Quarta, 05 Julho 2017 14:51

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

 

Na esteira do pensamento de Mikhail Bakhtin, todo busto, estátua, monumento etc. – antes de representar algo ou alguém no campo simbólico – não passa do material que o constitui: argila, cimento, madeira, bronze, prata, ouro... Assim, qualquer escultura não será, antes de tudo, mais do que um determinado tipo de material com determinado peso, que pode variar de poucos gramas até muitas toneladas, como, p. ex., a estátua do Cristo Redentor.

Se isso é verdadeiro, bustos, estátuas, monumentos espalhados por inúmeras cidades, antes de nos ajudar a contar histórias de lugares e de pessoas, portanto, antes de absorverem significado social para além de sua matéria, podem servir para qualquer coisa, inclusive como escudos contra situações indesejadas, como a violência urbana. Claro que em casos tais, as fortalezas seriam mais razoáveis; provavelmente, mais eficazes; seguramente, menos chocantes.

Mas por que essa introdução a este artigo?

Por conta do que ocorreu, há poucos dias, nos pés da estátua de Agenor de Oliveira, mais conhecido por Cartola, um dos maiores poetas de nossa Música Popular Brasileira: mãe e filha foram mortas numa troca de tiro entre policiais e traficantes.

Durante mais esse combate, câmeras mostraram dois soldados usando a estátua de Cartola para se proteger da munição inimiga, bem como revidar os ataques. Uma cena de guerra. A estátua fica próximo à Quadra da Estação Primeira de Mangueira, bem ao lado daquela comunidade.

                                                                                              

 (Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo)

 

Esse tipo de cena, cada vez mais recorrente, por si, já é algo inominável; quando ela ocorre num cenário em que uma personagem da paz – mesmo na condição de estátua, acostumada que foi a pensar com as palavras e brincar com as notas musicais – é obrigada a participar, ainda que simbolicamente, do evento, isso nos deveria fazer refletir sobre a dimensão da contradição diária a que estamos sendo empurrados a viver em nosso país.

Quando vi aquela cena tão triste, como outras tantas que se lhe antecederam e sucederam, sem contar as que estão por vir, imaginei um mundo quase sem porvir, pois estamos perdendo a vida para a violência generalizada, originada nos tempos coloniais, dos quais ainda não nos despedimos completamente.

  Diante de um mundo bonito que vai escorrendo pelos dedos, lembrei da “Exaltação à Mangueira”, de Enéas Brites e Aloísio da Costa:

Mangueira teu cenário é uma beleza... Todo o mundo te conhece ao longe,/ Pelo som de teus  tamborins/ E o rufar do seu tambor...”.

Lembrei de tanta gente. De Paulo César Pinheiro, vieram-me os “Nomes de Favelas”:

“O galo já não canta mais no Cantagalo,/ A água não corre mais na Cachoeirinha/ Menino não pega mais manga na Mangueira/ E agora que cidade grande é a Rocinha!/ Ninguém faz mais jura de amor no Juramento/ Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus/ Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres/ E a vida é um inferno na Cidade de Deus/ Não sou do tempo das armas/ Por isso ainda prefiro/ Ouvir um verso de samba/ Do que escutar som de tiro/ Pela poesia dos nomes de favela/ A vida por lá já foi mais bela/ Já foi bem melhor de se morar/ Hoje essa mesma poesia pede ajuda/ Ou lá na favela a vida muda/ Ou todos os nomes vão mudar”.

Por fim, lembrei do próprio Cartola, cantando Candeia:

“Deixe-me ir/ Preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar... Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar/ Eu quero nascer/ Quero viver...”.

Está difícil, caro Cartola. Até sua estátua corre o risco de não ficar em pé por muito tempo mais.

Quinta, 22 Junho 2017 09:31

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

 

Sem medo de errar, afirmo que a democracia é o melhor dos regimes sociais conhecidos. Contudo, paradoxalmente, é também o mais difícil de ser vivido. Do micro ao amplo, tudo é complexo.

Em meu local de trabalho, há quem me cause perplexidade por conta de atitudes antidemocráticas; têm dificuldades de acatar decisões aprovadas pelo coletivo. Com seres assim, não há argumentos que os modifiquem. Essa face egocêntrica é como se fosse a externalização de uma doença que circulasse pelas veias de seus corpos, diminuindo-os, por consequência, como profissionais e cidadãos. Impressionante.

Em âmbito mais amplo, também me impressiona ver que a maioria dos nossos políticos e séquitos imediatos seja tão antidemocrática. Digo isso porque não tolero ataques à imprensa e a jornalistas, ou seja, em geral, os primeiros alvos dos antidemocratas. Sobre a mídia e seus profissionais sempre caberá a crítica, mas em lugar correto. Nunca pode ser o ataque e/ou o cerceamento ao direito do outro de se expressar.

O parágrafo acima surgiu por conta do relato de Miriam Leitão, publicado em seu blog no jornal “O Globo”. Segundo ela, em recente voo de Brasília para o Rio, militantes do PT agrediram-na verbalmente. “Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo”, relata.

De minha parte, não saberia dizer quantas vezes já critiquei a Globo e a própria jornalista em pauta. Todavia, reconheço o direito que têm de pensar e comungar de ideais diferentes dos meus. A referida emissora e seus trabalhadores têm o direito de acreditar no programa neoliberal.

Como não poderia ser diferente, as grandes entidades do nosso jornalismo repudiaram aquele constrangimento. Com este artigo, também manifesto meu repúdio. Na condição de articulista, percebo aumentarem as ofensas verbais por parte de destemperados. Depois de artigos que escrevi, principalmente criticando o PT e/ou expondo opiniões sobre temas religiosos, também já fui constrangido. Esses temas são veredas perigosas para os jornalistas. Neles, podem estar escondidas verdadeiras tocais. É a ditadura da reza na mesma cartilha.

Não ter o pleno direito de opinar sobre aquilo que se pensa é agressão que só sente quem por ela passa. A cada novo artigo, me armo psicologicamente para o que possa vir. É raro quando ofensas verbais não vêm. Além delas, há o constante risco das agressões físicas. Isso tudo é retrocesso. Contra eles, todos devemos lutar.

