Roberto Boaventura da Silva Sá*
Como já disse no artigo anterior, participei em janeiro de mais um Congresso do Sindicato Nacional dos Docentes das Universidades (ANDES-SN), realizado em Manaus-AM. Já de início, foi solicitado que os professores que estiveram no congresso realizado no Amazonas, em 1993, se apresentassem à organização. Eu era um deles!
Motivo da “convocação”: os docentes seriam entrevistados; auxiliariam na retrospectiva dessas duas décadas. Objetivamente, os jornalistas queriam saber o que mudara de lá para cá. Para responder, tive de pensar um pouco; e aos poucos fui dizendo que, de positivo, pouco havia mudado. Continuamos a lutar pelas mesmas demandas de 93, 92... Continuamos sem ter a carreira por nós almejada. Não temos as gratificações incorporadas ao vencimento básico, que é um dos piores dentre as carreiras do serviço federal. O de um professor – doutor – já nos últimos níveis da atual carreira é de 2.758,25. Isso tudo justifica a continuidade da luta.
Depois, recordei-me de algo que tem sido central no cotidiano da sociedade, mas com ênfase no das nas universidades: o império do individualismo. Logo, lembrei-me de meu primeiro congresso do ANDES: em Londrina-PR, realizado logo após a vitória de Collor à presidência da República.
De lá, recordo dos discursos proferidos por valiosos professores. As intervenções sobre a conjuntura soavam-me como previsões apocalípticas. Diziam que Collor imporia o programa neoliberal; que tal programa estruturava-se sob algumas lógicas, dentre elas, a supremacia da individualidade. Ainda jovem, inexperiente, custava-me crer que aquilo pudesse ser verdadeiro. Se fosse, eu pensava, seria o fim da universidade.
Voltei intrigado, esperando pelo futuro, mas lutando contra aquele “vaticínio”. Enquanto o futuro não vinha, ou vinha devagar para não me desiludir de vez, fui aproveitando o que a universidade oferecia de melhor; e ela oferecia muitas coisas boas. Dentre tantas, a convivência acadêmica salutar com os colegas. Após as calorosas, mas sempre respeitosas, reuniões de departamento, o cafezinho na cantina do Instituto era sagrado. Conversávamos. Ríamos. Vivíamos. Éramos seis, dez, vinte... Éramos um conjunto! Éramos até felizes... E sabíamos disso.
Mas o tempo – implacável e soberano de nossas fugazes vidas – não pára; como não parara a engrenagem que ainda faz mover o destruidor programa neoliberal. E aquilo que para mim, um dia, parecera apocalíptico, hoje, é fato; e doloroso. Hoje, somos o eu. Somos o nada. Somos cada um por si correndo contra o tempo. Na corrida enlouquecida, já há enlouquecidos. As doenças precoces nos rondam sem dar tréguas.
Coletivamente, somos autômatos. Somos máquinas: extensão de computadores. Perdemos a capacidade da crítica. Nossa vontade própria está prestes a morrer; já está na U.T.I. Alguns diabólicos deuses – os órgãos financiadores de pesquisas – nos dão o comando. O individualismo está em alta. O mercado prevalece. Mal cumprimentamos os colegas; aliás, muitos, nem sabemos que são nossos colegas. Os contratos temporários e precarizados impedem os contatos humanos e profissionais.
Em meio a isso tudo, prédios novos e malfeitos vão sendo construídos aqui e acolá. Muitos deles, vazios; afinal, com a expansão da rede federal, socialmente irresponsável, a sobrecarga das atividades acadêmicas é chocante, é mortal. As novas contratações são pífias perto das necessidades.
Enfim, isso tudo é um convite à morte precoce dos docentes; pode ser o passaporte para a morte da própria universidade.
PS: 1) dedico este artigo aos meus primeiros e inesquecíveis colegas dos Departamentos de Letras do Médio Araguaia e do Instituto de Linguagens, mas com especial carinho, por conta de tantas e boas lembranças, à Hilda, à Rosa, ao Cacildo, Celeste, Marly, ao Pimentel/Avoante do Cariri, infelizmente já falecido/assassinado (?), a minha sempre chefe e querida amiga Elza, ao Querubim, ao Figueiredo, Suca, Delcinha, Thérèse, Marie Annik, Tupiná... Saudades de todos;
2) Faço deste artigo, assim como do anterior, o conjunto de meus relatórios de viagem, como um dos delegados da Adufmat ao Congresso do Andes, realizado em Manaus.
*Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT