Quinta, 09 Julho 2020 14:25

 

 

O número de indígenas que morreram ou se contaminaram pelo novo coronavírus tem crescido de maneira acelerada e quintuplicaram em apenas um mês.

 

É o que indica o último levantamento feito pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que nesta segunda-feira (6) apontava para mais de 11 mil infectados. Em 1º de junho, a Apib contabilizava 1,8 mil indígenas com o vírus, o que representa um aumento de mais de 500% em um mês.

 

Números que estão subnotificados e são ainda maiores afirma a indígena Raquel Aguiar, do povo Tremembé do Engenho,  do Maranhão, que também compõe a Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas. “Sem exageros, arrisco dizer que povos serão infelizmente dizimados se não propagarmos esse ecoar de socorro”, avalia Raquel.

 

A Apib informa ainda que mais de 122 povos indígenas foram afetados pela pandemia com 426 mortos. Raquel reforça, no entanto, que a realidade vivida por seu povo nas aldeias é mais alarmante e tem sido abafada pelas estatísticas oficiais. “Em suma, esses dados são completamente artificiais e não condizem com a realidade dos povos”, afirma.

 

Raquel destaca ainda que “o ápice do vírus nos territórios está ocorrendo agora”, no entanto, “autoridades de saúde já cogitam em diminuição de casos nas aldeias”.

 

Organizações e entidades indígenas têm denunciado que órgãos federais não têm adotado as providências necessárias para proteger as comunidades. Não há materiais básicos, como máscaras, água, sabão e luvas para lidar com eventuais casos nas aldeias. Nem há testes para que possam fazer o exame dos que estão com sintomas.

 

De acordo com pesquisa feita pela Abraj (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e o portal Transparência Brasil, dos R$ 13 bilhões alocados pelo governo federal no auxílio aos povos indígenas, apenas 39% foram usados. O levantamento apurou o período de 7 de abril a 17 de junho.

 

Política feita para passar a boiada e dizimar os povos indígenas

O presidente Jair Bolsonaro tem reafirmado sua política contra os povos indígenas e que beneficiam o agronegócio e os ruralistas. No ano passado, deu declarações de que se dependesse dele, não haveria mais nenhuma demarcação de terra indígena no país.

 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no vídeo da reunião ministerial de 24 de abril disse que passaria “a boiada” indicando a linha de pensamento do governo em aprovar projetos que atacam direitos dos povos indígenas por meio de reformas “infralegais” – atos que não estão totalmente de acordo com os mecanismos legais”, de “simplificação” e “desregulamentação” de leis ambientais.

 

Entre as alterações, está a que regulariza propriedades rurais em terras indígenas. Esta medida interfere na “Declaração de Reconhecimento de Limites”, permitindo invasão, a exploração e a comercialização de terras indígenas que ainda não estejam homologadas, o que era proibido.

 

No “passar a boiada” de Salles está também a medida de diminuição da distância entre áreas povoadas e as em que há pulverização de agrotóxico. Um perigo, porque aumentará o risco de contaminação de moradores de comunidades rurais, indígenas, quilombolas e até escolas em áreas rurais.

 

Em carta aberta assinada por povos originários de diversas etnias a declaração foi repudiada, com a exigência de que sua renuncia ao cargo.

 

Contra a política de Bolsonaro, vamos à luta!

Nos próximos dia 10, 11 e 12 de julho a CSP-Conlutas está convocado uma jornada de lutas que inclui a o repúdio à política do governo Bolsonaro que está dizimando os povos originários.

 

Em abril, povos indígenas de 22 etnias e de estados do Mato Grosso, Rondônia, Amazonas, Acre, Ceará e Maranhão lançaram um manifesto denunciando tais políticas diante da pandemia do coronavírus e a violência contra os seus territórios. Neste documento consta um plano emergencial construído por vários povos. Além desse plano mais geral, listado abaixo,  cada um dispõe do seu individual (povo ou aldeia), a partir da sua organização política e social.

 

Confira o plano emergencial:

 

1 – Garantia de alimentação para todas as aldeias;

 

2 – Implantar orçamento destinado para a SESAI (Secretaria Especial de Saúde), DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas) e para as CASAIs (Casas de Saúde Indígena);

 

3 – As ações de saúde para o combate à pandemia Covid-19 devem ser aplicadas na língua materna das etnias;

 

4 – Distribuição de kits de higiene pessoal e máscaras nas aldeias;

 

5 – Proteção dos territórios em conflito pela Força Nacional de Segurança e Policia Federal, independente da fase de regularização;

 

6 – Implantar Programa de Proteção para as lideranças indígenas ameaçadas;

 

7 – Agilidade na apuração dos crimes contra indígenas, em especial, aos cometidos recentemente na Terra Indígena Araribóia, Estado do Maranhão;

 

8 – Demarcação dos territórios.

 

Os indígenas fazem exigências para a proteção de aldeias pelo país, como ações de saúde pública especificas, garantia de alimentação, demarcação de territórios entre outras demandas.

