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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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JUACY DA SILVA*
 


“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tão pouco a sociedade muda…A educação não transforma o mundo, a educacao muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo….Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido e ser opressor” (Paulo Freire).

 

Para Louis Althousser, a escola (educação) é um dos “aparelhos ideológicos do Estado” e, nesta condição garante perpetuação e a reprodução dos mecanismos de poder das classes dominantes, em que a defesa do “status quo” se realiza através da educação. Assim, a educação cumpriria uma tarefa domesticadora e alienadora, jamais libertadora e transformadora.

 

É nesta teia de relações e visões de mundo quanto ao papel da educação na sociedade, que, em 2022 a Campanha da Fraternidade, sob os auspícios da CNBB, vai, novamente, enfocar o tema da educação.

 

A formação de todos os profissionais demanda tempo, investimentos, estudos, pesquisas, dedicação e visões de mundo que tem alcance muito além da mera formação de mão de obra especializada, exigências do mercado de trabalho, da economia e os niveis salariais oriundos do exercício das diferentes profissões/ocupações.

Esta formação projeta-se nas dimensões éticas, filosóficas, religiosas, culturais, no espírito de solidariedade, fraternidade, da justiça, da equidade e no cuidado com todas as formas de vida existentes no planeta (Casa Comum), enfim, em novos paradígmas que possam ser utilizados para a construção de um mundo novo, politica, social e econômicamente justo e igualitário, culturalmente plural e ambientalmente sustentável, melhor do que o atual em que estamos vivendo.

 

De igual maneira, quando se trata da formação de agentes de pastorais, a mesma deve passar por um processo reflexivo bem profundo, incluindo tanto os aspectos teóricos e doutrinários da área objeto da ação da pastoral e também aspectos teológicos, doutrinários e do magistério da Igreja. Só assim, a Igreja e as Pastorais cumprirão o seu papel e  compromisso evangélico nessas áreas específicas, sendo “sal da terra e luz do mundo”.

É neste contexto que são realizados a grande maioria dos debates e reflexões quanto ao papel da educação na transformação da realidade e na libertação das pessoas, em relação a todas as amarras e mecanismos que geram concentração de renda, poder, propriedades e oportunidades de um lado e a exclusão das grandes massas, que vivem em meio `a violência, racismo, preconceito, na pobreza, na miséria , no abandono. na fome e na insegurança alimentar.

 

Todos os dias ouvimos discursos de autoridades, a grande maioria demagógicos, conversas entre pessoas simples, humildes e excluidas, docentes, alunos, dirigentes de entidades sindicais, comunitárias ou de organizações não governamentais, líderes religiosos de todos os credos , quanto ao papel e a importância da educação na sociedade, não de um ensino meramente formal, quase sempre alienado, desligado do contexto da realidade e sem compromisso com as transformações que países e sociedades necessitam para melhor integrar a população respeitando a dignidade humana.

Somente uma educação baseada na realidade, que reconheça as diferenças culturais entre as pessoas, bem como identifique os mecanismos politicos, sociais, culturais e econômicos que geram discriminação e exclusão das grandes massas, pode despertar o educando para a cidadania plena, a garantia dos direitos fundamentais das pessoas e cumprir o papel de ser uma força sócio-transformadora.

 

Não podemos continuar convivendo com dois tipos ou modelos de educação, de um lado, uma educação sucateada, domesticada e alienadora para os pobres e uma educação justificadora do “status quo”, de melhor qualidade para os ricos e a classe média, facilitando a manutenção de seus privilégios.

 

Enquanto isto ocorrer, com certeza, a educação continuará sendo um mero “aparelho ideológico” do estado a serviço dos grupos que mantém seus privilégios `as custas do Estado e das politicas públicas. Aqui cabe uma reflexão quanto ao papel da educação privada, inclusive da educação confessional, católica, evangélica ou de qualquer outro grupo religioso ou filosófico, qual o papel desta educação no contexto das transformações que a sociedade brasileira está a exigir com urgência.

