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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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Em 2002, semanas antes de Lula ter sido eleito presidente da República pela primeira vez, defendi uma tese na Eca/USP sobre a campanha eleitoral de 89, quando o ex-operário/ex-sindicalista perdera o pleito para Collor, um empresário da comunicação e declarado representante das elites. Assim que os trabalhos da minha defesa foram encerrados, um dos docentes da banca examinadora, que, por coincidência, era assessor de Lula na campanha eleitoral então em curso, me perguntou se, em caso de vitória petista, minha tese teria a mesma aplicabilidade.
Sim. Respondi.
O professor, doravante, identificado por K, sem se despedir de ninguém, retirou-se da sala, não me deixando sequer explicar que o meu “sim” tinha como lastro e ponto de partida a “Carta ao Povo Brasileiro”, assinada por Lula, em junho/2002, assegurando que, em caso de sua vitória, os contratos nacionais e internacionais seriam respeitados. Leia-se: submissão às cartas dadas pelo capital.
Assim, sem nunca atrapalhar interesses das elites e, como contrapartida, para o povão, oferecer políticas compensatórias, como as cotas, p. ex., que jamais mexerão em estruturas sociais, Lula, com as benções e (a)braços do status quo, foi eleito por mais duas vezes; agora, almeja o quarto mandato. Sendo assim, ao invés da esperança, na verdade, foi aquela assinatura – que continua a ter valor de “palavra empenhada”, bem como ter tido como seu vice um empresário (José Alencar) – o que, de fato, venceu o medo. O resto é material pra jingle de campanha ou para algum novo samba-enredo no porvir.
Mas por que o professor K me fez aquela pergunta, já fora da arguição?
Penso que esperava por uma resposta negativa que o mantivesse crendo no PT e em seu mito mor, prestes a se tornar, como de fato ocorreu, presidente da República.
De minha parte, o que defendi que instigou a curiosidade política de K?
Começo respondendo pelo título de meu trabalho: “A Revista Veja na Campanha Eleitoral de 1989: anúncios publicitários como extensão de textos jornalísticos”.
Para contextualizar, o motivo desse meu trabalho surgiu por conta de um anúncio da Philips, em Veja de 30/04/86, ano do início da Constituinte/88. Ali, apresentava-se a lâmpada a vapor sódio (Son Phillips). Em seu título, à lá fake news de bolhas hodiernas, sem nenhum dado concreto, lia-se: “O prefeito da esquerda gasta mais que o da direita”.
No texto explicativo do “produto lâmpada”, havia indução ao voto a candidatos da direita. Detalhe: em 86, o país elegeu, além de governadores, os senadores e deputados federais que elaboraram nossa atual Constituição; logo, o termo “prefeito” foi o despiste às leis para induzir os (e)leitores a votarem em políticos conservadores.
Em suma, defendi que a mídia brasileira, com destaque à Veja e à Globo, em 89, escolhera Collor de Mello – um falso “caçador de marajás”, envolto ao cinismo moral – para derrotar o lulopetismo. Para isso, esses veículos – com base na recorrente tríade “Deus/Pátria/Família”, essência do conservadorismo, que escalou para o golpismo – serviram como norteadores de ações por parte de praticamente todos da elite.
De sua parte, a publicidade inaugurava nova forma de atuação discursiva, nutrindo-se das pautas jornalísticas para promover primorosas peças, não publicitárias stricto sensu, mas de propaganda eleitoral, e sem que assim fosse identificada; logo, antes, ou mais do que vender um produto, pretendia-se impor uma ideia, um estilo de vida, uma opção político-partidária, um determinado candidato. O jogo foi pesado. Desonesto.
Como exemplo disso, destaco o anúncio/propaganda da Biocolor: “Vamos colorir este país”, numa referência direta a Collor. Neste caso, por conta de enunciado inequivocamente explícito, o TSE impediu sua continuidade. Todavia, outros tantos anúncios continuaram a atuar na mesma agenda conservadora, mas com sutilezas discursivas (verbais e não verbais) que só análises muito cuidadosas poderiam auxiliar o (e)leitor a compreender o complexo processo de indução subjetiva. Em suma, a persuasão passou a ser feita de forma sofisticadíssima; e a sofisticação, por ser sutil, é sempre mais eficaz do que o dito de forma explícita.