Diante do ocorrido com Leitão, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, lamentou o constrangimento. Disse que o PT orienta a militância a “não realizar manifestações em locais impróprios”. Todavia, disse que a Globo é, “em grande medida, responsável pelo clima de radicalização e ódio por que passa o Brasil”.

Ao dizer isso, Hoffmann enfraquece a orientação que diz ajudar a fazer à militância petista. No mais, discordo de sua leitura. Sem santificar o jornalismo da Globo, o buraco é mais embaixo. O problema não está na forma/intensidade da exposição de nossas mazelas, como a corrupção, p. ex., mas nos atos praticados em si.

Em outras palavras, a questão não está na incidência e na virulência com que tais fatos possam ser publicados pela mídia, mas neles próprios. Nosso problema não é a mídia, não são os jornalistas, mas a corrupção, a desfaçatez, o desrespeito que nossa elite, incluindo os “donos” da legenda petista, tem imposto à sociedade.

Nesse caos, ser democrático parece ser uma arte cada vez mais difícil de ser exibida, seja no ar ou em solo.  

Quinta, 18 Maio 2017 10:10

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

 

De seu nascedouro até este instante, o Brasil produziu poucos intelectuais. Pior: vivemos um tempo de perdas dos últimos que ainda resistem ao tempo. Em breve, só teremos acadêmicos, que, por mais pós-graduados que sejam, não são necessariamente intelectuais.  

Nesse cenário de indigência do intelecto, perdemos o crítico literário, sociólogo e militante Antônio Candido. É menos um a nos ajudar na difícil trajetória de pensar, sentir e viver como seres humanos.

Para quem ainda não o conhecia, o Jornal Nacional (12/05) o apresentou. No limite, a matéria de Graziela Azevedo sobre a morte de Candido foi bem produzida.

De início, foi exibida uma antiga gravação. Nela, o ex-aluno e professor da USP caminha nas imediações da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Sobre sua atividade intelectual, em certo momento, Candido dissera:

Nós acabamos não sendo nem sociólogos nem filósofos. Nós utilizamos a sociologia e a filosofia para pensar a vida cotidiana. Eu dizia: é preciso vocês pensarem sobre os seus amores, sobre a fita de cinema que veem, sobre os acontecimentos do dia, sobre pintura. Isso que é filosofia: entender a vida”.

Dentre os que puderam participar de seu velório, destaco a fala de Marisa Lajolo, uma das referências no ensino da leitura em nosso país:

O que me marca muito na figura de Candido é a generosidade com que ele acolhia alunos, como eu, sem nenhum background maior cultural, mas que ele acolheu com muito carinho”.

Logo depois, a repórter registra o hábito de leitura que Candido tinha, e fala de sua trajetória de vida. Durante várias décadas do século XX, diz Graziela, Candido ensinou, escreveu e lutou “nas trincheiras da democracia, da justiça social e da igualdade. Chegou ao século XXI e não gostou do que viu. Antônio Candido estava triste com o Brasil e com o mundo”.

E ele tinha motivos. Candido foi um dos intelectuais da USP que ajudaram a fundar o PT, que se opunha à ditadura. Naquele instante, aquela luta – também dos intelectuais militantes – era dever cívico dos “anjos tortos”.

Do registro da tristeza de Cândido na entrada deste século 21, sua filha Marina de Mello e Souza diz que gostaria de que o pai fosse lembrado como o símbolo do contrário do que acontece hoje:

A morte de um homem feito Antônio Candido é um símbolo que representa, primeiro, um mundo que acabou, de esperança, de sonho, de crença na igualdade, que não aconteceu”.

Na sequência, para atenuar essa fala pesada de Marina, a repórter diz que “Candido era otimista e gentil. Foi assim com a vida, mesmo no nosso estranho século, e com a literatura brasileira, que estudou e amou”.

Correto. De nossa literatura, Candido era ciente de suas limitações. Todavia, dizia ser “é ela, não outra, que nos exprime”.Por isso, precisava ser amada.

Já com a vida, sua tristeza poderia ser resumida e compreendida apenas na própria edição do telejornal que anunciara seu falecimento. Ali, nos inteiramos dos ataques cibernéticos em quase cem países do planeta, da corrupção também no BNDES, do casal de publicitários delatando crimes de dois ex-presidentes da República, ambos petistas; do petista Antônio Palocci se preparando para delatar a corrupção de seu partido, de Trump demitindo e ameaçando ex-diretor do FBI para não fazer vazamento de gravações que comprovem seu envolvimentos com autoridades russas...

No dia anterior à sua morte, o maior líder do PT, Lula, prestara depoimento no primeiro dos cinco processos dos quais é réu.

Convenhamos. O “requiescat in pace” é mesmo muito difícil.

Segunda, 15 Maio 2017 15:49

 

 

Na manhã do dia 15 de maio, a Administração Superior da UFMT, os CA, o DCE, e os sindicatos dos técnico-administrativos (SINTUF) e dos docentes (ADUFMAT) ofereceram aos calouros de 2017 uma emocionante recepção, realizada no Teatro Universitário da Instituição, que esteve, como nunca, superlotado.

De forma descontraída, discursos breves, mas todos qualificados, foram proferidos pelos representantes que compuseram a mesa. Cada qual ao seu modo, todos destacaram o momento difícil pelo qual passa o nosso país. Contudo, todos apontaram a luta como necessária para suplantarmos as dificuldades.

Depois dos discursos, a manhã foi repleta de qualificadas atividades artísticas, muitas das quais oferecidas por valorosos colegas do Departamento de Artes da Faculdade de Comunicação e Artes. Cantar o “Hino Nacional” ao som da viola de cocho, tocada por Habel dy Anjos, é ímpar. É coisa nossa. Tem se tornado a cara da UFMT em diferentes momentos.

E tudo foi feito, embora dentro de um dos melhores teatros do país, com insuficiente estrutura técnica de som. Nessas condições, apresentaram-se músicos de alto nível. Ouvimos violões, violinos, violoncelos, flautas, clarinete... Vimos uma linda apresentação da garota Ana Clara, que há pouco, expôs seu talento nacionalmente em um programa musical de televisão.

Mas por que destaquei a deficiência da estrutura de som?

