Segunda, 24 Maio 2021 14:38

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato

para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.

Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.

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*Valfredo da Mota Menezes

 

Grande parte da população judaica, principalmente os mais religiosos, incorporou a moralidade mosaica e apresenta comportamentos diferentes no tratamento com diferentes povos. Assim, a lei de Moisés só é aplicada entre eles. Dessa maneira, o mandamento “não matar” significa não matar outro judeu, mas não é pecado se o morto for de outra população ou etnia.

 

Provavelmente essa tese já foi levantada por alguém. Acho que li em algum artigo ou livro, cuja referência está perdida em algum canto da memória.

 

A história mostra que essa prática de matar ou eliminar outros povos não é nenhuma novidade. Não ocorre apenas na Palestina. A primeira narrativa histórica mostra um verdadeiro holocausto liderado pelo próprio Moisés. Durante a travessia do Egito à Terra Prometida, Moisés formou um exercito com 12 mil soldados e deu ordem para que eles matassem todos os homens, de qualquer idade e também “todas as mulheres que conheceram homens, deitando-se com ele”. Ordenou, ainda, que “todas as mulheres que não conheceram homens, deitando-se com ele, deixai-as vivas para vós”. Pelos registros, ficaram vivas apenas as mulheres virgens, isto é, 32 mil meninas. Por esse número já dá para deduzir quantos e quantas foram assassinadas.

 

Depois do massacre, Moisés fez a divisão do espólio do povo eliminado: “675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil jumentos, além de artigos de ouro, braceletes, pulseiras, anéis, brincos e colares”. Além disso, “todo o ouro dado pelos líderes de milhares e pelos líderes de centenas, que Moisés e Eleazar apresentaram como contribuição ao Senhor, pesou duzentos quilos”. Nessa “guerra” nenhum soldado de Israel foi morto. A descrição detalhada dessa chacina não foi feita por nenhum jornal de oposição. Por nenhum panfleto palestino. Esse registro foi feito pelos próprios seguidores de Moisés. Essa denúncia e os motivos racistas do genocídio dos Midianitas estão na Bíblia (Números: 31:1 a 54).

 

Esse tipo de atitude, sobre o povo palestino (Sabra e Shatila), já foi repetido por mais de uma vez no século passado e, embora os massacres atuais não tenham a mesma magnitude bíblica, vêm ocorrendo de forma sistemática e de uma maneira tão cíclica que todos os comentários escritos há alguns anos (como os meus próprios) podem ser repetidos agora, pois a situação nunca muda. Com a repetição, todos nós acabamos, de alguma maneira, incorporando o fato. Passa a ser o normal..., já não nos causa revolta..., é o nosso Eldorado do Carajás, é o nosso Jacarezinho cotidiano...

 

Esses ciclos de massacres e agressões vêm transformando a região em um amontoado de pessoas sem direitos à educação, à saúde ou qualquer direito básico, principalmente o de continuar viva. Desde o tempo em que a Palestina era um “protetorado” inglês e, principalmente, após a criação do Estado de Israel, a população palestina vem sendo expulsa de suas terras e casas e de toda a área territorial prevista para ser o Estado Palestino, principalmente a Faixa de Gaza, hoje considerada uma “grande prisão sem teto”.

 

Grande parte da mídia ainda trata os palestinos como “radicais” ou como “terroristas”. Repetem o mesmo mantra de que Israel está “se defendendo dos ataques dos terroristas”. Chama a agressão, a invasão, a destruição das casas, dos hospitais ou escolas, de “guerra”. Guerra de um só exército, que como na “outra”, só morre gente de um dos lados.

 

As decisões da ONU de nada valem. Qualquer tentativa do Conselho de Segurança esbarra no veto americano. Assim, uma ação contra essas atitudes racistas em relação ao povo palestino ou a qualquer povo, deve ser tomada por todas as pessoas com alguma sensibilidade, com algum sentimento de revolta. Deve ser tomada por todas as pessoas que defendem a paz e a solidariedade entre todos os povos, inclusive por aqueles judeus que não concordam com a política do massacre desenvolvida, atualmente, pelo carrasco Netanyahu. Até quando pessoas sensíveis e moralmente justas continuarão assistindo e apenas dizendo: “Oh, como tudo isso é injusto”...?