E, aqui, “entro” no desfile da Acadêmicos de Niterói, que, ao homenagear Lula, impôs ao país discussões que passariam sem bocas no trombone. Agora, não dá mais, pois, como é materializado num intertexto – à lá Chico Buarque –, já passou “...nessa avenida mais um samba popular”; aliás, este é um dos únicos versos poeticamente bem elaborados no “samba-enredo” daquela escola. Nos demais, salvo uma ou outra alusão pouco mais criativa, tudo se encontra no plano do referencial/denotativo, como nas crônicas históricas, só que tudo disposto em versos, ainda que de rimas tão pobres quanto previsíveis. Claro que para algum “crítico” mais apaixonado, a própria pobreza dos versos e das rimas poderia estar dialogando com a origem do homenageado. De qualquer forma, paradoxalmente, essa fragilidade poética não tirou a beleza da criação do empolgante “samba-enredo”, que, reafirmo, não passa de uma bela e bem elaborada crônica histórica.
Mas essa beleza, sendo predominantemente denotativa, e não conotativa, como deveria ser, pois letras musicais estão no mesmo balaio de poemas propriamente ditos, levou a escola ao explícito em todos os demais quesitos; assim, metáforas visuais cederam lugar a encenações primárias e apelativas, a começar pela segunda parte da Comissão de Frente: artisticamente, um teatro de segunda linha. O rebaixamento era previsível.
Indignada, em sua autodefesa, a Acadêmicos está dizendo que “a arte não é para os covardes”.
Concordo e ainda acrescento: nem para aventureiros, principalmente quando o financiamento tem quinhão do erário. E só para arrematar, não há arte de qualidade que se sustente no plano da denotação, do referencial; e faltou conotação à Acadêmicos; logo, faltou-lhe o essencial: o artístico. E se lhe faltou a essência naquele desfile, ao que, exatamente, assistimos?
Para manter minha coerência, que tento mantê-la em quaisquer circunstâncias, e me lembrando novamente do questionamento do professor K, respondo dizendo que o desfile da Acadêmicos de Niterói está na mesma lógica do anúncio da Biocolor, acima comentado, mas com muito mais abrangência de público atingido. Assim, em algum momento, por meio de alguma medida, por menor que seja, o TSE terá de se posicionar, até para a manutenção de algum verniz às leis eleitorais vigentes, pois, se esteve ausente o predomínio da subjetividade da arte, sobrando manifestações referenciais, algo foi apresentado para além de uma homenagem artístico-cultural a alguém.
Mas pasmem!!! Tudo poderia ter sido pior! Não foi porque a direção editorial da Globo, em protocolo especial, solicitou aos profissionais envolvidos na transmissão que evitassem mostrar e/ou comentar qualquer gesto explícito que pudesse ser caracterizado como propaganda política; que os planos abertos, como os de sobrevoos de drones ou da câmera em plongée, prevalecessem sobre os closes e sobre os planos em contra-plongée. Agora, realmente, quem quiser pode dizer: “isso (e também aquilo) a Globo não mostra”.
No caso, não mostrou mesmo, o que, aliás, é condenável em termos de trabalhar com a realidade. Seja como for, sorte de Lula. Sorte do PT. Sorte de todos aqueles, dentre os quais me incluo, que não gostariam de ver de volta à presidência da República alguém que possa representar o extremismo da direita golpista deste país, afinal, como dizem Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, “acabou o nosso carnaval...// E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar...”
COMUNICADO: EXPEDIENTE NA ADUFMAT-SSIND SERÁ RETOMADO NA QUINTA-FEIRA, 15/02
A Adufmat-Ssind comunica que, em decorrência do recesso de carnaval e seguindo o calendário da UFMT e do Andes-SN, o expediente do sindicato na sede e subsedes de Sinop e Araguaia será suspenso na segunda-feira (12) e retomado na quinta-feira, 15/02.
Comunicado: feriado de carnaval
Em virtude do feriado de carvanal, a Adufmat-Ssind informa que não terá expediente nos dias 20, 21 e 22/02.
Retomaremos as atividades normalmente na quinta-feira, 23/02.
Comunicado: Após período de Carnaval, Adufmat-Ssind retomará as atividades na quinta-feira, 03/03
A Adufmat-Ssind informa que suspenderá as atividades regulares durante o período de Carnaval - 26/02 a 02/03.
