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O Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Por Aldi Nestor de Souza*
  

Eles vivem ali. No meio das engenharias, das arquiteturas, das informáticas, das matemáticas, das biologias, das letras, das filosofias. Bem no meio acadêmico, no campus universitário. Alguém lhes traz comida, água, carinho e até veterinário. Ali eles comem, cagam, mijam, se reproduzem, crescem e morrem. Ali eles miam e desafiam.

Ninguém sabe ao certo quantos são. Mas são muitos. Talvez centenas.  Minha primeira impressão sobre a presença dos felinos no campus foi a de que, famosos pelo mito de sua frieza, estavam num lugar que lhes parecia familiar. A universidade, como todos sabem, é um lugar frio. Um lugar essencialmente preocupado com resultados, com números, com títulos, com desempenho, com sucesso. Um lugar em que as relações humanas, os sentimentos, as dores, as fraquezas, os dissabores, não tem lá muita importância, posto que não podem ser medidos com números. E, assim sendo, parece um habitat natural pros felinos.

Mas comecei a perceber uma importância vital dos bichanos, pra universidade, no dia em que presenciei uma sesta. Foi assim. Um estudante estava sentado no chão, sozinho - há muita gente sozinha no campus universitário - em uma das galerias, descansando do almoço e aguardando as aulas da tarde.  No meio de suas pernas, tinha um gato, esparramado no chão, dormindo e tendo a barriga alisada pelo estudante.  Isso mesmo, um cafuné enquanto chega a hora da aula.

Pode parecer pouco, ou bobagem, mas não é. Um gesto de afeto, uma carícia, um dengo, como esse da sesta, é, muitas das vezes, crucial para um estudante ou  para um professor, solto num lugar frio como é a universidade. Nunca é muito lembrar que estudantes e professores universitários andam adoecendo e até se matando. Tem doença mental em crescimento na academia, tem suicídio como nunca, tem competição que não acaba mais, como consequência de uma vida avaliada pelo currículo e pelo rigor das datas e prazos massacrantes.

Os gatos, na universidade, são, portanto,  uma experiência inumérica, uma experiência fora do valor. São apenas afetos. Não entram no lattes. Não entram nos planejamentos. Não entram nos relatórios. Não entram nas progressões. Não entram nos projetos. Os gatos são refúgio num mundo mediado pela necessidade de parecer mais.

Há casos em que os gatos são as únicas companhias que muitos ali tem. Há alunos que, diariamente, vem e voltam da universidade sem ter com quem dizer uma palavra – são os sem espaço, os que ficam pra trás, que se perdem no curso, que se perdem dos colegas, que não se reconhecem na universidade -.  E é ali, nos corredores, sentindo a textura da barriga de uma felino, que relaxam um pouco da dureza de saber que não vão dar certo na academia.

Há muitos casos pitorescos espalhados universidades afora.  Tem, por exemplo, o caso de Jeferson, que  é um gato que atende pelo nome. Se você o chamar, ele vai e não quer nem saber quem você é.  Jeferson já está velhinho, muito gordo, anda com dificuldade e parece muito mais interessado em atenção do que qualquer outra coisa. Jeferson parece desmontar o mito da frieza dos gatos.

E há casos em que o afeto é tanto que transcende a relação gente x gato. Foi o que ocorreu em consequência da morte de um gato, universitário, muito conhecido e querido no campus e que morreu de velho. Os amigos mais próximos, em sinal de dor e carinho, resolveram lhe sepultar com cerimônia. Trouxeram-lhe velas, fizeram oração, choraram.

Mas os gatos, apesar de tudo, tem muitos, mas muitos adversários no campus. Há quem os encare como um problema de saúde pública. De vez em quando alguém os denuncia às autoridades universitárias e até, noturnamente, intenta contra a vida deles, pondo veneno em suas comidas. E eles morrem aos montes.

Mas nascem.

E assim que nascem, ainda cambaleantes, saem miando, desafiando e entrando nos lugares mais improváveis: nas salas de aulas, nas salas dos professores, nas cantinas, nos laboratórios, nos centros acadêmicos, a mostrar que, como diz a canção, “nós, gatos, já nascemos pobres, porém, já nascemos livres. Senhor, senhora ou senhorio, Felino, não reconhecerás.”