 

Governos nacionais deveriam, no mínimo, retirar seus embaixadores. Deveriam fazer um boicote, principalmente económico, contra Israel, para forçar uma negociação de paz definitiva. Vamos exigir uma manifestação formal de repúdio ao massacre pelo nosso Congresso Nacional. O Brasil é um exemplo mundial de que os dois povos podem viver juntos e em paz. Sem o apoio internacional nunca teremos a consolidação do Estado de Israel e a população da Palestina nunca terá um Estado Palestino.

 

*Médico; Doutor em Medicina Interna e Terapêutica; Professor Associado-Medicina/UFMT (aposentado)

Terça, 04 Agosto 2020 14:09

 

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Valfredo da Mota Menezes*

 

Desde a primeira publicação sobre o uso da cloroquina/hidroxicloroquina, como possibilidade terapêutica para a Covide19, surgiram esperanças e dúvidas relativas à sua eficácia. Esperança pelo fato de ser uma medicação que já vem sendo usada há décadas no tratamento da malária e como coadjuvante no tratamento de algumas doenças inflamatórias, sendo assim, já conhecida e manejada pela maioria dos médicos, além de ser barata e acessível; dúvidas pelo fato de que os experimentos iniciais não empregaram a metodologia correta para a avaliação. Na avaliação e no seguimento de qualquer doença é de fundamental importância o conhecimento de sua epidemiologia e, dentro desse conhecimento, saber como ela se comporta na sua evolução natural, isto é, a sua história natural. No caso da Covide 19 já sabemos hoje que, na dependência de fatores internos, principalmente resistência imunológica, as pessoas contaminadas podem ter um curso que vai desde a ausência de sintomas em algumas até a letalidade em outras. Nesse intervalo, cerca de 80 a 90% dos contaminados evoluirão de uma maneira benéfica para cura, independente de quaisquer suportes médicos. Os restantes necessitarão desse suporte para a sua recuperação. Assim, qualquer experimento de tratamento para ser considerado válido deve ser feito com um grupo controle. Sem um grupo controle nunca poderemos afirmar, definitivamente, se a cura se deu pelo tratamento ou pela própria evolução da doença, por casualidade. Na prática cotidiana atual, muitas pessoas têm tomado um coquetel de fármacos composto por cloroquina/hidroxicloroquina, azitromicina e, mais recentemente, ivermectina.  A maioria dessas experiências individuais, divulgadas por quem acredita nos resultados dessa medicação, mostra apenas os resultados “positivos”: “tomei e fui curado”. Seria também importante a divulgação dos casos de não cura que evoluíram dentro do percentual de cerca de 20 a 10%. Não vimos ainda nenhuma divulgação daqueles que tomaram e “não foram curados”. Fica a impressão de que todos os que tomam são curados. Como a doença pode evoluir para a cura espontaneamente, nunca teremos a certeza se os resultados foram pelo remédio ou se foi pelo acaso. Mesmo as publicações científicas que apoiaram essa proposta não foram realizadas com a melhor metodologia para avaliar tratamento. O tratamento foi apoiado com base em estudos não comparativos, não randomizados, estudos com número pequeno de participantes, levantamentos de dados retrospectivos dos pacientes (os chamados “estudos observacionais”) ou em estudos de laboratório (in vitro)1-7 Esses estudos são importantes etapas que servem para levantar uma hipótese: “parece que funciona...”. Essa hipótese deverá ser provada com outro tipo de estudo: o Ensaio Clínico Randomizado. Este é um estudo comparativo, em que um grupo de pessoas, com condições semelhantes (mesmo critério de inclusão), além do tratamento de suporte, toma também o remédio a ser testado e o outro grupo faz apenas o tratamento de suporte ou esse suporte acompanhado de placebo. Com a randomização, isto é, o sorteio dos participantes para os diferentes grupos, o pesquisador consegue distribuir de uma maneira igualitária e uniforme as possíveis diferenças existentes entre os participantes (idade, doenças pré-existentes etc.).

Desde o início da pandemia, toda a comunidade médica mundial vem esperando os resultados desses estudos. Enquanto esses resultados não saiam, os órgão reguladores de fármacos em alguns países, a nossa Anvisa e o próprio Conselho Federal de Medicina (CFM), com base nos primeiros estudos, permitiram aos médicos a prescrição desses fármacos fora da sua indicação de bula (“off label”). A partir dessa autorização, o Ministério da Saúde, alguns Estados e alguns Municípios brasileiros, gastaram milhares (se não milhões) de reais na compra desses fármacos, criando o assim apelidado “Kits Covid.”