 

Fonte: CSP-Conlutas

Quinta, 09 Julho 2020 14:16

 

As duas chapas que concorrem ao processo eleitoral para a diretoria do ANDES-SN, biênio 2020-2022, divulgaram uma carta conjunta ao movimento docente. No documento, as chapas 1  “Unidade para Lutar: em defesa da educação pública e das liberdades democráticas” e 2 “Renova Andes” posicionaram-se favoráveis à extensão do mandato da atual diretoria e pela realização do Conad Extraordinário para referendar tal prorrogação.


A carta destaca a importância do Sindicato Nacional, em especial nesse cenário de crise sanitária, social e econômica, e seu papel na defesa da categoria docente e luta contra o processo de desmonte dos direitos da classe trabalhadora e de ataque à democracia.  


“É com essa compreensão do papel político importante que o ANDES-SN desenvolve, que as duas chapas se posicionam favoráveis à realização do CONAD Extraordinário com pauta única para discutir e legitimar a Prorrogação do Mandato da Diretoria. Na nossa concepção, o CONAD deve cumprir a tarefa de, analisando a situação atual, provocada pela pandemia, examinar os prazos razoáveis de prorrogação do mandato da atual diretoria e as formas de garantir uma alternativa democrática e decidida sob crivo da base”, apontam as Chapas.

 

Os dois grupos fazem, ainda, um chamado à categoria para a unidade em torno dessa posição, “alinhada com o tempo histórico de luta possível desse momento tão adverso e ímpar na defesa das nossas bandeiras pela Educação, pela valorização do trabalho docente, por nenhum direito a menos e por democracia”.  Confira abaixo a íntegra do documento.

 

O 8º Conad Extraordinário acontecerá, em plataforma virtual, nos dias 30 e 31 de julho, com o tema “Prorrogação do Mandato da Diretoria Nacional”. As contribuições ao Caderno de Textos deverão ser enviadas ao email da secretaria (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.) até o dia 15 de julho e, devido ao curto prazo, não haverá anexo ao Caderno. Saiba mais aqui.  

 

CARTA DA CHAPA 1 E CHAPA 2 AO MOVIMENTO DOCENTE DO ANDES-SN

PARA PRESERVAR AS VIDAS, OS SERVIÇOS PÚBLICOS, AS UNIVERSIDADE E O NOSSO SINDICATO

PRORROGAÇÃO DO MANDATO DA ATUAL DIRETORIA COM REALIZAÇÃO DO CONAD EXTRAORDINÁRIO


As Chapas 1- Unidade para Lutar: em defesa da educação pública e das liberdades democráticas e, Chapa 2 - Renova Andes, inscritas para o processo eleitoral do ANDES-SN, biênio 2020-2022, vêm se dirigir ao conjunto de nossa categoria para expor posicionamento conjunto quanto a concordância com a prorrogação do mandato da diretoria do nosso sindicato nacional, bem como a realização de um CONAD Extraordinário para legitimar tal prorrogação.


Em abril de 2020, após suspensão do processo eleitoral e tendo em vista o quadro de agravamento da pandemia da COVID-19 no Brasil, as duas chapas já haviam se posicionado em documento conjunto enviado à Comissão Eleitoral Central, favoráveis a prorrogação do mandato da diretoria. O país ainda vivencia, neste momento, uma fase de expansão da pandemia que já registra mais de 60 mil mortes e uma interiorização da doença que chega às cidades menores. Essa situação impõe para as universidades a necessidade de manutenção de suspensão do semestre letivo, das atividades presenciais, pois temos um compromisso com a vida e não podemos fazer das nossas universidades lugar de risco e contágio.


O governo federal até o momento não apresentou nenhum plano efetivo de combate à pandemia, o que faz com que a doença tenha um período maior de contágio e expansão. Em meio a essa situação de calamidade, o Brasil encontra-se sem ministro da Educação e da Saúde o que revela a irresponsabilidade do governo federal em cuidar dos impactos da pandemia da COVID-19. Estamos numa conjuntura política, econômica, social e sanitária grave que impacta diretamente na classe trabalhadora, em especial nos seus segmentos mais precarizados, como o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras que, para tentar sobreviver, não tiveram direito ao isolamento social, sendo a população negra a maior parte desse segmento. Associado a esse descaso, temos vivenciado uma série de ataques à democracia que vão desde as ameaças aos poderes instituídos - judiciário e legislativo - até o ataque aos movimentos sociais e sindicais que se posicionam em defesa da democracia.


Frente a esse cenário precisamos agir no sentido de fortalecer o ANDES-SN para que possa defender nossa categoria e lutar contra todo o processo de desmonte de direitos da classe trabalhadora e de ataque à democracia.  É com essa compreensão do papel político importante que o ANDES-SN desenvolve, que as duas chapas se posicionam favoráveis à realização do CONAD Extraordinário com pauta única para discutir e legitimar a Prorrogação do Mandato da Diretoria. Na nossa concepção, o CONAD deve cumprir a tarefa de, analisando a situação atual, provocada pela pandemia, examinar os prazos razoáveis de prorrogação do mandato da atual diretoria e as formas de garantir uma alternativa democrática e decidida sob crivo da base. As alternativas que venham a ser apresentadas no CONAD devem ser objeto de reflexão, sempre tendo em vista assegurar que o ANDES possa, neste período extraordinário, desempenhar seu papel na defesa dos interesses da categoria e da democracia no país e, acima de tudo, mantendo seus princípios.

