Sexta, 04 Dezembro 2015 14:27

REVERÊNCIA A MILHÕES DE MORTOS

JUACY DA SILVA
 
No ultimo dia 15 deste mes de novembro, no Brasil comemoramos  a Proclamação da República, quando civis  e militares positivistas colocaram fim ao Império, forma de governo já naquela  época denunciada por muitos, inclusive por Rui Barbosa,  como a quintessência  da corrupção.
Passados exatamente 126 anos de vida republicana, a praga da corrupção parece  estar muito maior do que quando do fim do Império. Mas  esta é outra estória que pode estimular  melhores reflexões  de como a corrupção é o fio de ariádne, tecendo o pano de fundo da vida nacional por vários séculos, desde o descobrimento até os escândalos do MENSALAO, DO PRETOLÃO/LAVA-JATO,  e outros que ainda  estão aguardando que sejam  decifrados pelas investigações nos Estados e no país como um todo.
O dia 15  de novembro  também é dedicado, pela ONU, através  da Organização Mundial da Saúde, para reverenciar milhões  de mortos cujas vidas preciosas são ceifadas todos os anos em acidentes de trânsito, nas estradas, rodovias, ruas e avenidas do mundo todo, inclusive em  nosso pais, como bem atestam as estatísticas tanto de organismos internacionais quanto de entidades brasileiras.
De  acordo  com o relatório mais  recente, de 2015, da OMS-Organização Mundial de Saúde,  intitulado Rodovias seguras, os acidentes de trânsito foram  responsáveis em 2014 por 1,25 milhões de mortes, ou seja,  3.425 pessoas perderam a vida nesses acidentes. Enquanto o mundo todo, principalmente a grande mídia  ficaram  consternados pelos atentados do último final de semana quando foram assassinados pelo terrorismo 129  pessoas, todos os dias, todos os anos, os  acidentes de trânsito matam 26,6  vezes mais do que atentados terroristas. Isto é como se todos os dias, durante vários anos seguidos acontecessem 27 atentados como os últimos ocorridos em Paris, mas pouca ou praticmento nenhuma comoção é notada quando milhões de pessoas são mortas em acidentes de trânsito.
Só no Brasil, que  está  entre os cinco países com  maiores taxas e número de mortes, verdadeiros assassinatos ao volante, em 2013  morreram 46.935 pessoas. Entre  1980  e 2013,  o total de mortes no trânsito em nosso país chega a 1.070.773,  uma verdadeira chacina que não commove nem nossas autoridades e nem a opinião pública, deixando apenas sofrimento  e saudades para as famílias que tenham perdido seus entes queridos  e  a certeza de que a  impunidade para  este tipo de crime vai  continuar seu caminho.
Cabe também destacar que as taxas de mortalidade em  acidentes de trânsito são maiores nos países e nas  regiões mais pobres e subdesenvolvidas do que em países  e  regiões do mundo mais rico e desenvolvidos, tomando-se como referências  o PIB , população e número de veículos. A média mundial de mortes em  acidentes de trânsito por 100 mil habitantes é de 17,4; sendo a maior na África com 26,6 e a menor na Europa com 9,3. Neste aspecto, o Brasil está muito mais próximo dos países africanos do que dos europeus, pois tem uma taxa de 23,4 para cada grupo de 100 mil habitantes.
Segundo o relatório da ONU/OMS  as mortes por acidente em trânsito representam uma  grande perda em termos de vidas humanas, principalmente se considerarmos que a maioria das vítimas estão  em plena juventude ou idade produtiva, além  de perdas econômicas, em torno de 3% do PIB mundial e , no caso do Brasil, essas perdas representam 5% do PIB. 
Considerando o ano de 2015, quando o PIB mundial nominal deverá ser de US$78,28 trilhões de dólares  as perdas ou custos por mortes em acidentes de trânsito deverão ser US$ 2,35trilhões  de dólares. Tais custos para o Brasil neste ano (2015), tendo em vista a recessão nosso PIB, mesmo assim, será de US$1,8 trilhões de dólares,  caindo para a nona posição no ranking mundial, os custos das mortes por acidente de trânsito serão de US$ 90 bilhões de dólares ou R$ 350 bilhões  de reais, mais do que a soma dos orçamentos dos ministérios da saúde, da educação e do desenvolvimento social.
Uma  última informação, os  dados do relatório da OMS deste ano indicam que os acidentes de trânsito representam a principal  causa de mortalidade para pessoas com idade entre 15 e 29 anos, seguindo-se pelos suicídios, a  Terceira HIV/AIDS e a quarta assassinatos. Todas essas causas passíveis, principalmente de mortes no transito, de serem reduzidas e evitadas, desde que existam leis com penalidades mais pesadas, maior fiscalização, menos corrupção e maior responsabilidade, principalmente por parte de condutores, além, é claro de infra estrutura urbana e nas rodovias para garantirem um tráfego seguro.
Convenhamos. além de reverenciarmos mais de um milhão de pessoas que morreram em acidentes de trânsito no Brasil nas últimas tres  décadas, e mais de 12 milhões no mundo nos últimos dez anos, devemos fazer  um grande esforço para que essas taxas  absurdas de mortalidade em nosso país sejam reduzidas drásticamente como fizeram vários países como a China, os EUA, a Austrália, a Coréia do Sul, o Japão e praticamente todos os países europeus.
JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT,  mestre em sociologia, articulista de jornais, sites e blogs. EmailO endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Twitter@profjuacy  Blog www.professorjuacy.blogspot.com

