Terça, 12 Maio 2015 13:01

Urbe Violentada

Em minhas reminiscências sobre Cuiabá, alegrias de infância e adolescência em uma cidade acolhedora, tranquila e conectada visceralmente com a natureza. Quando retornava de férias estudando “fora”, primeira coisa no reencontro fora de casa era ir curtir o belo centro velho  mergulhar nas águas do Cuiabá, Ribeirão e Coxipó. Sempre foi fascinante palmilhar com os pés e perscrutar com os olhos aquela arquitetura bela nas estreitas ruas de paralelepípedos. Ali, porões soturnos, como a bafejar o grito de dor e indignação de escravos e índios, brutalizados pela insaciável violência da ocupação armada e sanha pela fortuna fácil do ouro abundante. As Lavras do Sutil foram vertentes de dor e lágrimas das vítimas, negros e índios, estes últimos que até então aqui viviam neste território, felizes e livres. É alto o preço deste progresso, distante de um marco civilizatório. No processo histórico desta cidade, idas e vindas, contenda que desagua por uma cidade saudável, frente a cidade imaginada que a gente quer de melhor para viver. Nestes tempos, mais do que antes, é preciso superar o ufanismo e cair na realidade que temos a nossa frente. Fica para trás tudo o que não lutamos que poderia ter sido feito para que tivéssemos uma cidade melhor. Afinal, qual cidade queremos? – Qual progresso? Certamente não é este, que vem se apresentando no empobrecimento da paisagem e do cotidiano urbano. Em uma cultura política que acumulou a prática da gestão pública como sinônimo de burocracia perversa e corrupta. Aí está recente o tal legado das obras da copa, acompanhado por legados malditos em profusão. Que nos joga para baixo, rumo a imobilidade urbana. Em uma cidade onde os aparelhos públicos coletivos foram historicamente menosprezados. Ruas poeirentas, esburacadas, esgotos a céu aberto, asfaltos esburacados, consertos com remendos passageiros, sinalizações péssimas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo em planos inferiores. Calçadas irregulares, verdadeiras armadilhas. Transportes frágeis, ônibus capengas. Quase nada é cumprido, desde a qualidade dos veículos até os horários e que linhas passam por ali, e outros como a falta de refrigeração nos ônibus. Legislativos e órgãos de fiscalização e controle ao largo da possibilidade de intervenções para o bem coletivo. Sistema de esgotos precaríssimos, coleta e disposição final de lixo insuficiente, poluição de córregos e rios, mau cheiro por todo lado. Quase toda sujeira da cidade no difícil escoamento de águas vão para córregos já mortos, caindo nos rios Cuiabá e Coxipó. Ou ficando nos ajuntamentos de lixo por toda periferia da cidade. O mercado imobiliário faz o que quer, com poucas intervenções e se restringem ao Ministério Público. Criam-se condomínios e núcleos urbanos sem a infraestrutura necessária e adequada, desde o sistema de dejetos e transporte urbano. O problema do lixo urbano é um assunto sério a ser resolvido na dimensão que hoje se apresenta. Reservas ambientais urbanas, raríssimas e ameaçadas. Nenhum incentivo para criação de novas reservas e parques, aliás seria fácil incentivar reservas particulares urbanas. Territórios como o centro velho e outras referências históricas de Cuiabá, esvaziados pela primazia dos “chopins”, bandeira do mercado elitista. A modernidade é componente da necessária diversidade, é preciso sustentar os marcos culturais da cidade, com sua verdadeira revitalização. Revitalizar seria recompor o conteúdo, a estética da cidade para uma vivencia agradável nos variados territórios que demarcam o pertencimento e orgulho do lugar.  A poluição visual e sonora campeiam pela cidade. A falta de uso da inteligência e a morosidade na reorganização da cidade é gritante. Parece que é uma série de “puxadinhos”, gambiarras e um grotesco e anômalo progresso sem imaginário e memória social. Apesar de ocorrerem algumas melhorias na cidade, é de boa noticia a recriação de um órgão de Planejamento Urbano. Sem um órgão desta natureza, politicamente forte e com recursos para sua operacionalização, não chegaremos a nenhum avanço qualitativo. Quais os cenários para o presente e futuro da nossa cidade? Qual a participação decisória real da sociedade? Até os 300 anos é possível demonstrar por onde e como caminhar rumo a cidade que queremos. É preciso superar as gambiarras urbanas da nossa Urbe Querida.
Waldir Bertulio

