisco e eu. Mas este ano ocorreu-me uma dúvida, a primeira até hoje em matéria de renda e de imposto devido. O bom funcionário não soube resolvê-la, ninguém na repartição soube.

Minha dúvida, meu problema, Sr. Diretor, consiste na desconfiança de que sou, tenho sido a vida inteira um sonegador do Imposto de Renda. Involuntário, inconsciente, mas de qualquer forma sonegador. Posso alegar em minha defesa muita coisa: a legislação, embora profusa e até florestal, é omissa ou não explícita; os itens das diferentes cédulas não preveem o caso; o órgão fiscalizador jamais cogitou isso; todo mundo está nas mesmas condições que eu, e ninguém se acusa ou reclama contra si mesmo. Contudo, não me conformo, e venho expor-lhe lealmente as minhas rendas ocultas.

A lei manda cobrar imposto a quem tenha renda igual ou superior a determinada importância; parece claro que só se tributam rendimentos em dinheiro. A seguir, entretanto, a mesma lei declara: “São também contribuintes as pessoas físicas que recebem rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem.” E aqui me vejo enquadrado e faltoso. Tenho a posse de inúmeros bens que não me pertencem e que desfruto copiosamente. Eles me rendem o máximo, e nunca fiz constar de minha declaração tais rendimentos.

Esses bens são: o sol, para começar do alto (só a temporada de praia, neste verão que acabou, foi uma renda fabulosa); a lua, que vista do terraço ou da calçada da Avenida Atlântica, diante do mar, me rendeu milhões de cruzeiros-sonho; as árvores do Passeio Público e do Campo de Santana, que alguém se esqueceu de cortar, a montanha, as crianças brincando no play ground ou a caminho da escola; as mangas, os chocolates comidos contra prescrição médica, um ou outro uísque sorvido com amigos, na calma calmíssima, os versos de três poetas, um francês, um português e um brasileiro; certos prazeres como andar por andar, ver figura em edições de arte, conversar sem sentido e sem cálculo; um filmezinho como Le petit poisson rouge, em que um gato salva o peixe para ser gentil com o canário, indicando um caminho aos senhores da guerra fria; e isso e aquilo e tudo mais de alta rentabilidade… não em espécie.

Estes os meus verdadeiros rendimentos, senhor, salários e dividendos não computados na declaração. Agora estou confortado porque confessei, invente depressa uma rubrica para incluir esses lucros e taxe-me sem piedade. Multe, se for o caso; pagarei feliz. Atenciosas saudações.


Carlos Drummond de Andrade em Cadeira de balanço: crônica, 15. ed, Rio de Janeiro. J. Olympio, 1984. pp 35-36.

Sexta, 27 Março 2026 17:03

 

 

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JUACY DA SILVA*

 

Lixo Zero deve ser uma bandeira da verdadeira cidadania ecológica e a chave para uma economia da vida em substituição à Economia da Morte, como atualmente acontece, para dar lugar à Economia de Francisco e Clara, como tanto nos recomendou o Papa Francisco ao longo de seu magistério.

“A terra, nossa Casa Comum, parece transformar-se, cada vez mais, num imenso depósito de lixo. Os resíduos industriais, como os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos, produzem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes... Muitas vezes só se adotam medidas corretivas quando já se produziram efeitos irreversíveis na saúde (e na vida) das pessoas.” Papa Francisco, Laudato Si, 24 de maio de 2015.

“O mundo está sendo inundado por lixo plástico. Se as tendências atuais continuarem, em 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes, por isso é urgente o combate a todas as formas de poluição. O mundo deve se unir para vencer a poluição por plásticos.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, pronunciamento por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, junho de 2018.

Tendo em vista a gravidade da poluição e da degradação ambiental produzidas pela geração de resíduos sólidos/lixo em todos os países e os impactos econômicos, sociais e políticos, com índices muito superiores ao crescimento demográfico, à urbanização e ao crescimento do PIB mundial, a ONU, em sua Assembleia Geral de 14 de dezembro de 2022, proclamou que, anualmente, 30 de março passaria a ser considerado o DIA INTERNACIONAL DO LIXO ZERO.

A primeira celebração com o aval da ONU e de inúmeros países ao redor do mundo aconteceu em 2023, abordando os impactos do aumento acelerado da geração de lixo e a falta de um cuidado melhor tanto na economia quanto na saúde humana.