 

Neste contexto podemos destacar a exortação do Papa Francisco sobre a educação quando o mesmo afirma, de maneira bem clara: “A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também em difundir um novo modelo relativo ao ser humano, `a vida, `a sociedade e a relação com a natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o modelo consumista, transmitido pelos meios de comunicação social e através dos mecanismos eficazes do mercado” (Encíclica Laudato Si, 215).

Como cristãos e católicos, principalmente, devemos refletir de uma maneira mais critica e profunda sobre que tipo de educação desejamos para nosso país, nossa sociedade e nossas familias, se uma educação alienada e alienadora ou uma educação que promova o diálogo, a inclusão e busque ser uma força transformadora da realidade e respeite a dignidade humana?

 

Devemos ter bem presente que o Papa Francisco desde o inicio de seu magistério tem enfatizado a necessidade de uma Igreja sinodal, missionária, em saida, samaritana e profética, que faça uma opção preferencial pelos pobres e excluidos. Assim, precisamos pensar e defender uma educação, embasada no magistério social e na Doutrina Social da Igreja, transformadora, inserida neste contexto de uma realidade excludente. Este é o nosso maior desafio como cristãos, educadores e agentes de pastorais, nos dias atuais.

Com certeza, como parte desses debates e reflexões, também a CNBB não poderia estar ausente, como representação formal dos Bispos do Brasil e, por extensão de toda a Igreja Católica, por isso, definiu que a Campanha da Fraternidade de 2022, terá como TEMA: FRATERNIDADE E EDUCAÇÃO e como LEMA: “FALA COM SABEDORIA, ENSINA COM AMOR” (Bíblia Sagrada, Livro dos Provérbios 31:26).

O Objetivo Geral da Campanha da Fraternidade em 2022 é o seguinte: “Promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, `a luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”.

 

Entre os objetivos Específicos podemos destacar: 4) pensar o papel da familia, da comunidade de fé e da sociedade no processo educativo, com a colaboração dos educadores e das instituições de ensino;  5) Incentivar propostas educativas que, enraizadas no Evangelho, promovam a dignidade humana, a experiência do transcendente, a cultura do encontro e o cuidado com a casa comum; 6) estimular a organização do serviço pastoral junto `as escolas, universidades, centros comunitários e outros espaços educativos, em especial das instituicoes  catolicas de ensino;7) Promover uma educação comprometida com novas formas de economia, de politica e de progresso, verdadeiramente, a serviço da vida humana, em especial, dos mais pobres.

Em todas as suas atividades a Igreja, recomenda, principalmente nas diversas pastorais, inclusive na PASTORAL DA ECOLOGIA INTEGRAL, a utilização de um método já consagrado: VER/ESCUTAR, JULGAR/DISCERNIR, AGIR E CELEBRAR.

A Campanha da Fraternidade de 2022, mesmo que tenha como tema a educação, busca, refletir sobre as relações entre educação e as diferentes dimensões da realidade, inclusive (mesmo que de forma bem tenue) com a questão da ecologia integral.

Isto pode ser visto quando o foco da reflexão é o AGIR, destacando a necessidade de “Um novo projeto de vida como fonte para uma nova sociedade”; “Uma nova realidade para a educacao? O pacto educativo global” (um novo chamada do Papa Francisco); “Educar para uma nova economia, onde destaca a proposta de “criar grupos de estudo e reflexão a partir do projeto Economia de Francisco e Clara”.

 

Entre as “Tarefas educativas urgentes da Igreja na sociedade: incluem-se: a formacao de educadores populares nas comunidades eclesiais em todos os terrenos/territórios; incentivar projetos efetivos para a superação do analfabetismo, nas áreas urbanas e rurais: promover espaços educativos populares para educar e reeducar no cuidado para com o meio ambiente, superando o analfabetismo ecológicopromover escolas de Fé e Cidadania que, `a luz da Doutrina Social da Igreja, capacitem para participação nos conselhos paritários de direito; desenvolver o chamado da 6a. Semana Social Brasileira da CNBB, que é realizada em mutirão, na pluralidade cultural e étnica do Brasil, assim como no ecumenismo e dialogo inter-religioso, (enfatizando que o Tema da 6a. Semana Social Brasileira reflete os tres “Ts” do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho.