Porque isso não foi impeditivo para a juventude que esteve no Teatro Universitário apreciar tudo, e da forma mais educada possível. A cada apresentação, as fisionomias dos jovens, compenetrados, demonstravam a satisfação de estar ali, ouvindo aquelas obras, verdadeiras raridades. Logo, nada do que ouviram se aproximava de algo chamado “50 reais”. Ao contrário. Ouviram tango, milonga.. Ouviram Villa-Lobos, incluindo parte de suas Bachianas Brasileiras e o “Trenzinho caipira”. Ouviram um finíssimo e desconhecido repertório para muitos. Por fim, ouviram, também respeitosamente, o som trazido por alguns indígenas que já estão frequentando a Instituição.

Diante dessa manhã mágica que vivemos na UFMT, faço publicamente um pedido aos acadêmicos representantes dos CA e DCE: além da luta pela qualidade constante das atividades acadêmicas, realizem com frequência esse tipo de atividade cultural. Façam festas. Muitas. Isso faz parte da vivência universitária. Isso é maravilhoso, mas não deixem cair o nível do repertório de suas festas. Façam como os antigos latinos: otium cum dignitate; ou seja, no tempo livre, dignifiquem o ócio. Em seus encontros festivos, dignifiquem-se.

Assim, apostem nesse momento vivido nesse 15 de maio e busquem nossos valores em todos os campos de nossas artes. Temos belos cantores, magistrais artistas plásticos, grandes escritores, encantadores atores, dançarinos incríveis, fotógrafos geniais, artesãos fantásticos... Somos ricos no universo das artes: as folclóricas, as populares, as eruditas... Deixem as artes fazerem parte de suas vidas.

Que nas festas organizadas por vocês seja banido o interesse comercial que, necessariamente, proporciona espaço a manifestações grosseiras, tão presentes em tantas “músicas” ditas “universitárias”. Nesse tipo de repertório, embute-se o que há de pior para a formação das novas gerações. Nessas músicas sem a menor qualidade, encontram-se a apologia da bebida alcoólica para curar melancolias, a vingança contra eventuais traições, o desrespeito completo contra as mulheres, a consolidação do machismo. Enfim, tudo o que é vil está presente nessas “músicas”, audaciosamente, chamadas de “universitárias”. Refutem esse lixo.

Não compactuem com isso. Rompam com o baixo nível tão presente em tantos espaços de entretenimento. Enfrentem, de fato, e não só nos discursos, a luta pelo respeito à diversidade, incluindo a diversidade cultural. Sejam, enfim, universitários qualificados.

É o meu desejo. É o meu pedido. É que espero sempre de nossa juventude.

Saudações

Roberto Boaventura da Silva Sá

Professor da Área de Literatura da UFMT

Diretor do Instituto de Linguagens da UFMT

 

 

 

Quarta, 10 Maio 2017 14:02

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Em recente colação de grau de que participei, vimos renovada a importância da literatura. Todos os oradores lançaram mão de fragmentos literários. Claro que, com a força da internet, gafes ocorrem também nesses momentos. Ali, p. ex., um acadêmico citou, em alto e bom som, um fragmento “de um poema do escritor português José Saramago”.

Na hora, um susto. Saramago era brilhante, mas prosador, não poeta. Mais: a essência da citação parecia louvar a figura de Deus. Detalhe: Saramago era ateu convicto. Nem em pesadelo, ou mesmo com faca no pescoço, ele escreveria os versos citados.

Em contrapartida, na mesma cerimônia, no final de outro discurso, proferido de improviso, Manoel de Barros salvou uma oradora. Depois de muito dizer, mas quase tudo sem nexo, o poema manoelino serviu como santo remédio aos cansados ouvidos da plateia.

Por falar em santo remédio vindo da literatura, chego ao cerne deste texto, que surgiu por conta da matéria “Um em cada três brasileiros tem um parente ou amigo assassinado”, exibida pela Globo no telejornal “Bom dia Brasil”, edição de 08/05/2017; ou seja, com base em resultados de pesquisas do Datafolha, cerca de 50 milhões de pessoas já perderam amigos ou parentes para a violência no Brasil.

Já no início da matéria, a seguinte informação: “Em uma década, o homicídio no Brasil cresceu mais de 20%”. Na sequência, foram exibidos o depoimento e a dor de brasileiros que perderam entes para esse tipo de violência. Das vítimas, 64% eram jovens e negros. Mais: em cada dez cidadãos, um diz conhecer alguém assassinado por agentes de segurança, policiais e guardas municipais.

Para a “redução da carnificina em nosso país”, o repórter diz que os especialistas apontam a necessidade de ações conjuntas dos munícipios, estados e União, o que ocorre de forma precária.

Para Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, faltam políticas públicas para prevenir a violência, punir os criminosos e acolher os parentes das vítimas. Muitas vezes, após traumas advindos da violência, sobreviventes abandonam a escola e/ou trabalho, quando não, ambos. O caminho das drogas acaba sendo refúgio para um contingente significativo de pessoas.

Na falta de políticas do Estado, ONGs acabam fazendo esse papel. De uma delas, o entrevistado é Marcos Lopes, um ex-usuário de drogas que fundou o Instituto Projeto Sonhar. Seu depoimento – que não imputa a Deus sua recuperação – é tão importante quanto comovente:

O que me salvou e me fez um cara não-violento foi a literatura, a escola, a educação. Por isso, as mesmas armas que eu tive pra me livrar daquela situação, eu uso com os meus meninos hoje: escola, família, literatura. Eu acho que é o caminho que salva, que resgata”.

Diante desse depoimento, como professor de Literatura, disciplina arrancada da Base Nacional Curricular Comum, para ser diluída nas aulas de Língua Portuguesa, só me restou marejar os olhos e sentir um nó na garganta, pois – assim como Marcos Lopes – não tenho dúvidas de que a escola, enfatizando a literatura, é remédio essencial para todos os nossos males sociais. Contudo, no Brasil, a Literatura já é disciplina morta, como mortos são tantos brasileiros, ainda que vivos.

Em tempo: na mesma colação de grau acima referenciada, houve uma colega que em seu discurso fez importante apologia da literatura para a edificação de nossas vidas. De minha parte, penso que uma dose de literatura por dia – de manhã, à tarde ou à noite – já nos elevaria como seres humanos.

Quinta, 04 Maio 2017 10:48

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Das coisas que gosto, a música – principalmente aquela de letra instigante – ganha destaque. Ouço música todos os dias, inclusive o “Som-Temporâneo”, ou seja, “os mais novos sons e as novas caras da nossa MPB”, conforme vinheta da Rádio Senado.