Em 2025, o tema que serviu de base ou foco das celebrações foi "Rumo ao desperdício zero na moda e nos têxteis", destacando a necessidade de sustentabilidade na indústria têxtil.

Em 2026, o tema do Dia Internacional do Lixo Zero é “Reduzindo o desperdício de alimentos”, para combater a degradação ambiental, as mudanças climáticas e aumentar a segurança alimentar, tendo como slogan “Lixo zero começa em seu prato”.

Todavia, o movimento pela redução da geração de resíduos sólidos e os vários tipos de lixo teve início nos Estados Unidos bem antes de a ONU criar oficialmente um dia especial para conscientizar a população mundial e também os vários níveis de governo e as empresas a investirem mais em reciclagem e na economia circular, dando mais “vida” aos produtos através do reaproveitamento do que aparentemente não tem mais utilidade, mas que, no contexto da economia circular, onde a reciclagem é um passo importante, torna-se matéria-prima para novos produtos, reduzindo, assim, os impactos negativos que o aumento da geração de lixo impõe ao planeta e à vida humana principalmente.

O movimento Lixo Zero teve início na década de 1970, na Califórnia, EUA, mas só ganhou força a partir dos anos 90, quando se espalhou pelo mundo. No Brasil, a iniciativa começou a se popularizar na década de 2000, com a publicação do livro “Lixo Zero: a Revolução da Reciclagem”, de Bea Johnson.

Em 2010 foi fundado o Instituto Lixo Zero Brasil, uma organização sem fins lucrativos que promove a disseminação do conceito no país através de cursos, workshops, seminários, palestras e consultorias.

Outro marco significativo ocorreu em 2015, quando a ONU estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030, para orientar a definição de políticas públicas nos diversos países, visando a sustentabilidade como fundamento básico dos sistemas econômicos que respeitem a natureza (“recursos naturais” finitos), respeitem os consumidores (reduzindo o marketing que estimula um consumismo desenfreado e um desperdício sem limites), respeitem os trabalhadores e também respeitem as futuras gerações, considerando que o planeta Terra tem um limite e não “aguenta” uma exploração irracional como acontece com os atuais sistemas econômicos. Este limite é denominado “ponto do não retorno”.

A economia circular, da mesma forma que a economia solidária e a agroecologia, combatem essas distorções dos atuais sistemas produtivos e de consumo. Esses foram os fundamentos dos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), principalmente o número 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, buscando tornar as cidades seguras e sustentáveis, em que a questão da geração, tratamento e gestão dos resíduos sólidos é uma dimensão super importante, e também o ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, buscando garantir padrões de consumo e produção sustentáveis, principalmente ao estimular uma redução do consumismo e do desperdício, que são os fatores determinantes na produção de lixo e, também, uma ênfase na economia circular.

A economia circular, além de reaproveitar o que é descartado pelas empresas e pelas famílias, transformando “lixo” em matéria-prima para novos produtos, também estimula uma mudança dos hábitos de consumo e estilo de vida perdulários e do desperdício.

Anualmente o mundo perde em torno de 200 bilhões de euros, ou R$ 1,2 trilhão, por não reciclar e reaproveitar produtos e materiais que podem ser reciclados, e no Brasil, conforme matéria do site Sustentabilidade Brasil de 12/08/2024, este “prejuízo”, por deixar de reciclar, é de R$ 120,0 bilhões anualmente, um volume superior, quase o dobro do destinado, por exemplo, para a agricultura familiar pelo Governo Federal em 2024, que foi de R$ 64,9 bilhões.

Todo este movimento decorre da gravidade da situação do “lixo”, resíduos sólidos no mundo, em que os padrões de consumo, principalmente nos países desenvolvidos, estão colocando em risco a vida do e no planeta.

Só para termos uma ideia, em 1970, a geração de lixo foi de 0,64 bilhão de tonelada (ou seja, “apenas” 640 milhões de toneladas/ano), passou para dois bilhões de toneladas em 2020, com previsão de chegar a 3,8 bilhões de toneladas em 2050, ou seja, um crescimento de 212,5% entre 1970 e 2020, e 90% entre 2020 e 2050.

Entre 1970 e 2050, ou seja, em menos de um século, o aumento do volume da geração/produção de lixo deverá ser de 493,75%. Neste mesmo período, o crescimento da população mundial foi de “apenas” 164,9%, ou seja, menos da metade do aumento da geração de lixo.