 

Com certeza, tendo em vista os conceitos, idéias, orientações e exortações do Papa Francisco ao longo de seu magistério, como, por exemplo, nas Encíclicas Lautado Si e Fratelli Tutti, bem como na Exortação Apostólica Minha Querida Amazônia, e também o caráter integrador da Pastoral da Ecologia Integral, durante a Campanha da Fraternidade de 2022 será uma ótima oportunidade para se refletir sobre a necessidade e também estimular a organização e fortalecimento das Pastorais da Ecologia Integral e um maior aprofundamento do conhecimento  das Encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti, da Exortação Apostólica Minha Querida Amazônia e ,também, do que seja ecologia integral, pecado ecológico, conversão ecológica, analfabetismo ecológico, cidadania ecológica e,  educação ecológica.

 

Só assim a escola e a educação, em todos os niveis, estarão abrindo perspectivas para a formação de cidadãos, cidadãs, empresários e lideranças mais conscientes quanto ao papel individual e coletivo no cuidado da “casa comum”, e no enfrentamento das causas e consequências da degradação dos ecossistemas, do aquecimento global, das mudancas climáticas, enfim, formando pessoas, em todas as áreas e territórios, que terão novas posturas, novas atitudes, novos comportamentos, hábitos e ações que possibilitem a redução e reversão do processo da destruição do planeta terra, nossa única “casa comum”.

Desta forma, a Campanha da Fraternidade (CF) 2022 poderá ser a bsse para uma tríade: Fraternidade, educação e ecologia integral, com possibilidade de um maior aprofundamento em 2023, quando o tema da CF poderia ser: FRATERNIDADE E ECOLOGIA INTEGRAL. Ficam a idéia e a sugestão!

 

Vamos pensar nisso? Afinal, como diz o Papa Francisco na Laudato Si “tudo esta interligado, (inclusive educação e crise socioambiental) nesta casa comum”.

*JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado na Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia e articulador para a estruturação da Pastoral da Ecologia Integral no Centro Oeste. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. 

 

 

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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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*Valfredo da Mota Menezes
 

Estamos passando por um momento crucial, que deve servir de reflexão e ser aproveitado para uma profunda avaliação dos cursos de medicina. Há uma divisão clara entre os médicos em defensores ou detratores de determinadas intervenções que foram, ou ainda são, usadas no manejo da Covid-19, especialmente o chamado “Kit-Covid”. Quando essa divisão inclui professores de medicina, a situação fica ainda mais grave. Como ficará o aprendizado dos alunos diante dessa “disputa”? De que maneira eles vão aceitar uma ou outra “posição”?  A aceitação será decidida pela empatia, pela ideologia ou pela lógica científica? Essa situação mostrou a fragilidade de alguns aspectos dos cursos médicos. Fragilidade que, no meu ponto de vista, se baseia na forma como o curso ainda é ministrado, muitas vezes centrado no personalismo do professor.

 Tempos atrás era comum, em congressos médicos, a apresentação de algum professor Ph”Deus”, sobre o manejo de determinada doença com o tema: “Como eu trato.........”. Desde o fim do século passado, principalmente depois da grande expansão da “Internet”, nenhum aluno ou médico necessita mais desse tipo de aula. Com a grande ampliação dos bancos de dados específicos da área de saúde, das mudanças metodológicas na busca e na divulgação do conhecimento médico e, principalmente, com o surgimento de uma ferramenta metodológica de como estudar e de como se atualizar, denominada Medicina Baseada em Evidências (MBE), nenhum professor se atreverá mais a expor sua experiência, sem um embasamento científico sólido. Essa socialização do conhecimento trazida por essas mudanças deixou alguns médicos, e alguns professores, preocupados com a perda do status de detentores do conhecimento e, muitos, até hoje ainda têm preconceito sobre essa “nova” metodologia e continuam a defender a supremacia da experiência sobre as evidências científicas.