Todavia, do que tenho conhecido, pouco tem conseguido me cativar. Quase tudo dispensável. Mas como nosso país é imenso, não descarto ignorar pérolas que ainda não chegaram aos meus ouvidos. Se houver, pérolas, perdoai-me!

E é em meio a esse cenário de “inspiração ranzinza” – lembrando a escritora Hilda G. D. Magalhães, que vai na mesma linha do “Pneumotórax” de Manuel Bandeira – que acabamos de perder uma das maiores referências de nossa MPB. Mais do que um cantor, perdemos um compositor com porte de poeta maior. A América Latina perde um de seus filhos conscientes da terra em que nascera.

No último dia 30/04, o “rapaz latino-americano/ Sem dinheiro no banco/ Sem parentes importantes/ E vindo do interior...”, chamado Belchior – que já havia se afastado do circuito artístico-cultural –, encerrou sua participação na vida.

Agora, resta-nos rever seus poemas musicados. E suas composições abrangem diferentes aspectos: vão das lembranças da infância, das angústias inerentes à juventude, incluindo o medo de avião, até reflexões políticas acerca do período que se sucedera ao golpe militar de 64.

Para o Brasil, o cearense Belchior chegou pela voz de Elis Regina, que, em 1962, gravou “Mucuripe”, canção composta em parceria com Fagner, que lembra os belos textos de Dorival Caymmi sobre o mar:

As velas do Mucuripe/ Vão sair para pescar/ Vou mandar as minhas mágoas/ Pras águas fundas do mar (...) Vida, vento, vela, leva-me daqui”.

Mar que não estava para peixes, posto terem de nadar contra a maré da ditadura:

“...Mas sei/ Que tudo é proibido/ Aliás, eu queria dizer/ Que tudo é permitido/ Até beijar você/ No escuro do cinema/ Quando ninguém nos vê...

Da certeza de tudo ser proibido, de tudo ser vigiado por “...hipócritas, disfarçados, rondando ao redor”, conforme registrariam Bob Marley/Gilberto Gil, em “A Palo Seco”, Belchior marcava bem a década dos anos 70, que trazia tantas crueldades:

Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo em que você sonhava/ De olhos abertos, lhe direi:/ Amigo, eu me desesperava/ Sei que assim falando pensas/ Que esse desespero é moda em 76/ Mas ando mesmo descontente/ Desesperadamente eu grito em português...”

Hoje, sem Belchior para gritar em português, ou em qualquer outra língua que fosse, o desespero deve ser de todos os brasileiros que estão vendo ressurgir em tanta gente o abominável gosto pelo regime militar.

Nesse sentido, já fazendo parte dessa campanha horrenda, dias atrás, recebi duas mensagens das mais cruéis. Em uma foto, na Praia de Ipanema, uma legenda criada pelos defensores da volta da ditadura diz: “Na foto de 1979, dá para ver claramente Caetano e Regina Casé sofrendo torturas inenarráveis”.

Na outra, uma montagem tão esdrúxula quanto cruel traz uma foto dos Doces Bárbaros (Bethânia, Gal, Caetano e Gil), também em uma praia. No plano verbal, é dito: “Na época da ditadura ‘Os dias eram assim... Na praia, sendo barbaramente oprimidos pela ditadura”.

Que ironia estúpida! Que saudosismo desumano! Que imbecilidade!

Pior é saber que, neste cenário, estamos perdendo quem, partindo de suas experiências, podia dizer poeticamente que ainda “...há perigo na esquina/ (que) eles venceram e  (que) o sinal está fechado pra nós/ que somos jovens...”.

Quinta, 27 Abril 2017 09:32

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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Novamente, estamos próximos de mais um 1º de maio. Este ano, ele vem com uma novidade na terra dos contrastes impensáveis, tão bem registrados pelo estudioso francês Roger Bastides há algumas décadas.

Esse 1º de maio chega empacotado em uma trapaça política chamada Reforma Trabalhista, que o governo quer vê-la aprovada a qualquer custo e o quanto antes. Seus defensores dizem se tratar de uma proposta moderna, promotora das flexibilizações que só trariam vantagens na relação patrão-empregado. Que todos sairiam ganhando.

Ledo engano. Essa relação é sempre desigual. E quando os parâmetros saem das mãos das decisões coletivas, como já registrou Marx, os trabalhadores só perdem. Daí a necessária unidade classista. E é essa unidade que essa “reforma” pretende desmanchar e/ou diminuir sua força. Mas, embora o tema merecesse e o momento fosse oportuno, não tratarei disso diretamente.

Também embora merecesse, não falarei do recente massacre de trabalhadores ocorrido em terras mato-grossenses, tão contrastantes quanto em tantas outras partes deste imenso país; aliás, historicamente, banhado de sangue dos mais fracos.

Portanto, mesmo em clima de manobras e ludíbrios políticos contra a classe trabalhadora, bem como de estarrecimento e dor, no que tange à atrocidade cometida contra quase uma dezena de trabalhadores assentados no norte de MT, tratarei de um trabalhador em especial; um trabalhador das artes, mais especificamente de nosso panorama musical. Farei alguns comentários acerca de Alfredo da Rocha Vianna, um funcionário dos Correios, mas também um flautista renomado do século XX, que sempre nos deixou de queixo caído. Falarei de Pixinguinha.

Este recorte se dá por um motivo: no último dia 23 de abril foi comemorado Brasil afora o Dia do Choro, uma das nossas mais lindas modalidades musicais. Essa comemoração se dá por conta de se acreditar que, há 120 anos, nascera o nosso Pixinguinha. Na verdade, seu nascimento teria sido no dia 04 de maio de 1897. Perante seu talento, isso pouco ou nada importa.

Das composições de Pixinguinha, há muitas que já se tornaram antológicas. De todas, aquela melodia de “Meu coração, não sei porque, bate feliz...” parece ser imbatível. Mesmo contra todas as adversidades, “Carinhoso” e outras tantas composições vão superando a força do tempo e as constantes intempéries, verdadeiras e monstruosas pedras no meio do caminho de nossa arte musical maior. Mas como já fiz entender, Pixinguinha não foi apenas “Carinhoso”; foi também um ser humano atento e sonhador de um “Mundo Melhor”, título de uma música que compôs em parceria com Vinícius de Moraes, autor, dentre tantas, de “Operário em Construção”.