 
*Aldi Nestor de Souza

Professor do departamento de matemática da UFMT/Cuiabá
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Por Roberto de Barros Freire* 
 
 

Gostaria de abordar outros temas, mas os ministros de Bolsonaro não deixam semana sem algum acontecimento no mínimo bizarro, para não ser grosseiro e falar um palavrão. Se não os ministros, os filhos queridos expulsando pessoas do governo através de pressão sobre um pai frágil e fraco são também constantes desde o início do governo. E ainda há, é claro, problemas com a justiça por todos os lados, dos filhos aos ministros. Exceção nos militares, por enquanto, pois o poder tem muita capacidade de corromper os bons e atrair os maus.


Toda pose da campanha de Bolsonaro, que seguiria preceitos técnicos nas suas escolhas, que daria carta branca para esses técnicos, seriam superministros que dariam a decisão final, livres para formarem suas equipes sem intromissão sucumbiu na semana que passou, enfim, o recente caso de censura na escolha técnica do Sr. Moro revela o que só os ingênuos não sabiam: Bolsonaro é igual ou pior que os demais políticos, praticando a política miúda por quase 30 anos no congresso sem ser notado. E também que os ministros não são aqueles homens de princípios, técnicos, pois todos eles cedem tudo a visão pequena e estreita do chefe capitão. Apegam-se ao cargo antes que aos princípios.


Moro, por exemplo, deveria pedir demissão para a preservação de sua biografia, ao invés de se submeter à ordem palaciana que passa por cima de sua consciência (terá uma?), de sua visão do que é justo e necessário para se obter um mundo menos violento, ao seu projeto. Enfim, escolheu ficar com o poder antes do que com o certo ou o justo. Como todos tolos atraídos pelas luzes do poder, encantado com o domínio de pessoas e instituições, desfrutando das benesses do Estado e mais ainda do governo, acha que se submetendo às intempéries do chefe conseguirá levar adiante um projeto que já fracassou ao se submeter ao injusto, ao arbitrário, ao autoritário, ao pouco republicano.


Creio que Bolsonaro escolheu seus ministros porque os mesmos ou são fracos e ideológicos, com certeza, parte dos seus auxiliares vivem em um mundo paralelo, que se encantam com fantasmas, dragões e moinhos de ventos sem verem a realidade, e, portanto, nada ameaçam o chefe, ou estão encantados com a proximidade do poder e acreditando que poderão usar o poder do chefe para impor suas vontades, quando na verdade é Bolsonaro que se apropria da grife dos seus técnicos. Tanto Moro como Guedes, os supostos superministros, engolem mais sapos do que conseguem convencer o “chefe” de suas assertivas.


No fundo, nem Bolsonaro, nem seus ministros tem conhecimento para realizarem uma boa política social e econômica. O governo se perde e se pega em questões pequenas, coisas diminutas, insignificantes, vendo conspiração por toda parte, combatendo a esquerda que está afastada a tempo do poder.

 

 

Uma pessoa sem grandeza não consegue atrair os grandes, apenas os pequenos ditadores, oportunistas e autoritários querendo impor uma visão estreita de vida e mundo. Cercado e ouvindo apenas as mesmas ideias acaba-se acreditando ser esta a única ideia certa. Como não entram nos debates, ou ofendem os adversários, ou deletam o que não suportam ouvir, acabam acreditando que sua visão é “majoritária”, ou única, ou certa, pois só estas ouvem.


Vejam que Bolsonaro escolhe a imprensa, censura e boicota jornais e meios de comunicação. Como criança pequena, não suporta conviver com a diferença e apenas quer eliminá-la da vista de todos, mas principalmente de si mesmo. Como só lê o elogio, não consegue perceber o mal que lhe causa os aduladores, e do bem que lhe falta ao querer impedir toda e qualquer crítica, como se a mesma fosse destrutiva. Sinceramente, desde que comecei a votar em 1976, considero esse governo o mais despreparado, o que mais improvisa, sem um projeto de país, correndo atrás de solução de problemas que nem imaginava existir; governo preenchido por afinidades ideológicas e sem qualificação técnica ou científica para exercer suas funções.


Ainda que possa observar alguma exceção nos ministros militares, reconhecendo neles uma boa formação técnica, temo que de pouca serventia seja para salvar-nos de um retrocesso histórico, político, cultural e social, pois é a pequenez política, a falta de grandes gestos republicanos o que impera na atuação política desse governo, cheio de inexperientes e incapazes de perceberem o atraso de suas posições. E quem mais atrapalha as propostas políticas dos técnicos governamentais é o próprio presidente; até o momento suavizou a política anticrime de Moro e ameniza a reforma previdenciária do Guedes. Se algo der certo na vida nacional será apesar do governo, não pelo governo, o que é muito comum acontecer nesse país.
 

*Roberto de Barros Freire
Professor do Departamento de Filosofia/UFMT
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