Entretanto, parte da comunidade médica relutava em prescrever essas drogas sem a comprovação científica de sua eficácia. Criou-se uma divisão nunca antes vista ou vivida. “Se a única evidência são os estudos primários ou observacionais, vamos segui-los” dizia um grupo. “Em uma doença com tão alto índice de cura espontânea, não podemos causar mais danos com os efeitos colaterais...“primum non nocere”, diziam outros. A divisão aprofundou-se com a politização criada pelos Presidentes tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos, os quais passaram a propagandear a Cloroquina/hidroxicloroquina como a droga que salvaria nossas vidas. “Os da direita tomam cloroquina, a esquerda toma tubaína”. Prefeitos e governadores passaram a se apoiar “nessa salvação”. Criou-se uma relativa sensação de segurança para a população que, progressivamente, passou a descuidar das medidas de segurança e, principalmente, do isolamento.

Como essa é uma doença nova, a defesa do tratamento empírico tem a sua lógica. Entretanto, o tratamento empírico deve caminhar até ser alcançado pela ciência. Os resultados dos estudos randomizados começaram a sair mostrando que a ciência já está alcançando o empirismo. Daqui pra frente ou tratamento deixa de ser empírico (ex. Dexametazona) ou deixa de ser tratamento (ex. Cloroquina e Lopinavir-Ritonavir em pacientes internados)8. Os primeiros resultados foram relativos a pacientes internados e mostrou a ineficácia da cloroquina.8,9

Alguns, relutantes, passaram a dizer que: “não, nessa fase já está instalado o processo inflamatório, e não adianta, temos que esperar os estudos de profilaxia”. Pois bem, começaram a sair também os resultados dos estudos com inclusão de pacientes nessa fase precoce da doença e também mostraram a ineficácia da Cloroquina.10-13

Agora não há mais o que discutir! Acabou! Saíram os resultados que todos nos esperávamos. Infelizmente o fármaco não funciona em nenhuma fase. Se era racional o tratamento empírico, daqui para frente passará a ser uma irracionalidade o seu uso. Os estudos mostraram que a principal droga do Kit não tem eficácia. A azitromicina sempre foi uma “dama de companhia”, utilizada para prevenção/tratamento de infecção secundária e está sendo associada com aumento de mortalidade cardíaca. O único trabalho sobre a ivermectina mostra que ela, em alta concentração, elimina o vírus “in vitro”. O álcool, também em alta concentração (70%), mata o bicho. Vão liberar a cachaça?

Está na hora de uma revisão geral sobre o uso dessa estratégia de “tratamento”. Está na hora de os governos/prefeituras/gestores direcionarem os recursos para a testagem ativa, com busca e isolamento dos casos confirmados. Está na hora do CFM e da Anvisa reverem suas orientações aos profissionais de saúde sobre o uso “off label”, como já foi feito em outros países e como recomenda a Sociedade Brasileira de Infectologia14. O que salva vidas é o isolamento social, o uso de máscaras, a atuação dos trabalhadores da saúde e dos essenciais e, aqui em MT, tem sido essencial a atuação do Ministério Público e a ação consequente de um juiz (Jose Luiz Leite Lindote).

 A população, carente de atenção, vai continuar buscando algum apoio. Um desses apoios continuará sendo exatamente o “tratamento” com o “Kit”. Alguém poderá inclusive argumentar que ”se o Presidente usa, se o Ministro da Saúde recomenda, porque esse doutorzinho não quer dar a receita????”. Mesmo com o apoio da ciência, o herói vai virar o vilão da história se não tiver o apoio do CFM e o respaldo da Anvisa.

É emocionante ver e ouvir depoimentos de pessoas que se contaminaram e que, por acreditarem que foram curadas pelas drogas do Kit, mostram sua solidariedade e empatia ao recomendarem que outras pessoas também o façam. Isto é salutar e solidário. Entretanto, não será surpresa se nos próximos meses, alguns oportunistas lançarem alguma “novaina” ou algum “novozol” e usarem essa mesma boa fé do nosso povo, com intenção puramente de ganhar dinheiro.