Desse casamento, saíram versos como os que seguem:

Você que está me escutando...// Preste atenção, meu ouvinte// O negócio é o seguinte// A coisa não demora// E se você se retrai// Você vai entrar bem, ora se vai// Conto com você, um mais um é sempre dois// E depois, bom mesmo, é amar e cantar juntos// Você deve ter muito amor pra oferecer// Então pra que não dar o que é melhor em você?// Venha e me dê sua mão// Porque sou seu irmão na vida e na poesia// Deixa a reserva de lado// Eu não estou interessado em sua guerra fria// Nós ainda havemos de ver// Uma aurora nascer// Um mundo em harmonia...”.

Assim, se tomei um trabalhador da música para lhe prestar homenagens, ele, junto com Vinícius, retribuiu a homenagem, fazendo uma convocação a todos para percorrerem os caminhos de “um mundo em harmonia”; enfim, de um “mundo melhor”.

Quinta, 20 Abril 2017 10:10

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

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No Brasil de hoje, estarrecimento e indignação formam o par perfeito daquilo que todo cidadão informado sente.

 

Como se fossem partes de capítulos de uma novela sem-fim, a mídia tem exibido – a cada momento – cenas monótonas de agitadas e abrangentes delações: de sindicalistas a membros de tribunais de contas, nada/ninguém parece faltar. O descrédito em nossos políticos é imenso. Todavia, mesmo imersos nesse cenário de decadência e descrença gerais, não temos o direito de legar às próximas gerações algo ainda pior.

 

Dito isso, com todo o respeito a um conjunto de leitores de meu último artigo –  “Os Dias Eram Assim” –, mas não posso me calar diante de discursos assustadores que li em um dos sites onde meu artigo foi publicado. Portanto, continuo o diálogo.

 

Naquele artigo, disse que a supersérie da Globo, “Os Dias Eram Assim”, que estreou dia 17, tem como um dos objetivos mostrar a crueldade do regime militar. Logo, a emissora poderá estancar o crescimento nas pesquisas de candidatos à presidência da República adeptos do militarismo/autoritarismo, como é o caso, p. ex., de Jair Bolsonaro.

 

Antes de tudo, penso que o leitor que faz esse tipo de defesa, só o faz por desconhecer os porões dos golpistas de 64. Não quero crer que ser humano algum, em sã consciência, possa defender o indefensável. Só o desconhecimento poderia sustentar essa postura desumana.

 

Quero pensar que, se esses leitores tivessem o cuidado de assistir aos diversos filmes, de ouvir e entender as incontáveis letras das músicas, os poemas, as peças de teatros e outras manifestações produzidas sobre o tema “ditadura/golpe militar”, eles compreenderiam, como tão bem compreendeu o escritor J.J. Veiga, a real dimensão das “Sombras de Reis Barbudos”, obra atualíssima.

 

Dito isso, oponho-me às considerações desses leitores, mas, sobretudo, a duas delas. Uma veio do Leitor ao qual chamarei 1:

 

“...Geisel foi profético ao dizer: ‘se é vontade do povo brasileiro, promoverei a abertura política, mas chegará um tempo que o ‘povo’, e não anarquistas, sentirá saudade do regime militar, pois muitos desses que lideram o fim do regime não estão visando o bem do povo, mas sim seus próprios interesses".

 

Pois bem. “Muitos” não são todos. Essa “profecia” pode – com o passar do tempo e com lições do presente – nunca se materializar na totalidade. É nossa tarefa a luta contra os oportunistas, e não a acomodação com o atual estágio. A meu ver, são covardias a não-luta e a entrega de uma país a um regime de força. As marcas disso são de longo alcance e inimagináveis.

 

Já o Leitor 2, possuído pelo discurso de Bolsonaro, diz que “A História (com H) dirá a verdade. Isso é inevitável, pode haver mil petebas ou viúvas de Fidel para atrapalharem, mas a sua marcha é inexorável. Cabe às próximas gerações dizer qual o lugar de Ustra na História...”

 

Antecipo-me às próximas gerações e digo o óbvio: o lugar do Sr. Ustra, não fosse já o cemitério, deveria ser a prisão, e de preferência até sua morte. Sua desumanidade é pra poucos. Por isso, nenhum ser humano, pelo simples fato de ser humano, poderia lembrar desse senhor com o mínimo de apreço que fosse. Essa lembrança extrapola as dimensões do político. Toca na apologia de criminosos que vestiram fardas.

 

Para encerrar, conclamo a todos para que jamais abramos mão do Estado de Direito. Se o Estado de Direito não está tão direito, lutemos por usa efetivação. Se fizermos isso, as gerações futuras já poderão sentir orgulho das gerações passadas.

Quarta, 12 Abril 2017 15:28

 

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

 

Na história das telenovelas brasileiras, 1989 foi marco por conta de dois trabalhos da Globo: “O Salvador da Pátria” e “Que Rei Sou Eu?”. Só para lembrar: novembro daquele ano, o Brasil elegeu, de forma direta, o primeiro presidente após o golpe militar/64.

Na primeira das telenovelas, em horário nobre, de 9 de janeiro a 11 de agosto de 1989, Sassá Mutema – um camponês analfabeto, honesto e cheio de idealismo – chegou ao poder de sua cidade e, por ele, logo foi corrompido. A analogia com Lula, que ainda representava um projeto popular de governo, era explícita. Na extensão disso, a voz de Gilberto Gil, em delicada canção do tema de abertura – "Amarra o Teu Arado a Uma Estrela" –, fazia o papel de ligar tudo ao PT e ao MST. A “estrela” do poema-musicado de Gil foi o principal dos signos utilizados.

Quase que simultaneamente – de 13 de fevereiro a 16 de setembro de 1989 –, no horário das 19 horas, o país assistiu à rainha Valentine assumir o trono de Avilan, após a morte do rei Petrus II. Todavia, ele deixara um filho bastardo que havia tido com uma camponesa. Sem ter um herdeiro, os conselheiros colocam um mendigo no trono, posando como o verdadeiro sucessor. Novamente, a mesma analogia estava estabelecida; assim, abortava-se, naquele momento, um projeto político que se contrapunha ao neoliberalismo.