Em termos de produção de lixo per capita ao ano, também podemos observar este crescimento “exponencial”. Em 1970 cada habitante do planeta, em média, produzia 172 kg, ou seja, 0,47 kg (menos de meio quilo por dia), passou para 256 kg ao ano em 2020 (0,70 kg/dia) e a previsão é de que em 2050 a produção per capita ao ano seja de 388 kg, um pouco mais de 1,06 kg/dia, um crescimento de 225,5% entre 1970 e 2050.

No entanto, esses indicadores representam uma “média” mundial e não refletem a diferença quanto à produção de lixo entre países desenvolvidos, principalmente da Europa, América do Norte e alguns países asiáticos, e países de outros continentes, de menor renda per capita e de PIB nacional, como na África, a maior parte da Ásia e América Latina e Caribe.

Os dez países que mais produzem lixo são os seguintes: Estados Unidos, que lideram em volume total e lixo plástico; China, que é o maior produtor de lixo plástico e eletrônico; Índia, que ostenta um alto volume devido à população, a maior do mundo atualmente; Brasil, que é o 4º maior produtor mundial de lixo em geral e em lixo plástico em particular, apesar de ser a 10ª maior economia do planeta; e depois vêm a Indonésia, a Rússia, a Alemanha, o Reino Unido, o Japão, que também é um dos líderes mundiais na produção de plásticos, e a Arábia Saudita, que também tem uma grande produção de lixo e de resinas plásticas.

Os dez países que mais produzem lixo são responsáveis por mais de 70% de todo o lixo gerado no mundo em 2025, com média de mais de 1,3 kg per capita/dia, bem acima da média mundial, demonstrando que, da mesma forma que são os maiores poluidores em geral, também são os maiores geradores de lixo, principalmente lixo plástico e, mais recentemente, lixo eletrônico.

Apesar da gravidade da situação do lixo na grande maioria dos países, a presença da economia circular e os índices médios de reciclagem são bastante variáveis. Por exemplo, a Europa Ocidental apresenta um índice de 56% de reciclagem; a América do Norte (que inclui Canadá, Estados Unidos e México) a reciclagem fica em apenas 37%; a América do Sul recicla apenas 6% do lixo produzido; e o Brasil, apesar de ser o quarto maior produtor de lixo, só recicla 4%, bem abaixo da média dos países desenvolvidos e até mesmo da média mundial de reciclagem, que em 2025 foi de 6,9%. Isto demonstra que ainda estamos muito aquém de uma gestão correta e recomendável dos resíduos sólidos, principalmente de plásticos.

De acordo com dados recentes do Ministério das Cidades (SINISA, 2024), apenas 1.300 cidades, ou seja, 36,7% dos municípios brasileiros, tinham coleta seletiva e reciclagem. Em termos de população, apenas 22% dos habitantes do país são atendidos por reciclagem e coleta seletiva.

O panorama é bem variável e distinto entre as regiões. Na Região Norte, apenas 23 cidades têm reciclagem, ou seja, 5,9% das cidades e 4,8% da população; na região Nordeste, 124 cidades, apenas 9,4% dos municípios e 4,4% da população; já na Região Sul, 516 cidades, 46,1% dos municípios têm reciclagem; na Região Sudeste, são 543 cidades, 36% dos municípios e 44,6% da população; finalmente, na Região Centro-Oeste, apenas 94 cidades têm reciclagem, o que representa 22,3% dos municípios e 45,5% da população.

Mais da metade das cidades com 100 mil habitantes ou mais, incluindo diversas capitais, como Manaus, Belém, Cuiabá, Porto Velho e outras, ainda continuam destinando o lixo para lixões a céu aberto ou incinerando, apesar da lei que regulamenta a questão dos resíduos sólidos ter sido aprovada em 2010.

O marco dos resíduos sólidos no Brasil, conhecido como Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), foi aprovado e sancionado em 02 de agosto de 2010. Instituída pela Lei 12.305, essa legislação define diretrizes, obrigações e metas para a gestão de lixo no país, incluindo a responsabilidade compartilhada.