*Médico, Professor Associado/Medicina/UFMT (aposentado). Doutor em Medicina Interna e Terapêutica/UNIFESP
 

Referencias:
 

1.Philippe Gautret, Jean-Christophe Lagier, Philippe Parola et al. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial Int.J.Antimicrob.Agents. 2020 mar 20,105949

2.Matthieu Milliona, Jean-Christophe Lagiera, Philippe Gautreta,C,et al. Early treatment of COVID-19 patients with hydroxychloroquine and azithromycin: A retrospective analysis of 1061 cases in Marseille, France Travel Medicine and Infectious Disease 35 (2020) 101738

3.Jean-Christophe lagier, matthieu Million, Philippe Gautret et al.Outcomes of 3,737 COVID-19 patients treated with hydroxychloroquine/azithromycin and other regimens in Marseille, France: A retrospective analysis. Travel Med Infect Dis. 2020 june, 101791

4.S. A Meo, D C Klonoff, J Akram. Efficacy of chloroquine and hydroxychloroquine in the treatment of COVID-19 Eur Rev Med Pharmacol Sci.2020 Apr;24(8):4539-47

5.Liu J, Cao R, Xu M, Wang X, Zhang H, Hu H, et al. Hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquine, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell Discov 2020;6:16

6.Xueting Yao, Fei Ye, Miao Zang et al.In Vitro Antiviral Activity and Projection of Optimized Dosing Design of Hydroxychloroquine for the Treatment of Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2). Clin Infect Dis. 2020Mar 9;ciaa237. Doi:10.1093/cid/ciaa237

7.Leon Calya, Julian D. Drucea, Mike G. Catton et al. The FDA-approved drug ivermectin inhibits the replication of SARS-CoV-2invitro Antiviral Research volume 178,june 2020, 104787

8.Recovery trial: No clinical benefit from use of hydroxychloroquine in hospitalised patients with COVID-19. No clinical benefit from use of lopinavir-ritonavir in hospitalised covid-19 patients.. Disponível em: recoverytrial.net

9. Tang W, Cao Z, Han M et al. Hydroxychloroquine in patients with mainly mild to moderate coronavirus disease2019. Open label randomized controlled trial. BMJ.2020 may 14;369:m1849.doi: 10.1136/bmj.m1849

10.Boulware DR, PPullen MF, Bangdiwala AS et al. Randomized trial of hydroxychloroquine as postexposure prophylaxis for covid-19. N Engl J Med.2020 jun3. Doi: 10.1056/NEJMoa2016638

11. Calleb P. Skipper, Katelyn A. Pastick, Nicole W. Engen et al. Hydroxychloroquine in Nonhospitalized Adults With Early COVID-19. A randomized trial. Annals of Internal Medicine. 16 jul 2020. Disponível em: https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M20-4207#.XxDEYtMbC08.email

12. Oriol Mitjà, Marc Corbacho-Monné, Mari Ubals et al. Hydroxychloroquine for Early Treatment of Adults with Mild Covid-19: A Randomized-Controlled Trial. Clinical InfectiousDiseases. 16 july 2020, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa1009

13.A.B. Cavalcanti et al. Hydroxychloroquine with or without Azitromycin in Mild-to-Moderate Covid-19. NEJM.org. DOI: 10.1056/NEJMoa2019014. July 23,2020.

14.INFORME N° 16 DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA SOBRE: ATUALIZAÇÃO SOBRE A HIDROXICLOROQUINA NO TRATAMENTO PRECOCE DA COVID-19. (17/07/20). Disponível em: https://www.infectologia.org.br/admin/zcloud/principal/2020/07/SBI_Informe_16_HCQ_precoce.pdf

 
Terça, 14 Abril 2020 18:28

 

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Por Valfredo da Mota Menezes*
 

Há vários anos, vimos ouvindo afirmações categóricas de variados setores da sociedade, principalmente dos concentradores de riqueza (rentistas, alguns líderes da indústria e do agronegócio), contrárias às ações do Estado no gerenciamento da economia ou no gerenciamento do dinheiro arrecadado com os impostos. As principais falas são que “o Estado está inchado”, que “o Estado é perdulário”, que os servidores públicos são uma corporação que “mama nas tetas” estatais..., que isso “é coisa de socialista”.