O Expediente e os atendimentos em geral serão retomados, ainda de forma remota, na próxima quinta-feira, 03/03.
A Diretoria.
A Adufmat-Ssind informa que, devido ao ponto facultativo de carnaval, não haverá expediente no sindicato nos dias 15, 16 e manhã do dia 17/02 (segunda, terça e quarta-feira).
Retomaremos as atividades na tarde da quarta-feira de cinzas, 17/02, a partir das 13h30.
Diante do momento ainda crítico da pandemia, o sindicato reforça a orientação de que é preciso ter todo cuidado possível, higienizar as mãos respeitar as regras de distanciamento a todo momento, além de evitar aglomerações.
QUARESMA À BRASILEIRA - Roberto Boaventura
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP
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“Acabou nosso carnaval// Ninguém ouve cantar canções// Ninguém passa mais// Brincando feliz// E nos corações// Saudades e cinzas// Foi o que restou...”
Consoante o calendário cristão, eis a quaresma; logo, revisitemos a “Marcha de Quarta-Feira de Cinzas”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, lançada em 1966, momento em que o Brasil já estava amordaçado pelo golpe de 64. Sendo assim, há de se atentar para o toque político da “Marcha”. Para isso, vale transcrever sua 2ª estrofe, uma vez que a 1ª abriu este artigo:
“Pelas ruas o que se vê// É uma gente que nem se vê// Que nem se sorri// Se beija e se abraça// E sai caminhando// Dançando e cantando// Cantigas de amor...”
O tom de ensimesmada melancolia da 2ª estrofe soma-se ao lamento da 1ª, onde “carnaval” serve como metáfora do termo “democracia”, que, na condição de bem social, havia sido roubada; por isso, o império da tristeza, pelo menos por parte dos que conseguiam ter a consciência política disso.
Todavia, logo após a 2ª estrofe, vem o refrão:
“E no entanto é preciso cantar// Mais que nunca é preciso cantar// É preciso cantar e alegrar a cidade...”.
No início do refrão, duas conjunções. A primeira é a aditiva “E”, que é insignificante perante a segunda. Na essência, o “E” empresta eventual força que pudesse ter para a locução coordenativa adversativa “no entanto”. Esta adversidade divide a “Marcha” em dois momentos distintos.
A partir do refrão, a tristeza deve ser deixada para trás; o eu-lírico passa a evocar (ou convocar) a necessidade da força popular, que deve resistir ao tempo vivido para atingir, num futuro, um estágio de alegria e de paz generalizada.
A evocação/convocação se dá por meio de um belo processo gradativo, consolidado pela necessidade de se cantar:
“...é preciso cantar// Mais que nunca é preciso cantar// É preciso cantar e alegrar a cidade...”
Poucas construções gradativas são mais fortes do que a desse refrão, pois a gradação passa a ter valor de ordem social a ser perseguida; isso em contraposição a artimanhas de um tempo de tantas perseguições políticas.
Na mesma perspectiva, o clamor do eu-lírico encontra-se consolidado nas certezas (ou em apostas de cunho positivo) inseridas no restante da “Marcha”:
“A tristeza que a gente tem// Qualquer dia vai se acabar// Todos vão sorrir// Voltou a esperança// É o povo que dança// Contente da vida// Feliz a cantar...”
Inesperadamente, o refrão, há pouco transcrito, não se repete, o que, em geral, é comum acontecer em textos poéticos. Ele se consubstancia em outras palavras, mas todas igualmente estão marcando a perspectiva de superação de um determinado estágio vivido:
“Porque são tantas coisas azuis// E há tão grandes promessas de luz// Tanto amor para amar de que a gente nem sabe...”
Na última estrofe, um pedido do eu-lírico:
“Quem me dera viver pra ver// E brincar outros carnavais// Com a beleza dos velhos carnavais// Que marchas tão lindas// E o povo cantando seu canto de paz...”
Se materializarmos o eu-lírico da “Marcha” pelos seus compositores, infelizmente, como sabemos, Vinícius não viveu para “ver e brincar outros carnavais”. Ele faleceu em 1980. A ditadura terminou cinco anos depois.