Hoje, estamos em ano precedente a novas eleições presidenciais. Outra vez, a Globo entra em ação. Todavia, pasmem, agora, de forma providencial. Quem diria!

No próximo dia 17, no horário das 23h, a citada emissora levará ao ar o primeiro capítulo de sua mais nova supersérie “Os Dias Eram Assim”, título extraído da engajada canção “Aos nossos filhos” de Ivan Lins e Vitor Martins, e imortalizada por Elis Regina: “Perdoem a cara amarrada/ Perdoem a falta de abraço/ Perdoem a falta de espaço/ Os dias eram assim...”.

Em meio a miséria cultural alimentada pela mídia, só esse resgate artístico/histórico já seria motivo de comemorar. Mas há mais a ser observado: a intenção que pode estar por trás da realização dessa produção; qual seja, uma interferência política.

Partindo da mesma referência do filme “Pra frente Brasil” (1982) de Roberto Farias, o enredo dessa supersérie é bem marcado: 21 de junho de 1970, data em que a Seleção Brasileira de Futebol, no México, tornou-se tricampeã mundial da Copa do Mundo.

Enquanto a massa vibrava com a façanha da “seleção canarinho” (assim era chamada nossa seleção), um conjunto de brasileiros, assim como o irmão do Henfil, simplesmente sumia em tantos “rabos de foguete”. O regime militar expunha sua força mais brutal possível. Atrocidades cometidas com quem fosse identificado como subversivo/comunista eram de arrepiar. A tortura abafava as consciências críticas. Aos descontentes, o convite era explícito: “Brasil: ame-o ou deixe-o”.  

É nesse clima de violência extrema dos militares que as personagens de “Os Dias Eram Assim” apresentar-se-ão. Logo, a emissora trará explícita mensagem política – repito, providencial – de repulsa a qualquer candidato à presidência da República que possa ser identificado com esse tipo de regime.

Ao fazer isso, a emissora pode estar tentando apagar sua imagem sempre negativa, carimbada durante o regime militar de 64 e anos subsequentes. Mais: pode contribuir para que o povo brasileiro pense bem antes de dar aval político a candidatos do tipo Bolsonaro. E convenhamos, o risco é grande, pois o cenário político-partidário está em estágio de putrefação como “nunca antes visto na história deste país”.

Segunda, 03 Abril 2017 14:09

 

“Vai, meu irmão

Pega esse avião

Você tem razão de correr assim

Desse frio, mas beija

O meu Rio de Janeiro

Antes que um aventureiro

Lance mão”

(Toquinho, Vinícius e Chico)

 

Da epígrafe acima, sugiro que ao lê-la seja feita a troca do Rio de Janeiro, lá referido, pelo nosso espaço sindical, ou seja, a ADUFMAT-Seção Sindical do ANDES-SN, que se encontra em campanha eleitoral para o biênio 2017-19.

Duas chapas estão na disputa. A Chapa 1 (“ADUFMAT DE LUTA: AUTÔNOMA E DEMOCRÁTICA!”) é (re)conhecida por ser, de fato, de constante luta em nossa entidade. A Chapa 2 (“Inovação e Inclusão em Foco”) parece mais ser uma junção de colegas que – de uma hora para outra – resolveram se aventurar no espaço sindical.

De antemão, alerto: em tempo de tantas dificuldades, não podemos errar nosso voto nessas eleições. Os sindicatos combativos são importantíssimos em momentos tais. No caso em pauta, fragilizar neste momento a ADUFMAT é jogar a categoria que representa em espaço ainda mais enfraquecido.

Mas como acertar o nosso voto?

Primeiro, procurando informações do histórico dos componentes das duas chapas no cotidiano de nossa entidade, bem como na atuação profissional de cada um em seus departamentos. Nessas horas, toda informação que se tiver é fundamental. Depois, comparando o material de campanha. A diferença é brutal. Ela se explícita em atos concretos dos candidatos; por consequência lógica, essa abissal diferença das práticas sindicais de cada um se reflete em toda linha do material de campanha de ambos os agrupamentos.  

De minha parte, como tive o privilégio de conhecer ao longo de três décadas praticamente todos os componentes de ambas as chapas, declaro publicamente, com muita tranquilidade, meu voto na CHAPA 1.

Feita a declaração de meu voto, passo a expor alguns dos motivos concretos dessa opção:

Começo trazendo à tona a coerência do título da Chapa 1: “ADUFMAT DE LUTA, AUTÔNOMA E DEMOCRÁTICA”.

Desse registro, tomo um capítulo bem recente de uma longa novela que começou em uma Assembleia Geral (AG) da Adufmat, lá pelos idos 1993 ou 94, quando eu tive a honra de ter presidido nossa entidade sindical: a ação dos 28,86%.

Na mais recente tentativa de atrapalharem judicialmente o recebimento desse direito já adquirido, o atual presidente da Adufmat, professor Reginaldo Araújo, candidato à reeleição pela CHAPA 1, junto com docentes combativos que sempre estão lhe dando apoio, foi para o enfrentamento concreto com a reitoria da UFMT, demonstrando força na LUTA e plena AUTONOMIA de seus atos junto à Administração Superior. LUTA E AUTONOMIA respaldadas pelas decisões DEMOCRÁTICAS de nossas AG, das quais raramente me ausento.

Nesse sentido, reforço que o Professor Reginaldo Araújo tem se demonstrado ser um docente que exercita a democracia na UFMT. Logo, continuou a lutar pela extensão dos 28,86% PARA TODOS, e não apenas para os mais antigos das listas, como queria um grupo, por medo de que todos perdessem a ação, caso os professores contratados mais recentemente fossem incorporados à ação. Nunca os candidatos da CHAPA 1 e seus apoiadores cederam a essas pressões, que não foram poucas. Assim agindo, todos estamos recebendo esse direito conquistado. É uma vitória da Adufmat, capitaneada, repito, pelo professor Reginaldo.  

Portanto, não têm faltado ações concretas por parte do candidato Reginaldo Araújo – conhecido por mim há mais de vinte anos, desde quando fora vibrante discente do curso de História – para a manutenção desse importantíssimo direito adquirido. No contracheque de março, estão garantidos, pois, os nossos 28,86%.

