Terça, 30 Abril 2019 10:04

PENICO E AFETO - Aldi Nestor de Souza

 

****

Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
****


Por Aldi Nestor de Souza*
  

Maria estuda numa faculdade particular de Cuiabá e trabalha como garota de programa. Jovem, muito bonita, corpo sarado e culta, ela é o que, nos dias de hoje, chamam de acompanhante de luxo. Filha única, ela mora com os pais que fingem não saber da prostituição.
 
O cafetão é seu ex-professor do ensino médio. Trabalhar pra ele tem a vantagem de ter garantia de sigilo.
 
Os clientes, selecionados via cadastro, são pessoas da mais alta classe social da cidade: deputados, vereadores, políticos em geral, produtores de soja, além de várias outras autoridades, todos dispostos a pagar, e muito, por horas de prazer sexual.
 
Maria diz que se apresentar como universitária, no mundo da prostituição, é de grande valia e é apenas por isso que ela faz a faculdade. Além disso, ela lê bastante e fala inglês e espanhol.
 
Ela está com vinte anos e, além de malhar, costuma correr e participa intensamente das atividades culturais da cidade. Quando o tempo permite, compete na corrida de Reis, vai às festas de santo, visita a expoagro e também as exposições de artes plásticas. Maria conhece a obra de muitos artistas matogrossenses e curte, particularmente, Gervane de Paula, Humberto Espíndola e João Sebastião.
 
Maria diz que participar da vida social da cidade é uma forma estratégica de chamar a atenção de seus clientes. Antes de cada programa, procura se informar da pessoa e já chega nos encontros com a conversa pronta. Ela costuma dizer:
 
“ Se o cliente é desses metidos a intelectuais, falo de artes, dos museus. Tenho até aquela frase besta decorada: “a arte existe porque viver não basta”. Nem sei quem disse essa bobagem, mas quando digo isso qualquer pessoa pensa que eu levo arte a sério e cai na minha conversa”.
 
“Se é alguém que cheira a bosta de vaca, falo da expoagro, dos animais, das raças, dos rodeios, dos shows de música sertaneja, que eu odeio, mas sei fingir que gosto. Esse é um jeito de fazer qualquer trouxa virar cliente cativo e assíduo”.
 
“Se é alguém com cara de bobo, tipo um atleta ou essas pessoas que curtem esportes, falo de academia, de minhas participações na corrida de reis, de meus treinos, de outros esportes. Enfim, tento entrar no mundo da pessoa de forma a ela acreditar que eu a considero e a levo a sério.”
 
Maria pretende seguir na prostituição, pelo menos enquanto seu corpo e sua mente aguentarem. Suas amigas, que também fazem programa, por julgarem sua beleza muito acima da média, questionam o fato dela não querer fazer outra coisa, seguir outra profissão. Laura, uma das mais próximas, lhe pergunta.
 
— Por que você não tenta a carreira de modelo, Maria?
 
— Porque cada pessoa tem o direito de escolher como quer se prostituir, Laura.
 
Até conhecer Jaime, um produtor de soja que mora em Cuiabá e tem uma fazenda lá pras bandas de Campo Verde, Maria nunca havia se apegado afetivamente a nenhum de seus clientes. O que lhe atraiu em Jaime, logo na primeira vez que saíram, foi o fato dele só mijar num penico.
 
—Como assim, Jaime, você trouxe um penico pro motel?
 
— Sim, trouxe. Pra onde vou levo essa mochila com meu penico. Só gosto de mijar nele. É que não tenho muito boa pontaria e não gosto de sujar a borda do vaso sanitário.
 
Essa declaração fisgou a atenção e, ao que parece, o coração de Maria, que considerou esse gesto de rara sensibilidade nos homens.
 
—Nossa, Jaime, estou chocada! Não sabia que existia alguém tão sensível assim. Desde quando você usa penico?
 
—Desde a adolescência.
 
Mijar num penico marcou tanto Maria que agora, de vez em quando, ela se pega pensando em Jaime, assim como fazem os apaixonados,  e  aos poucos a relação foi se estreitando.
 
— Quer dizer que você curte feiras agropecuárias, Maria, e até frequenta a expoagro?
 
—Sim, curto e vou à feira de vez em quando. Gosto muito de ver aqueles animais bem cuidados.
 
— O que mais você costuma fazer em suas horas vagas? A gente poderia fazer uma viagem pro pantanal, passar um final de semana, o que você acha?
 
— Adoraria ir pro Pantanal, Jaime. Conheço pouco de lá, só fui até o comecinho, ali em Poconé.
 
— Então tá combinado. Vamos marcar depois a data.
 
Jaime foi também o primeiro cliente que Maria reviu por acaso, em seus passeios pela cidade. Foi numa noite de Bulixo, lá no Sesc Arsenal. Ele estava na fila pra comprar comida. Tinha no ombro sua inseparável mochila, com uma das mãos segurava o filho pequeno e com a outra abraçava a cintura da esposa.
 
Maria deu meia volta.
 
Jaime não a viu.
 
 
*Aldi Nestor de Souza

Professor do departamento de matemática da UFMT/Cuiabá
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

****
O Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
****

 
 
JUACY DA SILVA*
 

Depois de “aceitar” a demissão ou demitir o Ministro da Educação, um colombiano que pouco ou nada entendia de educação brasileira, agora o novo ministro da educação, secundado pelo Presidente da República, “brindam” a opinião pública nacional com uma pérola que revela estupidez e uma ignorância sem limites.


Ambos advogam, conforme noticiário do final desta semana, que as universidades federais devam deixar de “gastar” dinheiro público com disciplinas e cursos que pouco proveito trazem para a formação dos alunos e cita, de cara, FILOSOFIA e SOCIOLOGIA.