Carlos Lyra não só viu a redemocratização chegar em 85, como está vendo nossa democracia escorrer novamente pelas mãos, Bolsonaro encurta e aponta os limites de nossa democracia. Por isso, outra vez, “...é preciso cantar// Mais que nunca é preciso cantar// É preciso cantar e alegrar a cidade...”.
Cantemos, pois.
PS.: após fechar meu artigo, soube pela mídia que Bolsonaro compartilhou vídeo de manifestações contra o Congresso e STF. Estarrecedor.
A Adufmat-Ssind informa que, em decorrência do feriado de carnaval, não haverá expediente na sede do sindicato, em Cuiabá, entre os dias 24 e 28/02/2020.
A diretoria, no entanto, estará de plantão no sindicato na quinta e sexta-feira, 27 e 28/02.
O atendimento normal será retomado na segunda-feira, 02/03.
Adufmat-Ssind.
Recesso de carnaval
A Adufmat-Ssind informa que, em função do carnaval, não haverá expediente na Sede e nas Subsedes do sindicato na segunda e terça-feira da próxima semana, dias 04 e 05/03/2019. Retomaremos as atividades no dia 06/03 (quarta-feira), a partir das 13h.
A Diretoria.
Realizado às vésperas do início da votação da contrarreforma da Previdência e após a intensificação dos ataques aos direitos sociais e trabalhistas, o carnaval de 2018 ficou marcado pelo crescimento dos protestos, expressos em sambas enredos, fantasias e marchinhas. Enquanto centenas de blocos de rua, em todo o país, agregaram, à diversão, as críticas ao governo de Michel Temer, um forte desfile da escola de samba fluminense Paraíso do Tuiuti sobre a escravidão ganhou atenção internacional.
Com o enredo Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?, a escola de samba, que terminou como vice-campeã do carnaval do Rio de Janeiro, trouxe em seu desfile fortes críticas ao presidente Michel Temer, exposto como um grande vampiro, à Reforma Trabalhista e aos manifestantes com camisas da seleção que pediam o impeachment de Dilma Rousseff. A escola campeã do carnaval do Rio de Janeiro, Beija-Flor de Nilópolis também levou a crítica em seu enredo. A escola apostou em um desfile inspirado na obra “Frankenstein”, com o samba “Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)” com reflexões e denúncias sobre a corrupção, a violência, intolerância e desigualdade socioeconômica.
A Estação Primeira de Mangueira, também classifica entre as seis campeãs do Rio, condenou o corte de verbas da Prefeitura do Rio, que neste ano repassou menos dinheiro às escolas de samba, com críticas diretas ao prefeito Marcelo Crivella, no enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco".
Em Brasília (DF), onde diversos blocos registraram manifestações pelo “Fora Temer”, o destaque foi o tradicional bloco do Pacotão, que, ao completar 40 anos, teve como música tema “O presidente Despirocado”, com versos que tiraram sarro de Michel Temer e seu governo. 
Participação docente
Os docentes participaram da festa popular levando as ventarolas produzidas pelo ANDES-SN para o carnaval, que traziam mensagens contra a Reforma da Previdência e contra o assédio sexual. Algumas seções sindicais do Sindicato Nacional também organizaram suas próprias festas e blocos, levando a temática da defesa da educação pública às ruas do país. A Associação dos Docentes da Universidade Federal do Pará (Adufpa Seção Sindical do ANDES-SN) realizou o Baile Carnavalesco dos Aposentados da UFPA, no sábado que antecedeu o carnaval (3).
Já a Associação dos Docentes da Universidade Federal da Grande Dourados (AdufDourados – Seção Sindical do ANDES-SN), no Mato Grosso do Sul, organizou um concurso de marchinhas de carnaval com temáticas ligadas à luta pela educação pública. Em Salvador (BA), os docentes da Uneb engrossaram o tradicional bloco Mudança do Garcia, que desfilou na segunda de carnaval (12).
Em Uberlândia (MG), entidades sindicais, populares e de juventude organizaram um bloco contra a atual retirada de direitos orquestrada pelo governo golpista. Intitulado "Não mexe comigo", o bloco reuniu-se, no sábado de carnaval (10), na Praça Sérgio Pacheco, e teve participação da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (Adufu – Seção Sindical do ANDES-SN).