A sua característica de presidir a Adufmat em parceria harmônica com outros docentes com visível prática democrática fê-lo legar ao ANDES-SN, em janeiro deste ano, um dos congressos nacionais melhores organizados por nossa entidade nacional. Participei ativamente na organização desse evento. De docentes do Brasil inteiro, só ouvimos considerações positivas.

Mas além do professor Reginaldo Araújo, a CHAPA 1 nos brinda com nomes de tirar o chapéu, política e academicamente. Não me lembro de nenhuma composição de chapa tão coesa e tão forte para a luta diária da Adufmat. De nenhum dos componentes há da CHAPA 1 há algo que possa desabonar eventual atuação sindical. Cada qual a seu modo tem demonstrado presença no cotidiano da Adufmat, seja no campus de Cuiabá/Várzea Grande, seja nos campi de Sinop e Pontal do Araguaia.

Na composição da CHAPA 1, há importante mescla entre docentes mais antigos e mais recentes na Instituição. Mais: há a presença de docentes que atuam no interior do Estado: Sinop e Pontal do Araguaia. Sindicalmente, isso é muito relevante. Pela mescla, há a garantia do diálogo respeitoso entre diferentes gerações. Pela presença das professoras Onice Dall’Oglio (de Sinop) e Adriana Queiros (de Pontal do Araguaia), aprovadas nos últimos concursos da Instituição, mantém-se a ponte necessária entre o conjunto dos professores. Quando temos representantes do interior, o diálogo é sempre mais rápido e qualificado.

Dos demais componentes (professores Maelison Neves, Alair Silveira, José Ricardo e Maria Adenir) só respeito e muita admiração. Com a maioria desses, tenho tido a oportunidade de aprender sempre por meio dos qualificados debates que todos ajudam a estabelecer no cotidiano da Adufmat. A maioria, invariavelmente, está sempre à frente da organização das mais variadas atividades em nosso sindicato. Está sempre voltada para a verdadeira valorização de nossa categoria.

Nesse sentido, durante a última greve, esse valioso conjunto de colegas da Adufmat foi protagonista dos melhores debates que nossa entidade já realizou sobre as seguintes contrarreformas: da Previdência; Política; Trabalhista e Sindical; Tributária; Universitária e do Estado.

Enfim, resumidamente, votarei na CHAPA 1 por ter a certeza de que:

  1. poderei continuar tendo um sindicato AUTÔNOMO, DEMOCRÁTICO E COMBATIVO;
  2. continuarei a ter um sindicato preocupado com o fortalecimento das relações entre os campi da UFMT;
  3. terei a certeza de poder ajudar os componentes da CHAPA 1 a continuar lutando pela “Universidade pública, gratuita, de qualidade, laica e socialmente referenciada;
  4. terei diretores empenhados diuturnamente na LUTA pela DEMOCRACIA interna na UFMT; por consequência, terei a certeza de que não faltará empenho para a qualificação de nossas relações de trabalho, como a necessária e incisiva luta para defender a Resolução Alternativa à Resolução 158 no CONSEPE;
  5. no plano da gestão sindical, não terei nenhuma dúvida de que os componentes da CHAPA 1 garantirão a transparência política, administrativa e financeira da ADUFMAT, como já é feita na atual gestão de Reginaldo Araújo. Qualquer coisa que for dita em sentido contrário, durante esta campanha, faz parte das maledicências costumeiras de alguns colegas, cuja reputação é no mínimo duvidosa;
  6. os colegas já aposentados, dentre outras, terão a intransigente defesa de isonomia salarial com os docentes que ainda não se aposentaram;
  7. a importante solidariedade classista permanecerá em nosso meio, destacando para isso, ações conjuntas com outras entidades sindicais.

 

Mas se esses são alguns dos motivos pelos quais votarei na CHAPA 1, passarei agora a dizer alguns dos porquês não votaria na Chapa 2.

Começo também pelo estranho título dessa chapa: “Inovação e Inclusão em Foco”. Digo “estranho” para não dizer “perigoso”. Esse título aponta indícios de riscos à vista. Seja como for, indago: inovar em quê?

Seria essa inovação alguma intenção de transformar a Adufmat em um tipo de banco que pretendesse salvar as finanças de alguns sindicalizados com dificuldades econômicas, como parece sugerir o item 10, do “Programa” dessa chapa: “Buscar novas alternativas de apoio e crédito aos docentes”?

Se for isso, e caso uma chapa desse tipo à lá associação de cooperados vencesse as eleições, quem fecharia as portas por asfixia financeira, em pouco tempo, seria a própria ADUFMAT.

Mesmo compreendendo a situação de quem se encontra em dificuldades econômicas, digo: nossa entidade não é banco; nossos diretores não podem fazer papel de agentes do sistema. Sequer podem – ou mesmo têm condições concretas – servir de ponte para isso. No mais, o Regimento da ADUFMAT e o Estatuto do ANDES-SN, do qual somos filiados, impedem e continuarão a impedir quaisquer movimentos nesse sentido. Portanto, não se iludam. Isso é propaganda enganosa e sindicalmente irresponsável.

Seguindo, continuo a indagar: de que tipo de inclusão a Chapa 2 se refere?

Até onde sei, não participa das AG da Adufmat o professor que deliberadamente não quer, como p, ex., a ampla maioria dos componentes da Chapa 2. Raramente um ou outro é visto em AG de nosso Sindicato. A candidata à Vice-Presidente, p. ex., em mais de três décadas de UFMT, não participou mais do que três ou quatro AG; se tanto. Tenho cá pra mim que estou sendo até generoso nessa conta.

Logo, quando lá está, só não usa a voz a que tem direito o sindicalizado que não quer se envolver mais diretamente nos debates, que, aliás, são o que sustentam um sindicato. Aqui é bom lembrar: a Adufmat deixou de ser associação para ser um sindicato logo após a promulgação da atual Constituição.

Infelizmente, não há na UFMT nenhum outro espaço mais democrático do que as AG da Adufmat. Ali, discutimos tudo e com todos; e, claro, com muita vibração política. Agora, a vida democrática tem regras e exige preparo político. Quem não estuda e nem é democrático não se envolve e nem se reconhece nesse riquíssimo universo, que é de todos e para todos nós. Eu nunca abri mão desse espaço. Desde que me tornei professor da UFMT, sem nunca fragilizar ou comprometer meu rigor acadêmico, sempre me reconheci na militância, aprendendo com colegas mais experientes e livros pertinentes. Por isso, aprendi a saber quem é quem no cotidiano da Adufmat.