Dessa forma, além de socializar o posicionamento enquanto chapas que concorrem à direção do sindicato, fazemos um chamado à categoria para a unidade em torno dessa posição, alinhada com o tempo histórico de luta possível desse momento tão adverso e ímpar na defesa das nossas bandeiras pela Educação, pela valorização do trabalho docente, por nenhum direito a menos e por democracia.


Fora Bolsonaro e Mourão!


Viva o ANDES-SN!


Chapa 1 – Rivânia Moura
Mossoró, julho de 2020

 

Chapa 2 - Celi Taffarel
Salvador, julho de 2020

Quinta, 09 Julho 2020 14:11

 

O Ministério da Educação (MEC) lançou um protocolo de biossegurança com diretrizes para o retorno das atividades presenciais nas instituições federais de ensino. A portaria 572 foi publicada no Diário Oficial da União na última semana. A cartilha, disponível no portal do MEC, foi lançada mesmo sem que o país diminua os números de casos confirmados de Covid-19,  já são mais de 1,6 milhão de notificados e 64,9 mil mortes em todo o país.

De acordo com a pasta, o material tem como base as orientações do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Entre as diretrizes estão medidas de manter portas e janelas abertas para ventilação do ambiente, lavar as mãos com água e sabão ou higienizar com álcool em gel 70%. Para as instituições, o MEC recomenda que seja feita a aferição da temperatura de servidores, estudantes e colaboradores, na entrada da instituição e de salas e ambientes fechados, a disponibilização de termômetro, entre outras medidas. A cartilha também traz recomendações sobre como os estudantes devem utilizar o transporte público evitando o contato com as superfícies do veículo, como por exemplo, barras de apoio, catraca, leitores de bilhetes e cartões etc.

Segundo Antonio Gonçalves, presidente do ANDES-SN, as diretrizes, mesmo com princípios tecnicamente corretos, estão distantes da realidade da maioria das instituições brasileiras e da comunidade acadêmica que utiliza massivamente o transporte público. “O retorno para as atividades presenciais é precoce e colocará a vida das pessoas em risco. O protocolo não aponta o que o governo fará para que essas medidas sejam cumpridas, então o documento é inócuo na perspectiva de ser deslocado da realidade e de não indicar a fonte de recursos para a efetivação das medidas propostas. O texto também aponta desconhecimento da realidade concreta das instituições, que não têm condições mínimas para um retorno seguro das atividades presenciais, e da realidade das pessoas. Um exemplo é a orientação de que as pessoas não devem tocar em corrimões no transporte público, porém devido à superlotação não há como evitar o contato”, criticou. 

Após quase quatro meses de pandemia do novo coronavírus e, ainda, na ausência de vacinas e tratamento específico, governadores e órgãos públicos nacionais, estaduais e municipais estão se valendo, em especial, de medidas de isolamento, quarentena e distanciamento social para proteger a população.  Para Antonio, uma flexibilização das normas contra a Covid-19, neste momento, poderá acarretar um “efeito rebote” em lugares que já apresentam quadros de estabilidade. “A conduta do MEC é temerária, precipitada e descolada da orientação das autoridades sanitárias locais. Não é possível estabelecer uma regra única no país, pois estamos vivendo cenários distintos no Brasil. O nosso SUS é de gestão tripartite - governo federal, estados e municípios -, então não se pode aceitar que o governo federal desconsidere os diversos cenários da expansão da pandemia. As autoridades locais, de cada município, podem avaliar a situação e dizer em algum momento no futuro se há como romper ou não o isolamento social. E as instituições, dentro da sua autonomia, observando o cenário local é que devem determinar quais caminhos seguir e o momento do retorno presencial”, disse.

 

Pacote de dados


Junto com a portaria que prorroga até o dia 31 de dezembro a autorização de realização de aulas à distância pelas universidades federais, o MEC lançou medidas de acesso à internet para que estudantes de universidades e institutos federais possam acompanhar aulas à distância. De acordo com a pasta, a expectativa é que a licitação para contratação da empresa de telefonia que fornecerá o acesso, aconteça em 15 de julho. Já o acesso poderá ficar disponível em agosto. Para o presidente do ANDES-SN, o MEC tem se utilizado dessas táticas para pressionar a comunidade acadêmica. “O governo avança com o projeto de aligeiramento da formação através do ensino remoto que também é uma política que temos resistido. A nossa luta é em defesa da educação com qualidade e o ensino remoto é diferente de Educação à Distância (EAD) e, mesmo, a EAD não pode ser substitutiva ao ensino presencial”, ponderou.

 

Fonte: ANDES-SN

Quinta, 09 Julho 2020 14:01

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP
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               A língua portuguesa é repleta de palavras e expressões extraordinárias. “Notório saber” – ou seja, algo que é público, que é de conhecimento geral – é uma delas. Em muitos casos, pessoas que se tornam notórias também podem ser notáveis.