Diante desses números e indicadores, percebemos a importância de um Dia Internacional do Lixo Zero, para possibilitar uma reflexão mais crítica e construtiva em relação a esta questão e, ao mesmo tempo, pressionar os governantes para que definam e implementem políticas públicas voltadas para os problemas e desafios socioambientais, inclusive em relação aos resíduos sólidos/lixo, envolvendo poderes públicos, empresariado, as diversas organizações não governamentais e a população em geral.

De leis, regulamentos, estudos e discursos sobre questões ambientais e em relação ao lixo, o Brasil e diversos países já estão “cheios”; faltam, na verdade, ações concretas, pois somente as ações transformam a realidade!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram: @profjuacy

Terça, 24 Março 2026 10:52

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato

para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.

Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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Juacy da Silva* 

 

“Conhecereis a verdade e ela (a verdade) vos libertará”. Evangelho de São João 8:32.
“Recordemos sempre: a espiritualidade precisa desse olhar para o qual o estudo da teologia, da filosofia e de outras disciplinas contribui de modo especial. Tornamo-nos hoje especialistas em detalhes infinitesimais da realidade, mas incapazes de alcançar uma visão de conjunto, uma visão que una as coisas por meio de um significado maior e mais profundo. A experiência cristã, ao contrário, quer nos ensinar a olhar a vida e a realidade com um olhar integrador, capaz de abarcar tudo e rejeitar qualquer lógica parcial”. Papa Leão XIV, Encontro com Alunos e Dirigentes de Universidades Católicas, Vaticano, 28/10/2025.

 

O Papa Leão XIV enfatiza também o papel central dos leigos e leigas, fundamentado no "sacerdócio batismal", destacando a importância da sua formação e conhecimento para a missão da Igreja. Ele incentiva a qualificação dos fiéis, especialmente na liturgia, e o engajamento na doutrina social da Igreja e na transformação do mundo.

 

Pontos-chave sobre o conhecimento para leigos segundo Leão XIV:

 

Sacerdócio Batismal: Todos os batizados têm um papel ativo na Igreja, não sendo apenas espectadores, mas continuadores da missão e da doutrina social da Igreja.

 

Formação Litúrgica: Leão XIV encorajou institutos, como o Pontifício Instituto Litúrgico, a qualificar ministros e fiéis, pois a liturgia forma o coração da Igreja.

 

Conscientização Social: O conhecimento deve ser voltado para a ação, incluindo o cuidado com a criação, desenvolvimento sustentável (ecologia integral) e a justiça social.

 

Diálogo e Missão: O Papa incentiva os leigos a serem construtores de pontes por meio do diálogo e da vivência da fé no cotidiano.

 

A ênfase de Leão XIV está em uma Igreja sinodal, profética, onde a formação dos leigos é essencial para a evangelização e a presença ativa na sociedade.

 

O conhecimento é muito importante em todas as atividades humanas e não é diferente quando se trata da formação de agentes de todas as pastorais, movimentos e organismos da Igreja, leigos e leigas engajados em uma caminhada sociotransformadora.

 

O papel do laicato na Igreja, principalmente a partir do Concílio Vaticano II, tem sido cada vez mais importante, principalmente na dimensão sociotransformadora, capacitando os e as agentes de pastoral nas três dimensões fundamentais de todas as ações pastorais: a espiritualidade libertadora; as ações sociotransformadoras, propriamente ditas; e a mobilização profética, tendo em vista que, além de sermos cristãos, católicos ou de outras religiões, também somos cidadãos e cidadãs e contribuintes e, como tais, temos o direito e o dever de propugnarmos por políticas públicas voltadas para um melhor cuidado da Casa Comum, a ecologia integral e também os princípios da dignidade humana e da justiça social.

 

Diante disso, elaboramos, pela segunda vez, uma relação de sugestões de leitura, enfim, uma bibliografia, para que sirva como fundamento de nossas ações e também no aprofundamento individual e coletivo, facilitando, assim, a caminhada da Pastoral da Ecologia Integral, tanto em nossa Arquidiocese de Cuiabá quanto em outras dioceses, tanto onde a PEI – Pastoral da Ecologia Integral esteja organizada quanto em outras arquidioceses, dioceses, prelazias e paróquias onde a nossa pastoral ainda não esteja presente, mas que, imaginamos, deva também inserir-se na dinâmica da vida da Igreja.