Portanto, pergunto: quem essa chapa pretende incluir?

Todos os que querem, repito, já estão incluídos. Nesse sentido, as AG de greves são exemplos cabais disso. As diferentes posições políticas e visões sindicais se confrontam sempre em tais momentos. Do forte confronto político, todos os sindicalizados presentes têm definido tudo no voto. Por questões óbvias e por conta de decisão judicial, os não-sindicalizados não votam. Mas isso é opção do docente. No mais, a qualquer momento, todo professor da UFMT, inclusive os substitutos, podem se sindicalizar e ajudar no fortalecimento da Adufmat. Na essência, o título da Chapa 2 mostra, com clareza, a limitação política e o abandono por parte de seus componentes do espaço mais democrático da UFMT: as AG da ADUFMAT.

Ao explicitar essa limitação e esse distanciamento da vida democrática de nossa Instituição e de nossa Entidade Sindical, a Chapa 2 se torna um risco para o cotidiano da ADUFMAT, e justamente quando mais precisamos de sindicato combativo e não de colegas sem o menor preparo – político e emocional – para essa luta.

Se até aqui falei do título e do distanciamento político-sindical que a maioria dos componentes da Chapa 2 apresenta, agora, passo a falar da carta “Como vai professor?”, que esse grupo distribuiu aos eleitores.

De modo geral, digo que alguns enunciados constantes nessa Carta da Chapa 2 são absolutamente vazios de conteúdo, quando não faltam com a verdade. Nesse sentido, destaco já na abertura do texto a afirmação de que “A Adufmat-SSind constitui-se como uma instituição (sic., pois se trata de uma entidade de classe e não de instituição) autônoma, democrática e de luta docente...”.

Pergunto: luta de quem?

Pelo histórico que acabo de apresentar, JAMAIS dos colegas da Chapa 2. Os docentes que de fato estabelecem a luta no cotidiano da ADUFMAT estão indiscutivelmente na CHAPA 1. Portanto, os colegas da Chapa 2, com exceção de dois dos componentes, não têm lastro algum para falar de luta. E olhem que a “luta” desses dois não é classista: é focalizada; por isso, no plano político, é invariavelmente equivocada. A maioria dos componentes da Chapa 2 mal deve saber onde fica a sede de nosso sindicato.

No segundo parágrafo desse mesmo texto empolado, lemos sobre a importância da defesa da educação, vista como o “...maior patrimônio da humanidade”.

Pergunto novamente: como pode essa chapa dizer isso, tendo como membros colegas que desrespeitaram suas atividades acadêmicas durante todo o tempo de vida ativa em seus departamentos?

Indago isso porque sou do departamento (Letras/IL) de um dos componentes dessa chapa. A referida candidata pela Chapa 2 sequer foi aceita para ser professora voluntária em nosso espaço de trabalho. Sua solicitação para trabalhar voluntariamente em Letras, assim que sua aposentadoria foi deferida, não obteve um voto sequer dos presentes em uma concorrida reunião de departamento; e olhem que estávamos precisando de docentes em sua área! Será por quê?

Mais: um outro componente da Chapa 2 também não tem pavimento para falar de qualidade no ensino. Motivo: na condição de um estudante do Curso de Ciências Sociais na UFMT, ao invés de aproveitar as leituras acadêmicas que lhes eram solicitadas, resolveu processar uma de suas docentes, reconhecida e respeitada exatamente por sua seriedade e pelo seu rigor acadêmico. Por contingências, essa professora que sofrera processo é a candidata à Diretoria Tesoureira pela CHAPA 1. Pela proximidade que tenho com essa professora processada, afirmo se tratar de uma das colegas mais dignas que a educação poderia ter em nosso Estado. Portanto, esse discurso da Chapa 2 é absolutamente estéril. Não tem lastro algum.  

Outro destaque da Carta da Chapa 2 que faço está no 5° par., 3ª linha, onde é dito que “(...) A revolução começará no nosso lar sindical!”

Aqui, confesso ter levado um susto. Embora eu tenha uma militância de mais de 30 anos, e tenha sido inclusive um dos presidentes da Adufmat, nunca vi o espaço sindical como meu lar. Sempre o vi e vivi como a arena política democrática dos melhores debates dos quais já pude participar. Assim, tenho aprendido muito com vários colegas. Alguns deles estão na CHAPA 1, obviamente.

Em minha opinião, quando tomamos uma entidade como se fosse o “nosso lar”, podemos dar espaço para pessoas usarem como quiser o nosso sindicato. Aliás, nesse sentido, repito, pelo menos uma candidata da Chapa 2 tem larga experiência: ela usou, por décadas, as dependências de Letras e do IL como se fossem espaços privados seus, dando ali aulas particulares para vestibulandos e/ou “concurseiros” vários. As provas e testemunhas humanas dessa afirmação são tão abundantes quanto explícitas. Aliás, essa prática foi só um dos motivos pelos quais os docentes de Letras não quiseram mais tê-la nem mesmo como professora voluntária. Esse tipo de colega serve para a Adufmat?

O último destaque desse texto está no meio do parágrafo seguinte: “...Medidas para a oxigenação e construção de uma democracia virtuosa no sindicato serão implementadas (...)”.

O conceito de “democracia virtuosa” está intimamente ligado à noção de moral, que se cola à lógica de certas religiões. Assim, necessária e paradoxalmente, não se aproxima da ética no campo político. Infelizmente, como a prática da democracia não é hábito de todos, a Chapa 2 resolveu inovar nisso. Espero que tal inovação não obtenha apoio, pois isso não nos qualifica para a árdua luta que temos pela frente.

Termino, pois, conclamando o voto de todos à CHAPA 1, que realmente é de LUTA, AUTÔNOMA E DEMOCRÁTICA. Não temos tempo para aventuras. Não podemos dar guarida a aventureiros sindicais.

Saudações!

Roberto Boaventura da Silva Sá

Dr. em Ciência da Comunicação/USP

Professor de Letras e Diretor do IL/UFMT