              No meio acadêmico, “Notório Saber” é a expressão legal e legítima qualificadora daquele docente que não cursou o doutorado de forma convencional, mas que demonstra possuir conhecimentos equivalentes àquele título.

           Para minha felicidade, no início de minha carreira, conheci colegas/amigos com esse perfil: eruditos, mesmo sem títulos. Sempre que pude, timidamente, estive por perto daquelas eminências que, de forma tão simples, perambulavam pelos corredores do antigo Instituto de Ciências Humanas e Letras, hoje, Instituto de Linguagens/Faculdade de Comunicação e Artes.

             No mesmo ano de meu ingresso (1987), chegou para o Departamento de Música, o docente Abel Santos Anjos Filho, hoje, reconhecido, artisticamente, por Habel Dy Anjos. Contudo, mais do que eu, até por conta de seu específico percurso acadêmico/artístico, ele soube como ser “orientado” pelo mesmo conjunto de docentes. Com eles, semelhante aos gregos antigos, Abel estava sempre “perambulando” e tendo lições absolutamente raras. 

             Pois bem. O longo preâmbulo acima serve para dizer que Abel Santos, desde 2016, vem pleiteando ser avaliado, como docente “Notório Saber”, dentro da UFMT, que dispõe de inquestionável arcabouço legal para tanto. Todavia, “inexplicavelmente”, Abel, até o último dia 07 de julho, havia recebido duas “portas grosseiramente fechadas” dentro da Instituição.

          O reparo dessas “inadequações administrativas”, que podem ter camuflado eventuais preconceitos espalhados pelo ar, enfim, ocorreu. Na data acima mencionada, Abel Santos, tendo tido imediata absorção de seu pedido junto ao Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, do Instituto de Linguagens, do qual tenho a honra de ser seu atual diretor, pôde expor à apreciação formal da Instituição o impressionante conjunto de suas obras.

          Em outras palavras, seguindo o rigor acadêmico e a ritualística das defesas de doutorado, de início, Abel Santos apresentou o resumo de sua longa produção, que contempla o plano científico, consolidado por incansáveis pesquisas bibliográficas e de campo, e o artístico, de constante apreciação pública.

              Após, sob a presidência de sua orientadora formal, a professora Dra. Simone de Jesus Padilha (IL/UFMT), seguiram-se as distintíssimas arguições dos seguintes doutores: Everton Almeida Barbosa (UNEMAT), Marta Cocco (UNEMAT), Roberto Vitório (FCA/UFMT) e Cláudio Alves Benassi (IL/UFMT). Cada qual a seu modo, na condição de docentes e artistas, mais do que arguir, prestou reverência ao colega avaliado, tamanha a importância e o aspecto indiscutível do altíssimo nível de seus trabalhos, que contemplam o tripé ensino, pesquisa e extensão.

          Terminada essa etapa, registro que a defesa pública (apresentada por meios virtuais) de Abel Santos é um registro histórico para a UFMT, pois sua produção acadêmico/artística é ímpar, como tem de ser uma tese, e de profunda qualidade; é de resgate; é de respeito às práticas culturais de nosso povo; é socialmente abrangente; é pedagógica... E tudo isso realizado com métodos científicos, lidos, compreendidos e aplicados ao longo de mais de três décadas.

            Mais: este momento ímpar pode ser, infelizmente, único. Esperando estar errado no tom profético, o fato é que, diante da realidade vivida por todos nós, dificilmente a UFMT terá a oportunidade, de tão cedo, conceder outro título de Notório Saber, pelo menos não em nossa área e áreas adjacentes do conhecimento. Esse comportamento acadêmico, tão valioso quanto o enquadramento piramidal da pós-graduação brasileira, é cada vez mais raro na docência universitária.

              Assim, meus efusivos cumprimentos ao Abel Santos Anjos Filho, pela pacienciosa construção de um conjunto considerável de importantíssimas obras. Igualmente, cumprimento o Programa de Pós-Graduação do Instituto de Linguagens, que soube compreender e respeitar o percurso de uma trajetória academicamente construída de forma diferente, mas de igual valor às trajetórias comumente pavimentadas.

               Agora, resta-nos esperar pelos novos encaminhamentos para a outorga do título, que é conferida por órgãos superiores da UFMT.   
 
Quarta, 08 Julho 2020 23:07

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Por Roberto de Barros Freire*

 

Há muito desconhecimento a respeito da Covid 19, mas há também algumas certezas. Não sabemos se haverá de fato uma vacina eficaz, apesar das inúmeras tentativas desenvolvidas pelo mundo; se a pessoa, uma vez contagiada, adquire imunidade, ou por quanto tempo pode durar essa imunidade; ou ainda, se descobriremos algum tratamento eficaz, alguma droga propícia, além de contar com os organismos que reagem bem ou sucumbem ao vírus, por razões que até agora não sabemos estabelecer ao certo. Por enquanto, há vários tratamentos, mas nenhum se mostrou inteiramente eficaz, nem há drogas comprovadamente eficiente contra a doença.