Em nota divulgada pelo Twitter, imitando o presidente americano, que apenas comunica suas decisões imediatas por redes sociais, ao invés de dialogar, debater com a sociedade as politicas públicas que pretende implementar, enfim, decisões de governo, de forma autoritária, apenas informa a opinião pública suas decisões, disse o Presidente “O Ministro da Educação @abrahamWeinT estuda descentralizar investimento em faculdades de
filosofia e sociologia (humanas). Alunos já matriculados não serão afetados. O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina.”.


Ao divulgarem semelhante comunicado, parece que tanto o Presidente da República quanto o Ministro da Educação desconhecem a importância que os diversos ramos do conhecimento como sociologia, filosofia, lógica, ciência politica, comunicação, economia, direito, história, antropologia, ecologia, teologia, artes, educação/pedagogia tem oferecido para a formação das pessoas, do senso crítico, da capacidade de raciocinar e entender a dinâmica das sociedades, das diferentes culturas e suas instituições.


Com certeza, decisão como esta, além de representar ignorância quanto ao papel da universidade, sua autonomia, tem como agenda occulta, que é a idéia de que esses cursos e disciplinas estão a serviço de alguma ideologia socialista ou comunista, como algumas pessoas podem acreditar. A continuar esta “batida” não vai demorar tanto o Presidente quanto seu ministro da educação vão definir que tipos de livros podem ou não ser lidos e debatidos nas universidades e ensino médio,  que tipos de visão de mundo podem ser discutidas na educação brasileira, impondo, de fato uma educação censurada e obsoleta, quando a liberdade de cátedra e a autonomia das universidades são os fundamentos do desenvolvimento do conhecimento e, por extensão, o desenvolvimento do país.


Seria o caso de se perguntar o que o Presidente da República e  seu ministro da educação pensam sobre o papel da Academia beasileira de Lestras e de inúmeras academias de letras espalhadas pello Brasil, o que pensam do papel e contribuição de poetas, músicos, artistas, cineastas, romancistas e filósofos tem oferecido ao desenvolvimento das letras, das artes e da cultura brasileira? Qual o retorno que esses personagem  que “militam ou militarem” nas áreas das ciências humana trazem ou trouxeram para o Brasil, já que não são medicos, nem veterinários e nem engenheiros ou outras profissões da área das ciências exatas?


Parece que o presidente e seu ministro da educação são os únicos sábios de plantão no país e os únicos que conhecem a realidade educacional brasileira e se metem a tomar decisões de forma autoritáira, sem consultar sequer os setores que podem ser excluidos do financiamento da educação pública, ferindo de cara a autonomia das universidades e o próprio senso somum quanto `a importância que cada área de conhecimento tem ou pode ter para a formação acadêmica, professional e a contribuição que cada área tem para o desenvolvimento do país.


Ao invés de se debruçar sobre os graves problemas que afetam a educação brasileira, como a baixa qualidade da mesma em todos os niveis e em todas as esferas, os índices vergonhosos de analfabetismo e analfabetismo funcionam que denigrem a imagem do país, a falta de uma carreira digna para professores, com perspectivas de progresso e remuneração decentes, encarar o fato das universidades federais, incluindo os hospitais universitários estarem todas/todos sucateados, vem o ministro com declarações extemporâneas, estapafúrdias e citando exemplos falsos como o que aconteceu no Japão, afrontando áreas de conhecimento, das quais com certeza pouco conhece, enfim, muita bobagem e estupidez para uma autoridade que deveria ter o devido cuidado, conhecimento de causa e critérios fundamentais para emitir opinião.


Com frequência o Presidente afirma que nada conhece da economia e deixa a cargo de seu guru e ministro da economia a tomada das decisoes, Talvez fosse o caso de o mesmo também confessar que pouco ou quase nada entende da vida universitária e de educação e deixar a cargo de seu ministro decisões mais fundamentas e menos improvisadas nesta que é uma ou talvez a área de maior importancia para o presente e o futuro da educação, exigindo que o mesmo estudasse com mais profundidade os temas sobre os quais precisa definir.


Como o ministro mencionou o caso do Japão, talvez seja importante que o mesmo estude melhor a revolução meijii que transformou profundamente a educação naquele país no final do século 19 e possibilitou que o Japão se transformasse em uma potência mundial, já nos anos quarenta do século passado. Ou como foram as revoluções na educação na China, em Taiwan e na Coréia do Sul, ou como é a educação em geral e superior na Alemanha, onde as ciências humans e sociais caminham pari-passo com a revolução tecnológica. Ou entao a experiência americana onde todas as áreas de conhecimento tem papel importante tanto em universidades públicas quanto privadas. Só o conhecimento liberta o ser humano da ignorância, da visão utilitárista e imediatista da educação.


É lamentável ver como o descaso, a forma apressada e distorcida podem servir de base para definir politicas públicas no Brasil. Educação não e mercadoria e ao desqualificar algumas áreas do conhecimento como filosofia e sociologia e, por extensão, todas as demais disciplinas, cursos e áreas do conhecimento do que chamamos de ciências humanas e sociais, como desnecessárias e que nenhum retorno traz ao contribuinte demonstra uma visão imediatista e alienada do papel das universidades.


Lamentável que a ignorância, o improviso, o preconceito e  a estupidez estejam a serviço de decisões governamentais de alta responsabilidade. Como sociólogo, mestre em sociologia e professor de universidade federal, mesmo aposentado, não posso me furtar e me  calar ante tamanha asneira vinda de pessoas com a responsabilidade para o presente e o futuro da educação brasileira.


Juacy da Silva, professor universitário, titular e aposentado UFMT, SOCIÓLOGO, mestre em sociologia, articulista e colaborador de diversos veículos de comunicação. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy
 

 

Pagina 6 de 342