Sexta, 08 Maio 2015 11:22

VOLTANDO AO PÓ

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Conforme preceitos das “Sagradas Escrituras”, o retorno dos humanos ao pó se dá após a conclusão do ciclo de vida, que pode ser longa ou não. Assim, todo ser que do pó veio – em geral depois de ter comido o pão que o diabo amassou – a ele retornará; ou seja, materialmente falando, voltará ao espaço do nada.

Pois bem. Este preâmbulo, sustentado por uma sentença bíblica, serve agora para falar do retorno ao espaço da insignificância política que o Partido dos Trabalhadores (PT) já está trilhando.

Após ter sido uma das legendas mais influentes das últimas décadas – oriundo das camadas populares em parceria com a nata da “intelligentsia” brasileira, e ladeado por sujeitos progressistas da Igreja Católica – o PT começou, há alguns meses, a descer a ladeira do Senhor do Bonfim. Desgovernado, o Partido se parece com aquela vaca da campanha eleitoral, mas atolada na lama.

Pergunta elementar: como é possível saber quando um partido político tão importante como o PT entra nos momentos finais de sua existência, ou de sua importância política?

Simples: quando sua voz não é mais ouvida. Pior: quando sua voz sequer é suportada pela maioria das pessoas. Eis o caso.

E para quem ainda tinha alguma dúvida da agonia política do PT, em cinco dias, dois episódios puderam ajudar na revelação desse estágio de coma em que o partido está imerso.

O primeiro dos episódios, na verdade, foi a falta de verbo, essência para qualquer atividade de poder, que, muitas das vezes se sustenta apenas pela mera exposição de discursos.

Explicando: no dia 01 de maio, internacionalmente comemorado como o dia do trabalhador, o Partido dos Trabalhadores não pode fazer o tradicional discurso para marcar a data.

A presidente da República – que é uma das principais estrelas daquela constelação de decadentes – foi obrigada a quebrar uma tradição de longa data. Ficou muda. Perdeu a fala. Cortaram a língua da rainha do Alvorada.

Motivo: a presidente não discursou porque qualquer fala sua teria sido abafada pelo barulho de panelas, buzinas, cornetas etc. Raro seria o brasileiro – até mesmo entre os mais pobres e os dependentes do FIES – que pararia para ouvir seu blá-blá-blá.     

O segundo dos episódios que revelam a agonia do PT foi exatamente o uso do verbo.

Como assim?

Na tentativa de quebrar o silêncio da presidente do dia 01 de maio, o PT, no dia 05, usou a cadeia de rádio e TV para sua propaganda política, na qual a presidente aparece apenas em imagens; de novo, a mulher não falou.

Todavia, de nada adiantou sua mudez. Mal começou a propaganda política do PT e as pessoas, Brasil afora, começaram a protestar usando panelas, cornetas, buzinas etc.

Com isso, uma constatação significativa: o problema não é necessariamente com a chefona do Alvorada; é com todos e com tudo que possa estar identificado com o PT.

Por que isso?

Por vários motivos.

Um deles: essa sigla não consegue mais se desvencilhar de denúncias de corrupção. Há uma equivalência de base: falar de corrupção é falar de alguém do PT, que invariavelmente tem se justiçado da seguinte forma: “eles também são corruptos”.

Outro motivo: o estelionato eleitoral empreendido na cara dura pela moradora do Alvorada. Tudo o que ex-candidata disse que não faria contra os mais pobres da sociedade, fez, faz e fará na condição de reeleita.

Por tudo isso, ela não pode mais falar. Dificilmente se recuperará da mudez.

Para piorar o que já é ruim, o PT está nas teias do PMDB; ou seja, é asfixia política. Dessa enroscada, será bem difícil sair com vida.

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