Entretanto, há uma certeza que existe desde o início da epidemia, e que só os tolos não perceberam ou negligenciam. O vírus se propaga pelo contágio através do contato humano, ou seja, uma pessoa passa a uma ou várias pessoas, conforme o contato que tenha e a suscetibilidade das pessoas ao Covid 19. E se não há certeza no tratamento, há a certeza de que a única forma de evitar o contágio é através do isolamento social, ou se for inevitável o contato, o mesmo deve se realizar com os utensílios de segurança, máscaras, luvas, lavagem das mãos, desinfecção constante, distanciando-se, evitando-se a aglomeração.

Aqueles que podem, devem a qualquer custo ficar isolados, confinados nos seus lares, evitando o contato humano. Há aqueles que não podem realizar isso, pois que de suas atuações dependem a sobrevivência de todos os demais, confinados e não confinados. É o caso do pessoal da saúde, dos transportes, dos supermercados, do abastecimento de alimentos, das farmácias, da polícia, dos postos de combustíveis, das oficinas mecânicas, dos bancos, das comunicações, esses profissionais são essenciais para que todos possam sobreviver, trabalhando ou confinados, e devem receber além da gratidão pelos préstimos, alguma recompensa monetária ou de prestígio pelos serviços prestados à população. Estão se sacrificando por todos e devem ser considerados os heróis contemporâneos.

É claro, que isso traz graves consequências à economia, que empobrece a nação, o Estado, a cidade, a população. Mas, querer abrir o comércio, as atividades não essenciais, em nome da sobrevivência monetária é um tiro na saúde pública, é um ato de morte a civilidade em nome do vil metal. Naturalmente, as falências, as dificuldades econômicas devem ser equacionadas, mas tal pode e deve ser sanada através de políticas públicas de financiamento e ajuda aos necessitados, de perdão de dívidas, enfim, de atos de política estatal para suprir as necessidades sociais e econômicas.
Também deve haver a doação dos mais ricos aos mais pobres. O Estado tem o dever de auxiliar a todos os prejudicados economicamente, que são muitos, do setor de entretenimento, lazer, cultura, das artes, os restaurantes, bares, o turismo, o esporte, os supérfluos, a moda, as academias de ginásticas, os cultos religiosos, a educação, a diversão, enfim, aquilo que não é essencial à sobrevivência material, mas que agrada a nossa existência espiritual e que merece existir como tudo, afinal a vida não pode resumir-se apenas ao trabalho e ao dever, mas tem seu lado de diversão e de satisfação que atende a outras partes da nossa existência que não é apenas física.

É preciso adquirir a consciência de que ou se contribui ao bem de todos ou ao prejuízo dos demais. Que os comerciantes queiram abrir seus negócios, que se possa frequentar esses estabelecimentos, a questão, no entanto, é se devemos. O que está em jogo não é o que podemos, pois podemos tudo, inclusive coisas erradas, mas sim o que devemos fazer, qual cota daremos para que o país passe pela pandemia com menos custos humanos. É claro que é tedioso ficarmos confinados, sem podermos encontrar a família e os amigos, sem poder se divertir com o que costumávamos nos divertir, sem passear, mas todos temos que dar nossa cota de sacrifício para que tenhamos o menor dano possível e no menor tempo. Se não pode ajudar na saúde, no transporte, na alimentação, na segurança, ajude não atrapalhando, não aumentando o número de contaminados, não contaminando outras pessoas.
Não amplie ou prorrogue o fim da epidemia, fazendo com que nunca cheguemos ao pico e ao declínio do contágio: fique em casa! Não contribua com a continuidade da doença! Contribua com o seu término!

 
*Roberto de Barros Freire
Professor do Departamento de Filosofia/UFMT
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Quarta, 08 Julho 2020 23:01

 

A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) é reconhecida nacionalmente como uma das primeiras do país – se não a primeira - a ter suas consultas para Reitoria com voto universal e paritário respeitada pelos governos. Essa foi uma conquista histórica das entidades representativas de docentes, técnicos e estudantes das universidades federais que sinalizava, já em 1982, a derrocada de 20 anos de ditadura militar e a reabertura democrática.

 

Trinta e oito anos depois, não haverá eleição na UFMT. Numa reunião conjunta de conselhos universitários realizada no dia 17/06, algumas pessoas, inclusive sem relação direta com o cotidiano da instituição, se sentiram autorizadas a atropelar a história da universidade. Na ânsia de atender o governo federal - que já deixou muito claro sua intenção de indicar para as Reitorias aqueles que se alinham politicamente, e não os escolhidos pelas comunidades acadêmicas -, os presentes formaram um colégio eleitoral para iniciar o que chamaram de processo eleitoral. Mas não é.

 

A reunião que atropelou a realidade da pandemia e a importância do debate sobre a condução da universidade pelos próximos quatro anos – que certamente serão muito difíceis -, também ignorou a relevância da vontade da comunidade acadêmica e das entidades representativas que conquistaram e garantiram a realização das consultas para a Reitoria por mais de 30 anos. Descrita por docentes como um “lamentável show de horror”, além de cerceamento, as entidades também relataram agressões verbais.