A saída para as recorrentes crises deveria ser a redução do tamanho do Estado. A saída seria o “Estado Mínimo”, com demissões, cortes salariais e suspensão de concursos e de novas contratações, além da venda das empresas estatais. Esses mesmos setores da sociedade, ávidos pelo poder, mas sem voto popular, já advogavam que bastaria tirar a Dilma, pois a “confiança voltaria e com ela os investimentos”; que a saída para a crise do déficit fiscal dependeria de reformar o Estado. Que a reforma trabalhista traria “imediata diminuição do desemprego”.

Embora nada disso tivesse dado certo, nas últimas eleições presidenciais a população, por ter optado pelo voto plebiscitário, acabou escolhendo uma liderança que preconizava que essa seria a saída. Uma liderança que nos levaria para uma política desestatizante, que nos levaria ao “Estado Mínimo”. Todo o “mercado” aplaudiu. “Agora os gastos públicos serão reduzidos e a iniciativa privada assumirá a condução do desenvolvimento do país!!!!”

Até há alguns dias, a frase que vinha sendo repetida era que, “com essa reforma acabaremos com a crise.....”. Como nem o desemprego diminuiu e nem o PIB aumentou, aproveitavam e diziam que “com a próxima reforma a coisa vai”. Assim, vêm, durante todo o tempo, utilizando da crise econômica para privatizar patrimônios públicos e aprovar todas as medidas possíveis contra os trabalhadores ou contra as ações do estado de bem-estar social. “O país está quebrado”. “Se não aprovar não teremos dinheiro para pagar nem as aposentadorias”. Se de um lado havia denúncia de chantagem, a chantagem do outro lado era explicita. 

A política econômica do atual governo foi, desde o início, baseada apenas na “economia”, ou seja, na redução de gastos. Não há intenção de “afrontar” as elites com aumento da arrecadação. A principal reforma, a tributária, até hoje não foi apresentada. Assim, todo o gasto foi reduzido: suspenderam qualquer investimento estatal; suspenderam todas as admissões de servidores públicos e, com isso, os benefícios do INSS; cortaram bolsas de estudo; acabaram com o programa Ciências sem Fronteiras; suspenderam bolsas de pós-graduação; suspenderam milhares de beneficiários do Bolsa Família; acabaram com o programa Mais Médicos e, com orgulho, o Presidente declarou: “numa canetada vou mandar de volta 14 mil médicos cubanos”. Como sem investimento não há crescimento, os resultados das reformas e da diminuição de gastos já começaram a aparecer: PIBinho e aumento da taxa de desemprego em fevereiro.

Aí surgiu o imponderável! Do mesmo modo que o outro disse que era só “uma marolinha”, o atual disse que era só “uma gripezinha inventada pelos chineses”. Minimizou, mas, no início, tentou dela aproveitar para fazer mais restrições e para vender a Eletrobrás.

Entretanto, a gripezinha virou o mundo de cabeça pra baixo. Agora todos descobrem a importância de um Estado organizado e voltado para o bem-estar de todos. Todos passaram a ter a consciência da importância do SUS e dos seus trabalhadores da saúde. Agora todos vêem a importância da assistência médica e o vácuo que a “canetada” deixou. Agora, todos entenderam que um “Estado Mínimo” é o total abandono das ações de proteção à população mais pobre. Agora já ninguém quer o tal do “Estado Mínimo”. Os mesmos que pediam cortes rogam desesperados pelos benefícios do Estado. Agora todos se dizem solidários. Agora todos querem socializar as ações do Estado. Aí apareceu o dinheiro que não existia. A máscara caiu. Se tinha dinheiro, por que os diversos contingenciamentos? Por que o abandono com a educação e com a ciência e tecnologia? Por que os cortes do programa bolsa família? 

 Sabemos, entretanto, que esse sentimento atual de solidariedade e de preocupação com a população não vai perdurar depois que o vírus for derrotado. Toda a fome neoliberal vai voltar e, com mais apetite, vão querer vender tudo para cobrir os “gastos” atuais, para cobrir as despesas com a saúde, para cobrir o “rombo” e o “prejuízo”.

Caberá à sociedade manter viva a percepção e a conscientização que a “gripezinha” nos devolveu.

 

*Médico; Doutor em medicina interna e terapêutica; Professor Associado da Faculdade de Medicina da UFMT