 

Finalizando, gostaria de relembrar as palavras do nosso saudoso Papa Francisco quando disse: “A Igreja precisa dos leigos e leigas, por isso é importante formar leigos para que eles desempenhem seu papel com seriedade e competência na Igreja, além de também promoverem ações pastorais”. Assembleia Plenária do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Vaticano, 08/02/2024.

 

Atenciosamente, um grande e afetuoso abraço,
Cuiabá, 24 de março de 2026

 

Prof. Juacy da Silva, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. e WhatsApp: 65 9 9272-0052.

 

Bibliografia sugerida para uma melhor formação dos agentes da Pastoral da Ecologia Integral – PEI e de outras pastorais sociais, movimentos e organismos da Igreja.

 

Segue-se o elenco das referências bibliográficas sugeridas:

 

  1. Encíclica Laudato Si, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2015.
  2. Exortação Apostólica Querida Amazônia, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
  3. Exortação Apostólica Laudate Deum, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2023.
  4. Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral – Instrumentum Laboris, Edições Paulinas, 2019.
  5. Ecologia Integral: o sagrado e o bem viver dos povos, Caderno 5 – 6ª Semana Social Brasileira, CNBB.
  6. Mutirão por Terra, Teto e Trabalho: Território, direitos sociais e cidadania, Caderno 4 – 6ª Semana Social Brasileira – CNBB.
  7. Todos somos discípulos e missionários – Papa Francisco e o Laicato, Edições Paulinas, 2017.
  8. Ecologia: Vida ou morte?, J. B. Libanio, Paulus Editora, 2010.
  9. Cuidar da Casa Comum – Chaves de leitura teológicas e pastorais Laudato Si, Afonso Murad e Sinivaldo Silva Tavares (org.), Edições Paulinas, 2016.
  10. Ecologia e Decolonialidade: implicações mútuas – Senivaldo Tavares, Edições Paulinas, 2022.
  11. Evangelização nas Cidades: Raízes na Teologia do povo, Dom Edson Oriolo, Paulus Editora, 2019.
  12. O Solo Urbano e a urgência da Paz, Doc. 109, Estudos da CNBB, 2016.
  13. Doutrina Social da Igreja: Economia, trabalho e política – Teologia do Papa Francisco, Elio Estanislau Gasda, Edições Paulinas, 2018.
  14. O Evangelho Social – Manual Básico da Doutrina Social da Igreja, Elvis Rezende Messias e Dom Pedro Cunha Cruz, Paulus Editora, 2020.
  15. Doutrina Social da Igreja – Outro Mundo possível, Altierez dos Santos, Luiz Alexandre Solano Rossi, Paulus Editora, 2024.
  16. Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação e Missão. Papa Francisco, XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Edições Paulinas e Paulus Editora, 2025.
  17. Direitos Humanos e Doutrina Social da Igreja – Da Globalização da indiferença à Globalização da Solidariedade, Rosana Manzini e Ronaldo Zacharias (orgs.), Paulus Editora, 2022.
  18. Doutrina Social da Igreja – Um Guia Prático para Estudo, Pe. Antonio Aparecido Alves, Editora Vozes, 2014.
  19. Magistério e Doutrina Social da Igreja – Continuidade e desafios, Ronaldo Zacharias e Rosana Manzini, Edições Paulinas, 2016.
  20. Catequese e Ecologia – Espiritualidade ecológica e catequese responsável, Luiz Alexandre Solano Rossi e Érica Daiane Mauri, Paulus Editora, 2019.
  21. Catequese Socioambiental – Itinerário de formação com catequistas para a consciência do cuidado com a Casa Comum, Ivanilde Sampaio et al., Paulus Editora, 2025.
  22. Laudato Si no pensamento social da Igreja: da ecologia ambiental à ecologia integral, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2018.
  23. Casa Comum ou globalização da indiferença? Ensaios sobre ecologia integral, fraternidade, política e paz, Paulo César Nodari, Paulus Editora, 2022.
  24. Ecologia e Democracia – Múltiplos olhares, Afonso Murad et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
  25. Pensamento Ecológico – Reflexões críticas sobre meio ambiente, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, Vilmar S. Demamam Berna, Edições Paulinas, 2005.
  26. Ecos Ecológicos – Uma jornada em defesa do meio ambiente, Luizinho Bastos, Edições Paulinas, 2007.
  27. Sustentar a Vida, Renato Ribeiro, Edições Paulinas, 2011.
  28. Nosso Planeta, Nossa Vida – Ecologia e Teologia, Luiz Carlos Susin e Joe Marçal G. dos Santos (orgs.), Edições Paulinas, 2011.
  29. Realmar a Economia – A economia de Francisco e Clara, Eduardo Brasileiro (org.), Paulus Editora, 2023.
  30. O Método Ver–Julgar–Agir: Da ação católica à Teologia da Libertação, Agenor Brighenti, Editora Vozes, 2022.
  31. A Igreja em transformação: razões atuais e perspectivas futuras, Mario de França Miranda, Edições Paulinas, 2019.
  32. Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas, Cesar Kuzma et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
  33. Igreja dos Pobres – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2018.
  34. Igreja Sinodal – Teologia do Papa Francisco, Mário de França Miranda, Edições Paulinas, 2018.
  35. Igreja em Diálogo – Teologia do Papa Francisco, Elias Wolff, Edições Paulinas, 2018.
  36. Pobres para os Pobres: A missão da Igreja, Gerhard Ludwig Muller, Edições Paulinas, 2014.
  37. Ao Lado dos Pobres – Teologia da Libertação, Gerhard Ludwig Muller e Gustavo Gutiérrez, Edições Paulinas, 2014.
  38. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo, César Kuzma, Paulus Editora, 2009.
  39. Organizações populares – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2009.
  40. Encíclica Dilexit Nos, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2025.
  41. Exortação Apostólica Dilexi Te, Papa Leão XIV, Paulus Editora, 2025.
  42. Utopias do Vaticano II: Que sociedade queremos?, União Marista do Brasil, Edições Paulinas, 2013.
  43. Em que o Vaticano II mudou na Igreja, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2016.
  44. Revisitar o Concílio Vaticano II, Dom Demétrio Valentin, Edições Paulinas, 2011.
  45. O Laicato na Igreja e no mundo: um gigante adormecido e domesticado, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2019.
  46. Laicato: Vocação e Missão, Dom Orlando Brandes, Paulus Editora, 2018.
  47. Encíclica Fratelli Tutti, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
  48. IV Encontro da Igreja na Amazônia Legal – 50 anos do Encontro de Santarém (1972–2022), Edições CNBB, 2022.
  49. A desafiante proposta de Aparecida, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2008.
  50. Pastoral da Ecologia Integral: Por uma Igreja sustentável, comprometida com a defesa da vida e da Casa Comum, Pe. José Carlos Pereira e Rodrigo Cerqueira do Nascimento Borba, Edições CNBB, 2016.