 

“Nós temos a compreensão de que esse processo está sendo forjado por vias autoritárias, no intuito de se constituir um processo eleitoral viciado que possa legitimar, com uma pseudo aparência democrática, a presença do interventor. Primeiro pela forma autoritária, desrespeitando a histórica conquista da UFMT, que em pleno regime militar realizou a consulta com a votação paritária. Segundo, no meio de uma pandemia na qual a preocupação é salvar vidas, e para isso estamos prorrogando data de eleição para vereadores, shows, olimpíadas, diversos eventos e processos eleitorais, a UFMT decide, de forma autocrática, instituir o colégio eleitoral por meio de uma reunião que não respeitou a tradição democrática de inscrições e debates, totalmente alheia às entidades representativas. Período de pandemia não é período de eleição. A universidade tem autonomia para postergar o mandato do atual reitor e, só após a pandemia, realizar as eleições conforme a tradição democrática conquistada, construída e defendida pela UFMT. Nós não precisamos que alguém de fora venha impor uma falsa solução”, afirmou a diretora da Adufmat-Ssind, Lélica Lacerda.

 

A diretora ressalta que autonomia universitária é muito mais do que o simples ato de votar. A votação, sem debate e sem exposição do contraditório, serve apenas para dar legalidade a algo. Legalidade, inclusive, citada pelo condutor da reunião do dia 17/06 como se não houvesse a prerrogativa constitucional de autonomia das universidades.

Além disso, a Adufmat-Ssind desconfia dos meios que a universidade dispõe para realizar o “processo eleitoral”. “Nós não confiamos nas ferramentas da universidade. Não temos segurança de que os resultados seriam fiéis. E mesmo se tivéssemos, como confiar em algum processo imposto de forma autoritária? Esse autoritarismo, essa agressão, recai sobre professores, técnicos e estudantes. Como acreditar nisso?”, questionou a professora.

 

Alguns pré-candidatos à Reitoria, que há meses dialogavam sobre suas propostas com a comunidade acadêmica, também retiraram as candidaturas, justamente porque desconfiam da forma como foi imposta a constituição do colégio eleitoral e da metodologia antidemocrática adotada para a escolha – não paritária, via conselho e online. No entanto, após a abertura do processo de candidatura nos moldes questionados pela comunidade acadêmica, curiosamente, surgiram dois candidatos que fazem parte do grupo flagrado num vídeo em que Abraham Weintraub, então ministro da Educação, garante que bastaria qualquer um deles estar na lista tríplice, independente da colocação, para ser nomeado. A visita do ex-ministro à Cuiabá foi em setembro de 2019.  

 

Quase 70 mil mortos... mas e daí?

 

Essa semana, o Brasil superou a triste marca de 67 mil mortes causadas pela Covid-19. Mais de 1,6 milhão de pessoas passam pela ansiedade de estar com a doença. No estado de Mato Grosso, mais de 20 mil casos confirmados e mais de 800 mortos, incluindo estudantes e uma docente aposentada da UFMT, a professora Marília Beatriz de Figueiredo Leite. Quem precisa se arriscar na rua já sabe: se precisar de UTI, não tem.

 

A universidade até contribui com a sociedade nesse momento, realizando estudos, produzindo informações, atendimentos psicológicos, álcool em gel, máscaras, mas por meio de iniciativas isoladas de alguns institutos e faculdades. O que as entidades defendem, no entanto, é que a administração da UFMT interrompa oficialmente qualquer outra atividade para empenhar todos os seus esforços nessa luta para salvar vidas. Levar adiante a farsa eleitoral neste cenário faz com que a UFMT reproduza o “e daí” de Bolsonaro, diante de milhares de mortos.  

 

Apesar dos fortes argumentos da comunidade acadêmica e da proposta de realizar a eleição depois da pandemia, já com data definida, e de forma democrática, pela primeira vez na história, a UFMT corre o risco ter uma consulta feita pelo colégio eleitoral, online, sem paridade.

 

O sindicato docente já declarou que não legitimará o processo e, em nota, afirmou que a quebra institucional do rito democrático estabelecido pelas entidades da UFMT é digna apenas de repúdio. Assim, insiste na dissolução imediata do colégio eleitoral estabelecido, bem como na nulidade da reunião do dia 17/06, propondo a prorrogação do mandato do atual reitor até a retomada das aulas presenciais, quando o processo eleitoral democrático poderá ser realizado. “A conjuntura não pode ser utilizada para que o comandante do conselho reproduza pensamentos de instituições pretensamente antidemocráticas que se estabelecem em nosso país”, afirmou a entidade em nota.

 

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Terça, 07 Julho 2020 15:10

 

A Contrarreforma Trabalhista de 2016 não apenas escancarou a hiperexploração dos/as trabalhadoradores/as e a vulnerabilização dos vínculos empregatícios, ela legalizou a precarização generalizada das relações de trabalho. Da prevalência do negociado sobre o legislado; da individualização negocial ao esboroamento dos direitos trabalhistas; da pejotização ao contrato intermitente; do esvaziamento da Justiça do Trabalho à Terceirização... enfim, de muitos recursos vale-se o capital para conter, calar e submeter os/as trabalhadores/as.