A situação atual mostra que já passou da hora de as escolas médicas incluírem nos currículos conteúdos de metodologia científica, principalmente de avaliação crítica da literatura médica. Na maioria das escolas médicas, esses conteúdos sobre metodologia científica só são incluídos nos cursos de pós-graduação stricto sensu.   Mesmo os residentes saem do curso com noção mínima de metodologia científica ou de MBE e, em sua grande maioria, com quase nenhum conhecimento sobre “Avaliação de Tecnologia em Saúde” (ATS). Muitos, embora já pratiquem a MBE, desconhecem as metodologias e os critérios de avaliação de novas tecnologias em saúde e a maior parte não sabe como ler, criticamente, um artigo científico.

Já em 1993, a preocupação em avaliar a tecnologia antes do seu uso, fez surgir a primeira rede mundial de avaliação de tecnologias em saúde: “International Network of Agencies for Health Technology Assessment” (INAHTA) www.inahta.org). No Brasil vem sendo discutida desde o inicio deste século. O Ministério da Saúde criou a “Comissão de Incorporação de Tecnologias” –CITEC, reestruturada, ampliada e transformada depois em “Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias” (CONITEC)(Lei nº 12.401, de 28 de abril de 2011).Foi também criada a Rede Brasileira de Avaliação de Tecnologias em Saúde (REBRATS)https://rebrats.saude.gov.br/10-institucional/110-nats.Esta rede já conta com Núcleos de Avaliação de Tecnologias em Saúde (NATS) em 21 Estados brasileiros, a maioria ligada às Universidades Federais. Participei da criação do NATS no Hospital Universitário da UFMT. Um dos objetivos era, além da pura tecnicidade, “o de enfatizar a necessidade de uma visão crítica e de estabelecer um critério permanente de educação continuada do corpo clínico”, ressaltando que essa “visão crítica deve ser, primariamente, do Corpo Clínico e, fundamentalmente, do médico que vai fazer uso da tecnologia”. Apesar disso, os cursos médicos, e muitos professores desses cursos, não buscaram uma integração e ainda hoje são poucos os professores de medicina que fazem parte desses núcleos.

O que estou buscando dizer é que, embora existam ferramentas e institucionalidades, essas não estão atingindo um dos principais objetivos e muitos médicos estão saindo dos cursos sem uma noção clara de metodologia científica. Vimos e ouvimos nos dois últimos anos a exaltação da necessidade de “evidências científicas”. Vimos e ouvimos dezenas de políticos falarem em “Ensaios Clínicos de Fase III”, “Revisão Sistemática” e “Meta-análises”. Vimos e ouvimos centenas de médicos interpretando tais estudos e, infelizmente, muitos sem a menor condição para fazê-lo. Médicos que, além de desconhecerem metodologia científica, não têm nenhuma noção crítica sobre os estudos que discutem e passam a aceitar as conclusões destes conforme o seu conceito prévio e/ou seu posicionamento ideológico. Não abandonam o empirismo inicial, mesmo depois de os estudos com desenho adequado e melhores metodologias terem demonstrado que os medicamentos não funcionavam (“o tratamento empírico caminha até ser alcançado pela ciência...”)(https://www.midianews.com.br/opiniao/o-kit-covid-salva-vidas/380271).

Até mesmo professores, alguns mestres ou até mesmo doutores, exatamente pela inconsistência do conhecimento científico, continuaram, e alguns ainda continuam, a defender as tais drogas do “tratamento precoce”.

Assim, acredito que aproveitando o que mostra essa realidade, as escolas médicas e seus professores devem repensar o currículo, introduzindo e enfatizando disciplinas sobre Avaliação Crítica da Literatura Médica. O médico pode e deve ter posições políticas, entretanto, essa politica não deve afastá-lo da verdade. A ideia não é a de transformar o médico em cientista, mas a de aproximá-lo da ciência. A ciência sempre foi e será sempre a indutora da Civilidade.


*Médico, Professor Associado - Medicina-UFMT (aposentado). Doutor em Medicina Interna e Terapêutica-UNIFESP.

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