Quarta, 26 Agosto 2015 13:50

SIGLAS EM XEQUE

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Neste artigo, trato de algumas caras siglas político-ideológicas que aos poucos, infelizmente, vão virando pó: MST, PT, CUT, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Exceto a última legenda, que nasceu em 1916, e a penúltima, que surgiu em 48, as demais foram gestadas durante a ditadura de 64. O compromisso social sempre foi algo caro a essas siglas.

O MST – “herdeiro ideológico dos movimentos de base social camponesa ocorridos desde a chegada dos portugueses ao Brasil” –surgiu, no final dos anos 70, opondo-se ao modelo de reforma agrária dos milicos. O Movimento buscava a redistribuição das terras improdutivas. Consolidou-se na década dos 80.

Por sua vez, o PT nasceu exatamente em 80, pelas mãos de dirigentes sindicais, intelectuais de esquerda (muitos da USP) e católicos da Teologia da Libertação, que punham em prática ensinamentos cristãos no excludente cotidiano de nosso povo.

Logo depois, o PT – “rejeitando tanto as tradicionais lideranças do sindicalismo oficial, como procurando colocar em prática nova forma de socialismo democrático” – tornou-se o berço da CUT, nascida em 83.

A origem da CUT, bem como as siglas anteriores, foi nobilíssima. A entidade surgiu pregando a autonomia sindical; opunha-se aos sindicatos atrelados ao Estado, monstros criados por Getúlio.

Tributo histórico feito, resta-nos ver os rumos que essas siglas tomaram após a chegada do PT à presidência.

Em minha opinião, todas afrouxaram princípios; amordaçaram-se diante da proximidade com o poder. A autonomia em relação ao Estado e ao governo ficou comprometida.

E o que dizer especificamente sobre a SBPC, que surgiu querendo unir o pensamento científico brasileiro, motivado pela chegada de cientistas europeus, trazidos ao país para ajudarem na implementação de nossas universidades, em particular a USP, criada em 34?

Antes de tudo, é mister saber que a SPBC nasceu exigindo dos governos investimentos na ciência e na cultura. Também se colocou em defesa dos profissionais que eram afastados das universidades por perseguições políticas. Logo, sua origem foi nobre.

No entanto, a SBPC também parece ter feito opção político-ideológica em prol do governo petista, que se igualou às siglas de direita até mesmo na corrupção. Exemplo recente: a SBPC acabou de quebrar o silêncio diante da greve das federais. Junto com a ABC, assinou desastroso manifesto intitulado “Em defesa das Universidades Públicas”.

No tal documento, só o título e uma ou outra frase solta é que se salvam. As duas entidades chegam ao cúmulo de solicitarem que o governo não atenda às principais demandas de nossa pauta de greve, com ênfase à carreira docente.

Como se fossem entidades detentoras de suprema sapiência, as signatárias do manifesto apresentam uma absurda lista de sugestão daquilo que o governo deveria fazer.

Em dado momento, chegam à esparrela da leitura política, imputando aos docentes das federais a responsabilidade “pelo sucesso ou fracasso da instituição” em que trabalham. Mais: apostam na universidade colada aos interesses do mercado; logo, colocam em plano inferior o caráter socialmente referenciado das instituições federais.

O referido “manifesto” parece coisa encomendada. A sociedade não merecia isso.

Diante de tudo, mais do que nunca, precisamos reforçar a luta pela universidade pública, gratuita, laica e socialmente referenciada. Se as siglas acima referidas vierem conosco, ótimo. Se não, que paguem o preço que a história deverá lhes cobrar.

Quinta, 20 Agosto 2015 18:17

O caminho da renúncia

Renúncia - uma palavra enaltecida pelos poetas e escritores como um ato de grandeza e de amor. 

Na vida real, nem sempre o discurso e a prática caminham na mesma direção. 
Cresce no país as correntes que sinalizam que o grave momento de crise econômico-financeira que vivemos seria resolvido apenas com a renúncia da nossa presidente da República. 
A figura em questão foi uma militante de movimentos revolucionários lá dos idos anos 60, 64, mas nunca foi um ser político. 
Naquela época ela ocupava o cargo de guarda livros do movimento, ou seja, meramente burocrático. 
Nunca foi questionado o seu aspecto de liderança.
Líder, o movimento sempre teve na figura do sindicalista de maior visibilidade do país. 
Sabemos que mandar é totalmente diferente de liderar. 
Temos na presidência alguém que manda pesado, mas sem habilidade política para liderar. 
Aí reside o grande sangramento do partido do poder que, desmascarado nas figuras de seus maiores líderes pela operação “Lava Jato”, vinculados a suspeições de irregularidades financeiras, já não consegue fazer as alianças necessárias para um mínimo de governabilidade.  
Alguns mais intelectualizados do poder, leitores contumazes da teoria marxista, acreditaram que organizando um plano através da distribuição de cargos de chefia por todo o Estado, teriam a tranquilidade necessária para fazer as mudanças sociais apregoadas como salvadoras. 
Eles esqueceram que o ser humano, na sua sede de poder, enlouquece diante das mordomias e dos prazeres mundanos. 
O enriquecimento pessoal vira a meta prioritária, e logo fica estabelecido o “salve-se quem puder”. 
A história nos mostra que isso já aconteceu em outros países, em outras épocas. 
O perfil psicológico da nossa gestora não combina com a possibilidade de uma renúncia ao cargo para o qual foi democraticamente eleita, ainda que isso se apresentasse como uma saída honrosa para o país. 
Não vemos em nenhuma das correntes de poder alguém que, no momento, possa, realmente, representar os anseios populares.  
O quadro geral é de pessoas totalmente desvinculadas das funções para as quais foram eleitas, numa busca insana de benesses pessoais como absoluta prioridade. 
O mais grave, a meu ver, é que o partido mais forte que apoia a presidente, e que detém a vice-presidência, vem se encantando muito rapidamente com o rumo caótico dos acontecimentos e, quem sabe, vislumbrando possibilidades próximas de uma nova liderança. 
Todos os grandes cientistas políticos aventam para a gravidade extrema da situação. 
Nessa oportunidade, seria configurada uma renúncia, não como ato de grandeza, mas simplesmente por absoluta falta de governabilidade. 
Num regime democrático impõe-se absoluta harmonia entre os três poderes, e isto não vem acontecendo. 
Essa é a grande gravidade da situação política brasileira! A população, atônita, assiste inerte ao desmoronamento de um dos países mais ricos do mundo. 
Resta-nos torcer para que os que detêm o poder abdiquem das suas vaidades e passem a agir com um pouco mais de patriotismo, evitando uma ainda mais grave crise institucional.

Gabriel Novis Neves
10-08-2015

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