Do nosso lado, só a rebeldia coletiva bem (in)formada e a resistência insurgente da classe trabalhadora, na sua múltipla heterogeneidade, nos garante a força necessária para construirmos, coletiva e solidariamente, outras alternativas.


Assim, daremos o pontapé inicial com a discussão sobre a Terceirização.

Terça, 07 Julho 2020 15:00

 

O presidente Jair Bolsonaro promoveu 245 ataques contra o jornalismo e jornalistas nos primeiros seis meses do ano. É o que aponta o levantamento divulgado nesta quinta-feira (2) pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). São quase dez ataques ao trabalho jornalístico por semana, neste ano.

Do total de ocorrências, 211 foram categorizadas como descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a própria Federação. O monitoramento contempla declarações públicas do presidente em suas transmissões divulgadas no YouTube, em sua conta pessoal no Twitter, em vídeos de entrevistas coletivas em frente ao Palácio do Alvorada e transcrições de discursos e entrevistas disponibilizadas no portal do Planalto.

De acordo com a Federação, para além de números, os dados mostram há a construção da imagem dos veículos de imprensa e seus profissionais como “inimigos” do governo, por noticiar ações do Executivo ou a postura do presidente, com o objetivo de promover a descredibilização do trabalho jornalístico. 


Retrospecto


Entre os meses de janeiro e a primeira semana de março, antes do início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o presidente Bolsonaro se referiu ao trabalho da imprensa, por diversas vezes, como mentirosa, omissa, sem credibilidade ou confiabilidade. Bolsonaro afirmou que a imprensa atrapalha, é uma vergonha, deturpa, esculhamba, tripudia, produz notícias falsas e destrói reputações. No mês de fevereiro, profissionais de jornalismo também sofreram ataques misóginos, homofóbicos e xenofóbicos por parte do presidente.

Em 10 de março foi registrada a primeira ocorrência em que o presidente falou sobre a pandemia do coronavírus. Durante discurso em sua viagem aos Estados Unidos, Bolsonaro afirmou que a mídia propagava “fantasia”. A partir desse momento, o trabalho jornalístico na cobertura jornalística sobre a pandemia também virou alvo do presidente. Segundo o chefe do Executivo, “grande parte da mídia potencializou em cima desse evento” e que o povo “foi enganado” por governadores e “grande parte da mídia” em relação ao coronavírus.

Acusou ainda os veículos de comunicação de “fabricar” crises contra seus ministros e incentivar manifestações contrárias ao seu governo e, por diversas vezes, atacou verbalmente jornalistas durante coletivas de imprensa e entrevistas. Além disso, em frente ao Palácio do Alvorada, estimulou reiteradamente que seus apoiadores agissem com hostilidade à imprensa e aos jornalistas. 

Violência contra jornalistas


Desde o ano passado a Federação vem contabilizando e denunciando os ataques do presidente contra à imprensa, o que, para a entidade “estimulam a violência contra jornalistas em coberturas diárias”. Já são vários casos de jornalistas que foram atacados por apoiadores bolsonaristas durante o exercício de sua profissão. 


Em abril, em São Paulo, o repórter Renato Peters estava ao vivo quando teve o microfone arrancado de sua mão por uma apoiadora do presidente.  No mesmo mês, em Salvador, ao menos dois repórteres também foram perseguidos por apoiadores de Bolsonaro. Em Porto Alegre, Fortaleza, Belo Horizonte também foram registras violências contra trabalhadores de veículos de imprensa. Em Brasília, jornalistas e repórteres fotográficos foram agredidos em coberturas de manifestações antidemocráticas e também durante pautas que envolviam a presença de Bolsonaro. 

 

Ação Judicial


A Fenaj, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, o Instituto Vladimir Herzog, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e as organizações Repórteres sem Fronteiras e Artigo 19 protocolaram no na terça, 30 de junho, uma ação judicial contra a omissão do governo Federal em promover medidas de segurança para garantir a atuação de jornalistas. 


A ação lembra que os ataques são estimulados pelo tratamento abusivo do presidente e ministros contra profissionais de imprensa, e também pede indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 300 mil.

 

Fonte: ANDES-SN (com informações da Fenaj)

Segunda, 06 Julho 2020 14:51

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP
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               Se em passados distantes, “Marília” já foi de Dirceu e “Beatriz” já foi de Dante, Marília Beatriz – a de Figueiredo Leite – foi de todos e de todas que tiveram a rara oportunidade de conviver com um ser absolutamente ímpar, desses a quem aquele “anjo torto” pede que vá “ser gauche na vida”; por isso, nenhum amontoado de palavras dá conta de descrever, quem dirá de explicar um ser assim; e assim foi Marília Beatriz, que se foi...