Quinta, 03 Dezembro 2015 10:41

O PESO DA RETÓRICA

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 

Mesmo que os pós-modernos façam de tudo para jogar no lixo o legado da antiguidade greco-romana, isso ainda não foi conseguido.

Que bom, pois, na semana passada, todos, inclusive os destruidores das elaborações antigas, viram a ministra Cármen Lúcia do Supremo Tribunal Federal (STF) enunciar – à lá retórica dos clássicos – um dos mais importantes discursos dos últimos tempos no “país das delicadezas perdidas”, como já dissera Chico Buarque.

Cármen Lúcia – em sessão do STF que manteve a decisão de Teori Zavascki de prender o senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma/PT –, ao ler seu voto, lembrando o jingle do PT/Lula nas eleições de 1989, emocionou o país ao dizer:

Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 (mensalão) e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja”.

Na mesma linha de se buscar nas figuras de retóricas a lógica do raciocínio tão bem trabalhada pelos antigos gregos e romanos, o ministro Celso de Mello também fez um incisivo discurso contra a corrupção no Brasil. Para ele, “a corrupção age como a ferrugem em relação ao ferro: é o agente decompositor das instituições democráticas”.

Mais adiante, a metáfora da “ferrugem” se explicita em seu discurso. Ela seria a incorporação dos “...marginais que se apossaram do aparelho de Estado...” A ferrugem, para Mello, teria se tornado “...realidade perigosa, que vilipendia, que profana e que desonra o exercício das instituições e deforma e ultraja os padrões éticos. É preciso esmagar e destruir com todo o peso da lei esses agentes criminosos que atentaram contra as leis penais da República e contra os sentimentos de moralidade e de decência...”.

Na contramão desses raciocínios, que nos elevam como seres humanos e nos fazem pensar que um dia poderemos ter um país melhor, vem a resposta debochada do senador preso: agira por “questões humanitárias”; o senador estaria consternado pela dor da família de um amigo preso na operação Lava-Jato.

Essa resposta, que continua a sustentar a mesma forma de agir dos “marginais que se apossaram do aparelho de Estado...”, parece confirmar que o senador estava mesmo desligado do mundo: sem internet, sem TV, sem comunicação alguma. Se estivesse conectado, teria sabido dos discursos acima citados. Teria sabido que Cármen Lúcia já tinha alertado que o cinismo, o escárnio e o crime não venceriam; talvez o senador tivesse sido mais cuidadoso para não se apresentar como debochado.

Mas já que dei a importância à estruturação mental para a construção da retórica dos dois ministros citados, que se ancoraram em conhecimentos da antiguidade clássica, recordo que li, na Folha de São Paulo, de 22/11/2015, que o MEC proporá mudança no ensino médio de História: estudantes deixarão de ver a história antiga europeia, incluindo Grécia e Roma.

Lamentável. Somos também descendentes da Europa. Assim, é preciso que encontremos formas equilibradas de estudar as contribuições de todos os povos dos quais descendemos. Esse tipo de subtração nos currículos escolares também é artimanha dos “marginais que se apossaram do aparelho de Estado...”.

Fiquemos atentos.

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