Em outras regiões do país os docentes participaram de festas e blocos, levando a ventarola do ANDES-SN. Além de protestos contra Temer, a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista, os foliões também criticaram seus prefeitos, especialmente João Dória e Marcelo Crivella, administradores respectivamente de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), pelas políticas restritivas ao carnaval impostas pelas duas maiores prefeituras do país.
Fonte: ANDES-SN (com imagens de Adufu-SSind e informações das seções sindicais, do El País e Esquerda Online).
LEVIATÃ E O CARNAVAL - Roberto Boaventura
Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT
Particularmente, gosto muito de ver as propagandas e as peças publicitárias que são veiculadas durante o carnaval. Desse último, destaco a peça “Onda”, que faz parte de uma série de filmes publicitários intitulada “Itaipava – Histórias de Verão”.
Antes, é bom lembrar: essa marca já foi obrigada em outros momentos a retirar do ar alguns comerciais. Motivo: sensualidade explícita. Agora, para driblar os cuidados do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), a Itaipava recorreu, na peça mencionada, a legítimos recursos da linguagem, como o interdiscurso e a intertextualidade.
Sempre que a arte necessita driblar limites, em geral, ela tende a ser rica. A riqueza da “Onda” já está na escolha de Gabriel, o Pensador, o protagonista-rapper que entrou para contracenar com Aline Riscado (a Verão).
Por trás dessa escolha esconde-se o recurso da “Autoridade do Discurso”. Resumidamente, traduz a capacidade de um enunciador (no caso, Gabriel) estabelecer o indiscutível em termos de exposição discursiva. Algo como: falou/cantou e disse.
Mas, afinal, o que há na centralidade do discurso que compõe o texto “Onda”, cantado/falado pelo pensador Gabriel?
Resposta: a presença de Leviatã, representado pelo Monstro do Lago Ness.
Essa presença carimba o registro de um belo intertexto. Explicando: “leviatã” pode receber vários significados. De qualquer forma, o primeiro e mais importante encontra-se no Antigo Testamento, mais precisamente em Jó, entre os capítulos 40-41. Ali, Leviatã é descrito como sendo uma criatura mitológica/simbológica.
Para a Igreja Católica, durante a Idade Média, ele simbolizou a Inveja. Foi visto como um dos sete príncipes infernais. Fisicamente, trata-se de um monstro aquático de grandes proporções, parecido com os crocodilos, mas que pode assumir outras formas, como dragão marinho, serpente e polvo.
Dentre suas “diabruras”, é dito que, quando se levanta, faz tremerem as ondas do mar. Ele pode mesmo mais que aespada, a lança, a azagaia e o dardo, que tentam lhe ferir de morte.
No comercial, Ness – “adotado pela galera” – vira “Nesinho”. Ao invés dos instrumentos mortíferos acima elencados, ele ganha de presente uma latinha de cerveja, lançada pela bela Verão. No momento em que ele emerge do mar, se for dado “pause” na imagem, ver-se-á um gigantesco falo no centro da cena. Aqui, há a presença de uma mensagem subliminar: um drible de mestre no Conar.
Mas mais importante do que o intertexto e o close subliminar é a crítica social feita pelo interdiscurso do momento político/econômico de perdas por que passa o país. Sustentado por boas metáforas (mar, tsunami, churrasco, Pirata da Perna de Pau), esse recurso surge já na abertura da peça:
“Todo mundo tá curtindo, o dia lindo,// mas o mar tá subindo, o tsunami tá vindo!// Deu pra salvar o churrasco, nada mal// Mas a onda trouxe o Pirata da Perna de Pau// Não era carnaval, mas até parecia...”
Aqui, o leviatã não é ainda o Monstro Ness; refere-se ao autoritarismo do governo federal. Nisso, reside o interdiscurso buscado no conjunto da obra Leviatã de Thomas Hobbes (1588-1679), precursor do pensamento liberal. Grosso modo, para esse pensador, “a guerra de todos contra todos” só pode ser superada por um governo central e autoritário. Esse tipo de governo seria uma espécie de monstro (o Leviatã), que sempre buscaria concentrar todo o poder possível em torno de si. Por consequência, ordenaria todas as decisões da sociedade.
Enfim, a onda mostrada por “Onda” é perigosa; alegoricamente, aponta a subtração de direitos.
Bela peça publicitária.