               Em sua trajetória, semelhante à de seu pai, Gervásio Leite, Marília Beatriz foi advogada, professora e artista. Como tal, embora desenvolta em muitas das manifestações do mundo da arte, demonstrou sutil preferência pela literatura. Por este caminho, chegou à presidência da Academia Mato-grossense de Letras, sempre reverenciando os escritores mais antigos, mas convidando e aconchegando os de gerações mais novas.

             Nada por acaso. Logo que Marília Beatriz chegou a este mundo, seu adorado e decantado pai lhe passou sua herança: uma trilha aberta a ser livremente percorrida. E ela a percorreu. No percurso, desde cedo, achou pouco o chão; por isso, voou sempre que quis, para onde quis, como quis, com quem quis, mas acima de tudo, como é dito na canção, voou “na garupa leve de um vento macio” que a ajudava a soltar palavras a quem as quisesse pegá-las até que, bruscamente, tudo isso fosse interrompido.

               Todavia, a interrupção da existência de Marília Beatriz, ocorrida em 03/07/20, não será suficiente para torná-la esquecida pelos que a conheceram. Fui um desses premiados. Mas se alguém me perguntar quando e como conheci Marília Beatriz, não sei dizer. Não me lembro. Não que aquele primeiro encontro tivesse sido insignificante; ao contrário. É como se a Marília Beatriz já estivesse fazendo parte de minha vida há muito tempo; é como se qualquer detalhe tivesse sido dispensado para registrar um encontro entre dois irmãos. Os irmãos – simples e naturalmente – são e estão entre-e-para-si; e pronto.

               Minhas recordações de Marília Beatriz são todas tão carinhosas quanto saudosas. Ontem, revendo a homenagem que – por feliz arte do também ímpar Fernando Tadeu – a UFMT lhe prestou há poucos meses, pude ver novamente os detalhes que compunham a personalidade de Marília Beatriz. Acima de todos eles, inclusive do olhar, de que se diz ser a “janela da alma”, destacava-se o seu sorriso, sempre largo, solto, espontâneo, contagiante.

             Amalgamada ao seu sorriso, vinha a sua voz, ligeiramente rouca, mas sempre muito forte e certeira. Do som de sua voz, materializavam-se as palavras, estas, sim, essências de sua alma, de sua destemida e brilhante existência. Pela voz, explodia a vivacidade sempre juvenil de seu olhar inquieto, observador e revelador dos mais diferentes sentimentos humanos.


         Marília Beatriz brincava com as palavras. Imersa nessa brincadeira, ainda que inconscientemente, mesmo nos bate-papos informais, como os que tínhamos em algum café, os ensinamentos vinham voando pelo ar; tudo naturalmente. E vinham com a elegância típica e rara daqueles que falam como se estivem escrevendo um livro, mas não um livro qualquer, mas o livro mais importante de suas vidas.

              E os discursos de Marília?!

             Fossem aonde fossem pronunciados, seus discursos eram sempre emocionantes, envolventes, tocantes, aconchegantes, mas invariavelmente, com muita delicadeza, eles quebravam protocolos, provocando, muitas vezes, saborosas risadas. Naqueles discursos, sempre preparados com o maior respeito, fosse a um acontecimento, fosse a uma personalidade, as palavras, colhidas aqui e acolá, mesmo as mais triviais, pareciam ganhar roupas finas, verdadeiros trajes de gala. Eram aveludadas as suas palavras, mas, paradoxalmente, fortes e convincentes, como as palavras têm de ser, mas sem nenhum índice de agressão ao outro. Só elevação...

             “De repente, não mais do que de repente”, como uma inesperada “pedra no meio do caminho”, um vírus endoidecido, em seu insano e desnorteado percurso, fez dos pulmões de Marília Beatriz um alojamento para sua vida, retirando-a de nossas vidas, impondo a ela a força da “indesejada das gentes”. Mais: sem nos permitir sequer dar um adeus à Marília Beatriz, sequer uma despedida digna de sua altiva e cativante existência.

               E assim, mesmo sem querer, se foi Marília Beatriz, que nos deixou devastados, absortos, com o olhar jogado ao nada. Silenciosos. Saudosos.
 
Sexta, 03 Julho 2020 17:55

 

É com profundo pesar que a Adufmat-Ssind comunica o falecimento da Profª Marilia Beatriz de Figueiredo Leite, docente aposentada do Instituto de Linguagens (IL), ex-presidente da Academia Mato-grossense de Letras (AML) e uma das fundadoras da UFMT.
 
O falecimento ocorreu no início da tarde desta sexta-feira, 03/07/20, em decorrência da Covid-19.
  
Além da enorme contribuição teórica e prática à cultura de sua terra, Cuiabá, a professora Marília Beatriz também foi grande incentivadora da Associação dos Docentes (Adufmat-Ssind). Fazia questão de compartilhar com os colegas sindicalizados suas inúmeras atividades, e participava sempre que possível dos eventos do sindicato.  
 
Quem conheceu a professora Marília Beatriz sempre se lembrará da figura sorridente, alegre e interessada em todo debate capaz de fazer pensar. 
 
Aos colegas, amigos e familiares, a diretoria do sindicato expressa os mais sinceros sentimentos.  
 
 
Professora Marília Beatriz, presente!