 

 

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. 
E- mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

 

 

Sexta, 20 Março 2026 18:35

 

 

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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 Juacy da Silva* 

 

Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.

Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então, em 21 de março, com o objetivo de despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem-estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.

Sem florestas, os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores, como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.

As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que são produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.

Com a destruição das florestas, seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeito estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” embaixo das florestas são liberados, contribuindo ainda mais para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.

Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e, mais ainda, a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.

No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas. Demorou e ainda está demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário, percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão, têm um impacto profundo não apenas na economia, mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.

De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso país até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não têm mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.

Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas pode ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.

O desmatamento, queimadas, áreas degradadas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que têm florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.

Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de hectares de florestas nativas.

Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, a destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.

O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas, como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrâneas, como os aquíferos, são afetadas drasticamente, contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil, que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.

De forma semelhante, a questão da água ou das águas tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.

Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra, é que, por resolução da ONU, foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então, a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.

Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação à questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.

Tendo em vista tanto o desmatamento quanto as queimadas e a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água, que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação da qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.

Quando refletimos sobre a questão da água, não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.

Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso à água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 agosto 2025).

Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.

Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes têm considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas às leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.

Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.

Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural, o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.

Em relação à água tratada, potável e de qualidade, a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais de 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos, que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.

A falta de acesso à água potável, tratada, tem causado a morte de 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de COVID-19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.

De forma semelhante, também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.

Em 2024, no Brasil, por exemplo, mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados à falta de saneamento, à falta de água tratada, causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.

Tanto em relação ao desmatamento quanto às queimadas, à destruição das nascentes, à erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área, o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Paris.

Em relação às questões da água e do saneamento básico, a situação também não é nada animadora. Alguns estudos indicam que, se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas forem mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Até lá, centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos, vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.

Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, como sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. 
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